História Conheci um menino às onze horas de uma noite de outono. - Capítulo 1


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Categorias Bungou Stray Dogs
Personagens Atsushi Nakajima, Chuuya Nakahara
Tags Atsushi Nakajima, Chuuya Nakahara
Visualizações 27
Palavras 1.315
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), LGBT, Slash
Avisos: Álcool, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Levemente inspirada no universo de "BEAST"
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Obs: Postado originalmente em "Chakuro"

Capítulo 1 - Poetas idiotas e vinho tinto


Conheci um menino às onze horas de uma noite de outono.

Chuuya era do tipo que só queria um canto tranquilo para fumar qualquer porcaria e uma garrafa de vinho ou uísque barato já sem rótulo de tão velho, para ajudá-lo a engolir as mágoas. Os pulmões estavam manchados e o fígado destruído, mas ele falava das dores de um coração em pedaços e psicológico fodido, e virava a garrafa com a pose de quem está prestes a enfrentar uma legião. “remédios podem amenizar os sintomas de uma possível cirrose, mas as feridas presentes em meu peito... Ah, para estas não há tratamento”. Andava por aí com um ódio que não cabia em si, mas sorria verdadeiro para quem lhe correspondia com alguma gentileza sincera. Sabia bater como Rocky Balboa, e falar (ou cantar) sobre amor como um Ed Sheeran inspirado. Era a encarnação estética do estereótipo de um bad boy, com a sensibilidade atípica ocultada pelas palavras chulas e pontapés dirigidos ao homem que mais detestava – seu superior. Também portava um coração amável, e junto a ele o alto preço por possuir tal arma naquele jardim de flores nascidas no escuro.

Era arte. De todos os tipos e gerações. Bonito, porém impuro demais para pertencer àqueles murais de aleijadinho e não tão bagunçado ao ponto de se assemelhar à guernica. Seria a fase azul de Picasso caso os girassóis de Van Gogh não despencassem com tanta alegria de seu sorriso limpo. Mas ele preferia ser o garoto enófilo, que se embriagava com facilidade e acreditava que amanhã o mundo estaria em suas mãos enluvadas. E de certa forma estava; o meu mundo era todo seu.

Mas ele não suportaria. Suas costas estavam curvadas e ele cansado de carregar todo aquele peso. Existir por si só já é cansativo, existir sendo Chuuya é pior ainda. Precisava de algo que lhe desse mais liberdade, mas seus pés estavam chumbados ao chão daquele palácio de dor, e sua habilidade só o deixava mais semelhante a um pássaro na gaiola.

Acreditava na salvação do mundo, que em algum lugar havia gente bonita - tão bonita quanto ele - e só estava procurando no lugar errado. Gostava de se deixar levar pela multidão, porque no meio dela talvez alguém precisasse de socorro. “Semana passada ajudei um velho que tinha caído da cadeira de rodas” ele me disse, e sorriu pequeno. Na mesma hora pensei nos girassóis de Van Gogh, e nada nunca me soou tão clichê e barato.

Achava a poesia dos séculos passados brega. Leu Bukowski e Leminski uma vez, e os odiou com todas as forças. “Dois homens: um homem que se acha no direito de decidir quem deve ou não escrever e outro que dita qual a melhor idade pra isso, ambos não passam de tolos fingindo inteligência!”, disse exaltado enquanto balançava o livro de capa branca. Minutos depois acendeu um cigarro, e deixou o silêncio insuportável daquelas salas subterrâneas da máfia invadir seus ouvidos. Mas não por muito tempo. Para minha alegria, Chuuya não conseguia se manter quieto por um tempo maior do que o necessário para fumar dois cigarros.

Descobri isso e mais um pouco fazendo companhia a ele (ou seria ele fazendo a mim?), naquele lugar frio e úmido, onde somente duas janelas estreitas na altura do teto e uma lâmpada amarelada e suja traziam alguma iluminação. Ele queria conversar porque o tintilar das garrafas de vidro e as promessas rasas de Dazai já não o satisfaziam, eu queria conversar porque a solidão da minha cela estava me amargurando e temia perder o resto de humanidade que a máfia ainda me permitia ter. chuuya era bom de fala; cada palavra soava com poesia e seus olhos também diziam muito. Era poeta sem saber, e o velho chato do Bukowski engoliria todas as palavras se tivesse a oportunidade de conhecê-lo. Tinha uma inteligência notável, e ainda sinto suas mãos fechadas marcando minha pele todas as tantas vezes que elogiei suas qualidades na última noite que passamos juntos.

Um dia ele me apareceu com curativos na bochecha e fios bagunçados. Os olhos fundos denunciavam o trabalho árduo do homem que só está abaixo do chefe. Foi o meu dia de oferecer o manto velho com qual me cobria nas noites frias, uma imitação barata e lamentável das vezes que ele colocou o sobretudo negro em meus ombros para tentar conter minha tremedeira nas noites de lua minguante. Seu sorriso que quase não existia, se abriu, mas os girassóis não estavam lá. Em vez disso saiu a melancolia que assemelho aos quadros marrons de natureza morta.

Chuuya colocou a manta no colo e tentou me convencer de que não estava tão cansado me chamando para mais perto. Eu sabia que ele só tinha ficado sensibilizado pela minha imagem decadente, tremendo de frio naquele porão escuro, mas era muito durão para falar com todas as palavras. Tinha que zelar sua reputação de bad boy até para a besta mais sanguinária da máfia. Nem liguei, estava mais interessado em ligar os pequenos sinais espalhados por seu corpo enquanto ele me contava sobre seu sonho de visitar o Louvre ou discutia Caio F. Abreu mais para as paredes do que para um leigo como eu.

Depois de tantas garrafas vazias e obras analisadas com a avidez de um profissional, eu quis ver a Mona Lisa cara a cara. E ele prometeu que um dia me levaria à França. Eu ri, com o peito meio dolorido por saber que promessas de um bêbado são tão sólidas quanto fumaça.

Lembro-me de ouvi-lo sussurrar o nome de alguém que o tempo havia levado para longe. Seus lábios pronunciavam com cautela, mas a voz não saía de sua boca cheirando a álcool. Parecia precioso demais para ser dito, como se a simples menção fosse quebrar o frágil fragmento de lembrança que ainda vivia dentro de Chuuya. Ele não disse o nome em voz alta; e nem precisava. Falava de Dazai, o antigo Dazai antes de Oda, quando havia algo raso além do ódio e indiferença entre os dois. O Dazai jovem que prometeu rosas e deu crisântemos para um amor unilateral, morto antes mesmo de existir.

Conheci um garoto ruivo. Ele veio as onze de uma noite de outono, e partiu as sete de uma manhã de inverno. Atende pelo nome de Chuuya e recusa formalidades desnecessárias. Ele tem sonhos quebrados, coração partido e sorriso de girassol. Odeia Bukowski e ama Caio F. Abreu. Seu sonho é visitar o Louvre, e seu pior pesadelo já se concretizou há muito tempo.  Ele teme o mundo. O mundo o teme também.

Conheci um garoto que cheirava a bebida e perfume francês. Cujos olhos azuis só não eram mais puros do que o próprio coração de menino.  Ele não se conhece, não se enxerga. E talvez por isso sofra tanto. Conheci um mafioso humano e metade de mim acha isso interessante, enquanto a outra diz que é loucura e que eu estou bêbado. Conheci um garoto em corpo de homem, que possui tantas qualidades louváveis presas em um corpo tão pequeno que chega a ser ironicamente desproporcional quando comparado aos outros tão maiores, mas tão menores em espírito.

No final da noite, quando a sombra do tigre se tornava algo mais humano, consegui lembrar meu nome e ele sorriu ao me ouvir falar. Luz entrava pelas janelas estreitas, e o cansaço de seus olhos pareceu sumir por um breve momento antes de voltar duas vezes pior. Seu cheiro bom ficou comigo, junto ao formigamento gostoso na minha bochecha, fragmento de um beijo calmo e com cheiro de vinho tinto. Ele foi embora ao começo da matina, mas não sem antes me olhar uma última vez, com aqueles azuis tão brilhantes quanto o céu e mar de The Cliff Walk At Poutville “obrigado pelas doses de vida hoje, Atsushi. Vou ficar te devendo”.

Tô esperando meu pagamento.  

 



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