História Contos dos Treze Reinos - Capítulo 2


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Categorias Histórias Originais
Tags Fantasia, Original, Treze Reinos
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Palavras 11.143
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


SINOPSE: Desde que foi coroada, a Rainha Rhaelia Tellborne foi descreditada e chamada de indigna por muitos que acreditavam que ela, uma mulher, não era forte o suficiente para governar o Reino de Mansor, a Terra dos Desertos. Assim, quando a Coroa Solar, um dos mais importantes objetos no reino, é roubada em um dos mais grandiosos dias na história da nação, Rhaelia e sua irmã, a Princesa Anderia, devem reaver a coroa, antes que a rainha precise usá-la diante de seus súditos e dos lordes de Mansor.

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Ilustração por Laís Dallariva (@lalladalla).

Capítulo 2 - A Coroa Roubada


Fanfic / Fanfiction Contos dos Treze Reinos - Capítulo 2 - A Coroa Roubada

A sala do trono de Maravilha do Deserto era ampla, clara e de paredes altas. Tinha o formato de uma circunferência e fora construída com pedras de areia, no amarelo característico do deserto. Em espaçamentos regulares, tapeçarias com imagens e cores diversas, envoltas em placas de vidro escuro, eram alternadas com tecidos que desciam do teto e adornavam a sala, estes em vermelho, laranja ou roxo, dando, assim, um tom mais alegre e vivo do que aquele trazido pela cor morta da areia. As janelas de vidro transparente ficavam todas no alto, algumas redondas e outras retangulares, e em cada uma o metal que as formavam dava vida a um desenho diferente.

No centro da sala, três suportes cúbicos de metal brilhante formavam uma fila, e, sobre eles, algumas poucas joias estavam dispostas em hastes de ferro ou em almofadas de veludo branco. Nos dois cantos, havia galerias em nível mais alto, com cadeiras de madeira e estofamento claros organizadas de forma que todas estavam voltadas para o magnífico trono no fundo da sala.

A enorme cadeira era feita de ferro escuro, quase negro, e incrustada de ametistas no encosto e nos braços, que resplandeciam com a luz que entrava pelas janelas. O estofamento era branco e bordado em cada milímetro com fios de ouro, formando pequenos triângulos. O trono ficava em um estrado de pedra, em nível ainda mais alto que o das galerias e, a seu redor e na parede atrás dele, nada mais havia, de modo que toda a atenção de quem entrasse na sala fosse direcionada a ele, deixando passar despercebido até mesmo as joias nos suportes do centro. Porém, naquele dia, alguém se interessara mais por uma dessas peças.

A Rainha Rhaelia Tellborne estava de costas para os suportes, mirando os olhos no trono, mais especificamente em certa pedra do encosto, como se fosse encontrar ali a resposta para o urgente problema que clamava por sua atenção. Os olhos longos e negros como carvão estavam imóveis e não revelavam a preocupação que Rhaelia realmente sentia, enquanto o calor do dia fazia o desespero em seu âmago crescer ainda mais. Os deuses só podem estar caçoando de mim, pensava a mulher.

Virou-se para trás, pisando na barra do leve vestido de seda branca, olhando para Nerius, o capitão da guarda do castelo, em pesadas roupas roxas, que lhe trouxera a notícia. Atrás dele, outros seis estavam impassíveis, olhando para o chão.

– Tranque os portões. – A voz era suave, e saiu mais firme e calma do que Rhaelia estava se sentindo.

– Mas, Sua Majestade, toda a vila está no castelo hoje. – A voz era grossa e as palavras foram ditas cautelosamente.

– E espero que a situação se mantenha a mesma. Não quero dar chances para que o ladrão saia de Maravilha do Deserto antes que eu descubra quem é. Tranque os portões agora e não permita saídas.

– Como deseja, Majestade. – E virando-se em direção à porta, o guarda saiu da sala, deixando os outros seis próximos dos suportes cúbicos.

Rhaelia suspirou e se aproximou do suporte no centro. Uma das almofadas de veludo branco, onde deveria haver a Coroa Solar, estava vazia. A rainha colocou a mão direita sobre a almofada, sentindo a maciez do tecido sob os dedos, desejando que estivesse tocando o ouro frio trabalhado com arabescos da coroa e olhando para as esmeraldas redondas que a adornavam.

– Não consigo acreditar que permiti esse roubo em meu castelo. Justo hoje.

– Não foi culpa sua, Rhaelia. Como poderia prever que isso aconteceria? – a voz veio da direita da rainha, da boca de sua irmã, a Princesa Anderia Tellborne.

Era extremamente parecida com a outra, com os mesmos olhos e a mesma pele oliva, exceto que seus longos e anelados cabelos não eram negros, e sim castanhos claro, e, ao passo que a rainha os usava soltos, a princesa os prendera em um rígido rabo de cavalo. Naquele dia festivo, usava um vestido de linho amarelo com um grosso cinto roxo abaixo dos seios. As cores dos Tellborne.

Caminhou cautelosamente até onde estava a irmã, com uma expressão de tristeza. Entendia o quão mal ela devia estar se sentindo. Chamaram-na Rainha Rhaelia, a Mulher, porque fora a primeira mulher a chegar ao trono de Mansor. O reino era conhecido como a Terra dos Desertos, e, pelo antigo costume, um lugar tão duro e difícil de se viver só poderia ser comandado pela força de um homem. No entanto, o Rei Rhenindario tivera apenas Rhaelia e Anderia como filhas, não sendo capaz de deixar um herdeiro homem para o reino. Por isso, dois anos antes, quando o pai das duas morreu, Rhaelia se tornou rainha, mesmo com mais da metade de Mansor indo contra a ideia.

– Não me importa, Anderia. Acha que vão pensar nisso quando culparem a mim pelo sumiço da coroa?

A Coroa Solar era um objeto antiquíssimo, usado para simbolizar o poder do governante da Terra dos Desertos desde antes da Independência, celebrada naquele dia. Era uma grande coroa do mais puro ouro, com esmeraldas translúcidas enfeitando sua base e os cinco braços que subiam dela se encontrando em uma única ametista opaca no centro, com organza branca por baixo. Foi a primeira joia da Coroa e era usada apenas em ocasiões especiais. Portanto, perder um objeto de inestimável valor como esse era muito grave, e poderia dar razão ao povo que não acreditava que Rhaelia era digna e forte o bastante para governar Mansor.

Anderia se aproximou ainda mais da irmã, tomou a mão que deslizava sobre a almofada nas suas e a apertou. Precisava ajudar Rhaelia, e a primeira coisa a fazer seria tentar acalmá-la. E precisava ser rápida. A mais velha encarou a outra e soube que as duas resolveriam juntas o problema, assim como lutaram em união para que ela se tornasse rainha.

– Você guardou essas joias da mesma forma que os outros reis guardaram. Soldados dentro e fora da sala do trono o tempo todo. Rhaelia, você não é pior que eles, e sabe disso. Mas o roubo aconteceu, e não podemos nos lamentar por isso. O que temos que fazer agora é descobrir o que houve e tomar essa coroa de volta. – Anderia mostrou determinação em sua profunda voz, dando força à irmã.

– Sim, temos. Ainda não tenho muitas ideias, mas quis que trancassem os portões para que ninguém fosse embora. Hoje é um dia importante, e, como disse Nerius, toda a vila está aqui, o que deixa todos próximos de nós em um espaço menor. – Rhaelia soltou suas mãos de Anderia e começou a andar de um lado para o outro, o manto roxo esvoaçando a seus pés.

Maravilha do Deserto mantinha hoje em seu Grande Pátio uma festa que celebrava o centenário da Independência de Mansor. Antes parte do Supremo Império de Somor, o reino fora o primeiro de Tantalão a se rebelar e conquistar sua autonomia, deixando de fazer parte de um dos impérios.

O dia era extremamente especial, e a festa, que havia começado pela manhã, terminaria apenas pela noite, quando Rhaelia discursaria para seu povo, devendo ter a Coroa Solar sobre os cabelos negros. Era o meio da tarde e os minutos passavam rapidamente. Em dois anos de governo, a rainha trouxera vários de seus súditos para seu lado ao mostrar que era tão boa governante quanto seu pai fora, ou talvez até melhor. Todavia, muitos outros ainda não sentiam amor por ela, e Rhaelia pensara que a parte mais difícil de seu dia seria falar diante deles. Mas agora, com o desespero que tentava controlar por ter perdido a coroa, seu discurso era tarefa fácil.

Anderia estava parada, olhando para a irmã, tentando juntar as peças do quebra-cabeça que as levariam para a coroa. Sabia que Rhaelia era inteligente e astuta, e conseguiria chegar a uma estratégia que traria a joia de volta para suas mãos. Pensava, então, em uma forma de contribuir.

– A coroa é grande e chama muita atenção. Então, quem quer que tenha roubado a escondeu em um lugar que não é longe daqui. O castelo inteiro é cheio de soldados, então andar grandes distâncias com ela à vista é praticamente impossível.

– Aí é que está, Anderia: o castelo é cheio de soldados. Quem quer que tenha feito o roubo não deveria ter sequer conseguido entrar nessa sala. Temos que descobrir o que foi feito para que fosse possível passar pelos homens. Vamos pensar por partes. – Rhaelia parou e se virou para a irmã, com as mãos cruzadas em frente o corpo. – Pela manhã, recebemos a corte aqui para dar início às celebrações do dia. Cada suporte era guardado por quatro soldados. Roubar a coroa naquela hora era improvável, pois havia ali muitas pessoas e muitos guardas. – As imagens da manhã vinham à cabeça de Rhaelia. Cerca de duzentos homens e mulheres em suas melhores roupas se sentaram nas cadeiras das galerias para ouvir o que sua rainha tinha a dizer sobre aquele importante dia. Depois, foram ao centro da sala, a fim de cumprimentar a Mulher.

Todos os senhores e senhoras da nobreza de Mansor estavam em Maravilha do Deserto prestigiando a festa que a rainha organizara em comemoração à Independência. Da menor das famílias até os outros membros da Família Tellborne, todas se hospedaram no castelo, depois de viajar longas distâncias no deserto, a pedido de Rhaelia. Pensar nisso fez com que ela se assustasse ainda mais. Deixara que o mais importante objeto em Mansor fosse levado e teria todos os senhores do reino para presenciar seu fracasso.

Vendo que Rhaelia parara de falar, Anderia continuou, atropelando as palavras:

– Fomos todos então para o Pátio receber os moradores de Vila Molhada. Você se sentou à mesa principal e depois andou entre os súditos. Dançou com eles.

– Sei o que fiz, irmã. Preciso saber o que outras pessoas fizeram. Quem estava lá? Como estava a sala do trono enquanto dancei com camponeses e banqueteei? – Sentia-se extremamente irresponsável por ter deixado suas atenções se voltarem apenas para a festa. Mas não fizera por mal. Tentara conquistar os corações de seus súditos se juntando a eles e depois quis o respeito de seus lordes mostrando que era como eles. Como pude ser tão estúpida?

– Bom, eu me mantive perto das mesas. Nenhum dos senhores ou senhoras saiu de perto delas por muito tempo. Pelo menos não que eu tenha percebido.

Anderia estava impaciente. Precisavam sair dali. Precisavam ser mais rápidas. Enquanto conversavam, o ladrão poderia estar ficando longe, por mais difícil que fosse se afastar com a coroa. Além disso, logo os senhores perceberiam que algo estava errado, já que tanto a princesa quanto a rainha estavam longe da festa. Mas sabia que Rhaelia gostaria de ter um plano antes de sair dali. E sua expressão mostrava que ela maquinava tudo. Anderia podia ver como a mais velha estava absorta nos pensamentos.

– Nerius é capitão da guarda do castelo, então ele saberá onde cada um de seus homens deveria estar. Quero que fale com ele e reúna todos os que deveriam estar guardando este andar do castelo. – Rhaelia falava rapidamente, com os olhos focados nos da irmã. Passava as mãos em seu vestido, apertando o tecido. – Enquanto isso, voltarei à mesa e observarei alguns dos vassalos que me parecem estranhos. Traga os homens para cá e me chame quando terminar.

Anderia concordou e já se dirigia à saída quando a voz da irmã, ao revelar pela primeira vez a preocupação que sentia, soando assustada como uma garota pequena, disse:

– Anderia. – Ela olhou para irmã no perfeito manto roxo, preso ao vestido por dois broches dourados em formato de serpente em cada ombro. – Não confie em ninguém.

Acenando com a cabeça, ela seguiu seu caminho.

Rhaelia olhou para o trono em que se sentava dia após dia. Sentia-se suja e indigna como nunca antes. O pai a treinara para sentar-se ali e para fazer o bem pelo povo da Terra dos Desertos, e assim tentou fazer desde o dia em que usou pela primeira vez a Coroa Solar e se sentou na cadeira de ferro escuro, mesmo que olhasse para o resto da sala e visse expressões insatisfeitas em ver uma mulher ocupando-a.

Tentava não ouvir os homens que diziam que ela não poderia comandar Mansor. Nasceu naquelas terras e era forte como qualquer outro. Sabia o que era viver no deserto e as dificuldades que ela e seu povo passavam quando os deuses não os abençoavam com chuvas para trazer água e frescor àquelas terras escaldantes. Viver em um castelo não tornava tudo mais fácil, mesmo em Maravilha do Deserto, construído à beira de um oásis. Não precisava ser homem para saber o que era sentir sede ou passar dias em que sentiria que seu corpo iria ferver com as altas temperaturas.

Mas naquele momento, todos os comentários sobre a fragilidade das mulheres feitos por vários nobres, até mesmo vindos de seus tios e primos, ressoavam em sua cabeça, fazendo Rhaelia se questionar se deveria realmente ser rainha de Mansor. A coroa fora roubada tão perto dela, enquanto se divertia sem se preocupar com a segurança de suas posses.

Fazendo uma pequena prece a Matillo, o deus da resiliência, deixou a sala do trono.

Andou calmamente, forçando-se a sorrir. Passou pelos guardas, que a essa altura já deviam saber da perda da coroa, em direção à entrada principal do castelo. A sala do trono era uma unidade separada do resto do edifício, de modo que, para ir dela para o castelo propriamente dito, era preciso passar por um pequeno jardim que a rodeava, com arbustos de flores pequenas e coloridas. Ficava no coração do primeiro andar de Maravilha do Deserto.

As paredes do edifício eram como as da sala do trono, tanto na cor quanto no material, e possuíam quadros e tapeçarias pendurados. O estandarte dos Tellborne também era visto aqui e ali: uma serpente roxa em posição de ataque, em um fundo amarelo, a cor da areia do deserto. Aquela parte não era tão clara quanto a sala do trono ou mesmo outras partes do castelo.

Rhaelia passou por algumas portas de madeira, tentando pensar nas formas que alguém poderia ter usado para passar pelos guardas que se postavam em todos os cantos. A segurança havia sido redobrada naquele dia, já que o castelo receberia milhares de pessoas, e Rhaelia não entendia como alguém poderia ter evitado todos eles.

Aproximando-se da entrada principal, sentia o vento que entrava por ali, e o vestido e o manto balançavam. O cabelo, com seus grandes anéis negros, era bagunçado pelo sopro que entrava pela porta. A rainha pensava nos lordes que sabia que não simpatizavam muito com ela e no que fariam se chegasse a seus ouvidos o que acontecera.

Tinha estado com eles minutos antes, conversando sobre a situação de cada parte do reino. Muitos a tratavam como uma tola que não tinha noção do que era a administração de um castelo ou de terras, enquanto outros a tinham como igual. As senhoras sempre a olhavam estranhamente, como se não devesse agir como agia ou ocupar o lugar principal de mesas ou de Mansor. Mas Rhaelia preferia ignorar, fazendo como achava que devia. No entanto, quando Nerius tocou em seu ombro, dizendo, com grande preocupação, que precisavam dela na sala do trono, a rainha sentiu que tudo estava errado. Quando se levantou, lançou um olhar intenso a Anderia, que ocupava o lugar à sua direita, deixando claro que ela deveria ir também. Mas nada se comparou ao vazio que sentiu quando, ao chegar ao cômodo, viu que a Coroa Solar não estava no lugar.

Enquanto pensava nisso, a imagem do pai veio à cabeça. O cabelo cortado rente à cabeça, o nariz largo, a pele escura e o olhar intimidador nos grandes e claros olhos. Rhenindario fora contra todos os que disseram que o trono deveria ser passado ao irmão Orelis, deixando claro que era sua vontade que Rhaelia ocupasse seu lugar de direito. Na história de Mansor, quando reis deixaram apenas filhas como herdeiras, irmãos, tios ou primos receberam o título, mas Rhenindario acreditava que criara as filhas para serem grandes e respeitáveis pessoas, e não simplesmente um homem ou uma mulher. Espero que ele esteja certo.

Quando Rhaelia se deu conta, já estava no final do jardim à frente do castelo, chegando ao Grande Pátio, que ficava à sua direita. Não haviam ali flores bonitas que não nasciam no deserto, mas sim palmeiras, cactos e baixas árvores retorcidas e de galhos finos. Fontes e pequenos lagos artificiais de pedra deveriam receber água, mas estavam vazios. Em Mansor, a água era tão estimada quanto o ouro e a prata, e por isso Rhaelia ordenara que fossem esvaziados. Não gastaria o líquido em futilidades como essas, sabendo que poderia ser usado pelo povo em sua vida cotidiana.

Chegou ao Grande Pátio, lotado de pessoas que dançavam, cantavam e falavam alto. Os camponeses usavam seus melhores trajes para comemorar a Independência, e deixavam claro o patriotismo sentido por aquele povo, com frequentes gritos que diziam “Mansor!”, “Maravilha do Deserto!” ou “Tellborne!”. Afinal, para se manter em um planeta dominado por dois impérios e ser a única nação a não fazer parte de algum deles exigia muito amor pelo reino e pela liberdade. Todos estavam felizes, e o calor não parecia incomodar a ninguém, mesmo que todos estivessem queimados e molhados de suor. Mas tinham água à vontade e comida que não acabava, então estavam bem.

O dia estava amarelo, com a luz do sol refletindo a cor das pedras de areia do castelo, e Rhaelia gostava daquilo. Passou pelo povo. Alguns sorriam para ela e a cumprimentavam, ao passo que outros desviavam o olhar. Ver todas aquelas pessoas a deixou triste. Precisava ter a coroa de novo. Sua face, contudo, exibia seu belo sorriso, e ela cumprimentava os adultos e bagunçava os cabelos das crianças que via. Felizmente, ninguém pareceu perceber que os portões estavam trancados.

Depois de alguns minutos, chegou às mesas onde os senhores e senhoras se sentavam. Procurou Anderia, mas não a viu. Também não viu Nerius. Quando os lordes perceberam sua presença, olharam-na.

– Rainha Rhaelia, sentimos sua falta. – A voz grave veio de Zaksiz Umlig, um homem gordo e calvo, vestido com linho azul claro e uma árvore frondosa costurada na roupa, o símbolo de sua família, sentado na mesma mesa em que ela se sentaria. Era um dos mais importantes senhores do reino, com um enorme castelo às margens do encontro dos rios Fecium e Damiu. – Ausentou-se por tanto tempo.

– Peço desculpas, lorde Umlig. – Rhaelia sorriu educadamente. Gostava do homem, pois ele a apoiou desde que o Rei Rhenindario anunciou ao reino que era de seu desejo que sua filha fosse rainha quando ele morresse. – Precisei cuidar de alguns preparativos para meu discurso da noite.

– Compreendo. Espero ouvir grandes palavras.

Espero poder dizê-las.

Ela se dirigiu à sua cadeira. O tio Orelis Tellborne sentava-se à sua esquerda, e tinha no rosto uma expressão pacífica.

– Não devia ter ficado longe tanto tempo, Rhaelia. Alguns lordes comentavam que algo estava errado. É verdade?

Por um segundo, quando a morena o olhou, viu o pai. O olhar era profundo e fazia parecer que cada pensamento era lido por eles. Rhaelia mexeu a boca sem deixar sair sons, mas por final disse simplesmente que não.

Nunca tinha pensado no quanto o tio e o pai eram parecidos. Contudo, não tinha tanta afeição pelo homem. Ele nunca se mostrou a favor dela, mas também nunca contra. Manteve-se sempre afastado de qualquer coisa relacionada ao trono, e Rhaelia gostaria de ter o apoio dele, pois era parte de sua família.

            Tentou afastar o pensamento, pois tinha coisas mais importantes para se preocupar agora. Olhou em volta, no rosto de seus vassalos. Olhou para frente e viu então, ao longe, Anderia, alta e em seu vestido amarelo. A irmã estava fazendo o que precisava e agora Rhaelia faria também.

            Anderia andava determinada para os fundos do castelo.

Quando deixara a sala do trono, correra pelos corredores, querendo encontrar Nerius. A ideia de que a Coroa Solar fora roubada era extremamente estranha. Quando o capitão da guarda contou que a haviam perdido, sentiu o queixo cair. Era um elemento muito importante, e esse roubo poderia comprometer o reinado de Rhaelia. Sentia-se mal por isso, mas estava confiante de que conseguiriam a coroa de volta antes da irmã dar seu grande discurso para o povo.

Todavia, as palavras “Majestade, sinto informar que a Coroa Solar foi roubada” não saiam de sua cabeça. Um objeto tão bem guardado, em uma sala de difícil acesso, no coração do castelo... Não conseguia entender. Pensava em Nerius, um bom homem, de confiança, que servia como capitão desde que o pai de Anderia era rei, mas, infelizmente, via mais responsabilidade pelo roubo nele do que em Rhaelia. Ele tinha a função de cuidar de toda a guarda de Maravilha do Deserto, e permitira que alguém a quebrasse. Mas, como tinha dito a irmã, não levariam isso em consideração. Colocariam a culpa nela, e o pouco avanço que a rainha havia conquistado para as mulheres durante seu curto reinado seria enterrado mais profundamente do que água nas camadas mais baixas da areia do deserto. Precisava ajudar a irmã a ter a coroa de volta, não só por Rhaelia ou por ela mesma, mas por cada mulher que vivia em Mansor.

Chegou rapidamente ao Grande Pátio, com os olhos indo e voltando em todos os lugares. O povo gostava dela e a cumprimentava. Não tinham nada contra princesas, desde que não aspirassem a ser mais do que isso. Procurava Nerius, que deveria estar por ali, onde a maior parte dos soldados estava. Eles se destacavam com as roupas roxas, mas como eram muitos, seria difícil ver o que procurava. Andou sem rumo, para todos os lados. Passou pelas mesas dos senhores, mas não deu atenção a eles.

Ficava cada vez mais tensa. Percebia o sol baixando e, por mais que tivesse com altas esperanças sobre ter a coroa de volta, sabia que o tempo era precioso. Onde está Nerius? Naquele ponto, se perguntava também onde estava Rhaelia. Já fazia alguns minutos desde que a deixara na sala do trono, e até agora ela não tinha voltado para a festa. Ela não deveria demorar. Isso poderia fazer parecer que algo não estava correndo como planejado.

A música alta a irritava, e sentia o suor escorrendo por sua testa. Gastou o que pareceram horas andando entre a multidão, sem conseguir pensar em nada. Os camponeses tentavam falar com ela e a convidavam para dançar, mas ela negava e se afastava, procurando o homem. Tentava raciocinar, mas a aflição em não ver a irmã a atrapalhava, assim como o sol quente, a conversa alta, a coroa perdida. Sentia que iria explodir, e, limpando o suor da testa com as mãos e soltando os fios de cabelo que ali haviam se grudado, viu Rhaelia chegando à sua mesa.

A irmã a lembrava muito o pai. Não pela aparência, pois ela tinha os traços delicados da mãe, enquanto Anderia era a que se parecia com o Rei Rhenindario. Mas o modo de andar, de falar e de se portar tinha ido totalmente para Rhaelia. Ela era uma rainha de nascença, assim como pai nascera para ser um grande rei. Uma lembrança aleatória surgiu em sua cabeça: o pai a seu lado, na enorme sacada que ficava voltada para o Grande Pátio. Virou-se para trás, olhando para ela. Naquele dia, a rainha discursaria ali, e tecidos roxos e amarelos a enfeitavam, e um enorme estandarte de sua família tinha sido colocado no centro. Não conseguia ler dali, mas sabia que abaixo da serpente, bordado em letras roxas, o lema dos Tellborne estava escrito. As mesmas palavras que Rhenindario dissera anos trás.  A serpente sabe. A voz dele ecoou na cabeça de Anderia.

Cerca de dez anos antes, quando ela estava com seus doze anos, o pai a explicara, naquela mesma sacada, o que a frase significava. Até então, Anderia sempre a achara tola. Gostaria de ter um lema mais elegante e bem pensado. Mas mudou de opinião quando soube o que ele realmente dizia.

– A serpente sabe, minha filha. Serpentes nunca agem por impulso, a não ser que precisem. – Ele dissera, com a voz extremamente grossa e calorosa. – Elas sabem esperar e ser pacientes, e dão o bote quando têm certeza de que terão sucesso. Além disso, suportam as mais difíceis condições e se adaptam a praticamente tudo. Nada assusta uma serpente. As serpentes são espertas, Anderia. Elas sabem.

– Elas sabem. – A princesa repetiu para si mesma, e naquele momento soube que precisaria ser uma serpente. Sentiu a clareza voltando à sua mente e esqueceu o que a incomodava. Caminhou com passos fortes até os fundos do castelo, onde os guardas se instalavam.

Os pensamentos iam rápido, e ela se sentia repentinamente bem. Conseguia pensar além do que Rhaelia tinha pedido. É a única resposta. Muitas coisas passavam por sua cabeça.

Passou por inúmeros camponeses até que conseguiu chegar onde queria. A entrada traseira de Maravilha do Deserto ficava de frente para uma piscina de mármore branco, vazia a mando de Rhaelia, com plantas do deserto à sua volta. Mas o que trouxe satisfação foi ver ali, como se tivesse adivinhado, Nerius. Era um homem alto, negro como a maioria do povo de Mansor e forte. Estava suado, pois o dia era quente e as roupas dos guardas eram pesadas. Bebia água e segurava uma espada. Quando ele viu Anderia, se endireitou e largou o copo que segurava em uma mesa posta ali fora com comidas e bebidas para os soldados.

– Princesa, desculpe-me pela grosseria, mas o que faz aqui? – Limpou as gotas de água que molhavam seu queixo e os contornos da boca.  – Não deveria estar na festa?

– Minha irmã deseja que reúna todos os homens que estavam guardando o primeiro andar na sala do trono. Agora. Vou acompanhá-lo. – As palavras saiam rapidamente, se atropelando. Começou a caminhar, fazendo sinal para que o homem a acompanhasse. – Não pensara antes, mas agora está claro. Um dos guardas roubou a coroa.

O homem parou, com expressão de assombro.

– O que disse, Princesa? – Parecia ultrajado.

– Não quis ofender seus homens, Nerius. Mas é a única maneira. A guarda está redobrada hoje. Nenhum camponês se aproximou das entradas do castelo, pois você disse quando nos chamou à sala do trono. Nenhum dos nobres saiu da mesa ou de seus arredores, porque os estive observando o dia todo. Não há outro jeito. Algum soldado a pegou, mesmo que motivado por outra pessoa a fazer isso.

Nerius não falou por alguns segundos, mantendo uma expressão que deixava claro que estava ofendido, como se tivesse sido ele a ter executado o roubo.

– Princesa... – Falar parecia difícil. – O que diz faz sentido, mas... Meus homens são leias.

– Muitos homens parecem leais à Rhaelia, mas a tirariam do trono na primeira oportunidade. Meu pai sempre disse que a verdadeira lealdade...

– Pode ser conquistada apenas quando cada um a prova. – Ele completou. Encarou Anderia por alguns segundos, até que começou a andar novamente. Ela foi atrás. – Está certa, Princesa. Provavelmente, isso foi o que aconteceu. Vamos reunir todos.

Assim, andaram por um bom tempo, reunindo homens que estavam no pátio, nos jardins e no primeiro andar, colocando outros nesses postos. Anderia nada disse; apenas observou, tentando encontrar na expressão de algum a verdade. Mas estava preocupada. O sol agora já estava baixo, quase se pondo. Não faltava muito para o momento em que Rhaelia deveria usar a Coroa Solar, e isso deixava a princesa ansiosa. Contudo, tentava alimentar mais sua confiança do que o nervosismo. Finalmente, quando a sala do trono estava cheia de homens em roupas roxas e com espadas de ferro, Nerius disse que todos estavam ali, e Anderia foi à busca da irmã.

Quando a encontrou, a morena conversava com o gordo Lorde Umlig, séria. Esquecendo a polidez, interrompeu a conversa.

– Rhaelia, preciso de você por alguns minutos.

A irmã rapidamente levantou-se e desculpou-se com o homem, descendo do estrado onde estava a mesa e indo ao encontro da mais nova, que perguntou:

– Descobriu algo? – As duas já se dirigiam à sala do trono.

– Bom, acabei de perceber que muitos estão ao meu lado, ou pelo menos parecem estar. A maioria me tratou muito bem. – Apesar de parecer uma boa notícia, soava frustrada. – Alguns outros foram rudes e agiram como superiores, principalmente Jeron Glev, de Castelo Verde; Vyrtus Hedelin, de Ponta de Areia; e Tertion Brekius, de Oásis. Talvez tenha sido algum deles. Quem sabe contrataram alguém que fizesse o trabalho enquanto permaneciam à vista de todos? Mas não sei, Anderia. Um homem esperto e que consegue roubar um objeto desses tentaria parecer o menos suspeito possível.

– Foi algum dos guardas.

– O quê? – A voz de Rhaelia saiu alta e aguda, além de muito surpresa. Ela parou entre as pessoas que festejavam. – Como assim? Como descobriu?

– Bom, ainda não tenho certeza, mas é o que faz sentido, Rhaelia. – Puxando a irmã, disse as mesmas palavras que usou com Nerius, e ela concordou.

– Está certa. Como não pensei nisso antes? – Refletiu por um instante. – Mas com certeza o homem que fez isso não planejou sozinho. – Olhou de relance a mesa em que estava sentada antes. – Talvez algum deles seja quem ordenou isso.

– Talvez. Vamos ver o que os homens têm a dizer.

As duas foram rápidas, mas Anderia tomava a frente. O manto de Rhaelia deixava a tarefa de andar com pressa difícil, pois era pesado e longo. Ela o segurava para evitar que os camponeses pisassem nele. Desejou que o castelo não fosse tão grande para que pudesse chegar à sala do trono com poucos passos, e isso parecia tornar a caminhada maior. Preocupava-se com o tempo, que se tornava curto. Mas o que mais tomava conta de sua mente era a charada de quem havia levado a Coroa Solar. Lorde Glev? Um homem forte, com vários outros leais em sua guarda, mas talvez honrado demais para comandar um roubo. Lorde Brekius poderia ser o homem que procuravam. Lembrava-se do pai dizendo que era cheio de truques e jogadas que ninguém previa. Rhaelia o manteve na cabeça.

O fato era que a teoria de Anderia fazia pleno sentido. Um dos guardas poderia ter roubado a coroa, e agora a rainha não se sentia indigna ou suja, mas sim traída. Depositara sua confiança em cada homem que guardava o castelo, e eles a descartaram. A raiva crescia em seu coração, tomando o lugar da culpa.

Chegaram à sala do trono. Estava tão lotada de homens que Rhaelia pouco via o chão, além de apenas um pedaço do encosto do trono. Soltou o manto e caminhou devagar. A irmã a acompanhava. Tentou mostrar força e confiança, querendo intimidar os homens que ali a esperavam. Todos abriam caminho para ela, e, quando estava diante do trono, virou-se para todos, após subir o estrado, mas sem se sentar. Olhando para cada um e depois se concentrando no centro da sala, disse:

– Deve ser do conhecimento de todos que a Coroa Solar foi roubada da sala do trono. – A maioria dos soldados olhou rapidamente para o suporte em que a joia costumava ficar. – Vocês todos guardavam o primeiro andar do castelo enquanto o roubo foi executado, e seis estavam aqui, tomando conta dela. – Fez uma longa pausa, vendo Nerius em uma das galerias, olhando profundamente para ele. – Apresentem-se.

Anderia observava a irmã e quase podia sentir poder emanando dela. Falava tão seguramente, como se a falta da coroa não a incomodasse.

Para a surpresa das duas, nove homens, e não seis, saíram do meio das centenas de pessoas que se postavam no local para chegarem perto de Rhaelia. Ela olhou para Nerius, confusa, que parecia estar tão surpreso quanto ela. No dia anterior, quando o homem a comunicara o plano de segurança para o dia da festa, ele dissera que havia escolhido seis homens para guardar as joias o dia todo. Algo estava errado.

– Nerius? – Ela disse, perdida. – O que significa isso?

O homem desceu da galeria rapidamente, vindo para junto dos outros nove homens, que mantinham as cabeças baixas, como crianças que contavam à mãe que tinham feito algo errado.

– Rainha Rhaelia, pela tarde de hoje me dei conta de que os homens poderiam ficar exaustos e não serem capazes de guardar as joias como deveriam. Por isso, decidi trocar alguns, para que os outros pudessem descansar. – Falou calmo e seguro, abandonando a surpresa que tinha no rosto segundos antes.

Rhaelia olhou para Anderia. As duas tinham a mesma expressão de confusão. Por mais que a rainha confiasse em Nerius, achou a atitude estranha. Não posso confiar nele. Ele poderia ter comunicado isso a elas desde o momento em que as informou do roubo, mas nada disse. Engolindo em seco, a Mulher tornou a olhar para o homem, acenando com a cabeça.

– Entendo, Nerius, mas isso deveria ter sido dito a mim. – As palavras saíram vagarosamente. – Espero ser comunicada de tudo que acontece dentro de Maravilha do Deserto, ainda mais em um caso extremo como esse.

– Não acontecerá novamente, Majestade. Peço desculpas. – E, virando-se para os guardas, disse: – Agora, os que estiveram aqui, contem o que aconteceu. – O homem disse, e antes que Rhaelia o dispensasse, ele voltou para a galeria em que estava antes.

Por alguns segundos, a rainha apenas olhou na direção dele, desconfiada. Até que, repentinamente, se lembrou dos outros nove diante de si, e, retomando a postura anterior, disse:

– Vocês foram designados para guardar as Joias da Coroa no dia mais importante em cem anos dentro de Mansor. Uma tarefa simples: não permitir que alguém levasse qualquer peça, caso conseguisse passar pela guarda externa e entrar aqui. – Rhaelia olhava fixamente para cada um, mas os nove continuavam olhando para os próprios pés. – Olhem para mim enquanto falo com vocês. – Eles levantaram as cabeças. – Vocês permitiram que o objeto mais sagrado em todo o reino fosse tirado daqui, e até o momento não ouvi explicações.

Um longo silêncio permaneceu, até que um deles deu um passo à frente. Era magro e alto, com cabelos na altura dos ombros e escuros, e parecia ser forte.

– Sua Majestade, não fazemos ideia do que se passou. Eu era um dos homens que estava aqui quando a coroa desapareceu, e não consigo explicar. Em um momento, estava parado, guardando um dos suportes, e no outro ela apenas... Sumiu. – A voz era assustada e fina.

– Sumiu? Como mágica?

– Bom... Sim.

Rhaelia suspirou e se aproximou dele.

– Sugiro, então, que procure o feitiço que traga a Coroa Solar de volta. – Levantando a voz, falou para que todos ouvissem: – Procuro explicações realistas para os acontecimentos de hoje, e espero ser levada a sério. – O manto arrastava no chão às suas costas. – Alguém tem algo a dizer?

Outro dos homens que estavam à frente, corpulento e de nariz largo, soltou algumas palavras.

– Ele está certo, Majestade. A coroa simplesmente sumiu. Não temos outra explicação.

Rhaelia caminhou rápido até ele, e, com o rosto colado no do homem, disse:

– Toma-me por uma tola?

– N-não, Sua M-majestade. – Respirava profundamente.

Rhaelia sentia o corpo esquentando, enquanto olhava no fundo dos olhos castanhos do homem, que era mais baixo do que ela. Afastou-se dele e, mexendo nos broches em seu ombro, soltou o manto de seu corpo. Ele caiu pesadamente, fazendo mais barulho do que normalmente fazia. Ela se sentiu bem com o peso a menos, e agora parecia sentir melhor a seda do vestido contra seu corpo e o cabelo fazendo cócegas em suas costas. A nuca estava quente e molhada de suor, e agora parecia respirar melhor. Estalando os ombros, a rainha gritou:

– Quero todos fora daqui. – Todos começaram a se retirar rapidamente, exceto Anderia e Nerius. – Os nove, fiquem. – Eles pararam. – Nerius, você         deve ir também.

Confuso, o homem correu para o lado da rainha.

– Sua Majestade, sou o capitão da guarda do castelo. Devo permanecer aqui.

– Não, não deve. Quero que me deixe sozinha com esses homens.

Relutante e hesitando, depois de alguns segundos em que apertou os punhos, Nerius deixou a sala, parecendo aflito.

A Mulher olhou para a irmã, que sorria de modo travesso. Um entendimento havia sido estabelecido entre as duas. Nerius não era de confiança. Rhaelia se aproximou do trono, calma. Sentia sua raiva indo e vindo, como as ondas do mar. Precisava estar serena. Precisava pensar com clareza, como uma serpente. Fechou os olhos e respirou profundamente.

– O que realmente aconteceu quando Nerius os trocou de posto?

Silêncio. Ela esperou, pacientemente, mesmo que a sala do trono ficasse cada vez mais escura.

– Sei que ele é seu capitão e que devem fidelidade a ele. Mas eu sou sua rainha. Podem gostar disso ou não, mas sou. E vocês precisam me contar a verdade.

Novamente, nada disseram. Quando Rhaelia abriu a boca para falar, ouviu a voz de Anderia, forte e firme:

– Preferem encobrir um roubo a dizer a verdade? É esse o tipo de gente que guarda Maravilha do Deserto?

Anderia não conseguia acreditar que estavam fazendo aquilo. Já era quase noite. Via pelas janelas o céu dividido pelo laranja forte do sol e o azul escuro noturno. A grande esperança de encontrar a coroa agora era uma fagulha, e ela tentava alimentá-la com todas as forças. Ofegava como se tivesse corrido por metros e metros, até que o silêncio ensurdecedor foi cortado por um dos homens que estava mais próximo dela.

Chamá-lo de homem era generosidade, pois na verdade era um garoto que nem mesmo parecia um habitante da Terra dos Desertos. Era muito branco, com cabelos vermelhos e sardas por todo o rosto. Os olhos eram verdes e fundos, como se nunca dormisse. Parecia muito frágil, magro e com as roupas sobrando. Mas segurava o punho da espada com força, e olhava diretamente para a rainha.

– Capitão Nerius ordenou que três homens saíssem da sala do trono, mas não ordenou que outros três entrassem. – A voz era grossa e profunda, e não parecia pertencer àquele menino franzino que falava. – Ele disse que você, Rainha Rhaelia, tinha pedido por mais homens no Pátio, e não que deveríamos descansar. Eu fui um dos que deixou a sala, e ele nos acompanhou. Mas quando chegamos à porta do castelo, ele disse para seguirmos em direção à festa, enquanto partiu em direção ao templo.

Imediatamente, Rhaelia olhou para a irmã.

– Vá ao templo e verifique se há algo errado.

Anderia saiu apressada, com o vestido leve fazendo ondas.

Rhaelia tornou a olhar para o menino, que parecia ter mais a dizer.

– Continue. – Ordenou.

Ainda mostrando segurança, o rapaz disse uma última frase:

– Capitão Nerius pediu que não contássemos a ninguém, em hipótese alguma.

Rhaelia Tellborne não conseguia acreditar. A sala parecia não mais existir. Não sentia o chão ou a presença de outras pessoas. Sua irmã estava certa. Um dos guardas roubara a coroa. Mas não havia sido um guarda qualquer. Havia sido o chefe deles. E pior: um dos homens em que a rainha mais confiava. Um homem que servira sua família desde que o pai dela era rei. Ela o conhecera quando adolescente. Conversara com ele, dividira planos com ele. Ele a apoiara quando precisou defender a si mesma para que tivesse o trono de Mansor.

Seu coração pesava. Sentira-se traída enquanto caminhava para aquela sala, mas naquele momento, não sabia nem mesmo explicar o que passava por sua cabeça. O homem a enganara. Fizera-a de boba diante de todos aqueles guardas. Jogara sua confiança no lixo. Fora contra as palavras de fidelidade que jurou a ela quando Rhaelia deixou de ser apenas uma princesa. Preferia que algum dos lordes que não a respeitavam tivessem executado esse roubo, e não aquele homem por quem sentia tanto afeto. O traiçoeiro Lorde Brekius... Preferia ser traída por alguém que sabia que não gostava dela do que por alguém que a conhecia desde menina.

Estava enjoada, e a imagem do homem não saía de sua cabeça. Sentiu as pernas perderem a força, e foi em direção ao trono, sentando-se no macio acolchoamento. Tampou os olhos com a mão direita e respirou fundo. O coração estava acelerado e, apesar de tudo, não sentia calor. Um abraço gelado a apertava e tirava dela sua energia. Chamou-se de tola em seus pensamentos, mas ouviu a voz do pai logo depois. A verdadeira lealdade só pode ser conquistada quando cada um a prova. A frase se repetia em sua cabeça, até que Rhaelia se lembrou dos outros homens que ali estavam. Levantou a cabeça e viu alguns a observando, enquanto outros desviavam o olhar.

Quase todos tinham no rosto uma expressão de medo, e alguns balançavam a cabeça negativamente para o ruivo, como se ele tivesse cometido um grande erro. Ele, no entanto, encarava a rainha. Ela olhou profundamente para ele, e então soube o que precisava fazer.

– Traga Nerius para mim. – Rangeu os dentes. Sentia a raiva tomando conta de sua mente, mas controlava-a. Conseguia sentir sensatez em suas palavras. – E quero que o pegue pelos braços. Nada de pedidos educados.

Apesar de ter se direcionado a apenas um, os nove apressaram-se para sair da sala do trono em busca de seu capitão.

Rhaelia olhou para a janela, e lá fora já era noite. As placas de vidro que contornavam as tapeçarias se alimentavam da energia solar durante o dia para que se acendessem pela noite, e por isso o ambiente estava claro, em fortes tons de amarelo. Seu discurso seria em pouco tempo, mas agora podia quase sentir suas mãos tocando o metal frio da coroa.

Uma mistura pouco harmoniosa de sentimentos passava por ela. Felicidade, raiva, tristeza, aflição, mas, sobretudo, entendimento. Um homem próximo nunca pareceria suspeito. Nerius fora esperto. Mas ainda faltava entender como ele levara a joia. Provavelmente, ameaçara os homens que a guardavam. Pensava em formas que o capitão poderia ter usado para tomar a coroa quando, depois de certo tempo, ouviu gritos vindos do lado de fora.

Estrondosamente, os nove homens entraram na sala, carregando Nerius. Ele gritava e brandia a espada. Alguns dos outros tinham roupas rasgadas e sangramentos, mas em boas condições para uma luta. Rhaelia se levantou, esperando a calmaria.

O alto homem negro virou-se para ela e gritou:

– O que significa isso? – Mesmo longe, a rainha pôde ver sua boca espumando e ouvir sua respiração ofegante.

– A verdadeira lealdade só pode ser conquistada quando cada um a prova. – A voz de Rhaelia era calma e controlada. – Com certeza, já ouviu meu pai dizendo essa frase centenas de vezes. Ele a dizia como uma oração. Ouvia-a saindo de sua boca mais vezes do que o lema de nossa família. – O homem a olhava, com os olhos quase vermelhos em fúria. Ela soltou um riso. – Nunca havia entendido porque ele a dizia tanto. Até agora. A lealdade é um pilar que sustenta cada relacionamento, Nerius. Se não é forte, leva tudo à ruína. E tudo se trata de atos. Percebo agora que você nunca provou sua lealdade a mim. A meu pai, talvez. Mas não a mim. Seu grande ato foi, na verdade, uma traição.

– Traição? – A voz do homem era tão forte que ecoava por toda a sala do trono. Rhaelia sentia a vibração do som em seu corpo. – Nada fiz, Rainha Rhaelia.

– Não se faça de bobo e não me trate como uma. – Aumentou o tom de voz, descendo do estrado onde o trono ficava. – Você roubou a Coroa Solar. Abusou da lealdade de seus homens e de minha confiança. – Ele abriu a boca, mas ela não permitiu que falasse. – Não quero desculpas, Nerius. Quero apenas a coroa.

A boca dele se movimentava, sem emitir sons, e sua expressão mudava a cada segundo. Em um momento, fúria. Depois surpresa. Ultraje. Arrependimento. Rhaelia caminhou em sua direção, olhando-o, inquisidora, tentando intimidá-lo com seu olhar. Ele suspirou profundamente, e, por fim, deixou sua face transparecer a fúria.

– Uma mulher no trono de Mansor. – Cuspindo as palavras, como se sentisse nojo, abaixou a mão em que segurava a espada. – Nunca compactuei com isso. Apenas fiz o que seu pai, um homem forte, me comandou para fazer. Ele merecia sentar nessa cadeira. Você não.

Ela parou onde estava. Esperava ouvir isso de muitos, mas não dele. Por um momento, não soube o que fazer, apenas olhando, sem expressão, para aquele maldito homem. Não entendia como podia pensar aquilo.

– Acha que entoar seus discursos a tornará digna desse lugar? Acha que agir como age a fará ser respeitada? Todos dizem que você é incapaz. Uma mulher não é capaz.

Rhaelia tinha todas as respostas para aquelas perguntas e afirmações, mas simplesmente não conseguia pensar em nenhuma. Sua surpresa era intensa e tomava conta de seu corpo, roubando seus pensamentos e palavras.

– Seus dizeres me fazem rir. Acha-se forte e imponente porque usa vestidos bonitos e fala com segurança? Tantos outros fazem o mesmo e não recebem o mínimo valor para a própria existência.

Então, muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo. O homem soltou a espada, que fez um forte barulho quando o ferro atingiu o chão de pedra. Levou a mão direita ao cinto, de onde tirou uma adaga de prata e lançou na direção de Rhaelia. Prendendo a respiração, ela não conseguiu se mover, mas todos os outros homens na sala tentaram parar a arma com os próprios corpos. Uma tentativa sem sucesso, pois ela continuou seu caminho em direção à Mulher. Porém, surgindo do próprio chão entre Rhaelia e Nerius, Anderia levantou-se, com seu tio Orelis junto. A adaga, então, fincou-se no flanco do corpo do homem, entre duas costelas. Ouviu-se um grito e ele caiu ao chão.

Anderia arregalou os olhos e segurou um grito em sua garganta. Já estava confusa o suficiente da briga que acabar de ter e ver uma adaga derramando o sangue de alguém não a tranquilizou. Olhou para Rhaelia, parada e pálida. Ela, com a respiração presa, foi capaz de expirar quando viu nas mãos de Anderia a Coroa Solar. Soltou curtos suspiros até que, no final, deu uma grande gargalhada. O momento não era propício, mas ver ali aquele objeto trouxe uma onda de felicidade à rainha. Lágrimas rolaram por seus olhos, e ela caminhou até a irmã. Tomando nas mãos a joia, caiu de joelhos, e grossos fios de água rolavam por seu rosto, caindo no ouro e nas esmeraldas.

– O-onde...? C-como...? – Não conseguia formar frases inteiras.

Anderia estava assustada, e a cabeça não conseguia se concentrar em apenas uma coisa. Mas precisava fazer algo a respeito da adaga no corpo do tio.

– Rhaelia. Precisamos cuidar disso primeiro. – Apontou para o tio, caído ao chão e gemendo, a poça de sangue crescendo a seu lado.

Como se percebesse pela primeira vez ele ali, Rhaelia se levantou.

– Certo. Sim. – Deixou a coroa de lado. Olhando para os homens que cercavam Nerius, disse: – Ajudem aqui.

Trocando palavras entre eles, cinco ficaram ao redor do capitão, que estava impassível, em estado de choque. As mãos estavam baixas e o olhar fixo no lugar onde a adaga tinha adentrado.

O ruivo veio rápido e puxou Orelis Tellborne para o suporte cúbico mais próximo, deixando-o sentado depois de um rastro de sangue. Pelas mangas da roupa, um tecido grosso estava costurado, o qual o garoto puxou e rasgou, dos dois lados. Embolou um deles e colocou na boca do ferido, que gemia alto. Sem avisos, colocou as mãos no punho da adaga e a puxou, o que fez Orelis soltar um grito, abafado pelo tecido em sua boca. No mesmo momento, mais sangue jorrou do ferimento, e o soldado envolveu o outro pedaço de tecido no torso do homem, dando um nó justamente onde a adaga estava anteriormente. Depois, tirou o outro pedaço da boca de Orelis, e fez o mesmo processo. O homem gritava de dor, enquanto o tecido, antes roxo, se tornava cada vez mais escuro depois de ter sido molhado pelo sangue.

Anderia ficara impressionada pela habilidade do ruivo, mas se sentia mal pelo ferimento e pelos gritos do tio, mesmo sabendo o que ele fizera.

Aquilo, no entanto, fizera a mente de Rhaelia voltar a funcionar normalmente. Ela conseguia pensar agora, e seria capaz de rebater o que ouvira Nerius dizer. Mas aquele não era o momento. A certeza de que tinha a Coroa Solar de volta era como um raio de sol que esquentava todo o seu corpo de uma forma boa, e naquele momento ela se sentiu realizada.

– Isso vai parar o sangramento por hora, mas ele deve ser rapidamente levado para um curandeiro. – O garoto disse.

– Em um momento será levado. – Olhou para Anderia, a fim de buscar explicações. Então, percebeu que o cabelo da irmã, antes colocado no rígido rabo de cavalo, estava completamente bagunçado. Uma das bochechas, vermelha. Uma das mangas do vestido, rasgada. Rhaelia espantou-se e, colocando as mãos no rosto da irmã mais nova, perguntou: – O que houve?

– Foi ele, Rhaelia. – O olhar foi em direção ao tio.

A rainha, sabendo que a irmã não se referia simplesmente à sua aparência, virou-se para o homem, que agora gemia baixo. Olhou novamente para a irmã.

– Não. Foi Nerius. – Ela disse.

– Foram os dois. Juntos. – Anderia engoliu em seco. – Como você pensara, um dos lordes ordenou o roubo. Mas não foi um dos que você imaginou. – Respirando fundo, começou a contar. – Fui até o templo, quando me pediu. E quando cheguei lá, Orelis surgia de um buraco no chão que nunca existira, com a Coroa Solar em mãos.

Ao ouvir isso, Rhaelia olhou para onde, minutos antes, a irmã surgira com o tio. Uma das pedras que formavam o piso fora removida e colocada de lado, deixando aberto um quadrado que dava entrada para a sala do trono. Ela se aproximou, e não conseguiu ver a profundidade, pois estava escuro. Contudo, pôde ver uma escada de madeira que, provavelmente, levava até o chão. Olhou de volta para a irmã, assombrada.

– Uma passagem secreta? – A voz era baixa. – Não fazia ideia de que existia.

– Muito menos eu. – Anderia respondeu. – O que aconteceu foi que os dois combinaram o roubo. Orelis ocuparia seu lugar à mesa, tendo isso como desculpa para qualquer suspeita. Nerius não deveria ocupar um lugar específico, podendo ir de um lugar para outro quando quisesse, sem ser visto como estranho para os guardas.

O tio tossiu e, falando fracamente, tomou voz.

– Você não conhece seu próprio castelo. Como pode conhecer seu reino? Como pode ser capaz de governá-lo?

Rhaelia olhou para ele, furiosa. Aquele homem podia ter tornado tudo mais fácil. Poderia ter a ajudado e convencido vários senhores a realmente respeitaram-na como a rainha que era. Todavia, escolhera ser indiferente. Agir como se nada daquilo importasse, quando na verdade estava contra ela e sua posse do trono. E o hipócrita ainda agira como inocente. Alguns lordes comentavam que algo estava errado. É verdade?

– Conte o que fez. – Rhaelia rangia os dentes.

O homem nada disse. Ignorou-a.

Em um impulso nada característico dela, em um passo se viu ajoelhada diante do tio, levando a mão ao lugar onde o tecido cobria a ferida. Apertando-a, disse:

– Conte o que fez. – Cada palavra saiu devagar por cima do berro de Orelis.

Ela soltou a mão e se levantou. O grito diminuía de intensidade, até chegar a um choramingo baixo. Ele engoliu.

– Quando Maravilha do Deserto foi construída, os Tellborne de então ordenaram que passagens secretas fossem construídas em todo o castelo. – Falava pesadamente, em uma voz que não era tão imponente quanto costumava ser. – Apenas os membros da família sabiam. Mas o senhor de Mansor decidiu que nem todos deveriam saber. Proibiu que todos contassem para outros sobre as passagens e decretou que apenas os senhores depois dele poderiam passar a informação para seus primogênitos. E assim aconteceu. O povo de Mansor não é do tipo que descumpre regra. – Respirou profundamente, e isso pareceu causar dor, pois o homem fez uma careta. – Com o tempo, os senhores se tornaram reis, mas as regras continuaram as mesmas. Seu pai sabia dessas passagens, e deveria ter contado para você de sua existência. Mas eu também as descobri.

“Nunca fui uma criança quieta, e sempre gostei de explorar o castelo. Por isso, acabei me deparando com uma aos nove anos. E, com o tempo, achei mais. Conheço todas elas hoje. Então, anos depois, quando seu pai declarou ao reino que você deveria se tornar rainha quando ele morresse, eu soube que eu não poderia tirar o trono de você. Não sem ser chamado de traidor ou sem causar uma guerra. Afinal, sabia que muitos homens seguiriam à risca o que o rei ordenara, mesmo que não os agradasse. Foi então que tive a ideia: usar meu conhecimento do castelo. Apresentei uma escolha a seu pai: uma guerra que poderia matar inúmeros inocentes de Mansor e tornar as condições de vida ainda mais difíceis, ou a permanência segredo sobre as passagens secretas. Obviamente, ele não concordou de primeira, mas sabia que eu poderia causar um conflito no reino. Como o bom rei que era, preferiu prezar pela vida de seu povo.”

“Esperei pacientemente até o momento certo. Quando você falou em organizar essa grande festa, vi minha grande oportunidade. Trazer descrédito e desonra para você perante todos os senhores de Mansor e de vários súditos. E o melhor jeito era roubando o objeto de maior valor no reino: a Coroa Solar. Mas eu não poderia fazer isso sozinho, mesmo com meu conhecimento sobre os segredos de Maravilha do Deserto. Tentei descobrir o que outros homens pensavam sobre você, e então descobri que Nerius e eu tínhamos a mesma opinião.”

“Planejamos tudo. Consegui a raríssima rosa do deserto, uma flor bela, mas com uma propriedade perigosa: pode fazer um homem cair em profundo sono e esquecer coisas que vira antes de adormecer. Quando acordam, não percebem que dormiram. É como se tivessem passado todo o tempo acordados. Demora horas para fazer efeito, mas funciona. Nerius selecionou os homens que guardariam as joias e colocou as pétalas amassadas da flor em sua comida pela manhã. Não tínhamos o suficiente para seis homens, então ele teve que dispensar três no momento certo. Depois disso, tudo foi muito fácil. Os homens caíram e Nerius veio pela passagem, para que nenhum dos guardas externos desconfiasse. Pegou a Coroa Solar e a deixou na abertura abaixo do templo, onde eu a manteria até que você perdesse seu título e eu me tornasse o rei de Mansor e traria de volta o tão importante objeto, perdido por você, a Mulher.”

Rhaelia nada conseguiu dizer. Olhou para a irmã, que estava tão espantada quanto ela. Olhou para Nerius, ainda na mesma posição de antes. Não parecia respirar, e a rainha percebeu que estava do mesmo jeito. Orelis ofegava, as duas mãos sobre o ferimento. Os guardas pareciam tão sem palavras quanto as duas irmãs.

– Quando cheguei ao templo e o vi, tentei pará-lo. Mas ele me ameaçou e me violentou, Rhaelia. – Anderia falou devagar, passando as mãos pelos cabelos. – Acabei entrando na passagem, e ele me seguiu, tentando me agarrar em todo o caminho. – A rainha olhou novamente para a irmã, percebendo que a barra do vestido também estava rasgada e os braços arranhados.

Foi então que a memória do dia da coroação de Rhaelia veio à sua mente. O pai havia morrido havia cerca de dois meses, e todos os mesmos lordes que estavam em Maravilha do Deserto no dia da festa estavam ali. Estavam de pé no centro da sala. As únicas mulheres eram Rhaelia e Anderia. Os homens estavam organizados de forma que os senhores mais ricos ficavam à frente e os de famílias menores atrás. Por isso, Lorde Umlig estava próximo da mulher que estava prestes a se tornar rainha, exibindo um grande sorriso.

Rhaelia Tellborne sentia-se nervosa e ansiosa. Não pelo título que receberia, pois, para isso, havia se preparado desde que nasceu, mas pelo fardo de ser a primeira mulher a recebê-lo, o que era um enorme peso. O que faria se não tivesse apoio? Era realmente digna? Seria capaz? Tantos disseram que não...

Mal ouviu as palavras que o homem que conduzia a cerimônia dizia, mas sentou-se no trono pela primeira vez em sua vida quando ele pediu. Era tão confortável quanto parecia, e o metal era curiosamente frio para um dia tão quente de sol como aquele. Sorriu. Talvez o fardo não fosse assim tão pesado. Olhou para os rostos abaixo e viu o tio Orelis. Sua expressão era feia e impaciente, como se desejasse que tudo aquilo acabasse logo. Olhou para o sorriso de Zaksiz Umlig e se sentiu confortável. Olhou para Nerius, no fundo sala, com uma expressão que nada dizia. Desejou que ele sorrisse, encorajando-a, mas isso não aconteceu.

Então, sem que tivesse ouvido, colocaram a Coroa Solar em sua cabeça. Era extremamente cômoda. Parecia pesada ao olhar, mas não era. Era leve e se adequava perfeitamente ao formato da cabeça de Rhaelia. Ela gostou daquilo. Sentiu-se bem. E, enquanto ouviu todos os homens entoarem “Rainha Rhaelia Tellborne de Mansor”, ela soube que era capaz.

Olhou nos olhos de Orelis, que a encarava, com um sorriso maldoso.

– Levante-o e traga o outro aqui.

Os guardas fizeram como comandados. Ela pegou na mão de Anderia e caminhou em direção à Coroa Solar, que estava no chão ao lado da abertura da passagem secreta. Pegou a pedra e colocou-a no lugar, tampando a entrada. Tirou a coroa do chão e entregou-a a irmã. Mais a frente, pegou o manto roxo jogado e prendeu-o novamente às alças do vestido. Chegou ao estrado onde o trono estava e subiu, parando em frente à cadeira. Virando-se, olhou para a sala iluminada nas luzes amarelas.

Nos suportes, as joias pareciam brilhar, e o metal deles refletia a claridade. As tapeçarias pareciam ainda mais coloridas e os tecidos mais brilhantes. Muitas coisas ocupavam a cabeça de Rhaelia, mas quando viu os dois homens ali parados, disse, calmamente:

– Sou filha do deserto. Sou tão filha destas terras quanto vocês. Sei quais são as dificuldades de viver aqui assim como qualquer homem. A areia que dá vida a essas terras forma meu corpo. Não sou frágil, e muito menos inferior. Sou quem deveria ser. Sou filha do Rei Rhenindario Tellborne de Mansor, e meu direito sobre este trono e esta terra está no meu sangue. Ouvi tantos homens dizerem o contrário... E realmente caí em dúvidas muitas vezes. Dizia a mim mesma que talvez estivessem certos, que deveria desistir. Mas hoje tenho certeza do contrário. Estou onde estou honesta e legitimamente, não por roubos e mentiras. Estou cuidando das pessoas que aqui vivem, garantindo água e alimento como nenhum outro rei antes. Está certo de que faria isso, tio? – A expressão do homem era de puro nojo. – Seria capaz de abrir mão de seus luxos para garantir a sobrevivência do povo? Sou capaz de qualquer coisa, desde que deseje. E com a força garantida pelos deuses, pelos desertos e pelo sol destas terras, sou capaz de ser sua rainha. Sou a Rainha Rhaelia Tellborne, a Mulher. E sou digna.

E uma rainha se sentiu.

– Leve-os para as masmorras e os prendam lá. Chame um curandeiro que possa cuidar do ferimento de meu tio. – Todos os guardas se dirigiram à saída. – Não todos. Alguns devem ficar para proteger as joias. Não aprenderam nada? – Três dos homens se postaram então ao lado dos suportes. – Quando eles empurraram Orelis e Nerius, esse ainda estava em choque, sem palavras ou expressões.

Rhaelia desceu do estrado e ficou de frente para a irmã. Olharam-se com amor e alívio. A mais velha puxou a outra para um abraço, e, suspirando longamente, gargalhou.

– Muito obrigada, Anderia. Muito obrigada. – E, soltando-se do abraço, mas segurando-a pelos ombros, disse, encarando-a: – Amo você, irmã.

– Eu também, Rhaelia. Agora, pegue essa coroa e vá fazer seu discurso.

– Ainda não é a hora. Se fosse, teriam vindo buscar a coroa e prepará-la.

Anderia balançou a cabeça para os lados e comprimiu os lábios.

– E daí, Rhaelia? Você é a rainha. Você decide.

As duas riram, e, quando Anderia pegou a mão direita da irmã e correu, puxando-a atrás de si, as duas se sentiram como crianças brincando pelo castelo. Saíram da sala do trono e correram pelo prédio, subindo escadas em espiral. Chegaram então à enorme biblioteca, com altas estantes cheias de livros e uma grande porta de vidro na outra extremidade. Correram até lá e, quando passaram por ela, se viram na enorme sacada que ficava em frente ao Grande Pátio.

O barulho da festa estava agora mais alto do que estivera mais cedo, com a música sendo cantada por milhares de vozes e o som de pés batendo na pedra, em uma dança animada. Com certeza, o clima mais ameno da noite deixava todos com mais disposição para festejar, mesmo que já tivessem passado o dia todo fazendo isso. Rhaelia riu ao pensar que passaram o dia todo apenas aproveitando a festa, enquanto ela perdera e tivera de volta a Coroa Solar.

A sacada estava iluminada por placas de vidro como as da sala do trono, naquele mesmo tom de amarelo. O estandarte dos Tellborne ali pendurado era ainda maior, e a serpente roxa com sua língua para fora parecia um enorme monstro. As sedas roxas e amarelas mal deixavam as pedras de areia aparecerem. Uma caixa de madeira, onde Rhaelia deveria subir para ficar mais alta, havia sido posicionada na extremidade central da sacada. Mas o que as duas mais gostaram em tudo aquilo, sem comentar uma com a outra, foi definitivamente a frase A serpente sabe à vista em letras tão grandes.

Um homem, o mesmo que coroara Rhaelia, estava ali, junto de uma mulher. Os dois as olharam, curiosos. Elas pararam de rir, e a rainha disse:

– Desejo fazer meu discurso agora.

Surpreso, o homem balançou a cabeça e disse:

– Como quiser, Majestade.

Vendo a Coroa Solar nas mãos de Anderia, foi até elas e a pegou. Colocou o objeto na cabeça de Rhaelia. Era tão confortável quanto havia sido na primeira vez. O homem pegou a mão direita da rainha e a levou até a caixa de madeira. Subindo nela, e pegando do cinto duas grossas claves de metal, ele as bateu uma contra a outra três vezes. O som delas era mais poderoso do que se poderia prever, e o barulho da festa soou quase que instantemente.

Limpando a garganta, o homem disse, com a voz alta e clara:

– Apresento a Rainha Rhaelia Tellborne de Mansor.

Ele desceu da caixa e ajudou Rhaelia a subir. Ela olhou para baixo e viu todos os milhares de pessoas ali embaixo. Na extremidade oposta, viu as mesas dos senhores, cheias. Velas estavam acesas sobre elas. Os camponeses abaixo a olhavam, e pareciam um tanto sombrios com a iluminação amarela das placas de vidro que rodeavam o Grande Pátio. Lá embaixo, pareceram tantos, mas vistos de cima, pareciam poucos. Mas ela sabia que cerca de cinco mil pessoas a olhavam.

Não podia se ver, mas sentia-se linda. O vestido de seda esvoaçava com o vento da noite, assim como o manto roxo. Tocou em uma das frias serpentes nos ombros. Os lábios secavam. O cabelo era jogado para trás, embaraçando-se. E a Coroa Solar dava o toque final, com suas esmeraldas resplandecendo com a iluminação. E naquele momento, não se sentiu nervosa. Sentiu-se forte. Quando começou a falar, as palavras saíram naturalmente.

– Há mais de um século, nossos antepassados apenas sonhavam com a liberdade. Dominados por um grande império, as perspectivas não eram nada boas. Pensavam na liberdade e a imaginavam, mas não podiam senti-la. Não era palpável. Era longe de ser real. Mas cento e treze anos atrás, o senhor destas terras desejou saber o que realmente era a liberdade. E assim, juntou todos os habitantes do que se tornaria o Reino de Mansor sob uma só causa, sob um só estandarte. Seu nome era Saretli Tellborne. Os treze anos que vieram depois não foram fáceis, mas ele conseguiu o que desejava. Deu a liberdade a seu povo. Há exatos cem anos. – O povo lá embaixo gritou em alegria, e Rhaelia sorriu.

“Naquela época, algo novo. Uma grande mudança. Curiosamente, hoje passamos pelo mesmo. Uma mulher comanda o reino. Algo impensável, como a liberdade foi para a maioria de nossos antepassados. Mas as mudanças são necessárias. Talvez, se o Rei Saretli não tivesse desejado-as, hoje não estaríamos comemorando nossa independência. Mas entendo que elas possam ser difíceis de serem entendidas. Sei disso, e entendo o que passam.”

“Meu pai, o Rei Rhenindario, costumava dizer que a verdadeira lealdade só pode ser conquistada quando cada um a prova. Não houve um dia em minha vida que não o ouvi dizendo essa frase. Era como um mantra. Eu nunca a entendi muito bem. Mas hoje percebi o que ele queria dizer. Ele não falava de palavras e juramentos, porque esses podem ser vazios. Meu pai falava de atos. Podem ser pequenos ou grandes, mas provamos nossa lealdade por meio de nossas ações. Mesmo que muitos fossem contra me ver no trono da Terra dos Desertos, consegui trazer alguns para o meu lado. Mostrei minha lealdade a vocês e sou grata por seu apoio. Mas para os outros que ainda não confiam em mim, peço as mais sinceras e profundas desculpas. Perdoem-me se ainda não fui capaz de provar minha lealdade a vocês. Lutarei todos os dias para fazer isso. Farei tudo o que conseguir para deixar claro que tudo o que faço é para o bem de meu povo.”

“Tenho tentado dar o melhor, garantindo água e alimentação para todo o reino. Muitas vezes não é tarefa fácil, pois apesar do amor que sinto por Mansor, ele não costuma ser tão bom revelando seus mistérios a mim. A cada dia aprendo um de seus segredos, e tento usá-los sempre para cobrir meu povo de clareza. Por isso, prometo trazer apenas coisas boas e uma vida nunca antes vista. Prometo tentar tornar o sol mais frio e a água menos escassa. Prometo fazer cada um sentir a vida correndo por suas veias para aproveitar a liberdade que recebemos. E prometo mostrar minha dignidade e capacidade, não por meio de palavras, mas por meio de atos que tornarão vocês mais vivos dia após dia.”

Como se recebesse uma benção dos deuses ao dizer a última palavra, uma gota de água caiu no nariz da rainha. Rapidamente, outras vieram, em uma forte chuva repentina e refrescante.

Quando a multidão explodiu em aplausos e gritos, Rhaelia Tellborne olhou para a irmã atrás dela, com o lema da família no pensamento. A serpente sabe. E naquele momento soube que ainda não tinha os corações de todos, mas que seria apenas questão de tempo até conquistá-los.



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