História Constelação Kyungsoo - Capítulo 10


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Categorias EXO
Personagens Do Kyung-soo (D.O), Kim Jong-in (Kai), Oh Se-hun (Sehun), Personagens Originais
Tags Kaisoo, Medieval, Soulmate!au
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Palavras 17.449
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Lemon, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


E ai, meus anjinhos? Tudo bem?
Sei que sumi por meeeeeeses e peço mil desculpas por isso, mas finalmente apareci trazendo o último capítulo de Constelação Kyungsoo. Espero que vocês gostem do final e vejo vocês nas notas finais <3

Capítulo 10 - Em sua alma


Fanfic / Fanfiction Constelação Kyungsoo - Capítulo 10 - Em sua alma

Taemin respirou fundo bebendo um longo gole de sua taça de vinho. Nos últimos meses havia passado a ingerir uma quantidade bem maior de álcool do que o que estava acostumado, mas sua mente funcionava melhor quando estava meio alto e, para que tudo ocorresse conforme os seus planos, ele precisava estar em sua melhor forma. 

Respirou fundo depositando a taça em cima da mesa e encarou as peças espalhadas pelo mapa a sua frente. Jongin ter se apaixonado fora algo um tanto quanto inesperado e ele estaria mentindo se dissesse que não ficara com medo do que aquilo pudesse significar, mas com o decorrer do tempo não pode deixar de sentir-se aliviado. O impacto do cavalariço sobre as atitudes de seu amigo acabou por surpreendê-lo de uma forma espetacular, seu maior receio sobre Jongin subir ao trono sempre derivava das atitudes inconsequentes e a total falta de interesse pelo reino. E, com sua nova paixão, Jongin abrira seus olhos e passara a olhar um pouco mais para a realidade de seu povo.

No entanto, apesar de todos os sussurros, o relacionamento dos dois ainda era uma incógnita para si. Ele não acreditava nessa besteira de almas gêmeas, mas não seria tolo de negar que os dois homens possuíam uma ligação no mínimo estranha. E era esse desconhecido que o deixava em pânico. 

Taemin gostava de ter o controle sobre a situação, gostava de ter a certeza de que tudo estava saindo conforme o planejado e agora, com o futuro rei agindo como um tolo apaixonado, não sabia exatamente o que esperar. E isso o assustava mais do que qualquer outra coisa. Ele não queria que o povo sofresse por alguma possível atitude idiota de Jongin causada por esse novo sentimento que o assolara. 

E no meio de tudo isso ainda havia mais uma pessoa que o fazia quase vibrar de ódio. Apertou com força o tampo da mesa tentado a jogar tudo para o chão, lembrava-se claramente das palavras trocadas e como ele quase fizera algo na impulsividade tomado pelo ódio. Respirou fundo uma, duas, três vezes e repetiu como um mantra as palavras de seu pai.

Agora mais do que nunca, precisaria ser paciente e agir com cautela. Devagar, soltou o tampo da mesa e levou sua mão para uma das peças no centro do mapa.

Com um movimento delicado, empurrou-a para fora do tabuleiro.

 

 

Jongin havia ouvido os boatos. Sentia as mãos suarem a cada sussurrar dos empregados pelos corredores, sentia seu coração bater acelerado a cada passo que Argeen dava de um lado para o outro dentro da biblioteca e sentia sua cabeça latejar a cada longo minuto que passava como um garoto perdido vagando pelo castelo. 

— Pela Deusa Mãe, sentem-se! – Sehun disse exasperado depois que Jongin tinha colocado-se de pé pela terceira vez e começado a acompanhar Argeen em sua caminhada infinita pelo centro da biblioteca.

— Eles estão no Posto de Vigia, Sehun. Devem chegar aqui ao anoitecer e-

Argeen o interrompeu com um bufar. 

— Ao amanhecer, você quer dizer, certo? Meu pai não se prestaria ao papel de gastar uma noite viajando quando pode estar fodendo quem ele quiser em um bordel na beira da estrada. – Ela rosnou jogando-se ao lado de Taemin no sofá.

Desde que a carta chegara, no dia anterior, Argeen havia mudado completamente seu comportamento. Estava mais desagradável que o de costume e as olheiras em seu rosto faziam com que ela parecesse bem mais velha do que realmente era. Uma pequena parte egoísta de Jongin queria fazer a garota dormir para que os convidados do Reino Banshee não pensassem que eles não estavam cuidando dela, mas a parte do príncipe – a maior parte – que se importava com a noiva não conseguia parar de refletir sobre como a presença do pai a faria se sentir. 

A cada minuto que o Rei Eddard Ealhburh ficava mais próximo, a Argeen que Jongin conhecera ao longo dos meses ficava mais distante. E aquilo o devastava.

— Achei que sua mãe estaria vindo junto a ele. – Taemin falou bebericando sua taça de vinho, seus olhos também pareciam cansados.

— E você por acaso já viu um rei que respeitasse sua rainha? – Retrucou com a voz ácida retirando a taça das mãos do amigo e bebendo um longo gole. 

Taemin apenas arqueou a sobrancelha, mas nada disse. 

Um silêncio pesado caiu na sala, cada um imerso demais em seus próprios pensamentos para ousarem jogar conversa fora como de costume. Jongin não podia deixar de se questionar sobre que tipo de pessoa o pai de Argeen seria, pelos relatos da mesma tudo o que vinha em sua mente era um homem alto usando um capuz de carrasco e com certeza ele não deveria parecer assim – ou pelo menos esperava que não. 

Tentou jogar todas as suas preocupações para o fundo da mente e focar na única coisa boa que andava tomando conta dos seus dias. Na verdade, Jongin não precisava se esforçar tanto para deixar a mente vagar para seja lá onde Kyungsoo estivesse naquele exato momento, era reconfortante sentir-se próximo de seu escudeiro de uma forma que ninguém conseguiria entender. Naquele momento, Jongin conseguia captar apenas um leve estresse e uma certa preocupação porque, com certeza, Kyungsoo também havia ouvido os boatos de que os convidados estavam chegando e sobre o campeão que vinha com eles. 

Um estremecer tomou conta do corpo de Jongin e ele voltou a caminhar pela sala respirando fundo. Ele havia treinado, se preparado, não tinha o que dar errado naquele torneio. Parou em frente a janela e olhou para o céu nublado lá fora, forçando-se a respirar fundo e não surtar. Quase involuntariamente levou a mão até seu braço esquerdo e a pousou onde a tatuagem se escondia embaixo de suas vestes, um sorriso singelo pairou sobre os seus lábios quando relembrou cada beijo que havia depositado nas pintinhas que formavam o desenho original. Sentia seu peito encher de ternura e de um sentimento tão bom que só poderia ser amor, e era apenas a constatação de que todas suas emoções eram recíprocas que o impedia de surtar. 

Ouviram um leve bater de porta e, em seguida, um servo entrou de cabeça baixa fazendo inúmeras reverências para os presentes. Devagar, quase temeroso, o jovem caminhou até parar em frente ao príncipe e curvou-se sobre um dos joelhos com o olhar focado em suas botas. 

— Sua Graça, o Vice-Regente pediu para que Vossa Alteza e seus convidados preparem-se para receberem o Rei Eddard Ealhburh, o Terceiro de Seu Nome, Rei e Protetor do Reino Banshee. Sua Majestade chegará daqui aproximadamente uma hora. 

— Agradeço o recado. – Jongin disse oferecendo um sorriso e uma moeda de ouro pelos serviços do garoto, o olhar espantado e a expressão feliz fizeram bem sua função de aquecer o coração do príncipe. 

— Então aparentemente ele não irá passar a noite em bordéis. – Sehun falou levantando-se logo que o jovem servo havia se retirado. 

— Aparentemente não. – Argeen soltou um longo suspiro – Seria tarde demais para eu tentar contratar um mercenário que acabaria com tudo antes dele chegar? 

— Se você souber para quem pedir, Sua Graça, nunca é tarde demais. – Taemin ofereceu-lhe um sorriso malicioso.

— E você está sugerindo que esse alguém seja você? – Argeen debochou levantando-se sem dar muito crédito ao amigo – Melhor eu ir me arrumar, minha mãe adoraria achar qualquer motivo para me levar embora para casa. 

— Fico lisonjeado que aqui seja melhor que seu próprio reino. – Jongin apontou. 

— Qualquer lugar é melhor do que minha casa. – Ela falou virando-se para sair – Vejo vocês daqui a pouco.

 

 

O sol já havia se posto há algum tempo. Parado em frente aos portões, com a estrada se agigantando diante de si e a multidão se amontoando ao seu redor, Jongin teve uma espécie de déjà vu. Menos de um ano atrás, em uma fatídica tarde de primavera, ele estava parado exatamente naquele mesmo local com aquela maldita calça de couro apertando suas bolas e com a coroa pesando uma tonelada em sua cabeça. Lembrava-se de odiar cada segundo de espera e do sentimento de curiosidade que tomara conta de si…

E agora, com o inverno dando seus primeiros indícios, Jongin encarava tudo de uma forma completamente diferente. 

Naquele exato momento, o príncipe sentia-se mais maduro, adulto. E por um segundo desejou voltar no tempo, voltar a ser aquele jovem inconsequente cujas maiores preocupações giravam em torno de qual bordel ir a noite e quantas pessoas teria em sua cama até o amanhecer. Agora tudo havia mudado, a coroa sobre sua cabeça possuía um peso diferente, a presença da garota perfeitamente maquiada ao seu lado já não despertava em si os mesmos significados de meses atrás… Tudo estava tão distinto e ele não fazia a mínima ideia se conseguiria lidar com sua nova vida. 

Sentiu o coração acelerar e a respiração falhar por um momento, ele precisava sair dali. Do reino. De seu próprio corpo. Ele não estava preparado para ser rei, para assumir tantas responsabilidades mais. No fundo ele ainda era só um jovem inconsequente e não iria conseguir… 

Um leve toque em seus dedos interrompeu sua linha de raciocínio. Um leve entrelaçar de dedos que durou poucos segundos e foi o suficiente para clarear sua mente. Olhou minimamente para trás, onde seu escudeiro estava imóvel a pouquíssimos centímetros de si com o rosto tão impassível, mas seus olhos… Ah, seus olhos queimavam de um jeito que fazia o coração de Jongin querer sair pela boca.

Abriu um pequeno sorriso. Sem nenhuma sombra de dúvidas, aquela havia sido a mais bela de todas as mudanças.

Ainda estava sorrindo quando ouviu Argeen prender a respiração, olhou para o lado apenas por um segundo antes de focar a atenção na estrada e notar a nuvem de poeira que surgia ao final. Endireitou a coluna e sentiu uma gota de suor escorrer por sua testa mesmo que ventasse frio naquela noite, logo um servo secou seu suor antes mesmo que a gota atingisse suas sobrancelhas. 

Cerca de quinze cavaleiros pararam em frente a eles, todos ostentando bandeiras com o brasão do Reino Banshee e da Casa Ealhburh, fazendo um corredor enquanto uma carruagem parava entre eles. Atrás deles, cerca de trezentos homens se espalhavam. Jongin sentia o coração prestes a sair pela boca quando dois servos, vindos de trás da caravana, abriram as portas colocando uma pequena escada na porta. 

— A Rainha Elisa Ealhburh, do Reino Banshee. – Um outro servo anunciou em alto e bom som e logo a mãe de Argeen saiu da carruagem. 

E, pela Deusa Mãe, era quase como ver uma versão mais velha de Argeen. A rainha possuía os cabelos ruivos presos firmemente em um penteado que Jongin nunca havia visto em seu reino e trajava um vestido pesado, quente, próprio para o clima em que estavam. Os olhos vagaram pela multidão até pararem em Argeen e no príncipe, mas ela não esboçou nenhuma reação. 

— O Rei Eddard Ealhburh, o Terceiro de Seu Nome. Rei e Protetor do Reino Banshee.

Jongin sentiu o coração falhar uma batida quando um homem praticamente de sua altura saiu da carruagem. O rei Eddard era totalmente diferente de tudo o que havia imaginado, possuía quase dois metros de altura e uma largura que quase se equiparava ao tamanho, seu rosto era circundado por uma barba grosseira tão negra quanto seus cabelos e escondiam em parte as bochechas flácidas e gorduchas. 

— O Reino Naharis está a sua disposição. – A voz grave de seu pai o trouxe de volta e logo o seguiu fazendo uma reverência singela. – É um imenso prazer recebê-los em nossa casa.

— O prazer é todo meu. – O rei repetiu a reverência e Jongin notou a rainha fazer o mesmo.

Os olhos miúdos, parecidos com pequenos besouros, passearam do pai de Jongin até sua mãe e caíram, por fim, no jovem príncipe. Jongin engoliu em seco quando o homem cobriu a distância que os separavam em poucas passadas.

— Então esse é o meu genro?

— Assim que eu ganhar o torneio, Majestade. – Jongin falou abrindo um pequeno sorriso enquanto encarava os olhos do homem.

O rei Eddard ficou em silêncio por alguns segundos antes de ser assolado por uma gargalhada que fez seu corpo todo estremecer. 

— Isso é o que veremos, meu jovem. – Ele falou depositando um tapa amistoso nas costas de Jongin que quase o fez desmontar. 

Jongin não poderia dizer que não entendia Argeen por querer ficar longe desse homem, ele era realmente um pé no saco. 

— Minha princesa, você está tão linda como sempre. – Ele falou virando-se para Argeen.

— Pai. – Cumprimentou, curvando-se minimamente sem olhar o homem nos olhos – Espero que tenha tido uma boa viagem. 

— Tão boa quanto possível. – Respondeu o homem – Mas mataria por uma taça de vinho agora. 

— O banquete está a sua espera, rei Eddard. – O pai de Jongin disse virando-se de costas, toda a população que se amontoava atrás de si abriu-se em um corredor – Vamos. 

Jongin deu alguns passos atrás de seu pai antes de parar pronto para estender seu braço para Argeen, no entanto não o fez ao notar a garota frente a frente com a mãe. 

— Você já está se vestindo como eles. – A mulher mais velha disse percorrendo os dedos pelo tecido do vestido de Argeen. 

— Eu sou um deles agora, mãe. – Argeen respondeu. 

— Você será sempre minha filha. – A rainha falou puxando Argeen para um abraço – Eu sinto tanto por tudo que aconteceu, Marjorie. Se você quiser ainda posso te levar de volta para casa e-

— Não. Eu estou feliz aqui. – Ela respondeu e desviou seu olhar para onde Jongin ainda estava parado com seu escudeiro atrás de si. – Jongin é um bom homem, ele vai ser um bom marido para mim. 

— Espero que sim. – A mulher falou abrindo um sorriso antes de dar os braços para Argeen e começarem a caminhar. Jongin as seguiu quase como os cavaleiros juramentados atrás de si. – Se ele sobreviver ao torneio, é claro. 

— Quem vai estar lutando por mim, mãe? 

— Hotah, o Urso.

O ofegar de Argeen trouxe um arrepio na coluna de Jongin.

— Você acha que seu príncipe irá conseguir vencê-lo? – A rainha falou olhando minimamente para trás, para o rosto impassível de Jongin. 

Argeen não respondeu e, enquanto caminhavam para dentro do castelo, os ventos de inverno pareciam quase zombar de si próprio.

 

 

Kyungsoo apertou mais o corpo de Jongin contra o seu, respirando fundo o cheiro suave que desprendia-se dos cabelos do príncipe e aproveitando os poucos minutos que poderiam ficar daquele jeito, com as pernas entrelaçadas e o calor dos corpos acalmando todas as angústias de seus corações.

Era em momentos como aqueles, em que conseguiam fugir de toda a realidade e se encontravam na torre de vigia abandonada, que Kyungsoo só queria que tudo fosse diferente. O amor que sentia por Jongin era tão grande que chegava a doer e só de pensar que dali a poucos dias tudo em suas vidas iria mudar ainda mais, sentia o desespero tomar conta de todo seu corpo. Sentiu o príncipe apertá-lo, quase como se quisesse acalentá-lo, dizer que tudo iria ficar bem mesmo que Kyungsoo conseguisse sentir que sua alma gêmea estava tão desesperado quanto si.

— A gente podia fugir juntos, Soo. – A voz de Jongin cortou o silêncio do local, tão baixinha e tão receosa que chegava a soar como uma criança implorando por mais uma história à sua Ama.

Kyungsoo soltou uma risada baixa e puxou o rosto do príncipe para mais um beijo, os lábios de Jongin possuíam um gosto único, como tudo nele o era, e era tão bom que o escudeiro não conseguia se imaginar vivendo em um mundo onde não pudesse mais receber seus beijos. 

— Não diga besteiras, Nini.

— Não estou! – Jongin sentou-se para encarar o fundo dos olhos de sua alma gêmea com um bico tão fofo nos lábios. – Seria a solução perfeita, só você e eu. Em qualquer lugar do mundo. 

— Nini, só ouça o que você está me propondo. – Kyungsoo suspirou um tanto cansado, sabia que os sentimentos de Jongin eram autênticos e não era como se todo seu corpo não quisesse correr para ele, mas ele não poderia fingir que uma fuga era a solução ideal. – Eu não posso abandonar minha família. 

— A gente leva eles.

— E o reino? Você teria coragem de abandonar seu povo? – Kyungsoo rebateu sentindo o coração se apertar, desviou seu olhar para além do buraco no teto da torre, focando no céu sem nenhuma estrela e sentiu um frio percorrer seu corpo sentindo falta do calor de Jongin. 

Jongin não respondeu. Ele amava o seu povo e aquilo era praticamente a única coisa que o impedia de sumir dali. 

— Eu poderia. Por você. 

Kyungsoo sentou-se também um tanto surpreso por essa frase. Seu coração batia tão rápido que por um momento ele não se atentou ao conflito interno que Jongin sofria. Ajoelhou-se de frente ao seu amado, puxando o rosto dele para próximo do seu para que pudesse olhá-lo no fundo de seus olhos.

— Você tem certeza? Nós teríamos que ir para bem longe, teríamos que construir uma vida nova… Você não teria mais servos para te servir, você teria que trabalhar para conseguir qualquer coisa… 

“Mas nós poderíamos ser felizes. Juntos”. Kyungsoo quis completar, mas não o fez. 

Jongin desviou o olhar. E aquilo foi quase como uma tesoura cortando o fio de esperança que tinha se instalado dentro de Kyungsoo.

— Pensa com cuidado, Nini… Se até o dia do torneio você ainda quiser, eu te seguiria para qualquer lugar do mundo. 

O príncipe assentiu, os olhos lacrimejando de um jeito que dilacerava ainda mais o coração de Kyungsoo, o escudeiro engoliu em seco puxando Jongin para seus braços. Cada momento que tinham juntos era extremamente valioso, mas a vida real estava logo ali pronta para cobrar seu preço, e a cada vez que se separavam doía mais e mais. 

Ali, sentindo Jongin chorar baixinho contra seu peito enquanto experimentava seu próprio coração sendo dilacerado pela dor que ambos sentiam, Kyungsoo desejou pela primeira vez nunca ter olhado nos olhos de Jongin naquela tarde a tantos meses atrás.

 

 

Não havia nenhuma estrela no céu naquela madrugada. Ali, sentado à janela, Jongin encarava as copas das árvores balançando de um lado para o outro devido ao forte vento de inverno. Lá fora, tudo parecia um tanto caótico e Jongin deixou um pequeno sorriso triste surgir em seus lábios. O clima era propício a tudo que se passava dentro de si mesmo. 

Era madrugada já e ele não havia conseguido pregar os olhos nem por um segundo, seus pensamentos se tumultuavam na tentativa de deixá-lo em pânico e faziam um bom trabalho nisso. Pela primeira vez em algum tempo, toda a sua situação com Kyungsoo não era a maior preocupação em sua mente. Tudo o que girava e girava e girava dentro de si era a certeza absoluta de que no dia seguinte morreria. 

E a constatação de que não seria capaz de vencer o torneio trazia uma sensação de alívio para si porque, pelo menos dessa forma, não teria que lidar com todas as situações conflituosas que estava envolvido. Mas, por outro lado, não poderia mais sentir o gosto dos lábios de Kyungsoo e muito menos ouvir sua risada debochada quando Jongin agia de forma manhosa. O pânico o preenchia a cada segundo que passava acordado e ele sentia todo o estresse do dia pesando em seus ombros… Porém, do outro lado do laço, havia uma quietude serena que só significava que Kyungsoo havia pego no sono. 

Jongin respirou fundo sentindo-se patético. Era sua última noite vivo e tudo o que fazia era se lamentar sozinho em seu quarto, gostaria de pelo menos ter sua alma gêmea consigo para aproveitar bem as horas que lhe restaram. Entretanto, quando pensava sobre seu último dia e todas as possibilidades do que poderia ter feito, tudo o que via era estresse e cansaço. 

A família de Argeen era um pesadelo e o pai da princesa o atormentava de um jeito que fazia com que ele entendesse o motivo de tanta gente falar mal dele. Em uma noite, quando retornava dos aposentos de Sehun, fez a besteira de passar em frente ao quarto do Rei Eddard e quase não conseguiu dormir de tão traumatizado que ficou com os gemidos guturais que saíam de lá. Os guardas lhe informaram que haviam pelo menos quatro prostitutas lá dentro com o homem… E, sendo sincero, Jongin não achava que o rei conseguisse dar conta de nem ao menos uma, quanto mais quatro.

Como se isso não fosse o bastante, ainda havia a própria Argeen que estava em um humor horrível – o que era compreensível, mas isso não impedia Jongin de querer evitar a sua noiva o máximo possível. E somando a tudo isso a presença constante do General Pearson em sua vida, Jongin só desejava se jogar da torre mais alta de seu castelo. 

Ou seja, se existisse um livro sobre os piores últimos dias antes de uma execução, Jongin com toda certeza estaria em primeiro lugar. Tudo bem que talvez o torneio não fosse exatamente uma execução, mas isso não impedia o coração do príncipe de bater descompassado como se o mundo fosse acabar naquele instante.

Sobressaltou-se ao ouvir uma batida na porta, tão baixa e suave que por um segundo chegou a duvidar que realmente tivesse ouvido. Então, bateram novamente e Jongin levantou-se de seu lugar, caminhando um tanto quanto receoso até a porta de seu quarto. 

Não deveria estar tão alerta, apesar de ser altas horas da noite. Haviam cavaleiros juramentados guardando sua porta o tempo todo e, para eles não terem reagido, deveria ser alguém conhecido ali. Respirou fundo colocando sua melhor expressão de príncipe e abriu a porta esperando ver qualquer pessoa que fosse ali na frente, menos aquela. 

— Mãe? Está tudo bem?

A rainha assentiu olhando para os vários guardas ao seu redor, o queixo erguido em uma pose altiva e adentrou o quarto ordenando que Jongin fechasse a porta, seu olhar recaindo sobre o outro lado dos aposentos onde se encontrava a entrada para o quarto das criadas.

— Elas estão ali? – Perguntou com a voz tão sem emoção quanto o seu rosto.

— Hoje não. Pedi para que me deixassem a sós essa noite. 

A rainha assentiu virando-se para Jongin e toda a expressão rígida que cobria sua face se desfez, em um segundo a mulher estava nos braços de seu filho, abraçando-o de uma forma que Jongin não conseguia se lembrar quando fora a última vez que ela o fizera. 

Na verdade, Jongin não conseguia se lembrar nem ao menos qual era a última vez que esteve a sós com sua mãe em um ambiente ou quando a mulher havia feito algo sem ter sido ordenado pelo rei. Ele não conseguia se lembrar de um dia em que ela não fora apenas a sombra de seu pai. 

— Está tudo bem? Meu pai pediu para que viesse? – Jongin falou soando tão confuso quanto se sentia. 

 A Rainha Junghee afastou-se, um brilho travesso em seu olhar e as mãos inquietas como se ela não soubesse exatamente o que fazer com elas. 

— Não, seu pai não sabe nem que eu vim. – Um sorriso brincou no canto de seus lábios – Me sinto como uma adolescente fazendo algo errado.

Sua confidência havia sido dita em tom de brincadeira, querendo deixar o clima estranho um pouco mais leve, no entanto aquilo apenas pesou no coração de Jongin. Quando se tornara errado que uma mãe visitasse seu próprio filho?

— Eu havia pensado em falar com você amanhã antes do torneio, meu filho, seria um pouco mais dramático do que uma velha senhora se esgueirando pelos corredores no meio da noite… Mas seria mais provável que fossemos ouvidos e eu não quero que mais ninguém participe de nossa conversa. – Sussurrou ela olhando ao redor ainda inquieta, a cada segundo que se passava Jongin achava mais estranho o comportamento da mãe. 

— Meu pai saberá que a senhora veio até aqui, os guardas se certificarão de contar. – Jongin observou oferecendo a poltrona para que a mulher se sentasse, mas ela negou.

— Não apenas seu pai, Jongin. Não é ele o Mestre dos Sussurros desse Reino. – Junghee balançou a cabeça – Mas não vim até aqui falar sobre isso, meu filho. 

Jongin franziu o cenho, confuso. 

— Não deixe ele ganhar, Jongin. Por favor.

— Vou me esforçar para vencer o torneio amanhã, pr-

– Não. – A rainha deu um passo a frente, apoiando as mãos no rosto de seu filho – Não tenho dúvidas de que você vai vencer esse torneio estúpido, não trouxe um filho ao mundo para ele morrer lutando pela mão de uma princesinha de um reino qualquer. – O olhar de Junghee queimava sobre a face de Jongin quando ela deixou uma das mãos deslizar até que estivesse apoiada sobre o braço esquerdo do jovem – Eu soube, Jongin, desde a primeira vez em que te segurei no colo e te vi chorando em meus braços… Você nasceu para governar, para realmente governar. E eu tive a certeza de que estava certa no dia do Festival quando te vi no meio do povo, eu sei que te censurei naquele dia, mas eu sei que você entende o que me levou a fazer isso.

Ela deixou um sorriso triste surgir em seus lábios e Jongin inclinou-se mais aproveitando o carinho tão raro de sua mãe. 

— Sabe o que eu vi naquela noite, filho? Eu vi o melhor Rei de Naharis dançando com um povo que o ama e qualquer pessoa que ouse dizer o contrário, seja ela quem for, estará errada. – O toque suave de sua mão era reconfortante, no entanto Jongin não conseguia evitar um frio na barriga como se algo estivesse fora do lugar – Não deixe que ele vença, filho. Não deixe que ele tire tudo de você como tirou de tantas pessoas. Você é melhor do que ele jamais será.

Com um aperto suave no braço de Jongin, coincidentemente em cima da marca escondida pelas vestes de dormir do príncipe, Junghee se afastou.

— Era tudo o que eu tinha para te dizer, meu filho. Não irei te desejar boa sorte para amanhã porque sei que você irá ganhar, da mesma forma que eu sei que você irá fazer a escolha certa quando a hora chegar. – A rainha colocou-se nas pontas dos pés depositando um beijo suave na bochecha de seu filho, sussurrando uma última frase antes de despedir-se e ir embora. 

E mesmo depois de muito tempo que a rainha saíra, Jongin permaneceu acordado com a frase sussurrada em seu ouvido ecoando como um alarme sinalizando todas as suas preocupações. 

A escolha certa nem sempre é a que faz nosso coração bater mais forte.

 

 

As mãos de Kyungsoo tremiam enquanto prendia as faixas de couro da armadura leve que Jongin usaria. O silêncio naquela tenda era palpável e nenhum dos dois precisava abrir a boca para saberem como o outro se sentia… Era apenas um sentimento gelado de medo e angústia. 

Faltavam poucas horas para o torneio que decidiria o rumo que suas vidas iriam tomar – especialmente a de Jongin. Do lado de fora da tenda, as arquibancadas começavam a se encher de pessoas ansiosas para assistirem o Jovem Príncipe lutar contra o Grande Urso e Jongin torcia internamente para que ninguém que estivesse torcendo por ele se decepcionasse caso ele viesse a perder. 

Jongin deixou seu olhar vagar pela tenda vazia ao seu redor antes de segurar a mão de Kyungsoo quando o escudeiro estava terminando de prender a couraça em seu peito. O príncipe respirou fundo amaldiçoando-se por causar tanto sofrimento a uma pessoa tão incrível como sua alma gêmea, ele não merecia passar por tudo isso.

— Hey, Soo… Olha pra mim. – Pediu fazendo um pequeno bico em seus lábios antes de deixar que os dedos deslizassem pela maçã do rosto de Kyungsoo. Observou cada detalhe da pele alva e a forma como o jovem respirou fundo fechando os olhos para aproveitar a carícia e, quando tornou a abri-los, Jongin sentiu-se arrebatado quase como se estivesse sendo marcado novamente. 

Ele se apaixonava de novo a cada vez que olhava para o universo dentro dos olhos de Kyungsoo. 

O escudeiro abriu um sorriso tímido antes de colocar sobre as pontas de seus pés para alcançar os lábios de Jongin compartilhando com ele tudo o que não precisava de palavras para serem entendidas.

— Vai ficar tudo bem, Nini. – Sussurrou e Jongin assentiu.

— Eu amo você. – A frase saiu tão baixo que se não estivessem tão perto, tão presos em suas emoções e em seu próprio mundo, talvez Kyungsoo não tivesse a ouvido.

— Eu sei. – Kyungsoo respondeu arrancando uma risada do outro e logo sentiu seus lábios sendo tomados novamente. – Eu também amo você.

Jongin sentiu seu coração mais leve depois de ouvir Kyungsoo dizer que o amava. Era bobo, ele sabia, mas não podia evitar de sentir-se a pessoa mais sortuda do mundo quando Kyungsoo confessava seu amor em alto e bom tom.

Naquele momento, Jongin chegou até mesmo a esquecer que enfrentaria a morte frente a frente dali a pouco. Tudo porque ele tinha uma fé quase inabalável de que nada poderia dar errado enquanto tivesse Kyungsoo em seus braços.

Mas logo o momento se partiu e Kyungsoo afastou-se, desvencilhando-se de si segundos antes da cortina ser aberta e o General Pearson entrar. E Jongin sentiu-se subitamente vazio e angustiado tão logo seu escudeiro saiu de seus braços. 

Se o General Pearson notou que algo acontecia ali logo antes dele entrar, o homem não demonstrou. Saudou o príncipe como os costumes ordenavam e ignorou prontamente a presença de Kyungsoo ali antes de dizer em uma voz polida:

— Vossa Alteza, gostaria de oferecer-lhe umas instruções de última hora, se assim me permitir. 

— Claro, General Pearson. Toda ajuda ajuda nesse momento é bem vinda. – Jongin forçou um sorriso antes de apontar para uma cadeira de madeira no canto da tenda, convidando-o a se sentar ali. Sinceramente, Jongin já estava de saco cheio da boa vontade de seu general. 

— Sendo assim, poderia pedir para seu escudeiro servir-nos uma taça de vinho enquanto conversamos?

— Acha prudente eu beber no dia de hoje? – Jongin rebateu tomando o lugar ao lado do General. 

— Uma taça não te fará mal, Vossa Graça. – O General falou.

Jongin desviou o olhar para Kyungsoo parado próximo a eles, olhando sem realmente ver e ouvindo sem de fato escutar, tal como era exigido de todos os funcionários do reino e aquilo trazia em Jongin uma sensação amarga na boca do estômago. Odiava que Kyungsoo tivesse que sujeitar-se aquilo apesar do outro rapaz não parecer se importar. 

Assentiu minimamente e observou a forma ágil que Kyungsoo serviu as duas taças, seu olhar se demorando um pouco mais que o aceitável na bunda marcada pela calça surrada que o outro vestia. O General Pearson pigarreou atraindo a atenção de Jongin de volta para ele. 

— Nós discutimos sobre inúmeras coisas nesses últimos meses, Vossa Alteza, mas tem algo que evitamos falar e não posso adiar mais. – Iniciou ele fazendo uma pausa para arrebatar a taça da mão de Kyungsoo quando o mesmo os serviu – Vossa Graça ainda não foi batizado com sangue. É um príncipe, claro, mas ainda um menino.

— Perdoe-me, General Pearson. Mas o que o senhor veio me dizer momentos antes de uma batalha que pode me custar a vida é que eu sou inexperiente? – Jongin detestou o fato de ter deixado sua voz sair tão indignada, soando próximo a uma criança fazendo birra, e apertou a taça em suas mãos sem beber do líquido que ela continha.

— Claro que não, Vossa Alteza. Apenas vim para te lembrar que o Urso não é um menino. – O General falou sem se deixar afetar pela carranca avermelhada no rosto de seu príncipe – Ele é um cavaleiro livre que já matou mais pessoas do que o número de habitantes das Cidades Baixas, fez coisas tão terríveis que Vossa Graça nem conseguiria imaginar… E ele não terá piedade no torneio de hoje, muito pelo contrário.

— E o que eu posso fazer para lutar contra um cavaleiro como ele? – A voz de Jongin ainda soava ressentida e com uma pitada de sarcasmo.

— Não aja como um menino,Vossa Graça. – O General Pearson deixou um sorriso brincar no canto de seus lábios, como se tivesse dado a resposta para todas os temores do mundo – Vossa Alteza é rápido com a espada como ninguém, move-se com tal agilidade que parece estar sendo levado pelo vento, quase como se estivesse dançando e não brandindo uma arma mortal. Lembra porque escolhemos uma armadura leve de couro, Vossa Graça?

Jongin assentiu. 

— Sua maior força lá não vai ser física, vai ser sua agilidade e a imprevisibilidade de seus movimentos, Vossa Alteza.

— Eu agradeço imensamente pelos elogios e pelas dicas, General Pearson. – Jongin bebericou pela primeira vez a taça de vinho e o líquido lhe pareceu estranho ao paladar, talvez estivesse nervoso demais para beber – Mas não vejo como rapidez e agilidade irá me fazer deixar de ser um menino.

— E não vão. – O General suspirou – Sabe o que te fez perder continuamente para mim enquanto treinávamos, Vossa Alteza? Misericórdia. Vossa Graça possui um coração bom, a vida para você possui um valor inestimável e isso te fazer hesitar todas as vezes… O que é admirável para um rei, mas não para um guerreiro. E um rei precisa saber o momento certo para ser os dois. – O homem abaixou-se para depositar a taça já vazia no chão e em seguida colocou-se de pé – E se Vossa Alteza não deixar seu coração bom do lado de fora da arena hoje e se tornar um guerreiro, será apenas mais um príncipe morto.

 

 

A arquibancada já estava cheia àquela altura do campeonato. Haviam pessoas em pé à frente dela, quase invadindo a arena em que aconteceria o torneio mais aguardado dos últimos anos, e a plataforma onde ambas as famílias reais sentariam-se já havia sido erguida – mesmo que ainda permanecesse vazia. 

Jongin andava de um lado para o outro em sua tenda. Taemin e Sehun haviam acabado de sair dali, desejando boa sorte e ameaçando Jongin caso ele perdesse o torneio – como se ele fosse estar vivo para sofrer a punição, mas era a forma amigável de seus amigos expressarem que o queriam de volta e, de preferência, inteiro.

E agora ele encontrava-se nervoso sob o olhar de desaprovação que Argeen lhe lançava a cada segundo pela escolha daquela armadura, mas sem nada dizer. 

— Diga alguma coisa, Argeen. Esse seu silêncio está me matando. – Jongin falou e sentiu uma onda de medo vindo de sua alma gêmea por aquela escolha de frase, desviou o olhar para Kyungsoo e o viu balançando a cabeça.

— Não quero te distrair minutos antes do torneio… 

— Mas…?

— … Mas eu já o vi cortando a cabeça de um garanhão de guerra com apenas um golpe de espada, no torneio do décimo quinto dia do meu nome o Urso cortou uma pessoa ao meio. – Argeen passou a mão pelas mechas soltas de seu cabelo – E eu te disse isso antes. Por que você escolheu usar isso, meu príncipe?

— Justamente pelo que você disse, Argeen. Se ele consegue cortar alguém ao meio com um golpe de espada, que diferença iria fazer eu estar com uma armadura pesada que só me atrapalharia? – Jongin falou e viu Argeen bufar.

— Acredito que essa discussão não irá ajudá-lo, Vossa Alteza. – Kyungsoo falou olhando para a princesa ainda um pouco tímido, mas consideravelmente melhor do que das primeiras vezes que interagiu com Argeen – Nosso príncipe é rápido, tudo o que ele vai precisar fazer é não deixar que o Urso acerte-o… E eu sei que ele consegue.

Jongin abriu um sorriso de lado. A forma convicta que Kyungsoo dizia que ele iria conseguir, era como uma injeção de coragem e de esperança.

— Eu sei… É só que eu não quero que o Jongin morra e me obriguem a voltar para o meu reino. – Argeen choramingou deixando seu peso tombar sobre a cadeira.

— Só por isso que você não quer que eu morra, é? – Jongin brincou arrancando uma risada da princesa. 

— E por que mais seria? – Ela rebateu e Jongin observou a expressão divertida se transformar em uma de preocupação – Eu não posso te perder também, meu príncipe.

Jongin assentiu sem confiar na própria voz para dizer nada que fosse. Sua pose altiva e falsamente confiante pareceu convencer Argeen, ela levantou-se de sua cadeira e ficou na ponta dos pés para depositar um beijo suave na bochecha de Jongin. Sem nada a dizer, ela saiu da tenda deixando Jongin sozinho com sua alma gêmea. 

E para Kyungsoo ele não conseguia fingir confiança. 

— Ei, olha pra mim. – Kyungsoo falou puxando o rosto de Jongin para o seu, seus olhos castanhos perfurando a pele do príncipe até atingir sua alma. – Todo mundo diz o tempo todo o que você tem que fazer, o que você tem que usar, o que você tem que falar, como você deve se portar… O tempo todo estão apontando suas fraquezas e seus pontos fortes. – Kyungsoo deslizou a mão pelo rosto do Kim em um carinho singelo – Mas, Nini, ninguém te conhece melhor do que você mesmo. Então manda pro inferno todas essas malditas sugestões e entra naquela porra de arena como Kim Jongin, o cara que pode fazer qualquer coisa. Porque você pode, Nini. Eu acredito em você.

Jongin sentiu seus olhos arderem e puxou o rosto de Kyungsoo para cima, selando seus lábios antes que as lágrimas transbordassem por seus olhos. Ele conseguia sentir o medo ali, porém nada gritava mais forte do que o amor e a confiança que Kyungsoo sentia por si.

Ele não perderia aquela luta, nem que a própria Deusa Mãe surgisse e ordenasse sua derrota. 

A trombeta soou do lado de fora da tenda e Jongin sentiu seu coração falhar uma batida, fazendo com que ele quebrasse o contato de seus lábios.

— Eu tenho que ir. – Sussurrou respirando fundo.

— Eu sei. – Kyungsoo sorriu depositando mais um selinho antes de se afastar para pegar a espada de Jongin. 

— Você não vai me desejar boa sorte?

— Não. – Kyungsoo abriu um sorriso travesso – Quem vai precisar de sorte é o Urso, Nini.

Jongin riu e não se conteve em puxar Kyungsoo para mais um beijo, o escudeiro revirou os olhos e virou-se para a entrada da tenda, erguendo a cortina e assentindo de forma encorajadora. O sorriso do príncipe se desfez e ele respirou fundo, focando completamente no que estava por vir e ignorando qualquer emoção que pudesse vir de sua alma gêmea. Ele não precisava de distrações.

O barulho do lado de fora da tenda era ensurdecedor quando Jongin caminhou para o centro da arena ostentando sua melhor pose de príncipe. Ouviu o ofegar quase unânime vindo da arquibancada quando o Urso parou a sua frente, fazendo Jongin entender porque o homem era chamado assim. 

Ele conseguia ser ainda mais alto que o Rei Eddard e seu corpo parecia uma montanha maciça de músculos por baixo daquela armadura pesada. O rosto do homem era coberto por pelos castanhos e os olhos eram quase cobertos pelas espessas sobrancelhas, sua boca parecia curvada em uma carranca de ódio que trouxe um leve arrepio na coluna de Jongin.

Naquele momento, ele realmente se sentia como um menino.

Atrás do homem, seu escudeiro segurava uma espada de duas mãos e um elmo no formato da cabeça de um urso. Tudo parecendo tão grande que fez Jongin se questionar se aquele cara era descendente dos gigantes que habitavam o mundo antes dos Antigos, há milhares e milhares de anos.

Os escudeiros deram um passo à frente e Jongin notou as mãos trêmulas de Kyungsoo quando ele entregou-lhe sua espada leve, quis murmurar qualquer coisa que fosse para tranquilizar sua alma gêmea, mas aquele não era a melhor hora para fazê-lo. Dessa forma, não esboçou nenhuma reação quando Kyungsoo prendeu o escudo em seu braço esquerdo e afastou-se para fora da arena. 

Quando tornou a olhar para a frente, o homem agora parecia de fato um Urso – como se ele já não parecesse antes. O elmo o deixava ainda mais alto e ele segurava com apenas uma mão a espada pesada que meros mortais segurariam com ambas. Jongin não se conteve e revirou os olhos antes de virar-se de frente para a plataforma, o Urso fez o mesmo. 

A multidão pareceu prender a respiração quando os reis colocaram-se de pé e, quase instantâneamente, o homem ao seu lado jogou-se sobre um joelho apoiando a espada no chão em uma reverência extremamente exagerada – na opinião de Jongin, é claro. O resto das pessoas na arena logo fizeram o mesmo, exceto por Jongin.

Um príncipe nunca se curvava na presença de outro rei. 

O Rei Eddard soltou uma gargalhada alta que ecoou por todo o local antes de voltar a se sentar, não demorou para o Rei Jongwoon fazer o mesmo, mas não sem antes lançar um olhar afetado para Jongin quase como se ordenasse a vitória do filho… Ou desejasse sua morte. O príncipe nunca fora muito bom em ler as expressões do pai.

O som da segunda trombeta ecoou por todo o ambiente e Jongin não ouviu mais nada depois daquilo, todos os seus sentidos concentrados unicamente na montanha maciça de músculos que agora partia para cima de si.

 

 ⚔

 

 Argeen estava sentada entre Taemin e Sehun, uma plataforma abaixo de onde os reis e as rainhas estavam. O Urso parecia maior do que alguém tinha o direito de ser e Jongin… Ah, Jongin parecia uma criança ao seu lado. E ainda havia aquela maldita armadura que escolhera. Não, armadura não. Cota de malha, couro flexível, seda esvoaçante e mais algumas outras coisas que não dariam um quarto da proteção da armadura pesada do Urso.

Quando Hotah avançou para cima de Jongin, a princesa sentiu o chão tremer e demorou poucos segundos até se dar conta que na verdade era apenas seu coração batendo tão rápido que parecia prestes a sair do seu peito. Tão suave quanto uma brisa, Jongin girou para o lado e a espada do Urso cortou o vento atrás de si.

Argeen já havia assistido diversos treinos de Jongin, mas nenhum se comparava com aquele. A forma como ele se movia, quase como se estivesse dançando, era bela demais para estar em uma situação como aquela. O príncipe não vacilava em seus ataques e muito menos em suas defesas, no entanto Hotah parecia prever o que estava por vir, parando golpe atrás de golpe com seu escudo pesado.

Hotah rosnou alguma coisa que foi abafada pelo som das espadas se chocando, Jongin caiu no chão pelo impacto e Argeen sentiu seu coração vir até sua boca enquanto observava a espada gigante descendo de encontro ao corpo caído de seu príncipe.

Os dedos esguios de Taemin contornaram sua mão e só naquele momento ela percebeu o quanto tremia, ela não podia assistir Jongin morrer e, no entanto, não conseguia desviar os olhos.

Quase como se fosse brincadeira de criança, Jongin rolou para o lado e a espada atingiu o chão. Antes que o Urso pudesse tornar a erguê-la, o Kim golpeou-o na parte de trás do joelho, exatamente em um dos locais desprotegidos pela armadura. Hotah vacilou por um momento e rugiu de dor antes de brandir a espada mais uma vez na direção de Jongin, mas o príncipe não estava mais ali.

Ele fazia um bom uso de seu tamanho pequeno em comparação ao seu adversário e, mais ainda, da visão limitada do Urso devido ao elmo enorme. Jongin golpeava e saltava para trás antes que pudesse ser atingido, em seguida girava para as costas de Hotah e depois girava de novo e de novo, mantendo-se longe demais do alcance da espada do Urso e utilizando dos pontos cegos para não ser atingido por tantos golpes.

Permaneceram dessa forma pelo que pareceu um longo período, dançavam em espiral de um lado para o outro da arena e, então, Argeen começou a notar que Hotah já não erguia a espada tão alto quanto antes e seus golpes pareciam mais lentos. Jongin havia conseguido cansá-lo, o que não era surpreendente quando pensava na tonelada de metal que o Urso carregava naquela armadura.

A luta parecia se estender por horas já e, quando notou que o sol começava a baixar, Argeen apertou ainda mais forte a mão de Taemin, sentindo o suor que desprendia-se da pele do outro se misturando com o seu próprio. Ela observou o exato instante que Jongin girou mais uma vez, colocando-se de frente para o sol e erguendo seu escudo já todo destroçado, os raios solares bateram no metal e refletiram diretamente na fenda do elmo do Urso, cegando-o, e ele ergueu o próprio escudo apenas para proteger seus olhos. Foi o suficiente para que Jongin saltasse, avançando com tudo o que tinha e a espada erguida, pronta para perfurar a garganta de seu adversário.

Entretanto, o Urso não era um amador. Talvez ele tivesse previsto o ataque ou ele ainda fosse rápido demais, não importava exatamente como havia acontecido. Mas a grande questão é que Hotah ergueu sua espada atingindo a lateral em cheio em Jongin e fazendo-o voar longe com seu escudo se partindo de vez e sua espada caindo a vários metros de si.

Argeen achou que aquele tinha sido o fim e sentiu seu coração parar, apertando tanto os dedos de seu amigo que uma pequena parte de si se preocupou que talvez pudesse quebrá-los. Todos os espectadores pareceram prender a respiração à medida que Hotah caminhava até o corpo caído, mancando pelo golpe que o atingira por trás do joelho anteriormente, mas ainda assim confiante de sua vitória porque Jongin não se mexia.

Hotah, o Urso, parou logo acima de Jongin, com uma perna de cada lado de seu corpo, e ergueu a espada com ambas as mãos, pronto para perfurar o príncipe ao meio e, antes que o fizesse, gritou para que todos pudessem ouvir:

— Pela honra da Princesa Marjorie Argeen Ealhburh, eu declaro o Príncipe Jongin indigno de sua mão.

E desceu a espada.

Se havia algum cético naquela lugar, Argeen tinha certeza que todos passaram a acreditar ao ver a glória da Deusa Mãe manifestada no meio daquela Arena. Jongin moveu seu corpo apenas alguns centímetros para o lado, o suficiente para que a espada se cravasse no chão quase encostando em seu abdômen e também o suficiente para que suas mãos alcançassem seu alvo.

Tudo aconteceu tão rápido que nem ao menos o Urso conseguiu desviar antes que as mãos de Jongin segurassem sua perna, bem em cima do ferimento que ele abrira anteriormente por trás do joelho do outro. Argeen não sabia que Jongin tinha força o suficiente para isso, mas surpreendentemente o corpo de Hotah vacilou e perdeu o equilíbrio indo direto para o chão.

E teria caído em cima de Jongin se o príncipe não tivesse sido rápido o suficiente para girar seu corpo novamente e, em questão de segundos, o jogo havia virado. Jongin montou sobre o Urso e alcançou a espada enorme, enterrando-a de uma vez na brecha que havia entre o elmo e a armadura.

Com certo horror, Argeen observou Jongin colocar-se de pé, tirando a espada do pescoço de Hotah, e viu o sangue jorrando enquanto as mãos do campeão do reino Banshee tentavam inutilmente parar o sangramento.

— E eu declaro Hotah, o Urso, apenas mais um cadáver. – A voz de Jongin chegou em seus ouvidos, gélida como ela nunca havia ouvido.

E o príncipe desceu a espada mais uma vez, tão certeiro que a cabeça de Hotah rolou para o lado.

Jongin virou-se de frente para a plataforma e Argeen o viu. Ele não estava tão sujo de sangue quanto era o esperado e ostentava uma expressão séria, rígida, assim como uma postura confiante, mas ainda assim ela conseguia ver o pânico gritando em seus olhos e aquilo a estilhaçou por dentro.

A multidão começou a aplaudir, gritar pelo nome de Jongin. Os reis se colocaram de pé e o Rei Eddard aplaudia feliz demais para alguém cujo o melhor campeão havia acabado de morrer.

O Rei Jongwoon desceu da plataforma, o fantasma de uma sorriso brincando em seus lábios e Argeen se questionou se aquele homem ainda se lembrava como era sorrir. Todos se calaram quando o Rei parou em frente a Jongin e a voz do mais velho ecoou por toda a arena:

— Hoje o Príncipe Kim Jongin não apenas provou sua honra diante de todos nós e mostrou-se merecedor de receber a mão da Princesa Marjorie Argeen. – O Rei agachou-se em frente ao corpo de Hotah e pousou sua mão onde outrora estava a cabeça, quando tornou a se levantar o sangue pingava de suas mãos – Hoje o Príncipe Jongin provou-se abençoado e merecedor de assumir o trono. Por isso, com a bênção dada a mim pelos sacerdotes e pela Deusa Mãe, eu marco a transição do menino para um guerreiro.

Argeen sentiu uma lágrima escapar de seus olhos e o estômago se revirar em repugnância quando viu o Rei deslizar sua mão suja de sangue pelo rosto de seu filho. Jongin se encolheu um pouco, mas não o suficiente para que as pessoas da arena vissem o quão machucado ele estava.

— Salvem Kim Jongin, o Primeiro de Seu Nome e deem graças a Deusa Mãe pelo seu Batismo com Sangue.

Argeen soltou a mão de Taemin e se levantou sem nem ao menos ouvir as palmas e os gritos. Ela queria chorar, ela queria gritar e, enquanto se afastava a passos largos, avistou Kyungsoo com o rosto tão branco e as lágrimas caindo incessantemente por seu rosto enquanto todo o seu corpo tremia.

E ela soube que aquele era o reflexo de como Jongin realmente estava se sentindo.

 

 

Kyungsoo sentia seu coração dilacerado quando parou em frente a porta do quarto de Jongin. Quando o batismo com sangue terminara, Jongin prestara as devidas reverências e então praticamente correra para seu quarto onde não havia deixado ninguém entrar. O Do sabia muito bem como o príncipe estava se sentindo, vivenciara praticamente toda a luta pelos olhos do outros, sentira a dor de sua alma gêmea quando ele viu o que havia feito e sentiu, acima de tudo, o nojo de si próprio quando o Rei esparramara o sangue por seu rosto.

Jongin era um bom homem, Kyungsoo sabia. E sabia também que matar uma outra pessoa havia levado uma parte de si.

— O príncipe não deseja ver ninguém. – Um dos guardas disse e Kyungsoo suspirou.

— O Rei mandou que eu viesse até aqui. – Kyungsoo respondeu sem deixar sua voz se alterar – O escudeiro deve sempre seguir seu senhor.

Observou os guardas se entreolharem e então darem um passo para o lado deixando que Kyungsoo se aproximasse da porta. Meio receoso, ele bateu duas vezes e esperou.

— Achei que eu tinha dito que não queria ver ninguém. – A voz de Jongin soou abafada de dentro do cômodo e Kyungsoo engoliu em seco sem conseguir identificar uma emoção em específico no meio da enxurrada de sentimentos que o preenchia.

— O Rei mandou que eu viesse. – Kyungsoo respondeu e fez uma pequena prece para a Deusa Mãe.

Jongin demorou algum tempo até falar novamente, os guardas o encaravam como se dissessem “eu avisei” e Kyungsoo estava quase desistindo e indo embora quando finalmente ouviram:

— Entre.

Kyungsoo abriu a porta e entrou no aposento, fechando-a atrás de si, e o que viu partiu seu coração em mais pedaços do que poderia contar.

Jongin estava sentado na ponta de sua cama, olhando o vazio a sua frente e o rosto sem demonstrar nenhuma das emoções que fervilhavam dentro de si. Ele ainda não havia retirado a armadura ou ao menos limpado todo o sangue que o cobria quase por inteiro.

Kyungsoo ajoelhou-se em sua frente e puxou o rosto de sua alma gêmea para que ele olhasse para si, seus olhos transmitiam tudo o que se passava em seu interior e era tão óbvio o quanto o outro estava destruído.

— Nini… – Ele não sabia o que dizer.

— Eu matei uma pessoa. – Jongin sussurrou e ele não parecia olhar para Kyungsoo mesmo que seus olhos estivessem sobre ele.

— Você não teve escolha, Nini. – Kyungsoo procurou sua mão e a apertou – Essa batalha não muda quem você é, Nini, ela não muda nada.

— Ela muda tudo, Kyungsoo.

O escudeiro tentou não se sentir afetado por ouvir seu nome dito inteiro ao invés do apelido.

— Era uma vida, talvez ele tivesse uma família esperando por sua volta e eu arranquei a cabeça dele como se fosse… Como se não valesse nada. – O lábio inferior de Jongin tremeu sutilmente.

— Ele iria fazer o mesmo com você, Nini. Não se culpe, a morte é apenas parte do ciclo da vida. – Ele fez uma pausa apertando mais a mão de seu amado.

— Eu sei… Mas… – Jongin balançou a cabeça sem conseguir colocar em palavras o que estava pensando.

Mas Kyungsoo sabia. Não precisava compartilhar um laço para saber o que se passava na mente de Jongin naquele instante.

O sangue de quantas outras pessoas vai estar em minhas mãos quando eu me tornar rei?

— Você agiu da melhor forma possível, Nini. – Kyungsoo se levantou e puxou sua mão – Venha, você precisa se limpar.

Jongin apenas deixou-se levar. Ele não disse uma palavra enquanto Kyungsoo preparava a água ou ajudava-o a retirar as vestimentas. Não soltou nenhuma exclamação de dor quando a água morna entrou em contato com os ferimentos abertos ou soltou uma de suas piadinhas quando Kyungsoo começou a limpá-lo. Ele era apenas um corpo ali.

— Soo, eu… – Ele começou a dizer assim que saiu do tonel de banho e Kyungsoo começou a secá-lo com uma toalha.

— Sim?

Jongin inclinou-se e depositou um beijo casto nos lábios do mais baixo. Quando se afastaram, Kyungsoo viu uma lágrima solitária escorrendo pelo rosto do príncipe e ele nem se importou em secar antes de dizer baixinho:

— Eu amo você.

 

 

Jongin sentia-se exausto. Seu corpo ainda tinha os hematomas e os machucados meio cicatrizados do torneio de alguns dias atrás, e agora também havia algumas marcas roxas causadas pelos lábios que ele tanto amava. Abriu um sorriso de lado puxando o corpo menor para mais perto e afundando seu rosto na curva do pescoço de Kyungsoo. Estavam em seus aposentos naquela tarde e Jongin havia dado o resto de dia de folga para suas criadas – e teria liberado os guardas também, mas sabia que ele não poderia ficar desprotegido. 

 — Eu preciso ir, Nini. – Kyungsoo falou mesmo que seus braços ainda estivessem firmemente em torno de Jongin.

— Você podia passar a noite… – A voz de Jongin ecoou de forma manhosa pelo quarto enquanto ele fazia um biquinho.

— Você já pensou no que os outros iriam dizer? – Kyungsoo riu – Até porque você já anda um tanto negligente com suas obrigações desde o torneio…

Jongin deu de ombros sem se importar e não falou nada, sabia que estava fugindo de suas obrigações como príncipe e nem ao menos andava se incomodando em comparecer aos jantares. O castelo estava cheio e havia banquetes todos os dias, que diferença faria sua presença? Ele preferia gastar seu tempo aproveitando a companhia de sua alma gêmea do que com aqueles burgueses idiotas.

E ele sabia bem que Kyungsoo andava perdendo seu sono com medo de estarem sendo descuidados demais e também preocupado pelo que o futuro reservava, mas ainda assim nenhum dos dois ousava citar o casamento que ocorreria no final daquela semana.

A grande verdade é que Jongin não sabia o que pensar ou o que fazer, então ele havia decidido, no dia do torneio quando Kyungsoo lhe dava banho, que apenas ia se deixar levar pela maré. Ele estava cansado de correr atrás do vento, de respostas que talvez não conseguisse encontrar… Então por que não aproveitar o momento e deixar para lidar com o futuro quando ele chegasse?

Kyungsoo suspirou em seus braços e se sentou, deixando um olhar pesaroso cair sobre a cama como se desejasse voltar para ali. Quase como para provocá-lo, ou melhor, literalmente para provocá-lo, Jongin retirou devagar o cobertor de pele que o cobria e expôs seu corpo nú. Kyungsoo balançou a cabeça rindo descrente enquanto seu olhar passeava por toda a extensão da pele morena do príncipe até parar naquele maldito sorriso de canto de lábios.

— Não vai funcionar. – Ele falou erguendo um dedo em riste.

— O que não vai funcionar, Soo? – O sorriso de Jongin cresceu um pouco mais em seu rosto como se fosse uma criança travessa e deixou que sua mão preguiçosamente alcançasse o membro entre suas pernas.

E soube que havia ganhado mais aquela batalha quando Kyungsoo subiu em cima de si beijando-o ferozmente.

 

 

Era véspera de seu casamento e Jongin não conseguia parar de andar pelo quarto. Durante todo o dia havia evitado ver Kyungsoo ou Argeen ou algum de seus amigos, tudo o que queria era ficar sozinho e talvez arquitetar um plano para fugir.

Ele não queria se casar, isso era óbvio.

Mas ele ainda queria ser um rei.

Sem conseguir pensar em uma resposta para sua vida e sentindo-se sufocado, Jongin fez a única coisa que ele achou que nunca iria fazer.

Ajoelhou-se na beirada de sua cama e rezou aos céus para que um milagre acontecesse.

No entanto, quando tornou a levantar-se, tudo ainda parecia dolorosamente igual.

Suspirou jogando-se em sua cama sentindo-se perdido. Por que as coisas não poderiam ser mais fáceis? Em algum ponto em sua mente, conseguia captar a preocupação e a aflição vinda de Kyungsoo, quase como um reflexo de como ele próprio se sentia.

O som de alguém batendo à porta o fez resmungar mal humorado. Ele havia deixado bem claro para os guardas que não queria de forma nenhuma ser incomodado, mas ainda assim havia alguém interrompendo seu momento de autopiedade e mau humor.

— Inferno! – Xingou se colocando de pé quando bateram de novo.

Abriu a porta com brutalidade dando de cara com Taemin o encarando do outro lado com uma sombra de sorriso nos lábios e a mão erguida como se estivesse prestes a socar a porta de novo.

— Eu disse que não queria ser incomodado. – Jongin resmungou encarando os guardas sem se importar com o fato de estar parecendo uma criancinha mimada.

— Só cala a boca. – Taemin retrucou doce como sempre o empurrando para dentro dos aposentos e fechando a porta atrás de si. – Eles não tem culpa de você ser um covarde idiota que se esconde no quarto na véspera de seu casamento.

— Eu não estou me escondendo. – Jongin jogou-se na poltrona com um bico emburrado formando-se em seus lábios – Mas enfim, o que diabos você veio fazer aqui?

— Me certificar que você não iria fugir. – Taemin serviu uma taça de vinho sentando-se na ponta da cama, seus movimentos fluidos e graciosos como se ele simplesmente flutuasse pelo ambiente.

— Eu não vou… – Jongin suspirou levantando-se para sentar ao lado do amigo.

— Mas…? – A voz de Taemin saiu mais suave e ele puxou Jongin para que o príncipe se deitasse em seu colo. Fazia algum tempo desde que os dois ficaram daquela forma.

— Mas eu não quero me casar.

— Eu sei. – Taemin respondeu levando seus dedos até os cabelos sedosos do amigo ao mesmo tempo que bebia um gole de seu vinho.

— O que eu faço, Tae?

— Você se casa, Jongin. – Taemin falou como se fosse a coisa mais simples do mundo – Não pela Argeen e muito menos por aquele escudeiro por quem você se diz apaixonado, você se casa amanhã pelo seu povo. Pelo seu reino.

— E viver uma vida infeliz? – Jongin sentiu os olhos queimando e ele os fechou, não iria chorar na frente de Taemin.

— E o que é a felicidade se não um jeito que as pessoas acham de nos manipular? – Taemin riu baixinho — Você vai encontrar sua felicidade, Jongin. Pode não ser onde você esperava, mas você vai.

— Como você pode ter tanta certeza? – O príncipe ergueu seu olhar até alcançar o rosto do amigo e o viu balançar a cabeça.

— Eu apenas sei.

E Taemin abriu aquele sorriso de lado, como se soubesse todos os segredos do reino, antes de levar a taça aos lábios e beber um longo gole de seu vinho.

— Agora eu preciso ir, Jongin. – Ele respirou fundo – Ainda tem mais uma reunião hoje sobre seu casamento, não posso me dar ao luxo de me trancar nos meus aposentos…

Jongiu revirou os olhos levantando-se antes de se dar conta de uma coisa.

— Espera, por que você está participando das reuniões? 

— Meu pai é um homem velho, Jongin, e ele está cansado. – Taemin deu de ombros dirigindo-se a porta sem realmente responder a pergunta.

Já com a mão na maçaneta, Taemin parou e encarou Jongin.

— O quanto você ama o seu povo?

Jongin soltou uma risada anasalada sem entender a pergunta e observou Taemin piscar demoradamente ainda com a mão sobre a maçaneta.

— Por que essa pergunta agora?

— Porque é essa pergunta que você terá que fazer todos os dias da sua vida enquanto estiver no poder.

O príncipe franziu a sobrancelha sem conseguir entender onde o amigo queria chegar.

— Eu amo meu povo, Taemin. – Jongin balançou a cabeça ainda sentindo-se confuso.

— Mais do que ao seu escudeiro?

A voz de Taemin foi como uma espada enfiada diretamente em seu estômago e Jongin sentiu um gosto amargo subir por sua garganta sem conseguir de fato responder.

— Isso não faz sentido. – Retrucou passando a mão pelos fios de seu próprio cabelo e observou Taemin balançar a cabeça.

— A resposta deveria ter sido “sim”. 

E sem nenhuma sombra de sorriso nos lábios, Taemin girou a maçaneta e saiu dos aposentos.

 

 

Era tarde da noite e Jongin não conseguia dormir. Não havia nenhuma estrela ou nenhuma constelação presente no céu para acalmá-lo e, pela primeira vez, focar em Kyungsoo o deixava ainda pior. Talvez por isso tenha decidido beber sozinho em seu quarto porque ele já havia se acostumado o suficiente com a ligação entre ele e Kyungsoo para saber que o álcool anestesiava o laço.

Ou seja, quanto mais bebesse menos teria que lidar com os sentimentos desesperadores transbordando de sua alma gêmea e se juntando aos seus próprios.

Suspirou apoiando suas costas na parede pensando em tudo o que havia acontecido nos últimos meses e na conversa bizarra que teve com Taemin poucas horas antes. Perdido demais em sua própria miséria, Jongin assustou-se mais do que o esperado quando a porta de seu quarto abriu de súbito e seu pai entrou. Sem nenhum anúncio. Nenhum aviso. Apenas adentrou os aposentos como se fosse os dele.

— Deveria ter batido antes, pai. – Jongin falou revirando os olhos tentando controlar seus batimentos cardíacos acelerados.

— Eu não vim até aqui para ouvir suas gracinhas, Jongin. – O Rei Jongwoon rosnou respirando fundo.

— Então por que veio? – Jongin revirou os olhos sentindo-se um mais sóbrio do que minutos antes.

— Justamente para colocar um fim nelas. – Seu pai deu um passo à frente e Jongin amaldiçoou-se por ter afastado-se um pouco.

Mas a grande verdade era que o pai de Jongin ainda o apavorava para caralho.

— Eu sei que você estava acostumado com sua vida boêmia e achava que nada teria consequências. – O olhar de Jongwoon era frio, cortante – Ou você acha que eu não sabia de suas idas aos puteiros ou esse envolvimento com Do Kyungsoo?

Ouvir o nome de sua alma gêmea sendo proferida pela boca imunda de seu pai foi como um tapa na sua cara e Jongin sentiu uma fúria crescer em seu peito.

— Eu não sei do que o senhor está falando. – Ele retrucou pressionando os lábios contra o outro.

Para sua surpresa, seu pai riu. Um riso tão morto e gelado como tudo o que parecia vir do rei.

— O que eu estou te dizendo, Jongin, é que seja lá o você achava que tinha com esse escudeiro, acabou agora. – Seu pai aproximou-se ainda mais e, dessa vez, Jongin forçou-se a ficar no mesmo lugar. – Essa é a última chance que eu estou te dando.

Jongin sabia que estava passando dos limites quando ergueu o queixo em desafio notando pela primeira vez que ele era mais alto que seu pai, mas daquela vez ele não estava disposto a abaixar a cabeça e acatar a vontade do mais velho.

Em breve ele seria rei e talvez estivesse na hora de agir como um.

— Ou então o quê? – Ele retrucou dando um passo à frente – Em uma semana eu vou ser coroado rei e você? Acho que está na hora de aceitar que seu reinado acabou e-

O choque doeu mais do que o peso da mão de seu pai sobre seu rosto. Jongin levou a mão ao ardor em sua bochecha sem tirar os olhos da face impassível de seu pai. E ele até gostaria de dizer que ficou assustado ao sentir os dedos molhados de sangue ao encostar no corte em seu rosto, mas havia estado naquela situação muitas vezes quando era mais novo e sabia que o corte era causado pelo anel tão característico de Kim Jongwoon.

— E acho que está na hora de você se colocar no seu lugar e entender que meu reinado nunca vai acabar.

 

 ⚔

 

Kyungsoo havia se sentido mal o dia todo, um sentimento entre a melancolia e a sensação de que seu mundo estava desabando. Sua alma gêmea iria se casar no dia seguinte e ele estava tão perdido quanto no dia em que recebera sua marca. Ele não idiota ao achar que Jongin iria desistir de tudo por ele e nem era justo ele exigir algo do tipo.

O sentimento de desolação só crescera e se intensificara no decorrer do dia, e sabia que isso tinha algo a ver com o fato de Jongin ter passado o dia todo no quarto remoendo sobre o futuro. Mas não havia mais nada a se pensar.

Talvez Kyungsoo realmente devesse deixar de lado todos os seus sonhos e princípios para se tornar o amante. Talvez ele devesse se submeter a essa situação e observar o casamento dos novos Rei e Rainha. Quem sabe até não seria ele a cuidar dos príncipes e princesas que nasceriam?

Seu estômago se revirou ao imaginar Jongin e Argeen juntos.

O peso em seus ombros só aumentou à medida que o dia passava e, quando a noite chegou, sentiu um misto de raiva e confusão vindo de Jongin. Naquele momento, começou a pensar que talvez algo estivesse errado. Porém, foi apenas quando sentiu-se inebriado e as emoções vindas de sua alma gêmea ficaram mais letárgicas, que Kyungsoo realmente sentiu-se sem chão.

Fazia muito tempo que Jongin não bebia.

Revirou-se em sua cama dura e fria, sentindo uma falta absurda do calor do corpo de Jongin e quis chorar como nunca antes havia feito por causa de outra pessoa.

E teria se submergido em suas próprias emoções se uma tempestade de sentimentos não tivessem o invadido de uma vez.

Ódio.

Medo.

Tristeza.

Repugnância.

Emoções fortes o suficiente para que Kyungsoo conseguisse ver flashes do que se passava do outro lado do laço, mas não o bastante para vivenciar a cena em si.

Mas Jongin estava com seu pai. E as coisas não pareciam nada boas.

Kyungsoo tentou pensar em coisas positivas, coisas que transmitisse calma para o príncipe. No entanto soube que havia falhado miseravelmente quando foi dominado por uma emoção tão forte que ele viu-se no corpo de Jongin.

E ele estava furioso como nunca havia estado antes.

— E como eu disse, essa é minha última chance para você. Ou você termina tudo com aquele escudeiro ou eu vou lidar com isso.

Ao contrário do que Kyungsoo teria feito, Jongin encarou o rosto do Rei sem nem ao menos piscar e com uma frieza que não lhe pertencia, falou:

— Por quê?

O rei franziu a testa por um segundo demonstrando que seu rosto não estava congelado em uma eterna expressão de desprezo.

— Por que você veio até aqui? – Apesar da voz firme e fria, Kyungsoo conseguia sentir o desespero crescendo dentro do coração de seu príncipe a medida que uma linha de raciocínio se formava. – Vir aqui me ameaçar na véspera do meu casamento ao invés de simplesmente mandar alguém fazer o serviço de uma vez… Não parece seu estilo, Majestade. – Um frio percorreu a coluna tanto de Jongin quanto de Kyungsoo com a insinuação na voz do próprio príncipe – Por que simplesmente não mandou que o matassem?

O Rei soltou o ar devagar por seus lábios quase em uma risada cansada.

— Até mesmo um Rei deve pagar suas dívidas.

Um peso gelado caiu no peito de Jongin – e foi como se Kyungsoo também estivesse sentindo, eles eram apenas um naquele momento. A fúria sendo substituída por um sentimento desesperador que eles ainda não conseguiam nomear.

Um fantasma de um sorriso passou pelos lábios de Jongwoon, tão rápido que poderia ter sido fruto de sua imaginação, e começou a caminhar pelo quarto. A voz saindo em um tom quase monótono quando disse:

— Sabe, Jongin? Desde que vocês eram crianças e eu os via brincando pelo castelo, sempre achei que o futuro Senhor da Moeda fosse o mais inteligente dos três. – Ele parou em frente a mesa de canto onde estava a jarra de vinho — Mas no fim todos têm seu preço.

— Você está dizendo que o Taemin… – Jongin engoliu em seco sem conseguir terminar a frase.

— Ele vendeu sua alma, Jongin, como todos hora ou outra acabam fazendo. – Os olhos do rei brilharam de um jeito estranho enquanto caminhava para a porta – Talvez você devesse agradecê-lo por esse teatro ter chegado tão longe, mas como todos sabem… Todo ato tem seu fim.

Jongin piscou os olhos ainda sem acreditar e Kyungsoo apenas queria abraçá-lo em conforto porque, agora, estava óbvio qual era a emoção que não conseguiam nomear.

Traição.

 

 ⚔

 

Taemin nem ao menos interrompeu seus movimentos quando a porta foi aberta com certa brutalidade e Jongin entrou. Mesmo que Kyungsoo não conseguisse ver o rosto de sua alma gêmea, ele ainda estava submerso demais no turbilhão de sentimentos que assolavam Jongin para que conseguisse sair de sua mente e tudo aquilo devastava seu coração.

Entretanto, de todos os sentimentos que transbordavam do laço diretamente para ele, o que mais machucava Kyungsoo era a esperança que Jongin tinha na fidelidade de seu melhor amigo.

— Foi você. – Jongin praticamente cuspiu as palavras no mesmo instante que Taemin erguia os olhos da taça que enchia.

Ele arqueou as sobrancelhas e um maldito sorriso brincou no cantou de seus lábios.

— Sabe, Jongin… Se você está me acusando de algo, precisa ser mais específico. – Não havia oscilação nenhuma em sua voz, era quase como se ele estivesse esperando por aquele confronto e isso fazia a esperança em Jongin diminuir.

— Eu confiei em você, Taemin. – Por outro lado, a voz de Jongin soava quebradiça. – E você tramou com meu pai pelas minhas costas, você… Você…

— Imagino que tenha sido ele que machucou seu belo rosto na véspera de seu casamento. – Taemin suspirou bebendo um gole de vinho.

Jongin não disse nada e Kyungsoo conseguia imaginar sua expressão derrotada, o corte no rosto e os olhos inchados pelo choro recente.

— Olha, Jongin, eu não sei o que ele te disse, mas eu não fiz nada que pudesse te machucar ou machucar seu escudeiro. Eu prometo.

— Então você promete que você não tem porra nenhuma a ver com nada que está acontecendo? – Jongin riu sem humor nenhum e passou as mãos em seus cabelos – Você quer saber o que meu pai disse? Quer? Ele disse que vocês fizeram um acordo, que você se vendeu para ele e…  – O rosto de Jongin se contorceu em desprezo e ele balançou a cabeça – Você pode me prometer que ele estava mentindo, Taemin?

Por um momento os olhos de Taemin apenas esquadrinharam o rosto de seu amigo antes dele levar a taça novamente aos lábios. Lentamente, como se tivesse todo o tempo do mundo, Taemin caminhou até uma poltrona e se sentou, cruzando as pernas e tombando sua cabeça para o lado, os olhos fixos na bagunça que seu melhor amigo de infância estava.

— Ele não mentiu, Jongin. Se conheço bem o seu pai, poderíamos até dizer que vendi minha alma ao diabo. – Taemin umedeceu os lábios e, de repente, Jongin se deu conta que não reconhecia mais a figura à sua frente. – Mas não da forma como você está imaginando.

Jongin balançou a cabeça e passou as mãos nervosas novamente em seus cabelos sem nem ao menos se preocupar com as lágrimas que voltavam a cair e tudo o que Kyungsoo queria era ter alguma forma de acabar com aquele sofrimento.

— Eu confiei em você. – Jongin repetiu sem saber o que pensar ou falar, nunca havia provado o amargo gosto de ser traído por alguém que amava com sua própria vida.

— Deixe-me explicar, irmão. – Taemin falou suspirando mais uma vez, parecendo mais cansado e mais velho do que o esperado para sua verdadeira idade – Existe mais coisas por trás de toda essa história do que você imagina, não é simplesmente questão de eu ter te traído ou não.

— Então o que é? – Jongin rosnou – Porque para mim parece bem simples, no final todos querem a porra do poder e do dinheiro que só a droga de um rei pode te dar.

— O título de rei não é tão valoroso quanto você pensa, Jongin. – Taemin bebeu outro gole de seu vinho. – Mas vamos por parte, tem algumas coisas que você precisa saber antes e talvez queira se sentar.

Jongin balançou a cabeça em negativa.

— Não? Okay. – o outro mordeu o lábio inferior antes de prosseguir – Como posso dizer isso sem parecer grosso? Vejamos, o seu pai tentou matar Kyungsoo duas vezes. Uma no bosque, em um riacho atrás da casa dele onde o amor da sua vida, ou seja lá o que vocês são, costuma tomar banho. E a outra vez foi na Semana de Caça… – O Lee soltou o ar devagar por entre seus lábios – É, até que não foi tão difícil de dizer.

Kyungsoo e Jongin sentiram um arrepio percorrer por sua coluna simultâneamente.

— Só tem um erro em toda essa história, Taemin. – Jongin engoliu em seco – Meu pai sempre consegue o que quer, ele não tenta nada.

— Teoricamente, sim. Mas é difícil conseguir concluir algo quando sempre tem alguma coisa frustrando seus planos. – Taemin girou a taça vazia entre seus dedos franzindo leventemente as sobrancelhas como se estivesse confuso com algo – No entanto, nem eu saberia dizer o que salvou Kyungsoo da primeira tentativa, talvez sorte? Não sei.

Jongin esfregou seus olhos sentindo-se subitamente cansado de toda aquela merda e de todas as voltas que Taemin dava ao invés de ir direto ao ponto.

— Eu só fui me envolver de verdade na Semana de Caça, Jongin. Chegaram até mim alguns sussurros que diziam que Lorde Solomon seria o responsável pelo acidente que mataria seu doce e amado Kyungsoo. Uma jogada de mestre, se me permite dizer, quem iria questionar as atitudes de um nobre sobre a morte de um plebeu qualquer? Ninguém faz nenhuma pergunta sobre as atitudes de quem tem poder. – Taemin colocou-se pé até alcançar sua jarra de vinho e servir-se de mais uma taça.

— Então foi você? O responsável pela morte do Lorde Solomon? – Jongin balançou a cabeça deixando-se cair em uma outra poltrona do quarto, lembrando-se de terem interrompido a Semana de Caça mais cedo devido ao terrível acidente que acontecera com o lorde onde um javali rasgara sua barriga.

— Incrivelmente não… Sei que talvez você não acredite, mas eu prefiro resolver meus assuntos de um jeito menos… Sangrento. O ataque de javali foi sorte também – Taemin abriu um sorriso de lado, as bochechas um tanto vermelhas sinalizando o quanto ele provavelmente já estaria alcoolizado. – Durante esses meses que tenho cuidado de vocês percebi que isso é algo que vocês dois têm de sobra, sabe? Sorte… Se existe uma Deusa Mãe em algum lugar, definitivamente ela está do lado de vocês.

Jongin não respondeu deixando sua cabeça tombar em suas mãos, o cansaço crescendo de tal maneira que por um momento Kyungsoo quase sentiu a conexão se rompendo.

— Ainda não entendi onde você quer chegar, Taemin. – Jongin balançou a cabeça – Você disse que fez um acordo com meu pai, mas ainda não falou nada sobre isso.

— Eu fiz uma troca, irmão. Ofereci meus serviços para o Rei Jongwoon e em troca, ele me garantiu a vida de sua alma gêmea.

A esperança no peito de Jongin cresceu um pouco com aquela frase, mas a angústia e todos os outros sentimentos ainda eram maiores. Como poderia confiar em Taemin depois de tudo?

— E o que você ganha com isso?

— Você lembra quando eu tinha nove anos e minha mãe morreu? Ou quando eu fiz doze e descobri que meu irmão havia morrido na guerra? – Pela primeira vez naquela noite a voz de Taemin soou um pouco afetada – Você e o Sehun foram as únicas pessoas ao meu lado, Jongin. Eu não tenho nenhuma família exceto por vocês e por um velho que sempre teve outras prioridades na vida, e eu não o julgo por isso. – Taemin balançou a cabeça deixando um sorriso triste pintar em seus lábios – Tudo que eu fiz era para proteger você, irmão.

— E…? – Jongin arqueeou uma sobrancelha.

— E para proteger o reino. – Taemin virou pelo menos metade de sua taça de uma vez – Você não faz ideia de como o reino sofreu nas últimas décadas, Jongin, eles precisam de um Rei bom. De alguém que se importe com eles e você demonstrou de diversas formas que você pode ser esse Rei, Jongin.

Jongin fechou os olhos por dois segundos, tudo o que ele queria era que quando tornasse a abri-los toda a realidade fosse diferente. Por fim, quando tornou a olhar para Taemin, tudo o que conseguiu dizer foi:

— E o que você teria para oferecer ao Rei?

— A única coisa capaz de manter as pessoas no poder… Conhecimento. – Taemin soltou uma risada pelo nariz antes de começar a caminhar pelo quarto, os passos um tanto quanto cambaleantes – O Rei possui Olhos por todo o reino, irmão, e foi por causa deles e de sua falta de cuidado que você caiu.

— Só responde a pergunta. – Jongin revirou os olhos.

— Mas até a visão dos Olhos do Rei é limitada. – Taemin parou em frente a Jongin e deixou um sorriso travesso surgir em seus lábios – A minha não. Grave essas palavras em sua mente, Jongin, conhecimento é poder.

Ele queria tanto acreditar em Taemin. Porra, eles se conheciam desde crianças e um sempre esteve ao lado do outro. Família era importante para Jongin e, bem, Taemin era seu irmão. O que ele poderia fazer além de dar o benefício da dúvida?

Quase como se soubesse que Jongin estava cedendo, Taemin ajoelhou em frente ao amigo deixando a taça no chão ao seu lado. Devagar, o Lee puxou o rosto do príncipe até que estivessem se encarando e tão próximos que as respirações se misturavam.

— Confia em mim, Jongin. Eu nunca te trairia ou colocaria você em risco.

— Só o fato de você ter escondido tanta coisa já foi uma traição. – Jongin sussurrou de volta.

— Eu sei, eu sei… – Taemin deixou que as testas se encontrassem e fechou os olhos – Eu ía te contar tudo logo que você assumisse o trono. 

— E como posso saber que você realmente ia me contar? – Jongin balançou a cabeça se afastando um pouco do amigo.

— Não tenho como te provar. – Taemin suspirou – Tudo que tenho para te oferecer é minha palavra.

— E ela não tem muito valor no momento.

— Eu sei, okay? Mas eu prometo a você que iria te contar, Jongin. Eu quero que você tenha um bom reinado e, para isso, estou disposto a te dar toda a informação que você queira.

— Por quê? E não me venha com essa de que era porque você se importava comigo e tudo o mais, porque cansei desse discurso. – Jongin soltou de uma vez e Kyungsoo sentiu a dor em cada palavra.

— Eu nunca faria nada para te machucar, Jongin. – Taemin apoiou a mão no joelho do amigo – Mas acima disso, eu nunca faria nada que pudesse prejudicar o reino. Nunca, entendeu?

Taemin colocou-se de pé por um momento, apenas para alcançar a jarra de vinho e tornar a ajoelhar-se em frente ao amigo enquanto servia a si mesmo.

— Você quer?

Jongin negou com a cabeça.

— O seu avô foi um rei horrível, irmão, meu pai me contou as histórias e eu fiquei horrorizado. Então imagine minha surpresa quando descobri que seu pai estava conseguindo ser um rei ainda pior? – o Lee bebericou de sua taça já cheia – Você nem imagina como o povo tem sofrido nos últimos anos, como é angustiante as condições medíocres de vida que eles se submetem e tudo porque quem deveria cuidar deles estão pouco se fodendo.

— Eu sei disso.

— Não, você não sabe. Eu confesso que você abriu muito seus olhos para a realidade das Cidades Baixas quando começou a se envolver com o escudeiro, mas até mesmo ele é privilegiado perto de algumas outras pessoas do reino.

Jongin ofegou baixinho. Se Kyungsoo era privilegiado, quem eram as pessoas mais pobres de seu reino?

— A situação do seu povo, Jongin, é pior do que você imagina. E seu pai foi um Rei horrível, por isso quero derrubá-lo.

O príncipe piscou demoradamente encarando seu amigo.

— Ele já vai cair quando eu assumir o trono.

— Isso é algo que você precisa entender, Jongin. O poder de um rei não está restrito a coroa. – Taemin depositou a taça no chão e gesticulou com as mãos – É como se o poder de seu pai fosse uma teia gigante espalhada por todo o reino, as pessoas estão submersas demais nessas relações e todos os nobres são leais a quem eles são, independente de ter um coroa ou não. Quando seu pai assumiu o trono, demorou vários anos até ele tomar o verdadeiro poder para si e eu não quero isso para você. Não quero que ele continue mantendo o poder sobre tudo e que dificulte os primeiros anos de seu reinado.

Ele fez uma pausa esperando que suas palavras fossem absorvidas antes de continuar.

— Meu plano em me aproximar dele é justamente cortar esses fios, trazer os nobres para seu lado e então derrubá-lo.

Jongin estreitou os olhos sentindo seu coração acelerar.

— Então você está me dizendo que seu plano é trair meu pai?

— Trair é uma palavra muito forte para essa situação porque eu nunca estivesse do lado dele para começo de conversa.

— E do lado de quem você está, afinal?

Não havia nenhum traço de brincadeira no rosto de Taemin quando ele respondeu:

— Do reino, Jongin. – As palavras pairaram no quarto por alguns segundos até Taemin arquear as sobrancelhas e abrir um meio sorriso – Estou apostando tudo em você, irmão. Não me decepcione.

— E por que você acredita que meu pai irá manter a promessa? Ele nunca foi um homem honrado, Taemin.

— Não tem como saber e por isso você tem duas opções, Jongin, porque se o Rei Jongwoon decidir quebrar o acordo, nem eu conseguirei pará-lo antes de que ele espete a cabeça de Kyungsoo em uma estaca.

Jongin sentiu um gosto amargo na boca e o coração batendo rápido. Em sua mente, cenas de Kyungsoo morto fervilhavam fazendo com que ele sentisse sufocado. Uma sensação tão angustiante que o próprio Kyungsoo sentiu-se afogando naquelas emoções e em todas as coisas vivenciadas naquela noite.

— Você disse que eu tenho duas opções. – Jongin conseguiu dizer lutando contra as lágrimas.

— Ele fica no reino e vocês contam com a sorte para que nada aconteça. Quem sabe a Deusa Mãe não continua protegendo vocês? – Taemin deu de ombros.

— E a segunda opção? – Perguntou friamente, o príncipe sabia que o tempo de depender de sorte ou de divindades havia ficado para trás.

— Com Kyungsoo aqui, os primeiros anos de seu reinado vão ser ainda mais conturbados e vai ser apenas mais uma fraqueza. Algo que seu pai pode usar para te controlar ainda mais porque ele sabe o quanto seu escudeiro é importante para você.

— Onde você quer chegar?

— Estou apenas dizendo os fatos, irmão. Soube que Kyungsoo tem um irmão recém-nascido, estou certo?

Jongin assentiu devagar e, do outro lado do laço, Kyungsoo sentiu um calafrio percorrer por seu corpo ao pensar em bebê dormindo a poucos metros de si.

— O seu pai também sabe disso, então deixar Kyungsoo ficar no reino significa que, se algo acontecer a ele ou até mesmo ao pequeno Jisung, a culpa de certa forma será sua. – Taemin umedeceu os próprios lábios – A escolha é sua.

— Isso é uma ameaça?

— De forma nenhuma. Eu estou oferecendo a Kyungsoo e a sua família toda a minha proteção seja aqui ou em outro lugar. No entanto, como eu disse, não sei se consigo cuidar dele aqui e nem sei se seria uma boa ideia mantê-lo tão perto do perigo. – Taemin bebericou a sua taça – Eu tenho uma propriedade perto de um vilarejo longe daqui, estou te dizendo que posso oferecer a ele uma vida segura até que vocês possam ficar juntos, Jongin. E, se vocês realmente se amam, eu sei que o tempo ou a distância não vai acabar com esse sentimento, certo?

— Você está dizendo para eu simplesmente deixá-lo ir? – Jongin engasgou com aquelas palavras e sentiu as lágrimas transbordarem por seus olhos.

— Não, eu estou dizendo para você repensar suas prioridades, Jongin. – Taemin levantou-se – A escolha no final sempre será sua, Majestade.

Ele assentiu sem saber exatamente com o que estava concordando, tudo o que queria era que sua alma gêmea estivesse em segurança e se para isso tivessem que ficar longe por algum tempo, tudo bem. O amor sobreviveria àquilo, Jongin sabia.

Kyungsoo sentiu as lágrimas escorrendo por sua face e tudo o que queria era sair da mente de Jongin para que pudesse sofrer por si mesmo. Ele sabia que Jongin havia cedido e parte de si queria gritar que não, que eles aceitariam o risco e confiariam na sorte. No entanto, Taemin estava certo e realmente o rei era capaz de qualquer coisa. Ele não se importava em colocar a própria vida em risco por amor ao Jongin, mas ele não poderia comprometer sua família.

Tão submersos nas confusões de pensamentos e emoções que fluíam de um para outro, nenhum deles reparou no pequeno sorriso esperto que pintou nos lábios de Taemin antes dele levar a taça aos lábios sabendo que havia vencido.

 

 ⚔

 

 Kyungsoo não conseguia parar de chorar quando finalmente voltou ao seu próprio corpo. As lágrimas escorriam por seu rosto em uma velocidade assustadora e ele sentia-se engasgar pelo acúmulo de saliva. Por que as coisas tinham que ser tão horríveis para si? Jongin havia sido a melhor coisa que lhe acontecera só para ser tirado de si tão brutalmente como um golpe de espada transpassando por seu coração.

Sentiu um corpo se juntar a si na cama estreita e abraçou a cintura de Joohyun, afundando o rosto na curva de seu pescoço e deixando que o choro viesse ainda mais descontrolado do que antes. Sua irmã não perguntou o que havia acontecido ou feito qualquer outra pergunta, tudo o que fez foi abraçá-lo forte dizendo que tudo iria ficar bem.

Mas Kyungsoo sabia que não ficaria. Nada nunca mais ficaria realmente bem.

E Kyungsoo deixou-se chorar como nunca havia feito antes, sem nem conseguir decifrar qual dor lhe pertencia de fato e qual era de propriedade do príncipe.

Quando despertou poucas horas depois, sem nem se lembrar em que ponto havia pego no sono e se sentindo tão cansado como se tivesse corrido uma maratona, Kyungsoo desejou não ter acordado. Desvencilhou-se do corpo adormecido de sua irmã e colocou-se de pé, seu próprio corpo parecia ter sido atropelado por uma caravana de transportadores de gado e cada músculo seu doía como o inferno. Respirou fundo e passou a mão no rosto antes de começar a se arrumar para o dia exaustivo que viria.

No entanto, foi só enquanto tomava banho no riacho perto de sua casa que Kyungsoo lembrou-se que aquele dia seria ainda pior do que o anterior.

Era o dia do maldito casamento.

E o estranho silêncio do outro lado do laço o deixava ainda mais destruído. 

Afundou sua cabeça na água e ficou ali embaixo até sentir seus pulmões protestarem pela falta de oxigênio, ele teria que se acostumar com aquela dor porque sabia que era apenas o que os próximos anos reservavam para ele.

Uma vida sem oxigênio. Sem alegria.

Sem Jongin.

Ele não queria viver assim.

 

Não muito depois, Kyungsoo se arrastou pelas ruelas das Cidades Baixas se encolhendo a cada vez que ouvia os outros plebeus vibrando pela expectativa do dia que vinha. Seria a primeira vez que um casamento real seria inteiro aberto ao público, desde a maldita cerimônia até a porcaria da festa. Cada detalhe seria exposto para quem quisesse ver e não apenas para os nobres, como normalmente era, e Kyungsoo lembrava-se muito bem do sentimento de orgulho que tomara conta de Jongin quando ele conseguira a permissão para esse feito.

Respirou fundo mais uma vez lutando contra as lágrimas, não queria chegar no castelo chorando como uma criança abandonada. Seus olhos queimaram e Kyungsoo parou no meio do caminho se escorando em uma árvore, fechou os olhos e repetiu para si como um mantra que não deveria chorar. Não deveria demonstrar nada do que sentia.

Quase que de forma involuntária, suas mãos se fecharam em torno da pedra azul cobalto que trazia presa ao pescoço. Era reconfortante a sensação gelada do talismã contra seus dígitos e, de certa forma, fazia com que ele se sentisse mais próximo de quem havia lhe dado aquele presente.

Jongin seria um bom rei e havia tomado a melhor escolha, não importava a quem doesse ou o quanto sentiria falto dos beijos do príncipe. Ele nascera para governar, para estar sentado no trono e cuidando dos seus súditos com toda a bondade de seu coração… Kyungsoo sabia disso desde antes de serem marcados e fora essa uma das coisas que o fizera se apaixonar por Jongin.

E agora essa seria justamente a causa de sua separação.

Esfregou os olhos e voltou a andar sem conseguir evitar pensar em tudo que acontecera nos últimos meses. Quando finalmente chegou ao castelo, quase uma hora depois, Kyungsoo ainda não havia conseguido se lembrar de como ele conseguia respirar antes de conhecer Jongin. Era simplesmente surreal quando pensava que ele tinha uma vida antes de tudo isso acontecer porque, agora, todas suas melhores lembranças envolviam a presença do príncipe.

Cumprimentou as mulheres da cozinha e evitou olhar para todas as comidas que se espalhavam por toda a extensão do ambiente, forçou um sorriso e caminhou para fora sabendo que havia muita coisa a fazer até o Jongin acordar – e depois teria ainda mais coisas para se fazer, pois fazia parte de uma das incríveis, e dolorosas, funções do escudeiro preparar o príncipe para seu casamento.

Ele sentiu o exato instante que Jongin despertou, provavelmente sendo acordado por alguma serva, e entendeu que todo aquele silêncio se devia ao fato do príncipe estar dormindo. E tendo em vista que não haviam se encontrado nos sonhos, o Kim provavelmente bebera até dormir na noite anterior.

A dor de cabeça e o enjoo que tomaram conta de Kyungsoo comprovavam essa teoria. Ele quis rir ao se lembrar da primeira vez que vivenciara uma ressaca por parte de Jongin, a uma eternidade atrás, quando as coisas eram mais simples e eles eram felizes demais. 

— Se você não prestar atenção, vai estragar essa bainha! – O homem que o supervisionava, e que ele não conseguia lembrar o nome ou a função naquele momento, bateu em sua cabeça trazendo-o de volta ao presente – Idiota.

Kyungsoo assentiu murmurando um pedido de desculpas e voltou a esfregar os detalhes em prata que envolviam a bainha de couro. Quando deu-se por satisfeito e os detalhes brilhavam mais do que o sol, o escudeiro colocou-se a limpar as pedras azul cobalto que formavam os olhos do urso no punho da espada.

Azul e prata. As cores da família Kim.

A medida que o sol se movia no céu, Kyungsoo sentia seu coração bater mais e mais rápido porque logo que desse meio-dia seria obrigado a caminhar até o quarto de Jongin e o vestir como se nada daquilo o afetasse. E ele não sabia se seria capaz de fingir tão bem porque, porra!, estava afetado para um caralho.

No entanto ainda não existia uma poção que fizesse o tempo parar e quis chorar no momento que o sol atingiu seu ápice. Fechou os olhos e tentou ignorar o tremor em suas mãos quando pegou todas as coisas necessárias antes de seguir o homem de outrora.

Não demonstre. Não demonstre. Não demonstre.

Respirou fundo mais uma vez e mordeu o lábio inferior, ele não podia deixar que ninguém percebesse que havia alguma coisa acontecendo ali e estava difícil demais suportar sua própria carga emocional sem começar a chorar novamente, e ainda havia o turbilhão de sentimentos confusos vindo de Jongin – além da leve ressaca que não tinha ido embora de todo.

— Você está bem? Está com cara de quem vai vomitar. – O homem rosnou revirando os olhos, parando em frente aos soldados que guardavam os aposentos do príncipe.

Kyungsoo assentiu freneticamente.

— Não seria o primeiro escudeiro a vomitar em um casamento real, só não faça isso perto do príncipe ou de qualquer outra pessoa. – ele balançou a cabeça cumprimentando os soldados que deram um passo para o lado deixando que ele abrisse a porta – Eu tenho outras coisas para resolver agora, você sabe o que fazer.

Kyungsoo assentiu de novo sem se mover e sem tirar os olhos da porta aberta.

— Não temos o dia inteiro. – O homem revirou os olhos mais uma vez e Kyungsoo quase tropeçou na pressa em obedecê-lo.

Entrou de uma vez no quarto e escutou a porta sendo fechada atrás de si. Jongin estava parado no centro do aposento com três mulheres ajudando-o a se vestir, tão exuberante e tão imponente que parecia realmente um rei, e deixou que seu olhar caísse apenas por um breve momento em Kyungsoo antes de erguer o queixo sem demonstrar nada do que passava dentro de si.

Mas esse breve momento foi o suficiente para Kyungsoo ofegar baixinho, a dor dentro dos olhos que tanto amava o machucou mais do que qualquer outra coisa seria capaz de o fazer. Ele queria jogar aquelas coisas no chão e tomar Jongin em seus braços, beijá-lo e tirar toda aquela dor de sua alma gêmea, ele queria segurar o rosto do príncipe e dizer que não conseguiria viver sem tê-lo ao seu lado…

— V-vossa alteza. – Cumprimentou deixando-se cair sobre um joelho, suas pernas tremiam tanto que ele tinha medo de não conseguir se levantar mais. 

— Levante-se, não temos muito tempo. – A voz de Jongin agitou as borboletas dentro do estômago de Kyungsoo e, por um momento, desejou ter a capacidade que o príncipe tinha de esconder seus sentimentos de todos os presentes. – Eu quero uma taça de vinho, por favor.

— Sim, Vossa Alteza. – Kyungsoo colocou as coisas em cima da cama e caminhou até a jarra de vinho na mesinha de cabeceira.

Jongin não o olhou de novo quando pegou a taça de suas mãos, entretanto deixou que seus dedos se encontrassem por um mísero segundo antes de levar o objeto aos lábios e beber um gole pequeno.

As servas afastaram-se de Jongin quase ao mesmo tempo, poucos minutos depois. Pareciam satisfeitas com o que fizeram e curvaram-se quando Jongin as agradeceu, sem nenhum humor na voz, mas não saíram do quarto. Ao invés disso, ficaram em pé próximas ao príncipe.

Agora era a vez de Kyungsoo.

Devagar, o escudeiro se aproximou de Jongin e respirou fundo novamente. Ele estava tão bonito naquele dia que tornava toda a situação ainda mais injusta do que já era… E Kyungsoo nunca odiou tanto o cargo de escudeiro quanto naquele momento, tendo que ajudar sua alma gêmea a se vestir para uma outra pessoa.

Começou com as pequenas campainhas, uma prata e uma dourada, as quais deveriam representar a devoção do príncipe à Deusa Mãe – como diziam os costumes. Esforçou-se para não deixar suas emoções aflorarem quando parou nas costas de Jongin, tão perto que o cheiro do príncipe o inebriava. A parte da frente de seu cabelo havia sido trançada de forma que o restante ficasse solto, fios vermelhos e azuis misturavam-se ao castanho natural do príncipe em um efeito tão bonito que, em outra situação, Kyungsoo teria sorrido.

Ele não se dera conta do quanto o cabelo de Jongin estava grande até estarem ali e, enquanto prendia as campainhas na ponta da trança, Kyungsoo não pode evitar lembrar-se das vezes que seus dedos prenderam-se naqueles fios, puxando-o para mais perto a cada vez que se beijavam ou ainda quando queria se enterrar mais fundo dentro de Jongin.

Balançou a cabeça tentando se livrar desses pensamentos e sentiu seu rosto queimar ao notar o arrepio que percorria a pele nua do príncipe.

Estava sendo mais difícil do que imaginara.

Deu um passo para trás sentindo seu peito subir e descer, ofegante, e observou seu trabalho. A campainha prata estava presa logo abaixo dos fios azuis enquanto a dourada estava presa junto aos fios vermelhos.

Vermelho e dourado. As cores da família Ealhburh.

Engoliu em seco pegando o peitoral de prata e voltando-se para o príncipe, pedindo silenciosamente com o olhar que ele colocasse de pé e Jongin assim o fez.

Kyungsoo não conseguia disfarçar o tremor em suas mãos quando concentrou-se em prender o objeto junto a pele de sua alma gêmea. A tensão era tão palpável que o escudeiro se perguntava como as servas não notavam a eletricidade que percorria de um para o outro, ou talvez elas percebessem e contariam tudo ao rei – ou ao Taemin – e toda a situação pioraria mais ainda.

Esforçou-se ainda mais para não demonstrar nada e terminou de prender o peitoral contendo o brasão de ambas as famílias estampados em uma harmonia perfeita. Sentiu seu lábio inferior tremer levemente quando seu olhar caiu sobre a constelação tatuada no braço de Jongin, exposta para que todos pudessem ver…

Aquilo não devia doer tanto, ele sabia que Jongin exibiria a tatuagem como havia feito no festival. Era a forma dele afrontar o pai e demonstrar para todos que a Deusa Mãe o abençoava. Mas tudo não passava de uma grande mentira e o fato de Jongin usar a tatuagem para, de certa forma, manipular o povo estraçalhava seu coração.

De repente, Kyungsoo sentiu-se cansado demais e tudo o que queria era ir embora para sua casa, para o conforto de sua cama, e não ter que lidar com todos esses problemas. Mas para isso, precisava terminar suas obrigações do dia – que ainda parecia tão longe de acabar. E aquela etapa, a de ajudar o amor da sua vida a se vestir para o casamento, já estava quase no fim.

Tudo o que faltava era prender a espada à cintura do príncipe.

Todas aqueles adornos que Kyungsoo prendia no príncipe tinha um significado assim como todas as outras coisas que o enfeitavam. O peitoral e, principalmente, a espada representavam o guerreiro que Jongin deveria ser e o voto de que sempre lutaria pelo reino. As cores escolhidas simbolizavam a aliança entre as duas casas. As vestes esvoaçantes que ele usava embaixo do peitoral eram o toque final da tradição, representando que ele não era apenas um guerreiro. 

E Jongin havia acrescentado os próprios retoques, como a exposição da tatuagem e os talismãs que usava em volta do pescoço misturando-se com as jóias da família real ou os brincos vindos das Cidades Baixas, ou ainda os braceletes em formato de vinha que subiam por sua pele o deixando mais bonito do que alguém tinha o direito de ser. Os toques do príncipe deixavam óbvio seus significados: ele iria governar para o povo.

No entanto, o que doía em Kyungsoo eram as coisas comuns que Jongin usava, coisas que ele próprio usaria quando, e se, fosse se casar. O Do sempre imaginara seu próprio casamento, o lugar e o que usaria no grande dia, quais seriam os adornos escolhidos e as cores que iria trançar seu cabelo, e principalmente quem seria a pessoa que beijaria sob o céu aberto. Durante muito tempo, a pessoa era uma camponesa sem rosto, ele não negava.

Até que um dia, pateticamente passou a se imaginar casando com o príncipe. E era cruel demais ver que Jongin estava mais perfeito na vida real do que em seus mais profundos sonhos e que não seria a ele que o príncipe beijaria sob o céu aberto quando o sol abaixasse dali algumas horas.

Seus olhos queimaram e sua garganta fechou. Ele não conseguia suportar a dor que o assolava, não conseguia prender a espada à cintura de Jongin e prestar as reverências ou, pior ainda, não conseguira de forma alguma guiar o príncipe até o grande meistre durante a cerimônia.

A marca não deveria ser uma bênção? Por que, a cada segundo, parecia mais como uma maldição?

Ele queria gritar, queria se jogar no chão e espernear igual uma criança mimada, queria chorar e implorar para que a Deusa Mãe o levasse de uma vez, queria socar o rosto de Jongin até que ele demonstrasse alguma coisa que estava sentindo – porque Kyungsoo sabia que aquela expressão impassível era apenas uma maldita máscara – e queria acima de tudo beijá-lo nem que fosse por uma última vez.

E ainda que estivesse sufocando por todas as palavras não ditas e todos os sentimentos que o atropelavam, quebravam seu coração e estilhaçavam-no como se estivessem usando um martelo de guerra, tudo o que Kyungsoo fez foi engolir em seco e se aproximar novamente de Jongin.

Dessa vez, enquanto se concentrava em prender a bainha, Kyungsoo conseguiu sentir o peso do olhar de Jongin sobre si e mesmo que todo seu ser lutasse para que ele olhasse para cima, o escudeiro não o fez. Sabia que se encarasse Jongin nos olhos, iria se quebrar de vez e não iria conseguir se reeguer.

Como poderia? Como poderia seguir com sua vida sem ter Jongin ao seu lado, segurando sua mão? Como poderia se reerguer e se refazer?

Era injusto e cruel.

— Vossa Alteza está pronto para a cerimônia. – Kyungsoo falou e soou estranho aos seus ouvidos como sua voz estava quebradiça. – Agora, se Vossa Graça me permite, irei me preparar p-

— Sobre isso… – Jongin o cortou, seu olhar fixo na parede à sua frente – Você me serviu bem, Do Kyungsoo, e eu sou imensamente grato por isso.

Kyungsoo sentiu como se uma mão invisível rasgasse suas entranhas até ter os dedos em torno de seu coração apenas para começar a apertá-lo.

— No entanto, seus serviços não são mais necessários. Procure Sor Alastor, ele irá lhe passar as informações de seu novo posto.

A mão invisível apertou ainda mais seus dedos, apertou tão forte que Kyungsoo sentiu seu coração explodindo e tinha certeza que havia milhares de pedacinhos espalhados por todo seu interior. Ele quis chorar mais do que nunca, mas os cochichos vindos das servas o despertaram.

Não poderia demonstrar e piorar a situação. 

Lutando contra suas pernas trêmulas, Kyungsoo tombou sobre um joelho e encarou o chão.

— Nem todas as palavras do mundo seriam capazes de descrever minha gratidão a ti. – Disse torcendo para que as servas não notassem a mágoa pingando em cada sílaba – Foi um prazer imensurável ter a oportunidade de serví-lo, Vossa Majestade. 

E reunindo toda a coragem que nem sabia que ainda tinha, Kyungsoo olhou para cima apenas para ver os olhos castanhos de Jongin fixos no seu. Cada momento juntos passando como um flash em sua cabeça e ele nem ao menos sabia dizer se eram lembranças suas ou de Jongin, porque em alguns segundos via a si mesmo em terceira pessoa.

Ofegou baixinho forçando-se a desviar o olhar. Ele não precisava daquela merda de laço para lhe lembrar que Jongin estava sofrendo tanto, ou até mais, que ele próprio. Sua dor era o suficiente para torturar uma cidade inteira.

Com uma última reverência, colocou-se de pé e abriu um sorriso suave para as servas no canto do quarto. E lutando contra todos os seus instintos, saiu dos aposentos sem olhar uma única vez para trás deixando ali dentro um pedaço de sua alma que nunca iria ser substituído.

   


Notas Finais


Ai meu Deus, tô ansiosa demais para saber a opinião de vocês aaaaaa

Então, não sou muito boa em escrever notas finais, então me desculpem qualquer coisa. Só queria agradecer imensamente a cada um de vocês que não desistiram de mim nem de CK, a todo o apoio e compreensão que recebi... Sério, pessoal, não sei nem expressar como meu coração ficava quentinho a cada vez que eu via um novo comentário ou um novo favorito (ou até quando eu via alguém falando no twitter sobre), vocês são incríveis.
Queria agradecer a Laís por ser a madrinha dessa fic, a Geovana por ser a melhor beta e a melhor pessoa do universo, e também a Bia por todo o apoio que ela me dá. De verdade, se não fosse por elas, acho que não conseguiria ter finalizado pela primeira vez uma long fic <3 <3

Agora sobre esse final... POR FAVOR, NÃO ME MATEM!!!!! Sei que não é o final que vocês esperavam e que talvez alguns de vocês tenham ficado decepcionados, mas eu não consigo ver um final feliz agora para nosso amado KaiSoo. Como a Geo me disse, seria ingênuo pensar que tudo isso não entraria em conflito com os desejos de cada um e foi o que aconteceu. Espero que não fiquem tão chateados comigo :3
E outra coisa que acho que deveria falar é sobre o Sehun, ele quase não deu as caras nesse último capítulo e isso foi meio que uma falha minha, então mil perdões por isso também.

De qualquer forma, espero que tenham gostado e me desculpem por terem feito vocês esperarem por todo esse tempo. Venham surtar comigo no twitter ( @soft_estou ) e não se esqueçam que amo muito cada um de vocês, e sou imensamente grata por ter tido a oportunidade de escrever Constelação Kyungsoo.
Obrigada <3


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