História Conto: "A Criança Maldita" - Capítulo 1


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Capítulo 1 - "Hora de Acertar as Contas"


Fanfic / Fanfiction Conto: "A Criança Maldita" - Capítulo 1 - "Hora de Acertar as Contas"

- Só desço até aqui. 

Afirmou a condutora com a voz embargada. Quando o bonde parou ao som de um rangido estridente de ferro nos trilhos. Só que a única coisa que Jave via era uma plataforma abandonada. Com uma luz vinda de um lampião pulsando na extremidade dela. 

Jev - Obrigado.

Falou o garoto. Tentando resistir às cãibras que acometiam sua barriga. Agarrando-se á ela por força do hábito enquanto se arrastava para fora da transportadora. Pronto para machucar alguém. Enfiou as mãos trêmulas dentro dos bolsos. Só que as palmas arranhadas esquentaram e começaram a arder. 

Ule - Jave! Você está certo disso?

Perguntou Ulef. Seguindo-o logo atrás. Era um garoto desengonçado. Com seu corpo de graveto e cara de gente. Gentil à sua maneira. Ingênuo. Se é que alguém que crescera no submundo poderia ser realmente chamado de ingênuo. Claro que isso não significava que Ulef não pudesse traí-lo. Traição não tinha nada a ver com amizade. Era um simples ato de sobrevivência. Afinal a vida era dura nas ruas. Se um ladrão quisesse evitar ser capturado e executado. Tinha que ser prático. 

Jev - Meu sofrimento é só meu, Ulef. 

Falou Jave de maneira nada acolhedora. Batendo a mão no peito. 

Jev - Carrego o peso das minhas escolhas. Não tento colocá-las nas costas dos outros. Não crio bodes expiatórios e não acho que os males que fizeram a mim me dão o direito de fazê-los a outra pessoa. Então, sim, estou certo que sim. 

Ule - Mas isso é loucura! 

Afirmou o amigo. Com o pânico crescendo na voz. 

Ule - Eu sei que Connor e os capangas dele são um bando de otários, mas isso não vale as suas mortes. 

Jev - Não vou matá-los, só vou dar uma lição a eles. Afinal, convenhamos, ninguém mexe comigo se não acabar na sarjeta antes. Basta um linguarudo desses ficar ileso para que outros sintam-se livres para bradar bobagens por aí. 

Falou Jave como se aquilo explicasse tudo. Ulef concordou de má vontade. Sabia que todo o diálogo era só uma formalidade. Era um ritual pelo qual tinham de passar. Afinal ele jamais fora capaz de lhe dizer não. Só que Jave não queria mais discutir esse assunto. Não naquele dia. Quando ele já tinha certeza de que levaria uma bela bronca quando chegasse em casa. Outro motivo para supostamente estar grato. Só que Jave não estava. Não sentia nada muito perto de gratidão. Afinal a mancha lilás desbotada sobre o seu olho esquerdo. Não o deixava esquecer da confusão que ele arrumara mais cedo.

Mas não fora nada demais. Só um grupo de garotos mais velhos que o encurralou. Atrás de um galpão junto ao pátio em seu caminho do trabalho até em casa. Roubando a bolsa de dinheiro do garoto e esmurrando-lhe o estômago de modo que não aparecessem hematomas. Como se alguns roxos fossem a pior coisa que pudesse acontecer com uma pessoa. Como se a vida dele fosse ficar pior. Só que isso não fez Jave parar com os pecados que já cometera. Até um certo ponto. Como agora que ele estava pronto para retribuir o favor. 

Por isso entrou numa rua escura. Repleta de casebres de uma das muitas favelas da cidade. Com Ulef logo atrás de si. Jave manteve a cabeça baixa e cobriu bem o rosto com o capuz. Presumindo que o golpe aconteceria a algumas quadras dali. Numa área mais rica da cidade. Era umas das ações mais complexas que o garoto já tinha visto. Afinal dar golpes em nobres era uma profissão muito arriscada. Se fosse capturado a recompensa seria realmente grande. Mas certamente era melhor do que trabalhar nas forjas. Ou nas tecelagens. 

Jev - Fique aqui, Ulef. Não quero que se machuque também. 

Anunciou o garoto. Mas Ulef acabou não respondendo. Só ficou parado na caminho que levava até a sarjeta. Olhando para ele com olhões esbugalhados típicos de quem fez algo errado.

Jev - Bom-menino.

Sorriu com ironia. Passando pela periferia das Tocas. Sentindo a lama fria por entre os dedos dos pés descalços. Ainda faltava uma hora para o sol nascer. Mas Jave percebeu os símbolos da guilda escondida. Após uma passagem estreita no beco da qual os meninos podiam pular para bloquear as duas saídas da rua. Havia também a capacidade de atacarem dos telhados baixos. Só que Jave não estava nem aí. Por isso caiu direto na emboscada que vira a 50 passos de distância. Quando um dos garotos mais velhos pulou no beco à sua frente e assobiou. Brandindo um sabre enferrujado. Outras crianças cercaram o encapuzado. 

Jev - Quanta esperteza! 

Exclamou Jave. Achando tudo muito irônico. 

Jev - Vocês montam uma emboscada antes do raiar do dia, quando a maioria das outras guildas está dormindo, e conseguem surpreender as bolsas que passaram a noite inteira na rua com as putas. Esses homens não querem explicar às esposas nenhum hematoma causado por brigas, de modo que entregam as moedas. Nada mau. De quem foi a ideia? 

- Do Ryo. 

Respondeu um garoto grande. Apontando para trás de Jave. Era só um menino pequeno em cima do telhado. Segurando uma pedra. Mas seus olhos azul-claros estavam concentrados e alertas. Pelo menos. Alguém estava alerta por ali. 

- Cale essa boca, Roth! 

Ordenou uma voz familiar. Reverberando pelos edifícios de pedra de cada lado. Era o chefe da guilda. Connor Navalha. Jave o reconheceu assim que vira aquele cabelo ruivo e o rosto pálido. Imberbe como o de uma bela moça. Marcado apenas pelo sinal roxo da gangue na bochecha. Havia também uma antiga cicatriz de faca que repuxava seu olho esquerdo para baixo no canto. Mas fora isso Connor não era grande. Nem mais velho que Jave. Navalha liderava graças à sua habilidade com uma faca e a disposição de arrancar seu coração durante o sono. Ou a qualquer outra hora. Mas era só a total falta de consciência que o tornava poderoso. Por isso Jave se mantinha calmo e no controle de tudo.

Jev - Ah, agora vocês entregaram onde ele está.

Comentou o encapuzado. 

Con - Cale a boca você também! 

Berrou o chefe da guilda. Sacudindo o sabre para ele. 

Con - Passe a bolsa ou nós o matamos. 

Jev - Acho que isso não será possível. Já que é você quem está com ela. 

Falou o garoto. Tirando o capuz da cabeça. Sabia que agora sua aparência não parecia lá grande coisa. Seu desgrenhado cabelo lilás ficara coberto de lama durante o roubo que acontecera mais cedo. Suas roupas também. Mas fora isso Jave sorria de orelha a orelha. Ação esta que fez os meninos recuarem por puro acaso. Ou medo de ele muito bem ter três cabeças. Só que Jave não estava nem aí para eles. Afinal o garoto apreciava o medo. Era uma das armas que tinha aprendido a usar enquanto outros garotos de rua tinham aprendido a usar facas. Mas ao verem o garoto ali parado. Sorrindo. Pedras caíram no chão. Todos pareceram pegos de surpresa. 

Con - Jave Darkwill. 

Murmurou Connor Navalha entre dentes. 

Con - O que significa isso?! 

Olhou ao redor para a plateia. Querendo respostas. Ninguém se ofereceu á respondê-las. Só se escutava o nome de Jave se espalhando feito uma onda pelos meninos. 

Con - Calados todos vocês! 

Ordenou o chefe da guilda. Quando o silêncio caiu sobre eles. Connor abriu um leve sorriso. Cheio de si. 

Con - De qualquer modo, você andou fazendo negócios com pessoas erradas, Algema. E nós só queríamos uma parte dos seus ganhos. Você já foi avisado. 

Jev - Fui? 

Palavras escaparam dos lábios do garoto. Antes de ele se projetar para á frente. Com a mão esquerda torcendo a mão de Connor que segurava o sabre. Girando o corpo dele com o mesmo movimento. Lançado o chefe da guilda para trás contra o muro oposto. Feito uma boneca de pano. Até bater na pedra com uma pancada dura. 

Jev - Talvez devêssemos recapitular, Navalha. 

Falou Jave para o ladrãozinho que tentava se erguer com dificuldade. Balançando a cabeça. Confuso. Cercado pelos companheiros. 

Jev - É você que foi avisado. Eu só vim aqui pegar o que é meu, o que você roubou de mim. Mas se quiser lutar cai dentro, faquinha. 

Rot - Tá bem, tá bem. 

Aceitou Roth. Hesitante. Como se estivesse cedendo. 

Rot - Deixa eu falar com ele, e a gente vê o que dá pra fazer. 

Jev - Garoto esperto. 

Falou Jave. Ainda sorrindo. Vendo Rotha ajudando Connor a se levantar. Até que o garoto sentiu um pouco de inveja. Afinal Roth e Connor eram irmãos mesmo. Ligados pelo sangue. Mas separados pelo temperamento prepotente de Navalha. Só fora identificado como ladrão pelos casacos azuis antes que pudesse aprender a malandragem das ruas. 

Con - Você não passa dessa, Algema! Vai ter volta! 

Arquejou Connor ao afastar a mão do irmão. Bruscamente. Apontando um dedo fino para Jave enquanto tremia de raiva e indignação. 

Jev - Não estou com tempo para isso. 

Retrucou o encapuzado. Resistindo à tentação de cuspir no rosto dele. Ou de chutá-lo onde doeria. Só queria a bolsa de dinheiro de volta. Por isso não recuou nem um milímetro. Era um espantalho no meio do beco. Destoando do cinza predominante. 

Jev - Roth, seja um bom-menino e me devolva a bolsa. 

Pediu Jave com voz desagradável. Logo Roth começou a revistar o irmão á procura da bolsa. Até encontrá-la presa ao cinto por um cordão de pele. Quando a cortou fora. Jogou-a para Jave que enfiou o dinheiro sob a camisa. 

Jev - Agradeço pelo seu serviço, bom-menino. 

Abriu um leve sorriso. Girando o sabre de Navalha numa das mãos. 

Jev - Ah, e afiem esse troço. Só um amador deixa sua arma enferrujar. 

Jogou a arma numa sarjeta entupida de esgoto. Logo antes de avançar por entre os meninos que abriram o caminho. Como se ele fosse capaz de matar todos eles com apenas um toque. Mas Jave parou por um momento. Deu uma olhada rápida para a guilda inteira preparada para enfrentá-lo. Seu corpo inteiro ansiava por aquilo. Mas até que Jave sentia uma sensação de incômodo. Pairava no ar como a pressão que se forma antes de uma tempestade e implora para ser liberada. Sem cuidado. Livre. 

Jev - Livre. Não, nunca serei livre. Mari se assegurou disso quando partiu. 

Falou para si mesmo. Sorrindo dentro das sombras do capuz. Com uma lágrima singrando pelo rosto. Mas seu pranto com aquelas lembranças eram só águas mortas. Por isso ele caminhou para dentro da bruma do início da manhã. Desaparecendo no sorvedouro das Tocas. Levando consigo a promessa de que naquele momento as coisas seriam diferentes. 

Continua....



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