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História Contos de Vagn, O Bardo - Capítulo 5


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Capítulo 5 - O Melhor Bardo de Valleywood


Fanfic / Fanfiction Contos de Vagn, O Bardo - Capítulo 5 - O Melhor Bardo de Valleywood

Uma gota leve e gelada de chuva cai pelos meus cabelos, desce pela minha testa até meus olhos, onde se mistura com as salgadas lágrimas, passa pela ponta do meu nariz e finalmente mergulha nas profundas e embarreladas poças que se formam abaixo dos meus pés. A chuva torna meu trabalho muito mais fácil, pois a terra está úmida e a pá penetra suas profundezas com suavidade. Eu cravo a ponta da pá mais uma vez naquela cova, empurro-a mais fundo com meu pé direito, apanho o cabo com força e lanço um montante de terra para o lado. De novo, e de novo, e de novo, até a cova estar bem aberta, bem espessa e bem funda.

- Assim está bom.

Eu apanho o corpo de minha mãe, envolto em grossos e firmes panos acinzentados que comprei junto com algumas cordas para prendê-lo firmemente ao corpo da velha. Ela parece um grande pacote cinzento, triste e sem vida. Quando a apanho em meus braços e me agacho para dar a ela um repouso eterno, escuto um mugido forte e doloroso. Betty está atrás de mim, em seu cercado, observando com os grandes e negros olhos. Dizem que a expressão de uma vaca é sempre a mesma. Naquele momento ficava nítido essa mentira. O lamaçal começava a se formar ao fundo da cova. Eu desvio meu olhar de Betty, coloco o corpo de minha mãe ao fundo do buraco, junto de algumas flores e itens prediletos. O que eu faço agora? Falo comigo mesmos esperando que ela escute? Fecho a cova e vou embora? O que eu faço? Fico ali observando corpo envelopado, aos sons de mugidos e chuva, até que um último pensamento vem à mente. Eu me levanto, corro para dentro da casa, sujando todo o piso com a lama das galochas – minha mãe teria me matado – apanho o alaúde deitado na poltrona e retorno para a cova. É um sentimento estranho, se despedir de duas coisas que marcaram sua vida ao mesmo tempo. Mas parece o certo a se fazer. Eu dou uma última olhada na madeira avermelhada do meu velho amigo, passando a mão sobre seu corpo molhado, sem medo que a chuva possa estraga-lo, dedilho suas cordas uma última vez, em uma melodia sem ritmo ou senso, e o deixo repousando ao lado da legítima dona. O nome cravado na base do instrumento cintila com a água que escorre.

- Você era um Bardo melhor do que eu. – Eu falo sem pensar, com minhas palavras saindo da boca como um sussurro.

É um aperto forte no peito, uma sensação de não saber o que fazer, um medo e uma saudade, tudo ao mesmo tempo, que me fazem desmoronar. Eu enxugo meu rosto, apanho a pá e torno a cobrir a cova. Os mugidos de Betty ficam mais altos e me acompanham a cada arremesso de terra. Está feito. Eu cravo a longa cruz de madeira ao norte do túmulo, me certificando para que não seja deslocada tão facilmente. Na cruz, em letra miúdas, jazia:

“Elewyn de Valleywood, Mãe Querida, Esposa Amável e O Melhor Bardo Que Essa Cidade Já Viu. Descanse em Paz”

Betty muge mais uma vez. Inconformado, vou até ela para me certificar de que tudo está bem. Me aproximando do cercado, os olhos brilhantes como o céu negro da noite me encaram com um tipo de simpatia. Ela para à minha frente, próxima à cerca, bufa e permanece me observando. Eu levo minha mão para acariciar sua cabeça peluda e molhada, enquanto observo a cova. Ela desvia o olhar junto ao meu.

- É garota, você realmente me entende, não é. – Ela bufa mais uma vez e eu sorrio. A cova está ao lado da casa, embaixo de uma grande mangueira que minha mãe sempre adorou. Algumas flores, de diferentes cores, crescem ao pé da grande árvore, transformando o túmulo em uma visão agradável. – Somos só eu, você e as galinhas agora, não é mesmo. – Ela bufa. E eu sorrio. – Sabe do que eu preciso? – Os olhos negros dela se encontram com os meus, como se perguntasse algo de maneira retórica. – Uma boa bebida.

A taverna está cheia, como toda noite. Jack está ao balcão, o barulho está no ar e a música...Bem, não há mais música. Eu limpo minhas botas no tronco posto à porta antes de entrar, retiro minha capa de chuva, que impedia minhas roupas recém-trocadas de se encharcarem como as outras, e vou até Jack. O balcão está vazio, todos os bancos livres e a conversa dos fregueses parece tão boa que nenhum deles parece notar minha chegada. Nunca vim à taverna fora de trabalho, nunca imaginei que um dia viria. Mas as coisas mudam, não é? Quando me sento no banco central e me debruço em cima do balcão grudento, Jack me lança um olhar estranho.

- Não vou te devolver o emprego, Vagn. – Ele fala, enquanto limpa uma caneca com seu pano cinza. Ele usa aquele pano pra limpar tudo aqui dentro.

- Só quero uma bebida Jack, nada mais.

- Você não bebe.

- Agora bebo.

Ele coloca a caneca descansando ao lado das outras, em um mural de longas prateleiras atrás do seu corpo gordo e peludo, se aproxima do balcão, como se fosse me contar o maior dos segredos, e pergunta:

- O que aconteceu?

- Eu só quero uma bebida. – Digo, virando meu rosto para o lado das mesas, evitando olhar nos olhos dele. - Sem papo, só bebida.

Ele solta um longo suspiro, se afasta do balcão, apanha uma grande caneca e pergunta:

- Vai querer o que?

- O que tiver de mais forte. – Ele me olha curioso. Realmente nunca bebi desde que saí da adolescência e, sinceramente, o olhar de Jack me preocupou. Dizia: “Tem certeza disso? Não vou te carregar até sua casa.”

Mesmo assim, ele se virou para as prateleiras, apanhou uma garrafa grande e cheia de um líquido preto, tornou a caneca para seu lugar de origem e um copo minúsculo com aquela coisa viscosa. No momento em que colocou o copo na minha frente e o cheiro forte daquela bebida invadiu minhas narinas, não pude fazer nada além de engolir seco. Jack se debruçou no balcão outra vez e disse:

- Toma cuidado com isso aí. – Os olhos dele me observavam o tempo inteiro, como se buscassem respostas de perguntas insaciáveis.

Eu apanhei o copo e joguei aquele troço para dentro da garganta o mais rápido que pude. O líquido desceu queimado meu interior, até cair no meu estomago como uma bomba, daquelas criadas por anões. No segundo seguinte havia me tornado um livro aberto. Jack era um desgraçado esperto, quando o copo pousou no balcão me encheu com as perguntas. E por algum motivo, não relutei em responder. Depois da longa conversa, e talvez uns desabafos, senti minha cabeça rodopiar como um diabrete enfurecido, meu sentido desapareceram em um estalar de dedos. A última coisa que me lembro antes de cair no chão era do rosto arrasado de Jack. O homem era duro como uma rocha, mas agora, seus olhos se encharcavam como um lago. Ele limpou as lágrimas, antes que alguém visse, com o pano cinza, fungou o nariz, esfregou o bigode e correu desesperado paro o balcão. Eu caí, e agora só Deus sabia quando iria acordar.

Jack cumpriu sua promessa. Realmente não me carregou até em casa. Eu acordei sobre o chão gelado da taverna, com a cabeça dolorida, olhos tampados por remelas, barriga ardendo e mente girando. Me levantei com certa dificuldade, e quando o fiz, notei que o dia já estava para amanhecer. A taverna estava vazia, com algumas pobres almas dormindo sobre as mesas assim como eu. O cheiro de álcool era mais forte do que o normal. Só de pensar em beber meu estomago se revirava. Me aproximei do balcão, olhei de um lado para o outro e não avistei o gordo peludo a quem devia pagar. Ousei acordar um dos bêbados e perguntar onde fora Jack, mas ele apenas ergueu a cabeça, balbuciou algumas palavras aleatórias, tomou alguns segundos para me xingar, e retornou ao seu sono de princesa.

- Atacar... Atacar... Eles vão atacar... – Cochichava, sonhando como um bebê.

Já que Jack parecia não estar, e eu não me lembrava do quanto bebera noite passada, resolvi repartir metade das minhas moedas e esconde-las na gaveta especial de Jack. A gaveta estava trancada, mas um belo soco a abriria com facilidade. Jack perdera a chave há décadas, me dizia, mas a gaveta sempre se trancava sozinha e abria com um bom soco. Lá estava o dinheiro que ganhara durante o dia. Eu separei minhas moedas, de maneira bem mais desorganizada que as demais, para que ele soubesse que fora eu quem as deixou ali. Quando sai da taverna, ainda chovia, mas alguns fracos raios de Sol escapavam pelas nuvens.

- É...Está na hora de voltar pra casa. – Falei, me espreguiçando sobre a brisa da manhã.

O álcool não curara o sentimento de perda, e logo me lembrei de que a casa estaria vazia, sem ninguém para perguntar aonde estava, como foi a noite, ou como estava o gordo ranzinza que conhecera quando pequena. Um forte suspiro saiu de meus pulmões, minha fisionomia se depreciou e meu rosto se fechou. Meu andar era calmo e monótono, não queria me apressar para chegar em casa. Com a cabeça baixa, não percebi quando os três idiotas me pararam na rua principal. Talvez se tivesse andado com a cabeça erguida tudo seria bem diferente. A mão pesada de Fred sobre meu peito me fez parar. Quando notei a presença dos três arruaceiros meu corpo gelou, consegui evita-los durante semanas, e agora estavam ali outra vez.

- Você é bem escorregadio, não é? – Perguntou Fred, com um sorriso podre no rosto. Ele agarrou a gola da minha blusa e me atirou no chão, transformando o sorriso maldoso em seus lábios em uma expressão sólida de raiva. – Quanto tempo achou que ia se esconder da gente, bardo?

- Não sou mais um bardo. – Por que eu falei isso? Como se fosse me ajudar em alguma coisa.

- Cala a boca! – Gritou Tedd, empurrando meu rosto contra a lama com uma das botas.

Ned começara a rir. Sua risada era descontrolada, extremamente alta e idiota. Parecia mais estúpido quando ria do que realmente era. Fred me agarrou pela gola de minhas vestes outra vez, me erguendo do chão como se fosse uma folha de papel.

- Está nos devendo, bardo. – Eu virei o rosto assim que ele abriu a boca. O bafo era insuportável. – Quantas semanas se passaram Ned?

- Cinco semanas. – Ele falou, seguido por sua risada idiota.

- Não foi tudo isso. – Por que eu continuo falando?

A cabeça dura de Fred acertou meu nariz em cheio. Os três imbecis começaram a gargalhar, enquanto meus olhos se reviravam com o impacto e meu nariz começava a sangrar.

- Agora são seis. – Disse Fred, sorrindo.

- Eu não tenho seis moedas. – Falei, esperando outro ataque.

- Ah é? E essas aqui. – Disse Tedd, agarrando minha sacola de moedas, chaqualhando-a.

- Parecem muitas pra mim Tedd. – Disse Ned.

- Eu também acho, Ned. O que você acha Fred? – Ele disse, lançando a sacola para o irmão.

Ele me largou quando tentou apanhar a sacola, me deixando cair com o traseiro no chão. O saco de moedas acertou seu rosto em cheio, fazendo os dois outros irmãos começarem a rir, até que o grito raivoso de Fred os silenciou. Quando voltaram sua atenção para mim, conseguiam ver apenas um singelo vulto correndo de volta para a cidade. Não sou idiota, não ia esperar para ver o grandalhão descontar a raiva que teve do saco de moedas em mim. Os três dispararam gritando atrás de mim, mas, conforme fui adentrando uma viela aqui e outra ali, logo se perderam. Eu me encostei em um muro, bufando como um cachorro louco, com o coração pulsando adrenalina, joelhos fracos e rosto gelado. Os três gêmeos eram de sangue nórdico, então eram altos, loiros e muito burros. O desserviço que faziam para a cidade era de “proteção”. Caso você não os pagasse por essa proteção, te esmurravam até perder os sentidos. Os guardas não faziam nada contra eles porque ninguém nunca ousou denunciar, por medo de uma retaliação dos irmãos. A única vez que denunciei nada aconteceu, e os desgraçados me perseguem até hoje. Quando finalmente tive plena certeza de que se foram estúpidos demais para me seguir, me recompus e tornei a andar para fora da cidade, rumo à minha casa. Mas quando me aproximei da saída para o bosque, senti dois fortes braços me prendendo em uma chave de braço inquebrável. Os três idiotas começas a gargalhar, enquanto Fred e Ted posicionam-se a minha frente. A chuva de socos e chutes que se seguiu foi brutal. Acertavam meu torso, meu rosto e minhas pernas sem remorso, todos rindo no processo. Eu me debatia, tentava chuta-los, mas nada adiantava. Em um momento perdi as forças e desisti. Quando Ned sentiu que havia cansado de lutar, me ergueu sobre sua cabeça e me lançou ao chão. O impacto me fez perder o folego por completo. Uma dor indescritível subiu do meu tórax para minha cabeça, fazendo lágrimas não desejadas escorrerem com força. Os chutes pareciam inacabáveis. Eles continuavam, e continuavam, e continuavam. Quando finalmente a dor era tanta que não sentia mais nada, quando finalmente minha vida parecia se esvair, eles pararam, rindo como um bando de hienas. Fred me apanhou novamente pelas golas e começou a falar algo. Tudo que ouvia eram zunidos. Meus olhos lutavam para permanecerem abertos, nem mesmo os cuspes que caiam em meu rosto com a fala acalorada de Fred me faziam reagir. De repente, a expressão dele mudou. Parecia confuso. Suas mãos me soltaram e eu despenquei no chão outra vez. Os rostos dos três se voltaram para o Oeste, pareciam chocados, assustados. Eles correram, me deixando ali, caído, espancado, fragilizado, semimorto. O chão começou a vibrar com força. A inquietação e curiosidade me fez rolar para o lado e observar o que acontecia. No topo de uma das colinas que cercavam Valleywood, uma enorme cavalaria disparava contra a cidade. Meus sentidos  retornavam aos poucos. Primeiro vi os cavalos, homens e estandartes; depois ouvi as trombetas e o galopar; e por último senti os enormes cascos pisoteando meu corpo, esmagando minhas pernas e minhas costas. A dor foi tanta que não consegui gritar, chorar ou espernear. Fui roubado do meu folego novamente, meu rosto se contraiu em agonia, minha boca se abriu em desespero, tentando berrar sons que não saiam de meus lábios. Os gritos dos aldeões, o tinir de espadas e o cheiro de fogo inundou o ambiente. Quando a cavalaria passou já não sentia mais nada, só estava ali, parado, imóvel, observando os últimos acontecimentos antes de cair na escuridão. Então, esse era o fim? As pessoas diziam que no fim nos lembramos de entes queridos, momentos de alegria e pessoas amadas. Mas, estranhamente, as últimas palavras que dançaram pela minha mente eram “Atacar... Atacar... Eles vão atacar...”. O bêbado não falava bobagens afinal.  



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