História Confiança Cega - Capítulo 2


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Palavras 4.444
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Hentai, Literatura Feminina, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Sobrenatural
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sadomasoquismo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Olá! Estou de volta com essa história. Demorei pois estava atualizando minha fanfic sobre Irmão à Obra.
Espero que gostem! ;)

Capítulo 2 - Prólogo - Parte 2


Entrei em casa e fechei a porta atrás de mim. Inspirei fundo, expirando lentamente em seguida pela boca para tentar acalmar a minha respiração. Jamais imaginaria que o Nathan se sentisse assim sobre mim. Ele sempre foi o meu segundo irmão mais velho. Sempre cuidando de mim e me ensinando sobre as situações da vida. O meu coração estava descompassado ainda e eu sentia os meus lábios formigando. Levantei a minha mão direita e toquei neles, sentindo-os quentes. A minha mão tremia um pouco pois fazia muito tempo que alguém tinha me beijado com tanta delicadeza e ternura. Muito menos alguém que eu considerava como um irmão.

Quando eu pensava no Nate, me vinha à mente um urso de pelúcia louro, grande e fofo. Um bom amigo que nos confortava nas piores horas e ria conosco nas melhores. Nunca tinha olhado para ele e imaginado um namorado - eu nunca tinha olhado para ele dessa forma, ponto. Por isso eu não sabia o que pensar sobre isso.

Meu pai apareceu de repente no topo das escadas interrompendo a minha linha de raciocínio. Ele usava o seu terno bem alinhado e estava segurando uma mala numa das mãos. Pelo visto ele já estava pronto para sair. Abaixei a minha mão dos meus lábios depressa para ele não ver e desconfiar de algum modo sobre o que tinha acabado de acontecer. O meu pai poderia não ser precavido mas era muito perspicaz quando queria.

- Heloise, o que você ainda está fazendo aí que não foi se arrumar? Vamos acabar ficando presos no trânsito. Ou pior, a sua mãe vai ficar uma fera se chegarmos atrasados lá. - disse ele descendo as escadas. Ele fingiu estremecer de medo imaginando o tamanho da ferocidade da minha mãe. Ri alto da sua brincadeira. Nós dois sabíamos que ela era brava só da boca para fora, por dentro ela era um marshmallow gigante: fofa e doce. Ao ouvir minha risada, ele começou a rir também. Rimos juntos naquele momento, nos sentindo felizes e leves.

- O Nathan já foi? - perguntou ele olhando ao redor da sala. Corei e tentei fazer minha melhor expressão neutra. Não conseguia imaginar a sua reação se soubesse que o Nate acabou de me beijar. Balancei a cabeça confirmando. Eu não confiava na minha voz para falar sobre ele agora.

- Mas falando sério, Ise. Vá logo se arrumar para a gente poder sair. Não quero ficar preso no trânsito. - falou ele parando de rir e colocando a sua tão conhecida "expressão de pai falando sério". Não se discutia quando ele usava essa expressão, por isso me desgrudei da porta da frente e subi as escadas correndo indo em direção ao meu quarto. Eu tinha que me arrumar depressa pois não queria ficar presa no trânsito também.

***


Entrei no meu quarto praticamente correndo. Não queria ser a responsável por nos atrasar nem por minha mãe ficar brava com o meu pai. Tirei a minha mala de cima do meu guarda-roupa e a joguei em cima da cama sem qualquer delicadeza. Eu estava apressada. De repente ouvi o bipe de descarregamento do meu celular. Droga! Eu tinha esquecido de deixá-lo carregando ontem a noite. Eu precisava dele carregado pois iria tirar fotos e me comunicar com a minha mãe. E precisava dele também para olhar o GPS no caso da gente se perder, o que não era impossível levando em conta quem estaria dirigindo. Meu pai dirigia maravilhosamente bem mas ele tinha uma mania ruim de tentar achar atalhos que no final das contas só fazia o caminho ficar mais longo.

Abri a gaveta da minha escrivaninha e tirei de lá o carregador. Decidi deixar o celular carregando em cima da cômoda enquanto eu arrumava a minha mala e tomava um banho rápido. Talvez assim desse para ele sobreviver às duas horas e meia da viagem.

Eu estava levando alguns pares de roupas por precaução, na verdade. Nós iríamos voltar para casa no dia 2 de janeiro, ou seja, iríamos ficar apenas um dia na casa de vovó. Mas eu tinha aprendido com a minha mãe a ser sempre prevenida e levar tudo o que eu poderia precisar. Nunca se sabe o que poderia acontecer.

Depois de colocar tudo na mala, incluindo o meu biquíni rosa e o protetor solar pois na casa da minha avó tinha uma piscina, fui tomar banho. Peguei o meu vestido favorito. Ele era curto, branco e com babados na saia. Eu usava ele com um cinto preto demarcando a minha cintura fina. Eu adorava-o mas só o usava em ocasiões especiais, como a de hoje. Sorri animada.

Tomei um banho muito relaxante fisicamente porém minha mente se recusava a relaxar, sempre voltando a situação anterior com o Nathan. Pelo visto eu não iria conseguir colocar esse assunto para escanteio como eu pensava. Suspirei resignada e brava. O Nathan realmente precisava fazer isso hoje? Eu me sentia completamente distraída sem conseguir me focar verdadeiramente em algo por causa dele.

Saí do banheiro enrolada numa toalha. Peguei o meu vestido que tinha deixado em cima da cama e o vesti, em seguida coloquei o cinto e calcei um salto alto. Engraçado como, mesmo usando salto alto, eu conseguia continuar mais baixa do que muitas pessoas por aí. Eu estava tentando domar os meus cachos ruivos quando ouvi o meu pai gritar lá do térreo.

- Heloise a sua mãe ligou de novo! Eu coloquei a culpa pelo atraso em você! - gritou ele e, daqui de cima, consegui ouvir a sua risada. Balancei a cabeça e me encontrei rindo da sua brincadeira. Meu pai sempre foi assim, brincalhão. Eu tinha aprendido a ser assim também com ele. Muito da minha personalidade vinha dele e da minha mãe.

Joguei a toalha molhada no cesto de roupas no banheiro, fechei a minha mala e sai do meu quarto do mesmo jeito que entrei: praticamente correndo. Desci as escadas o mais rápido que eu conseguia descer carregando uma mala pesada e usando salto alto. Meu pai estava sentado na sua poltrona na sala lendo um jornal enquanto me esperava. No tempo que levei para chegar ao primeiro degrau e colocar minha mala em frente à porta, ele olhou para o seu relógio de pulso três vezes. Revirei os olhos. Agora ele estava apressado. Mas antes quando eu disse que era para sairmos cedo, ele nem levou a minha sugestão em consideração. Cruzei os braços indignada.

- Vamos, pai. Já estou pronta. - falei para ele.

- Finalmente, filha! Já são seis e meia. Só devemos chegar lá às nove horas da noite. Qualquer atraso pode fazer nós dois passarmos a virada dentro do carro. E a sua mãe não ficaria nada feliz com isso, acredite! - disse ele se levantando e deixando o jornal na mesinha centro em frente a ele.

Depois dele me ajudar a colocar a minha bagagem na mala do carro, eu tranquei a casa e iniciamos a nossa viagem. Austin nos esperava.

***

A nossa viagem começou bastante tranquila e sem imprevistos. A quantidade de carros nas ruas era baixa. Talvez ainda não fosse o horário de pico. Ao passar de um bairro para outro notei que as casas deixavam de estarem decoradas para o Natal. Pelo visto o meu bairro era muito festivo em comparação a outros. Suspirei e voltei a minha atenção para a estrada à minha frente. Liguei o rádio do carro querendo animar aquela viagem que estava muito monótona. O meu pai dirigia silenciosamente o carro olhando através do para-brisas, bastante concentrado na estrada e nos outros carros para iniciar uma conversa comigo. Deixei-o se concentrar, não queria atrapalhá-lo de alguma forma.

Meu pai sempre dirigia assim silenciosamente mesmo. Eu achava que ele tinha medo de se distrair e bater com o carro em alguma árvore ou algum poste. Lá em casa, a minha mãe era a mais experiente com o volante, o meu pai só o pegava quando ela não podia ou não queria dirigir. E esse foi outro dos motivos que me fez decidir ir hoje com ele e não ontem com a minha mãe e o meu irmão. Meu pai podia não demonstrar mas eu sabia que ele ficava nervoso com viagens longas de carro - era o mesmo nervosismo que eu tinha com a viagem de avião. Já tinha feito antes, sabia que era seguro, mas o nervosismo sempre estava presente. Eu acreditava que o medo irracional era algo que herdei dele também.

Depois de uns vinte minutos de viagem silenciosa eu não estava aguentando mais. Eu era hiperativa por isso não conseguia ficar parada no mesmo lugar por muito tempo. Era quase uma tortura. Comecei mexendo no porta luvas, fiquei vasculhando as coisas ali. Depois mexi no rádio tentando encontrar uma estação boa - o problema era que todas elas eram boas, por isso ficava voltando de uma a outra para conseguir escolher a melhor.

Eu sabia que isso era irritante e que causava desconcentração, mas eu não conseguia evitar fazer isso. Fazer algo. Ficar parada não era o meu forte.

- Ise, já é a terceira vez que você passa por essa mesma estação no rádio. Porque você não joga um pouco no seu celular? Sei que a viagem é longa e cansativa. Isso vai distrair você. - falou ele de forma neutra, concentrada. Sua testa estava franzida e os seus olhos não se desgrudavam da estrada ao falar comigo. Ele me olhou rapidinho de lado e sorriu carinhosamente voltando a sua atenção em seguida à estrada a sua frente. - Daqui a pouco vou precisar da sua ajuda como co-piloto querida.

Ele estava certo. Esses joguinhos de celular sempre acalmaram a minha hiperatividade. Era por isso que eu tinha vários instalados. Sorri levemente para mim mesma me virando no banco do carona para pegar a minha bolsa no banco de trás. Mas assim que a minha mão tocou no zíper dela, o meu sorriso morreu. A compreensão afundou como uma pedra num lago na minha mente. A imagem do meu quarto tomou forma na minha cabeça. Mas precisamente a imagem da minha cômoda. A mesma cômoda onde deixei mais cedo o meu celular em cima, conectado à tomada através do carregador.

 

***

 

Lutei com a minha bolsa em busca da chave de casa. Depois de quase jogar todo o conteúdo dela no chão da varanda com raiva, encontrei o molho de chaves que estava procurando. Joguei a bolsa de lado e abri a porta num rompante. Como eu fui esquecer o meu celular carregando em casa? Eu nunca tinha esquecido ele antes. Ele era como um terceiro braço meu, era uma parte de mim quase costurada à minha pele.

Subi correndo as escadas e entrei como um furacão no meu quarto. E lá estava ele no mesmo lugar, em toda a sua inocência, carregando. Tinha cinco chamadas perdidas da minha mãe. Ela devia estar preocupada já. O celular do meu pai estava inutilizado com vírus por isso o meu era a única forma de comunicação fora de casa. Eu não podia ter esquecido ele, mas esqueci.

Era por isso que mesmo estando a mais de trinta minutos de distância daqui, o meu pai voltou para pegá-lo. Ele sabia que a minha mãe enlouqueceria se não conseguisse falar conosco por todo o tempo da viagem. Se não acontecesse mais nenhuma interferência do destino, nós chegaríamos em Austin às dez e meia da noite. Uma hora e meia mais tarde e mais perto da meia-noite. Talvez passássemos a virada do ano na estrada. E tudo isso graças ao meu esquecimento. Me bati na testa mentalmente.

- Celular idiota! Só não te jogo na parede porque eu preciso de você! - falei brava com aquele objeto inanimado. Não adiantaria quebra-lo depois de tanto tempo gasto voltando para o pegar. E ele não tinha culpa do meu esquecimento, é claro.

O desconectei da tomada e voltei descendo apressada as escadas. Saí pela porta, a tranquei de novo e peguei a minha bolsa que eu tinha jogado no chão na minha pressa. Joguei o celular e as chaves lá dentro indo em direção ao carro do meu pai no outro lado da rua. A rua estava lotada de carros estacionados. Os donos deles provavelmente em alguma festa numa das casas da minha rua. Tinha várias casas iluminadas e com um som alto ecoando delas.

Andei rápido mas sem correr pela calçada. Estava tão focada em não perder mais tempo que esbarrei sem querer em alguém. Alguém alto e forte. A minha bolsa caiu no chão com o impacto e eu não cai também graças a dois braços fortes que me cercaram e me impediram de cair no chão. Fiquei um pouco desorientada com o esbarrão mas rapidamente me endireitei. Levantei a cabeça com um pedido de desculpas na ponta da língua e olhei para a pessoa no qual eu tinha esbarrado. Arregalei os olhos na incrível coincidência. Era o Nathan!

Fiquei tensa automaticamente lembrando do seu beijo mais cedo e dos nossos corpos estarem tão perto um do outro nesse momento. Inconscientemente olhei para os seus lábios rosados e corei. O ruim de ser ruiva é que era impossível esconder um rubor pois o meu rosto se transformava em uma beterraba.

- Ise! Me desculpe! - disse ele me soltando e se abaixando para pegar a minha bolsa. Agradeci a ele e verifiquei se o celular não tinha caído no chão. Não queria perdê-lo depois de tanto trabalho. E isso me lembrava que eu estava atrasada e não tinha tempo para conversar com ele. O meu pai já deveria estar ficando impaciente no carro com a minha demora. - Desistiu de ir para a casa da sua avó? Se quiser pode passar essa noite comigo. Eu te faço companhia. - disse ele me olhando de cima a baixo em seguida surpreso. - Você está linda!

Corei novamente só que dessa vez mais intensamente, do fio de cabelo ao dedão do pé. Eu não sabia de onde o Nate tirou essas ideias já que ele sempre me tratou como uma irmã. Eu realmente não entendia a sua mudança de atitude para comigo. Suspirei resignada e dei de ombros. Eu não tinha tempo agora para tentar resolver isso. Quando eu estivesse de volta em casa, nós dois iríamos ter uma conversa séria e resolver essa pendencia.

- Nate, desculpe-me, mas eu preciso ir. Meu pai está me esperando no carro. A gente só voltou pois esqueci isso, acredita? - falei e levantei o meu celular, o objeto de todo o problema. Ele olhou do meu celular para mim e começou a rir. - Continue, ria bastante de mim! - falei fazendo um biquinho zangado e cruzando os braços. Eu sabia que estava agindo como uma criança mimada mas não conseguia evitar. Com o Nathan eu não sabia ser outra coisa além de mim mesma.

De repente a sua risada parou e ele me puxou e me apertou contra o seu corpo alto. Minha respiração saiu numa única lufada de ar com o impacto contra o seu peito e eu olhei para cima, para os seus olhos azuis. Era o mesmo que olhar para o céu durante a alvorada. Porém eu sabia que os seus cílios dourados davam a impressão das suas íris serem mais claras do que realmente eram.

- Ise, eu não consigo parar de pensar em você desde aquele beijo. Fica aqui comigo hoje. Por favor! - implorou ele de repente apertando os seus braços ao meu redor como se não quisesse me soltar. Coloquei as minhas duas mãos nos seus ombros impedindo-o de avançar mais do que ele já tinha avançado.

- Eu preciso ir Nate. Eu já combinei com os meus avós que iria e o meu pai está... - comecei a falar porém fui interrompida justamente por meu pai.

- O que está acontecendo aqui? - perguntou ele a uma curta distância de nós dois. Nós nos assustamos com a sua voz e nos separamos como se tivéssemos sido pegos roubando ou fazendo algo errado. Era só um abraço, tecnicamente, e não tinha nada demais nisso. Mas a teoria sempre foi mais simples do que a prática.

- Eu estava correndo indo para o carro e esbarrei no Nate, pai. Ele me segurou, me impedindo de cair de cara no chão. Não foi Nate? - falei usando a minha melhor expressão de inocência. Eu tinha dito a verdade afinal de contas. Olhei para o Nathan esperando ele confirmar a minha história. Vamos Nate, isso não era hora de pensar demais, tentei expressar isso no meu olhar de advertência dirigido a ele.

- Foi sim, senhor. Ela estava correndo parecia que iria perder o avião. - falou ele sorrindo.

- O que não é mentira Nate. Ela realmente perdeu o avião. - falou o meu pai para ele e os dois começaram a rir de mim como se eu não estivesse mais presente ali. Pigarreei para chamar a atenção deles para mim. Meu pai me olhou e parou de rir aos poucos. O Nathan também porém seus olhos tinham um brilho divertido neles. Ele estava se divertindo as minhas custas. Estreitei os meus olhos para ele. 

- Foi bom te ver de novo Nate. Mas realmente temos que ir agora. Vamos querida! - disse meu pai andando em direção ao carro estacionado no início da rua e me dando tempo para me despedir de Nathan a sós.

- Vou lá Nate. Quando eu voltar a gente conversa melhor está certo? - falei corajosamente olhando nos olhos dele e corando um pouco. Ele fez que sim com a cabeça e me abraçou apertado. Meu corpo pequeno cabia direitinho no dele. Seus braços apertando minha cintura e sua cabeça apoiada em cima da minha. Eu me sentia protegida. Era como se nada pudesse dar errado ou me machucar quando ele me abraçava esse jeito.

Ele beijou o topo da minha cabeça e se afastou aos poucos. Eu olhei para cima e notei seus lábios se aproximando dos meus. Fiquei tensa de novo e esperei. Eu não queria magoá-lo dizendo que não fizesse aquilo. Por isso o deixei me beijar delicadamente por um tempo antes de me afastar. Sorri para ele de forma um pouco tensa e acenei me despedindo.

- Se cuida, Ise. Toma cuidado está bem? Lembra de me avisar quando chegar em Austin. - disse ele com uma expressão preocupada no seu rosto.

- Eu mando mensagem quando chegar lá. - prometi acenando novamente para ele e corri em direção ao carro.

 

***

 

Abri a porta do carona me jogando no banco da frente e fechando a porta em seguida. Verifiquei se o meu celular não tinha caído da bolsa na minha corrida. Ele estava lá. Respirei fundo relaxando os ombros.

- Meu celular está aqui. Podemos ir agora, pai. - disse eu segurando o celular e jogando a minha bolsa no banco de trás. Olhei pela janela e vi o Nathan acenando para nós dois. Ele estava tão bonito com a sua roupa de festa e o seu cabelo louro penteado com gel. Com a minha rua como plano de fundo, o Nate compunha uma linda imagem. Sorri carinhosamente para ele e acenei de volta.

Meu pai deu a partida do carro e iniciamos novamente a viagem até Austin. Duas horas e meia para chegar lá. E já eram oito e quinze da noite.

A viagem começou bastante silenciosa. Mais do que a anterior. Era um silêncio tenso. Eu estava com medo de perguntar porque meu pai ficou tão tenso de repente. E se eu não gostasse da resposta dele?

Estava pensando nos prós e contras de perguntar o porquê dele estar daquele jeito quando o meu celular vibrou na minha mão. Olhei para o seu visor e vi que era a minha mãe ligando novamente. Toquei na tela e atendi a ligação.

- Oi mamãe! - comecei dizendo porém ela não me deixou continuar falando e me cortou.

- Não me venha com 'mamãe', Heloise! Porque não me atendeu antes? Você tem ideia de como eu estava preocupada? Da próxima vez vamos todos juntos. Nada de viagens separadas. - disse ela apressadamente e continuou falando sem parar sobre como era ruim ficar sem ter noticias e como eu era distraída por não ter atendido antes. Ela não me deixou falar nada. Sempre que eu tentava falar, ela me cortava. Suspirei e esperei ela dizer tudo o que tinha para dizer. De repente, ela fez uma pausa. - Vocês já estão chegando? - perguntou ela após uma grande pausa no seu discurso. Sorri para a inocência da minha mãe em achar que estávamos perto de Austin.

- Estamos perto sim, perto de casa. - não consegui evitar fazer esse comentário nem rir baixinho com a minha piada inoportuna. A gente ainda estava a duas horas e quinze minutos de lá.

- Como assim perto de casa?! O seu pai me avisou de seis e meia que estava saindo. Já são oito e meia. Era para vocês estarem a trinta minutos daqui. - falou ela brava. Ela estava bastante brava mesmo pelo visto. - Eu quero falar com o seu pai agora! Passe o celular para ele! - demandou ela baixinho. Quanto mais baixo a minha mãe falava mas perigoso era.

Olhei para o meu pai e ele estava concentrado na estrada a sua frente. Mantive o celular apoiado no meu colo e ativei o viva voz para ele poder falar com ela.

- Olá minha querida! - o meu pai falou de forma carinhosa e inocente. Ele estava tentando se safar da ira dela sendo romântico. Ri baixinho. Ele olhou rapidamente para mim ao ouvir a minha risada e piscou conspiratoriamente.

- Não me venha com 'querida'. Vocês dois são muito espertinhos tentando se safar de um problema. Que história é essa de vocês ainda estarem perto de casa? - o meu pai olhou para mim pensativamente. Parecia que ele estava tentando decidir o que falar.

- Nós acabamos nos atrasando querida. Desculpe! Mas eu vou tentar chegar aí o mais rápido possível. - falou ele numa voz doce omitindo o verdadeiro motivo de nos atrasarmos. Notei que ele não queria que minha mãe ficasse brava comigo hoje. Ela sempre se derretia quando o meu pai a chamava de querida. Revirei os olhos. - Eu estou com saudades meu bem! Quando eu chegar aí vou te dar um abraço bem forte. E outras coisas a mais. - ele tinha um sorriso safado no rosto.

- Argh, pai! Me poupe dos detalhes! - falei alto, tampando os ouvidos. Os dois gargalharam me fazendo rir junto com eles.

- Eu te amo querido! Tenha cuidado! Daqui a uma hora eu ligo de novo. - falou a minha mãe se despedindo de mim em seguida e encerrando a ligação. É claro que ela iria ligar depois pois sempre se preocupava com a gente.

 

***

 

A partir daí a viagem correu bastante tranquila. Depois da ligação da minha mãe, a tensão que se notava no meu pai antes não estava mais presente agora. Ele estava mais relaxado e dirigia depressa tentando recuperar algum tempo perdido com o retorno para casa. Conversamos bastante sobre vários assuntos. Falamos sobre a universidade; o seu trabalho como professor; chegamos até a fofocar da vizinha amante de gatos.

Até que chegamos no assunto sobre a mãe do Nathan e, consequentemente, sobre o próprio Nathan. Tentei desconversar sem levantar suspeitas. E para a minha sorte, minha mãe ligou novamente nesse exato momento, me salvando desse assunto. Já tinha se passado uma hora?, pensei comigo mesma. Conversar com o meu pai fazia o tempo passar depressa sem eu notar. Sorri carinhosamente olhando a paisagem passar depressa através da janela do carona.

Depois de falar novamente com a minha mãe, nós retornamos a uma viagem silenciosa. Mas era um silêncio confortável dessa vez. Cada um perdido em seus próprios pensamentos. Estava tudo tranquilo por vários quilômetros a frente até acontecer aquilo.

Foi de repente. O meu pai não esperava nem tinha como ele desviar daquele imenso caminhão correndo em nossa direção naquela curva acentuada. De um lado, uma parede de pinheiros se erguia em direção ao céu. Do outro, um precipício alto onde um riacho corria devagar lá embaixo. A água não conseguiria amortecer a grande queda. No meio um grande caminhão de carga se aproximava depressa de nós fazendo a curva. Senti o meu coração gelar ao notar que ele estava na contra mão desgovernado. Olhei para o meu pai pronta para avisá-lo do caminhão mas ele já tinha o visto. Seus olhos estavam arregalados de terror e, por puro reflexo e instinto, ele virou o volante para a direita, em direção aos pinheiros.

Nosso carro estava com bastante velocidade pois o meu pai tentava se apressar para recuperar o tempo perdido. Os pinheiros estavam no nosso caminho e acabaram recebendo todo aquele impacto da batida. Mas eles eram em maior número e formavam uma espécie de escudo vivo por isso o carro do meu pai saiu perdendo naquela colisão.

Primeiro eu ouvi um som alto inconfundível de metal batendo num obstáculo e sendo amassado. Depois notei as batidas do meu coração acelerado ecoando em meus ouvidos deixando todos os outros sons mais distantes. Depois veio a dor. Uma dor lacerante atrás da minha cabeça que me fazia quase perder a consciência. Senti uma faixa quente e molhada escorrendo pela minha testa e pelo meu couro cabeludo. Toquei na minha nuca e meus dedos voltaram vermelhos vivos. Olhei para baixo e vi o sangue manchando o meu vestido branco e imaculado. Doía se mexer mas fiz força para virar o meu pescoço e olhar para o meu pai.

A minha visão estava nublada, como se uma nuvem de fumaça branca estivesse constantemente na frente de meus olhos. Eu piscava para tentar afastá-la mas parecia que só piorava. Mesmo com a minha visão ficando mais escura a cada momento, eu pude ver a pior imagem da minha vida. As pernas do meu pai estavam esmagadas nas ferragens e da sua testa escorria uma grande faixa de sangue vermelho caindo e manchando a sua calça favorita. Eu podia ver também vários estilhaços de vidro cravados no seu rosto criando sangramentos menores e o seu pescoço estava virado num ângulo nada saudável. Mas essa não era a pior imagem que vi. A pior foi olhar nos doces olhos verdes do meu pai. Olhos esses que estavam abertos e fixos acima da minha cabeça. Olhos sem vida. Essa foi a última imagem que vi antes da minha visão escurecer por completo e eu desmaiar.


Notas Finais


Então, o que acharam?
Me contem pois adoro saber a opinião de vocês.

Fiquem à vontade para comentar e favoritar.
Abraços e até o próximo capítulo dessa história envolvente!


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