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História Cora (Jack Gilinsky) - Capítulo 7


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Notas do Autor


Gente por escrever pelo Word e passar pro wattpad os capítulos estavam com formatos horríveis! Tomei o cuidado de verificar um por um e acertar para melhorar a leitura de vocês. Peço desculpas pelo erro. Boa leitura!

Capítulo 7 - Hockey and Bar Fights


     Olhei em volta no campo de futebol enquanto me aquecia com Amália e Ocean, os moletons e as calças grossas não conseguiam impedir o frio de incomodar, os cabelos bagunçados pelo vento e o nariz vermelho quase congelado me traziam arrependimento de não ter pedido um bilhete de dispensa a Miranda, minha treinadora. 

    Agora uma vez por semana era obrigada a se exercitar ao ar livre em um frio de menos de treze graus sem poder dar qualquer tipo de justificativa que não fosse à morte pra faltar à aula do treinador Creene. Charlize e Kiara caminhavam pelo campo as pressas saltitantes vindo em nossa direção, carregando pompons com sorrisos enormes e animados, assim que chegaram perto o bastante balançaram os pompons com fitinhas brilhantes vermelhas e pretas e deram gritinhos.

—Adivinhem quem é a nova integrante do time das lideres de torcida? – cantarolou Charlize mexendo os pompons com um sorriso enorme. – Kiara, por que Chloé é a capitã do time e sequer me deixou fazer o teste.

    Deu de ombros desanimada e sentou sobre meus pés enquanto eu fazia abdominais, a sobrancelha franzida.

—Ela pode fazer isso?

—Aparentemente beijar o namorado da capitã do time não é a melhor maneira de conseguir entrar. – brincou Charlize deu de ombros. – E as outras garotas apoiaram ninguém quer uma vadia ladra de namorados por perto.

    Trocamos de posição e mexi a cabeça em negação, trocamos de lugar e dei de ombros reprimindo os lábios tristes.

—Sinto muito.

— Que seja as coreografias são horríveis. Seria humilhante demais.

     Amália estava deitada com as pernas esticadas e eu tinha quase certeza que estava prestes a dormir, enquanto Charlie fazia alguns abdominais concentrada e Kiki mostrava alguns de seus movimentos com um sorriso bobo. 

    As coisas com certeza pareciam ter voltado ao normal e sentia os ombros relaxados, assim que trocamos de lugar Charlie apoiou os braços e o queixo sobre meu joelho e franziu a sobrancelha.

—Como foi o aniversário do seu pai? – perguntou e franzi a sobrancelha antes de me lembrar da mentira que contei quando deixei de ir na festa sábado. Sorri tentando disfarçar e continuei os exercícios.

—O de sempre. – arfei continuando com os abdominais. – Comemos, assistimos filmes e eu tenho quase certeza que dormi no primeiro.

     Charlie assentiu e começou a contar sobre sua apresentação de balé pro festival de inverno e como sua professora, que coincidentemente também era sua mãe, colocava toda a pressão das inscrições pra escolas de balé na Europa em suas costas. Não era atoa que Charlize passava a maior parte do tempo querendo sair e descontar o estresse se tivesse minha mãe como professora surtada também iria. 

    Senti o frio na barriga de sempre que alguém falava sobre o festival de inverno, Omaha era famosa por isso e todos os anos a cidade atraia centenas e se não milhares de turistas para acompanhar as festividades. O festival durava quase uma semana inteira que fora decretada como feriado e sempre teve várias feiras, apresentações da academia de balé do centro, dos atletas dos esportes de inverno e suas modalidades e até jogos amistosos do Omaha Mavericks com times convidados.

     Desde pequena sempre foi meu feriado preferido e costumava passar todos os dias pelo centro da cidade com Jack e sua irmã Molly, mas esse ano Ocean decidiu que seria melhor se fossemos passar alguns dias na casa do lago de sua avó já que havia terminado, de novo, com Kyle e precisava ir a algum lugar que não fosse encontra-lo sem chance alguma. 

    Ainda não decidi se era uma ideia boa ou não, mamãe tinha prometido passar alguns dias em Omaha para aproveitar o festival e ver minha primeira apresentação como medalhista de prata nas olimpíadas de inverno e com a terceira medalha de ouro do gran prix de patinação artística. Mas passar alguns dias longe de tudo e todos e principalmente de toda essa confusão me parecia uma ideia tentadora.

     Terminamos os abdominais e nos sentamos esperando o treinador, que também era nosso professor de ginástica e às vezes tinha o péssimo habito de dar aulas e treinar o time de Hockey ao mesmo tempo. 

    Todas suas aulas desde o primeiro ano foram sobre correr voltas pelo campo até a exaustão e não gastássemos seu precioso tempo com reclamações e "problemas adolescentes" como gostava de chamar. Amália e o Sr. Edmund Creene, como se chamava nosso carrasco e treinador, tinham uma relação péssima desde o primeiro ano. Perdi as contas de quantas voltas extras tive que correr por conta de Amália e sua boca grande que sempre insistia em discutir.

—Decidiu o que vai apresentar no festival de inferno? – perguntou e o Sr. Creene entrou no ginásio, ranzinza como sempre e seguido pelos jogadores do time de Hockey em um caos de conversas e risadas altas. – Não é tipo daqui a duas semanas?

    Assenti e dei de ombros, amarrando os cadarços e prendendo o cabelo, Amália permanecia imóvel no chão e se não fosse pelo movimento da respiração poderia jurar que estava morta. Charlie cutucou sua barriga com a ponta do tênis e franziu a sobrancelha.

—Cleópatra, Miranda que fez a coreografia. – Sorri ao lembrar de minha treinadora e segunda mãe com o sotaque russo que quando misturado com o meu tornava nossas conversas caóticas, coincidentemente Miranda era esposa de Sr. Creene. E não entrava na minha cabeça como alguém tão elegante e gentil como Miranda conseguia ser casada com o brutamonte ignorante que era Edmund Creene. – Ta muito boa na verdade, só nada com que estou acostumada. Lento e meio sexy demais.

—Mamãe vive perguntando quando você vai voltar no estúdio. Falou que sua técnica é trés chic. –falou com uma voz aguda e um biquinho exagerado. – Você sabe como é ela tem toda aquela fixação com a França e você aparece toda habilidosa com seu sotaque e sua habilidade no balé desperdiçado no gelo.

    O treinador apitou e gritou algumas ordens, juntando todos os alunos ao seu redor e começando a discursar sobre a importância dos exercícios físicos ou algo assim. Amália apoiou a cabeça nos meus ombros e eu tinha quase certeza que dormia em pé apoiada em mim, do outro lado do circulo pude ver Jack me encarando com um sorriso de canto, acenei minimamente e seu sorriso aumentou. 

    As coisas estavam tranquilas depois que resolvemos voltar a ser amigos, trocamos mensagens o final de semana inteiro e Jack até me ligava durante a noite e ficávamos por horas conversando até que um dos dois dormisse. Senti Amália cambaleando pro lado e franzi a sobrancelha, passando um braço pela sua cintura e segurando firme.

—O que diabos há com você?

—Kiara me fez ir a todas as festas possíveis esse final de semana. — resmungou esfregando os olhos e se esticando como um gato. – Além de me obrigar a ficar até as quatro na ultima de ontem por que tinha certeza absoluta que Jack iria aparecer a qualquer momento.

    Franzi a sobrancelha, então aquele foi o compromisso que não era tão importante assim que ele havia dito ontem enquanto conversávamos. Sentia-me mal por Kiara, eu deveria realmente ser sincera com ela e falar tudo, mas nem mesmo Ocean conseguia faze-la ouvir. Concordei com a cabeça e o treinador apitou, exigindo que déssemos trinta voltas pelo ginásio.

—Você pode sempre dizer que ta menstruada. – falei pra Amália que já começava a se aquecer.

—Eu disse isso semana passada.

    Suspirando colocou o capus do moletom e começou a correr, franzi o nariz e neguei com a cabeça olhando pra Charlize que deu de ombros e começou a correr atrás de Amália. Parecia que ia cair desmaiada a qualquer momento, acompanhando seu ritmo corremos as trinta voltas em pelo menos o dobro do tempo do resto da turma. 

    O time de Hockey estava no meio do campo com alguns aparelhos e outros pesos treinando e bem a nossa frente pude ver Kiara de top e shorts correndo rápido sem sequer suar, me perguntava se sequer era humana, estava tão frio que com certeza se eu ousasse colocar uma regata morreria de frio e pegaria um resfriado horrível, já Kiara parecia uma modelo posando pra uma daquelas revistas de estilo de vida. 

    Amália tirou os óculos por um momento e arqueou uma das sobrancelhas.

—Acho que seu plano não deu muito certo. – apontou em direção a Kiara e ainda com o dedo erguido virou para Jack que malhava distraído enquanto Kiara lançava sorrisos em sua direção. – o feitiço continua, fala sério o pau desse cara deve ser mágico.

     Neguei com a cabeça e nos jogamos no chão quando completamos a ultima volta, Ocean sentou ao nosso lado e atirou uma garrafa de agua pra Amália que virou quase tudo em um gole só. Kiara continuava correndo e Charlie apoiou as costas nas minhas. Bebi o resto da água da garrafinha e continuamos sentadas assistindo o resto da aula, Amália deitou a cabeça no meu colo e resmungou algo como nunca mais ir a nenhuma festa.

—Sabe, acho que meu problema é falta de sexo. – Charlie esticou as pernas e apoiou a cabeça no meu ombro, a voz monótona. — talvez algumas boas sentadas e eu estaria inteira de novo.

    Sem conseguir evitar soltei uma gargalhada alta e Amália reprimia o riso, Ocean deu um tapinha na perna de Charlie que sorriu boba e revirou os olhos.

—É serio a frustração sexual ta me matando. – grunhiu e suspirou dramaticamente. – talvez eu precisasse de uma transa casual.

—Você não transa casualmente. – Ocean revirou os olhos e eu concordei. – fala sério Charlie você é uma das pessoas mais apegadas que eu já vi!

    Kiara sentou próximo de nós e começou a fazer abdominais, eu parei de contar a partir do centésimo. Passando os olhos pelo campo e todos nossos colegas meu olhar encontrou o de Jack, de novo, sorriu discretamente e começou a se aproximar de nós. 

    A camisa encharcada de suor grudava no corpo e agora de camiseta podia ver várias de suas tatuagens espalhadas pelos braços, precisava confessar que Jack ficava incrível assim, o cabelo bagunçado e o rosto um pouco vermelho pelo esforço, as veias que ficavam salientes pelos braços. 

    Que porra é essa, Cora? Bati-me mentalmente e balancei a cabeça tentando afastar esses pensamentos. Eu só podia ta ficando doida.

—Oi. – falou dando aquele sorriso que fazia qualquer uma suspirar. – Vocês vão no jogo de quarta, né?

    Kiara se prontificou a ficar de pé, colocou as mãos atrás do corpo e piscou os enormes olhos claros como uma verdadeira boneca. Jack permaneceu do mesmo jeito e Kiki brincou com uma mecha loira do cabelo acenando com a cabeça rapidamente.

—Claro que sim. – sorriu e piscou lentamente, oh meu deus Kiara... – não perderíamos por nada!

    O olhar de Jack foi a minha direção por uma fração de segundo e senti meu rosto esquentando, desviei o olhar para Amália que me encarava com uma sobrancelha arqueada e um sorriso sarcástico. 

    Oce continuava seus abdominais inabaláveis e Kiara permanecia encarando Jack com expectativa. Os olhos enormes brilhando e mordeu o lábio de forma quase sexy. Era estranho que mesmo com todo aquele estilo de boneca conseguisse ser tão sexy, sempre me perguntava por que pedia tanto tempo com Jack que estava claramente nem ai, quando podia ter qualquer outra pessoa.

—legal. – Jack respondeu simplesmente e quase podia vê-lo revirando os olhos. – Vocês deviam aparecer na afterparty, não vai ser grande coisa e nem vão muitas pessoas. Só pra comemorar a vitória.

    Kiara abriu um sorriso tão gigante que parecia prestes a rasgar seu rosto, os olhos brilhavam e acenou com a cabeça mais vezes do que o necessário. Virou—se pra nós e antes que pudesse dizer qualquer coisa voltou a encarar Jack, de novo mordendo os lábios daquele jeito estranho e sorriu de canto.

—Vocês nem ganharam ainda. –Charlize franziu a sobrancelha e Jack deu de ombros com um sorriso vitorioso.

—Os Wilds não são lá aquelas coisas.

—Claro, vamos sim. – interrompeu Kiara chamando a atenção de Jack novamente.

    Jack assentiu e quando Kiara voltou para onde Ocean estava, piscou pra mim e deu as costas voltando para aonde estavam treinando, revirei os olhos e Amália continuava me encarando com a sobrancelha arqueada e o sorriso sarcástico.

—Definitivamente não deu certo.

[...]

—Aquele garoto, Gilinsky? – perguntou mamãe distraída pelo facetime, olhava pra fora do campo de visão da câmera, provavelmente pintando mais uma de suas obras primas. – O magrelo de óculos que vivia enfurnado naquela casa da arvore com você?

    Revirei os olhos e me virei de barriga pra cima, deitada na minha cama encarava o tento enquanto ouvia mais horas de noticias de minha mãe e seu novo namorado que estavam em um mochilão pela Europa. Meu pijama de patinhas não conseguia me esquentar o suficiente, era uma quarta à noite e papai teve que viajar mais uma vez, estava sozinha em casa e nem todos os aquecedores do mundo podiam me esquentar naquela noite. 

    Mamãe estava com uma blusa branca de botões e os cabelos loiros quase brancos presos em uma trança frouxa, as mãos sujas de tinta e o olhar sereno de um verdadeiro furacão.

—Ele não usa mais óculos. – casualmente analisei minhas unhas e sentei, cruzando as pernas ajustando o computador. – e definitivamente não é mais magrelo, sabia que agora ele ta mais alto do que eu?

    Mamãe me encarou com um sorriso enorme e colocou as mãos sobre o coração, os olhos brilhando com lágrimas e o lábio inferior tremendo segurando o choro. Lá vamos nós para mais um show de Viviane Wintour.

—Parece que faz décadas desde que via vocês dois correndo pelo quintal. – enxugou uma lagrima. – Estava escrito nas estrelas minha filha, sempre falei com seu pai que vocês se apaixonariam. Nasceram um pro outro sempre esteve na cara o jeito que ele te olhava com os olhos brilhando e como gaguejava quando estavam juntos... Mal posso esperar pra quando eu for até ai no semestre que vem e—

—Semestre que vem? – franzi a sobrancelha sentindo meu coração se apertar. – Mas a minha apresentação no festival de inverno é daqui a duas semanas, você prometeu que viria!

    Pelo jeito que reagiu eu tinha certeza que esqueceu, provavelmente por causa de seu novo namorado, não me impressionava isso era normal há anos desde que me mudei de vez pra Omaha. Na verdade minha mãe só costumava ver minhas competições quando eram em paris, como ano passado quando fui ao Gran Prix de patinação artística, fora isso raramente se dava o trabalho de vim para os Estados Unidos. 

    Mesmo que tivesse acabado de viajar metade do continente com seu novo namorado que tinha quase minha idade, suspirei e assenti com a cabeça. Ela chorava por me ver crescendo, mas sequer fazia questão de estar perto pra ver.

—Ok, nos vemos semestre que vem. – desliguei a chamada antes que pudesse responder e fechei o notebook, colocando ao lado da cama e voltando pro meio dos cobertores. Por mais que fosse treinada a evitar que a decepção se tornasse uma tristeza profunda era quase impossível em situações como essa, por mais repetitiva que fosse como podia ter se esquecido do festival de inverno se em todas as vezes que conversamos a fiz prometer que viria? A resposta era simples, ela não se importa.

    Por mais que fosse uma apresentação boba e sequer valesse pontuação na escala nacional, me sentia triste por mais uma vez ter criado expectativas bobas e quebrado a cara, foi burrice achar que poderia contar com minha mãe mesmo depois de anos com ela me provando o contrario, não entenda mal, mamãe era ótima quando se tratou de me criar em um lugar ótimo, pinturas, viagens nas férias e roupas novas. Mas era só isso. 

    Estava cansada de suas tentativas frustradas e forçadas de ser minha amiga e da forma como fugia de ser minha mãe, no fundo sabia que Viviane nunca aceitou que envelheceu e tinha alguém a mais pra se importar. Suspirei frustrada e encarei as horas no meu telefone. 

    O jogo começaria as oito e ainda que fosse apenas seis horas haviam várias mensagens no grupo com as meninas falando sobre a festa pós-jogo, resmungando me levantando e fui até o banheiro, olhando—me no espelho de cima a baixo mais de uma vez suspirei e esfreguei os olhos, apoiei as mãos na pia e solei uma risada seca. Grande dia.

—Péssimo momento para ter pena de si mesma, Wintour. – Amália apareceu atrás de mim. –temos um jogo para ir

    Pulei de susto coloquei a mão sobre o peito com olhos arregalados, maldita chave reserva e maldita a vez que voltamos tão bêbadas de uma festa que perdi minhas chaves e precisamos procurar onde papai escondia a reserva. Amália usava uma camiseta branca e blusa de botão larga, os jeans largos e curtos combinavam com os tênis brancos e surrados enquanto arqueava uma sobrancelha. 

    Mesmo vestida assim, como quem não se importava Amália ainda parecia incrível e arrumada. De frente ao meu guarda roupa mexia em cada única peça parecendo procurar algo especifico, me mantive encostada na pia e suspirei desanimado, a ultima coisa que queria fazer hoje era ir a uma festa e ter contato com outras pessoas, mas Jack me fez prometer que assistiria seu jogo ou caso contrario teria má sorte e perderia depois me fez prometer que iria a festa e que se eu não fosse cancelaria tudo por estar com o coração partido. 

    Extremamente dramático. 

    Enquanto Amália mexia nas minhas roupas me arrastei e volta pra cama, me afundando nos lençóis e suspirando sentindo o quão quentinha minha cama estava, cogitei seriamente mandar uma mensagem a Gilinsky pedindo desculpas e avisando que estava doente. Mas ao mesmo tempo Jack fez tanta questão da minha presença que me sentia quase cruel em não ir, quase como a minha mãe.

Amália jogou um vestido preto curto e com mangas em cima de mim, suspirei e franzi a sobrancelha.

—Você ta ficando doida? – joguei o vestido de volta, Amália revirou os olhos e jogou o vestido em mim com mais força. – Eu passo frio com esse vestido até no inverno, imagine no outono!

— Oh vamos lá, Cora! – exclamou arrancando uma jaqueta e um sobretudo do meu guarda—roupa, depois jogou uma meia calça e por fim foi procurar tênis que combinassem. – Você realmente não tem nada que não seja um tênis?

    Neguei com a cabeça e me levantei trocando os pijamas pelo vestido e sentindo minhas pernas arrepiarem com o frio. Amália me encarou com um sorriso satisfeito e resmunguei enquanto colocava a meia calça e os tênis.

—Qual o motivo disso tudo? – arqueei uma sobrancelha desconfiada e Amália deu um sorriso inocente, dando de ombros e caminhando até a varanda com um cigarro em mão. – É só uma festa pequena, nem mesmo Kiara vai tão arrumada assim.

—Kiara está sempre extremamente arrumada. – deu de ombros acendendo o cigarro e colocando o isqueiro no bolso. – Você não tá muito arrumada, só ta bonita. Fala sério, você tem as pernas enorme, precisa mostra-las mais!

    Revirei os olhos e vesti a jaqueta, passando um pouco de perfume e o batom vermelho.

—Não acredito que você vai sair assim. – terminou de fumar e saiu da varanda às pressas, me obrigou a sentar na cama e puxou o estojo de maquiagem meio cheio que não fazia ideia de como usar nem metade daquilo. – Pelo amor de deus cora, não é possível que eu tenha que fazer tudo nessa relação!

    Amália começou a passar delineador em mim e um pouco de iluminador, soltou meu cabelo e puxou alguns brincos da caixinha da minha mesa de cabeceira, coloquei os brincos e Amália me obrigou a ficar parada em frente ao espelho. Sentia-me bonita, bonita demais, arrumada demais. Mas ainda assim bonita, sorri pro espelho e revirei os olhos.

—Ainda acho que to arrumada demais pra um jogo de Hockey.

    Amália revirou os olhos e riu, por todo o caminho até o estádio ficava encarando meu telefone a espera de uma mensagem de Jack. Passamos o dia sem nos falar direito e até agora não havia recebido sequer uma mensagem, nunca comecei uma conversa com Jack, todas às vezes foram mensagens ou ligações dele. Mas começava a achar que esse jogo fosse realmente importante e que por isso estivesse totalmente focado em sua equipe, o dilema entre tentar conversar ou deixar que tivesse seu momento me consumia e antes que me desse conta já estávamos entrando no estádio.

     De longe Ocean acenou pra nós e começamos a caminhar em sua direção, Kiara estava do seu lado com uma blusa de Hockey enorme do Omaha Mavericks. Mesmo sem olhar tinha certeza absoluta de que se Kiara virasse as costas estaria escrito Gilinsky, mas resolvi ignorar, Ocean me abraçou e beijou meu rosto e eu sorri.

—Você está linda, cora! – exclamou me afastando pelos ombros pra me analisar e sorri sem graça. – Juro, não imaginei que Amália pudesse fazer um trabalho tão bom.

    Amália revirou os olhos mal humorada e se posicionou ao lado de Kiara que por sua vez me encarou de cima a baixo e franziu a sobrancelha com um sorriso debochado. Amália e eu trocamos um olhar confuso e encarei Kiara com os braços cruzados.

—Não acha que tá um pouco... vulgar? – perguntou ainda me encarando com aquele olhar irritante e o sorrisinho debochado. – Sinceramente parece até que você ta fantasiada.

    Dei um sorrisinho maldoso e franzi as sobrancelhas com pena, me aproximei um passo de Kiara e com as pontas das unhas levantei sua blusa a encarando de cima a baixo assim como fez comigo e negando com a cabeça copiando sua expressão maldosa.  Como eu sabia que aconteceria, quando olhei na parte de trás estava escrito Gilinsky e o numero treze que provavelmente fosse o numero de sua blusa, encarei Kiara com o sorriso arrogante que vi Jack usar várias vezes e ri.

    Péssimo dia pra tentar ser uma escrota Kiara, parei ao lado de Amália que me encarava com as duas sobrancelhas arqueadas surpresa e levantou as mãos dando de ombros como se pedisse paz.

     Apesar de ter reagido bem, o comentário de Kiara conseguiu entrar na minha pele e suspirei triste, puxei mais meu casaco contra o corpo e me encarei pela câmera frontal cogitando seriamente ir até o banheiro tirar um pouco da maquiagem, como se lesse meus pensamentos Amália se virou pra mim séria e rosnou um "Nem pense" baixo o suficiente para que Kiara não ouvisse. 

    Alguns minutos depois Charlize chegou e se posicionou ao meu lado entre eu e Amália, me cumprimentando e olhado impressionada o vestido e os tênis que eu usava.

—Você está magnifica! – elogiou e me abraçou com força. – Amiga, faz tanto tempo que não vejo suas pernas tinha até me esquecido como são longas e brancas!

    Revirei os olhos sorrindo e a abracei de volta, quando nos afastamos Charlize me mostrou seus tênis novos e coloridos e ficamos um bom tempo analisando até os pequenos detalhes. Uma coisa eu podia admitir com boa vontade, Charlize tinha bom gosto e me entedia como ninguém, os air forces rosa claro com detalhes vermelhos vibrantes eram tão bonitos que não entendia como tinha coragem de sair de casa e colocar o pé no chão com eles. Com certeza não foram baratos.

    Faltavam alguns minutos pro jogo e sem conseguir mais controlar o impulso peguei meu telefone e abri a conversa com Jack, ainda nenhum sinal de vida, encarei em volta com medo de que alguém mesmo de longe pudesse ler as mensagens e perceber com quem eu conversava. Mesmo que ninguém ao redor estivesse muito interessado em mim ou em meus problemas. 

    Abri a conversa com Jack e digitei várias mensagens, clicando rapidamente no botão de enviar e suspirei quando percebi que Jack visualizou na mesma hora, digitando e parando várias vezes. Reprimindo um sorriso mordi o lábio e fiquei encarando a tela do telefone.

Eu: to na primeira fileira

Eu: espero que marque pelo menos um ponto se não vou achar que sou pé frio.

Eu: as pessoas ainda usam essa expressão?

Eu: não importa Boa sorte de uma surra nesses caras por mim!

    Ótimo Cora, sem resposta, provavelmente fiz papel de idiota com tantas mensagens. Sou o que? Uma senhora de sessenta anos que pergunta que tipo de expressão os jovens ainda usam? Deus fiquei parecendo meu pai!

     Antes que pudesse apagar as mensagens Amália cutucou meu ombro e apontou pro túnel de onde saiam os jogadores dos Mavericks, Jack foi o primeiro a pisar no rinque patinando rapidamente pra uma das linhas e olhando em volta, estava sem o capacete e com uma expressão séria, mas assim que me viu sorriu e acenou. 

    Senti meu rosto esquentar e mesmo do lado de Amália podia ouvir Kiara dando gritinhos animados comemorando por Jack ter sorrido pra ela.

—A camisa definitivamente valeu a pena!

     Sammy, Johnson, Nate e todos os outros jogadores entraram no rinque logo em seguida, o estádio estava tão lotado que não só as arquibancadas, mas os corredores também estavam lotados de pessoas ansiosas pelo jogo. 

     Aparentemente os Omaha Mavericks e o Minessota Wilds tinham um longo histórico de rivalidade e Charlize nos contou que às vezes até costumavam brigar em festas, aparentemente Jack e o capitão dos Wilds tinham problemas além do rinque, mas ninguém sabia ao certo o que era. Provavelmente inveja. 

     Jack se tornou capitão cedo e se ganhassem o campeonato esse  seria o terceiro ano seguido, poderia ter a vaga em qualquer faculdade que quisesse só com algumas ligações. O jogo começou e todas as pessoas ao redor gritavam extasiadas pelo jogo, até mesmo Amália que eu tinha certeza que não entendia absolutamente nada de Hockey gritava insultos para o time rival e elogios a os jogadores que conseguia se lembrar do nome.

—Não gosto de Hockey, mas preciso ser realista. – falou no meu ouvido em um momento e me esforcei pra conseguir entender algo em meio a todos os gritos. – sempre vou aceitar qualquer oportunidade de xingar alguém.

    Neguei com a cabeça e gritamos quando Johnson marcou um ponto, batíamos palmas animadas e gritávamos juntas, Ocean ria sempre que Amália gritava algum xingamento muito elaborado e torcíamos juntas. Sammy e Nate jogavam na defesa e juntos formavam uma dupla imbatível, mas ainda assim com todo o esforço. 

    Os gritos do treinador Creene e os gritos ensurdecedores de Charlize combinado com seus palavrões que fariam até um bebâdo corar envergonhado, os Wilds conseguiram empatar o jogo no fim do segundo tempo. Mesmo que os Mavericks fossem extremamente bons e com toda a torcida animada das pessoas ao nosso redor, ainda assim percebia como os jogadores estavam tensos.

     Precisavam desempatar o placar de qualquer jeito pra conseguir uma vaga na grade e eu começava a me perguntar como Oce entendia tanto assim de Hockey mesmo nunca tendo frequentado jogos antes. 

    Quando o segundo tempo começou, Sammy e Nate pareciam ainda mais implacáveis e derrubavam violentamente qualquer jogador que tentasse passar por eles, Gilinsky e Johnson se moviam com precisão e tão rápidos que pareciam um mero borrão em meio ao gelo, desviavam de cada jogador que se aproximasse e passavam o disco com precisão entre o rinque até que faltasse apenas quinze segundos e o estádio ficasse em completo silencio. 

    Era como se todos tivessem prendendo a respiração ao mesmo tempo, o clima de ansiedade se espalhava por todo o estádio e eu podia jurar que Amália, Charlie e o cara que estava do meu lado estavam prestes a enfartar.

     Com um único movimento Gilinsky marcou o ponto final faltando apenas sete segundos e o estádio inteiro foi à loucura, Charlize e Amália me abraçavam emocionadas e eu não entendia ao certo toda a comoção já que sequer éramos fãs de Hockey, mas como odiava ser uma estraga prazeres as abracei de volta e comemorei junto.

—Meu deus isso é impossível, os Mavericks com certeza estavam com sorte hoje! – o cara do meu lado falou pra ninguém em especial e assenti.

    No rinque podia ver que Jack havia tirado o capacete e sorria abraçando os amigos feliz com a vitória, acontece que mesmo não sendo uma grande admiradora do Hockey qualquer um podia perceber como eram bons e disciplinados, realmente tinham paixão pelo que faziam e com a vitória isso só havia ficado mais nítido.

     Todos se cumprimentavam e se abraçavam enquanto saiam do rinque em direção aos vestiários e antes de ir em direção à saída do rinque pude ver o olhar de Gilinsky passando por toda a arquibancada até parar em mim.

    "Obrigada" entendi quando seus lábios mexeram e deu um daqueles sorrisos brilhantes enormes que conseguem deixar qualquer um sem ar antes de se virar e sumir pelo túnel que dava nos vestiários.

—Meu deus! – Kiara segurava o braço de Amália tão pálida quanto papel e boquiaberta, gelo passou pelas minhas veias por medo de ter visto alguma coisa, mas Kiara arfou e deu um grito animado. – Jack falou comigo do rinque, ele disse "nos vemos mais tarde", será que se arrependeu?

—Oh meu deus Kiara, pelo amor de deus, NÃO!— exclamou Oce e negou com a cabeça revirando os olhos. – Olhe o tanto de pessoas em volta, Jack poderia ter falado qualquer coisa com qualquer pessoa, você precisa acordar amiga!

    Kiara revirou os olhos e começou a andar pelo corredor até a uma das saídas enquanto todas a seguíamos exibia a blusa de Gilinsky como se fosse um troféu e tinha um sorriso enorme no rosto. Ela não podia estar falando sério, não podia realmente estar alimentando ideias com um ato tão bobo, inacreditável.

—Por que vocês estão sendo tão maldosas comigo? – Kiara perguntou chateada enquanto caminhávamos pelo estacionamento até o carro de Charlie que decidiu ser a motorista da rodada e ficar completamente sóbria já que a festa era bem distante e o uber extremamente caro. – Já não chega Cora não aguentando a verdade e Amália se vestindo feito um homem, Você também Oce? Achei que me apoiasse!

—Como é? – perguntou Amália revoltada e Kiara deu de ombros, parecia completamente alheia a tudo.

Cruzei os braços e me apoiei no carro ao lado do de Charlize, franzi a sobrancelha e Oce passou um dos braços pelo de Amália discretamente tentando fazer com que permanecesse quieta.

—E qual seria a sua verdade, Kiara?

     Kiki me encarou com a boca fechada em uma linha, os olhos atentos me encarando e as sobrancelhas franzidas como uma mãe repreendendo uma criança.

—Você não pode mesmo ter achado que isso funcionaria certo? Qual é amiga, você podia ter falado comigo e eu arranjaria qualquer amigo de Jack. — esfregou meu braço e sorriu compreensiva, no fundo podia ver uma ponta de crueldade, no fundo sabia que ela estava gostando disso. – Mas esse vestido e a maquiagem pesada te deixam com cara de puta.

    Oce estava boquiaberta alternando olhar entre Kiara e eu, de canto de olho podia ver que Amália e Charlize não estavam muito diferentes, respirei fundo e tentei me convencer de que Kiara não queria dizer aquilo realmente. Mas pelo seu sorriso e o brilho nos olhos sabia que em algum lugar, por mais escondido que fosse ela gostava do que estava fazendo.

    Estava em meu limite, controlei o impulso de despejar todas as minhas frustações em cima de Kiara e cerrei as mãos em punhos, levantando o queixo e sorrindo convencida dei de ombros.

—Você só está com inveja. – toquei a ponta de seu nariz e franzi a sobrancelha ainda com o sorriso, como quem repreendia uma criança. – E puta é uma palavra péssima pra usar quando se refere a uma mulher, estamos em 2020 Kiara.

    Afastei-me até onde Amália estava fumando um cigarro com uma das mãos no bolso, apoiei—me no carro e afundei as mãos nos bolsos do casaco, cruzando as pernas e bufando.

—Tem alguma coisa de errado. – Amália tragou seu cigarro, levantei uma sobrancelha e minha amiga deu de ombros. Neguei com a cabeça;

—O que tem de errado?

—Não sei. – deu de ombros e mexeu o queixo em direção a Charlize, Ocean e Kiara que conversavam próximas ao carro de Charlie. – Kiara não age como uma vadia mimada o tempo todo, às vezes sim, mas com a gente?

    As portas do estádio se abriram novamente e dessa vez os jogadores do Omaha saíram, com gritos de comemoração e animados, todos com sorrisos enormes e vitoriosos. Jack não mentiu, eles eram realmente muito bons. 

    Alguns iam em direção ao ônibus da escola que esperava já ligado próximo a nós e outros até seus respectivos, mas Jack Gilinsky vinha exatamente em minha direção, os olhos brilhando e o sorriso gigante.

    Franzindo a sobrancelha atirei o cigarro longe e dei alguns passos a frente, assim que estávamos perto o suficiente Jack me abraçou forte, me girando no ar com um sorriso enorme como se estivéssemos em um filme.

—O que foi isso? – perguntei quando finalmente me soltou de seu aperto, o sorriso inabalável.

—Você realmente da sorte, Wintour.

    Revirei os olhos e cruzei os braços, falhando em reprimir o sorriso que aparecia no meu rosto. Jack me encarava analisando cada detalhe desde o meu rosto até minhas roupas.

—Vocês são talentosos. – dei de ombros e apontei pra Amália. – se não ganhassem hoje com certeza Amália iria ter um derrame, nunca vi ela tão nervosa!

    Jack riu e Amália deu de ombros se aproximando, cruzou os braços e ficou séria.

—Juro que se tivesse perdido aquele gol, eu mesma teria entrado no rinque e te dado uma surra. – falou séria e segurei a risada, Jack negou com a cabeça rindo e apontou em direção ai seu carro.

—Vocês querem carona até a festa?

    Amália abriu a boca pra responder com um sorrisinho quando neguei com a cabeça e sorri.

—Charlize veio de carro, vamos só seguir vocês até lá.

    Durante toda a ida Kiara me lançava olhares estranhos e eu franzi a sobrancelha, não era ela que queria que Jack e eu fossássemos amigos já que os dois estavam prestes a se casar? Estava no banco do carona colocando musicas aleatórias no radio, Oce e Amália cantavam aos gritos. 

    Charlie estacionou de frente ao bar de beira de estrada nas redondezas de Omaha. Perguntava-me o porquê de ser tão longe, mas Oce disse que era um dos poucos bares onde eles não pediam identidade e tinham cerveja barata e boa, entramos no bar e imediatamente senti o clima pesado, Johnson levantou os braços nos chamando e passamos nos esmagando em meio à multidão.

    Assim que nos aproximamos das mesas onde os garotos do time de Hockey estavam sentados sorrimos e cumprimentamos um por um, aos poucos sentando nas cadeiras que restaram até que por pura coincidência sobrou só um lugar ao lado de Jack e como se o universo já não tivesse brincado comigo o suficiente eu e Kiara éramos as únicas pessoas de pé. 

    Jack piscou pra mim e estava prestes a dizer algo quando Kiara sentou ao seu lado e sorriu pegando um dos cardápios e cruzando as pernas, rindo de algo que Nate havia dito do outro lado da mesa. 

    Virando as costas fui à procura de alguma cadeira vazia, o que era totalmente impossível considerando a multidão de pessoas que lotavam o bar, encontrei uma cadeira vazia em uma mesa próxima a porta e suspirei pensando em toda a caminhada do começo ao fundo do bar. Ótimo, ótimo mesmo. 

     Sentindo uma mão agarrando meu braço me virei com raiva, só me faltava mais essa.

—Ei. – disse sammy sorrindo sem graça. – eu achei uma cadeira, mas você não ouviu.

    Assentindo passo por ele sem olhar duas vezes em sua direção e volto para onde estávamos não havia me esquecido da história toda com Charlize e Chloé, ainda ouvia alguns boatos e vez ou outra encontrava tuites maldosos sobre uma das duas e nada sobre Sammy, era quase como se ninguém soubesse que ele estava envolvido. 

     Sentei na cadeira vazia ao lado de Johnson e de frente para Jack, Sammy se sentou ao meu lado e apoiou um dos braços preguiçosamente sobre o encosto da cadeira. 

    Virei-me olhando feio pra ele, mas estava ocupado demais lendo o cardápio e discutindo sobre drinks com Amália que justificava como vinho era bom e servia para qualquer ocasião, revirei os olhos e esbarrei em seu braço, Sammy interrompeu a conversa e me olhou como se eu fosse doida.

—Seu braço.

—O que tem ele?

—Pode tirar da cadeira?

—Não? Por que eu tiraria?

—Por que não quero sua namorada vindo bater em mim depois. – Debocho e noto como suas bochechas ficam vermelhas, sammy revira os olhos, mas mantem o braço e volta a conversar com Amália.

    Uma garçonete chega com duas bandejas cheias de drinks e agradeço quando me entrega uma bebida azul estranha que com certeza foi escolha de Charlize, dou um gole sentindo o gosto doce enjoativo e faço cara feia. Johnson me cutuca com o cotovelo dando um sorriso discreto e trocamos nossos copos quando ninguém está vendo, sinto o gosto amargo da cerveja e olho em volta. 

      Um dos garotos conversava com Nate do outro lado da mesa, os cabelos longos e escuros caiam sobre o rosto que por sua vez parecia esculpido, tinha tantas tatuagens que de longe era impossível distingui-las, usava a jaqueta preto e verde dos Wilds e parecia levemente familiar. 

    Do outro lado da mesa Jack, que conversava casualmente com Kiara franze a sobrancelha e seu olhar vai de mim para o garoto mais de uma vez, levanto uma das sobrancelhas e lanço um olhar confuso a Jack que nega com a cabeça e volta a conversar com Kiara.

—Sabe... — Johnson se levantou e pegou seu copo. – às vezes me assusta como vocês demoram pra perceber as coisas.

   Johnson riu e caminhou até Nate e o garoto dos Wilds. 

   Resmunguei sentindo o braço incomodo de Sammy sobre o encosto da cadeira. Não era bem isso que esperava para hoje, Charlie apareceu atrás de mim com seis shots e sentou no antigo lugar de Johnson, entregando dois pra mim e dois pra Oce enquanto pegava dois pra si e estendia um dos copinhos com um sorriso gigante.

—A nós.

    Depois disso tudo pareceu acontecer muito rápido, como um borrão, os jogadores dos Wilds entrando no bar e indo direto em nossa direção, toda a troca de insultos e provocações, a tensão que se formava cada vez mais.

     O momento em que o dono do bar expulsou todos nós pra fora e o encontro no estacionamento, o momento exato em que Amália tentou me arrastar pro carro de Charlize por que ouviu o dono ligando pra policia, e quando me recusei a sair do lugar, sem sequer saber o motivo. 

    A forma como meu olhar se manteve fixo o tempo todo em Jack, meu sangue corria gelado pelas minhas veias e eu sabia com certeza que nada de bom resultaria nisso, como atleta sabia como nossos corpos eram nossos bens mais preciosos e qualquer fratura mínima conseguia encerrar muitas carreiras. O brutamonte goleiro dos Wilds ficou cara a cara com Jack e se inclinou levemente, falando algo em seu ouvido e foi exatamente nesse momento que o caos explodiu. 

     Os socos e o som estranho que ouvia sempre que Jack acertava mais uma vez o garoto que revidava com tanta força quanto, mas nem mesmo assim conseguia para-lo, o jeito como os outros garotos do brigavam entre si com garrafas e socos. 

    Sentia-me uma idiota parada ali observando tudo e torcendo para que ninguém me acertasse, mas simplesmente não conseguia tirar os olhos de Jack e a forma como parecia sério, como se estivesse disposto a mata-lo ali mesmo, o maxilar tão travado que parecia prestes a quebrar a forma como mesmo de longe conseguia ver que tremia de ódio, aquilo estava muito além de ser raiva ou implicância.

    A bagunça entre vermelho e laranja, o garoto de mais cedo ajudava Jack e seus amigos e de longe podia ver as luzes azuis se aproximando com o som irritante da sirene, senti mãos me segurando e me arrastando pra longe, mas me desvencilhei e com passos rápidos fui até Jack que ainda estava trocando socos com o garoto e a essa altura seu rosto e suas mãos já estavam cobertos de sangue. 

    Sammy corria ao meu lado e puxou Jack pra longe do garoto, que permaneceu no chão, furioso Jack tentou avançar mais uma vez, mas me coloquei na sua frente sentindo o coração quase explodindo dentro do peito.

—Precisamos ir, Jack. – falei tentando manter a voz firme e falhando vergonhosamente, Jack também percebeu. – por favor.

    Olhando mais uma vez pro garoto que levantava com dificuldade e a ajuda dos amigos, cuspiu em sua direção, o olhar fulminante, o maxilar continuava travado e seus olhos queimavam com ódio. Assentiu pra mim e começou a andar em direção ao carro, mancava um pouco, mas se recusava a ser ajudado por Sammy que assim que nos deixou próximo ao carro de Jack correu em direção ao seu e saiu em disparada para deus sabe onde.

—Você vai precisar dirigir. –falou com a voz roca de forma que eu nunca tinha visto antes.

    Assenti sem pensar duas vezes e peguei a chave do carro as pressas, entrando na parte do motorista e ligando o motor, com um grunhido Jack se jogou no banco do motorista e comecei a dirigir rapidamente em sentido a minha casa.

     O caminho foi todo em silencio e tentava ignorar a forma como minha boca estava seca e meu coração se recusava a se acalmar, evitava a todo o momento de olhar para as mãos machucadas de Jack ou seu rosto, uma bagunça entre tons vermelhos e manchas de sangue seco e algumas mais recentes.

     Foram quarenta minutos em silencio absoluto exceto pela respiração pesada de Jack e as batidas ensurdecedoras de meu coração que eu tinha certeza que mamãe podia ouvir até de Montmarte. 

   Assim que paramos em frente a minha casa desliguei o motor e coloquei as mãos sobre o colo, sem saber o que fazer e tentando normalizar minha respiração, Jack apesar de machucado me encarava paciente e quase envergonhado.

—Não posso parar na casa dos meus pais assim. – mexeu nos cabelos e resmungou quando esbarrou em um machucado. – E eu definitivamente não consigo dirigir até a minha casa.

   Assenti e sai do carro, sendo seguida de perto por Jack. Em qualquer outro dia teria mandado Gilinsky pro inferno e batido a porta em sua cara, teria reclamado e jogado em sua cara que não era nenhuma enfermeira e que se queria entrar em brigas de bar feito um selvagem teria que aprender a se virar sozinha. 

    Mas eu fiquei pra trás, não foi? Fiquei até o ultimo segundo e fiz questão de trazê-lo comigo, não podia simplesmente fugir agora e trancar minha porta. Ou podia? Suspirando frustrada esfreguei os olhos entrei em casa e dei passagem para Jack, trancando a porta e subindo rapidamente em direção ao meu quarto, caminhei até o banheiro e peguei uma garrafa de álcool e alguns pacotes de gaze e algodões.

     Isso teria que servir. Voltando pro meu quarto dei de cara com Gilinsky analisando cada detalhe, desde as fotos na parede com as meninas, meus pais e algumas até com ele, até as prateleiras com tênis. Bati-me mentalmente olhando pra escrivaninha com pilhas e pilhas de livros que eu não tinha a menor vontade de arrumar.

    Parecia-me bom daquele jeito, mas meu pai e Miranda sempre me davam sermões sobre organização e responsabilidade com minhas coisas, imaginei que Jack fosse fazer a mesma coisa. Limpando a garganta gesticulei em direção e cadeira de frente pra escrivaninha e espalhei as coisas que carregava pelos espaços que não eram ocupados por livros.

    Comecei limpando suas mãos com o máximo de cuidado possível, os nós de seus dedos estavam inchados e quase sem pele, sangue escorria por toda a mão e precisava me controlar pra não desmaiar. Lidar com sangue definitivamente não era um ponto forte meu, depois de quase meia garrafa de álcool e muitos pacotes de gaze consegui enrolar suas mãos em curativos e limpar seu rosto. 

    Sem conseguir parar de imaginar como o outro garoto devia estar, Jack sequer parecia ele mesmo durante toda aquela situação, era assustador que tivesse a capacidade de machucar alguém daquela forma. Sem controle nenhum sobre si mesmo. Jack parecia querer dizer algo, mas olhou nos meus olhos e permaneceu em silencio. Parecia saber exatamente o que eu pensava e eu abominava isso, odiava o sentimento de que alguém conseguia ver como eu era por dentro e como realmente me sentia, me afastei alguns passos e apertei o casaco que ainda usava mesmo estando dentro de casa e com o aquecedor funcionando perfeitamente bem.

—Você pode dormir lá em baixo no sofá. – puxei um travesseiro e uma manta do meu guarda roupa, coloquei em suas mãos e o empurrei a passos apressados em direção à porta. –Tente não quebrar nada, boa noite.

Bati a porta e grunhi esfregando os olhos, como tudo podia ter ficado tão estranho em tão pouco tempo?
 

 



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