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História Contos de uma noite - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


oi, chuchus!
eu voltei com uma nova história também sendo repostada, mas estando reescrita! eu só não mudei o couple porque eu já havia pedido a capa da outra vez e eu nao iria pedir para trocar tudo, certo? enton, aqui estou!

espero que gostem iti ♡

Capítulo 1 - Refúgios e lacunas.


Refúgio. 

Todos precisam de refúgios, ainda que não queiram um. 

O nem tão refúgio de Kim Chaewon, uma das meninas mais badass da escola, eram as festas secretas que aconteciam no galpão da Rua 17. As festas eram conhecidas por suas icônicas fotos do dia seguinte, onde Hitomi Honda, a fotógrafa do jornal da escola, fazia as honras de memorizar os melhores momentos dos alunos. Para Hitomi, seu refúgio era a câmera que havia ganhado de presente seu pai, logo após o divórcio. Era uma história triste, de fato, mas que havia terminado muito bem. 

O refúgio de Jang Wonyoung eram os livros de matemática, os quais passava horas estudando e refazendo as questões, até que a mais complexa das fórmulas se tornasse a mais fácil de memorizar. Não era atoa que todos na escola diziam que seu único namorado eram os números, mas quase ninguém sabia que Jang namorava um menino da faculdade. Inteligência e virilidade — e quem disse que garotas não podem fazer os dois? 

Já o refúgio de Kwon Eunbi eram as redes sociais. Conhecida pelas famosas fotos do instagram, Eunbi sempre teve um caminho sombrio a seguir, ainda que fosse filha do ex prefeito da cidade. 

Mas para a jovem Jo Yuri, seu refúgio era a sua janela. Era de lá que ela conseguia ver a cidade como um todo, como uma só, o que não era verdade. Não havia cidade mais desunida do que aquela — e o pior, uma cidade que guardava os segredos mais sombrios embaixo do tapete do vizinho. 

De lá de cima, onde Yuri sentia que podia tocar as estrelas,  as luzes da cidade piscavam desconexas, enquanto que o comércio tinha luzes vermelhas por causa do Natal. Era uma época gostosa de viver, onde todos tentavam trazer o espírito natalino para dentro de suas casas e lembravam de uma época onde suas vidas eram... mais fáceis. Talvez por esse exato motivo, Yuri se prendia tanto à vista da janela. Talvez se prendesse demais no passado. 

Pelo vidro entreaberto observava a chuva pingando levemente na pequena sacada que havia feito para as suas plantinhas. 

Yuri era uma plantomaniaca, no sentido literal da palavra. Ainda que gaguejasse no segundo N, ela adorava se intitular como tal, mas não era de se esperar menos de alguém que era orgulhosa de suas simples, mas bem cuidadas, plantinhas. 

Contudo, em toda essa história havia um pequeno contratempo, um ainda maior do que todos os segredos lançados para debaixo dos tapetes: Choi Yena. A dona dos fios rosados e do all star surrado não foi só uma passagem na vida de Yuri. Yena abrira uma cratera que Yuri nunca pôde fechar. 

Yena passava todos os dias caminhando em sua rua. O caminho era o mais seguro até a sua casa, mas Yuri acreditava que nem tudo era uma grande coincidência. 

Sempre que passava, Yena chutava algumas pedras ou cantarolava as músicas que ouvia em seu fone. Sempre bem alto para que Yuri aparecesse na janela, curiosa. 

Infelizmente, ela sempre aparecia. 

Talvez fosse algo em Yena que não a deixasse pensar direito e que a fizesse parecer uma tonta.

Quando encarou o pequeno relógio em formato de nuvem marcando às oito, Yuri retornou à sua leitura. Havia acabado de comer uma maçã inteira e seu estômago gritava por outra, mas sabia que precisava controlar o impulso de comer desesperadamente, então perdeu-se nas páginas amareladas.

O livro contava a história de uma menina que havia se perdido na floresta e acreditava que um dia encontraria o Saci. O personagem e o jeitinho abrasileirado como as palavras eram colocadas a deixou encantada antes mesmo de terminar o prólogo! O livro, no entanto, não era seu e pertencia à Sakura, uma estudante de intercâmbio que chegou há dois anos. 

Sakura queria se formar em relações internacionais e seu sonho era representar o Japão, mas não antes de conhecer todos os países que pudesse. Na escola, seu tipo de personalidade era chamada de peregrina, uma vez que Sakura era incapaz de manter-se parada em um só lugar. 

Ela queria conhecer o mundo e o mundo era o seu refúgio. 

Como toda boa curiosa, ela tentava conhecer a literatura ao redor do mundo e apresentou a brasileira que tanto havia encantado Yuri. A pequena Larissa, personagem principal do livro, era tão curiosa e aventureira como Sakura, mas tão paciente e sonhadora quanto Yuri. 

No mesmo momento em que se perdia nos próprios pensamentos, ouviu um barulho vindo da janela. Provavelmente era um morcego ou algo que o vento havia jogado, mas então o barulho se repetiu. 

Yuri encarou a janela novamente. Antes de abri-la, olhou para o telhado do primeiro andar e não viu nada além de folhas velhas do que havia restado do outono. 

Outra pedrinha voou em sua direção e fez exatamente o mesmo barulho. No entanto, ela notou algo diferente: Choi Yena encharcada no meio da rua. 

No primeiro momento, Yuri quis fechar a janela e voltar a ler. E isso era o que provavelmente Yena merecesse, mas Yuri era boa demais. Tão boa que desceu as escadas bufando e encarou a porta por um minuto antes de abrir.

Yena estava na calçada, observando Yuri como um pobre cachorrinho que havia acabado de cair da mudança. 

— O que você quer? — Ainda que tenha imaginado uma cena melodramática na porta de sua casa, o seu tom mais parecia entediado do que magoado.

Yuri queria mandá-la embora no momento em que a viu. 

— Eu posso entrar? — pediu. Aconteceu o que Yuri esperava: Yena tentou abrir caminho, mas o corpo pequeno e frágil de Yuri a impediu. 

— Há vários comércios abertos. — prontificou-se em responder a primeira coisa que viesse em sua mente. Era uma resposta grosseira, ponderou, mas não era nada que não estivesse a altura de Yena. 

— Eu não posso ficar na chuva. — Era péssima desculpa! A chuva já quase não caia e Yena acreditava que o pior já tinha passado. — Por favor! — implorou. Talvez fosse o mau tempo, ou o bom humor de Yuri, mas, independente do que fosse, a fez assentir e abrir espaço para que Yena passasse. 

Se eu não a deixasse entrar, minha consciência me pegaria, pensou. Mas, se fosse pensar friamente, deveria ter jogado a toalha pela porta e fechado a casa. 

Yena não morreria de frio e Yuri não testaria sua paciência. 

— Eu não encontrava ninguém em casa... — disse, enquanto deixava pingos de água por onde passava. — Aqui foi o primeiro lugar que eu pensei em parar. 

Yena limpou os pés e tirou os sapatos, mas não adiantou muito. Um rastro de água já havia sido criado.

Os olhos da dona do all star prenderam-se na lareira acesa e Yuri assentiu. 

Yena era pequena, talvez não passasse de 1,60, mas ainda sim tinha seu próprio charme. Talvez esta fosse a razão pela qual Yuri ainda não havia superado seus sentimentos por ela. Mesmo que tivesse partido seu coração, ainda havia uma parte de Choi que a prendia. 

Ou talvez Choi fosse uma pedra no seu sapato. Quem poderia saber? 

Yuri pegou um pouco do chocolate quente que havia preparado e o entregou em uma pequena caneca rosa para Yena. À contragosto, sentou-se ao seu lado na lareira, mas manteve uma distância que a deixasse mais confortável. 

Era tão terrível que Yuri não confiasse em si mesma naqueles momentos? Principalmente na presença de Yena?

— Obrigada por me deixar entrar. — Yena sussurrou. A frase havia acabado de cortar o clima penoso que havia na sala, mas, por qualquer motivo que fosse, Yuri ainda não se sentia confortável em ouvir sua voz ecoando pela casa. 

— Por nada. — Não havia muito mais o que responder à Yena. 

Ainda que amasse brincar com as palavras, Yuri não era boa em colocá-las em prática. Sua dificuldade de expressar o que sentia de maneira exata a deixava tensa e, quase sempre, demonstrar abertamente o que sentia a fazia sentir-se desconfortável e exposta. 

Era por isso que era péssima quando estava perto de Yena, a menina que brincava com palavras, mas sabia exatamente quando usá-las. 

— Pensei que não me deixaria entrar. — Yena a encarou, mas Yuri não retribuiu o olhar; seus olhos permaneciam fixos no fogo da lareira. Ela sentiu o peso do olhar cansado, mas não quis pensar no porquê. — Por... você sabe.

— Eu também pensei... — Yuri encarou seus próprios pés, movendo-nos da lareira. Sua consciência a fez parar de falar. — Mas está chovendo muito e, bom, você disse que não conseguia voltar para casa. 

— Ah, minha mãe levou as chaves e não pude entrar, mas estou esperando meu irmão chegar. Eu só precisava de um lugar para ficar por uns vinte minutos. — Yena enrolou-se ainda mais. Naquele jeito, parecia uma menininha encolhida em uma ostra. — Assim que eles chegarem, eu vou, Yuri. 

— Não precisa ter-

Yuri queria dizer que ela não precisava ter pressa, mas ao mesmo tempo queria enxotá-la de casa. Seu coração pedia uma coisa, sua cabeça pedia outra, mas nem sempre as mesmas coisas. Por vezes, tentava ouvir seu lado menos emocional e se deparava com as respostas mais melosas. O mesmo acontecia quando consultava seu lado meloso e recebia as respostas mais calculistas que já havia ouvido. 

Até mesmo os lados de Yuri eram repletos de dúvidas e contradições. 

— Mas... — Yena a interrompeu mais uma vez. Seu olhar estava na lareira, passeando de um lado para o outro enquanto via a madeira queimar. — Como eu já estou aqui, podemos conversar sobre o que houve? 

O coração de Yuri palpitou, mas não como nos filmes românticos, onde o coração palpita, mas o estômago se enche com borboletas. Era uma palpitação que mais parecia um infarto, contudo, antes que Yuri pudesse dizer algo, Yena continuou: — Somos vizinhas, colegas de classe e temos até os mesmos amigos e você mal olha pra mim. — Yena a encarou. — Você olhava pra mim...

Yuri queria olhar, mas sabia que, no momento em que colocasse os olhos em Yena, seu coração se despedaçaria no mesmo segundo. Como ela dito antes: ela não confiava em si mesma quando estava perto de Yena. 

— Eu queria pedir desculpas. — Yena sorriu. Não foi um sorriso receptivo, mas foi o suficiente para Yuri pensar que ela poderia estar falando a verdade. 

Yena era difícil de decifrar, ao menos na percepção de Yuri. Seu jeito meigo podia se transformar em um monstro de um minuto para o outro, enquanto que seu o jeito doce como a sua voz saia poderia significar a mais das dissimuladas façanhas de Yena. 

Não se sabia o que ela pensava, nem o que sentia. 

Contudo, ainda com todas as pautas, controlar o passado não era algo tão simples para Yuri. Seu coração não foi o único ferido... Todas as mentiras que Yena contou afetaram a todos que a rondavam, mas Yuri descobriu tarde demais.

O refúgio, ou o antigo refúgio, de Choi Yena eram as suas próprias mentiras. Inundava-se de mentiras sobre seu dia-a-dia, mentiras sobre as pessoas do colégio que espalhava em mensagens anônimas. Não era difícil acreditar que Yuri havia mudado, mas sim que havia se arrependido de tudo o que causou nas outras pessoas... tudo o que causou em Yuri.

— Você não se sente culpada? Depois de tudo o que fez... se sentiu culpada? — Yuri encarou Yena pela primeira vez. Seus olhos escuros tinham um fervor que Yena provavelmente nunca viu em sua vida, mas Yuri não podia fazer muita coisa.

— Eu não tive muito tempo pra me sentir culpada, então, em parte não, mas agora eu tenho. — Yena deu de ombros. — Magooei muita gente e magooei você. Yuri, você era minha melhor amiga durante nossa infância e você era a coisa mais importante que eu tinha. — Yena mordeu o lábio inferior. — Sei que se passaram seis meses e sei que pensa que eu te usei, mas eu não usei. Nunca sequer eu contei um segredo que havia me contado.

— Mas contou de todos os outros! Você expôs as pessoas-

— E eu sei o quão errado isso foi e por isso pedi desculpas e aceitei as consequências, mas não quer dizer que eu não possa tentar pedir desculpas por tudo o que fiz. — Yuri pensou que Yena fosse dizer algo como “mas eu não fiz por querer”, mas nada assim saiu de sua boca.

Choi aceitou seus erros e suas consequências. Yena estava prestes a quebrar a fina camada de vidro onde se escondia para fugir dos seus erros e ela o estava fazendo agora, na frente de Yuri.

Deixou a caneca ao lado da poltrona onde estava recostada. Yena virou seu corpo para Yuri e abriu a boca diversas vezes antes de realmente deixar alguma coisa escapar: — Eu amei você por tanto tempo. — Era difícil entender as coisas quando tudo estava tão confuso em sua cabeça. 

— Eu também. — E não havia nenhuma mentira nessas palavras. De fato, Yuri amou tanto quanto poderia amar, mas não foi o suficiente para que o seu coração cedesse aos encantos de Yena. 

— Você não deveria se sentir culpada. — Yena a olhou de cima a baixo. — Sei que se sente culpada por ter ficado comigo enquanto eu escondia isso de você, mas não foi sua culpa, Yuri. 

Yena espalhou tantos segredos que Yuri mal podia contar, mas o pior segredo foi descobrir que a pessoa que mais amava era quem fazia tão mal a todos os outros. Mesmo sem nunca tocar no nome de Yuri, não era algo que poderia aceitar, nem mesmo com as mais sinceras desculpas. 

— Nunca achei que fosse minha culpa. — defendeu-se — Me senti culpada porque me senti usada por você... Eu me apaixonei por você. 

As palavrinhas mágicas saíram, finalmente. Yuri era apaixonada por Choi Yena, mas não que isso fosse uma novidade — todos no colégio sabiam, mas era tão cômodo ver as duas juntas passeando pelos corredores que ninguém mais ligava. 

Contudo, se naquele momento Yena pudesse ver suas emoções, veria que Yuri estava despedaçada por dentro, mas que estava aliviada por finalmente contar-lhe a verdade.

— Mas eu não te odeio. — Deu de ombros. — Não de verdade, pelo menos. — Yuri admitiu. 

— Sinto muito por não ter retribuído da maneira que gostaria. 

Os olhos de marejados de Yena a encararam. Yuri voltou a encarar os próprios pés. 

— Eu também. — Deu de ombros novamente. 

Então o celular de Yena tocou. Ela recebeu uma mensagem, provavelmente de sua mãe ou de seu irmão. Na mesma hora, apontou para o telefone e deu um sorriso sem graça. Era hora de Yena ir embora, mas dessa vez de uma vez por todas. 

Suas bochechas estavam vermelhas, mas Yuri não sabia dizer se era pelo calor ou pelo o rumo que o assunto tomou. Talvez Yuri deveria ter parado no “você não se sente culpada?”, mas se fosse assim nunca saberia expressar o que estava sentindo. 

Talvez nunca conseguisse entender que, no final das contas, sentia-se culpada por ter guardado, ainda que inconscientemente, um segredo terrível de Yena. E sentia-se culpada por tantas pessoas estarem magoadas até hoje com o que foi dito naquele site.

Mas Yuri entendeu, no momento em que fechou a porta enquanto segurava a toalha amarela, que nunca foi sobre os seus sentimentos, mas sobre fechar uma lacuna. 

Precisava suturar a ferida que Choi Yena havia deixado. 


Notas Finais


iti espero que tenham gostado uwu


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