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História Contos de Quase Amor - Capítulo 6


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Notas do Autor


***Alerta de Tristeza!!!***

Capítulo 6 - Flocos de Neve e Sal


Eram seus momentos finais. Eu sabia disso. Mas ele... Ele já havia aceitado.  Como eles faziam isso? Como conseguiam aceitar o derradeiro fim, com apenas um número tão finito para se viver uma vida? Ele nem havia conquistado o seu sonho...

--- Fallen, você ainda tá aí?

--- Claro que sim meu amor. --- Segurei sua mão e passei pelo o meu rosto. --- Não irei a lugar algum.

--- Não queria que você me olhasse nesse estado decrépito, você não merecia essa visão de mim. --- Sem aviso, um acesso de tosses recomeçara.

--- Não termine. --- estendi um copo de água para ele.

--- Meu querido. --- ele apertou meu pulso com as poucas forças que tinha --- Se tenho algum arrependimento, é o de que queria estar bem mais lindo para você agora. Ou pelo menos que você só se lembrasse de mim quando estava bem mais sexy.

--- Seu tolo você é sempre lindo para mim. --- beijei a sua mão.

--- Duvido que me ache lindo. Lábios azuis secos, bochechas sucadas, cego e sem nenhum cabelo.

--- É lindo para mim sim, e pare de gastar suas energias com essa discussão estúpida. --- beijei-o, mesmo com os lábios secos. Mas eu não saberia dizer se Lipe gostara. Ele estava sempre indo e voltando do estado da consciência.

                                                                  &&&

A primeira vez que eu o vira, eu estava praticando as minhas habilidades com a espada, e Ruiadh  que era o melhor espadachim da guarda real me treinava, mesmo com tão pouco tempo nela ele era bem exigente.

“ Abaixou a guarda.”  Um golpe. Tentei de novo. “ Abaixou de novo.”  Outro golpe, e mais outro e mais outro. Não importava o quanto eu tentasse, eu nunca era bom o bastante para os parâmetros de Ruiadh.

Após um tempo ele já havia perdido a paciência comigo, tanto que conseguira cortar a minha mão com a espada de madeira usada para treinamento., me fazendo descuidar novamente com a minha guarda, dando abertura para ele me dar um forte chute no peito, me jogando alguns metros para longe dele.

Eu ficara completamente desorientado.

“ Você realmente é o candidato-herdeiro ao trono Seelie do Outono. Não é nem forte para uma dessas.”  Ruiadh desembainhou sua espada de 3 gumes. A arma principal da guarda e a apontou para o meu pescoço.  “Quem dirá digno do trono Outonal... E da coroa do seu pai.”  Ele se afastou de mim.  “Continuamos o nosso treinamento no próximo alvorecer, quando os pardais despertarem. Não se atrase. Alteza.”

Quando consegui ficar de pé, eu tinha resolvido perder algum tempo e caminhei a esmo pelos bosques. Eu era o único príncipe da linhagem do meu pai, o que significava que estava habituado a bajulação excessiva, exceto da parte da guarda, que tinha o dever de aparentarem tão estáticos quanto uma árvore, tão robustos quanto um Ent e tão atentos quanto um lince.

Eu não esperava palavras doces deles mesmo, mas Ruiadh... Ele realmente me incomodava. Ele era o único do Círculo Outonal, fiel ao reino de Autumn que ousava demonstrar desprezo a minha imagem e a mim pessoalmente.

Ele era deveras detestável e calculista, a ponto de conseguir  manchar a minha reputação, sendo bajulado de Belo Rei Âmbar na minha frente, e de Príncipe Folhas Secas pelas costas.

Meu pai ordenara que ele me treinasse, mas não com o intuito de nos conhecermos e compreender o lado um do outro, mas sim para que eu sofresse nas mãos de Ruiadh e contemplasse as minhas fraquezas e inaptidões. Ao menos era isso que Ruiadh estava fazendo comigo. Em todo o tempo em que pensara a respeito, havia concluído que pai desejasse que eu matasse Ruiadh, mas não conseguia me sentir furioso, pelo menos não a esse ponto. Eu não sabia se algum dia seria capaz de realizar os feitos que eram marca do meu pai.

Ruiadh, no entanto demonstrava ser capaz de realizar tais feitos. Parecia que queria ser notado pelo meu pai e pelos seus bajuladores pessoais por seus feitos contra mim.

Após tanto andar, eu acabara me distraindo, foi quando Lipe apareceu para mim, vindo do céu como uma estrela.

“ Sai de baixo!”

 “Wou!”  Havíamos rolado abraçados sem perceber por toda a ladeira da colina, até pararmos num riacho. Lipe ficara em cima de mim como uma rã numa nenúfar.

 “Bela pegada.”  Foram as suas belas primeiras palavras para mim  “Você é bem resistente, mas suponho que Sidhe sejam mesmo.”  Eu estava pasmo com a sua visão... E meio zonzo também.

Ficamos a tempo demais naquela posição constrangedora, até que meu Lipe se lembrara de ter mais o que fazer e se movera para longe de mim.

“ Sabe, eu ainda não sei o sabor de um Sidhe molhado e arrebentado.”  Foi quando nos beijáramos pela primeira vez.  “Agora eu sei. É um sabor muito bom o seu. Majestade.”  E saíra ao seu rumo, me deixando largado no riacho. Algumas Naiádes me olhavam assustado e me mordiam, se certificando de que eu estava vivo.

Eu podia estar, mas minha mente estava bem longe.

                                                                          &&&

Aqueles anos pareciam tão distante...

--- Sr. D’Outono; vim fazer a checagem de rotina.

--- Claro, respondi a enfermeira. --- Observei a hábil humana anotar as  informações que apenas ela compreendia na tela que supostamente mostrava os movimentos do coração de meu Lipe , depois ela passou uma luz em seus olhos, que não reagiram, finalizando ao colocar um líquido na bolsa de nutrientes conectada as veias de Lipe..

Como se fossem raízes de suculenta. Mais uma vez, eu me impressionava com a engenhosidade humana.

--- Fallen?

--- Aqui. --- segurei suas mãos novamente.

--- A enfermeira já foi

--- Já saiu sim. Por quê?

--- Não preciso da solidariedade forçada dela, só de morfina. Até porque, ela diria algo como, “Como está se sentindo Sr. Felipe?” e eu diria algo como: “Não sei, como você acha que câncer te faz se sentir? --- ele riu. Eu sabia que essa era uma mania dele, usar o humor para mascarar a dor. --- Então não, não vou desperdiçar as poucas energias que ainda tenho conversando com qualquer  pessoa além de você, meu Fallen?

Eu sorri e beijei seus lábios. Mesmo agora o desejava com força, mas estava frágil demais para isso.

Quando interrompi o beijo, Lipe riu novamente. --- Está rindo do quê agora?

--- Lembrei-me do nosso primeiro beijo. De que eu tinha caído de bunda em você. Que jeito sutil de dizer que eu te queria nela.

 --- Como você é vulgar.

--- Você adora. E vamos ser justos, quando caímos naquele riacho, eu senti seus olhos no meu tanquinho.

--- Que tanquinho, você sempre foi magrelo como um palito. --- Ele fez bico. Sempre fazia isso quando o cortava. --- Até porque, eu notava outras partes suas.

--- Agora quem tá sendo o vulgar?

 --- Falava de seus olhos e de sua boca. O jeito como me olhou quando descobriu o meu sabor.

--- Você sempre foi delicioso. Você tinha o sabor das folhas verdes que o Outono mantém. Ainda tem. Você sempre foi o meu sabor predileto.

Ignorando as normas do hospital, eu me deitei com Lipe em seu catre. Abracei-o em meio aquele amontoado de fios, e comecei a fazer carinho nele, alocando-o em meu peito, mergulhando mais uma vez em memórias preciosas.

                                                                                  &&&

Eu sabia que havia humanos servos no palácio de Autumn, alguns cientes e outros nem tanto. Lipe não era um deles. Apesar de ser dono de seus pensamentos, como todos os humanos que ali viviam, estava preso a um pacto, mas isso não o impedia de andar pelo local como se usasse a sua própria Coroa Sazonal.

A única pessoa para quem ele curvava a cabeça, era para Autumn , mas isso era mera cortesia, por que ele era o rei. O único ser que ele de fato respeitava era o Goblin Bitterleaf. O cozinheiro real.

Aquele com quem fizera o seu pacto.

Diziam que seu pacto funcionava de maneira em que Lipe se tornara seu pupilo. Pupilo do Goblin mais detestável daquele círculo. Todos achavam que Lipe era um humano insano, e talvez fosse mesmo. Ele também era o ser que eu conhecera que desrespeitava Ruiadh abertamente. Claro, sem ser poupado de sua fúria.

Apesar de seu pacto, ele não era protegido por Bitterleaf, o que significava que geralmente ele levava punições dos outros membros da corte. Merecidos ou não. Eu nunca  esqueceria do dia em que ele fora escalado para servir o chá para a família real e os bajuladores.

O motivo pelo qual ele escalara aquele Pinheiro era porque precisava de uma Pinha verde molhada pelo primeiro orvalho da manhã, para fazer o chá daquela reunião de lisonjas. Ordens diretas do rei.

Ele de fato havia conseguido realizar a tarefa, para a surpresa de muitos, porém eles serviam este chá apenas para os membros família real e alguns membros da corte, para os outros, ele servira chá com extrato de tomate diluído, fazendo a língua de 5 bajuladores caírem em seus pratos.

Era o tipo de show de horror que satisfazia o meu pai. Ele realmente desejara congratular o feitor de tal ação, e torná-lo seu novo predileto, mas Lipe nunca se revelara.

Ele nunca fazia nada que não desejasse.

                                                                           &&&

---...Agora quem tá rindo é você...

--- Lembrei de quando você derreteu a língua dos bajuladores.

--- Por que acha que fui eu.

--- Ah Lipe, eu te conheço melhor que isso. Você tinha reputação no castelo, além de que, eu vi o jeito como saiu sorrindo depois de sua bagunça.

--- Ninguém me ofende e sai impune, muito menos se for falar da minha Mainha.

--- Sinceramente, me surpreende que não tenham conseguido te matar.

--- Ninguém se atreveria a por o dedo no capacho de Bitterleaf. O único que ousava era o babaca do Ruiadh. Aquele macho inseguro e esquentadinho, mas ele exagerou quando deslocou todos os meus dedos. Bitterleaf teve de colocar eles todos no lugar.

--- Quase o matei por isso. --- beijei suas mãos delicadas.

--- Relaxa. Depois do que ele fizera comigo, Bitterleaf se recusara a preparar a comida dele, o que significava que só tinha a mim para cozinhar para ele. E eu sempre colocava sal na comida dele. Bastante.

--- Você era cruel.

--- Eu me esforçava. Desde que eu fizera o pacto, eu sabia que a minha vida seria uma selva, mas sempre fora, então...

--- Você nunca me contou sobre o seu passado antes de vir para cá.

--- Não há nada para contar. Eu era gay num lugar que não gostava de tipos como eu, e quando não havia mais nada me prendendo lá, eu vazei. Fim.

Eu acariciei uma tatuagem de coração no seu pulso, escrito “Mainha”. Eu tinha uma igual, mas nesta havia o nome de Lipe.

E desta vez...

                                                                                   &&&

Me lembrei de quando ele me levara as famosas boates Discotecas humanas. Era bem barulhenta, colorida e seminua. Lipe me explicara que era mista, que isso significava que todos iam lá para se divertir de todo jeito e sem maldade, apesar do lugar ser uma espelunca. Mas garantiu-me que seríamos bem recebidos, e assim que se avaliava a qualidade de um estabelecimento humano.

Havia muitas luzes, pessoas e música humana trovejante. Da última vez que escutara música humana, Clare de Lune de Debussy era a música mais famosa entre eles. E suas músicas, junto de seus antecessores.

Agora suas melodias haviam se tornado mais ousadas e suas vestes mais diminutas e coloridas. Parecia que estavam numa eterna comemoração. Mas eu não ligava para nada daquilo, eu estava simplesmente feliz por ter sido notado por Lipe, a ponto de ele querer me mostrar mais de seu mundo, de me permitir entrar em seu íntimo, em seu mundo próprio além do Círculo Outonal.

Também experimentara emoções como encanto, fascínio, descontração e ciúmes. Naquela mesma noite, Lipe beijara alguém que não era eu. Na época eu não conseguira entender porque ele fizera aquilo comigo. Porque traíra os meus sentimentos daquela maneira. Doera ainda mais quando voltara para mim sem entender a minha dor.

Perdi o controle das minhas emoções naquela noite.

“Como pode fazer isso?!”

“Isso o que?”

“Por que finge não entender. Eu te amo. Por que sempre age como se não Isso não fosse claro.”

“Você o que?!”

Eu o havia beijado naquela noite. Feito com intensidade dos meus desejos por eles. Mas foi tolice minha achar que isso seria suficiente. Eu descobrira da maneira mais difícil que seres Humanos sentem um prazer sádico pela complicação e pela dificuldade. Beijos e carinhos não bastariam para alguém tão complexo quanto o meu Lipe. Quando voltamos ao mundo Fae, e a lua completava um ciclo, Lipe começara a me evitar e se apavorar. O humano que não abaixava a cabeça para os Faes, estava temendo o Príncipe das Folhas Secas. Por mais que aquilo tivesse mudado a maneira como a corte me via e todo tipo de boate equivocado à surgir.

Meu único desejo era que Lipe conversasse comigo.

A tarde em que enfim eu conseguira encurralar meu camundongo, Lipe estava preparando massa de floco de neve com a supervisão de Bitterleaf, que estava claro ser uma tarefa exigente.

Quando Lipe me vira, acabara se assustando e transformando toda a massa em água e açúcar.

“Inútil!” Bitterleaf batera com um rolo de massas em seus dedos. “Vai praticar e praticar até acertar. Sem nem por um momento descansar ou repousar.”

   O Goblin mal-humorado saíra sem me perceber, e quando a cozinha ficou vazia, me aproximei de Lipe e curei seus dedos.

“Se concordasse em ser meu consorte, não teria mais que passar por nada disso.”

“Cala a boca! Você não sabe de porra nenhuma!” Ele nunca gritara comigo antes, aquela fora a primeira vez.

“ Voltou a falar comigo enfim.”

“Você é insuportável!” Ele havia se afastado, agora com os dedos saudáveis.

“Ao menos me explique o que fiz para merecer seu desdém. Pensei que nós...”

“Nós o quê? Que éramos namorados, só porque você me quer? Desculpe desapontar, mas não pertenço a ninguém?”

“ Mas eu te amo!” Eu dizia e ele não escutava.

“Só faz 90 Luas que começamos a conversar, antes disso eu não era outro mortal de contrato da sua corte. Você é só mais outro feérico que acha que eu não passo de um bonequinho de barro!”

“Não poderia estar mais enganado sobre meus sentimentos.” O olhar desapaixonado que me dera enquanto fumava um de seus recreativos humanos fez meu coração doer. “Sou eu? Ou é a minha coroa? Porque se for a coroa, eu abdico dela para te ter.”

“Não se trata disso Fallen. Você não me conhece bem, e nem eu te conheço. Você só acha que nos resumimos as nossas reputações.” Ele não conseguia me olhar.

“Você me acha um futuro rei frouxo e fraco?”

“Sinceramente, acho que o Círculo Sazonal precisa de um rei gentil e cheia de consideração por seu povo e pelo povo alheio como você” O vi o sorrir pela primeira vez em noites.

“Bem eu te acho tão desaforado e teimoso, que não me surpreende Bitterleaf ter te escolhido como seu pupilo. Mas também vejo uma qualidade delicada, determinada, lutando todo dia para ser visto como alguém a ser respeitado.” Me aproximei lentamente dele e esperei que ele viesse para me beijar. “ Eu quero ver o que há mais além disso e do mesmo jeito quero que queira o mesmo de mim. Que queira ver mais de mim do que aparento.”

Naquela noite fomos para a sua moradia. Era uma abóbora gigante concedida por Bitterleaf. Lipe me contara que ele só fizera isso para que ele não dormisse ao relento como um cão sarnento, e mesmo assim, Lipe conseguiu dar ao rústico local, um charme urbano típico dos humanos.

Naquela noite conversáramos muito junto de taças de vinho humano, sobre o reino, sobre como Ruiadh e Bitterleaf eram babacas e quem dos bajuladores ele esqueceu de arrancar a língua.

Todo o tempo que conversávamos Lipe não parara de tentar fazer a massa de floco de neve. Falhando inúmeras vezes. Eu descobrira naquela noite os motivos por trás do pacto entre ele e Bitterleaf.

Lipe era apaixonado por sabores e pela culinária e queria conhecer todos os sabores que existia. Esse tipo de paixão desenfreada e descuidada humana fez com o que seu caminho cruzasse com o do velho Goblin, que concordara  compartilhar de sua longevidade e juventude feérico dele; em troca ele jamais deveria desobedecê-lo, do contrário o Tempo cobraria a dívida. Por isso ele não parou de fazer a massa até alcançar o ponto de perfeição.

“Por que não descansa? Você não vai parar de tentar, só vai recuperar as suas forças.”

“ Não posso. Você o ouviu Fallen.” Ele me disse enquanto polvilhava a  massa com açúcar fino. Sentando- se ao meu lado e enchendo sua taça de vinho. “Eu não sou novo Fallen, posso parecer jovem, mas tenho 124 anos humanos... E isso é anormal. E eu não acho que tenho coragem de enfrentar as consequências do Tempo.” Ainda me lembrava da sua maneira de lamber os lábios. “Então se quisermos que isso funcione de alguma maneira, precisa ser tolerante com Bitterleaf.”

“Ele é cruel! Não quero que ele te torture mais.”

“Bem não há muita escolha para mim, e eu sou brasileiro. Se tem algo que eu aprendi nessa vida é que precisamos tirar o melhor proveito das situações ruins. Por mais péssimo que sejam, certo? Afinal, graças a essa situação estamos aqui agora.” Ele passou a mão delicada e calejada para dentro das minhas vestes e deslizou ela pela minha barriga até alcançar o meu membro, que o bem recebeu.

Aquela noite, enquanto degustávamos do vinho e dos biscoitos feitos de sua deliciosa massa, ouvindo a banda humana T-Rex, uma das músicas que tocara na boate Disco era deles, e eu sussurrara em seu ouvido.

“Twentieth Century Boy; I wanna be your toy.”

Naquela noite fizéramos amor pela primeira vez, nos unimos de corpo e alma a alguém pela primeira vez e sentimos a perfeição. Sentimos o prazer e a dor um do outro, porque no final eu e ele éramos tudo o que víamos. O coração de um batia no compasso de outro. Eu podia sentir na minha mão apoiada em seu peito que ainda segurava a sua. E sua mão era a única que eu desejaria segurar para todo o sempre.

                                                                       &&&

--- Twentieth Century Boy; I wanna be your toy(1). --- Lipe cantarolou baixinho.

--- Lembrou-se da nossa primeira vez também?

--- Como poderia esquecer, eu achava que você seria bem inexperiente e que teria que te guiar, mas eu nunca gozara tanto na minha quanto naquela noite, ou nas nossas outras vezes.

 

--- Está sendo vulgar novamente.

--- Você gosta e sabe que sim.

--- Mo Aghra(2). --- Beijei a sua bochecha até começar a chupar o seu pescoço e sentindo-o ficar rijo na minha mão e começar ao estímulo.

--- Oh Fallen...

--- Sr. D’Outono, não pode ficar no catre de seu companheiro não pode.

--- Deixe nos a sós  --- eu ordenei com um encantamento e a enfermeira calou-se, fechando a porta do quarto após sair. Aparentemente isso fora o suficiente para fazer meu Lipe desmanchar em minha mão, e eu lambi meus dedos.

--- Adoro quando você entra no modo rei. --- ele respirou com dificuldade e a máquina ao lado chiou animada por um tempo. Contemplá-lo corado como estava...Me deixava feliz como a muito tempo. E também me fez questionar a respeito de nossas escolhas.

--- Algum arrependimento?

--- Você está perguntando se me arrependo de desistir da longevidade por nós...  Acha que me arrependo de ter te escolhido, ao invés do máximo de tempo possível com você? Que devíamos ter continuado a procura por alguma rescisão do pacto.

--- Pelo menos algo menos sem dor. --- Peguei a sua mão e a passei pelo o meu rosto.

--- Eu não me arrependo de nada Fallen. Eu fiz o pacto aos 28 anos, e assim permaneci por mais de 100 anos. E este nossos 53 anos juntos foram os mais maravilhosos da minha vida. Não os trocaria por nada. E não pensaria duas vezes na minha situação nem fodendo.

                                                                 &&&

Lembrei do momento exato em que Bitterleaf nos flagrara trocando carícias na despensa da cozinha. Ambos ficamos apavorados, principalmente com os guinchos do Goblin.

“ O servo e o príncipe juntos, não pode ser! Verme, longe de Vossa Majestade fique longe, pois esta união não deve acontecer.”No momento em que vira os braços de  Lipe se afastarem do meu peito, como se impulsionados por uma força maior. Aquilo me enfureceu demais.

“Você, ordeno que não dê mais ordens a Felipe!”

“Vossa majestade equivoca-se ao achar que tem poder sobre Bitterleaf, pois mesmo sendo o próximo na linha de sucessão, é a Coroa Sazonal que Bitterleaf é jurado.” Ele sorriu maliciosamente para mim. “ Verme, volte a cozinhar para os Nobres e para o Verdadeiro Rei. E nunca mais se aproxime de nenhum membro da família Real.”

Meu Lipe derramara uma única lágrima naquele momento. Depois erguera a cabeça altivamente.

“Se eu fizer isso, viverei tanto quanto você, correto?”

“Correto.”

Lipe então soltara o seu avental e entregou honrosamente a Bitterleaf. “Obrigada por todos esses anos me ensinando.” Lipe segurou a minha mão e guiara-nos a saída.

“Sem nosso pacto... Sabes qual será o teu destino...”

 “Que assim seja.”

Nas estrelas que passaram e surgiram, eu me desesperei tentando achar um meio de tornar Lipe imortal novamente, até pedira para formar o mesmo pacto comigo, mas ele recusara. Falara em todas as coisas que podia lhe oferecer, que retrucava dizendo que já possuía tudo o que desejava.

Ele me tranquilizava dizendo que tudo ficaria bem, o que não estava arrependido, mas isso não me impediu de me dedicar a Lipe ao máximo com todos os métodos profiláticos que eu tinha acesso.

E agora estávamos aqui. Diante de nossos momentos finais.

                                                                                        &&&

--- Tá chegando a minha hora, né Fallen? --- Eu não respondi, se o fizesse, choraria. --- Você me faz um favor.

--- Qualquer coisa, meu amor. --- Beijei seus dedos.

--- Sabe essas máquinas, elas ainda estão me mantendo no meu corpo, ou devem fazer isso por pelo menos mais algumas horas, mas eu não quero mais esperar. Assim Tânatos pode enfim dar me seu doce beijo e me libertar.

--- Mas Lipe...

--- Por favor Fallen, eu não aguento mais. --- Eu não podia dar-lhe recusas, não aquela altura. Puxei as máquinas de suas fontes de alimentação na parede, que os médicos diziam ser seus substitutos orgânicos. --- É muito melhor sem todos esses bips e flups, mas pode ficar melhor.

--- Diga o que quer, que eu farei.

Ele sorriu para mim pela última vez. --- Cante para mim. Cante para mim no Antigo Idioma. Cante as canções que anestesiam o homem com sonhadora felicidade e deixe as notas me carregarem para o meu fim. --- Mesmo que ele não pudesse ver o meu rosto, eu chorei, sofrendo por aquele ser o nosso fim. --- Sh-sh, não chore. --- Ele passou suas mãos em minhas faces úmidas. --- Sua voz não fica bonita quando chora.

Engasguei uma risada, e me recompus. Cantei as suas músicas favoritas, porém do jeito que ele ansiara.

--- Fallen...Eu te amo. --- e a luz sumiu de seus olhos.

                                                                            &&&

(Seria a primeira vez e a única.)

(Eu o ouvi, meu amado.)

(Seu sabor é de Flocos de Neve e Sal.)


Notas Finais


1: Garoto do Século XX, eu quero ser seu brinquedo
2: Meu amor


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