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História Cor do Abismo (Jeon Jungkook) - Capítulo 2


Escrita por: skyler_teller

Capítulo 2 - 1: A Bruxa e o Louco


Trina acordou por volta das quatro da tarde, vendo que o sol ainda brilhava com ardor, fechou as cortinas e permaneceu deitada brincando com o feixe de luz que entrava pelo buraco da cortina. Baal subiu na cama e começou a pedir pela atenção da garota, ronronava, deitava e arranhava. O gato era pequeno, Trina achava estranho ele não ter crescido tanto como outros, era acinzentado com olhos azuis bem exuberantes que as vezes pareciam brilhar a noite.

Por volta das seis, decidiu pôr fim se levantar, pegou Baal em seus braços e desceu para a cozinha, antes de qualquer coisa tratou logo de alimentar e trocar a agua do gato, já que ele miava sem parar e mexia com as patinhas nas vasilhas no chão. Depois que fez algo para comer, seguiu para o lado de fora segurando uma xicara de café, sentou-se em uma das cadeiras da varanda, ali ela via o céu ficar totalmente escuro pelo cair da noite, sentia o cheiro dos pinheiros que cercavam toda sua casa, qual era totalmente isolada e dificilmente pessoas passavam por ali por ser muito a fundo da floresta.

Depois de algum tempo, Trina se levantou e seguiu para outro cômodo da casa, fazendo o assoalho desgastado pelo tempo ranger com cada passo que dava, assim como as vigas de madeira estalavam sustentando aquela velha casa. A garota abriu a porta do pequeno quarto qual usava com um tipo de escritório ou sala de estudos, era pequeno e haviam dois armários grandes cheios de livros, quais a maioria foram de sua avó, uma pequena mesa e um computador velho que ela mal ligava, dado insistentemente por sua tia. Trina se sentou frente a pequena mesa após escolher o livro que queria, então abriu seu grimorio, ali anotava tudo o que aprendia, receitas, feitiços, poções, como proceder em algo, o que fazer, enfim, tudo que precisava estava ali, como um manual de bruxaria.

Gostava de viver sozinha, conseguia pensar mais ouvindo seu próprio silencio e os miados de Baal pela casa, mesmo que as vezes se sentisse sozinha, preferia assim. Deixava a casa arrumada como queria, acendia quantos incensos e velas lhe desse vontade sem ninguém reclamar da fumaça ou do cheiro. Não estava tão sozinha, tinha Baal que saia de vez em quando passear pela mata, Jungkook que ia lhe visitar quase todas as noites e uma tia que ia toda semana. Sentia falta de sua avó, como ela fazia as coisas, como ensinava sobre bruxaria e a controlar seus poderes. Não sentia falta de uma mãe nem de um pai, sua avó e sua tia faziam esse papel, tudo o que Trina aprendeu e o que é, foi graças a elas e não a mulher que lhe deu à luz.

Já Jungkook permanecia sedado, quando enfim acordou com um beliscão de uma das enfermeiras mais rudes da clínica, olhou-a fixamente nos olhos e questionou como uma mulher daquela pode trabalhar com pessoas. Lembrava da vez em que ela raspou seu cabelo, ou convenceu os enfermeiros de deixa-lo em uma área isolada depois que o pegou escondendo pílulas dentro do vaso da flor de plástico que ficava em seu quarto.

- Onde esteve noite passada? – A senhora anotava algo em uma prancheta onde manteve seus olhos fixos.

- Fui ver uma bruxa. – Mais uma vez deu um de seus sorrisos sínicos.

- Bruxa? Daquelas com narizes enormes, verrugas e vassouras voadoras?

- Está descrevendo a si mesma? - A senhora suspirou e se retirou do quarto. Jungkook riu sozinho por acharem que realmente aquilo era uma mentira, ou ele pensava ser real? Ele não sabia, e por enquanto não queria saber.

Jungkook saiu do quarto, o deixaram com roupas hospitalar e descalço, sempre que algum paciente fazia algo errado lhe tiravam as roupas e calçados. O rapaz, dentre todos os pacientes, era o que mais ficava “sem roupas”, sempre fugia ou arrumava algum tipo de confusão dentro da clínica, como bater em enfermeiros ou cuspir suas pílulas em alguém.

- Como está Jungkook? – Perguntou uma enfermeira que limpava o rosto de um paciente que por infelicidade estava esquecido na clínica, assim como Jungkook que desde o seu primeiro dia naquele lugar, não viu mais ninguém que algum dia tenha passado em sua vida. O rapaz sentou na mesma mesa onde outros pacientes jogavam dominó, mal sabiam o que estavam fazendo, apenas empilhavam as peças e riam quando caiam.

- Como o babão está? – Se referia ao paciente que a enfermeira limpava.

- Está bem, não o chame assim. Foi ver a bruxa de novo? – Jungkook deu um fraco riso por saber que assim como todos, a enfermeira não acreditava que realmente existia uma bruxa, ou que realmente existia alguém.

- Fui, uma entidade falou com ela ontem.

- É mesmo? E o que disse? – Deu um fraco sorriso.

- Disse para você parar de fingir que acredita. – A enfermeira engoliu seco desmanchando aquele sorriso que ela sempre carregava em seu rosto. Jungkook a olhava sem esboçar uma única expressão.

- Eu tento sempre me comunicar com os pacientes, mesmo que algumas coisas sejam loucura, isso é meio irônico, ou mesmo que alguns sejam rudes, eu sempre tento porque eles não têm ninguém em sã consciência para conversar, com licença. – A mulher se retirou um tanto furiosa ou chateada com o comentário de Jungkook, o rapaz apenas suspirou e tentou ensinar inutilmente mais uma vez como se jogava dominó.

Mais tarde, na hora do jantar, Jungkook se recusou a comer a sopa, dizia que tinha gosto de cola, então conseguiu roubar alguns pães da cozinha e um copo de café com leite. Jungkook podia fazer o que quiser sem nunca o notarem, assim como podia sair e voltar muitas vezes sem notarem sua ausência. Era ágil e sutil, tinha passos leves e ninguém o ouvia se aproximando quando caminhava.

Quando enfim deu dez da noite, Jungkook esperava sua vez na fila para receber o remédio, cutucava um paciente que estava em sua frente, o homem que também estava esquecido na clínica ria com as brincadeiras de Jungkook, o rapaz parecia satisfeito com as risadas do colega e só parou quando chegou a sua vez de tomar aquele comprimidos que ele sentia que o adoecia ainda mais, o rapaz pegou o copo com dois comprimidos e ‘tomou’, antes de sair da fila o enfermeiro segurou seu braço olhando fixamente seus olhos.

- Abra a boca. – Jungkook riu e fez o que lhe foi ordenado. – Ergue a lingue. – Jungkook suspirou rapidamente engolindo os dois comprimidos, então o enfermeiro o soltou e voltou ao seu trabalho.

Quando Jungkook entrou em seu quarto, seguiu rapidamente para o minúsculo banheiro que havia ali, respirou fundo sentindo-se já um pouco zonzo, então, colocou dois dedos no fundo de sua garganta fazendo-o vomitar aqueles comprimidos para fora, quando viu que os dois estavam ali, o rapaz respirou fundo algumas vezes e lavou suas mãos, rosto e escovou seus dentes, então foi até sua cama, ficou um tempo deitado olhando o teto encardido, sabia a hora certa de sair. Quando deu meia noite, ergueu o colchão e pegou uma troca de roupas que deixava escondida ali, vestiu-as e saiu do quarto, estava descalço, precisava arrumar um par de calçados antes de correr floresta a dentro, sabia onde ir, foi até o quarto de um dos pacientes, qual era o menos “louco” da clínica, Mike, sempre emprestava um par de tênis em troca de comprimidos de tranquilizantes que Jungkook conseguia roubar das enfermeiras.

- É bom negociar com você. – Jungkook sorriu e foi até a janela, checou para ver se o guarda já havia pego no sono, então empurrou a grade que ninguém sabia que estava solta e pulou logo correndo para os fundos se escondendo da luz, lá ele subiu em um entulho de madeira para subir no muro, caminhou devagar até uma arvore alta se agarrando em seus galhos grandes até que conseguiu chegar ao tronco e enfim descer. Era como sempre descia.

Jungkook correu até o vale, onde tinha um lago, qual acidentalmente se afogou a algum tempo, era o caminho mais fácil até a casa de Trina já que o lago ia até próximo a casa. Seguiu reto até ver uma pedra grande coberta de musgo e uma casinha de cachorro que pelo visto estava ali a tempos, então virou a esquerda e seguiu caminhando, enquanto andava pelo local com uma lanterna, também roubada dos guardas, Jungkook tinha uma ligeira impressão de estar sendo observado, então parou guiando a lanterna ao redor, até que pensou ter visto alguém com algum tipo de túnica preta com a cabeça de um esqueleto de cabra com chifres grandes e retorcidos, quando voltou com a lanterna para observar a tal criatura, não havia nada, o que fez o rapaz engolir seco e apertar o passo.

 Caminhou rapidamente até ver uma lâmpada fraca amarelada, encontrou Baal na entrada, sorriu e pegou o gato em seu colo.

- Cadê a sua dona? – O rapaz foi até o quarto de Trina, estava sentada em sua cama com uma xicara e seu livro aberto ao lado.

- Olá, bruxa. – Disse o rapaz sorrindo.

- Olá, maluco. – Jungkook riu e sentou ao lado de Trina. – Precisa para de fugir e concluir o tratamento. – Jungkook deu mais um de seus sorrisos irônicos e negou lentamente com a cabeça. – Como sabe que eu sou real? E não algo inventado pelo seu problema?

- Eu não sei. – Trina deu apenas um sorriso fraco um tanto desanimado. – Eles acham que tenho desordem esquizoafetiva com tendência bipolar.

- Acham?

- Sim, então eles me dão remédios todas as noites pra me fazerem dormir.

- Deve ter um motivo para isso.

- Tem sim, querem me manter dopado e preso nas algemas invisíveis deles.

- Como foi de manhã quando chegou na clínica?

- Eles me sedaram, horas depois uma enfermeira me acordou com um beliscão.

- Aquela que raspou sua cabeça um tempo atrás?  – Jungkook assentiu rindo baixo.

Jungkook começou a tagarelar sobre o dia que teve e sobre a raiva que sentia da enfermeira que lhe beliscou mais cedo, vez ou outra seus olhos escorregavam para o altar que sempre ficava no mesmo lugar daquele quarto ou para os incensos de sândalos acesos nos cantos do quarto. Trina o ouvia com atenção, fazia alguns comentários em meio a conversa, mas majoritariamente deixava Jungkook falar, sabia como conversar com ele, não tocava no assunto sobre seus problemas e nem sobre sua família, sabia que essas coisas o deixavam nervoso.

Não demorou para que o assunto mudasse para coisas chatas e desinteressantes, até ficar um tanto pessoal, isso é bem comum na verdade, algo que acontece muito quando está sozinho com alguém conversando confortavelmente.

- Mas não pensa em sair, ver a cidade, pessoas? – Questionou Jungkook que estava deitado na cama ao lado da amiga.

- Hm... Não, gosto daqui.

- De ficar sozinha?

- Sim. Parece meio solitário, mas prefiro assim, consigo pensar melhor e respirar o ar puro. – Jungkook deu um fraco sorriso.

- Quando eu sair da clínica, quero arrumar um apartamento pequeno na cidade, criar um cachorro, um labrador, e trabalhar em uma cafeteria ou qualquer lugar que contratem pessoas estranhas. – Soltou um fraco riso.

- É um bom plano.

- É, mas não vou sair da clínica, vou morrer lá. – Trina torceu os lábios com a confissão do amigo.

- Não, Jungkook, se você fizer o tratamento corretamente vai sair.

- Talvez.

Jungkook soltou um breve sorriso ao pensar em seu pequeno plano, em como fazer aquilo, como melhorar e superar seus problemas. Tinha algo a mais em seu plano que não foi revelado ali, nele incluía Trina.

Trina sentou-se no canto de sua cama, como sempre ficava, onde poderia olhar bem para a lua. E Jungkook, também como de costume, aconchegou-se na cama, qual era grande e ele sempre se questionava porque aquela cama era tão grande para uma pessoa tão pequena como Trina que não chegava a ter um metro e sessenta.

- Sabe, sempre me pergunto, e se meus pais ainda estivessem vivos, como ele reagiriam na situação que estou hoje, como eles iam lidar? Não acho que me sentiria diferente de agora, ainda estaria perdido, ao menos teria alguém para me visitar na clínica, ou me ajudar a superar isso. Quer dizer, tenho você, mas parece que falta algo as vezes. – Disse Jungkook. Trina se ajeitou na cama de forma que pudesse olhar os olhos de Jungkook. O garoto congelou com o olhar da amiga, em sua cabeça pensava que ela tinha entendido errado o que ele disse, como se estivesse dizendo que ela não seria nada ou não fazia diferença em sua vida.

- Eu sei como é, os pais sempre fazem falta, bom, eu não sei, não conheci os meus.

- Não pensa em encontra-los?

- Não. – Jungkook e sentou.

- Você pode encontra-los, ainda tem a chance de conhece-los, se eu tivesse esta chance iria atrás deles, independente do que fosse. – Trina ficou imóvel olhando a parede pensando no Jungkook acabara de dizer.

- Está certo, mas acho que se eles quisessem me conhecer, viriam ao menos no velório da minha avó.

Jungkook decidiu não estender mais o assunto, levantou-se e foi até o altar, olhou as pedras, a estatueta e o athame. Ao pega-lo, sentiu um calafrio, ficou parado com o punhal em mãos, apertou-o com força lembrando-se de um ato que fez anos atrás. Trina levantou e foi até o rapaz, colocou uma mão em seu ombro e com a outra pegou o athame delicadamente e devolveu para seu devido lugar.

- Vem. – Jungkook estava pálido e suava frio. Trina o puxou pela manga da camisa e o fez sentar-se novamente. – Tudo bem, só se lembrou de algo que precisa esquecer.

- Me faz esquecer isso, por favor. – Disse baixo se deitando e encolhendo-se na cama já com seus olhos cheios de lagrimas. Jungkook ficou um tempo em silencio com os olhos perdidos, hiperventilava vez ou outra e Trina, que deitou atrás do rapaz, abraçava-o e mexia em seus cabelos, sabia que aquilo o deixava calmo.

Longos minutos depois, Jungkook olhou rapidamente para trás onde Trina estava e logo voltou seus olhos para frente.

- Desculpe. – Fechou os olhos e respirou fundo.

- Tudo bem, não foi nada.

- Se não soubesse o que fazer, teria feito algo muito errado ou surtado de novo.

- Esquece isso, não foi nada.

As horas passavam e Jungkook ia esquecendo do ocorrido, o assunto mudou, coisas aleatórias, até sobre comida e animais falaram. Quando o céu já não era mais tão escuro, os dois desceram as escadas da casa em silencio, Jungkook não queria se despedir mais uma vez, mas precisava voltar para a clínica antes do sol nascer por completo. Então deu um rápido abraço em Trina e saiu.

Correu sem parar até ver os grandes muros da clínica, pulou-os e seguiu para seu bloco cautelosamente, feito assim, pulou a janela e trocou aquelas roupas, vestiu a roupa hospitalar e escondeu as outras e o par de sapatos. Deitou-se e deixou o sono vir devagar.

 


Notas Finais


Deixe um comentario para o proximo capitulo 💜


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