História Coração puro - Capítulo 29


Escrita por:

Postado
Categorias A Maldição do Tigre, Mitologia Grega
Personagens Alagan Dhiren Rajaram (Tigre Branco "Ren"), Durga, Kelsey Hayes, Lokesh, Nilima, Personagens Originais, Sohan Kishan Rajaram (Tigre Negro)
Tags A Maldição Do Tigre, A Viagem Do Tigre, Alagan Dhiren Rajaram, Durga, Kelsey Hayes, Kishan, Lokesh, Nilima, O Destino Do Tigre, O Resgate Do Tigre, Ren, Sohan Kishan Rajaram, Tigre Branco, Tigre Negro
Visualizações 87
Palavras 4.152
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Ecchi, Ficção, Hentai, Mistério, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Spoilers, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


"Nem tudo vai dar certo no meu caminho e nem todo mundo ganha um final feliz. A vida é realista e, às vezes, as coisas ficam feias e só nos resta aprender a lidar com elas."
Um caso perdido - Colleen Hoover

Capítulo 29 - Portais...


Fanfic / Fanfiction Coração puro - Capítulo 29 - Portais...

>Kishan<

­– Senhora, Hécate – Kelsey sorriu, tomando a frente. A julgar pelas últimas conversas de Nicole com deuses, achamos que era melhor alguém menos explosivo falar com eles – Nós agradeceríamos muito sua ajuda. Confesso que estamos perdidos, não sabemos que direção tomar.

– Vocês vão precisar de toda a ajuda possível, filha da Índia. Vá em frente, faça sua pergunta.

– O que precisamos para derrotar Lokesh, dessa vez para sempre? – Kelsey indagou.

– Como se sentiu Nicole? – a deusa se voltou para a ruiva, então não importava, era com Nicole que os deuses falariam – Como se sentiu quando empunhou a espada?

– Eu... – Nicole franziu a testa – Foi como se eu já tivesse usada uma antes.

– Uma espada – a deusa se voltou para Kelsey – “A espada”, para ser mais exata.

– Que espada? – indaguei.

– A espada que o ancestral de Nicole usava. A espada que ajudou a leva-lo ao posto de herói.

– Dionísio disse que Nicole é descendente de um semideus. Um herói. – Ren comentou ganhando um sorriso de aprovação da deusa – Mas qual?

– Você é como ele, Nicole. Você é uma guerreira, assim como ele era. O manejo da espada está em seu sangue, assim como de todos os seus ancestrais. Mesmo que depois desse herói, nenhum de seus ancestrais tenha tocado em uma espada, que foi trocada por arco, machados e facas. Você é a primeira a empunhar uma espada em mais de três mil anos. Seu orgulho está em lutar, vocês preferem cair lutando. É estupido, mas nobre.

– Eu estou preparada para dar a minha vida para acabar com a dele. – Nicole afirmou com a cabeça erguida.

– Ninguém além de Lokesh vai morrer! – Kelsey contrariou, olhando para Nicole com a mesma expressão irritada que Ren e eu.

Hécate soltou um risinho.

– A muito tempo atrás, ouvi palavras semelhantes a essa saída da boca de um herói. Ele disse: “Não me importo em morrer para acabar com essa guerra.” E quer saber? Ele estava certo, a guerra acabou. E quando seu corpo tombou nos braços de Thanatos, ele sorriu. Não por que a morte o agradava, mas porque ele estava ciente de seu sacrifício, sua espada estava em sua mão e sua amada viva. – ela respirou fundo – Essa é uma história que talvez jamais se repita.

– Não vai nos dizer o nome dele, não é? – Nicole suspirou, a deusa sorriu – Então vai nos dizer onde está a espada?

– Na terra – disse somente.

– Ahhh, isso é bem preciso – Nicole resmungou – Já pensou se estivesse lá em Marte? – ela voltou seu olhar para Ren – Vocês não teriam uma nave espacial pôr acaso?

 – Debaixo da terra Nicole – a deusa tornou a respirar fundo. – Vocês encontraram o caminho. Em primeiro devem encontrar um pedaço do manto de Cronos.

– Onde está esse manto?

– Há uma passagem secreta nessa cidade, na torre mais alta. Levem suas armas, não sei exatamente o que podem enfrentar lá. Quando tiverem o manto, coloque o no chão e ele levará vocês o mais perto de onde precisaram ir, de onde estão os outros objetos.

– E quais são os outros objetos? – Ren indagou.

– Um frasco de vida, uma espada e os braceletes do poder. É disso que vão precisar.

– Tem algo mais que a senhora possa dizer que vai nos ajudar? – questione.

– Na verdade tem mais uma coisa – Hécate abaixou os olhos com uma expressão estranha no rosto pálido, ela ergueu a mão direita e nela um bola de fogo azul surgiu, ela jogou uma bola de fogo em cada uma das 3 ruas que formava a encruzilhada, o fogo tomou forma e se elevou, era como se estivéssemos diante de 3 grandes espelhos.

– O que... – Kelsey começou.

– Vocês são mortais, logo estão a mercê das Parcas, os humanos chamam isso de determinismo. Vocês vivem sob essa teoria. Mas você, apesar de ser uma mortal – a deusa apontou o dedo branco na direção de Nicole – você vai contra isso. Você, Nicole é uma pequena borboleta nesse mundo determinista.

– O que quer dizer com isso? – perguntei, mas a deusa apenas abriu um sorriso e olhou para Ren, como se esperasse dele a resposta.

– A teoria do caos... – Ren murmurou.

– O efeito borboleta – Nicole acrescentou.

– Sim – a deusa parecia satisfeita com a resposta dos dois – Um pequeno evento pode mudar o mundo.

– Mas isso é ciência – Kelsey comentou.

– E eu sou história? Ou teologia? Literatura talvez... – Hécate se aproximou de Kelsey – Tudo está interligado. Matemática, química, magia, física, línguas, geografia, alquimia, astronomia, mitologia... Tudo. Você consegue ver isso, minha jovem, só é um pouco difícil de acreditar. Homens e lendas são reais. Eles existiam. Eles vão existir.

– Aonde a teoria do caos entra? – Ren questionou.

– Bem... – ela se afastou alguns passos – Imaginem uma criança. O destino dela já foi escrito pelas Parcas, como milhões de outras crianças, mas essa criança é diferente. Uma atitude faz todo ao seu redor mudar, todo um destino já escrito mudar.

– De quem está falando? – indaguei, apreensivo.

– De uma menina – a deusa se virou para mim – Uma guerreira. Ela era única. Filha de Afrodite, mas foi criada por Ares, em contrapartida, Ares deu um de seus filhos para a deusa da beleza criar.

– A primeira de coração puro – Nicole murmurou, pensativa.

– Sim. A primeira de uma longa linhagem. Naquela época, ainda não sabiam que ela possuía um coração puro, apenas que ela era única. – a deusa parou de falar um momento olhando para o céu, como se lembrasse daquele tempo a muito passado.

– E o que aconteceu? – Ren a incentivou a continuar.

– Um gesto de misericórdia. Um ato amor. Um sacrifício. O que aconteceu pode ser chamado de muitas coisas. Ela era ligada ao filho de Ares. – a deusa ergueu a mão mostrando o pulso pálido – Lembra da marca que Afrodite lhe deu? Imagine passar a vida toda com uma ligação assim, crescendo, se tornando mais forte. Ela sentia cada dor dele, cada ferida, cada sentimento. Eles eram como um, era algo tão lindo de ver, tão puro, verdadeiro. Todavia, ele era um jovem tão precipitado. Ele perdeu alguém que amava, ela sentiu a dor dele como se fosse sua e viu os passo que ele tomaria, que o levariam a morte. Então aquela jovem fez algo surpreendente. Ela mudou o destino. Uma vida, por outra vida.

– Mas Afrodite disse que esse jovem era maldito? – Kelsey lembrou.

– “Amaldiçoado é aquele que fez um coração puro sangrar. Pois vagará sozinho, sem nada para amar. Meus lobos sua carne devorará, até o fim dos tempos chegar.” Foram as palavras de Artêmis. Ela é uma deusa bem rancorosa.

– Isso não parece bom – foi a vez de Kelsey murmurar.

– Não é – a deusa suspirou então olhou Nicole – E agora você. A pequena borboleta nesse mundo. Venho observando você a muito tempo, você é fascinante.

Nicole se encolheu com uma expressão desconfiada.

– Sendo a pequena borboleta no meio de todo esse determinismo.

– Ao que parece, isso não foi muito bom para a outra garota. – Nicole retrucou.

– Quebrar o ciclo gera consequências, umas boas, outras nem tanto...

No minuto seguinte ninguém disse nada, o silêncio estranhamente assustador.

– O efeito borboleta, é um belo nome não acham? – Hécate continuou, sem esperar por uma resposta – O tempo passa, mas os mortais sempre me surpreendem. Você é uma daquela criança fortes que crescem e se tornam tudo ou nada, não há meio termo para você. Você é uma anjo nesse mundo de deuses, monstros e homens.

– O que quer? – Nicole deu um passo para frente.

– Que você tome as decisões certas.

– Devo ouvir meu coração? – Nicole sorriu usando um tom irônico.

– Seu coração está partido, sua razão obscurecida, e sua alma despedaçada. Você está a um passo do vazio.

Nicole deu um passo para trás a cabeça baixa.

– Do que está falando? – questionei dando um passo para mais perto de Nicole.

– A 4 fios que conecta os humanos a vida. A razão, o coração, a alma e o espírito. Quando todos se rompem, não resta nada a não ser uma casca vazia. – a deusa encarava Nicole que ainda mantinha os olhos no chão.

– Do que está falando? – foi a vez de Kelsey questionar – Quem cortou os fios dela?

– Ela mesma – a deusa baixou a voz docemente – Aos 9 anos quando percebeu que o mundo era um lugar cruel, onde menininhas ingênuas não sobrevivem muito tempo, cortou o fio do coração. Aos 13, sua alma, quando notou que estava sozinha. E a razão quando abriu a jaula que você estava, contrariando todo o pensamento lógico. – ela sorriu para mim, mas não retribui, meus olhos se voltaram para a garota de rosto abaixado – Você é forte Nicole, e está na hora de ser mais forte ainda.

A ruiva ergueu o rosto e encarou a deusa.

– Não tenho nada a perder.

– Ainda não tem, mas terá. Seu destino caminha por três caminhos diferentes, suas escolha te levaram a um deles – a deusa girou o pulso e uma imagem apareceu no fogo da primeira estrada.

Ouvi Kelsey arfar e Ren a puxou para si.

Podia ver Nicole, coberta de sujeira e sangue, ela tremia dos pés à cabeça, e mais sangue escorria para o chão, cobrindo um corpo inerte, o corpo de Ren. Lokesh soltou Nicole e ela caiu sobre o corpo de meu irmão, a boca aberta, um buraco horrível no peito e os olhos sem vida.

Nas mãos Lokesh segurava um bola de sangue, o coração de Nicole. Ele o jogou no chão, aos pés de Kelsey, que gritava horrorizada com lágrimas escorrendo pela face. Me vi como tigre, atacando Lokesh como um animal louco, e achei ter ouvido o estalo quando ele quebrou meu pescoço. Ele se aproximou de Kelsey, que segura o madu de Ren, pronta para se defender. E a imagem se desfez quando o escudo se partiu e Kelsey foi erguida do chão, suas pernas não esperneavam mais.

Outra imagem ganhou forma, no centro. Novamente Nicole surgiu, mas dessa vez a imagem era diferente, tão clara quanto dia. Eu reconhecia aquele lugar, havia sido ali que Lokesh nos amaldiçoara. Nicole sorria de uma forma assustadora, enquanto se apoiava em uma conhecido tridente, ao seu lado o corpo de Lokesh jazia desmembrado e sobre ele estava um tigre, as garras expostas e rosnando. Mas não rosnava para o corpo, rosnava para uma mulher arcada diante de Nicole. A mulher ergueu a cabeça e seus olhos verdes brilhavam de fúria, ela pegou uma espada, avançando contra Nicole, mas a ruiva nem precisou se mexer já que o tigre a dominou saltando sobre ela. Nicole fez um gesto com a mão e o tigre se afastou, então se colocou sobre a mulher, e não era mais Nicole, a garota atrapalhada e sorridente que conheci no Brasil, ou a garota sarcástica e forte ao meu lado, aquela Nicole tinha 8 braços, um tigre e armas que somente uma deusa possui, mas o pior era que ao seus pés com lágrimas de raiva, Anamika a encarava, a espera. O tigre se sentou, lambendo as patas tranquilamente, e Nicole ergueu a gada. E a segunda imagem se desfez.

Lentamente outra imagem se formou, na última estrada.

O lugar era o mesmo, mas a cena era diferente, a nossa frente uma briga ocorria. Nicole brandia uma espada contra Lokesh que revidava cada golpe, ambos com destreza e cautela. Havia uma menina de cabelos negros e curtos, mas seu rosto estava escondido por um véu, e ela carregava um estranho embrulho nas costas, seus dedos puxavam minha blusa, mas eu não a seguia, meus olhos estavam fixos na luta, e eu parecia desesperado, assim como Ren e Kelsey, mas nenhum de nós se aproximou da luta para ajudar Nicole.

Nicole golpeou Lokesh, a espada atravessando a garganta, e o corpo dele caiu de joelhos aos pés dela, as mãos tentando conter o ferimento. Nicole o golpeou novamente e dessa vez a cabeça de Lokesh rolou pelo chão. A ruiva virou na nossa direção e sorriu, então ela caiu no chão, sangue escorria de sua barriga, lágrimas escorriam de seus olhos, mas ela sorria. A jovem desconhecida, me puxou pelo braço e nós 4, ela, Ren, Kelsey e eu, desaparecemos.

O vento forte bateu no meu rosto e vi o fogo das três ruas se apagarem, um silêncio perturbador tomava aquela cidade fantasma, enquanto tentávamos entender o que havíamos visto.

– O que foi isso? – Kelsey respirava ofegante, com lágrimas rolando do rosto apavorado. Ela não era a única que chorava, toquei meu rosto e o senti úmido, assim como os olhos de Ren brilhavam.

– Hécate o que significa... – Nicole se interrompeu, com quem percebe algo.  O que, era algo que eu gostaria de saber. A deusa abriu um sorriso triste e desapareceu em névoa roxa.

E fiquemos nós 4 ali, parados, sem saber o que falar ou fazer, olhando para a encruzilhada como se alguma coisa a mais fosse surgir ali.

– Bem... estamos fodidos – Nicole finalmente quebrou o silêncio.

– É... – tive que concordar.

– Não fale assim Nicole – Ren suspirou – Vamos pra casa. Lá conversamos melhor sobre isso.

– O que tem pra conversar? Aparentemente a estrada que tomarmos vai dar na merda – Nicole resmungou, enquanto seguíamos para o carro.

– Vamos dar um jeito.

Encarei Ren, então olhei as duas garotas. Ambas encolhidas e com o olhar baixo, elas estavam com medo.

– Vamos encontrar uma solução – reforcei.

Nicole ergueu o olhar para mim.

– Vamos tentar o poder do amor? – ela soou incrivelmente sarcástica.

– Você tem alguma sugestão? – indaguei.

– Vamos discutir isso amanhã – Ren decretou – Aparentemente se falarmos disso hoje, vamos acabar brigando – ele se voltou para Nicole.

– Tudo bem – ela abaixou a cabeça pra ele – Sinto muito.

Que? Por que comigo ela era sempre bruta, mas o meu irmão ela ouvia? Respirei fundo e acelerei o passo até o carro, me sentei no banco traseiro com Nicole.

Meus olhos focaram no rosto pálido da ruiva, e ela parecia incrivelmente calma para alguém que acabara de ver sua morte. No banco da frente Ren segurou a mão de Kelsey por sobre o câmbio.

Nicole puxou o capuz e encolheu o corpo, tirou uma caneta do bolso e começou a rabiscar a pele do braço e assim foi durante todo o trajeto.

Quando chegamos no apartamento, Kelsey e Ren foram para seu quarto e fiquei sozinho na cozinha com Nicole. Ela pegou uma garrafa de vodca e encheu dois copos, então me lançou um olhar sugestivo.

– Não vai me impedir de beber, não é? – ela resmungou dando um gole farto – O que é uma cirrose perto do que está por vir?

– Não precisa fazer isso por nós Nicole – murmurei me encostando na bancada, ela virou o primeiro copo e depois de me olhar pegou o segundo.

– Acha que estou com medo?

– Seria estúpida se não estivesse – respondi.

– Sim, sempre fui estúpida. – ela reencheu o copo – Uma menininha estúpida. Não estou com medo de morrer, até porque, essa é a única certeza na vida, não é? Hoje ou amanhã, tanto faz.

– Não pode dizer isso – a encarei espantado com tamanha estupidez que ela estava dizendo.

– Porque não? Essa é a verdade. Nós vamos morrer. Todos nós. – ela virou o copo – Quando era pequena, ficava encarando meus pulsos pensando no que aconteceria se os deixasse sangrar – Nicole abriu um sorriso antes de beber mais um gole – então eu desenhava neles, cobrir minha pele com rabiscos fazia a vontade diminuir. Isso soa estranho?

– Seu quarto... – comecei, mas parei, meus olhos se voltando para o braço que antes ela riscava.

– Sim, cobri meu quarto de desenhos por que não gostava de suas paredes, elas me davam... claustrofobia? Não, só faziam eu me sentir normal, e nunca gostei de ser normal. A palavra “original” sempre me pareceu mais... sadia.

Ela notou meu olhar e arremangou a manga, exibindo o desenho bizarro.

– É um peixe-dragão das profundezas – contou – Quer saber mais?

Apenas concordei com a cabeça e ela se aproximou de mim, pegou sua caneta e segurou meu braço.

­– Posso?

Novamente apenas concordei com a cabeça. Senti ela percorrer a caneta, e sem que eu quisesse minha pela se arrepiou, mas Nicole, ignorou isso, totalmente concentrada no que estava fazendo. Quando terminou, eu tinha todo o braço riscado com caneta preta, como se fosse uma estranha tatuagem dividida em 5 partes, que ia do bem feito ao “Que raios é isso?”.

– Nós estamos aqui – ela apontou para meu pulso onde havia desenhado um pequeno barquinho com o duas pessoinhas no estilo palitinho – Aqui estão todas as belezas do mundo marinho – ela apontou para os dois quadros seguintes, que retratavam corais, peixes pequenos e grandes, polvos e outros animais aquáticos – Dos lindos peixinhos-palhaços, as grandes baleias azuis. Os magníficos e temíveis tubarões brancos – ela apontou para um desenho especificamente bem feito de um tubarão que usava uma coroa – Mas aqui – ela apontou para o penúltimo desenho – É onde a mágica acontece, onde a pressão é tão baixa que nenhum poderoso rei dos mares poderia viver. Onde tudo são trevas, tudo é feio, frio e vazio, feito pra não ter vida. Mas ainda assim, existe vida, e quer saber a parte mais legal? Ela brilha. Muitos desses animais fazem sua própria luz. Grande parte são predadores, então eles tem que se diferenciar se quiserem se manter vivos. O peixe-dragão das profundezas, não é diferente dos outros – ela me encarou, sorrindo e exibiu se braço – Eles são únicos, parecem enguias com dentes muito grandes, para se guiar na escuridão, ele faz a própria luz, e ele ainda tem uma espécie de barbatana aqui – apontou – que usa como isca. Mas sabe o que todos essas criaturas tem em comum? – apenas neguei com a cabeça – Por mais resistentes que sejam, por mais que sobrevivam a grandes profundidades frias, vazias e escuras, que façam bioluminescência, que tenham ossos fortes, que sejam verdadeiros fosseis vivos, eles não sobrevivem aqui – ela apontou para o segundo e terceiro quadro – Eles morrem. Não são feitos para a beleza e luz. Não há espaço para eles aqui.

Ela se afastou e bebeu mais um copo de vodca. Olhei novamente o desenho. Para o último quadro em especial, que estava praticamente vazio.

– E que criaturas vivem aqui? – indaguei.

– Não sei – ela deu de ombros – O reino de Ariel eu acho.

Mesmo sem entender a referência, abri um pequeno sorriso. Ela era muito talentosa.

– Gosto de coisas estranhas – ela comentou disfarçando o sorriso com o copo.

– Sim. Você é “original”, não é?

Ela riu alto dessa vez, mas então seu sorriso se desfez.

– Não me importo em morrer, mas não quero virar o Doutor Octopus.

– Você não vai morrer Nicole. – respirei fundo – E não sei quem é esse Doutor Octopus.

– É um vilão do Homem-Aranha, ele tinha 8 braços. – ela explicou, fazendo tudo fazer sentido.

– Nicole... – comecei, mas ela deu de ombro, guardou a garrafa e saiu da cozinha.

Observei ela se afastar, sem saber ao certo o que dizer. Fui para meu quarto e me despi para tomar banho, mais uma vez olhei o desenho. Contornei as linhas com os dedos. Suspirei.

Nicole...

Estava deitado a quase duas hora quando ouvi a porta do meu quarto abrir.

– Nicole? – murmurei meio sonolento.

Ela me lançou um olhar irritado, arrastando uma coberta, me empurrou para o lado e deitou na minha cama, com a coberta entre nós.

Olhei a garota deitada ao meu lado, o cabelo bagunçado, um calção e camiseta masculino – que por sinal, eram meus – que expunha sua pele rabiscada. Mesmo no escuro, com o pouco de luz que entrava pela janela, me entreti vendo os desenhos que percorriam seus braços, e coxas, sem haver nenhum padrão. Me transformei em tigre e ela quase que automaticamente se aconchegou junto comigo.

Boa noite, Nicole...

>Nicole<

Com a garrafa de vinho em uma mão e minha faca na outra me sentei na janela da torre. Podia sentir a presença dele. Ele me seguira desde de que sai do apartamento, distante o suficiente para que eu não o visse, mas eu sabia que ele estava ali.

Olhei a sala em que estava, as paredes cobertas com afresco, relatando antigos mitos gregos. Dei mais um gole de vinho, a bebida subindo a cabeça. Odeio vinho, é a minha criptônima.

Kishan finalmente estrou na sala, a passos lentos e cuidadosos. Senti os olhos dourados sob mim, mas não me virei, continuei olhando o céu que exibia um belo fim de tarde.

– Sabe, se queria dar uma volta, não precisava roubar meu carro – ele se encostou na parede ao meu lado, o corpo tenso, próximo o suficiente para me segurar – Nem devia beber tão próximo de uma janela.

– Você também acha? – indaguei.

– O que?

– Que não estou preparada – voltei meu olhar para ele, me referindo a conversa que tivemos mais cedo, onde Kelsey deixara bem claro que devíamos esperar, já que nós não estávamos preparados, mas notei que o seu “nós” se referia exclusivamente a mim. Então o que eu fiz? Peguei o carro, encontrei a formidável Hermione, tomemos um sorvete, ela me contou onde ficava a torre mais alta daquela cidade, então foi uma questão de 3 cadeados arrombados.

– Nicole...

Me levantei e fui até a parede.

– Essa parede, conta a história da guerra de Tróia – observei as cenas desenhadas – Heitor, o príncipe troiano – apontei para o guerreiro, então apontei para o outro, seu desafiante – Aquiles, o herói grego. Acho fascinante, junto com a guerra de Peloponeso, meus conflitos preferidos.

– Qual era seu preferido? – ele questionou, se juntando a mim.

Apontei para um homem, ele estava parado diante do grande cavalo de madeira. Aquele sempre fora meu preferido.

– Ulisses, rei de Ítaca. É de todos, o meu preferido. Estrategista. Sua força, vinha da mente. Gostaria de ser descendente dele – confessei.

– Talvez você seja – ele tocou a parede, olhando mais de perto.

Caminhei pelo quarto, vendo Hércules derrotando a hidra, os gêmeos Castor e Pollux, as guerreiras Amazonas... havia tantas opções, tantos mitos que ainda nem haviam sido descobertos. Todos tem uma linhagem longa, todos vem de algum lugar, e talvez, meu antepassado estivesse naquelas paredes, eternizado. Talvez um dia, também houvesse um desenho meu, e daqui a 2 mil anos alguém diria, “Aquela grande garota é minha ancestral”.

– Kelsey e Ren não vão subir? – perguntei – Ora, não me olhe assim, é obvio que você diria a eles onde estou, onde você estaria.

– Eu mandei uma mensagem pra eles – o tigre negro confesso, meio a contragosto.

– E você trouxe sua mochila – observei a mochila ao lado da minha – Mesmo com todo aquele papo você venho preparado...

– Quem sabe o que poderia acontecer aqui em cima.

Não contive um sorriso maroto, porém não cometei nada.

– Mande eles subirem – pedi voltando para a janela, pegando a garrafa de vinho dei mais um gole.

Alguns minutos depois o casal entrou na sala. Kelsey não parecia muito feliz, bem, nenhum deles parecia. Mas ambos traziam mochilas.

– Como espera que possamos confiar em você, se vai sair correndo sempre que quiser? – Ren começou, com um tom cansado, mas não agressivo.

– Como esperam que eu confiem em vocês, se não acreditam em mim? – retruquei.

– Nicole... – o tigre branco suspirou.

– Tudo bem – Kelsey tomou a frente – estamos aqui encima, mas onde estaria a passagem?

Olhei ao redor, olhando os afrescos, procurando algo que parecesse uma porta.

– Sabe, conheço todos os mitos contados aqui... – comentei – Mas esse – apontei para um desenho pequeno de um homem barbudo em navio, com uma moeda em uma mão e uma guirlanda na outra – não lembro desse. Parece um Papai Noel do mal.

Pensei. Forçando meu cérebro a funcionar. Bebi mais um gole de vinho, mas a garrafa sumiu da minha mão quando ia dar um segundo gole.

– Ei!

– Se concentra! – Kelsey bufou – Como vai ajudar se tiver bêbada?

– Eu não fico bêbada.

– É mesmo? Nossa, que habilidade incrível.

– Ah, qual é?  Não enche... Quem você pensa que é?

– Vocês duas podem calar a boca e se concentrar em encontrar o portal! – Kishan falou, algumas oitavas mais alto.

Ouvi um estalo na minha mente, como se alguém abrisse uma janela em um quarto escuro.

– É o que estou tentando fazer, mas ela... – Kelsey começou mas enfiei a mão na sua boca.

– O que você disse? – dei dois passos chegando bem próximo de Kishan.

– Ei! – foi a vez de Kelsey tirando a minha da cara.

– Pra vocês duas se concentrar – Kishan deu um passo para trás.

– Não... as palavras exatas.

– Se concentrar em achar a passagem – Ren interviu agora eu tinha a atenção de todos.

– Não. – olhei novamente para Kishan e depois para a parede – Você disse “portal”. Moeda, guirlanda, barco, Papai Noel barbudo... – murmurei tocando a parede – Jano... o deus dos portais...

Meus dedos tocaram polegares empurram os dois círculos que eram a guirlanda e a moeda e uma porta se abriu com um barulho quando pedra se deslocou.

Um corredor escuro se estendia na nossa frente, ameaçador.

No fim, não é tudo sobre escolher um caminho. No fim, tudo se trata em acha-lo, não é?

– Bem... – olhei para as 3 pessoas ao meu lado – Primeiro os ThunderCats.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...