História .crawling back to you - Capítulo 3


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Categorias It: A Coisa
Personagens Edward "Eddie" Kaspbrak, Richard "Richie" Tozier
Tags Angst, Drama, Eddie Kaspbrak, Fluffy, It: A Coisa, Lemon, Reddie, Richie Tozier, Romance, Tragedia, Yaoi
Visualizações 65
Palavras 3.536
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Fantasia, Fluffy, Lemon, LGBT, Romance e Novela, Slash, Sobrenatural, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Spoilers, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 3 - You're my best friend, and we're dancing in a world alone


Fanfic / Fanfiction .crawling back to you - Capítulo 3 - You're my best friend, and we're dancing in a world alone

UM QUARTO BAGUNÇADO JÁ ERA comum para Richie Tozier. Nunca teve costume de organizar seu quarto, nem quando recebia visitas. Mas, como sempre, Eddie não pensava da mesma forma. Aquele quarto revirado estava quase causando um ataque de pânico ao garoto, que se perguntava como guardava tantas coisas embaixo da cama sem que tivesse consciência disso.

Não era mais nenhuma novidade que a família Kaspbrak iria deixar a pequena cidade de Derry. Mas embora Sonia tivesse tomado a decisão de partir a um tempo, Eddie enxergava tudo como uma dificuldade, inclusive arrumar seus próprios pertences. Ainda que quisesse esquecer de todos os traumas que aquele lugar lhe causou, algo o impedia de fazer o que deveria fazer. Talvez a última coisa que queria fosse deixar seus amigos, após tantas coisas que passaram juntos.

— Olha só, Eddie! — Richie erguia uma das revistas empoeiradas que encontrou na direção dele, impedindo que Eddie continuasse com suas ocupações.

Eddie sabia que a presença de Richie só iria atrapalhar no processo de mudança, mas mesmo assim, o garoto não permitiu que Eddie se afastasse. Ao invés disso, ficou o mais próximo possível dele, sempre procurando por qualquer oportunidade para lhe tirar do sério.

— Essa aqui até parece com a sua mãe — ele comentou, sorrindo ao notar o olhar irritado de Eddie Kaspbrak, que perdeu tempo apenas para ver uma mulher de biquíni em uma revista.

— Porra, Richie, onde conseguiu isso?! Na verdade.. não! — Eddie balançou a cabeça rapidamente, escutando as risadas de Richie — Eu não quero nem saber!

— Qual é Eddie, eu sei que você gosta!

— Você nem devia ter trazido isso! — suas bochechas já ardiam de vergonha, impossibilitando que o garoto sequer olhasse para ele — Minha mãe.. vai ficar uma fera se souber que você está aqui!

— Então eu não posso nem dar um beijinho nela?

— Que merda.. você vai vir me ajudar ou não?! — Richie largou a revista em cima da escrivaninha, desviando de todas as tralhas espalhadas no chão para que alcançasse a cama.

Eddie nem se permitia chegar perto. Nunca imaginou que poderia ser tão sujo embaixo dela, mas ainda assim, escondia grandes relíquias dos quadrinhos que não abandonaria de forma alguma. Tinha a sorte de Richie Tozier, sua péssima influência, estar por perto para que pudesse fazer a pior parte do trabalho. O garoto esticou a mão para que alcançasse o fundo, a procura dos gibis que estavam perdidos em algum lugar.

— Achou alguma coisa? — Eddie questionou, esperançoso. Logo, com uma certa dificuldade, Richie esticou seu braço de volta, segurando uns três gibis cobertos de sujeira.

— Você tem a primeira edição?! — Tozier arregalou os olhos, admirado pela capa que sempre via nas bancas mas jamais teve a chance de comprar.

Eddie desviou o olhar. Sabia que toda aquela sujeira poderia ser prejudicial, ainda que fosse necessário um grande sacrifício. De certa forma, os gibis já tinham até perdido a graça também. Talvez nenhum deles continuassem a ter o mesmo espírito juvenil de antes.

— Quer saber? Você pode ficar com eles — Eddie deu de ombros — É meu presente de mudança!

— Você só pode estar brincando! — Richie abriu um sorriso de orelha orelha. Talvez tivesse valido a pena. Era difícil enxergar uma expressão de felicidade no rosto do amigo depois de todos aqueles acontecimentos — Eddie, meu amor, meu querido, minhas estrelas e meu luar..

Eddie revirou os olhos, sorrindo. Nem mesmo ele acreditava na grande capacidade que Richie Tozier tinha em ser um idiota. Ele o abraçou rapidamente, se deitando no chão em seguida para que lesse cada uma daquelas páginas, sem se importar com o quão desgastadas elas estavam.

A grande quantidade de brinquedos naquele quarto foi suficiente para que enchesse dezenas de caixas. Por mais que sua mãe não gostasse que acumulasse coisas, Eddie não conseguia se desapegar de tudo que tinha o feito tão feliz no passado. A nova casa provavelmente seria ainda maior, e isso deveria o deixar feliz, não deveria? Finalmente poderia se afastar de todas aquelas memórias, de todo aquele medo que tirava seu sono toda noite. Mas, principalmente, teria que se afastar de seus amigos. E isso infelizmente incluía o garoto irritante em seu quarto, que amava quadrinhos de super-heróis.

Eddie suspirou com o pensamento. A distração fez com que derrubasse uma das caixas, causando um barulho alto no quarto.

Eduardo, ándale! — Richie exclamou descontraidamente, incentivando a ele que continuasse a arrumar suas coisas. Mas, logo percebeu o olhar frustrado do garoto, que simplesmente abandonou o que fazia para que se sentasse no chão.

Richie se levantou devagar, recolhendo cada um dos brinquedos que caíram no chão para que os organizasse de volta na caixa. Eddie estava pensativo, focando seu olhar em algum canto do quarto. Não sabia descrever o que estava sentindo. Aquele quarto parecia ficar mais e mais vazio, e aquilo o assustava. Tinha vivido tantos momentos bons naquele quarto, com seus amigos. A ideia de estar partindo depois de tanto tempo o assustava.

— Obrigado — sussurrou, notando que ele havia arrumado a caixa exatamente como estava.

Eddie passou a mão no próprio rosto, em uma tentativa de despertar para que seguisse em frente. Nem sabia se conseguiria, mas ainda assim, não queria desapontar sua mãe com toda sua incompetência. Só tinha um único papel naquela mudança, então por que parecia tão difícil fazê-lo?

— Cara.. — ele murmurou, cruzando as pernas — Sou tão idiota..

— Você está esperando que eu discorde? — Eddie lançou um olhar condenatório em sua direção. Era incrível como ele conseguia o irritar tanto, mas ao mesmo tempo, era o único de seus amigos do qual mais depositava sua confiança — Desculpe. — ele sorriu travesso.

Eddie desviou o olhar, sem responder.

— O que aconteceu? — Richie indagou, alterando seu tom de voz. Ele parecia mais preocupado. Tal como esteve ao dormirem juntos da outra vez. O medo ainda estava ali, só que com a presença de Richie, ele parecia diminuir gradativamente — Quer que eu te ajude a arrumar?

— Não é isso, é que.. — Eddie suspirou. Nem sequer sabia explicar o que estava sentindo. Tinha perdido essa capacidade a um bom tempo.

Richie se aproximou discretamente, em completo silêncio. O seu corpo queimava como brasa só por estarem tão perto um do outro. Ele massageou suas próprias mãos suadas, buscando dizer algo que não parecesse idiota naquele instante. Eddie estava realmente triste, e se não fosse loucura, diria que ele estava esperando por algum conselho de sua parte. Quem esperaria por um conselho de sua parte?!

— Tem.. tem certeza que não quer ler? — ele praticamente cuspiu as palavras, erguendo a revista que ainda estava em suas mãos. Quase se sentia o próprio Bill Denbrough.

Eddie observou a revista por alguns instantes, pensativo. Em seguida, tirou das mãos de Richie, abrindo em uma página qualquer. Embora ele não tivesse dito nada, Tozier estava aliviado. Não sabia lidar com sua tristeza, e muito menos dizer algo que pudesse consolá-lo. As suas palavras jamais seriam o bastante. Mas, só por saber que ele estava tranquilo com sua presença, aquilo o deixava imensamente feliz.

Os dedos de Eddie passaram delicadamente pela página, avançando devagar a medida em que os quadrinhos conquistaram sua atenção. O outro nem mesmo percebeu a quantidade de tempo que passou o observando, cada uma de suas ações e de seus olhares que alternavam entre a melancolia e a tranquilidade. Richie conteve um sorriso. A sensação maravilhosa e confusa que presenciava em cada um daqueles momentos bateu em sua porta outra vez.

O visível tom contrastante das bochechas de Eddie aumentou ao finalmente perceber os olhares de Richie.

— Beep beep, Richie — ele abriu um pequeno sorriso, embora seu tom de voz quisesse demonstrar seriedade — Você está fazendo aquilo de novo.

— Claro que não — Richie desviou o olhar, abrindo as páginas de sua velha revista do Superman. Aquela era uma das únicas vezes em que nenhuma das páginas o distraiam. A emoção que gritava em seu peito era maior do que qualquer coisa que poderia lhe deixar ocupado — Eu só estava.. vendo se gostou o bastante para não me devolver mais!

— Minha mãe nunca me deixaria ficar com essas revistas velhas.

— Isso foi ofensivo demais. Até pra mim. — Eddie redirecionou sua atenção para a revista, rindo — Você.. vai ter que ir amanhã mesmo? Não pode esperar nem mais um dia? Sabe.. eu poderia me divertir com sua mãe mais um pouquinho.. — disfarçou, o olhando atentamente para que conseguisse uma resposta.

— Vai se foder, Richie! — até mesmo os xingamentos dele eram agradáveis aos seus ouvidos — Você.. só me desconcentrou o tempo todo! Minhas coisas já deveriam estar arrumadas!

Richie revirou os olhos, observando ele se levantar desesperadamente. Era incrível as coisas que ele era capaz de fazer só para que não levasse uma bronca da mãe, e isso incluía carregar mais de três caixas pesadas com aqueles braços magros.

— Me dá isso aqui, Eddie! — o mais alto se levantou, tentando tirar as caixas pesadas das mãos dele.

— Solta, Richie, você vai derrubar! — Eddie tentou puxar de volta. A última coisa que queria era se sentir inferior ao outro.

A insistência de Richie Tozier fez com que todas as caixas novamente caíssem no chão, e, junto delas, um globo de neve que se quebrou em estilhaços. Antes que pudesse gargalhar mais alto ainda, Eddie cobriu sua boca, apenas escutando os passos da mãe se aproximarem gradativamente do quarto.

— Olha o que você fez! — ele sussurrou, irritado. Antes que pudesse falar com a mulher, sentiu a língua molhada de Richie deslizar lentamente pela palma de sua mão — RICHIE! SEU FILHO DA..

— Eddie? Querido, o que está acontecendo aí dentro?

Eddie se afastou, direcionando um olhar psicótico ao garoto que apenas controlava suas risadas. Limpou rapidamente a mão na barra da camisa, sabendo o quanto de bactérias que poderiam ter preenchido aquela saliva. Abriu metade da porta, impedindo que a mãe enxergasse o outro garoto do lado de dentro.

— Oi mãe! — Eddie sorriu inocentemente, embora estivesse se desesperando com a presença de Richie em seu quarto — Está tudo.. bem! — sentiu as mãos dele se aproximarem, fazendo cócegas em suas costas — Eu só vou.. — dando um chute na perna do garoto, o afastou por alguns segundos, sorrindo com nervosismo — Terminar de arrumar minhas coisas!

Ainda que permanecesse com sua expressão desconfiada, a mulher se distanciou. Eddie suspirou com alívio, podendo finalmente fechar a porta sem que ela continuasse o incomodando.

— OI, SENHORITA K.. — antes que ele pudesse completar a frase, o hipocondríaco o empurrou na cama, o enchendo de tapas que nem chegavam a machucar. Ao invés disso, continuava a rir — Eddie, eu só estava tentando ser gentil!

— Você estava sendo um.. — ele fechou os olhos, tentando recuperar a paciência perdida — Chega! Pode ir embora, não preciso mais da sua ajuda!

— Claro que precisa — Richie arqueou uma sobrancelha — Quem vai te ajudar a guardar todos seus anticoncepcionais?

— RICHIE!

— Você é tão fofo, Eds — ele proferiu, usando aquela voz irritante que sempre tinha a enorme capacidade de tirá-lo do sério. Richie passou a mão em uma das bochechas coradas do garoto, com um sorriso largo nos lábios.

— NÃO ME CHAMA DE..

Eddie suspirou, desviando o olhar e saindo de cima dele para que arrumasse tudo outra vez. Richie permaneceu na cama, o observando. O tempo realmente havia mudado ambos. Era uma das únicas vezes em que achou toda aquela mania de organização realmente adorável. O garoto passava de um lado para o outro, fingindo nem notar que o outro estava deitado em sua cama com tal intimidade. Aquela distração já estava o incomodando, não suportando a ideia de vê-lo tão tranquilo.

— Eddie — chamou, sorrindo — Eddie, Eddie — chamou novamente, sem obter nenhuma resposta. Fingir que ele não existia não parecia melhorar aquela situação — Eds?

— Eu já te disse pra não me chamar assim!

— E por que não? — Richie apoiou a cabeça nas mãos, sorrindo — Prefere que eu te chame de Eddie-Bear? Amorzinho?

— PREFIRO QUE TIRE OS PÉS SUJOS DA MINHA CAMA!

Richie sorriu mais ainda, se levantando. De certa forma, tinha alcançado algum sucesso em seu plano. Eddie não estava mais enfrentando aqueles conflitos internos, mesmo que fosse preciso quebrar um de seus objetos de decoração favoritos.

O quarto aos poucos foi ficando mais silencioso, graças à concentração de Eddie que não estava indo embora nem mesmo com as travessuras que o outro fazia. Normalmente lançava um único olhar de reprovação e ignorava todo o resto. Richie olhou para os quadros ainda presos na parede. Alguns, da família de Eddie, outros onde estava apenas ao lado de sua mãe com um olhar amedrontado. De fato, a grande maioria das fotos de família eram daquela forma.

— Não achei que sua mãe fosse te deixar ver a gente de novo. — Richie comentou, não esperando que recebesse uma resposta.

— É, mas ela deixou — ainda assim, ele respondeu — Ela disse que eu.. poderia continuar vendo vocês, se continuasse tomando meus remédios.. — Eddie suspirou, se encostando na parede — não importa o quanto eles sejam inúteis.

— Nossa.. isso é uma merda, cara.

— Eu não.. — Eddie olhou para os próprios sapatos — eu não queria ter que ir embora, Richie.

— Você precisa ir mesmo?

Eddie não sabia explicar o tom de voz que tinha escutado. Richie não era o tipo de pessoa que demonstrava suas emoções com facilidade, mas naquele momento, pôde decifrar exatamente o que ele estava sentindo. Tristeza. Tristeza por não poder impedir que o amigo vá embora. E de fato, ele era a última pessoa que poderia mudar a cabeça de sua mãe.

— Preciso. — Eddie fechou os olhos por alguns instantes. Assim como o garoto podia decifrar as emoções de Richie com apenas algumas simples palavras, ele também tinha essa habilidade.

Richie se levantou da cama, desviando de todas as coisas que ainda estavam jogadas no chão. Sentiria falta de passar dias e noites naquele quarto, irritando ele até que quase chegasse a ser expulso. Mas no fim das contas, todos acabavam dormindo juntos, e Richie até gostava de ser o único a compartilhar a mesma cama com ele. Sentiria falta de estar tão próximo, de poder decifrar suas emoções e até de ter que suportar suas crises de hipocondria. Sentiria falta de tudo.

— Mas você vai voltar, certo? — ele sorriu, um tanto nervoso. Richie não era o maior exemplo de esperança e otimismo, mas naquele momento, era tudo o que tinha.

Eddie balançou a cabeça tristemente, redirecionando seu olhar para o outro garoto.

— Eu não sei. — ele sussurrou. Talvez aquelas palavras tenham sido as mais verdadeiras que disse em anos. Não fazia ideia se ainda teriam motivos para retornar, se algum dia, poderiam ter a mesma paz que tinham antes.

Richie apertou os lábios, o encarando.

— Eu te ajudo com isso. — proferiu com voz baixa, mudando de assunto. Pegou as coisas que ainda estavam nas mãos dele, sem dar nenhuma chance de resposta ao outro.

Poderia imaginá-lo com o passar dos anos. Adulto e bem-sucedido, talvez até com uma família formada. Doía apenas pensar nessa hipótese, mesmo não entendendo muito bem o porquê.

Mas e quanto a ele? O que faria? Sentia aquele peso insuportável nas costas, como se precisasse ser sincero consigo mesmo e com aquela sensação que gritava no peito. E provavelmente, esse peso jamais iria embora. Diferente dos outros garotos, não conseguia se imaginar rodeado de mulheres ou com uma família formada. Sequer sabia o que iria fazer quando terminasse os estudos. Mas, Eddie era diferente. E Richie não queria estragar aquele futuro que tanto planejou. Mesmo que não fosse mais fazer parte dele.

👓

A manhã havia chegado mais rápido do que gostaria. A despedida foi difícil. Não gostava de ver todos tristes daquela forma. Talvez isso significasse crescer: deixar todos seus amigos para trás. E embora estivesse satisfeito com toda aquela atenção, não pôde lamentar mais a ausência de alguém. Richie não estava entre eles. Desde a tarde do dia anterior, ele se calou frequentemente, nem fazendo mais as mesmas piadas que o deixou irritado. Ele apenas ficou quieto e o ajudou, como havia dito que faria.

Sua mãe já estava terminando de colocar todas as bagagens no veículo. Eddie continuava do lado de fora, olhando para todo canto em busca da imagem do garoto de óculos. Não encontrava ninguém. Desejava que ao menos ele pudesse ter se despedido junto dos outros, mas entenderia se ele não quisesse o ver de novo. Richie queria seguir em frente, não queria?

— Eddie, querido, já estamos quase indo!

— Espera um pouco, mãe! — pediu com gentileza. Se houvesse alguma chance, mesmo que mínima, ele queria arriscar.

O sol da manhã iluminou a calçada, assim como o garoto de óculos, que apareceu quando menos esperava. Eddie abriu um sorriso de orelha a orelha. Como poderia se despedir daquela droga de cidade sem que ele estivesse por perto? Sem que se recordasse de cada momento incrível que passaram juntos, mesmo que fosse apenas irritando um ao outro constantemente?

Richie abandonou a bicicleta na calçada, correndo o mais rápido que podia na direção do outro garoto. Ele ofegava. Provavelmente tinha pedalado muito para que pudesse chegar a tempo. Talvez tivesse pensado em desistir, mas soube logo que não poderia. Não poderia ficar sem se despedir da pessoa que mais amava.

— Achei que não viria! — Eddie reclamou, mesmo que não conseguisse tirar o sorriso dos lábios.

— Eu também não — ele confessou, ainda tentando recuperar seu fôlego.

— Eddie! — a mulher o chamou pela segunda vez, entrando no carro. Ele olhou para trás, logo alterando sua expressão. Era mesmo hora de partir. Deveria ter aproveitado. Em todos aqueles momentos, onde se escondiam no refúgio mais sujo do planeta, ou quando só ficavam brincando no quarto um do outro. Naquele instante, sentia que deveria fazer algo, mas não tinha ideia do que era.

Richie notou rapidamente que ele precisava ir. Por isso, não perdeu tempo, o abraçando como nunca fez antes. Eddie permaneceu com as mãos abertas no ar, surpreso. Mas após alguns segundos, percebeu que não poderia deixar que ele fizesse aquilo sozinho. Retribuiu seu abraço em seguida, fechando os olhos. Os braços de Richie envolviam sua cintura como fizeram na última noite que passaram juntos, e Eddie sentia que poderia nunca mais ir embora. Poderia nunca mais deixá-lo se isso significasse ter mais daquele abraço em muitos outros dias.

Ele não era o único a sentir isso. A intensidade daquele abraço seria algo que nunca mais esqueceria, e que nenhuma outra pessoa jamais poderia transmitir da mesma maneira. O aperto em seu coração retornou, mas dessa vez, era como se implorasse para que fizesse algo. Implorava para que tomasse uma atitude, mesmo diante da mulher que estava por perto. Richie sempre soube o que sentia, mas nunca foi capaz de admitir. E agora, era tarde demais para isso.

Quando ambos viram que era necessário se distanciar, olharam nos olhos um do outro. Richie passou a mão em seu rosto, notando o quão inconsolável ele estava. Em todos os momentos que passaram juntos, essa foi a única maneira de demonstrar seu afeto e sua proteção sem que precisasse abandonar suas inseguranças. E em todas as vezes, Eddie não se afastava, porque eram as únicas vezes em que podia abandonar as suas.

Eddie, eu.. — ele gaguejou, sentindo a queimação em suas bochechas que sempre surgia quando estavam tão perto. Eddie o encarou fixamente. Esperava que ele dissesse algo. Esperava tanto que ele dissesse algo..

Richie suspirou, finalmente afastando sua mão do rosto dele. O outro sorriu levemente. No fim das contas, o que estava esperando? O que esperava que ele dissesse? Sentia como se seu coração estivesse em estilhaços, como se devesse ter dito para ele já que não foi capaz de fazer isso. Não sabia mais por quanto tempo aquela sensação iria durar, mas esperava que fosse embora. Tão rápido quanto iria daquela cidade.

— Hora de ir, querido — Sonia se aproximou, pegando a bagagem que estava na mão do garoto. Eddie concordou com a cabeça, a acompanhando devagar.

Antes que pudesse entrar, notou aqueles olhos o observando. Os mesmos que seriam responsáveis pelas suas noites de sono mal dormidas. Eddie lhe deu um último sorriso. Tudo o que achou necessário para que finalmente entrasse com algumas de suas coisas nas mãos.

Talvez se arrependesse daquilo pelo resto da vida. Deveria ter tomado alguma atitude, assim como fez quando enfrentou sua mãe para ajudar seus amigos. Mas, quando olhou para trás e o viu pela janela do carro, soube que ainda o teria. Soube que, talvez, aquilo poderia não ser um adeus. Richie sorriu. De forma quase imperceptível.

Aquilo poderia não ser um adeus. 



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