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História Contos de Vagn, O Bardo - Capítulo 8


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Capítulo 8 - Niffgrad


Fanfic / Fanfiction Contos de Vagn, O Bardo - Capítulo 8 - Niffgrad

Os corpos pendurados nos galhos das árvores enfeitavam a estrada para Valleywood. Amdir parecia estarrecido e um tanto quanto confuso. Nunca o vi tão calado como nesse dia, tão pensativo e sério. Andávamos a pé, em nossos corpos de origem, observando a mata queimada, os enforcados e os corvos que se alimentavam daqueles que pereciam no que parecia ser um campo de batalha. Aquilo era o que a guerra trouxera para Arendel e, penso eu, todos os reinos que se envolvem em guerras. Aquilo não era um saque comum, os quais os bárbaros do norte costumavam realizar, ou uma intimidação bem calculada dos misteriosos guerreiros do leste. Não, era algo grande que parecia não terminar ali. Eu apanhei um pano fino em minha sacola e coloquei-o em meu rosto, tampando meu nariz e boca. O cheiro pútrido era terrível, e a fumaça negra que era trazida até nós pelo vento, nos impedia de respirar.

-Estamos longe? – Perguntei, sem sorte em obter uma resposta. Amdir está muito quieto. Aquilo me preocupava.

Mais alguns minutos silenciosos de caminhada e escutamos um forte galopar vindo em nossa direção pelo sul. Nós dois olhamos para trás instintivamente assustados, e pudemos enxergar a nuvem de poeira que vinha ao nosso encontro. Era uma cavalaria grande.

- Amigos? – Perguntei, com a ansiedade crescendo em meu peito.

- Não. – Amdir falou, com frieza na voz e olhar. – Se transforme.

A nuvem esmeralda contornou nossos corpos e logo nos transformamos em dois negros corvos. As pontas de minhas penas eram avermelhadas, enquanto alguns fios da pelugem de Amdir eram tão prateados que reluziam no Sol. Aquela era uma característica dos druidas. Quando nos transformávamos adquiríamos aspectos da coloração de nossos cabelos, e as vezes até mesmo feições, em nossos corpos. Levantamos voo e nos misturamos aos outros pássaros que se alimentavam da carne podre daquele mar de corpos. A visão era ainda mais devastadora dali de cima. A mata esverdeada agora estava seca e sem vida, o fogo que surgia de carroças reviradas e pilhas de corpos queimados se alastrava pela planície, os corpos jogados no solo banhavam a terra com sangue e os pássaros banqueteavam como se estivessem no paraíso. A fumaça negra impediu nossa visão quando a cavalaria passou pela estrada. Conseguimos ter apenas o simples deslumbre de uma massa vultuosa cavalgando para o norte, mas nenhuma identificação, mesmo com nossos bons olhos de corvo. Quando retornamos ao chão Amdir falou, sério:

- Estamos chegando em Valleywood e tudo indica que encontraremos uma cidade devastada, ou um campo de batalha recém-formado.

- Não acha melhor voltarmos? – Ele não disse nada, apenas começou a caminhar. – Que propósito nos resta se a cidade está em ruínas? – Nenhuma palavra – Essa guerra não é nossa, deveríamos voltar para a floresta e contornar o perigo rumo ao norte. – Nada – Sua amiga deve estar morta de qualquer jeito, pra que correr esse risco?! – Ele parou. Devia ter ficado quieta.

Seu rosto, sisudo como uma rocha, se virou para me encarar. Inexpressivo como nunca fora antes, me olhava com repreensão. Não precisava dizer nada, já havia entendido a mensagem. Mas ele continuava a me encarar, o que me fez abaixar a cabeça em desconforto. Ele se aproximou, agarrou e apertou minhas bochechas com uma das mãos e virou meu rosto para o campo morto.

- Está vendo aqueles corpos? – Perguntou, mas o aperto de minhas bochechas não permitia que meus lábios se mexessem. Não que eu quisesse responder, já havia falado demais. – São homens de Niffgrad. Sabe para onde vão? – Ele virou meu rosto para o norte, rumo a Valleywood.

- Valleywood? – Tentei falar, com os lábios presos.

- Não. Depois disso. – Não sabia a resposta, então apenas o lancei um olhar confuso. - Valleywood é apenas uma passagem, uma pedra no meio do caminho. O objetivo deles é Godswall, é um ponto estratégico.

- E daí? – Tentei perguntar novamente. Ele parecia me entender.

- E daí que há muito chão de Valleywood até Godswall para ser percorrido. Podemos intercepta-los, chegar primeiro na fortaleza, prende-los em Valleywood, tantas coisas que podemos fazer. – Eu estava confusa, não conseguia entender por que nos arriscaríamos por isso. Não era nossa guerra. Amdir realmente me conhece bem, ou tinha a habilidade secreta de ler mentes, pois justo quando pensei no porquê de fazer isso, ele virou meu rosto para o fogo que se alastrava para a floresta de onde viemos. As chamas começavam a impregnar os troncos, subindo pelos galhos até as folhas, se espalhando pela mata, destruindo ninhos e tocas, aterrorizando criaturas que viviam tranquilas. Podia sentir cada angústia ao longe, no coração da floresta, cada temor que crescia com o cheiro da queimada atingindo os olfatos aguçados dos animais. – Na guerra os inocentes sofrem sem que os combatentes sequer percebam. Por isso existimos, Aywen, por isso os Deuses nos fizeram quem somos. Para proteger e cuidar daqueles que jamais serão cuidados pelos outros. Se Niffgrad cair em Valleywood, tudo isso acaba. Mas se Godswall cair, teremos uma angústia sem fim que vai consumir a terra e todos que nela vivem.

Ele me largou, se transformou em um corvo e alçou voo. Eu continuava a observar a mata queimar. O vento logo soprou um pouco do fedor dos corpos para minhas narinas, junto com a fumaça, o que me fez tossir freneticamente. Os corpos enforcados pareciam me observar, me julgar, pareciam dizer: “Me vingue por favor”. Era uma visão horrível. Amdir era um velho e sábio Elfo, e eu o respeito muito, então se ele quer impedir Niffgrad de chegar em na fortaleza de Godswall, que seja. A névoa esverdeada contorna meu corpo e eu também me transformo em um pequeno corvo, alçando voo atrás de Amdir. Não demorou muito até chegarmos em Valleywood e pararmos no topo de uma árvore solitária aos pés de uma das colinas que rodeava a cidade. No galho em que pousamos havia três homens enforcados, assim como os da estrada. Os três, com suas peles roxas, veias saltando do corpo, olhos vermelhos e esbugalhados e feições de desespero, pareciam quase idênticos uns aos outros. Eram altos, loiros e fortes, quem sabe de sangue nórdico. Uma placa de madeira enfeitava o corpo de um deles. Ela dizia apenas uma coisa: “Covardes”. Amdir pareceu não se importar, mas tudo aquilo me incomodava muito. Na cidade, alguns soldados de armaduras negras saiam de casas e estabelecimentos, arrastando pessoas, saqueando seus pertences e rindo no processo. Haviam alguns mortos na rua, em sua maioria guardas. Ao fundo, em um terreno vazio que separava o grande castelo da pequena cidade, um imenso acampamento começava a ser montado. Os braseiros e fogueiras eram acendidos, as barracas e tendas erguidas, os cavalos amarrados e os estandartes erguidos. Era um cerco perfeito. Niffgrad não estava de brincadeira. Amdir virou-se para mim e começou a piar. O canto esganiçado do corvo era irritante, mas totalmente efetivo. Eu entendia cada palavra que saia dos bicos dele, mas suspeita alguma podia ser levantada. Assim que ele acabou de me instruir no que fazer, levantou voo e seguiu rumo ao pequeno bosque do lado de fora da cidade. Disse que encontraria sua amiga. Eu dei uma última olhada naqueles três homens pendurados, com um pouco de pena, mas também terror e nojo, e voei rumo à cidade. Quando pousei no solo lamacento, me transformei rapidamente em um pequeno e ruivo rato, me esgueirando por entre as vielas. Parei ao lado do que parecia ser uma taverna, quando ouvi dois soldados insultando alguém dentro do local. Um calafrio forte atravessou meu corpo, arrepiando meus pelos, assim que os dois atiraram um homem forte e robusto na lama. Eles gargalhavam. O homem, com braços peludos, avental encharcado de lama, bigode prateado e careca reluzente implorava por clemência. O dia piorava cada vez mais. Ele parecia um homem bom e sisudo, mas agora, estava quebrado, aterrorizado e perdido.

- Por favor... Por favor... Eu vou para o castelo... eu... eu não fiz mal a ninguém... – Ele dizia em meio a lágrimas e soluços.

- Você vai pro castelo? Merda nenhuma, vai ficar aqui com a gente. – Disse um dos soldados, armado com cotas de couro negro e uma espada curta na bainha. – Você é divertido.

- Não... Não... Por favor... – Os dois se aproximaram e espancaram o pobre velho, enfiando seu rosto na lama, enquanto riam descontroladamente.

Como alguém pode se divertir com aquilo? Eu pensava, enquanto me controlava para não me transformar em um urso e dilacera-los pedacinho por pedacinho. O homem se levantou da lama, agora irritado. Foi uma mudança repentina que assustou até mesmo os dois soldados. Parecia que estava cansado de pedir piedade, de implorar, e sabia que nada adiantaria. Seus olhos estavam secos, sem vida e emoção, os olhos de alguém que desistiu. Ele limpou a lama do rosto, se ergueu alguns bons centímetros mais alto do que os outros dois, e cerrou os punhos. Um dos soldados levou a mão no cabo da espada, talvez na tentativa de intimida-lo, mas não adiantou. O soco do velho foi mais rápido, lançando-o no chão com o rosto na lama. O céu nublado começou a chorar, conforme o homem avançou em cima do segundo guarda assustado, agarrou seu braço da espada e o quebrou como um graveto, lançando-o ao chão junto do amigo. Amdir sempre dizia que um animal ferido, encurralado e humilhado era o tipo mais perigoso, pois esse não tinha nada a perder e seu instinto de sobrevivência se aguçava ao extremo. Nunca acreditei que algo sem esperanças ainda poderia lutar, mas agora acabara de presenciar o ocorrido bem na minha frente. O primeiro soldado a cair se ergueu, apanhou a espada e investiu contra o velho. Ele levou alguns belos socos e pontapés, até que sua espada atravessou a barriga carnuda do homem, derrubando-o de joelhos. Meu corpo congelou outra vez. Assim que os grandes olhos verdes se encontraram com os meus jurei que ele sabia quem eu era, jurei que me reconhecera por trás da pele de rato. O soldado caminhou ofegante até as costas do velho e correu sua lâmina pela garganta rosada e enlameada do homem indefeso e derrotado. O sangue jorrou, banhando o aço da espada. O velho caiu, com os olhos fixos nos meus, misturando o sangue com a lama e as gotas de chuva. Minha respiração mudou, ficou pesada e minhas patas começaram a tremer. Eu queria fugir, sair dali o mais rápido possível, gritar por Amdir, mas não conseguia, meu corpo não me obedecia. Estava em choque. O soldado se retirou com o amigo apoiado em seus ombros, seguindo para o acampamento. Passei alguns longos minutos ali parada, sem saber o que fazer, sem querer fazer nada, apenas olhando o corpo mórbido à minha frente. Assim que meus sentidos retornaram, respirei bem fundo e segui meu caminho para o acampamento dos soldados. Passei por vários corpos, dentre eles aldeões, guardas da cidade, soldados de Niffgrad, homens, mulheres, crianças, animais, todo tipo. Foi fácil evitar ser vista. No acampamento, as poderosas águias negras que seguravam o escudo dourado dos brasões de Niffgrad tremulavam nos estandartes. O brasão também estava presente nas tendas escuras, uma das quais adentrei na esperança de encontra algo. E de fato encontrei. Na tenda havia um homem deitado em uma maca, com panos ensanguentados cobrindo suas pernas e torço, um balde de água avermelhada ao seu lado e vários utensílios médicos em cima de uma pequena mesa, dentre eles martelos, cerrotes, pinças e outros. Ele estava desacordado, com seus longos cabelos castanhos cobrindo parte de seu rosto e a lama cobrindo a outra parte. Assim que pensei em me aproximar, ouvi o barulho de alguém atravessando a entrada da tenda. Era um homem alto, com curtos cabelos negros, barba rala, olhos azuis cristalinos, uma longa cicatriz no lado esquerdo do rosto e uma armadura negra e dourada de placas. Parecia ser um oficial pela maneira que se portava. Eu me esgueirei atrás de alguns caixotes e observei. O oficial acordou o enfermo e os dois começaram a trocar breves palavras. O homem na maca parecia confuso, ferido e irritado. Ele começou a gritar, tentou se levantar, mas foi impedido pelo soldado.Com ambas as mãos cobrindo os olhos seus olhos, começou a chorar e soluçar. O oficial apanhou um banquinho e se sentou ao lado dele, trocando palavras de conforto. Tentei me aproximar para ouvir mais claramente o que discutiam, mas assim que me movi para perto da maca, os olhos do rapaz me avistaram. O estranhamento em seu rosto assim que eu parei foi perceptível.

- Vocês têm que matar os ratos antes de cuidar de pacientes, sabia? – Ele disse, acenando com a cabeça para mim.

O oficial me olhou confuso, depois se levantou surpreso, apanhou o martelo acima da mesa e disparou atrás de mim. Eu comecei a correr de um lado para o outro, enquanto ele tentava me chutar e martelava as mesas e caixotes em que eu subia. Umas três vezes pensei que estava morta, pois o martelo caíra à centímetros de distância de mim. Levei alguns bons pontapés e finalmente consegui sair da tenda. Eu estava tremendo novamente. Vi um homem ser morto na minha frente e agora quase morri. Queria sair dali o mais rápido possível e começar a chorar em algum canto, mas Amdir ainda não voltara. Será que algo acontecera com ele? Não, não. Agora esses pensamentos tomavam conta de minha mente. Mas que desgraça! Respirei fundo outra vez e tentei me recompor. Então, me aproximei de alguns homens que conversavam e comiam ao redor de uma fogueira.

- Vocês viram como aquela puta gritou? – Gargalharam. Bando de animais. – Pena que as mulheres daqui não são tão bonitas, senão teria me divertido muito mais.

- Você é um desgraçado, sabia disso Aberlard? – Falou outro soldado – Não dura cinco minutos e já mata a mulher. Todo esse tempo e ainda não aprendeu a dividir? – Gargalharam novamente.

- E você Erick, o que fez com o taverneiro? – Perguntou um deles.

- Aquele gordo quebrou o braço de Uthred. Velho imbecil, podia ter vivido um pouco mais. – Ele tomou um gole de seja lá o que estava em sua caneca – Foi uma morte rápida. Ele até que batia bem.

Alguns tópicos inúteis a mais e um deles comentou:

- Sabe quem está vindo pra cá?

- Lorde Alfred. – Disse outro - Ouvi dizer.

- O pessoal de Godswall estão muito fodidos.

- Eles acham que os muros vão aguentar, coitados. Quando Alfred passar por aqui com o exército principal, vão berrar igual crianças imundas buscando as tetas da mãe.

- E quanto tempo temos que esperar aqui?

- Alguns poucos dias. A estrada para o Sul está livre, graças aos nossos bons esforços. – Um deles disse e sorriu sarcástico – Lorde Alfred não demora a chegar.

- E essa velharia de castelo? – Ele olhou para os muros à sua frente, cuspindo no chão com desprezo.- Quando vamos derrubar?

- Pra que? Se pegarmos Godswall isso aqui já era. Eles que morram de fome. – Todos começaram a rir, enquanto comiam e bebiam, se certificando que a fumaça da fogueira levasse o cheiro da carne que assavam para cima dos muros do castelo. Uma tática extremamente baixa.

Quando parecia que tinha ouvido tudo que podia ouvir, pensei em retornar para procurar por Amdir. Mas, quando me afastei um pouco mais das tendas, lá estava ele, caminhando pela rua principal da cidade. Ele estava em sua forma original, com o rosto fechado, olhos molhados e uma evidente raiva no rosto. Os soldados notaram sua aproximação e começaram a se levantar. Ele não parou, parecia não ligar.

- O que é que ele está fazendo? – Falei comigo mesma.

Os homens que ouvia perto da fogueira foram os primeiros a se aproximar. Eles pararam Amdir, começaram a questiona-lo e empurra-lo para trás, rindo como sempre. Ele estava muito sério, e aquilo me dava medo. Amdir carregava um longo bastão de madeira em suas caminhadas, assim como a sacola em suas costas. Ele deixou a sacola escorregar até o chão através de seu ombro, segurou firme o bastão com ambas as mãos e o girou no ar, acertando o rosto dos quatro soldados à sua volta. Os quatro caíram desacordados com a velocidade e força do movimento. Os demais começaram a se levantar e se aproximar, desembainhando suas espadas e machados. Eles claramente não estavam felizes, mas Amdir também não. Ele largou seu bastão, cerrou os punhos e a névoa esmeralda surgiu ao seu redor. Senti uma forte fisgada no peito quando vi aquilo. Algo muito ruim estava prestes a acontecer e a ansiedade estava me matando. Uma sombra negra começou a crescer, e crescer, e crescer, entre a névoa. Assim que o verde se dissipou, no lugar de Amdir surgiu uma enorme árvore, com grossas pernas, braços, mãos, um rosto idêntico ao dele, mas fortemente encouraçado com a madeira, galhos saindo de suas costas e folhas aonde deveriam haver pelos. Os soldados ficaram aterrorizados, deram alguns passos para trás e se posicionaram com escudos levantados e espadas fortemente entrelaçadas entre os dedos. Amdir agora tinha mais ou menos sete metros de altura, sete metros de puro ódio. Um soldado ansioso foi o primeiro a atacar. Ele dançou seu braço de um lado para o outro, tirando algumas lascas do grosso tronco que era a perna de Amdir. O velho Elfo apenas deu um passo para frente, esmagando o pobre coitado junto a lama. Os soldados dispararam gritando, começando a atacar a enorme árvore. Amdir jogava seus braços de um lado para o outro, varrendo todos de sua frente, chutava e pisoteava-os sem remorso. O aço das espadas e machados nada faziam contra ele. Por um momento senti um forte orgulho e admiração pelo velho mentor. Nada de Niffgrad podia feri-lo. Quando eles se afastaram um pouco, Amdir ergueu seus braços para o céu e junto dele, várias raízes saíram do solo, abraçando e destruindo as tendas do acampamento, libertando os cavalos assustados que se debatiam amarrados em postes, apagando as fogueiras, derrubando os braseiros, esmagando os soldados. O caos foi instaurado no cerco. Quando tudo parecia perdido e os soldados começavam a se afastar cada vez mais, fogo começou a chover dos céus. O oficial que encontrei na tenda gritava para seus homens arrumarem uma formação, protegido por uma longa linha de arqueiros que atiravam flechas flamejantes incessantemente na direção de Amdir. Ele cambaleou para trás, levando seu braço à frente do rosto. As flechas penetravam a madeira e o fogo se espalhava pelas folhas e galhos, e uma seiva negra começou a escorrer dos ferimentos de Amdir. Agora mais irritado do que antes, ele rugiu algumas palavras em uma língua antiga que nem eu mesma entendia, e disparou na direção dos soldados. As raízes começaram a se mexer e estapear os arqueiros para longe, mas as flechas não paravam de voar. O carisma do comandante era tão grande que os soldados obedeciam suas ordens sem pensar. Ele gritava para que seus homens cortassem as raízes, para que seus arqueiros não parassem de atirar e para que todos se mantivessem em posição. Amdir pisoteou alguns homens e atirou outros para os lados, mas logo outra saraivada de flechas o atingiu. Depois outra, e outra, e outra. A última coisa que vi foi a grande árvore correndo em chamas para cima das colinas e a multidão de soldados raivosos a seguindo. Eu me transformei em um corvo o mais rápido que pude e voei atrás dele. Quando alcei voo, notei o homem ferido se esgueirando para fora da tenda. Ele tinha um olhar de curiosidade e medo em seu rosto, mas o mais surpreendente era que ele não andava, mas rastejava como uma cobra, e aquilo parecia causar-lhe certa dor. Dois soldados o apanharam pelos braços e o levaram novamente para dentro da tenda, e então pude me concentrar em encontrar Amdir. Ele se transformou em um lobo na entrada do bosque do lado de fora da cidade. O rastro de sangue me guiava até os interiores da mata, com os soldados a alguns metros de distância. Aquele havia sido um dia péssimo, e agora temia não só pela minha vida, mas também pela do meu mentor. Eu tremia por dentro, com uma ansiedade e medo descomunal ardendo em meu peito. Olhava de um lado para o outro, sem parar, atenta a qualquer perigo, preocupada a todo momento. Minha respiração estava acelerada e meus sentidos aguçados ao extremo. Me sentia sozinha, perdida, com medo e odiava cada segundo. Só queria encontra-lo logo.

 



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