História Coração puro - Capítulo 34


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Categorias A Maldição do Tigre, Mitologia Grega
Personagens Alagan Dhiren Rajaram (Tigre Branco "Ren"), Durga, Kelsey Hayes, Lokesh, Nilima, Personagens Originais, Sohan Kishan Rajaram (Tigre Negro)
Tags A Maldição Do Tigre, A Viagem Do Tigre, Alagan Dhiren Rajaram, Durga, Kelsey Hayes, Kishan, Lokesh, Nilima, O Destino Do Tigre, O Resgate Do Tigre, Ren, Sohan Kishan Rajaram, Tigre Branco, Tigre Negro
Visualizações 29
Palavras 3.784
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Ecchi, Ficção, Hentai, Mistério, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Spoilers, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


"Loving and fighting
Accusing, denying
I can’t imagine a world with you gone
The joy and the chaos
The demons we’re made of
I’d be so lost if you left me alone
You locked your self in the bathroom
Lying on the floor when I break through
I pull you in to feel you heartbeat
Can you hear me screaming please don’t leave me?
Hold on, I still want you
Come back, I still need you
Let me take your hand I’ll make it right
I swear to love you all my life
Hold on, I still need you"

"Amando e lutando
Acusando, negando
Não consigo imaginar um mundo em que você se foi
A alegria e o caos
Os demônios de que somos feitos
Eu estaria tão perdido se você me deixasse sozinho
Você se trancou no banheiro
Caída no chão quando eu entrei
Eu te puxo para sentir seus batimentos cardíacos
Você pode me ouvir gritando: por favor, não me deixe?
Espere, eu ainda te quero
Volte eu ainda preciso de você
Me deixe pegar a sua mão, eu vou consertar tudo
Juro te amar por toda minha vida
Espere, eu ainda preciso de você"
Hold On - Chord Overstreet

Capítulo 34 - Linda criatura


>Kishan<

Nicole colocou os papeis sobre a mesa e analisamos os traços dos desenhos. A visita a menina atacada tinha sido interessante, eu diria inspiradora se não estivéssemos falando de um ataque de monstro. Os desenhos se mostravam ainda melhores, perturbadoramente vividos.

– Aqui está a face do bichinho – Nicole fez um último traço no rosto do animal.

– Parece uma leoa – Ren comentou – Mas não fazia o som de uma.

– Parece um animal pré-histórico – foi a minha vez de falar, minha mente ainda lembrava do monstro voador que havíamos encontrado antes.

– Um lobisomem – Kelsey puxou uma folha – Se a lenda for real, estamos atrás de um homem.

– Não é um homem – objetei.

– Como tem tanta certeza? – Kelsey indagou.

– Não parecia um homem.

– Homens são monstros horríveis, capazes de tudo – Nicole finalmente falou – mas tenho que concordar, nenhum homem aceitaria a armadura. Ela parece crueldade.

O animal era preso pelo que parecia uma armadura de aço e ferro da cabeça aos pés.

– O rabo – Nicole prosseguiu – É o único lugar que ajudaria a identificar sua espécie, ao que parece ninguém notou o formato do rabo da coisa.

– Deve ser pelos dentes. Ninguém olha para o rabo quando tem dentes e garras tentando te inviscerar.

Nicole ignorou meu comentário e colocou um mapa por sobre os desenhos.

– Estão vendo o mesmo que eu?

– Há um padrão – Ren apontou para o mapa – Uma área de caça.

– E o que está bem no centro?

– Acha que monstro está aqui? – indaguei olhando o desenho da mansão no centro do mapa.

– Seria o último lugar a procurar.

– O que fazemos agora?

– Eu tô afim de ir no bosque oeste, 15 pessoas foram mortas lá.

– É, parece divertido – Kelsey fez um careta.

– Vai nos acompanhar Antoine?

– Talvez eu devesse procurar seu ferreiro – Antoine se aproximou – Kanda pode ir com vocês.

– Nós também ficaremos – Ren lançou um olhar desconfiado para Antoine.

– Beleza – Nicole espalmou o vestido – Quero tirar isso, e tô cagando pro seus costumes de boas esposas.

– Entendo. Que tipo de vestes gostaria de vestir senhorita?

Nicole abriu um sorriso.

Meia hora mais tarde nos encontrávamos nos estábulos preparando os cavalos. Nicole parecia muito mais satisfeita usando calças.

– Cavalheiros, senhorita – o jovem conde Francis nos saldou.

– Olá – Nicole abriu um sorriso, não para o conde, mas para ao lado dele.

– Essa é minha esposa – Francis anunciou – A condensa Helena.

A condessa era jovem, talvez 16 anos, pele pálida e lábios rosados, os cabelos de um loiro acinzentado e olhos azuis cansados. Embora fosse linda, parecia absurdamente sem vida.

– Nicole – colocou a mão no peito se aproximando.

– Eles são estrangeiro, querida. Vieram tentar matar esse monstro horrível.

– Embora eu não tenha conhecido, apostaria tudo que a senhora és mais bela que a Helena de Troia.

Que coisa é essa de “és”. Por que ela sempre usava cantadas históricas? Tentei não fuzilar Nicole com os olhos por estar fretando com uma mulher casada na frente do marido dela.

– Nicole significa “a que conduz a vitória”, espero que a senhorita livre nosso povo dessa fera – a garota murmurou olhando a Nicole com a cabeça abaixa.

– Minha senhora está cansada de nossa caminhada, ficaremos felizes se nos acompanharem no jantar e nos contar suas descobertas.

– Será um prazer – segurei a mão de Nicole e a puxei de volta aos cavalos.

Nicole forçou o corpo sobre o cavalo montando sem ajuda, então acenou para Helena e o Francis que se dirigiam a grande casa, a jovem acenou de volta.

– Nicole! – respirei fundo, controlando a vontade de repreendê-la – Por que faz isso?

– Porque é divertido, thundercat – ela incitou o cavalo para frente o emparelhando com o de Kanda.

– Céus!

Observei a grande casa, as pessoas, os animais, o estilo de vida. Por um momento, fechei os olhos, e só por um momento, era como estar em casa. Montando meu cavalo de guerra, passando pelos vendedores, o peso da espada embainhada, o ar sem poluição.

Abri os olhos e observei Nicole cavalgando a minha frente, então ela começou a cantar:

– “A king he was on carven throne
In many-pillared halls of stone
With golden roof and silver floor
And runes of power upon the door
The light of sun and star and moon
In shining lamps of crystal hewn
Undimmed by cloud or shade of night
There shone for ever fair and brigh”

Não contive o sorriso. Maldita garota. Respirei fundo novamente e apenas cavalguei ao seu lado, ouvindo ela cantar. Eu poderia ficar assim o dia todo.

– Kishan? – ela chamou quando terminou a música.

– Humm?

– No que está pensando?

– Era uma linda música.

– É Song of Durin de Eurielle. – respondeu somente.

– Porque parou?

– Não quero fazer isso – confessou.

– Ele está matando pessoas.

– Mas... – ela fez uma careta, não conseguindo achar um argumento.

– Deixaremos para pensar nisso mais tarde, por ora, só vamos continuar nosso caminho.

Nicole voltou a cantar, mas dessa vez a música parecia ainda mais triste.

Cavalgamos quase a manhã inteira, para finalmente chegar ao bosque. As poucas casas eram muito simples e as pessoas tinha uma aparência espectral, como se já fossem fantasmas naquela terra amaldiçoada.

– Eu perdi a fome – Nicole confessou, engolindo em seco, mas virou a garrafa de vinho que tinha surrupiado da adega do conde.

Kanda a encarou, depois me olhou com curiosidade.

– Ela bebe, e sabe das coisas. – dei de ombros.

– Então pelo bosque vai a menina de vermelho. Corre, corre, o lobo mau, com fome, com ódio. Estraçalhar e devorar. Lá vem o lobo mau. Lobo mau au-au – ela sorriu de forma sinistra.

Tomei a garrafa da mão dela e a fulminei com os olhos.

– Você não sabe ler o momento não é?

– Meu gole! – ela reclamou.

Os cães de Kanda nos rodearam, como um círculo de proteção enquanto entravamos na floresta. Passado um tempo em que caminhávamos e observávamos sem nada encontrar, Nicole se afastou.

– Ei! – chamei ela – Fica por perto.

– Quero dar um mijão – ela contou.

– Vou junto.

– Pervertido – ela murmurou baixinho.

Um instante depois ouvi Nicole murmurar baixinho novamente.

– Vem ver isso.

Fiz uma careta.

– Não quero ver sua urina.

– Hein? Não isso. Se bem que fiz um belo riozinho.

Soltei um suspiro e fui até ela.

– Uau. – a minha frente uma estranha construção se erguia em pedras de mármore que um dia já foram brancas – O que é isso?

– Um templo eu acho – Nicole correu os dedos pelas colunas.

Kanda parou ao meu lado, sua expressão carregada de tristeza.

– Você sente? – indagou.

– O que?

– Teve muita morte aqui – Nicole colocou as mão sobre uma pedra.

– Estão sentindo esse cheiro? – fiz uma careta, quando o cheiro podre de carniça me atingiu.

– Entendo – Nicole resmungou, atrás de uma das pedras, fazendo uma careta de repúdio.

– O que?

Um dos cães passou por mim e parou diante de Kanda, meu estômago se contorceu ao ver o que o cão carregava na boca.

– Não é a besta que está fazendo isso.

Foi até onde Nicole estava e olhei a pedra.

– Inferno! – xinguei.

A pedra a minha frente tinha correntes, e nas correntes, um corpo mutilado de uma criança. O estômago aberto, arranhões e mordidas, a cabeça voltada para o chão, chumaços do cabelo loiro se espalhavam com as vísceras no chão, e Kanda, trouxe o pé da criança que seu cão encontrar.

– Vamos solta-la – fiz uma careta, me aproximando.

– Não – Nicole me segurou.

– Não podemos deixar ele aqui!

– Não a mais nada aqui, Kishan. Por que eles fazem isso? – ela se voltou para Kanda.

– O deus da lua – Kanda olhou para o céu – Sacrificavam animais para proteção.

– É, pelo visto não só animais – a ruiva respirou fundo, então socou uma pedra – Humanos escrotos!!!

Ergui a cabeça da criança e olhei seu rosto.

Senti meu corpo ficar tenso.

– Está aqui – alertei puxando Nicole pra perto. Desembainhe a espada, Nicole sacou a arma e Kanda um machado pequeno e afiado.

A criatura surgiu pelo canto esquerdo da clareira. Ela parou, nos observando, agora, podia ser vista claramente. Era monstruoso, tinha o tamanho de um bezerro, o corpo todo revestido em metal, com o que parecia um elmo sobre a cabeça, pequenas placas de metal em suas costa tinha um tom esbranquiçado. Eu não conseguia associar o cheiro a nenhum outro animal que eu conhecesse. Ele saltou sobre uma pedra, o metal estalando, nos olhando de cima enquanto farejava o ar.

– Incrível – Nicole murmurou ao meu lado.

“Calada! Ele é um monstro!” era o que eu queria dizer.

Podia sentir a espera do ataque como se ela estivesse palpável a minha frente.

A criatura rosnou, como um felino irritado, chacoalhando se inteiro, então caiu da pedra. Olhei ao redor, procurando algo que pudesse ter atacado a fera, uma colmeia de abelha era o mais plausível, mas não havia nada. Ele grunhiu de dor e deu alguns passo para frente. O cano da arma de Nicole tremeu um instante, mas ela não tirou o animal de mira.

Com o que pareceu um choro baixo, a fera correu de volta para a floresta, batendo em árvores no caminho.

Confuso olhei ao redor só para constar que meus companheiros tinham a mesma expressão. Um dos cães se esfregou nas pernas de Nicole quase a derrubado.

Nicole se abaixou, olhando o animal nos olhos.

– Sente – o cão não se mexeu – Sente – Nicole instigou com um tom doce, mas o animal apenas a observou – SENTA! – ela rosnou, o cão estremeceu, sentando-se, os outros 2 cães fizeram o mesmo.

– Até a mais feroz criatura pode ser domada – ela acariciou o cão então me olhou – Ele está sendo manipulado. Viu o que ele usava na pata esquerda?

Franzi a testa.

– Ele usava uma espécie de bracelete azul, diferente do resto da armadura.

– Ótimo. Então precisamos matar a coisa e quem controla ela – suspirei.

Nicole deu um gole no vinho e segurou o rosto do cão entre as mão.

– Vamos voltar.

Dei uma última olhada nos arredores, aquele lugar fúnebre. A criança acorrentado a pedra, parecia chorar.

>Nicole<

Enchi minha taça de vinho e me sentei no sofá do quarto. Eu tinha acabado de tomar um banho em uma banheira de madeira, agora enrolada em uma toalha, analisei o vestido sobre a cama. Ele era lindo, mas não em mim. Me deixava ainda mais gorda. Aquilo me apertava, me deixava ansiosa. Bebi a taça toda e enchi outra, antes de me afogar em todo aquele pano claustrofóbico.

Uma vez vestida dei mais um gole no vinho e me sentei no chão. Respirei fundo, erguendo a cabeça, cruzei minhas pernas, deixei minhas mãos repousar sobre o colo e fechei meus olhos.

Eu estava parada em um longo corredor escuro, as paredes de pedra como as de um antigo castelo, caminhei por aqueles corredores que eu já conhecia de cor. A porta estava a minha frente, uma grande e robusta porta de carvalho. Paz. Era tudo o que eu precisava. Nada de feiticeiros, vestidos, damas da corte, nada dessa merda, só a paz.

– Quanto tempo faz? – meu corpo congelou ao ouvir a voz que me impedia de seguir para meu momento de paz.

– O que você quer? – me virei, e ali estava ela, me encarando com seu olhar arrogante.

– Você sabe o que eu quero – ela venho até mim, me rodeando – Uma única palavra e vou embora. Pode ter a paz que tanto precisa depois disso.

Trinquei os dentes.

– O que foi? Você não consegue né? – ela abriu um sorriso debochado – Depois de todo esse tempo. Pensei que você fosse a corajosa matadora de homens e monstros. A garota que enfrenta deuses, que vai matar o poderoso feiticeiro. – ela caiu na gargalhada – Você é patética! Você irá matar a besta de Gévaudan? Você nem consegue dizer uma palavra! Você é fraca! Vai é matar todos eles isso sim.

Meu corpo tremeu e senti lágrimas escorrer pelo meu rosto.

– Porque?

– O que?

– Porque está fazendo isso comigo de novo? – indaguei limpando os olhos.

– O que estou fazendo? Só estou lembrando a você quem você realmente é. De quem é a culpa se isso á apavora?

A porta se abriu um pouco, e uma garotinha passou por ela. Não qualquer garotinha. Uma criança ruiva de cachos volumosos e bagunçados, rolicinha, de bochechas coradas, olhar sorridente e extrovertido. Vestindo uma saia florida e uma camiseta laranja de manga caída pelo tamanho grande. Conheci muito bem aquele delicado rostinho.

– Deixa ela em paz! – rosnei.

– Uma palavra.

Minha boca secou nem um som saiu pelos meus lábios apertados.

– Por favor – implorei, a menina me encarou.

Fiquei parada vendo a menina sendo levada, tudo por que eu era incapaz de dizer uma única palavra. De gritar ao céu. De pedir ajuda.

Meu corpo resvalou até o chão, e me encolhi enquanto lágrimas escapava pela minha face. Uma única maldita palavra. Eu era tão fraca. Meu paraíso, meu local seguro estava ali, a apenas alguns passos para paz, mas eu não podia alcança-lo. Hoje eu era torturada. Sem paz para mim.

A porta se abriu um pouco, e o viu. Primeiro o focinho, depois os olhos castanhos.

– Destrua tudo! – rosnei e o animal rosnou comigo.

E foi o que fiz, soquei, gritei, chute. E eu não estava sozinha.

Sem conseguir dizer aquela palavra novamente. Gritei. Sem conseguir impedir que ela fosse levada. Chutei. Respirei fundo.

Observei o animal caminhar pelo corredor de pedras, sague escorria da mandíbula poderosa. Ele me encarou da porta, os olhos brilhantes. Esperando.

Respirei fundo. Caminhando pelo corredor.

Sentia a presença dele, mesmo de olhos fechados.

– Kishan – murmurei sem me mexer.

– Nicole? – Ouvi a voz de Kishan.

– O que quer?

– No que você está pensando? – ele quis saber.

– Que ainda não está na hora de descer.

– É, não está.

Abri meus olhos para encara-lo.

Ele parou a uma distância boa de mim. Estava muito bonito, com aquela roupa estúpida de século XVII, na verdade, praticamente tudo ficava bonito naquele príncipe estúpido.

– Então – me levantei e bebi o vinho direto da jarra, então debochei – O que deseja, alteza?

– O que eu desejo? – Kishan ergueu uma sobrancelha e abriu um sorriso.

– Por favor, bom senhor, seja gentil e condescendente, tive muita dificuldade de entrar nesse vestido.

Ele caiu na gargalhada.

– Chega de vinho pra você – ele tomou a jarra de minha mão – É o que eu desejo.

– Céus! Porque tamanha crueldade? – levei a mão dramaticamente a testa – O senhor não tem pena dessa humilde serva?

– Você devia ser atriz. Tem talento nato.

– O senhor acha? – abaixei o rosto e fiz um minha melhor expressão submissa, então coloquei a mão no peito – Mas sou só uma mera jovem tola. Como eu conseguiria uma façanha tão grande?

Ele não disse nada de imediato, apenas me observou, dos pés à cabeça.

– Você está linda – finalmente disse.

Meu sorriso desapareceu.

– Se diz isso com eu vestida assim, imagine se eu estivesse sem nada – retruquei, sem desviar os olhos.

Kishan cerrou os dentes, então desviou o olhar.

– O quanto você bebeu? – indagou.

– Não o suficiente – garanti.

– O quanto seria o suficiente pra você?

– Ainda não cheguei a uma quantia exata, mas você será o primeiro a saber quando eu chegar – peguei a jarra que ele colocara na mesa e dei mais um gole.

– Nicole – ele tornou a tomar a jarra.

– Eu quero – confessei.

– Nicole...

Peguei a jarra e bebei o resto todo em um único gole, sem tirar os olhos dele.

– Garota do céu! – ele respirou fundo.

– Vamos? – estendi o braço para ele, com um gracejo antiquado.

– Limpe sua boca. Está com um bigode roxo.

Ergui a saia e a usei para limpar a boca.

– Claro, quem precisa de um lenço? – Kishan soltou um suspiro, indo em direção a porta.

Ele era perfeito, não é? Um verdadeiro príncipe. Aquele era seu habitar natural, entre lordes e ladys.

Caminhei logo atrás dele, como um princesa faria, nem ao lado, nem a frente. Pisando nos mesmos lugares que ele, com uma sombra. Ofuscada, apagada. Uma mulher. Era o que eu era não é? Não importava o que eu fizesse, o tempo que passasse. Eu era igual a todas, uma sombra. Nada mais que uma mulher. Apenas um mulher. Só mais uma mulher.

A linda condensa pálida passou pelo corredor logo abaixo de nós, cabeça abaixada, expressão submissa, respeitosa ao lado de seu jovem marido. Uma dama. Como uma verdadeira mulher deve ser.

Olhei para trás, para a porta de meu quarto que se fechava, respirei fundo, fechei os olhos. Por um momento, vi uma menina de saia florida, cabelo selvagem de sorriso fácil com os braços em volta do pescoço de uma fera, de olhos castanhos e focinho sujo de sangue.

Bom ou mal, é isso que sou.

Abri os olhos e passei por Kishan. Podia não poder ajudar aquela pobre menininha. Abri meu sorriso mais difícil. Mas eu não cairia novamente. Eu diria aquela maldita palavra quantas vez fosse necessária.

Kishan segurou meu braço, do qual eu puxei com força. Eu não tinha mais 9 anos. Não usava mais saia florida, não tinha mais aquele lindo sorriso inocente. Eu estava apavorada. Não com monstros, bestas ou feiticeiros. Isso não me assustava mais.

Eu era capaz de falar, de gritar se fosse necessário.

– Não! – fulminei Kishan com os olhos.

– Nicole... – ele tentou.

Olhei meu reflexo no espelho ao lado, espalmei o vestido, sentindo o frio do revólver no coldre em minha coxa, a butterfly que eu carregava no tornozelo. Meus olhos tinha um tom castanho profundo.

Eu não era uma princesa, ou lady, certamente não seria uma dama. Mas eu ainda era uma mulher.

Kelsey estava sentada ao lado de Ren, usava um lindo vestido e tinha um sorriso gentil. Antoine e o jovem conde Francis conversavam alegremente sobre perdizes, o velho conde bebia, e sua esposa, uma velha de aparência suína criticava a jovem condensa retirando a taça de vinho de sua frente. Kanda não estava ali. Cães não comem com a nobreza, não é?

Caminhei até a mesa sozinha, não esperei que ninguém puxasse minha cadeira pra que eu me sentasse, enchi minha própria taça, sorri para a jovem condensa do outro lado da mesa, a fazendo corar.

Kishan sentou ao meu lado, seus olhos me censuravam. Sim, eu não devia ser tão arrogante. Eu era apenas uma mulher.

A conversa se seguiu, entre uma taça de vinho e pratos de comida.

– Amanhã iremos caçar patos – contou alegre o jovem conde, como se não houvesse uma fera muito maior e mais perigosa – Deveriam se juntar a nós, aposto que vocês dois são excelentes caçadores.

Kishan e Ren trocaram um olhar. Tigres caçando patos. Abri um pequeno sorriso.

– Nós adoraríamos – Ren falou em tom cortês – mas imagino que devemos nos ater a caçar a fera.

– Aquela maldita besta ainda estará lá, o que custaria se divertir um pouco? – insistiu.

– Realmente é uma ideia formidável – concordou a senhora cara de porco – Assim poderíamos ter mais tempo com essa adorável jovem. – ela sorriu para Kelsey.

Bebi minha taça de vinho.

– Será um prazer – Kelsey disse disfarçando o contra gosto.

– Gosta de ler, senhorita Nicole? – ergui meus olhos da taça, para contemplar o olhar da jovem condensa.

– É uma das coisa que mais me agrada na vida.

– Gosta de Shakespeare? – ela continuou, senti os olhares em nós.

– Confesso que não é meu autor preferido.

– É claro, ter bom gosto é algo que requer requinte. – a velha condensa falou.

– “Espero que você pegue sífilis e morra, porca velha” – sorri pra velha, falando em inglês.

Ren e Kishan arregalaram os olhos em minha direção e Kelsey engasgou.

– O que disse? – a velha estreitou os olhos.

– Eu disse: “Me tornei insano, com longos intervalos de horrível sanidade” – continuei sorrindo – É de um poeta que aprecio muito, mas ele é muito pouco conhecido.

Na verdade, Poe ainda nem havia nascido.

Ela me lançou um olhar de desapresso.

– Mas eu poderia citar Shakespeare o dia todo.

– Então realmente gosta de ler – a jovem continuou, ignorando a velha – Gostaria de me acompanhar a livraria amanhã, enquanto nossos homens caçam?

Kishan me encarou, com uma cara que gritava “NÃO OUSE!” e Kelsey com olhar pidão de “Por favor, me levem junta!”.

– Será um prazer.

– Não acho que seja uma boa ideia, querida – o conde tocou gentilmente a mão da moça – Duas damas andando sozinhas, e ainda tem sua saúde.

A jovem abaixou a cabeça.

– Eu prometo protege-la, acredite, sou mais do que capaz disso. E é sempre bom tomar um pouco de ar e sol. – sorri gentilmente.

– A senhorita é capaz? – a velha me encarou.

Puta merda! Velha chata do caralho! Vontade de enfiar um tijolo na boca dela.

– Mais do que muitos homens que já conheci – Ren respondeu por mim.

– Mas é tão pequena e flácida. – ela insistiu.

Deus eu tinha um comentário pervertido na ponta da língua pra isso.

– Nem todo tigre tem listras – Kishan rebateu.

Porque ele estava me defendendo? No fim, ele não queria que eu ficasse sozinha com a condensa.

Porque aquilo me deixava estranhamente feliz? Ser defendida por ele devia ser tão indiferente quanto ser defendida por Ren, mas então porque minha boca se abriu em um sorriso?

Ren mudou de assunto com habilidade. Enchi minha taça.

Mais tarde, observei Kishan me encarar com um olhar frustrado.

– O que eu faço com você?

– Bem, já estou semi-nua e na cama – eu abri um sorriso debochado – Use sua criatividade.

Ele deu uma curta risada. A expressão dele mudou.

– Não devia tentar um tigre assim.

– Porque? Acha que tem coragem suficiente pra uma caçada?

Ele exibiu os dentes.

– Tenho coragem e folego pra uma boa caçada. – ele deitou na cama, desafiante.

– Bem, eu não faço: “Quack, quack” como um patinho não.

– Bom, odiaria que você fosse uma presa fácil.

Ele espreguiçou o longo corpo parte por parte, seus olhos dourados brilhantes de malícia.

– Ah, gatinho, quem disse que sou a presa? – lancei a ele meu melhor olhar antes de me cobrir.

– Como é que é? – Kishan puxou a minha coberta – Ei! Não me ignora!

– Você é mesmo impossível – ele resmungou – Amanhã, por favor tente...

Ele pareceu se arrepender do que ia dizer.

– Não ser enforcada, guilhotinada, queimada na fogueira? – eu o encarei – É divertido, mas não sou idiota. Se serve de consolo, provocar você é mais divertido.

– Sei...

Puxei a coberta novamente. Por aquele momento, eu não estava sozinha. Senti o calor do corpo de Kishan e a presença dele, isso era realmente reconfortante e assustador. Me remexi.

A voz dentro de mim, lembrava que eu não devia me apegar a momentos assim, pois são só isso, momentos. Me remexi novamente.

Minha garganta se fechou. E fiz aquilo em que eu era perita, respirei fundo e matei aquele pensamento, aquela insegurança vinda da falta de falar uma única palavra. De ser mulher.

– Bahaadur baagh, so jao – Kishan resmungou.

Me aconcheguei contra ele. Só por um momento. Por um maldito momento. 


Notas Finais


Desculpa mesmo pela demora em postar. Mas desde que eu comecei a trabalhar minha criatividade e tempo foram praticamente mortos, espero que nesse meu tempo de férias eu consiga escrever bastante.
Obrigado por todos que leem, favoritam e comentam. E desculpa os erros ortográficos.


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