História Cor de Marte - Capítulo 3


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Categorias Malhação
Tags Lica, Limantha, Malhação, Samantha
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Palavras 5.190
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, FemmeSlash, LGBT, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


OLHA SÓ QUEM VOLTOU!
Só pra começar, eu amei que a maioria comentou que já esperava que a Lica fosse pensar que foi o Felipe que fez ela ver em cor, e eu já não sei se foi porque eu deixei muito na cara ou se a gente só espera esse tipo de coisa da Lica mesmo kkk
Mas de qualquer jeito, novamente, eu queria agradecer todo mundo que tá acompanhando a fic de algum jeito e eu já amo vocês!

PS: vai ter uma explicação, não sei se muito didática, sobre sistema de cores no capítulo, então, qualquer dúvida, só se vocês quiserem saber também né ahsdoas pode perguntar que eu tento explicar de um jeito melhor já que eu não sei se eu consegui fazer isso direito. Vai ser acho que a única coisa do tipo que vai rolar na fic, mas é só pra um entendimento maior de como a Lica vai ver as cores, e no caso só ela mesmo.

Bom, espero que gostem e boa leitura!

Capítulo 3 - Magenta


Ao abrir os olhos e se deparar com o teto completamente branco do seu quarto, o pensamento de que o dia anterior poderia não ter acontecido passa pela mente de Lica. Que tudo não passara de um sonho e que nenhum dos acontecimentos foram reais. Mas, quando se senta em sua cama e olha o caderno de desenho que estava em cima da mesa do computador, constata que tudo de fato aconteceu.

A garota joga a coberta para longe e praticamente pula da cama para observar melhor a capa do caderno.

"Isso não é azul." Pensa.

 

Lica pega o caderno com tanto cuidado, como se estivesse com medo do objeto voltar a ter a coloração acinzentada que possuía antes, e analisa com tanto apreço a nova cor. Não queria admitir, mas seu peito se aqueceu de uma maneira que não esperava por perceber que o que Tina disse realmente aconteceu com ela.

- Uma cor de cada vez. – Repete e, estranhamente para aquele horário da manhã, sorri.

 

Sem conseguir conter seu bom humor, a menina começa a se arrumar para ir à escola. Toma banho em praticamente seu recorde de tempo e, ao escolher uma roupa, decide por utilizar sua blusa xadrez que continha a nova cor vista pela menina.

Tanto Marta quanto Leide até estranharam o comportamento da garota, dizendo que nunca haviam visto tanto bom humor vindo dela quanto naquela manhã. Achavam até que estava doente, verificando várias vezes sua temperatura.

- Para, mãe! – Lica diz rindo enquanto tira as mãos de Marta de si. – Eu só acordei bem, não posso?

- Poder pode, meu amor, mas eu sempre achei mais fácil o mundo acabar do que você acordar disposta e feliz pra ir à aula. – Leide ri do comentário de Marta e Lica abre a boca como se estivesse surpresa pelas palavras da mais velha, mesmo sabendo que era verdade.

- Bom, depois dessa eu até já vou embora antes que vocês me atestem como maluca e me joguem em um hospício. – A garota começa a andar em direção à porta.

- Espera, Lica. – Marta se vira para a filha. – Não vai nem tomar um café?

 

Heloísa para no meio do caminho e volta a caminhar à mesa. Observa os alimentos dispostos e, quando seu olhar se encontra com uma cesta de frutas, ela agarra uma maçã e dá uma mordida nesta, sorrindo e andando novamente para a porta. Ao som das risadas de Marta e Leide, a menina sai de casa, mas não sem antes gritar um tchau.

Era verdade que o bom humor matinal não combinava em nada com Heloísa Gutierrez, mas mesmo assim, não era pra tanto.

 

Ao chegar no colégio, percebe que ainda havia tempo antes da primeira aula começar, então resolve ir à biblioteca. Sabia que tanto Ellen quanto Tina, que havia dormido novamente na casa da cunhada, não chegariam naquele horário, pois, por mais que sempre chegassem cedo, Lica ultrapassou naquela manhã os parâmetros de 'antes do horário' para qualquer um.

Entrando na biblioteca Heloísa percebe ser a única estudante lá e não se surpreende. Se não havia tantos alunos no pátio, imagina onde estava. Por isso se sente à vontade para procurar pelas estantes, com a plaquinha sinalizando o tema cor, algum livro que a chamasse a atenção. Acaba por pegar um com o nome de Policromia.

A menina se senta em uma das mesas e começa a folheá-lo, lendo algumas sentenças em voz alta:

- A cor é uma percepção visual provocada pela ação de um feixe de fótons sobre células especializadas da retina, que transmitem, através de informação pré-processada ao nervo óptico, impressões para o sistema nervoso.

 

Lica encara a página com o cenho franzido sem entender muito bem o que estava escrito, então resolve passar algumas folhas até parar em uma com o título Sistema de Cores.

- Existem dois sistemas utilizados para misturar as cores. Estes seriam o sistema aditivo, que envolve a mistura de luzes coloridas. Onde luzes com cores diferentes misturam-se a partir de sua incidência em uma superfície criando outras cores. – A garota conseguiu compreender melhor o que estava escrito, então continua a ler em voz baixa.

 

E o sistema subtrativo, onde existe a mistura de pigmentos para outra cor aparecer, sendo esta a maneira que as tintas e corantes trabalham.

 

Lica lê processando a informação, antes de partir para o próximo tópico com o nome de Cores Primárias.

 

As cores primárias são cores que existem sem a junção ou mistura com outras. É a partir delas que todas as outras cores são formadas.

As cores primárias do sistema aditivo são azul, vermelho e verde, sendo estas as cores-luzes. – Embaixo do escrito existiam três imagens, cada sendo uma amostra das três cores citadas, e é assim que Lica percebe que agora conseguia ver, além do azul, o vermelho.

 

A garota fica um tempo o analisando. Era bem vivo e completamente diferente do azul. A primeira cor que vira passava certo conforto e tranquilidade, essa transmitia uma força e vivacidade. Tranquilidade era algo que passava longe da cor e Lica não pode deixar de pensar que essa chamava muito mais a sua atenção do que a primeira.

- Já o sistema subtrativo tem como cores primárias: ciano, magenta e amarelo, sendo estas cores-pigmentos.

 

Cada uma novamente com uma amostra em baixo. Lica olha para as fotos mesmo sabendo não ser capaz de enxergar além de três tons diferentes de cinza, porém se surpreende ao perceber conseguir ver mais uma cor, o magenta.

A garota fica parada durante um tempo até começar a intercalar seu olhar entre as três cores que agora era capaz de ver. Não conseguia entender como era possível ver outra cor até ler o que estava escrito embaixo:

- Cada cor primária é o produto da junção de duas cores do sistema oposto. 

Ou seja, assim se pode entender que no sistema aditivo:

VERMELHO + VERDE = AMARELO

VERDE + AZUL = CIANO

AZUL + VERMELHO = MAGENTA

 

Da mesma forma que, no sistema subtrativo:

MAGENTA + AMARELO = VERMELHO

AMARELO + CIANO = VERDE

CIANO + MAGENTA = AZUL

 

Lica não achava ser possível ficar com um humor melhor do que estava quando acordou, mas aparentemente o sorriso que se formou em seu rosto não conseguia se desfazer, por mais que ela tentasse.

Então, porque eu vejo o azul e o vermelho, eu consigo ver o magenta?

 

Depois de falar com a bibliotecária para levar o livro para casa, Lica voltou ao pátio, agora sim a procura de Tina e Ellen. Diferente de quando chegou, o local estava repleto de adolescentes procrastinando ao máximo antes de terem que ir para a aula, e aparentemente só as amigas de Heloísa pareciam não estar em lugar algum. Até Clara e Samantha estavam lá, sentadas nas mesas perto do food truck bebendo cada uma um suco, acompanhadas de dois garotos, um de cabelos claros mais perto de Clara e o outro, de cabelos escuros e curtos, era o mesmo que havia aparecido no dia anterior com Samantha na lanchonete do Roney. Os dois estavam de braços dados e Lica não pode deixar de pensar que este poderia ser o namorado da garota, mas logo seu pensamento foi cortado pela voz de outra pessoa falando com ela:

- Parece que alguém tá de bom humor. – Lica se vira para ver de quem veio o comentário e encontra Felipe sorrindo para ela. A garota prende seu olhar durante alguns segundos na blusa azul do outro, mas logo volta para seu rosto.

- É, e parece que todo mundo tá reparando no meu bom humor hoje. – Ela sorri tímida para o garoto que ri brevemente da resposta.

- É que fica meio difícil não reparar com você sorrindo assim. – A respiração de Lica se prende em sua garganta pela cantada clara. Ela sabia do interesse do garoto, mas não esperava que fosse ser tão direto assim.

- Realmente, eu to sorrindo muito hoje. – Lica desvia o olhar de Felipe para o chão e começa a andar para as mesas de pedra, com o garoto ao seu enlace.

- Então, desde ontem a gente não teve muita chance de conversar, né? E aí, tá gostando da escola? – Lica assente e volta a olhar para frente. – Qual foi sua melhor aula até agora? – Lica se lembra do fato de ter matado praticamente 50% das aulas do dia anterior com Tina e tenta não rir com a lembrança.

- Ainda não sei, – Responde sincera. – mas to animada pela aula de artes.

- Você gosta de artes? – Pergunta Felipe de repente animado com o assunto.

- Eu amo... e acho que você também. – Os dois riem um pouco.

- É que eu sou grafiteiro.

- Sério? Que foda! – Os dois param de andar e fica de frente um para o outro.

- Você acha? Bom, se você quiser posso até te mostrar uns grafites que fiz mais tarde. Tá a fim?

 

Lica olha para o rosto do garoto e pensa em duas coisas antes de dar sua resposta. A primeira é a explicação de Tina de quando começou a ver em cores e como, ao comparar suas experiências, não se sentiu da mesma forma que ela; e logo depois do conselho que a garota também havia dito no dia anterior:

Se ele fez você ver em cor deve ter alguma importância no seu destino.

- Pode ser.

 

Só então Lica consegue ver, por trás de Felipe, Tina e Ellen rindo da garota e acenando para ela. O garoto também volta seu olhar para as duas, que logo param e fingem que não estavam os observando.

- Vai lá com as suas amigas. Depois a gente se fala.

- Tá bom, até!

 

Felipe dá um beijo na bochecha de Lica e vai embora, deixando a garota um tanto constrangida pela demonstração de carinho, ainda mais pelo fato de Tina e Ellen logo começarem a se aproximar de si, com a japonesa praticamente saltitando com a possibilidade das piadinhas para a amiga:

- Achei que vocês tivessem me dito que chegavam no horário sempre.

- Ah, não, Heloísa, pode parar. – Tina diz rindo. – Você não vai conseguir mudar de assunto agora. Vai fala, o que o Felipe tava querendo contigo?

- Nada demais, gente, ele só me perguntou o que eu tava achando da escola.

- Conta outra, Lica! – Ellen diz e as duas se espantam com a frase da garota. Mesmo só a conhecendo por um dia, Lica já sabia que não era muito de Ellen falar daquela maneira.

- Tá bom, ele também me chamou pra ver uns grafites dele mais tarde.

- MEU DEUS, VOCÊS VÃO EM UM ENCON... – Grita Tina e tanto Lica quanto Ellen interrompem a frase tapando a boca da garota para evitar que esta atraia mais atenção.

- Fala baixo, mulher! – Elas soltam a boca da amiga que as encara.

- E desde quando você ir ver uns grafites do teu namoradinho é segredo de estado, Heloísa?

 

Realmente, Lica não entendera o porquê de não querer que ninguém soubesse que sairia com Felipe, só simplesmente não queria.

As três ainda ficaram um tempo conversando entre elas e assim que o sinal bateu foram para a aula.

 

Do outro lado do pátio, um grupo de quatro pessoas que também conversava, começou a arrumar as coisas para andar em direção a sala, exceto uma:

- Você não vem, Sammy? – Pergunta o menino de cabelos escuros para a amiga que permaneceu sentada em seu lugar, enquanto os outros dois já estavam no meio do caminho.

- Agora, não, Guto. Eu vou terminar de beber meu suco e vou ao banheiro antes de ir.

- Você tá bem? – Guto pergunta para a menina com uma feição de preocupação. – Tá meio quieta desde ontem.

- Não é nada, não, meu anjo. Só ando um pouco cansada. Preciso passar uma água no rosto que daqui a pouco a Samanthinha linda e maravilhosa que você conhece estará de volta.

 

Ela passa um sorriso confiante para o garoto, que mesmo ainda desconfiado decide deixar pra lá, e acompanha os outros dois para a aula. Assim que se vê sozinha no pátio, Samantha respira fundo e encara para o prédio a sua frente.

Essas coisas só acontecem comigo mesmo, não é possível.

 

 

Durante o restante de dia, Lica conseguiu o feito de não responder a uma pergunta sequer que Tina fizesse sobre seu encontro com Felipe ou sobre o que ela estava sentindo quanto àquilo. Depois de passar tanto tempo esquivando de toda pergunta com o tema Edgar Gutierrez que sua mãe fazia, a garota adquiriu certo dom para driblar todo tipo de abordagem para perguntas indesejadas; e Ellen apenas ria da frustração da outra amiga, mas logo parava quando Tina a olhava com certa reprovação no olhar. Lica só conseguiu acalmar as investidas da garota depois de prometer contar tudo o que acontecer à noite, por mensagem mesmo e assim que chegar em casa:

- Heloísa, você não me enrola. Eu vou estar acordada esperando sua mensagem! – Tina diz autoritária, do mesmo jeito que já vira Dona Mitsuko falar tantas vezes com a filha.

 

Se Tina soubesse que está parecendo a mãe, com certeza não falaria comigo assim.

 

- Eu também. – Ellen se manifesta. Não admitia, mas também estava ansiosa pela garota. – E olha que se você não fizer isso eu posso muito bem hackear seu celular pra falar com o Felipe e ver o que ele achou da noite.

- Meu Deus, gente, eu já disse que prometo. Não precisa disso tudo!

 

Depois de prometer mil vezes que cumpriria com a sua palavra, Lica finalmente foi liberada por suas amigas para ir para casa, mesmo sabendo não ter nada para fazer lá. Só queria fugir do furacão de questionamentos que acontecia na escola.

 

Foi só quando Felipe lhe manda uma mensagem dizendo para se encontrar com ele na Chapa do Romano às 19h que Lica percebe que o dia passou mais rápido do que imaginava e então decide já ir para a lanchonete, pois, mesmo chegando mais cedo do que o combinado – eram umas 18h no momento – poderia ficar um tempo conversando com Keyla ou brincando com Tonico enquanto espera.

Lica chega na Chapa, estranhamente lotada, dando de cara com Clara e Samantha, sentadas perto da porta e comendo cada uma coxinha. A garota até pensa em ir até as duas para tentar falar com a irmã, mas logo sua atenção é chamada para outro lugar:

- Olha quem tá aqui, filho! – Keyla diz para Tonico, assim que percebe a entrada de Lica no estabelecimento. – É a tia Lica.

- Oi, lindão. – Diz a menina de franjinha se aproximando dos dois no balcão e sorrindo para a criança, se agachando para falar com ele, que estava no colo da mãe. – Tudo bem, meu amor?

- Com ele tá tudo certo sim, já com você... – Keyla fala e Heloísa respira fundo e pergunta.

- Quem foi que falou que eu vou sair com o Felipe?

- A Tina. – A garota reponde sem pestanejar e as duas riem.

- Sabia que ela já ia espalhar pra meio mundo isso.

- Pra meio mundo não, só pras Five.

- Five? – Lica questiona franzindo o cenho.

- Você não viu? É o nome do nosso mais novo grupo de WhatsApp. – A de franjinha olha o celular e se espanta com a quantidade de mensagens recebidas pelo grupo.

- 345 mensagens? – Ela desbloqueia o celular, passando o olho pela conversa, sendo as últimas palavras dita de Benê, avisando que estava tendo aula com o Guto no galpão e não poderia responder no momento. Lica sorri com as mensagens, mesmo sem saber quem é Guto.

- A Tina tá ansiosa pelo desfecho do encontro. – Keyla diz sentando Tonico no galpão.

- A Tina ta louca, isso sim. – Heloísa guarda e celular e pega as mãos da criança para brincar com ele. – Tá querendo saber mais desse encontro do que eu. – A de franjinha diz e Keyla estranha o comportamento da outra.

- Nossa, Lica, não sabia que você estava sendo forçada a sair com esse garoto.

- Que? – A garota volta sua atenção para a amiga.

- Do jeito que você tá falando, parece que não quer sair com ele. Tá toda desanimada aí.

- Ah, eu não to desanimada. – Keyla lança um olhar desacreditado para a menina e ela volta a falar. – É só que...

- Que...

- Eu não sei. Acho que não parece muito certo. – Depois de desviar pela terceira vez de Valdemar, que andava de um lado para o outro com milhões de coisas em uma bandeja só, Lica se senta no banco de frente para a amiga e volta a explicar. – Quando a Tina me disse que começou a ver em cor com o Anderson, tudo fez sentido. E quando eu olho pro Felipe, ele só me deixa mais confusa do que eu já to. Eu sei que você vai dizer que todo casal é diferente, que com você e o Tato não foi assim, mas eu sei lá. Vai que não é pra rolar esse tipo de coisa comigo?

- Nossa, Lica, você é complicada, hein. – Keyla diz e até Tonico começa a rir da reação da outra. – Quem disse que você precisa entender tudo agora? Só deixa rolar. Eu sei que você pediu pra eu não citar exemplos, mas eu e o Tato estamos juntos hoje e do jeito que estamos porque tinha que acontecer quando aconteceu. Eu precisava ter virado mãe, pra descobrir que meu amor pelo Tato não era só de amizade. – A mais velha olha para a outra com carinho no olhar. – As coisas acontecem por um motivo, Lica, você não pode ficar sofrendo por antecipação e ficar pensando que não faz sentido agora, algo que talvez só faça no futuro. – Ambas trocam olhares cúmplices e sorriem uma para a outra.

- Por que eu to achando que você vai ser a minha voz da razão pra muita coisa a partir de agora?

- Porque eu geralmente sou a de todo mundo.

 

As duas riem e conversam mais um pouco, antes de Keyla se levantar do banco com Tonico, o levando para ir trocar a fralda. Lica também sai da cadeira para ir em direção ao galpão ver se Benê ainda estava lá e nem percebe a presença de Valdemar no caminho, até encontrar o olhar de Samantha em si. O mesmo olhar que ganhou quando encontrou a garota pela primeira vez no colégio, e, quando volta sua atenção para o lado percebe o que aconteceu.

"Puta merda."

 

Pensa a garota, ao ver Clara, encharcada de suco de melancia que o garçom estava carregando, enquanto olhava para frente desacreditada no acontecido. Quando cruza seu olhar com Lica, a de cabelos claros coloca sua bolsa no ombro, se levanta da mesa e começa a andar para fora da lanchonete:

- Clara, espera! – Lica desvia do homem e corre para alcançar irmã, que já estava na rua.

- Me deixa em paz, Heloísa! – A menina responde seca e nem se dá ao trabalho de olhar para a meia irmã. Ela simplesmente continua a andar.

- Espera, eu não quis fazer isso.

- Ah, conta outra, garota, porque não importa o quão afastada eu esteja, você sempre encontra um jeito de me foder.

- Clara, calma, por favor, vamos conversar.

- Conversar? – Clara para e olha para a outra, não acreditando nas palavras que acabou de ouvir. – Depois de ter me tratado feito um lixo, insinuado que fui eu a culpada pelo fim da sua família perfeita e ter jogada suco de melancia em cima de mim você ainda quer que eu pare pra bater um papo com você? 

- Clara, por favor, eu só quero que você entenda o meu lado... – A garota não deixa a irmã terminar e a interrompe.

- Engraçado que há três anos você nem se deu ao trabalho de tentar entender o meu lado. Por que eu faria isso por você agora?

 

Clara diz cínica e não dá a oportunidade da resposta da outra. Apenas se volta novamente para longe de Lica, andando pela rua. A menina de franjinha fica paralisada no mesmo lugar enquanto observa Samantha passar por si e ir atrás da amiga, chamando por seu nome.

Heloísa olha para o chão decepcionada e volta para a lanchonete. Ela se senta no sofá perto da porta e cobre o rosto com as mãos, respirando fundo.

"Eu só faço merda, mesmo."

 

Não havia passado nem dois minutos da discussão quando Lica, ao escutar um pigarro atrás de si, se vira para trás e encontra certa garota a olhando com ódio.

- Olha, Lica, eu realmente não sei qual é a tua, mas parece que noção não faz parte das suas características.

- Samantha? – O questionamento, mesmo que inútil, permanecia evidente na voz da garota.

- Eu só vim aqui te perguntar uma coisa: – Ela ignora a pergunta e Heloísa olha para a amiga de Clara esperando que a mesma completasse sua frase. – Você não cansa de magoar a Clara, não? Porque, pra mim, parece que é seu esporte favorito!

- Mas eu não quis fazer aquilo!

- Não interessa! Desde que você voltou já é a segunda vez que eu vejo a Clara desse jeito por sua causa.

 

Lica não entende o porquê das palavras da garota. Por mais que soubesse estar errada na história por um todo, não havia feito nada além de ter acidentalmente encharcado Clara.  Sem querer, toda a confusão que a garota estava sentido pelas palavras da outra foi substituída por uma atenção súbita a um detalhe da mesma.

 

Olhando para Samantha, Lica engole em seco, não conseguindo evitar lembrar-se do pensamento que teve hoje de manhã, ao comparar as cores que agora conseguia ver:

"Realmente, vermelho chama muito mais a atenção do que o azul."

 

A menina a sua frente estava praticamente sem cor em suas vestimentas, exceto pelo fato de estar com a boca pintada de vermelho. E foi naquele momento que Lica se decidiu que, na questão de sua preferência entre a cor e o azul, o tom mais vivo ganhava sem qualquer sombra de dúvidas.

- Garota, você tá me escutando? – Samantha pergunta e só assim Lica percebe que havia parado de escutar as palavras da outra para simplesmente focar em seus lábios.

- Que? – Samantha fecha os olhos e respira fundo, como se estivesse se controlando para não fazer uma loucura. Lica até pensa em desviar o olhar com vergonha, mas Sammy abre os olhos antes e encara a outra com pesar.

- Só não faz mais nada pra magoar a Clara, tá bom? Ela não merece isso.

 

Sem dizer mais nada, Samantha começa a andar para fora do estabelecimento, deixando Lica sozinha, ainda sentada no sofá.

 

A garota não sabia como conseguira disfarçar para Felipe que estava tudo bem, pois desde que o garoto chegou à lanchonete até o momento no qual estavam, ele não fez uma pergunta sequer sobre o estado da garota, além de meras formalidades de início de conversa.  Lica, então decide deixar pra lá e tenta focar na conversa com o rapaz:

- O que você achou da aula de artes hoje? – Pergunta ele.

- Bom, não é a mesma coisa que o curso de desenho que eu fiz na Escola de Belas Artes, mas eu gostei.

- Espera, você estudou na Escola de Belas Artes em Paris? – Lica assente e ele passa as mãos pelo cabelo, surpreso com a notícia. – Mano, essa é uma das melhores escolas de arte do mundo!

- Eu sei! – Ela responde tão animada quanto o outro. – Ter morado fora por três anos tem as suas vantagens.

- Mas também tem suas desvantagens, né? Tipo a gente só se conhecer agora.

 

Lica admitia que a conversa com Felipe estava até que divertida e pensa que apenas ter conhecido o rapaz agora fazia de fato parte das desvantagens, afinal, começar a ver cores três anos atrás poderia ter ajudado a menina com alguns aspectos em sua vida. E logo assim, o pensamento da garota volta pra outra desvantagem que seus três anos longe ajudaram a aumentar, o ódio de Clara pela irmã. E dessa vez, até Felipe consegue perceber a mudança de humor na garota.

- Aconteceu alguma coisa?

- Você já conheceu alguém que deveria ser importante pra você, mas acabou perdendo a oportunidade de se aproximar dessa pessoa por ter sido babaca e só percebeu depois de muito tempo?

- Hm, não. – Ele ri. – Mas talvez eu possa te ajudar. De quem você tá falando?

- Da Clara. – Felipe arregala um pouco os olhos e suspira pesadamente. – Tem algum conselho?

- Não sei se sou a melhor pessoa pra falar, mas a Clara é uma menina ótima.

- Eu sei, – Lica pensa um pouco antes de completar. – quer dizer, agora eu sei.

- Você devia falar com a Samantha. Acho que seria uma abordagem melhor do que ir direto na Clara. – A mente da garota só consegue se lembrar da conversa que teve mais cedo com a de cachos na lanchonete de Roney.

- Não acho que vai dar muito certo.

- Por que, não? A Sammy é mó parceira. Acho que se você explicar que quer se entender com a Clara ela não negaria ajudar. No fundo, no fundo, a Sammy só quer a amiga feliz e bem. Você tem que ver quando atacam ela por causa da Malu. Só falta dar um murro em qualquer um que dê um ai perto da Clara.

- Não sabia que as pessoas atacavam ela por causa da Malu. Tudo bem que a Malu também não é fácil, – Ambos compartilham uma risada quase que sem graça. – mas nada é culpa da Clara.

- Pois é, mas é impressionante também como a Clara ainda tenta defender a mãe, mesmo depois de tanta merda que ela fez no Grupo. Acho que esse foi um dos motivos pra gente não ter dado certo. – E essa foi a vez de Lica arregalar os olhos.

- Espera, você já teve alguma coisa com a Clara? – Pergunta a menina. O garoto a encara um pouco e desvia o olhar.

- Não... quer dizer, a gente nunca namorou, mas já saímos algumas vezes.

 

E então todo o papo de Samantha faz sentido na cabeça da garota. Não conseguia acreditar o quão burra havia sido. Era óbvio.

- Felipe, eu acho que a Clara gosta de você.

- O que? – o garoto ri desacreditado. – Claro que não, a gente é só amigo.

- E desde quando ser só amigo impede alguém de gostar da outra pessoa? – Felipe para durante um tempo para pensar no que a garota disse, mas chacoalha a cabeça, como se tirasse a informação de lá.

- Eu e a Clara já resolvemos esse assunto.

 

Algumas coisas se passaram na mente de Lica ao constatar que estava em um encontro com possivelmente o garoto de quem Clara gostava. A primeira foi xingar qualquer um que seja responsável pelo destino das pessoas e pelo fato dele gostar de complicar a vida da garota. A segunda foi que, por mais que soubesse que Felipe poderia ou não ser sua alma gêmea, a cena de Clara indo embora hoje não conseguia sair de sua cabeça.

- Olha Felipe, você é um cara legal. E eu acho que a gente se daria super bem.

- Mas... – Diz ele de cabeça baixa, sabendo o que viria a seguir.

- Mas você e a Clara têm uma história. E eu não posso me dar ao luxo de fazer uma coisa que eu sei que vai deixar ela magoada. Eu quero fazer as pazes com ela.

- Não vou conseguir fazer você mudar de ideia, né? – O garoto pergunta, e Lica até hesita antes de responder, mas sabe que é o certo.

- Não.

 

Um silêncio até que constrangedor se instaura entre os dois e Felipe começa a rir:

- Só eu mesmo, cara. Querer ficar com a irmã da garota que gosta de mim.

- O destino é meio filho da puta mesmo. Olha pra mim, eu consegui passar de seguidora fiel da ideia das cores, pra descrente e agora policromista.

- Espera, você vê em cores? – Felipe pergunta e Lica percebe que não pensou antes de falar. “Hoje dever ser o dia mundial estupidez, porque, meu Deus como eu sou burra.

- É, vejo. – A garota afirma, meio contrariada e com certo medo da resposta do garoto.

- Que foda, cara! E como é?

 

E então, toda a suspeita de Lica de o garoto não ver em cor como ela é confirmada, mas, diferente de como pensou que se sentiria, a menina estranhamente sente um alívio percorrer seu corpo por não precisar mais estar em dúvida, e por sentir que fez a escolha certa ao dispensar o garoto para se preocupar com Clara.

- É muito bom. – Responde sincera e sorri, se lembrando do momento no qual viu cada cor pela primeira vez. Desde o susto até a felicidade por ver a terceira cor diferente.

- Olha, eu não quero ser muito inconveniente, mas com quem foi? – Lica arregala os olhos com a pergunta. Não achava que ele seria tão direto assim. Além do mais, o que poderia falar em uma hora dessas, porque "Com você?" definitivamente não era uma opção para a garota. – Foi com alguém da Europa? – E pela segunda vez, sem nem pensar nas consequências, Lica responde.

- Sim.

- Que foda, mano. Realmente, ter morado fora três anos tem suas vantagens.

 

A garota ri de nervoso e Felipe a acompanha, sem perceber a verdadeira reação da garota. De repente, o garoto olha para Lica, como se tivesse acabado de ter uma ideia:

- Lica, posso te pedir um favor?

- Pode? – A responde um pouco receosa.

- Grafita comigo?

- Como? – Lica ri um pouco da empolgação de Felipe, porém ri mais pela surpresa do pedido.

- É que, já que você consegue ver em cor, achei que poderia dar uma cara melhor pros meus grafites, sabe? Eu só combino tons de cinza, você pode combinar cores.

 

É, Lica gostava de ser amiga do garoto apesar de tudo.

- Claro, sem problema.

 

Então, Felipe leva Lica para um tour perto da lanchonete de Roney por alguns de seus grafites, antes de pararem em frente à uma parede completamente em branco.

O garoto mostra suas ideias para um novo desenho e Lica fica feliz ao notar que o vermelho que tanto gostava combinaria muito bem com as várias silhuetas de uma garota pulando que o rapaz queria fazer. Não muito tempo depois, estão os dois pintando o muro e Lica mal podia acreditar que conseguia fazer algo assim sem ser no básico preto e branco.

 

Dentro da lanchonete, esperando para encontrar com Guto, que havia acabado de dar sua aula de piano para Benê, Samantha não conseguia acreditar que, mesmo após ter falado com Lica sobre não fazer nada para magoar Clara, a garota estava lá, grafitando um muro com Felipe. E o pior de tudo:

Quem combina vermelho com verde desse jeito?


Notas Finais


Pois é, gente. Não fiquei a pessoa mais feliz do mundo com esse capítulo, mas espero que vcs tenham gostado e, como sempre, comentários são sempre bem vindos!
Beijos e até a próxima


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