História Cotidiano. - Capítulo 4


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Capítulo 4 - Capítulo-4


Alex pegou um táxi correndo e foi para casa. Chegou lá e foi direto para o quarto. Diane bateu na porta, mas ela nem respondeu. Até que a mãe desistiu.

Estava arrasada. Ver Piper feliz e animada ao lado de outra pessoa a havia deixado em choque. Não esperava ver a namorada chorando e desanimada, mas feliz do jeito que estava, parecia não ligar pela situação em que estavam. Daí parou pra pensar, em que situação estavam? Ela que havia deixado Piper, ela abriu mão da viagem e ela escolheu ficar com a mãe naquele momento. “A culpa é sua Alex. Agora aguenta. Piper também te trocou muito rápido. Ela deve preferir Rafaela, afinal, é da área dela, têm várias coisas em comum. Está à altura dela. E ainda dizia que te amava. Ela não te ama.” Ficou pensando em mil coisas. Chorou até dormir.

Piper saiu do aeroporto apavorada, queria chegar em casa, deixar suas coisas e falar com Alex. Se possível voltar ao Rio para falar pessoalmente.

- Calma Piper! Se conversar com ela tudo vai se acertar.
 

- Você não conhece Alex. Quando ela põe alguma coisa na cabeça nada faz mudar.
 

- Como ela pôde achar que temos alguma coisa. Só estávamos rindo.
 

- Ela sempre teve ciúmes de você. – Piper confessou.
 

- E por quê?
 

- Não sei. Ela diz que não é ciúmes. É apenas preocupação comigo.
 

- Vai ver ela denomina a palavra de outra forma. Porque a reação dela agora foi de puros ciúmes.
 

- O que eu faço Rafaela? Ela deve estar magoada. – Piper falou chateada.
 

- Calma. Primeiro de tudo tem que ficar tranquila e pensar no que vai falar com ela. E magoada você também ficou por conta dessa viagem fracassada. Vocês precisam conversar sobre várias coisas. Não esqueça que quem começou tudo foi ela. Não ia precisar passar por isso se ela tivesse ido com você. Não se culpe.

Piper pensou e Rafaela tinha razão. Queria esclarecer as coisas com Alex, mas não poderia se culpar. Afinal, estavam naquela situação por conta da própria Alex. Chegou em casa, falou um pouco com seus pais, contou da viagem e depois correu para seu quarto. Pegou o telefone e tentou falar com Alex, mas ela não atendeu. Tomou um banho e já ia pegar o carro para ir pessoalmente falar com a namorada, quando recebeu uma mensagem no celular.

“Não quero falar com você. Siga sua vida que eu vou seguir a minha. Nunca daremos certo. Os nossos sentimentos não são iguais!”

Piper caiu sentada na cama. Parecia que Alex adivinhara o que ia fazer. Tentou ligar de novo e o telefone de sua casa estava ocupado e o celular desligado. Foi falar com sua mãe sobre o que aconteceu.

- Calma Piper. Espera isso tudo passar e depois tente falar com ela. A poeira vai baixar e as duas estarão mais tranquilas pra conversarem numa boa.

Piper seguiu o conselho da mãe e esperou. Trabalhou durante a semana e na quinta-feira foi falar com Alex. Sabia que ela estaria até mais tarde no consultório e resolveu ir até lá. Alex tinha seu próprio consultório que era junto com outros médicos de outras áreas, lá ficavam três secretárias que atendiam em comum para esses médicos. As secretárias que atendiam ali informaram que Alex ainda estava em sua sala. Porém a porta estava fechada. Piper resolveu esperar e quase uma hora depois a porta se abriu. Alex saia de lá toda sorridente acompanhada de uma mulher loira, de olhos verdes, se parecia com Piper e estavam bem íntimas. Alex viu Piper e ficou séria de repente. A loira que estava com Alex fez uma cara de surpresa e em seguida cochichou alguma coisa no ouvido dela e saiu. Piper ficou paralisada, não conseguia nem respirar. Alex se aproximou séria e perguntou:

- O que você faz aqui?
- Eu vim conversar com você. – Piper falou triste.
- Estou atrasada, agora não posso. Depois eu te ligo.
- Tem algum compromisso?
- Sim, estava indo pra ele se quer saber.

Piper abaixou a cabeça e em seguida falou:

 

- Precisamos conversar Alex.
 

- Agora não Piper.
 

- Se não for agora eu não quero conversar mais.
 

- Você é quem sabe.
 

- Não faz mais questão da minha companhia, não é?
 

- É você quem está dizendo isso.
 

- Tudo bem. Sei reconhecer quando não sou bem-vinda.

Piper se retirou sem olhar pra trás. O que não a fez ver que Alex derramava uma lágrima. Pegou o carro e saiu em disparada para Petrópolis. Chegou em casa e foi direto para o quarto. Não quis conversa com ninguém. Passou a semana toda trabalhando trancada, sem atender telefonemas. Fez seus projetos concentrada em apenas terminá-los e não pegar mais nenhum novo. Os clientes procuravam seus trabalhos e orientações e Piper só atendia os antigos, os novos ela deixava para seu pai.

 

- Piper, assim vamos perder clientes.
 

- Não vamos não pai, eles podem ser atendidos por você.
 

- Mas muitos deles querem que você os atenda. Faça um esforço e atenda nem que sejam os da rede de pousadas. Estão construindo uma nova pousada em Teresópolis e precisam de você.
 

- Não estou a fim de ir sozinha.
 

- Vá com Rafaela. Afinal ela foi contratada pra te auxiliar.

Piper pensou no assunto e foi falar com Rafaela.

 

- Então Rafaela? Vamos pra Teresópolis. – Foi mais uma afirmação que pergunta.
 

- Ah vamos? E quando?
 

- Vamos daqui duas semanas. Prepare-se, pois ficaremos lá uma semana pelo menos.
 

- Minha mãe do céu! Uma semana em Teresópolis com você!? Eu quero ganhar hora extra. E com adicional de salubridade, pois é um perigo ficar perto de você.
 

- Que isso! Larga de ser besta. Eu só transmito segurança às pessoas. – Piper falou sorrindo.
 

- Não quando está dirigindo. – Rafaela falou displicentemente.

Piper jogou um grampeador na amiga e ela se esquivou.

 

- Aí, não disse que corro risco!
 

As duas riram das bobeiras.
 

 

- Sabe, vai me fazer bem viajar. Ainda mais com você que me diverte.
 

- Eu sei amiga. Tudo vai melhorar. E uma coisa te digo, se tiver que acontecer, vai acontecer. Não fique na expectativa, tenha paciência e a vida se encarrega de ajeitar as coisas.
 

- Sinto tanta falta de Alex.
 

- Isso percebe-se de longe, mas se ela for sua mesmo, ela voltará pra você.

Piper pensou, olhou para a janela e fez uma cara de menina inconsolada.

- Vem amiga, dá um abraço que ajuda.

Abraçaram-se e nesse instante Bill chegou. As duas se afastaram e ele nada falou. Terminaram o serviço do dia e cada um foi pra sua casa.

À noite, Piper preparava suas coisas. E sua mãe chegou na porta de seu quarto.

 

- Piper, por que você não chama Rafaela pra sair com você?
 

- Como assim?
 

- Ué, sair à noite, ir a algum lugar. Ela é uma menina legal.
 

- Eu sei mãe. Mas não tenho tido vontade de sair.
 

- Precisa se distrair, vocês se dão muito bem, quem sabe...
 

- Mãe, Rafaela não é o que está pensando. E eu não gosto dela assim. Eu amo Alex. – Piper falou com os olhos cheios de lágrimas.
 

- Calma filha. Tudo vai se ajeitar. Essa situação toda vai melhorar.
 

- Todo mundo me fala isso. Só não sei quando tudo isso vai acabar.
 

- Pense que no fim tudo acaba bem Piper.
 

- Se no fim tudo acaba bem. Falta muito pra acabar mãe? – Piper fez beicinho e uma cara de criança. Carol não pôde deixar de rir. Deu um abraço na filha e a deixou acabando de arrumar seu quarto.

No dia seguinte, durante o café da manhã Piper comentou sobre a viagem.

 

- Mãe, daqui duas semanas vamos Rafaela e eu para Teresópolis. Quer ir com a gente?
 

- Não vai dar. Tem muitas coisas aqui pra resolver. Estou atarefada, por conta de sua tia. Ela quer ajuda para a chegada do bebê. – Carol falava do filho de um primo que iria nascer.
 

- Ah sim. Bom, ficaremos lá por uma semana. Se mudar de ideia é só ir nos encontrar.
 

- Pode deixar.

Piper foi para o escritório um pouco mais animada. A expectativa de uma viagem fez melhorar seu humor.

Trabalhou a semana toda e se dedicou aos projetos que levaria para Teresópolis.

 

- Rafaela, a pousada que vamos ficar é do dono desta que estou desenhando.
 

- Ah sim. Deixa-me ver.  – Rafaela pegou os desenhos. – Ficou bom hein.
 

- Tudo que eu faço fica bom Rafaela, você ainda não aprendeu isso? – Piper brincou.
 

- Mas é muito besta mesmo. Larga de ser boba. A modéstia está te chamando lá fora.
 

- Eu já falei com ela hoje de manhã.
 

- Sei, e mandou ela ir embora de vez né.

As duas riram.

- Vamos na terça-feira e voltar no domingo talvez. Se não der, voltaremos na segunda. – Piper falou.
 

 

- Por mim tudo certo.
 

- Vamos dividir quarto, vê se não ronca.
 

- Eu não ronco. Você que ronca.

As duas ficaram discutindo quem roncava ou não pelo resto do dia.

Piper terminou os projetos com ajuda de seu pai e na terça-feira foi para Teresópolis.  Chegaram à pousada e foram recebidas pelo próprio dono.

 

- Boa tarde seu Roberto. Essa é Rafaela, a engenheira que trabalha conosco.
 

- Boa tarde. Amanhã começaremos a reunião para ver as plantas Piper.
 

 

- Sim, eu também trouxe alguns desenhos e projetos para decorações caso se interesse.
 

- Claro, já ouvi falar do seu trabalho como designer de interiores e foi muito elogiada.
 

- Bom, agradeço desde já. Espero que goste.
 

- Por hoje, vocês se acomodem e descansem, amanhã vamos trabalhar muito.

As duas subiram para o quarto e adoraram a decoração. As paredes tinham detalhes com tijolinhos, as os móveis eram em madeira clara, e uma parede era toda de vidro, o que dava uma claridade boa no quarto.

 

- Essas paredes de vidro estão na moda não é Lu?
 

- Sim, elas fazem o ambiente ficar mais amplo e parecer maior.
 

- É verdade.
 

- Sem contar que aproveita bastante a vista lá fora. O que é o caso daqui.
 

- Sim, é linda essa pousada.
 

- Bom, eu ia dizer que eu fiz o projeto, mas se eu disser você vai falar que não sou modesta. – Piper falou displicentemente.
 

- Está certo. Vou reconhecer. Você é boa mesmo, sua mala.
 

- Eu sei.
 

- Sabe que é boa e que é uma mala né.
 

- Não, mala é apenas a sua inveja falando mal de mim. – Piper falou sorrindo.

Ficaram de conversa e passeando pela pousada o resto da tarde, à noite jantaram e dormiram cedo. A reunião iria começar antes das oito da manhã no dia seguinte.




 

- Sim, acho que uns dias em Teresópolis seria uma boa ideia depois desse congresso.  – Alex falava ao telefone com Bianca.
 

- E é tão pertinho Alex. Quando podemos ir?
 

- Preciso estar lá na quinta-feira e podemos ficar para o fim de semana. Posso sair da clínica na quarta a tarde. Chegaremos à noitinha por lá.
 

- Aí, está ótimo. Será uma viagem e tanto e eu estou louca pra ficar a sós com você.
 

- Eu também. – Alex desligou o telefone. Seria uma viagem para esquecer os problemas, mas ela nem estava empolgada. Bianca era uma das secretárias da clínica. A conhecia fazia algum tempo e sempre dava em cima de Alex, mas ela nunca dera atenção. Depois que seu relacionamento terminou, ela resolveu dar uma chance. Quando a garota a chamava pelo nome, não tinha a mesma doçura de Piper, ela não tinha a delicadeza que Piper tinha, a educação. Tentava procurar na garota algum traço, mas nem os olhos e os cabelos a faziam parecer. Piper era única.
Sua mãe quando soube do fim do relacionamento nada falou. E Alex resolveu não falar sobre esse “caso” com Bianca. Quando chegava tarde em casa, dizia que era por conta do trânsito ou do excesso de trabalho. E para essa viagem, inventaria uma desculpa dizendo que era a trabalho e não poderia levar sua mãe.

 

- Trabalho em Teresópolis Alex?
 

- Sim mãe. São poucos dias. É um congresso.
 

- E você volta quando?
 

- Volto no domingo.
 

- Só domingo! E esse congresso se estenderá até o fim de semana?
 

- Sim mamãe. – Alex já perdia a paciência.
 

- Piper estará lá?
 

- Não mãe, Piper não estará lá. Nem tenho visto Piper. – Alex falou triste.

Diane não insistiu, mas também não aceitou muito essa viagem. Resolveu deixar a filha quieta. Alex andava muito estranha e introspectiva. Não dividia mais detalhes de sua vida com a mãe. Diane estranhava muito, não sentia que a filha era a mesma. Um arrependimento começou a bater em seu coração. “Alex era mais feliz quando namorava Piper e era mais confidente.”

Na quarta-feira de manhã a médica ajeitou suas coisas e levou tudo para a clínica, de lá sairia para Teresópolis. Bianca foi de carro e as duas viajaram na parte da tarde.

Chegaram à cidade anoitecendo quase e se hospedaram num hotel quase próximo a pousada onde Piper estava.

Na quinta-feira durante a reunião Piper e Rafaela interagiam bem, fazendo com que o dono da rede de hotéis confiasse plenamente no trabalho delas.

- Vocês duas trabalham muito bem. Eu gostei muito do projeto. Precisamos rever os custos, acho que essa parte das salas de reuniões poderia ser maior. Eu quero equipá-las com o que tiver de melhor em tecnologia. Essa pousada aqui é assim e eu recebo muitas empresas para fazem reuniões e congressos.
 

- Isso é bom, não tem que ser necessariamente uma pousada para passeio.
 

- Claro. Hoje mesmo teremos um congresso de medicina. Daqui a pouco se reunirão vários médicos nas salas ao lado. Vocês verão.

Piper imediatamente pensou em Alex, mas logo perdeu a esperança. “Ela não deve estar aqui.”

Terminaram a reunião e foram almoçar.

- Vou fazer umas ligações agora a tarde Rafaela, precisamos levantar esses gastos.
 

- Ele não parece disposto a economizar.
 

- Sim, adoro cliente assim. A obra sempre fica boa.
 

- É, ruim são aqueles que querem comprar material de péssima qualidade. Depois o prédio cai e colocam a culpa no engenheiro.
 

- Coitada gente. Um prédio seu já caiu? – Piper perguntou já começando a rir.
 

- Querida, nada meu cai. É tudo firme como uma rocha.
 

- Ui! Se você fosse homem eu me apaixonaria.
 

- Ah que pena. Será que se eu tentar falar grosso melhora?

As duas caíram na gargalhada. Foram almoçar e no restaurante Piper viu a mesma mulher que estava com Alex na clínica.

- Rafaela, aquela moça ali que eu vi com Alex da outra vez que fui falar com ela.

Rafaela olhou para trás e viu Bianca.

- Ela é bonita.
 

- Ah, muito obrigada por me animar. Amiga traíra.
 

- Ela é bonita, mas não é você. Ela é o que?
 

- Não sei, acho que secretária da clínica. Acho que já a vi por lá atendendo.
 

- Então fique tranquila, porque ela não é páreo para nossa arquiteta.
 

- Ah tá. Não é páreo, mas está com Alex.
 

- Ela pode estar ao lado de Alex, mas quem disse que está dentro do coração dela? Acredite Piper, Alex ainda gosta de você. Só está chateada. É o que eu acho.

Piper ficou pensando, porém não criou expectativa.

Almoçaram e subiram para o quarto para fazerem as ligações. Assim que saíram Alex surgiu no restaurante e também não as viu.

Piper fez várias ligações e Rafaela também falou com alguns fornecedores de materiais de construção. Após o almoço iriam olhar o terreno da nova pousada e só aguardavam Roberto para levá-las. Rafaela resolveu descer para pedir algumas informações, não queria passar todas as noites dentro de um quarto de hotel. Foi até a portaria e quando estava conversando com a recepcionista viu Alex passando. Ficou meio de costas e tentou não ser vista pela médica.

 

- Aqui no hotel hoje à noite terá uma festa, será um coquetel e terá também uma banda e uma discoteca. Está tendo um congresso e resolveram fazer todas as noites uma festa para os hóspedes. – falou a recepcionista.
 

- E todo mundo pode participar?
 

- Sim, desde que esteja hospedado aqui, pode entrar de graça e o que consumir pode ser cobrado na conta do hotel. Os que não estão, pagarão uma entrada.
 

- Muito bom. Obrigada.
 

- Por nada.

Rafaela voltou para o quarto toda animada.

- Piper, temos uma festa para ir hoje à noite!
 

- Festa? Aonde?
 

- Aqui no hotel, estão fazendo festa todas as noites por conta desse congresso, a pousada está cheia e pessoas de fora devem vir também. E nós vamos!
 

- Não estou muito afim.
 

- Está sim amiga. Eu quero ir e não vou sozinha.
 

- Lá você arruma alguém de companhia.
 

- Não, eu quero você de companhia. Quando voltarmos da visita nos locais da nova pousada nós iremos.

Foram averiguar os terrenos e voltaram quase sete horas da noite.

- Vamos, tome seu banho, se ajeite. Daqui a pouco nós vamos pra festa. – Rafaela falou numa empolgação que até animou Piper. Tomaram seus respectivos banhos e foram se arrumar. Quando Piper terminou, Rafaela olhou pra ela paralisada.
 

- Meu Deus! Se eu gostasse de mulher, hoje você não me escapava.

Piper vestia uma calça preta justa, com botas cano longo pretas também. Uma blusa preta com detalhes em amarelo e usava um colar prata que lhe caía até o meio do decote que realçava os seios. Os cabelos lisos, compridos soltos, suas madeixas estavam displicentes deixando seu rosto mais jovem. Colocou algumas pulseiras e se maquiou levemente, somente para realçar os olhos azuis. Quando virou e olhou para Rafaela, ela estava de jeans, sandálias de salto e uma blusa sem mangas, mas de gola alta. Soltou os cabelos e fez umas trancinhas, parecendo uma menininha.

- Você também não está mal. E quem sabe essa noite nos promete surpresas, não é? Desencalhamos as duas.

Elas riram e desceram até o restaurante. Não jantaram, mas comeram apenas uma salada.

- Não gosto de encarar uma noite com estômago vazio. – Rafaela falou.
 

- Eu também não, ainda mais quando há a possibilidade de beber.
 

- E desde quando você bebe?
 

- Às vezes, não bebia muito, pois Alex não gostava. Na verdade, eu também não gosto, mas uma vez ou outra não faz mal a ninguém. Preciso relaxar.

Saíram umas 9 da noite para o lugar onde era a festa. Instalaram tudo em volta da piscina e colocaram tendas com pufes espalhados para pessoas sentarem e os bares ficavam do outro lado da piscina. A banda começou a tocar animando o ambiente. As duas foram direto para o bar e se sentaram. Piper não pediu nenhuma bebida alcoólica, preferiu um coquetel de frutas, sem álcool. Rafaela preferiu tomar cerveja.

- O lugar está bonito. – Piper falou.
 

- Está mesmo. – Rafaela apenas concordou e olhava de um lado para outro.
 

- O que olha tanto Rafaela?
 

- Nada, estou apenas admirando o local.
 

- Está com uma cara de quem procura alguém.
 

- Não procuro ninguém.
 

- Quem sabe arruma um gatinho hoje à noite. Se bobear até eu quero um.
 

- Não vá mudar seus gostos por conta de uma desventura amorosa.
 

- Mas quem te disse que deixei de gostar de homens?
 

- Ah não?!
 

- Na verdade eu gosto mesmo é de Alex. – Falou triste.

As pessoas iam chegando cada vez mais e a festa só animava. Quase uma hora depois Piper estava mais alegre conversando com as pessoas e até então não bebia nada alcoólico. A banda estava a todo vapor, tocando músicas de todos os estilos. Rafaela, às vezes, rodava os olhos no lugar pra ver se via Alex. Antes das dez da noite ela surge. Estonteante e linda. Usava uma calça branca, sandálias mais baixas, uma blusa azul clara com detalhes em azul escuro e que deixava seu corpo mais bonito. Parecia mais alta. Cabelos soltos e negros como a noite. “Até eu estou sem fala!” - pensou Rafaela. Foi se aproximando do bar e assim Rafaela também pôde ver Bianca. “Mas que saco, essa garota tinha que vir! Preciso dar um jeito.”

Rafaela quis levar Piper até o bar também e esta foi tranquilamente, sem perceber nada. Sentaram-se perto do balcão e pediram mais bebida.

- Você só vai ficar nesse coquetel Piper?
 

- Sim, não me sinto à vontade pra beber hoje.

Assim que falou, viu Alex sentando-se em uma mesa com Bianca. Seus olhos arregalaram e a surpresa foi tanta que ela quase não consegue engolir a bebida.

- Rafaela, Alex está aqui.
 

- Sim eu a vi.
 

- E você me traz pra cá? – Piper falou com tristeza. – Ainda pra ver essa cena?
 

- Calma Piper, tenho fé que quando ela te ver assim, vai bambear as pernas.
 

- Deixa de bobeira. Alex não me enxerga mais.
 

- Veremos.
 

- Garçom, me traz uma caipirinha. – Piper pediu com convicção.
 

- Que te deu pra se sentir à vontade de repente?
 

- Me deu raiva, foi isso.

Piper bebeu e aos poucos foi se soltando. Sorria por qualquer coisa e a conversa entre ela e Rafaela fluía numa boa. A música estava animada e ela já dançava mesmo sentada no banco. Alex ficava olhando para ela e nem se dava conta do que Bianca estava falando. Uma música começou a tocar e era antiga.

- Nossa adoro essa música!
 

- Porque não vai dançar, aproveita menina. – Rafaela incentivou Piper.
 

- É mesmo né. Vou dançar e extravasar as energias.

Piper se levantou e foi pra pista de dança.

- Alex, minha linda... está me ouvindo. – Bianca olhava pra ela.

Alex nem ouviu, se levantou e foi direto onde Rafaela estava sentada.

- Vejo que estão se dando superbem. – falou com deboche.
 

- Olha moça, se acha que existe alguma coisa entre Piper e eu, está redondamente enganada.
 

- Não acho nada, eu tenho certeza.
 

- Só porque a gente se dá bem? Isso é normal entre amigas.
 

- Eu vejo o jeito que ficam quando estão juntas.
 

- Ah é? Já nos viu agarrando uma a outra?
 

- Não, e Piper não gosta desse tipo de exposição.
 

- Cai na real Alex. Não tenho nada com ela. Acha que se estivéssemos juntas estaríamos aqui? Eu estaria no quarto desfrutando da presença dela... – Olhou para Piper na pista de dança.

- Daquela loiraça que dança como louca, de olhos azuis, corpo escultural, estaríamos a sós e não no meio do povo.

Alex ficou pensativa.

- Presta atenção Alex! Pare de olhar para seu mundinho ridículo. Piper te ama, sofreu muito, mas também tem seu orgulho. Eu a vi em Campos do Jordão, estava triste com sua ausência, mas achou desaforo não aproveitar as férias. O que aconteceu foi que nos encontramos por acaso, não programamos nada. E o tempo todo ela falava de você.
- Nunca aconteceu nada entre vocês?
 

- Nada. E te garanto isso, porque eu sou hétero convicta. Adoro Piper, mas como amiga. É uma excelente parceira de trabalho e nada, além disso.

Alex olhou Piper ali, dançando, estava linda e sensual.

- Vai lá dançar com ela. Ela te ama mulher e nem queria vir aqui, eu que insisti para que pudessem se encontrar. Quero ver vocês duas juntas e felizes.

Alex foi andando em direção a Piper. Nem viu Bianca se aproximando.

- Alex, onde você... – Bianca ficou só olhando Alex ir para a pista. – Aonde ela vai? – perguntou a Rafaela.
 

- Ela vai cuidar da felicidade dela e você dá o fora. – Rafaela falou olhando sério e deixando Bianca sem graça. Que acabou saindo de fininho.

Piper dançava com os braços para o alto, os cabelos soltos caiam até os ombros. Nem percebeu quando Alex chegou por trás, segurou sua cintura e acompanhou seus movimentos.

- Dança comigo? – Alex falou no ouvido de Piper, a deixando arrepiada.

Ela nem respondeu, apenas fez o jogo que queria. Rebolava sensualmente, colando seu corpo ao de Alex. Estava excitada, mas não deixou transparecer. Virou de frente e aproximou o rosto ao da médica, parecia estar em outro mundo. Suas bocas se aproximaram, quando iam se beijar Piper virou de costas novamente e continuou dançando. Deixou Alex louca. Ela a agarrou por trás e beijou sua orelha, Piper levantou uma das mãos e passou na nuca de Alex. Sorria maliciosamente e deixava a morena cada vez mais excitada. Alex a virou de frente e colou sua testa na dela, as bocas quase se encontraram. Os lábios chegaram a roçar, o cheiro de Piper deixava Alex maluca. O mesmo acontecia com a loirinha. A química era muito grande. A música acabou e Piper se afastou olhando para Alex com tristeza, os olhos encheram de lágrimas.

- Quer me usar? Mas isso eu não deixo você fazer.
 

- Piper, espera, quero conversar, por favor.
 

- Não. – As lágrimas escorriam pelo rosto. – Vá conversar com a sua nova namorada.

Saiu sem olhar para trás. Voltou correndo para o quarto. Rafaela que assistia cena toda saiu atrás de Piper. Passou por Alex e só falou:

- Calma. Tenha paciência que tudo vai se ajeitar. Eu vou te procurar e conversamos.

Rafaela correu até o quarto e lá viu Piper deitada na cama chorando.

- Piper, o que houve? – Falou passando a mão em seus cabelos.
 

- Ela não me ama, só quer jogar comigo.
 

- Não é verdade. Tenho certeza de que ela quer se acertar. Por que não deu uma chance a ela?
 

- Não quero. Ela está com outra pessoa agora, que faça bom proveito.

Rafaela nada falou. Ficou alisando os cabelos de Piper até que ela dormisse.

Alex saiu da festa com Bianca em seu encalço.

- Alex, fale comigo. O que está acontecendo?

Alex andava a passos largos e voltava para o hotel onde estava.

- Alex, espera.

A médica se virou bruscamente.

- Não! Não espero. Não vou ficar com você Bianca. Eu não gosto de você, eu amo Piper. E é com ela que vou ficar.
 

- Ela não te quer. Já está com outra. Não viu.
 

- Não está! E agora eu sei de tudo.
 

- Tudo o que?
 

- Tudo que preciso saber pra poder correr atrás do amor da minha vida. Nós não íamos dar certo. Somos muito diferentes. Vamos fechar a conta no hotel e se quiser procure outro quarto.
 

- Pra onde vai?
 

- Não interessa.

Alex virou-se novamente e foi andando, pegou um táxi e no hotel encerrou sua conta, pegou suas coisas e ficou na mesma pousada onde Piper estava. Subiu para seu quarto e tomou um banho. Quando saiu do banheiro resolveu ir até a recepção perguntar onde estava hospedada Piper.

- Está no mesmo andar que a senhorita. Quarto 410.

Alex subiu e foi até o quarto de Piper e bateu na porta. Rafaela ao abrir, saiu rápido e fechou.

- O que faz aqui?
 

- Vim saber se está tudo bem e informar que estou hospedada no quarto 408. Bem aqui ao lado.
 

- Minha mãe! Piper vai querer ir embora amanhã cedo. – Rafaela falou espantada.
 

- Deixa eu conversar com ela, por favor!
 

- Ela está dormindo.
 

- Posso vê-la?
 

- Pode, mas não faça barulho.

Alex entrou e viu Piper deitada de bruços, os cabelos soltos espalhados, ainda estava com a roupa da festa.

- Ela vai dormir assim?
 

- Bom, eu pensei em trocá-la. Mas daí pensei que ela poderia não gostar. Enfim, fiquei na dúvida.
 

- Vou resolver isso. Deixe que eu troco.
 

- Ela bebeu um pouco, está sonolenta agora.
 

- Eu sei, eu a vi bebendo e quando Piper bebe fica com sono. Não sei pra que insiste nisso.
 

- Vou ficar ali fora, se precisar me chame.

Rafaela saiu do quarto e Alex foi trocar a roupa de Piper. Retirou a blusa, a calça, as pulseiras e o cordão. A deixou só de calcinha. Ficou contemplando o corpo da ex-namorada. Era tão linda, lembrou-se de quando faziam amor, lembrou-se de como Piper era só dela. Era, e isso doía em Alex. Pegou o pijama de Piper e vestiu, quando terminou, abraçou a namorada e a deitou, cobriu e beijou seus lábios com delicadeza.

- Alex, não me deixe, eu te amo tanto. – Piper falou baixinho, com voz melosa e sonolenta.
 

- Não vou te deixar meu anjo. Eu também te amo muito. – Alex falou abraçando Piper.

Saiu do quarto um pouco triste, mas com esperança. O fato de Piper ter falado que ainda a amava deixou uma ponta de expectativa.

- Troquei a roupa dela e a deixei dormindo.
 

- Não abusou dela enquanto dormia não né? – Rafaela falou chamando a atenção.
 

- Claro que não. está achando que sou o que?
 

- Sei lá. Vendo aquele corpinho bonitinho, cheirosinha, jogada na cama inconsciente, pode querer abusar dela. – Rafaela falou debochando.
 

- Deixa de ser idiota. Nunca faria isso com Piper. Eu a amo muito, só quero o bem dela.
 

- Eu sei, estou brincando com você. – Rafaela descontraiu.
 

- Obrigada por me deixar entrar. Amanhã tentarei falar com ela. Vou ficar aqui até domingo e vocês?
 

- Não sabemos, pode ser até domingo ou até terça-feira.
 

- Até lá, tenho que reconquistar minha namorada.
 

- Conte comigo.

Despediram-se e foram dormir.

No dia seguinte Piper acordou e olhou em volta, estava de pijama. “Quem será que mudou minha roupa?”

- Rafaela, eu me deitei com a roupa da festa. Quem me trocou?
 

- Um anjo Piper.
 

- Ah tá. De anjo você não tem nada.
 

- Eu não disse que fui eu? – Rafaela falou indo em direção ao banheiro.
 

- Ah?

Piper ficou sem entender. Levantou-se e ficou olhando em volta. Lembrou-se da noite anterior, teve raiva de Alex ao pensar nela com Bianca. “Preciso tirar você da minha cabeça.”

As duas foram tomar o café da manhã e se reunir com Roberto, para mostrarem os custos da nova obra. Alex entrou em reunião e só saiu à noite.

Rafaela e Piper estavam jantando perto da piscina quando Alex apareceu e fez sinal para que Rafaela saísse.

- Piper, vou ao banheiro, uma dor de barriga toma conta de mim.
 

- Que isso Rafaela! 
 

- Já volto.

Piper ficou sem entender nada. Continuou jantando quando sentiu um cheiro familiar. Alex se aproximou por trás e abaixou, falou em seu ouvido.

- Podemos conversar?
 

- Agora não. – Piper respondeu sem se mexer.
 

- Por favor. – Alex roçou seu rosto no de Piper.
 

- Alex, para, não tenho nada pra conversar com você.
 

- Então apenas me escute. – Alex ainda insistia no carinho.
 

- Alex... – Piper falou melosa.
 

- Preciso de você na minha vida, sua presença me deixa feliz, minha vida é mais completa com você.
 

- Bianca sabe preencher esse espaço direitinho pelo que vi.
 

- Não é verdade. Ela foi apenas uma distração, achei que estava com Rafaela.
 

- Eu nunca tive nada com Rafaela e te falei isso, mas você não quis me ouvir.
 

- Eu estava transtornada, com muitos problemas.
 

- E vai continuar com eles, pois eu não quero mais participar da sua vida. Eu não quero mais sofrer, não quero ser trocada por qualquer outra coisa, não quero ser segundo plano, quero ser opção, quero ser prioridade também. Como você era na minha vida.

Alex olhava assustada. Piper parecia outra pessoa, estava com raiva, decidida e irredutível. Levantou e deixou a médica parada, sem saber o que fazer.

- Piper... eu te amo tanto... – Alex falou baixo, mais pra si mesma. Foi voltando para o quarto quando encontrou com Rafaela.
 

- E aí?
 

- Nada Rafaela, Piper está irredutível. Não sei mais o que faço.
 

- Calma. Dê tempo a ela agora. Quer um conselho?
 

- Qualquer coisa que me faça ter Piper de volta.
 

- Mande presentes, flores, ursinhos... essas coisas que mulher adora.
 

- Ah, eu não sou chegada em ursinhos e essas coisinhas melosas.
 

- É por isso que está sozinha! – Rafaela falou alto. – De tanta frieza no relacionamento, deu no que deu. Anda, mande presentes. Ela vai jogar os primeiros fora, mas depois ela vai aceitar.
 

- Como assim jogar fora? - Alex olhou assustada.
 

- Relaxa, por conta da raiva ela pode fazer isso, mas fique tranquila que eu ajudo.

Alex pensou no que Rafaela disse e resolveu seguir o conselho.

Piper chegou no quarto morrendo de raiva. Logo Rafaela entrou:

- Rafaela, por que você faz essas coisas?
 

- Que coisas?
 

- Não se faça de boba. Sei muito bem que anda tramando com Alex. Eu não quero isso. Não quero ver Alex nunca mais. Ela preferiu ficar com outra pessoa. Provavelmente a outra lhe deu um pé na bunda e ela agora veio me procurar. Mas eu não sou segunda opção.
 

- Ela quem terminou com a outra lá. Alex quer ficar com você Piper. Dê uma chance. Eu só estou tentando te ajudar, mas se não quer, tudo bem eu paro.
 

- Não quero mesmo. Me prometa que não vai mais programar de nos encontrarmos.
 

- Prometo. – Rafaela falou cruzando os dedos.
 

- Quero ir embora o quanto antes.
 

- Primeiro o trabalho.
 

- Sim, mas vou terminar no máximo amanhã. Quero ir embora pra minha casa.

Piper estava muito exaltada e Rafaela resolveu não discutir. Deixou-a desabafar. Quando se acalmou, tomaram banho e foram dormir. Piper rolou na cama a noite toda e quando adormeceu chegou a falar o nome de Alex algumas vezes. O que não passou despercebido por Rafaela.

No dia seguinte fizeram alguns esboços no computador, mostrando a Roberto como seria a parte externa da nova pousada e ficou acertado que começariam as obras em quinze dias.

Quando foram fechar a conta para irem embora Rafaela foi até o quarto enquanto Piper ficou na recepção. Um entregador se aproximou com um vaso de flores e um cartão.

 

- Senhora, por favor, é para entregar a senhorita Piper no quarto 410.
 

- Eu sou Piper, estava no quarto 410. Quem mandou?
 

- Tem um cartão senhorita, assine aqui, por favor.
Piper assinou e olhou o cartão.

“Piper, me perdoa, quero ficar com você. Minha felicidade é ter você ao meu lado.

Alex.”

Piper pegou o vaso de flores e entregou a recepcionista.

 

- Vai ficar lindo aqui em cima do balcão. Pode ficar.
 

- Mas mandaram para a senhorita.
 

- Mas não tenho como levar. Deixe aqui, ficará lindo.

Piper fechou a conta e saiu. Rafaela desceu em seguida e encontraram na saída da pousada, pegaram o carro e voltaram para Petrópolis.

Quando Alex foi procurá-las no quarto, viu que um empregado já limpava o local. Foi até a recepção e perguntou:

- As garotas que estavam no quarto 410 já saíram?
- Sim, deram baixa hoje de manhã.

Alex viu o vaso de flores em cima do balcão e fez outra pergunta:

- Que vaso bonito. É pra alguém?
 

- Sim, entregaram a senhorita Piper que estava no 410, mas ela deixou aqui.

A médica não conseguiu esconder a cara de decepção. Resolveu ali mesmo encerrar sua conta na pousada e ir embora também. O congresso já tinha terminado e não tinha sentido ficar ali sem Piper.

Durante a semana Piper se concentrou no novo projeto, ela e Rafaela trabalhavam totalmente dedicadas a nova pousada. Tinham gostado do terreno, dos planejamentos, o orçamento tinha total aprovação do proprietário e com isso as duas ficaram empolgadas.

Piper estava desenhando em sua sala quando Rafaela bateu na porta.

- Pode entrar Rafaela, desde quando precisa bater na porta?
 

- É que chegou alguma coisa pra você e acho melhor dar uma olhada. – falou tentando conter a satisfação.
 

- O que é?
 

- Venha ver.

Piper saiu de sua sala e quando chegou na porta do escritório uma caixa rosa e lilás estava em cima da mesa, devia ter uns setenta centímetros. Quando abriu um urso quase do tamanho da caixa estava La dentro, ela tirou e viu que ele segurava um coração e nele estava escrito “Meu coração é seu!” Tinha um cartão pregado na orelha do urso e Piper o leu.

“Piper, meu amor, volta pra mim. Não consigo viver sem o seu olhar, o seu carinho e seu sorriso. Meu coração é seu! Quero ter você de volta.

Alex.”

Piper olhou para Rafaela, que não conseguiu esconder o sorriso:

- Eu não tenho nada a ver com isso.
 

- Sei... – Piper a olhou, séria.
 

- Não joga fora não, é tão lindinho.
 

- Então fica pra você.
 

- Ah largue de ser boba, você adora bichinho de pelúcia e aposto que gostou desse.

Piper olhou o urso, era tão macio, não pôde esconder o sorriso.

- Aí, está até rindo. Aposto que gostou. Anda, fique com ele.
 

- Tá bom. Mas fico porque gosto muito de ursos.
 

- Isso aí amiga.

Piper abraçou o urso, tinha o cheirinho de Alex. Foi pra sua sala, o colocou novamente na caixa e foi trabalhar. Rafaela disse que precisava comprar alguma coisa e saiu. Imediatamente ligou para Alex:

- Ela aceitou. Guardou o urso na sala dela. Deve levar para casa depois.
 

- Ai! Graças a Deus!
 

- Sabia que ela iria gostar, Piper não resiste a bichinhos de pelúcia.
 

- E o cartão?
 

- Bom, ela leu, e levou junto com o urso. Não sei o que vai fazer. Estamos amolecendo a fera, continue assim e ela vai ceder.
 

- Daqui uns dias mando chocolates. O que acha?
 

- Ótimo, mas vê se não exagera tá. Ela não quer engordar.
 

- Tá bom.

Alex desligou o telefone, satisfeita. Iria reconquistar Piper de qualquer forma.

À noite, Piper levou o urso para casa. Deixou dentro da caixa mesmo e guardou no guarda roupa. Tomou banho, jantou com a família e depois foi dormir cedo.

Na sexta-feira estava saindo para almoçar quando recebeu mais uma caixa. Dessa vez vermelha. Abriu e eram chocolates, os que ela mais gostava. Vinha um cartão junto e nele dizia.

“Linda, me aceita em sua vida de novo? Eu preciso de você pra alegrar meu dia, assim como os chocolates adoçam, a vida. Por favor, quero ter você de volta.

Alex.”

Piper guardou o cartão e os chocolates na sala e nada comentou com Rafaela. Foram almoçar e quando voltou o escritório estava cheio de flores, vasos coloridos, buquês de rosas, margaridas, flores do campo, orquídeas. Eram tão variados, deixaram o ambiente perfumado. Olhou espantada pra toda aquela “floricultura”.

- Mas o que é isso?
 

- Chegou agora a pouco, falou o rapaz que trabalhava como secretário.
 

- Tá certo. – Piper sorriu e nada falou.

Rafaela entrou no banheiro e de lá ligou para Alex:

- Você ficou maluca?
 

- Por quê?
 

- Pra que tantas flores? A sala mais parece um velório.
 

- Credo Rafaela. Era pra decorar e perfumar o ambiente. Piper gosta de flores.
 

- Eu sei, mas você não pode exagerar. Seja discreta, ela não gosta de nada muito efusivo.
 

- Tudo bem. Vou tentar me comportar. O que ela achou dos chocolates e das flores?
 

- Não falou nada, mas guardou tudo. Menos as flores, não é? Não tem nem como guardar esse jardim instalado aqui.

Alex achou graça e desligou. Estava feliz. Piper parecia ceder aos apelos dela.

A loirinha entrou em sua sala, abriu a gaveta e pegou um cartão. Escreveu, pegou os chocolates e saiu. Do lado de fora, pegou uma tesoura e retirou de cada arranjo, uma flor, fez uma amostra de todas que tinha ganhado, foi para casa levando as flores e os chocolates, pegou a caixa que estava o urso colocou tudo lá dentro e saiu de carro. Ninguém a viu.

Foi direto para o Rio de Janeiro. Chegando lá, se dirigiu até a casa de Alex. Pelo horário ela deveria estar chegando do trabalho. Por volta das cinco horas da tarde a médica apareceu. Quando viu o carro de Piper seu coração até acelerou.

Piper desceu do carro com a caixa na mão e entregou a Alex.

- Toma, um presentinho pra você meu amor. – Entregou, voltou para o carro e saiu.

Alex quando abriu a caixa, viu que era o urso, e na frente do coração um papel pregado. “O meu coração não é mais seu!” Na caixa tinha os chocolates, os cartões e algumas flores. No fundo havia um cartão.

“Alex, não se conquista uma pessoa com coisas materiais, o tempo que teve para me demonstrar amor você não quis. Jogou fora e não ligou para meus sentimentos. Você não me ama, pois amor foi uma palavra que nunca saiu de sua boca para mim. Procure alguém que seja compatível com você. E tente ser feliz!

Piper.”

Alex ficou sem ar. A vista escureceu e quase desmaiou. Subiu com a caixa na mão e quando abriu a porta Diane se assustou.

- Que cara é essa Alex? O que você tem?
 

- Nada mãe, me deixa quieta.

Foi para o quarto, colocou a caixa no chão, deitou-se na cama e chorou. Não conseguia segurar e até Diane percebeu que a filha chorava dentro do quarto.

- Alex abra a porta. O que está acontecendo?
 

- Me deixa em paz mãe! Quero ficar sozinha.

Chorou até adormecer, ficou no quarto praticamente o final de semana todo, no final do dia ligou para Rafaela e desabafou tudo que sentia. Diane insistia, batia na porta e ela não respondia. Estava preocupada com a filha, era sempre tão alegre, tão animada e não entendia esse comportamento. De repente Alex abriu a porta e saiu sem falar nada, só voltou tarde da noite.

Os dias passaram e cada dia a médica ficava mais abatida. Diane não entendia, tentava animá-la, saiam juntas, faziam passeios e a filha nem ao menos esboçava um sorriso para agradar. Até os pacientes notavam que a médica não era mais a mesma pessoa. O carinho pela mãe não havia mudado, mas ela não era a mesma pessoa.

Um dia, arrumando as coisas no quarto de Alex, Diane viu a caixa e abriu. Viu os cartões que a filha mandou para Piper e os que a loirinha também escreveu. Leu tudo e foi direto ao telefone:

- Gostaria de falar com Piper?
 

- Só um minuto, senhorita Piper está em outra ligação.

Diane aguardou impaciente ao telefone:

- Alô.
 

- Piper, aqui é Diane.
 

- Oi, tudo bem?

Diane ignorou os cumprimentos de Piper e foi direto ao ponto.

- Eu quero saber o que está acontecendo entre você e Alex?
 

- Também estou bem dona Diane. E não acontece nada entre Alex e eu. Por que a pergunta?
 

- Alex está abatida, desatenta e distante, principalmente da família.
 

- De você na verdade.
 

- O que você está fazendo com minha filha? Eu já disse milhares de vezes que Alex não serve para se relacionar. Ela nasceu para ficar sozinha.
 

- Porque você quer, não é? Enquanto isso é conveniente a você.
 

- O que está dizendo menina?!
 

- Estou dizendo a verdade. E quer saber, eu desisti de Alex, porque não quero que ela fique entre a mãe e a namorada. Eu deixei o caminho livre pra você usufruir sozinha da sua filha. Agora só pense que essa vida é curta demais pra querer alguém só pra gente. As pessoas são livres para viver.
 

- Alex não precisa de você na vida dela. Eu a criei com muito sacrifício e ela só retribui o que eu fiz por ela. Ela bem sabe que eu poderia ter abortado, mas eu não quis.
 

- Você não fez mais que a sua obrigação. Filho é pra vida toda. Não tem que cobrar dela isso. A irresponsabilidade foi sua e não dela. Se resolveu assumir a filha, foi porque quis, não para cobrá-la depois.
 

- Você não sabe o que está dizendo.
 

- Você é quem não sabe o que faz com sua filha, você a manipula, você joga com ela e se aproveita da boa vontade que ela tem com a família. Que amigos Alex têm? Quantos namorados ela teve? As relações que teve foram passageiras e você nem ficou sabendo. Como essa loira falsa que ela andou saindo. Você não sabia.
 

- Que loira. De quem está falando?
 

- Pois é, se a sua filha não quis te falar, eu é que não vou. Aprenda uma coisa Diane, ninguém é de ninguém. E na vida devemos fazer somente de coração, quando passa a ser cobrança perde-se o bom da vida, que é ser espontâneo. Eu sempre fui com Alex, nunca quis nada dela além de seu amor, que nem isso ela me deu. Pois ela tem remorso de dividir o amor dela com outra pessoa que não seja você. E sabe por quê? Porque ela se sente culpada por tudo que sofreu, mas ela não é.
 

- Você é uma pessoa malcriada, não merece Alex.
 

- Não, eu sou apenas a pessoa que te falou a verdade na cara. Pois ninguém teve coragem pra isso até agora. Se não for eu, outra pessoa vai querer conquistar Alex. Ela é jovem, linda, inteligente, tem todos os atributos para ser desejável. E aí? O que vai fazer com as próximas ou os próximos que aparecerem na vida dela?
 

- Isso é um problema que eu vou resolver depois. Não é da sua conta.
 

- Pois é, você vê como um problema qualquer relacionamento que ela tenha. E não é assim. Diane entenda, eu gosto muito de você. Sempre te achei inteligente, esclarecida e a admiro por isso. Mas às vezes você toma posturas que prejudicam muito sua filha. Não vê que a faz sofrer?
 

- Piper, vou te dizer uma coisa. Suma da vida de Alex, porque você faz mal a ela. Ela anda abatida por sua causa.
 

- Eu a amo muito, Alex é a mulher da minha vida, mas também não sei lidar com essa situação. E não é verdade que ela anda abatida só por mim. Ela está assim porque não sabe o que fazer, está dividida entre mãe e filha. E você não ajuda em nada.
 

- Passar bem e suma de nossas vidas.

Diane desligou o telefone na cara de Piper.

- Odeio quando desligam na minha cara.

Piper olhou para o telefone e viu que a conversa tinha sido gravada sem querer. Escutou novamente e ia apagar quando resolveu guardar. Saiu do escritório e foi para um lugar que sempre ia sozinha. Pegou a estrada e foi dar uma volta.

Lembrou-se de quando conheceu Alex, tão sem querer que nem acreditou. Achava graça daquele primeiro encontro no ônibus. Sentiu-se tão a vontade que logo imaginou que poderiam ser namoradas, mas achava que Alex não se interessaria por ela. Pois achava pouco para a médica, alta e tão bem desenrolada. Era realmente uma admiradora de Alex acima de tudo. Gostava de como trabalhava, de como resolvia as coisas, era desembaraçada e prática. Gostava de ficar a sós com ela, mesmo quando eram momentos curtos. Gostava de ser cúmplice dela, de ser amiga e companheira. Mesmo quando Alex desconfiava do que fazia. Achou graça quando ela brigou porque Piper havia saído de casa para um coquetel e chegou tarde. Havia colocado na cabeça que ela tinha bebido e na verdade não havia passado perto se quer de uma gota de álcool. Gostava até das broncas que Alex lhe dava. Lembrou-se dos beijos, das carícias. “Por que não estou com ela? Por que brigávamos tanto? Será que era pra ser assim? E se o certo for nos separarmos mesmo?” Piper ficou pensando, repensando. Resolveu voltar para casa. Tinha tomado uma decisão e precisava de ajuda.

Alex estava no quarto lendo um livro quando Diane entrou.

- Alex, quero saber o que está acontecendo com você. Por que anda triste assim? Está saindo com alguém? Quero saber se você está se envolvendo com outra pessoa, estou desconfiada disso.

Alex ficou olhando para mãe com uma cara incrédula, mas Diane não parou de falar:

- Você está estranha, eu achei que iria melhorar se separando de Piper, afinal ela não é pra você.
 

- Não fale isso mamãe. Não gosto quando fala assim das pessoas.
 

- Eu liguei pra Piper hoje e ela me disse que você está saindo com outra mulher.
 

- Como é que é? Pra que ligou para Piper?
 

- Eu queria ter uma conversa com ela, queria saber por que você está assim.
 

- E o que ela te disse?
 

- Disse que não quer mais te ver, que não te ama, que desistiu de você. Que devolveu os presentes para se vingar. Que quer outra mulher pra vida dela, que dê a atenção que ela merece. E que você não sabe dar atenção a ela e só quer saber da sua família.
 

- Piper disse isso? – Alex estava espantada.
 

- Sim e ainda falou que você tem outra pessoa. Quem é?
 

- Não acredito que Piper tenha feito uma coisa dessas.
 

- Fez e ainda disse que eu sou um fardo pra você.
 

- O que? – Alex já alterava a voz. Estava irritada. 
 

- Eu sou um fardo pra você Alex? – Diane falou magoada.
 

- Claro que não mãe. Você é minha mãezinha querida. Não quero nunca me afastar de você. – Não tenho ninguém, quero somente ficar só. Não terei mais relacionamentos, pelo menos não tão cedo. Quero me dedicar a outras coisas na vida.
 

- Eu gostava de Piper. O jeitinho dela às vezes era estranho comigo, mas eu gostava dela. Fiquei decepcionada.

Alex abraçou a mãe.

- Não fique assim mamãe, ela não merece sua tristeza.

Diane saiu radiante do quarto. Agora estava contente, pois sem querer acabou separando mais Piper de Alex. E poderia viver tranquilamente como vivia com a filha.

Já Alex ficou ainda mais triste. Não conseguia acreditar que Piper pudesse dizer as barbaridades que falou.

Piper chegou em casa e ligou para Rafaela, pediu que fosse até sua casa. A garota chegou em poucos minutos.

- Que foi Piper? Parecia nervosa.
 

- Mais ou menos. Hoje Diane me ligou.
 

- É? E o que ela queria?
 

- Me disse uma porção de barbaridades Rafaela. Só você ouvindo pra acreditar.
 

- Poxa, era uma hora dessas que a gente poderia gravar aquela bruaca falando.
 

- Pois é, eu gravei.
 

- É sério? Piper você está me saindo mais esperta do que pensava.
 

- Larga de ser besta. Escuta aqui a conversa.

Piper colocou a gravação e Rafaela escutou com toda atenção.

- Gente, essa mulher não deixa a filha se envolver com ninguém.
 

- Era o que eu te dizia às vezes.
 

- Isso é doentio. E como Alex não percebe?
 

- Porque é mãe dela, Alex não vai nunca pensar que a mãe a domina, ainda mais da forma como Diane faz. Sempre cercando, fazendo o papel de frágil e no fim cobrando de Alex uma postura mais familiar.
 

- E o que pretende fazer com essa gravação?
 

- Bom, na certa Diane já foi falar com Alex sobre nossa conversa. O que eu penso é que ela deve ter me procurado pra alguma coisa, e como sentiu que não estava bem com a filha dela, fez um jogo pra piorar ainda mais.
 

- Você acha que ela pode estar fazendo sua caveira com Alex não é?
 

- Sempre achei isso Rafaela, só nunca pude comprovar. 
 

- Mas até agora não entendi o que você quer fazer.

Piper ficou um pouco sem graça e falou baixinho:

- Eu amo muito Alex, não consigo ficar sem ela.
 

- Ah, eu sabia que essa pirraça não ia durar muito tempo. Mas você andou pegando pesado hein.
 

- Como assim?
 

- Devolver todos os presentes daquela forma Piper, não foi nada agradável.
 

- Como você sabe? Rafaela você anda me seguindo? – Piper falou espantada.
 

- Não, panaca! Eu ando conversando muito com Alex.
 

- Ah?! Como assim?
 

- Vou te contar... No dia que você devolveu os presentes. Alex me ligou, estava chorando muito, quase nem conseguiu falar. Eu pedi calma e combinamos de nos encontrar.

“- Rafaela, não sei o que fazer? Piper não quer conversa comigo. Me sinto tão inútil.
- Calma Alex. Ela está fazendo pirraça. Não acredito que ela não goste de você. O que penso na verdade é que ela parece querer vingar-se por você tê-la ignorado quando te procurou na clínica aquela vez.

 

- Ela está sendo tão dura comigo. Piper não era assim.
 

- Ela está ferida, ver você com outra pessoa e ainda parecendo feliz deve ter doído muito.
 

- O que eu faço? Não consigo me aquietar. Dá uma vontade grande ir lá na casa dela, bater na porta e falar com ela de qualquer jeito.
 

- Não faça isso! Vai espantá-la ainda mais. Dê tempo ao tempo. A verdade sempre aparece e o tempo faz tudo parecer mais claro. Basta que você tenha paciência.
 

- É tão difícil viver sem ela... – Alex não conseguiu falar, pois o choro tomou conta.”

- E foi mais ou menos isso Piper. Ela estava triste mesmo. Desculpa, eu sei que fazer as coisas escondido é feio, mas estava somente tentando ajudar. Quando vi que você fez aquilo tudo, acabei ficando na minha. Você foi grosseira e Alex não merecia isso. Achei realmente que você não gostava mais dela.
 

- Eu gosto Rafaela. Mas eu não consigo mais suportar a mãe dela. Acho que Diane nunca vai me aceitar e isso dificulta muito minha convivência com Alex. Eu não sei lidar com isso.
 

- Estamos numa situação difícil hein. Agora Alex deve estar com muita raiva de você e ainda por cima está com uma praga do lado dela infernizando diariamente. Porque Diane deve falar todo santo dia na cabeça da coitada que você não presta.
 

- Eu too lascada!
 

- Calma amiga! Tudo dá seu jeito. Posso tentar marcar um encontro, que acha?
 

- Tipo o que você fez em Teresópolis não é, sua sacana?
 

- Mas deu certo. – Rafaela falou olhando pra cima, como se achando a melhor.
 

- É verdade. Então vamos tentar.
 

- Ok. Agora tenha paciência, porque talvez isso demore.
 

- Tá bom, eu tentarei trabalhar minha paciência, que anda escassa! – Piper revirou os olhos.




Mas de duas semanas se passaram e Piper todo dia cobrava de Rafaela uma posição pra falar com Alex.

- Você disse que teria paciência! – Rafaela falou resmungando.
 

- Eu estou tendo!
 

- Nossa! Imagina se não tivesse, estaria me espancando então.
 

- Ah Rafaela! Você é muito devagar. Em Teresópolis você fez tudo rapidinho!
 

- Mas lá as condições eram outras. Estou tentando falar com Alex e não consigo, acho que ela está viajando.
 

- Pra onde?
 

- Se eu soubesse não estaria aqui dando bobeira, já teria marcado esse encontro. Tenha um pouco mais de calma, vou tentar mais algumas vezes.

Rafaela tentou durante a semana toda e no fim de semana conseguiu falar com Alex.

- Alex, estou tentando falar com você faz um tempão!
 

- Estava fora da cidade e não tenho nada pra falar com você mais. Não quero ver Piper nunca mais.
 

- Acho bom você me escutar.
 

- O que é? – Alex falou irritada.
 

- Queria falar com você pessoalmente. Por telefone é meio complicado.
 

- Não quero isso mais.
 

- Alex, você me procurou diversas vezes pedindo ajuda, agora quem pede ajuda sou eu. Não me negue isso, sei que você sabe ser compreensível quando quer.

Alex pensou e resolveu aceitar o convite.

Quando desligaram, Rafaela foi correndo falar com Piper.

-Piper, consegui!
 

- Jura!? Ai que bom Rafaela! Obrigada.
 

- Não tem que agradecer. Apenas prepare-se. Estou torcendo pra dar certo.

No dia do encontro Piper não sabia o que fazer. Se preparou o melhor que pode, escolheu a roupa com todo cuidado. “Quero estar bonita para Alex!”

Colocou uma calça jeans que Alex adorava quando ela usava. Fazia um pouco de frio e optou por uma blusa de gola alta e um casaco de couro. Colocou botas pretas e se maquiou. Deixou os cabelos soltos, se perfumou e saiu de casa. Pegou Rafaela na casa dela e foram para o Rio de Janeiro. Era sexta-feira e Rafaela havia combinado de encontrar Alex em um barzinho com música ao vivo. O lugar era aconchegante e daria para as duas conversarem. Piper deixou Rafaela perto do local e procurou um lugar para estacionar, chegaria um tempo depois.

Quando Rafaela avistou Alex foi em direção a sua mesa e se sentou.

- O que tem tanto para falar Rafaela?
 

- Você deve estar com muita raiva de Piper eu sei. Mas reconsidere as atitudes dela Alex. Piper se arrependeu de ter feito aquilo com você.
 

- Eu não estou chateada pelos presentes que ela devolveu. Piper simplesmente desacatou minha mãe. O que ela tem a ver com isso? Meus problemas com Piper sempre foram só nossos e minha mãe nunca se meteu. Não gostei de ela ter chamado minha mãe de fardo. Minha família não é um fardo pra mim. Minha mãe nunca se meteu em meus relacionamentos e sempre me respeitou. Nossa convivência é assim, mas quem não entendeu foi Piper.

Rafaela estava espantada com tanta raiva e mais ainda com o que Diane havia falado com Alex. “Piper estava certa, a velha é fogo!”

- E tem mais, minha mãe tentou ajudar e Piper foi grosseira com ela. Foi egoísta querendo minha atenção toda pra ela. Não admito isso! Minha mãe está muito chateada, ficou tremendamente frustrada e decepcionada com Piper. Pois gostava muito dela.
 

- Tem certeza de que tudo que sua mãe lhe disse é verdade?
 

- O que está insinuando que minha mãe é mentirosa? – Alex logo se alterou.
 

- Calma aí mulher! Eu só perguntei.
 

- Se pergunta é porque desconfia.
 

- Pois então vou mudar a pergunta. Você não ficou desconfiada de que Piper não pudesse ter dito essas coisas? Para pra pensar, isso não é típico dela.
 

- Eu pensei nisso, mas não duvido nunca de minha mãe. É a única pessoa em que mais confio nessa vida.
 

- Ah, interessante. Muito bom!
 

- O que é?
 

- Bom Alex, eu marquei esse encontro porque queria te dizer umas coisas, mas vejo que não fará diferença nada que eu diga, pois você já escolheu o lado que quer ficar. Piper está esperando ali fora, porque depois de nossa conversa ela iria conversar com você também, pra tentarem se entender.
 

- Piper não quer se entender comigo. Ela queria se vingar e se vingou. Ela não me quer mais.
 

- Ah tá... e quem disse isso foi a sua mãe também.
 

- Claro.
 

- Então nem quer falar com ela?
 

- Onde ela está?

Rafaela ligou para Piper, somente deu um toque, pois já havia combinado isso. Em instantes ela apareceu no local. Estava linda, radiante e com um sorriso que derreteu Alex. Quando se aproximou da mesa viu que Rafaela não estava com uma cara muito boa.

- Alex, desculpe pelo que fiz com os presentes.  – Falou envergonhada.
 

- Não peça desculpas. Só quero que entenda que não quero mais nada com você. O que disse para minha mãe me mostrou que você não era quem eu achava. Sua egoísta, mimada, só quer atenção pra você e quando não a tem se vinga como fez comigo! – Alex foi levantando-se e indo pra cima de Piper. – Você acha que todos têm que estar em prontidão pra te atender?
 

- Alex! O que você tem? - Piper ia se afastando enquanto Alex ia pra cima dela.
 

- Eu tenho é nojo de você, tenho raiva de quem não gosta da minha família. A forma como tratou mamãe não tinha necessidade.
 

- Eu não tratei sua mãe mal. – Piper não entendia.
 

- Se o que falou com ela não é tratar mal, imagino como faz então. A gente conhece bem as pessoas pelo que elas fazem quando não estão sendo vigiadas pela sociedade. E você mostrou ser um ser humano da pior espécie.

Alex saiu e deixou Piper assustada, que mesmo assim foi atrás dela. Rafaela que havia ficado sentada, resolveu ir atrás das duas. Piper se aproximou de Alex que já ia pegar um táxi. Chovia muito.

- Alex! Não foi assim como você está dizendo. Eu não disse essas coisas. Espera meu amor!
 

- Não me chama de meu amor nunca mais e suma da minha vida. – Alex falou e empurrou Piper. O chão estava molhado e ela se desequilibrou, caindo em seguida.

Rafaela vinha atrás e amparou Piper, que já chorava feito criança.

- Calma amiga. Agora deixe o tempo passar. Ela vai saber da verdade mais cedo ou mais tarde.
 

- Ela não gosta mais de mim! Ela me odeia Rafaela. – Piper chorava de soluçar.

Entraram no carro e Rafaela foi dirigindo.

- Ela gosta sim. Ela só não sabe a verdade.
 

- Ela me odeia, ela me odeia... – Piper estava inconsolável.

Alex pegou o táxi e foi embora para casa. Pensava em tudo que Piper havia dito, ao mesmo tempo em que se enfurecia, não conseguia acreditar. Era uma Piper totalmente diferente da que ela conhecia. Não conseguia entender como havia passado tanto tempo ao lado de uma pessoa egoísta como ela. Chegou em casa e Diane estava vendo TV. Viu que a filha chorava e somente quando deu o comercial do programa que estava vendo, foi ao quarto de Alex.

- Alex onde você foi?
 

- Fui falar com Piper mãe.
 

- O que? Alex você não tem vergonha na cara?
 

- Ela pediu um encontro, queria conversar.
 

- E como foram as coisas, o que ela disse? – Diane estava assustada.
 

- Não a deixei dizer nada. Eu que disse, tudo que estava engasgado aqui eu falei. Piper não merece minha tristeza, não merece mais nada meu. Mãe, sinto muito por ela ter te magoado. Se soubesse que ela não gostava da senhora, nunca teria a trazido nem aqui em casa.

Diane não pode esconder a satisfação.

- Não fique assim minha filha. Tudo isso vai passar. Se não tiveram que ficar juntas é porque a vida não quis. Melhor ficar sozinha mesmo. E como diz o ditado, antes só, que mal acompanhada.
 

- Como ela pôde ser tão egoísta? Será que ela não gostou nem um pouco de mim?
 

- Eu não sei. Não vou dar minha opinião para não piorar as coisas. Mas acho que ela gosta de status, de ficar perto de pessoas que possam parecer elegantes aos olhos dela. Piper é mimada demais. Quer a atenção do mundo para ela.
 

- Mas eu não sou nada demais, sou tão comum. E nosso relacionamento durou um ano. Piper estava sempre ao meu lado, me ajudava sempre. Não parecia ser assim, ela sempre me compreendia.
 

- Por interesse talvez. Eu não tenho certeza, mas é o que parece.
 

 

 

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- Piper, fique tranquila porque essa situação não vai durar muito.
 

- Estou é triste Rafaela, não consigo entender o comportamento de Alex.
 

- Diane realmente fez aquilo que você imaginou.
 

- Falou tão mal assim de mim?
 

- Sim, mas isso vai durar pouco. Alex precisa saber da verdade. Não que eu ache que Diane seja uma mãe ruim, mas ela é egoísta demais. E está extrapolando, fazendo as pessoas sofrerem por causa disso.
 

- Não quero que Alex escute aquela gravação.
 

- Por que não?
 

- Alex tinha que acreditar em mim sem nenhum tipo de ajuda. Mas se ela não acredita, então é porque não confia em mim. Talvez nunca tenha confiado. – Piper falou triste.
 

- Minha amiga, não fale assim. Não tome a posição de vítima. Você é uma das protagonistas dessa história e ela terá um final feliz, eu acredito nisso. Tenha fé.
 

- Eu tenho fé Rafaela. Mas estou tão triste. Alex nunca havia me agredido.
 

- Eu sei, ela pegou pesado, mas com certeza já deve ter se arrependido.


 



Alex estava deitada pensando nos últimos acontecimentos. Pensou em ligar para Rafaela e saber se Piper estava bem. Havia a empurrado com força e nunca tinha feito uma agressão daquelas, com ninguém. Muito menos com a mulher que amava. “Amar? Será que amo mesmo? E Piper, será que amava como dizia? Agora também não adianta.” Estava perdida, chateada, não tinha ânimo pra nada, queria dormir e só acordar muito tempo depois dessa confusão toda. Viu que não conseguiria dormir e foi para o quarto de sua mãe. Deitou-se ao seu lado e colocou a cabeça em sua barriga.

- Tudo vai melhorar agora Alex. Seremos só nós... como sempre...

A médica ficou pensativa, Piper não saía de sua cabeça. Conseguiu dormir bem tarde e ainda sonhou com sua loirinha.




Rafaela e Piper chegaram em casa. Piper deixou que Rafaela fosse com seu carro para sua casa.

- Amanhã você vem aqui e entrega o carro, vai nele porque acho que não estou em condições de dirigir.
 

- Tudo bem. Não fique triste, essas coisas vão se resolver. Confiem pelo menos em mim.
 

- Rafaela você não vai usar aquela gravação. Quando eu subir pro quarto vou jogar fora. Alex teria que ter acreditado em mim.
 

- Pensa bem Piper. É a mãe dela, você deixaria de acreditar na sua mãe pra acreditar em outra pessoa? Seja quem for, mãe é mãe e tem um poder muito maior.

Piper pensou, ponderou, mas continuou firme:

- De qualquer modo, eu vou jogar fora. Acho que até já joguei, tinha decidido não usar aquilo mais.
 

- Você é quem sabe...

Despediram-se, Rafaela foi para casa e Piper subiu para seu quarto. Ficou pensando no que Rafaela falou. “Rafaela está certa. E ela não tem mãe? Nunca me falou da família dela. Estranho... uma hora vou perguntar.” Entrou em seu quarto e procurou o CD com a gravação, mas não o achou. “Devo ter jogado aquela porcaria fora. Ou será que deixei no escritório? Acho que joguei fora mesmo.”

Tomou um banho rápido e se deitou. Alex não saia de sua cabeça. Queria tanto estar perto dela. Poderia ter sido tudo tão diferente. Dormiu e sonhou com o mais belo amor que já tinha tido na vida.

Rafaela foi pra casa com o carro. Chegando lá, estacionou e pegou dentro da bolsa um CD. “É, isso aqui é o que vai desenrolar essa história toda. Piper minha amiga, desculpa, mas esse pedido seu eu não vou atender.”

 

 


Notas Finais


Agora Diane que lute kk
Rafa quer o mundo ?
eu te dou!


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