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História Coração amaldiçoado - Capítulo 2


Escrita por: , Blood_Blossom e Celleste


Notas do Autor


Todas nós três estamos surtando com a fic. Sabe a sensação de sincronia e o prazer de escrever? Todas estamos compartilhando esses sentimentos com essa fanfic, então sentem-se e aproveitem as bombas! Hahaha

Aprendam com a Sakura o novo mundo que criamos <3

Capítulo 2 - Acusação


Entre luz e trevas, amor e ódio, as batalhas mais difíceis não são travadas em campos de guerras, mas sim no coração, onde qualquer tolo perece diante do orgulho e a arrogância.

 

- Ligue a televisão, Sakura. Hoje irá passar a cerimônia de dezessete anos da princesa Hinata. Ela parece um anjo, não é? Uma verdadeira Primordial – A mulher adulta proferiu com um toque de ansiedade na voz rouca. As marcas profundas de expressão causadas pelo tempo contrastavam com a palidez em seu rosto cansado. A mais velha gesticulou em direção ao pequeno objeto pendurado na parede da sala minúscula como se fosse capaz de ligá-lo com o simples desejo mental.

Mesmo com um semblante cansado que denunciava a vida dura, ela sorriu para uma moça miúda que se aproximava da sala em passos rápidos. Os dentes amarelos contribuíam para a aparência desgastada de Mebuki. 

O corpo franzino repousava em uma poltrona tão velha como se podia imaginar. Ao lado de Mebuki, havia um antigo relógio que fazia um som estranho. Um objeto quebrado perto de um ser humano quebrado. 

- Não deveríamos gastar energia para acompanhar a cerimônia de um Primordial, principalmente uma princesa. A senhora sabe que mal estamos conseguindo manter nossa pequena casa – uma garota de cabelos pretos falou completamente exausta. Ela encarou o relógio que, às vezes, era tão irritante como a situação lastimável de Mebuki. 

Os olhos dela eram tão verdes quanto às folhas mais perfeitas do Reino dos Principados. Estes detinham uma beleza rara e genuína que, por sua vez, se escondia atrás de uma tristeza profunda oriunda das práticas duras a qual a garota fora condenada. Sakura exibia uma postura abatida, logo, era transparente seu esgotamento consequente do trabalho exaustivo.

- Só porque somos da zona três, isso não significa que devemos nos abster de tudo – a mulher mais velha retrucou. Sakura revirou os olhos. Era fácil falar sobre fazer exceções quando Mebuki não trabalhava e, assim, deixava o trabalho de prover a casa apenas para a garota de dezoito anos.

Se Sakura não estivesse cansada, provavelmente ela teria disposição para refutar o pedido da mãe. Juntando as últimas forças, ela tentou mais outra vez enfiar na cabeça da mais velha que economizar não deveria ser uma opção, mas sim uma escolha. 

- Mal conseguimos comer, mãe. Eu quase não tenho dinheiro para comprar os meus remédios... – Sakura relutou em pegar o controle. Ao notar os olhos severos da matriarca, ela decidiu fazer os desejos da mãe e, por fim, desistiu. Mebuki era tão teimosa como os cavalos selvagens de Sasori, um dos empregadores da jovem Haruno. - Estou voltando ao meu trabalho.

Mebuki, com os olhos vidrados na tela que mostrava o rosto de uma esbelta menina adornada de ouro e as mais belas joias, não reparou que a filha estava saindo para trabalhar, mais uma vez, após oito horas prestando serviços em uma casa mediana localizada no Império dos Caídos. 

Engolida pela depressão e um mal-estar psicológico infindável, Mebuki não era capaz de perceber que sua única filha estava sendo despedaçada, morrendo pouco a pouco por culpa da rotina exigente. A mais nova era obrigada a suportar dois trabalhos mal remunerados somados a doença que afligia o sangue.

Se não bastasse ser uma zero, Sakura também é uma enferma.

É uma vida difícil completamente difícil, mas a única que Sakura já conheceu. Após conseguir vislumbrar o mundo sem a inocência da infância, ela soube que nunca poderia ser como as garotas da televisão miúda e velha. A pequena zero nunca iria ter a opção de sentar-se perante uma mesa farta das mais deliciosas sobremesas ou brincar entre um jardim belo como um verdadeiro oásis.

 Pessoas como Sakura devem se submeter a uma rotina exaustiva para sobreviver. Este é o preço por não se ter sorte, a consequência por não se ter poder.

O preço que ninguém deveria pagar.  

Próxima à divisa dos domínios, Sakura observava todo o lugar a sua volta. Perto dos limites entre as duas grandes nações, é notório a qualquer observador curioso à dessemelhança entre os dois territórios em questão de paisagem. A vida exuberante começava no Reino dos Principados e terminava justamente no início do Império dos Caídos. Um parecia deter o calor ameno, havia abundância de cor e uma beleza extraordinária, enquanto o outro se dispunha de plantas em estado de dormência, como se esperassem eternamente pelo inverno. O lado dos Primordiais das trevas passava a impressão que recebia menos luz solar, deixando tudo cinza e a sensação de frio.

Para Sakura, os dois reinos são belos da sua maneira, embora ela não soubesse a verdadeira beleza deles. Como a zona três fica entre a divisa do Império dos Caídos e o Reino dos Principados, ela somente poderia ver pouco dos dois territórios, afinal, era nas capitais que estavam às verdadeiras riquezas e não nos pequenos povoados perto da divisa. 

De toda forma, ela não poderia ignorar o pensamento de como se a própria terra soubesse que aqueles lugares estão sobre a tutela de autoridades distintas e totalmente opostas.

Não havia necessidade de conhecer a área para atribuí-la aos seus respectivos governos. Em vários sentidos, a inegável diferença não poderia ser ignorada, seja na paisagem, no clima ou a cultura. Todavia, ambos encontram similaridade nas riquezas que possuem e a quase equivalência quanto aos poderes. 

Na concepção da jovem, os Primordiais não passam de sortudos. Eles são donos de dons e a supremacia através do sangue enquanto ela, pelo mesmo elemento que corre em suas veias, teve suas asas cortadas pela fome, desespero, exaustão e o preconceito.

Diferente da realidade atual, há muitos séculos os seres humanos não gozavam de qualquer habilidade sobrenatural. Eram normais como ela. As formas de governo, assim como as divisões de terras, eram diferentes das que são conhecidas hoje.

Tudo teve início em um país antigo, quase completamente esquecido no presente, nomeado como Rússia. Eles desfrutaram de um feito notável e abriram um novo capítulo da história. Foi justamente em meados do século vinte e três que os russos criaram uma nova máquina de viagem entre dimensões. 

O que a espécie humana não esperava era que além das divisas do espaço-tempo havia criaturas semelhantes aos anjos e demônios descritos pela bíblia. Rapidamente a religião e o sobrenatural chocaram contra a ciência.

A história dos antigos humanos detém uma complexidade curiosa e enormes lacunas, portanto, o passado é confuso e quase oculto. Tudo que ela sabia era que os humanos conseguiram um meio de escravizar alguns anjos e demônios antes dos portões entre as dimensões se fecharem. Posteriormente, a humanidade descobriu que ao ingerir o sangue das criaturas aladas e das bestas ferozes, poderes sobrenaturais eram adquiridos.

Logo, dois domínios emergiram do caos: O Reino dos Principados, formado pelas pessoas compatíveis com o sangue dos anjos, e o Império dos Caídos, constituído por indivíduos que adquiriram habilidades surreais através das criaturas conhecidas como demônios pelo livro mais famoso do mundo daquela época, a bíblia.

Os humanos que não eram compatíveis com a essência dos anjos ou demônios foram isolados e coagidos a uma vida pequena e miserável em comparação às pessoas que adquiriram poderes. Estes humanos foram chamados de zeros. Condenados, eles vivem em uma terra pouco fértil e próspera, em territórios esquecidos, como se fossem meros despejos desde que a sociedade dos Primordiais ascendeu.  

Afastando-se um pouco sobre os pensamentos relacionados ao passado, ela atravessou uma cerca que delimitava uma porção de terras. Não caminhava mais por um terreno baldio e pobre, agora seus pés pisavam por um solo mais saudável que dava indícios da grama curta e verde. As evidências de que adentrava aos domínios do Reino dos Principados começavam pela natureza mais viva.

Sakura ajeitou o vestido vermelho esfarrapado que usava; uma das únicas roupas que tinha, e suspirou demoradamente antes de ir até a casa média que fica em uma pequena vila povoada por poucos Primordiais ricos e influentes. 

Ela ignorou os cochichos das pessoas sobre seu estado. A corrente presa nos tornozelos denunciava a posição social dela. O objeto de opressão não limitava seus movimentos, mas mostrava a sociedade que, como uma zero, ela não passava de uma simples serva.

O ferro tingido de vermelho a entregava.

Até poderia estar fora da zona três, mas a zona três sempre estaria nela.

Como se não bastasse toda segregação, ainda havia uma clara distinção de castas entre os zeros. Assim, classificando o nível de miséria entre eles em três divisões. 

Na zona um, residem aqueles que possuem trabalhos remunerados, seja no Reino dos Principados ou no Império dos Caídos. Detém pouco patrimônio, porém, não convivem com a extrema fome ou são tão menosprezados como os companheiros das outras divisões. Geralmente, assumem os serviços que os Primordiais não querem. Em sua maioria, faxineiros ou agricultores.

Na zona dois somente são permitidas mulheres. Elas não possuem trabalho, todavia são sustentadas pelos Primordiais. Com o passar das eras, a infertilidade tornou-se comum entre a elite; um problema genético decorrente do costume de relacionamentos consanguíneos para manter a pureza do sangue. Logo, elas são tratadas como meras bonecas de reprodução para Primordiais mestiços que, notoriamente, crescem cada vez mais na sociedade. 

Por fim, a zona três é a região mais pérfida e pobre entre todas as terras. Um lugar cinzento e seco, conhecido como o inferno na terra ou o único lar que Sakura já conheceu. As pessoas da última casta são vistas como os enfermos de sangue: hospedeiros de doenças sanguíneas que não possuem cura. O preconceito e o medo dos Primordiais por algo que não tem salvação condenou os zeros da zona três a viverem em um lar pobre, fadados à extrema fome e trabalhos que se aproximam da escravidão. 

Há remédios que ajudam a controlar o avanço das doenças sanguíneas, todavia, eles estão além das condições precárias dos enfermos de sangue. Além do alcance de Sakura. 

Ignorando os comentários sobre o fato de ela ser uma zero entre os Primordiais, Sakura viu uma pequena aglomeração de pessoas. Arrependida por não ter escolhido o outro caminho que oferecia a possibilidade de não ter que atravessar a vila, ela viu num palco improvisado um homem de roupas brancas segurando uma bíblia.

Bíblias são livros bastante raros, poucas pessoas têm uma. Portanto, Sakura teve a certeza que o homem de cabelos loiros que falava exaltado possui um grande poder e riqueza. Os Primordiais ao redor dele estavam frenéticos e repetiam algumas frases sem nexo.

- "Eis que envio um anjo à frente de vocês para protegê-los por todo o caminho e fazê-los chegar ao lugar que preparei". Isto foi escrito em Êxodo. Há milhares de anos, Deus previu o que iria acontecer nos tempos atuais. O criador nos deu inteligência e a capacidade de nos comunicar com os servos dele! Protegidos pelos sangues dos anjos, nós somos os escolhidos! – O Primordial proferiu alto e ergueu a mão direita. As pessoas concordaram com gritos e expressões animadas. – Entre bilhões de humanos, nossos antepassados foram escolhidos pelas formosas criaturas da luz para extinguir a maldade do mundo. Somos o sal da Terra.

Sakura franziu uma sobrancelha. Ela não tem uma bíblia para saber a palavra do criador que as pessoas, popularmente, chamam de Deus. No entanto, a garota tinha quase certeza que havia distorção nas palavras daquele homem de semblante duro.

Retirar o sangue de anjos e bebê-lo não parece algo do feitio do ser superior amoroso que tanto pregam ou pelo menos ela pensava assim. Sakura preferia pensar que a maldade existia apenas nos homens, não em Deus. 

O olhar áspero do pregador a encontrou e um aviso de perigo apitou nela instantaneamente. O loiro a avaliou meticulosamente, encarando as correntes vermelhas por alguns segundos. 

As sobrancelhas dele se ergueram enquanto a pouca animação dela ruía como uma pequena chama que encontra um vento arrebatador. 

- No livro de Salmos, há um versículo que faz diretamente referência aos zeros. – O homem levantou a cabeça e encarou firmemente Sakura entre tantas pessoas frente a ele. Ela sentiu um arrepio de medo e horror diante do olhar frio e repugnante do Primordial. Ele sorriu e desviou o olhar. O intuito dela foi de correr.

Alguém gritou que os zeros não deveriam existir, já que eles poderiam contaminar qualquer alma pura com um simples toque.

– “O ímpio o verá, e se entristecerá; rangerá os dentes, e se consumirá; o desejo dos ímpios perecerá”. Essa palavra pode ser aplicada em vários contextos, principalmente nos tempos atuais. Quando os anjos andaram em nossas terras, os pecadores não puderam usufruir do sangue deles e, por ventura, foram privados das regalias e os poderes dos angelicais. Ali está uma descendente dos pecadores. Vejam! -- O Primordial apontou na direção de Sakura. -- Ela sofre pelos erros dos seus antepassados; range devido à fome por causa da maldade dos antigos ímpios. A corrente simboliza a impureza de sua alma. 

Todos a encararam, um por um. Sakura sentiu o corpo paralisando por causa do medo quando um garotinho pegou uma pedra e ameaçou jogar nela.

Ignorando os xingamentos suscitados pelo Primordial de olhos frios, ela correu em direção à residência que trabalhava antes que sofresse ataques físicos. As correntes presas em suas pernas não a impediram de fugir o mais rápido possível. Houve um breve momento que Sakura pensou não ser capaz de fugir dos olhos hostis e as palavras ameaçadoras.

Ela suspirou aliviada ao notar que estava protegida ao chegar aos domínios de seu chefe, embora seu coração ainda estivesse absurdamente acelerado. Ela encarou a placa de ouro em frente à casa de cor púrpura com o legado da realeza do Reino dos Principados gravado em letras maiúsculas.

Todas as casas dos Primordiais da luz carregam o lema da família real.

 "Com luz e formosidade, o Criador nos formou. Ao lado dos Puros e Abençoados, nós reinaremos e com o sangue dos Imaculados iremos extinguir as trevas e a desordem do novo mundo".

Sakura revirou os olhos.

Os Primordiais da luz falam tanto de uma superioridade superestimada e uma pureza quase absurda que esquecem a verdadeira origem do mais forte poder: o amor e o companheirismo.

Palavras vis e pura arrogância não constroem algo bom. Eles são tão pecadores quanto ela, cegos por suas próprias luzes.

Sakura respirou várias vezes em uma tentativa falha de contornar o cansaço. A pequena corrida conseguiu roubar a pouca energia que tinha. Comparado ao trabalho no Império dos Caídos, ser empregada de Sasori não é o melhor serviço do mundo.

O Primordial de cabelos ruivos parecia adorar fazer a vida dela um verdadeiro inferno. Ele a odeia por ser um zero e, infelizmente, consegue encontrar prazer em humilhá-la constantemente como se fosse um passatempo cruel e insano.

Ela limpou o sangue que descia pelo nariz e abriu a porta. Ela tentou escutar algum barulho, entretanto, tudo estava em pleno silêncio. Apesar de estranhar o fato, ficou aliviada ao notar que pela primeira vez Sasori não estava em casa. 

Ignorando a sensação estranha se alastrando em seu frágil corpo e o arrepio crescente que nascia na região cervical da coluna, Sakura avançou em direção a cozinha para preparar o jantar do ruivo de olhos perversos.

No caminho entre um cômodo e outro, ela parou subitamente ao se deparar com um corpo estirado no chão. Seus olhos quase saltaram das órbitas enquanto encarava a cena horrorosa que se formava conforme a poça de sangue rodeava Sasori e ficava cada vez maior. 

- Sasori.. – Ela o chamou, preocupada, correndo em sua direção. 

Sakura agachou diante do homem, tentando virá-lo com cuidado. O ruivo gemeu de dor diante do movimento, totalmente incapaz de ajudá-la a mover seu próprio corpo que parecia infinitamente mais pesado no momento. 

Com um grunhido dado pelo esforço exigido, Sakura o girou com dificuldade. Seus braços tremiam, fraquejando devido à fraqueza que a doença dela implicava em conjunto com a debilitação causada pela fome.  

Ele havia sido esfaqueado na barriga pelo que ela pôde observar e, por um momento, Sakura pensou em deixá-lo morrer por suas atrocidades. 

A opção de abandoná-lo e deixá-lo para perecer sozinho soou bastante convidativa.

Pelos breves segundos que sucederam, ela desejou não ter princípios. Sakura ansiou ser tão covarde quanto à gente dele, mas ela não é.   

Sakura suspirou e decidiu juntar todas as forças que tinha para puxá-lo em direção à saída. Como Sasori vive sozinho e ela é a sua única empregada, era óbvio o fato de que ele seria marcado pela morte no momento que ela decidisse sair da residência.

Ignorando os pensamentos embebidos por um forte desejo de vingança, Sakura pediu por socorro e rapidamente dois homens vieram ajudá-la. A garota soube no exato segundo que colocaram os olhos nas correntes vermelhas e no estado deplorável dela que seria questão de tempo até ser acusada erroneamente pela tentativa de assassinato de Sasori Akasuna.

Acompanhada de vários Primordiais curiosos, Sakura foi segurada pelos dois braços, um pouco atrás da multidão que escoltava Sasori até o único centro médico da vila em questão de quilômetros. 

– Você não vai se safar dessa, zero – Um dos Primordiais que a segurava prometeu. Ele cuspiu no rosto dela enquanto a puxava. Os pés dela fraquejaram e ela gemeu de dor, no entanto, eles não pararam de puxá-la.

Os dois Primordiais a levaram enquanto os joelhos dela se arrastavam no chão. Entre a iminente inconsciência e a dor da pele se rasgando, Sakura soube que seria sentenciada a guilhotina sem nenhuma chance de defesa.

Ela não era tola. Soube que estava condenada no momento que decidiu ajudar Sasori, independente de suas mãos não serem as culpadas pelo estado dele.

A verdade é que não iria realmente fazer diferença para si, por mais que lamentasse pela breve vida que teve. Ela já estava quase morta. Salvar um Primordial, mesmo um tão ruim quanto Sasori, foi sua última nobre ação.

Sakura apenas esperava e ansiava que isso fosse o suficiente para limpar o seu sangue impuro diante de qualquer ser superior. A imagem da mãe surgiu entre uma esquina, perto de uma casa vermelha, acenando com um sorriso doce no semblante gentil.

Ela estava delirando por causa do medo de morrer?

Ao chegar ao centro de ajuda, Sasori foi levado a uma ala afastada, socorrido às pressas.

Sakura estava maravilhada devido à tecnologia e de como tudo era sofisticado. Na zona três, havia apenas um curandeiro da terceira idade que acreditava mais em superstições do que na ciência. 

Até hoje ela não conseguia entender como um pedaço de canela colocado abaixo da língua poderia curar a febre.

Um puxão no braço esquerdo a trouxe para a realidade.

Suspirou, cansada. Os joelhos ardiam como fogo. Ela abaixou o olhar e viu que as pernas estavam sujas de sangue seco.

Antes que pudesse se perder em devaneios novamente, a dor nos braços a fincou na recepção. Os dois Primordiais que a seguravam a arrastaram mais uma vez e a jogaram-na em uma sala de tamanho médio, posteriormente trancaram a porta e soltaram diversas ofensas infundadas.

Sakura respirou várias vezes de forma sistemática para que não entrasse em pânico. Ela iria morrer, sentia isso em cada célula do seu corpo. O barulho das vozes dos dois Primordiais ficava cada vez mais distante, sem mencionar que a cabeça dela parecia girar rapidamente.

Ela estava indo em direção ao vazio ou a inconsciência.

Encarando a porta, ela se sentiu como um animal enjaulado que logo será encaminhado em direção à morte.

As lágrimas desceram sem parar.

Ela não queria morrer!

Sakura não queria deixar a mãe sozinha. Mebuki não iria durar muito tempo sem ela.

O coração acelerou tanto que ela julgou ser capaz do órgão sair do peito por vontade própria.

Ela escutou a porta sendo destrancada. As lágrimas eram um empecilho para que pudesse ver nitidamente o Primordial que entrou. Ele ligou a luz e fechou a porta, trancando-a.

- Então você é a zero que, supostamente, atacou um Primordial. – A voz masculina soou pelas paredes. Ele caminhou a passos mansos, mantendo-se atento a presença dela.

Sakura quase ficou aliviada por ouvi-lo dizer “supostamente” e não “certamente”. 

Embora tivesse a visão embaçada pelo choro, ela viu quando o homem esguio levou uma espécie de cilindro estreito até os lábios, colocando fogo com sua ponta. Em choque, ela nem mesmo ousava respirar. Arregalou os olhos pela audácia dele. Era um cigarro!

Fumar não é um ato permitido no Reino dos Principados, é considerado uma transgressão dos bons valores.

-- Eu não tentei matá-lo. – Sakura quebrou o silêncio.

O homem se sentou e cruzou as pernas enquanto a encarava. Ele estava todo vestido de branco, assim como um médico. Tragando lentamente o cigarro entre os dedos, o desconhecido fez uma pausa dramática para então soltar a fumaça negra pela boca.

Os olhos curiosos a avaliaram.

-- Eu acredito em você. Qual idiota salvaria uma pessoa que tentou matar sabendo que seria morto depois? Você pode ser uma zero, mas não me parece uma pessoa sem capacidades racionais. Sabe que irá morrer, não é?

As lágrimas voltaram a deslizar pelo rosto fino. Dessa vez, com ainda mais abundância. 

-- Eu sei – ela sussurrou quase conformada.

A voz dela não passava de um pedido de socorro silencioso. 

-- Se eu te oferecesse uma oportunidade de viver em troca da vida de outra pessoa, o que você diria? – O homem perguntou despretensioso enquanto soltava pelos lábios semiabertos a fumaça densa do cigarro. 

Sakura limpou as lágrimas. As palavras do homem não faziam sentido.

-- Eu não aceitaria. Não pretendo viver se for a detrimento da vida de outra pessoa. A vida não irá me tirar o que a morte nunca conseguirá – Sakura falou com tanta certeza que acabou assustando a si própria. 

De onde estava surgindo tanta coragem para falar de forma firme em frente ao Primordial sendo que a alma dela jazia em desespero?

O homem a encarou, curioso.

-- E o que tanto vale a sua vida?

Ela sorriu, tristemente.

-- A minha dignidade. 

O homem pareceu ficar surpreso pela resposta dela. Ele jogou o cigarro no chão e se levantou enquanto pisava nas cinzas, aproximando-se lentamente de Sakura enquanto ela se afastava dele.

As costas dela bateram contra uma superfície gelada.

-- "Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á" -- O médico sussurrou, parecia um versículo da bíblia. Sakura tentou correr, tentou fugir dos braços estreitos dele erguendo-se em sua direção, no entanto, parou de se debater ao sentir uma leve picada fugaz no pescoço. 

Os sentidos rapidamente se esvaíram contra sua vontade. Sakura se sentiu leve nos braços dele. O homem a segurava com gentileza, afastando o medo da morte que espreitava nas profundezas da alma.

Ela tentou manter os olhos fechados, entretanto, não conseguiu. Os olhos dele foram a última imagem nos pensamentos confusos dela antes que a escuridão a abraçasse contra sua vontade. 

Era a primeira vez que um Primordial a tocava tão de perto e talvez fosse a última.



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