História Contos - Aventuras Mágicas - Capítulo 18


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Alluk, Apostas, Rivalidade, Saafics
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Terminada Não
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Tema: Passado.
Dupla: Hades e Kuragari.

Boa leitura!

Capítulo 18 - Chá de Lembranças


Outro dia...

— Toma, velha.

Apesar das palavras soarem agressivas o homem de longos cabelos negros entregou a xícara com cuidado para a mulher sentada em seu sofá. Ela sorriu ao assisti-lo se aconchegar na poltrona ao lado parecendo estar cansado só por ter ido até a cozinha fazer a bebida para eles.

Já tinha se acostumado a ouvir as mesmas coisas, mas sempre achava divertido a atitude teimosa e tão jovial em uma criatura com milênios de vida.

— Obrigada, Hades. – A voz tão gentil cheia de sorrisos o fez assentir sem olhar. — Acho engraçado você me chamar assim quando sou séculos mais nova que você.

Ele não a olhou e menos ainda viu aquilo como uma provocação. Sabia que, no máximo, isso só passou pela cabeça dela como um fato divertido de se comentar. A mulher também não se importou com seu silêncio dando atenção a bebida quente que com cuidado levou a xícara de porcelana aos lábios provando seu sabor.

Hades assistiu de canto o sorriso aparecer logo depois do suspiro satisfeito e pôde se acalmar. Ele gostava de ser rabugento com ela, mas nunca a trataria mal de verdade. Ambos eram como irmãos criados na mesma casa, mas de formas diferentes e apesar de haver tantos detalhes que os diferenciava também existia os que os conectava fazendo momentos assim existirem.

O silêncio se prolongava fazendo a enorme sala de móveis góticos parecer ainda maior. A casa toda sussurrava com as brisas frias preenchendo o vazio. Aquele era o lar de três criaturas, mas parecia que somente o esquecimento vivia ali. Por isso, para Hades, ter a visita da mulher era reconfortante independente de suas birras.

— A casa fica quase morta sem eles. – Comentou olhando as escadas de madeira negra pouco mais atrás dele. — E ultimamente o Jyrki nem para aqui. Parece a época que ficava procurando respostas em gente morta.

— Ele é curioso.

— Curioso... – Ele a viu rir amavelmente e balançou a cabeça em desaprovação. — Gente curiosa não faz o que ele faz, Kuragari! Acredita que teve uma vez que o Jyrki raptou um homem na floresta só pra ver ele morrendo de fome? – Ele questionou soando como se nem mesmo acreditasse em suas palavras. — Ele queria ver o quanto aquele rapaz aguentava... Queria saber se ficar tantos dias sem comer chegava a enlouquecer. Eu nem me lembro quantos dias levou para ele se calar por completo como se isso fosse fazer o Jyrki desistir dele.

— E... desistiu?

— Claro que não. – Riu sem mostrar sorrisos enquanto ela o observava curiosa. — Ele deu algo pra ele, ao invés disso. Cortou a perna do homem e deu pra ele comer. – O comentário fez Hades levantar as sobrancelhas como se ainda estivesse impressionado e Kuragari engolir em seco como se não esperasse por isso. — O rapaz nem estava mais preocupado em fugir naquele ponto. Só... tinha fome. – Se lembrando do rosto miserável e da situação deplorável continuou a história. — Acabou que ele comeu a perna e o braço só que... O Jyrki dava água pra ele e mantinha aquela casa limpa, porém estava privando o rapaz de tudo. Ele adoeceu rápido e o Jyrki foi piedoso o suficiente para matar ele e acabar com a dor. Dor que ele causou, a propósito! – Seu comentário agressivo acompanhado de um olhar acusador logo se transformou em tristeza. — Era o mínimo.

— Ele... Comeu a alma?

— Não. Matou com as mãos e depois tirou a alma. Esse homem já deve ter renascido. – Apesar de ser terrível ouvir esse tipo coisa, Kuragari ainda se sentiu aliviada por saber do desfecho. — Não tem como ele entender esse tipo de dor e nem a loucura que envolve então para o Jyrki nada daquela agonia fazia sentido, mas para mim... Passar por aquilo foi horrível... – Hades ficou parado olhando o chão lembrando das súplicas e dos gritos como se ainda acontecessem.

— Você deve ter visto muita coisa. – Ela comentou amavelmente tentando aliviar a atmosfera ao redor dele o fazendo concordar. — Eu nem me atrevo a imaginar.

— Nem se você tentasse iria conseguir. – Rindo pegou sua xicara tomando um gole do chá. — Você ama ele porque não conviveu.

— Ora, você conviveu e mesmo assim o ama. – Riu contente fazendo o homem suspirar irritado por saber que estava certa. — Eu iria amar do mesmo jeito. É assim que somos.

— Ah... – colocando a porcelana de volta na mesa, assentiu se ajeitando na poltrona. — Outra vez, lá no início da fase rebelde contra o Morteus, Jyrki encontrou outro Caçador de almas que estava começando a jornada. Parecia não entender nada... O Jyrki ajudou e depois... – Balançando a cabeça arregalou os olhos tomando tempo para processar a lembrança. — O Caçador era jovem e tinha várias fraquezas... Jyrki pegou ele fácil, amarrou em uma árvore como um animal e dessecou ele. – Kuragari estava pegando uma das maças fatiadas na mesa quando parou chocada com a informação. — Acho que foi nesse momento que eu descobri que Caçadores sentem muita dor. Aquele garoto gritava enquanto o Jyrki cortava ele inteiro. Separou pele do corpo, tirou órgãos, abriu cada parte tomando nota... Era a visão das salas de tortura dos Mundanos. Tudo isso com a mesma expressão morta naquela cara dele.

— Minha, nossa, Hades, você assistiu isso?

— Eu estava do lado dele, Kura, não dava pra fechar o olho! – Sua voz alta estava inconformada com a pergunta a fazendo o olhar como se dissesse “dava, sim.” — Chegou uma hora que o rapaz perdeu a consciência e isso foi tão estranho porque... eles não dormem. Era como se estivesse morto, mas também não morrem... Foi tão errado. – Fitando a parede balançou a cabeça confuso com suas reflexões. — A gente acabou indo embora antes dele acordar. E mesmo que eu ache isso tudo terrível, não posso negar as coisas que aprendi sobre eles.

— Era o objetivo, certo? – Comentou sem esperar resposta o ouvindo suspirar pesadamente. — Sabe o que aconteceu depois?

— Com o Caçador? Não, mas sei que ele ainda existe e o Jyrki fez ele odiar a gente. Um bicho sem sentimentos... Odeia a gente. Ah. – Os olhos dele se arregalaram mais uma vez em descrença como se sua vida inteira tivesse sido feita sobre uma piada de mal gosto.

— É até irônico o próprio Jyrki não sentir nada, mas despertar tanto nos outros.

— Eu quem diga. – Respondeu sorrindo pegando uma das fatias adocicadas para afastar a amargura das memórias. — E um tempo depois o Jyrki acabou repetindo isso, só que dessa vez nele mesmo. Ele se abriu inteiro na frente de um espelho em uma casa abandonada. Foi com uma faca, eu acho. – Falava mastigando buscando no fundo de sua mente a resposta sem perceber a reação assustada da outra. — Acho que ele queria ver se seu corpo era igual ao do outro. O Jyrki era muito jovem na época então levou uns três ou quatro meses para se recuperar dos cortes e dos órgãos bagunçados. – Para Hades isso podia não fazer diferença, mas para Kuragari isso foi surpreendente já que o Jyrki que conhece leva poucos minutos para se recuperar de um corte profundo e até uma perna quebra pode levar uma ou duas horas para voltar ao normal. — Existem memórias que só vão se apagar da minha mente quando eu virar pó.

— Comparado ao Jyrki, Sigmo quase não fez nada. – Seu comentário parecia de uma mãe falando sobre duas crianças vizinhas que sempre acabavam brigando. — Ele também fez esse tipo de coisa... os cortes.

— Ouvi algo sobre isso.

— Ah... Sabe o braço enfaixado dele? Ele quase arrancou fora de tanto que cortou. – Os sorrisos de antes não estavam mais ali deixando o homem confuso, afinal se o braço fosse retirado outro surgiria. — Ele também procurava respostas. Se ele sentia dor então, para ele, estava vivo. Ele queria estar. – O suspirou entristecido lhe escapou.

— A faixa é simbólica?

— Não. Ele se cortou com a própria espada. – A resposta foi inesperada, mas explicou o motivo da tristeza. Nesse caso, se o braço fosse arrancado, não voltaria mais. É uma proibição que foi criada por Morteus onde nenhum caçador pode se ferir com a própria espada. — Os cortes nunca foram embora. Jyrki queria entender tudo ao redor, o Sigmo queria se entender. O porquê existia sem estar vivo, porquê sentia dor, porquê não chorava, porquê queria viver se conhecia tão bem a morte. – A cabeça dela balançou cansada como se tivesse ouvido isso repetidamente todos esses anos. — Morteus o levou à loucura. Quando eu o conheci pela primeira vez Sigmo parecia gentil, mas... morto. Era calmo e obediente.

— Até hoje.

— Sim. – A voz risonha de Hades a fez sorrir. — Mas precisou somente de alguns anos vendo os vivos para ele perder o controle de si mesmo.

— Mas isso ajudou ele a sentir, né?

— Mentira. – Sua voz soou amarga como Hades nunca tinha ouvido o fazendo se calar. — Sabe, se você pedir para uma criatura que não sabe nem ler nem escrever copiar um texto, ela vai conseguir. Porque só precisará seguir a ordem e desenhar os símbolos. É assim que ele faz, segue a ordem. – Sua mão agarrou a xícara sentindo o leve calor envolver suas palmas. — O Sigmo copia as emoções, sabe quando deve rir e quando deve curvar as sobrancelhas. Antecipa pelas reações e mostra gostos, desgostos. Ele quer ser vivo, Hades, então finge que é. – Ela não conseguia fingir sorrisos quando se sentia mal e isso deixava claro sua honestidade e carinho pelo Caçador. — Eu não duvido dos sentimentos dele, sei que deve ter algo vivo, mas não é tudo o que ele mostra. O Sigmo... Já deve ter sentido de verdade, mas esse fingimento impede ele de perceber. Ele sente medo. Isso eu sei.

— Ele me enganou esse tempo todo então.

— Ele é bom nisso. – Fitou o rosto surpreso do mais velho segurando o resto da conversa por alguns minutos. — Pra mim, o ódio que ele mostra pela Damn é real e isso me perturba. Tenho medo que esse seja o sentimento mais forte nele... Que seja a única coisa nele. – Seu rosto entristecido estava carregado de dor, algo que o homem ao lado conhecia, mas logo um suspiro trouxe um leve sorriso. — O Night ter aparecido deve ter ajudado ele a querer viver ainda mais. Foi o marco na nossa vida.

— Posso dizer o mesmo da Sis.

— Ah... Ela com certeza balançou as coisas com vocês, imagino. Mas... Chegou a ver algum experimento?

— Quase nenhum. O Jyrki estava mais calmo quando ela apareceu. Mas ele sempre foi sem noção. – Deixando a xícara de lado retomou a postura de quem ia contar outra longa história. — Teve um dia. Ele estava atrás de um homem e a Sis estava com ele... Quando achou. – Sua voz se calou automaticamente trazendo a seriedade incomum ao seu rosto. — O Jyrki matou o homem na frente dela e eu nem pude fazer nada. Eu só... assisti o sangue espirrar no rosto dela e aquela menina chorar.

— Hades...

— Ela chorou tanto. – Pela primeira vez desde que começaram a falar o rosto dele se entristeceu pesado pela culpa. — Ela não tinha nem 10 anos, Kura! Eu...  Me pergunto se ela tem pesadelos com as coisas que viu.

Nesse momento nenhum dos dois tinha mais o que dizer. Eram somente culpa que carregavam em seus ombros e o peso de todas as lembranças que jamais os abandonaria. Ambos entendiam a sua função como companheiros de Caçadores de almas. Sua vida não acabava até que eles desaparecessem e seguravam dentro deles todos os sentimentos que esses Caçadores não podiam ter.

Kuragari e Hades viveram vidas diferentes ao lado de filhos dos mesmos pais, criaturas iguais no nascimento, mas diferentes em vida. Os dois sempre souberam das consequências que levariam consigo vendo o desespero e lamentando por todos, mas mesmo assim quiseram acreditar e dar solo para que a vida brotasse dentro deles.

Ela esticou a mão tocando a do homem com carinho deixando que entendesse que compartilhava de seu peso mesmo que não carregasse o mesmo. A mulher queria que ele soubesse que jamais o culparia pelas coisas que não pôde evitar e sabia que Sis também não. Eles eram tudo o que a pequena tinha e mesmo que vivesse assombrada ela sempre voltaria para o colo de Hades porque o amava de alguma forma.

— Por que ele ficou com ela? – Perguntou carinhosamente no tom que uma mãe usa com o filho tristonho. — É diferente de nós com o Night.

— Outro experimento. O último. Jyrki queria ver uma criatura crescendo... ele só esqueceu que não sabia cuidar de crianças. – Suspirou afastando a dor no peito soltando a mão dela. — Não vou te contar como aconteceu, mas foi isso.

— Deve ter sido difícil para vocês.

— Foi. – Havia um sorriso leve no canto dos lábios talvez para se confortar ou talvez porque aquilo ainda era sua família. — Eu sei que ele pensou em matar ela quando viu pela primeira vez, mas... acho que a curiosidade foi maior.

O sorriso cresceu o fazendo rir estranhamente sem saber se realmente deveria. Era estranho até para ele estar vivendo ali calmamente sabendo de tudo o que tiveram que passar. Kuragari apenas o observou contente por saber que ele não se arrependia de ter chegado tão longe.

No meio desse momento desajeitado eles ouviram barulhos de rangidos seguidos de passos vindo da escada atrás. Ambos olharam encontrando o alto homem descendo calmamente os degraus como se tivesse acabado de acordar.

— Te acordei? – Hades chamou o fazendo olhar para eles.

— Não.

— Olá. – Kuragari cumprimentou sorridente o vendo acenar com a cabeça.

— Vai sair, Lucius? – Continuou sem tirar os olhos dele que sem responder caminhou até a cozinha lhe mostrando um copo de água. — Ah... Então vem cá.

— Não.

— Para de ser chato. – Gritou ouvindo o copo ser colocado na pia antes de sair da cozinha. A forma amigável como se tratavam fez Kuragari sorrir já se afastando e dando espaço para que ele se sentasse ali. — Você sabe que é melhor vir. – Sem querer discutir ele seguiu em frente bufando até se sentar no sofá ao lado da mulher e próximo a poltrona de Hades.

— Pega a maçã. – Ela aproximou o prato dele mostrando as fatias carameladas colocadas com cuidado e ele só conseguiu olhar sem ter certeza do que fazer.

— Mas sabe, – Hades falou afastando a cena materna que a mulher normalmente criava para todos que falavam com ela — eu não culpo o Jyrki pelas coisas que aconteceram. Quando não se te sentimento fica difícil ter empatia ou entender seus arredores. – Lucius não sabia do que falavam, mas o fitou assim que ouviu o comentário. Hades sempre falava com ele sobre o outro então acabou sendo um costume parar para ouvir essas histórias. — Ele ainda protegeu a Sis de tudo. No início pode até ter sido pelo experimento, mas depois... – riu vendo as cenas de birras que os dois normalmente causavam quando estavam juntos. — Ele briga, grita, encara ela, mas sempre faz questão de que ela fique bem. Salva de tudo.

— Ele é mais humano do que muitos por aí.

Hades assentiu sabendo de quem ela falava e então viu Lucius timidamente pegar uma das maçãs como se tivesse esquecido que estavam ali. A imagem o fez sorrir e se perguntou se o rapaz era como Jyrki quando se tratava da irmã.

Com o tempo que viveram juntos as semelhanças entre os dois se tornaram mais notórias, porém ainda existia uma coisa que sempre preocupava Hades. Jyrki é um Caçador, filho do Deus da morte, ele foi criado para não sentir já o Lucius ainda era meio humano e tinha sentimentos. Seus olhos fitaram o dele pensando em quanta dor teve que carregar sozinho enquanto trilhava seu caminho sangrento. Quando percebeu estar ficando preocupado, riu.

— O Night teve sorte com você, Kura. Uma família estável.

— A Sis também. Você ama ela! – Comentou rindo o fazendo concordar. — Para alguns de nós nossa vida de acompanhante é curta e para outros, como nós dois, é longa suficiente para perceber nosso papel aqui. – Ela sorriu fechando os olhos como se pudesse ver alguém ali e depois abriu o encarando. — A gente teve sorte.

— Hm... Eu continuo tendo. – Seu comentário direcionou seu olhar para Lucius que sem entender o encarou de volta.

Como companheiros de Caçadores de almas eles não tem escolha a não ser assistir a vida passar por eles. Suas vozes não podem mudar seus destinos e seus corações nem sempre são fortes o suficiente para ver a dor. No dia em que atravessam os portões em direção ao mundo vivo eles se tornam a vida na morte e é por causa deles que há significado nessa jornada.

—Fim. XVII


Notas Finais


Eu não queria colocar tristeza durante essas estórias, mas não teve jeito D: Quis aproveitar pra mostrar esse lado que dificilmente falo do Hades e da Kura, de como eles são irmãos assim como qualquer acompanhante seria porque dividem o mesmo fardo. Também contar umas passagens dos meus bbs e não tinha ninguém melhor pra falar sobre isso do que esses dois :D
Espero que tenha gostado ^^ Obrigada por ler e amanhã tem mais <3


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