História Confortável miséria - Capítulo 1


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Ansiedade, Anti-social, Depressão, Drama, Ficção, Garota, Metafóras, Miséria, Poesias, Sociedade, Tragedia
Visualizações 6
Palavras 1.211
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drabble, Drabs, Drama (Tragédia), Ficção, Mistério, Poesias, Terror e Horror

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Olha só quem está aqui postando estórias curtas de um capítulo só de novo!

Eu estou trabalhando pesado numa estória bem extensa faz um tempo, e eu meio que estava ficando muito presa numa coisa só, tudo que eu imaginava ficava muito igual ou sem emoção, então eu decidi dar uma pausa e escrever isso, é curtinho e singelo, mas significa bastante pra mim, se quem favoritar essa estória puder compartilhar com amigos ou só deixar um comentário mesmo, vai ajudar e muito. <3

Sobre os avisos, eu não pus nenhum porque não havia algum que se encaixasse perfeitamente no que eu queria, então antes de ler eu vou logo avisando que, para quem: Tem auto-estima baixa; está passando por um momento difícil; tem ansiedade e/ou depressão não controlada; é muito sensível; entre outras situações parecidas, essa estória pode mexer com você, podendo ou não te deixar pior, então leia por sua conta e risco.

Comparada a minha outra estória: "Você não sabe o que é sofrer de verdade", essa não trata de um assunto tão brutal explicitamente, essa estória é mais subversiva, tem mais conteúdo e possivelmente pessoas adultas vão se identificar mais com essa do que com a outra, por conta disso a restrição de idade, por mais que eu não veja nada explicito aqui.

Enfim, chega de adendos, boa leitura.

Capítulo 1 - Capítulo Único


Fanfic / Fanfiction Confortável miséria - Capítulo 1 - Capítulo Único

Essa é a estória de uma garota chamada Giu.

Ela tinha um rosto desigual, um de seus olhos era bem mais fechado do que o outro, Giu tinha uma testa grande e estranha, a boca de Giu era pequena demais e ela quase não tinha lábios, seu nariz sem dúvidas chamava atenção, uma atenção negativa é claro, ele era grande e desengonçado, pendia mais para o lado direito de seu rosto. A única parte que Giu gostava em si era o seu grande e volumoso cabelo, mas do que adiantava? Suas mechas morenas e cintilantes não ofuscariam todo o seu rosto dito como feio.

Giu não era confiante para fazer nada, ela não sabia desenhar, ela não gostava de escrever, ela não tinha coordenação motora suficientemente bem para tocar algum instrumento, ela não sabia falar em público, nem gostava de teatro, ou de dança, muito menos sabia cantar.

Em matérias exatas Giu se destacava tão mal quanto em humanas, ou até mesmo pior. Seu entusiasmo por lógica era o mesmo de um peixe morto, resolver equações assemelhava-se para si, como um grande castigo.

Sobreviver ao ensino médio foi uma batalha vencida, sem rumo, Giu fez faculdade de administração, se formou apenas para trabalhar presa num cubículo cinza sob um ventilador de madeira medíocre e velho, que ela chamava docemente de “escritório”.

Na casa da Giu adulta e solteira, as coisas eram ainda piores, os cômodos refletiam sua frustração perante a vida, todas as paredes estavam pintadas com um fosco tom de bege claro, a iluminação era fraca, o piso de azulejo branco estava por todo lugar. A sala era vazia de decoração, havia um sofá de dois lugares com estofado de plástico terrivelmente desconfortável, a estampa era toda preta, para com que as manchas de café e coca-cola não se mostrassem tão visíveis, de fronte para os assentos se tinha a TV presa á parede, tamanho médio, sem resolução HD, foi comprada apenas por estar barata demais. Na cozinha minúscula havia apenas o que era necessário para sobreviver, a pia já estava inclusa no apartamento, um balcão para guardar seus poucos talheres, um fogão de duas bocas, um freezer pequeno e em cima deste um microondas para o dia-a-dia. O banheiro conseguia ser ainda mais claustrofóbico do que a cozinha, a pia e o vazo pareciam estar ali desde que o lugar fora construído, considerando que o apartamento visivelmente tinha uma estrutura antiga e rústica, o boxe de vidro fora trocado por intermédio de Giu, não por capricho, era porque sequer ligar o antigo conseguia fazer, tendo azulejos até o teto, nunca que ela teria força de vontade para limpar tudo aquilo, apenas fingir estar limpo. Indo para seu quarto, lá se encontrava uma cama decente, nela havia gavetas embutidas na parte abaixo do colchão, ao lado do leito tinha-se uma cômoda velha comprada em um bazar, ainda no quarto havia uma escrivaninha casual com uma cadeira desconfortável dando acesso ao seu notbook não tão velho assim, afinal, precisava de algo que fosse viável de se carregar o dia inteiro e que no fim do expediente pudesse organizar facilmente as planilhas quando chegasse a casa. E fora exatamente isso que Giu fez quando adentrou seu quarto.

O ar daquele ambiente era pesado, denso, como se não fosse sua morada de fato, se sentia uma intrusa em seu próprio habitat, deitava na cama em que dormia fazia anos e sentia que tudo aquilo soava estranho demais, desconfortável demais, aquela mesma sensação que tinha na época de escola, o arrepio repentino surgia em seu corpo, em suas costas, não se intensificando por muito tempo, para deixá-la ainda mais desconfortável em estar ali, naquele corpo, naquela casa, refletindo sobre como se sentia estranha e seu coração pulsava em desesperando mesmo quando claramente não havia nada para se desesperar.

Giu levantou-se se sentindo mal, não esquisita, não como uma aberração, mais como um emaranhado de sentimentos confusos enrolando-se entre si e brigando para decidir algo que nunca era sugerido. Seu corpo era estranho para si, sua voz, seu olhar no espelho, sua personalidade, o fato de existir era bizarro, como se estivesse em um filme de terror e ela fosse o monstro, e só tomasse conta disso vez ou outra, quando pensava mais do que devia.

Aquela confusão que Giu chamava de sentimento não parecia querer deixá-la de uma vez, aquela sensação estava fora de sua zona de conforto, distante do que já conhecia e já sabia rapidamente como lidar, como o tédio da mesma rotina, como o descaso que tinha por si mesma, como a insuficiência de não estar progredindo nunca. Giu se viu presa numa linha sem saída, a corda dava voltas em torno de si, contando nós e quedas, sem parar uma vez sequer.

A corda parou então, Giu se olhou no espelho, denominou-se de feia novamente, reforçando tudo de errado que havia consigo. Olhou a janela e viu o sol, o amanhecer horrendo que clamava outro dia, e mais uma tortuosa rotina a ser seguida.

De uniforme vestido saiu pelas ruas, a cada esquina que se aproximava mais de seu cubículo ela torcia fortemente para que seu coração parasse de bater, adentrou no elevador e soltou sua voz robótica para cumprimentar seu chefe. Sentou-se na cadeira de rodinhas e se inclinou para iniciar a usar o computador, nem sequer precisava de tanto esforço assim, mas servia bem para não precisar socializar mais nenhuma vez.

Giu fechou os olhos e deixou transparecer fragilidade, a mulher de rosto desigual e agora envelhecido pelo estresse tinha uma lágrima escorrida que ia do canto do olho esquerdo, o mais aberto, passava pela bochecha e terminava perto de seu queixo, a gota pingou em seu colo. Ela sequer notou o que aconteceu, seus dedos ágeis ainda mexiam no teclado alternando vez ou outra com o mouse, Giu passou a mão demoradamente pelos fios de seu cabelo, que agora se encontravam presos em um coque baixo, o penteado deixava-a ainda mais velha, por fim não se importava mais para aquilo. Deixou outra lágrima advinda do mesmo olhou escorrer e cair no mesmo lugar.

Esse foi o fim da estória de Giu, entediante e desgastante, contar o resto só repetiria os mesmos acontecimentos, uma vida pacata e normal, de uma pessoa pacata e comum, sem grandes acontecimentos, sem novas conquistas, apenas mais uma em uma multidão de nadas, a peça perto da borda do quebra-cabeça, ela não servia como contorno para fácil visualização da imagem, nem eram as mais difíceis de colocar, só mais um pedaço do fundo parecido com tantos outros.

Giu se contentou com o que tinha até não poder mais trabalhar, sem ter o que fazer, ela viveu seus últimos anos de vida dentro do mesmo apartamento que comprara quando saiu da casa dos pais. Giu nunca sentiu necessidade em se matar, aquilo estava muito fora de sua zona de conforto, seria muita emoção para si, e tudo o que Giu mais queria era lidar com o que já estava acostumada, se sentir vaga e vazia, sem qualquer estranheza que pudesse a fazer surtar e tentar coisas diferentes.

Estava tudo bem, para algumas pessoas o importante é se sentir confortável dentro de sua própria miséria. Algumas pessoas não têm escolha, algumas pessoas são como Giu.



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