1. Spirit Fanfics >
  2. Conheço o meu lugar >
  3. Capítulo 3

História Conheço o meu lugar - Capítulo 4


Escrita por:


Notas do Autor


revisei esse capítulo 5 vezes. tá faltando alguma coisa nele, mas não sei o que é

Capítulo 4 - Capítulo 3


Emalf não fez por querer. Não nutria nada além de respeito por seu chefe e não lhe interessavam os detalhes de sua vida pessoal, principalmente aqueles que incluíam Satanick.

Àquela altura, o relacionamento do dois era uma realidade implícita. Todo mundo sabia, pouca gente comentava e ninguém imaginava como acontecia.

Mas, ora, eles estavam na porra do inferno, e o estupro ocorria em cada esquina, mas quem ia imaginar que algo assim invadisse as paredes do castelo daquele senhor diabo? Ainda mais com o demônio de chamas como vítima... Ivlis era durão, Emalf o seguia por isso, Rieta também, então... por quê? Era Satanick, mas ele ainda poderia revidar, não para matar, mas uma briga ia falar por si mesma.

Ele não conseguiu tirar esses pensamentos da cabeça nem quando o relógio de parede deu sua meia volta costumeira.

A briga que acontecia na mesa ao lado não lhe era nem um pouco atrativa, infelizmente o som serrilhado da faca de pão cortando a carne nunca seria maior que os murmúrios abafados do chefe rendido num pedaço de quarto escuro.

— O que há com você? — Disse um Adauchi recém-chegado. Tinha a expressão irritada de sempre no rosto, e um bocadinho de sangue na camisa branca. Trazia dois copos de cerveja nas mãos enfaixadas. Elas eram vermelhas e brutas, como as de Emalf, e ele não gostava. Quando questionado, dizia que estavam machucadas enquanto apertava as ataduras de um jeito compulsivo.

Seu olhar pesado por culpa das olheiras se assemelhava ao de Ivlis, na última vez que ele e o dito vassalo se encontraram numa situação de empregado e patrão normal.

Ele devia contar? Adauchi odiava o pai, mas... haveria de abrir alguma exceção, não é? É o que se faz, quando se é casca-grossa e alguém próximo chora; abre exceções e ajuda. Ele não sabia se era assim que funcionava com os outros demônios, ou ele e Rieta eram os únicos errados, mesmo.

— Adauchi, eu...

— Vendetto. Me chame de Vendetto.

— Tudo bem, Vendetto.

— O que foi? Você tá estranho, cara.

Então, ele umedeceu os lábios, pensou uma, duas vezes num espaço de tempo muito curto para seus neurônios lentos suportarem.

Não conseguiria dizer. Pelo menos, não naquela noite.

— Eu tenho que ir embora. — Tomou o conteúdo do copo em um gole longo. Estava quente e era ruim por si só, mas ele precisava de uma mente confusa para atravessar aquela madrugada.

— Por que? Aquele idiota tá te mandando para outra missão? — Por algum motivo, a pergunta o irritou profundamente, e Emalf cravou as unhas nas palmas para não voar no amigo.

— Eu tenho um encontro, na verdade. Conheci uma bichinha e vou levar ela pra um motel. — Mentiu, forçando o sorriso. Ainda gostava um pouquinho de Yosafire, era bem o dia de pensar nela.

De qualquer forma, Vendetto sorriu. — Vai lá, cara. Arrocha.

Trocaram mais duas frases e Emalf se pôs na rua principal. Havia um lugar para ir, afinal? O castelo de Satanick exibia suas torres acima dos prédios comuns. Ele tinha um quarto lá, e essa lembrança lhe trouxe asco.

Havia Rieta, também. Eles eram colegas e amigos, se analisasse por certo ângulo. Ela gostava de Ivlis, mas era mesmo saudável falar disso? Para todos os envolvidos. Ele não sabia, certamente não lhe fez bem saber, mas também, deixar assim não parecia certo.

Suspirou. Sempre fugiu desses assuntos complicados.

Pegou o caminho de baixo. Só desgrudou o olhar do chão quando seus pés pararam à frente de uma casinha de paredes cor salmão mais afastada das demais. Era um sobrado de janelas médias sem nada de especial, Rieta morava lá. Tirando as lanternas de ferro brilhando fracas e amarelas perto da porta, tudo estava enfiado num breu absoluto.

Ele nem havia cogitado bater quando a porta se abriu, e uma menininha pequena saiu do chão para se agarrar ao seu pescoço.

Emalf quase caiu para trás, com a surpresa. Ele precisou de um momento de raciocínio para lembrar quem era a pequena afobada que gritava seu nome.

— Poemi, o que você tá fazendo aqui? — Perguntou, tentando não fazer a voz tremer. Ela parou de gritar, voltou para o chão meio desanimada.

— O pai...

— Ivlis me pediu pra ficar com ela hoje. — Rieta apareceu do nada, segurando uma boneca monstruosa e com o rosto borrado de maquiagem. — Merda, Emalf, você tá cheirando a bebida e perfume de puta. Por que veio aparecer aqui?

Desgraçado...

O que disse?!

— Nada. Poemi, eu te amo, tá? Mais tarde te ensino a fazer aquela maldição. — Ele bagunçou os cabelos dela de um jeito apressado — Rieta, coloque Poemi para dormir e espere na minha casa... Acordada! — Grunhiu antes de voltar a correr.

Não deu tempo para explicações. Em três segundos, o punk já subia a ladeira sumindo na rua escura.

As duas moças ficaram lá, visivelmente confusas. Reta um pouco menos, por experiência, já sabia que não havia nada de bom naquele jeito todo preocupado.

— Entre, Poemi, vamos enfiar agulhas nesses bonecos. — Chamou, quase sufocada por um mau pressentimento.

O caminho era longo, e Emalf adentrou os corredores do castelo com o péssimo pensamento de que era tarde demais. Uns poucos demônios lhe cumprimentaram enquanto se dividia entre andar e correr nos cômodos quase vazios. Na confusão, não respondeu nenhum. Estava focado em descobrir aonde, atrás de tantas portas iguais, seu mestre se mantinha.

Ele percebeu pequenas gotas de sague seco no chão de um corredor qualquer. Eram minúsculas e espaçadas, não chegavam a indicar direção nenhuma, caso não parasse um momento para pensar, mas olhando com atenção, notou as digitais vermelhas no trinco dourado da última porta.

A ideia de pegar ivlis e Satanick no ato, como na última vez, nem se passou por sua cabeça. Ele correu e abriu a madeira pesada, e a luz que vinha do corredor criava um feixe cinza disperso na escuridão do lugar

A silhueta sobre a cama se encolheu mais. Ela soluçava baixinho ali.

Emalf encostou a porta, e o quarto voltou a mergulhar na escuridão. O ar lá dentro era abafado. Cheirava a sangue e suor.

Satanick, — e se havia algo mais frágil do que aquele tom de voz, Emalf desconhecia. —  e-eu não aguento mais. P-por favor... só hoje... — Os soluços abandonaram o restinho de discrição. Ele mergulhou num choro alto e claro, engasgando nas próprias palavras.

Emalf ficou tentado a acender a luzes, para ver até onde ia aquele estrago, mas não o fez. Ele tinha um milhão de coisas na ponta da língua até meio minuto atrás, mas e depois? Nada. Havia enfiado um tampão na goela, e só piorou mais quando ficou à frente da silhueta encolhida.

— Satanick, eu não tenho mais forças...

— Sou eu, chefe.

Saiu meio baixo, mas deu para ouvir. Os soluços de Ivlis cessaram, e o ar lá dentro ficou mais denso.

Os olhos prateados do diabo brilharam minimamente. Eram da cor do pôr-do-sol.

— E-emalf?

— Em carne e osso, senhor. — Retirou os óculos, só porque não tinha chapéu. A cabeça abaixada, se obrigava a não enxergar outra coisa que não fosse o chão sob seus pés.

— Satanick te mandou aqui?

— Não, senhor...

Um momento de silêncio. Situações difíceis pediam aquilo.

— ... Entendo. Saia daqui. Se é fiel a mim, finja que nada aconteceu.

— Não posso, senhor. Mas é por eu ser fiel ao senhor que não posso, viu?

Ivlis fez força para levantar, os ossos estralando a cada mínimo movimento dado com muito custo. Por fim, não conseguiu, caiu de novo na beirada da cama, não indo ao chão por muito pouco.

— Emalf, saia daqui e finja que isso nunca aconteceu. É uma ordem.

— Não posso, chefe. Eu não quero que o senhor sinta mais dor. — Ele respirou fundo, levantou o braço, com o punho bem fechado prestes a fazer o movimento óbvio. Ivlis não recuou, e ao subordinado, aquele rosto conformado doeu mais do que qualquer castigo.

Ele deu um jeito de se esgueirar pelas partes mais vazias do castelo com o corpo comprido enrolado num lençol. Conseguia se teletransportar por poucas distâncias, ainda mais com um peso daqueles nos braços, mas ainda o fazia quando alguém parecia se aproximar. Ninguém naquele inferno ia se importar com o subordinado do demônio de chamas arrastando um corpo no meio da rua, mas ali era outra história. Ali havia Satanick, e mais meio mundo de servos fieis ao senhor do inferno.

Demorou para chegar em casa. Rieta havia dado um jeito de quebrar a janela e entrar por si só, e ele a faria engolir cada pedacinho de vidro depois.

— Abra logo, sua rapariga! — Gritou, estava com os nervos quase explodindo de preocupação.

A outra não demorou a aparecer, e fez cara de espanto quando viu o homem, mas este foi logo entrando sem falar grandes coisas.

— O que...

— Feche isso e me traga uma bacia com água e panos limpos pelo amor ou ódio de qualquer coisa cima do solo! — Exclamou adentrando logo o próprio quarto. Ela o fez, mas quase derrubou tudo quando viu o rosto do diabo dentro daquele monte de panos.

— Ivlis, mas que po...

— Venha cá, eu te explico depois. — Ele próprio tremia quando pegou a bacia. — Me ajude a tentar limpar isso.

Ela não exigiu mais explicações. O rosto pálido do diabo havia inchado onde Emalf bateu, mas aquele corpo todo já estava tão cheio de roxos e feridas... Não fazia a mínima diferença.

— Quem fez uma coisa dessas? — A mulher perguntou depois de um bom tempo, enquanto colocava um curativo sobre a ferida nas costelas.

— Satanick.

— O quê?!

— Vamos pra cozinha. É uma história difícil.

Ele fez um chá de camomila. Se fizesse café, a coisa ia piorar, e ficou mexendo numa pelúcia esquecida por Poemi na última visita, porque não conseguia se aquietar e não tinha forças para ficar andando em círculos por aí. Falou o que viu no outro dia, e não precisou se estender, pois ela já vira o estrago. Quando terminou, passaram um bom tempo em silêncio, até Rieta decidir tomar a palavra.

— E agora? O que vamos fazer?

Era o medo de Emalf, aquela pergunta. Ele queria uma solução mágica para tudo.

— Eu não sei.

— Só consigo pensar em pedir ajuda aquele diabo preto e branco.

— Kcalb? Nem em sonho que ele vai receber a gente depois de tudo que fizemos.

— Mas não temos outra opção...

Emalf suspirou, tinha lágrimas nos olhos.

— Vou tentar fazer contato.

O silêncio da casa foi cortado pelo barulho de algo caindo no quarto. Os dois correram para lá. Ivlis estava no chão. Obviamente depois de tentar levantar.

Os cabelos bagunçados enegreciam o chão. Ele tremia enquanto tentava conter o soluço choroso.

Não rejeitou a mão estendida de Rieta. O rosto pintado de vermelho era bem visível.

Mas Emalf não se incomodou em enfiar as mãos debaixo dos braços dele e levantá-lo, tentando fazer Ivlis transferir todo o peso do corpo para si.

— Eu quero vomitar... — O chefe disse num fio de voz envergonhado. Eles caminharam tão apressados quanto podiam até o banheiro pequeno. Deixaram Ivlis se inclinar sobre a privada e expelir aquela água malcheirosa característica.

— Rieta, fique aqui, tá? Eu vou cozinhar alguma coisa.

Ela concordou, o demônio só queria fugir daquela visão. Era só covardia pura.

Colocou o macarrão no fogo e ficou esperando. Ela o ajudou a tomar m banho, e Emalf deixou uma toalha limpa no trinco da porta.

Muito devagar, Rieta voltou com o chefe para o quarto, e na mesma velocidade retornou.

O prato de macarrão mal temperado, com uma salsicha feia esfriava à frente de Ivlis. Ele o afastou com a mão, colocou os braços sobre a mesa e chorou. Baixo, com o corpo todo tremendo, e os outros dois fizeram força para não o acompanhar nessa tristeza.

As costelas se destacavam na pele machucada. Exceto o volume pequeno no estômago, todo o resto era fino, a pele parecia esticada, seca, enquanto atravessada por cicatrizes feias e antigas.

Os restos da tortura de Reficul ainda eram visíveis também.

— Che... Ivlis, por favor. — Rieta se abaixou ao lado, a mão quente tocando as costas do homem. Ela era forte, Emalf se admirava ao olha-la. — Passou, tá tudo bem agora... ou vai ficar. Nós prometemos

— Onde Poemi está? E Adauchi? Eu quero meus filhos...

— Deixei Poemi dormindo lá em casa. Ela está bem.

— Conversei com Adauchi hoje. — Emalf se meteu. Provavelmente Ivlis desconhecia a amizade deles. — Ele tá bem. Conseguiu um trabalho grande na semana passada.

O diabo prendeu a respiração. Tentou parar de chorar, mas não adiantou: só o fez para explodir em mais lágrimas no momento seguinte.

— Chefe, você tem que comer...

Rieta trouxe o prato para perto, mas Ivlis o afastou.

— Eu agradeço o que vocês fizeram, mas não. Só o cheiro já me enjoa. — Queria se enterrar ali, sumir de vez e deixar todo mundo ir viver a vida, mas nem disso era capaz. — Não é por nada... eu tenho que voltar.

— Não tem! — Ela o puxou pelo braço, fez força para fazê-lo olhar ao redor. Estava quase se entregando ao desespero, também.

Ivlis, entretanto, permaneceu apático.

— Em vez disso, Rieta, eu te peço, traga Poemi, por favor. Eu não quero que aquele... faça alguma coisa com a minha filha. Fique com ela, por favor. — As mãos dele tentavam ficar firmes nos ombros da mulher. Não pedia como chefe, ele não era o chefe, pedia como a criatura tosca que era. Incapaz de fazer qualquer coisa.

Ela não tinha cara para negar. — Tudo bem, eu vou. Emalf, faça-o comer.

— ‘Xá comigo.

Ela se foi. O demônio puxou a cadeira ao lado, pôs o prato em mãos e levou o garfo até o chefe. Não tinha as palavras bonitas e nem a proximidade de Rieta, mas esperava que seus gestos aliviassem um pouco daquele peso.

— Eu posso passar o resto da noite aqui. — Disse. E o chefe suspirou, apenas.

Pegou o prato com as mãos trêmulas, colocou em cima da mesa e lentamente começou a comer.

Emalf ficou do lado, sem saber se ajudava ou atrapalhava. Nunca lhe ocorrera a ideia de Ivlis frequentar sua casa. Já tinha visto a dele, até morado por lá. O diabo o havia ajudado, e ainda o fazia. Era estranho. Percebeu que via Ivlis como um ser vivo pela primeira vez. Nas outras, o enxergava apenas como a imagem de um modelo distante.

O conhecia como chefe, por experiência própria, e um pai imaturo, por Adauchi, mas o que era aquilo à sua frente? Aquele homem machucado de olhar quebrado.

Não o conhecia, e temia os segredos que guardava para si.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...