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História Crepúsculo - Capítulo 22


Escrita por: am_uchiha

Notas do Autor


Hi! parte 2 do capítulo anterior. 💗

A Rin fala muito por pensamentos com ele, por isso as ""

Capítulo 22 - O Nó


SASUKE


— Agora, Rin— Disse enquanto fechava a porta.

Ela suspirou. "Sinto muito. Queria não ter que..."

— Não é real — interrompi, conduzindo o carro para fora do estacionamento. Eu nem precisava pensar na estrada. Já a conhecia muito bem. — É só uma visão antiga. De antes de tudo. Antes de eu saber que a amava.

Na cabeça dela, lá estava outra vez, a pior visão de todas, o potencial agonizante que me torturara por tantas semanas, o futuro que Rin  vira no dia em que tirei Sakura do caminho da van. O corpo de Sakura em meus braços, retorcido, pálido e sem vida...

Um corte irregular, com bordas azuladas, em seu pescoço quebrado... Seu sangue vermelho nos meus lábios, o carmesim brilhando em meus olhos.
A visão nas lembranças de Rin  arrancou um rosnado furioso da minha garganta: uma resposta involuntária à dor que atravessou
meu corpo.

Rin ficou paralisada, os olhos ansiosos.
"É o mesmo lugar", Rin havia percebido naquele dia no refeitório, os pensamentos tomados por um horror que eu não tinha compreendido de primeira. Eu nunca olhara além da imagem central horrível, afinal eu quase não suportava vê-la. Mas Rin tinha muito mais décadas de experiência examinando suas visões. Ela sabia encarar a situação sem envolver seus sentimentos, ser imparcial, examinar a visão sem estremecer diante dela.

Rin tinha sido capaz de absorver os detalhes... como a paisagem. A cena terrível acontecera na mesma campina onde eu planejava levar Sakura  no dia seguinte.

— Não pode continuar sendo válida. Você não viu de novo, apenas lembrou. Rin balançou a cabeça devagar.
" Não é só uma memória, Sasuke. Estou vendo agora."
— Nós vamos para outro lugar.

Em sua cabeça, o cenário da visão começou a girar como um caleidoscópio, ora brilhante, ora sombrio, e depois brilhante de novo. O primeiro plano permanecia o mesmo. Eu me encolhi numa tentativa de me afastar das cenas, tentando tirá-las do olho da minha mente, desejando poder cegá-lo.
— Vou cancelar — falei. — Ela já me perdoou por não ter cumprido minhas promessas antes.

A visão cintilou, tremeluziu e depois voltou a ficar nítida.
"O sangue dela é muito forte para você, Sasuke. À medida que for ficando próximo dela..."
— Vou ficar distante de novo.
— Acho que não vai funcionar. Não funcionou antes.
— Eu vou embora.
Rin estremeceu ao ouvir a agonia em minha voz, e a imagem em sua cabeça tremeluziu outra vez.

As estações mudavam ao fundo, mas as figuras centrais permaneciam do mesmo jeito.

— Continua lá, Sasuke.

— Como isso é possível? — rosnei.
— Porque se for embora, você vai acabar voltando — disse ela com uma voz implacável.
— Não. Eu consigo ficar longe. Sei que consigo.
— Você não consegue — retrucou com toda a calma. — Talvez... se fosse só o seu próprio sofrimento...

Sua mente percorreu vários futuros possíveis. O rosto de Sakura  visto de milhares de ângulos diferentes, sempre tingido de cinza, longe do sol. Ela estava mais magra, com as maçãs do rosto anormalmente côncavas, olheiras profundas, inexpressiva. Alguém poderia chamá-la de cadavérica, mas seria apenas uma
metáfora. Não era como nas outras visões.

— O que houve? Por que ela está assim?
— Porque você foi embora. Ela não está... bem.
Eu odiava quando Rin falava daquele jeito, como se o futuro fosse o presente, como se a tragédia estivesse acontecendo naquele momento.
— Melhor do que outras opções — falei.
— Você acha mesmo que conseguiria deixá-la assim? Não acha que voltaria para ver como ela está? Realmente acha que, quando a visse nesse estado, não falaria com ela?

Enquanto Rin fazia essas perguntas, vi as respostas em sua mente. Vi a mim mesmo nas sombras, observando. Voltando escondido para o quarto de Sakura. Vendo-a viver um pesadelo,
enroscada em posição fetal, os braços junto ao peito, ofegando por ar, mesmo durante o sono. Sua irmã estava quase do mesmo jeito, ela não estava suportando ver sua irmã assim. Jiraiya estava visivelmente preocupado com suas filhas.

Rin se encolheu também, envolvendo os joelhos com os braços tensos, por solidariedade.
Claro que Rin estava certa. Tive um eco das emoções que sentiria nessa versão do futuro e soube que sim, eu voltaria, só para ver como ela estava. E, então, quando a visse... eu a acordaria. Não conseguiria vê-la sofrer.

Os futuros se realinharam na mesma visão inevitável, apenas adiada por um tempo.

— Eu não deveria ter voltado — sussurrei.
E se eu nunca tivesse aprendido a amá-la? E se eu não soubesse o que estava perdendo?
Rin balançava a cabeça.
"Tive algumas visões enquanto você estava longe..."
Esperei que ela me mostrasse, mas Rin estava muito concentrada em apenas olhar para o meu rosto naquele momento. Tentando não me mostrar.
— Que visões? O que você viu?
Os olhos dela denunciavam seu sofrimento. Não foram muito agradáveis. "Em algum momento, se não tivesse voltado quando voltou, se nunca a tivesse amado, você teria vindo atrás dela de
qualquer jeito. Para... caçá-la."

Nada de cenas novas, mas eu não precisava delas para entender. Eu me afastei de Rin, quase perdendo o controle do carro. Pisei no freio e saí da estrada. Os pneus rasgaram as samambaias e jogaram musgo no pavimento.

Aquele pensamento surgira no começo, quando o monstro estava quase desenfreado. A ideia de que não havia garantia de que eu não a seguiria, aonde quer que ela fosse.
— Sugira algo que funcione! — falei, explodindo. Rin se afastou ao ouvir meu grito. — Diga qual é o outro caminho! Mostre-me como ficar longe, para onde ir!

Em seus pensamentos, outra visão de repente substituiu a primeira. Um suspiro de alívio passou pelos meus lábios quando o horror desapareceu. Mas essa visão não era muito melhor.

Rin e Sakura, abraçadas, as duas brancas como mármore, duras como diamante.
Algumas sementes de romã e ela estaria presa no submundo comigo. Sem volta. Primavera, luz do sol, família, futuro, alma, tudo seria roubado dela.
"A probabilidade é de mais ou menos sessenta por cento. Talvez até sessenta e cinco. Ainda há uma boa chance de você não matar Sakura."
Seu tom era de encorajamento.
— Ela vai morrer de qualquer jeito — sussurrei. — Vou fazer o coração dela parar de bater.
— Não foi bem isso que eu quis dizer. Estou lhe dizendo que ela tem futuros além da campina...
Mas primeiro ela precisa enfrentar a campina, metaforicamente falando, se é que você me entende.

Seus pensamentos... era difícil descrever... se expandiram como se ela estivesse pensando em tudo ao mesmo tempo. Eu via um emaranhado de fios, cada um deles uma linha comprida de
imagens congeladas, cada fio um futuro contado em momentos, todos enroscados em um nó confuso.
— Não estou entendendo.
"Todos os caminhos de Sakura estão convergindo para um ponto, todos estão entrelaçados. Esse ponto pode estar na campina ou em outro lugar, mas ela está presa a esse momento de decisão. Sua decisão, e a dela... Alguns fios continuam do outro lado. Outros..."
— Não.
Minha voz saiu falha, sentia a garganta apertada.

" Você não tem como evitar, Sasuke. Vai ter que enfrentar esse momento. Mesmo sabendo que pode acabar de um jeito ou de outro, vai ter que enfrentá-lo."
— Como eu posso salvá-la? Me diga!
— Não sei. Você vai ter que encontrar a resposta sozinho, no meio desse caos. Não consigo ver que forma exatamente esse momento terá, mas acho que haverá uma espécie de teste ou desafio. Consigo ver isso, mas não tenho como ajudar. Só vocês dois podem decidir.

Meus dentes rangeram.
"Você sabe que eu te amo, então me escute agora. Adiar esse momento não vai mudar nada. Leve-a para a campina, Sasuke, e — por mim, mas especialmente por você — traga-a de volta."

Deixei minha cabeça cair nas mãos. Eu me senti doente, como um humano danificado, vítima de uma enfermidade.

— Que tal uma boa notícia? — perguntou Rin  em tom gentil, tentando me animar.
Olhei para ela, que deu um sorrisinho.
"É sério."
— Então fale logo.
— Vi um terceiro caminho, Sasuke.— contou ela. — Se você conseguir passar pela crise, há um novo caminho possível.
— Um novo caminho? — repeti, confuso.
— Não é garantido. Mas olhe.
Outra imagem em sua mente. Não era tão nítida quanto as outras. Na sala apertada da casa de Sakura.  Eu estava no sofá velho, com Sakura  ao meu lado, o braço por cima de seus ombros em um gesto descontraído. Rin estava sentada no chão ao lado de Sakura, apoiada em sua perna de tal forma que demonstrava intimidade. Rin, e eu estávamos com a mesma aparência de sempre, mas aquela era uma versão de Sakura  que eu nunca tinha visto. Sua pele ainda era macia e pálida, rosada nas bochechas, saudável. Os olhos ainda eram esmeraldas e humanos. Mas ela estava diferente. Analisei as mudanças e entendi o que estava vendo...

Sakura não era mais uma garota, e sim uma mulher. As pernas pareciam um pouco mais compridas, como se ela tivesse crescido alguns centímetros, e o corpo esbelto ganhara algumas
curvas sutis. O cabelo ainda era rosa. A cena não parecia ser tantos anos à frente, talvez três ou quatro. Mas ela ainda era humana.

Fui inundado por alegria e sofrimento. Ela ainda era humana, mas estava envelhecendo. Esse era o futuro extremo e improvável com o qual eu poderia conviver. O futuro que não lhe roubava a vida, nem a vida após a morte. O futuro que a afastaria de mim alguma hora, de forma tão inevitável quanto o dia virava noite.

— Continua não sendo muito provável, mas achei que você ia gostar de saber que essa possibilidade existe. Se vocês dois superarem a crise, isso pode acontecer.
— Obrigado, Rin. — sussurrei.
Mudei a marcha e voltei com o carro para a estrada, passando na frente de uma minivan que andava abaixo do limite de velocidade. Acelerei automaticamente, sem perceber o que fazia.

"Claro, essa é a parte que depende de você." Rin ainda estava visualizando o trio improvável no sofá. "Não leva em consideração os desejos dela."
— O que quer dizer com isso? Os desejos dela?
— Nunca pensou que Sakura pode não querer perdê-lo? Que uma vida mortal curta pode não ser longa o suficiente para ela?
— Isso é loucura. Ninguém escolheria...
— Não precisamos discutir isso agora. Primeiro a crise.
— Obrigado, Rin. — repeti, dessa vez em tom ácido.
Ela riu. Foi um som apreensivo, como o de um pássaro. Ela estava tão nervosa quanto eu, quase tão horrorizada pelas possibilidades trágicas quanto eu fiquei.
— Sei que você também a ama — murmurei.
"Não é a mesma coisa."
— Verdade.

Afinal, Rin tinha Obito. O centro do universo dela estava em segurança ao seu lado, e era ainda mais indestrutível do que a maioria. A alma dele não pesava em sua consciência, não trazia
dúvidas. Rin só trouxera felicidade e paz a Obito.
"Eu te amo. Você consegue."

Eu queria acreditar nela, mas sabia quando suas palavras tinham uma base sólida e quando não passavam de simples esperança.

— Vou sair amanhã de novo com Obito— contou ela.
— Ele não acabou de...
— Acabei de decidir que precisamos de mais preparativos — disse ela, sorrindo.

"Uma nova possibilidade."
Vi nossa casa em sua mente. Fugaku e Mikoto aguardavam ansiosos na sala de estar. A porta se abriu, eu entrei, e, ao meu lado, segurando minha mão...
Logo atrás vieram Naruto e Hinata..
Rin riu e tentei manter minha expressão sob controle.
— Como? — perguntei. — Quando?
— Em breve.
Talvez domingo...
— Este domingo?
"Sim, depois de amanhã."
Sakura estava perfeita na visão: humana e saudável, sorrindo para meus pais. Ela usava a blusa azul que destacava a beleza de sua pele.

"Mas não sei direito como isso pode acontecer. É só uma das possibilidades, mas quero que Obito esteja preparado."

Obito estava ao pé da escada, assentindo educadamente para
Bella, os olhos dourados.
— Isso vem... depois do nó do caos?
"É um dos fios."

Eles giraram outra vez em sua mente, feito longas cordas de possibilidades. Tantas delas convergiam no dia seguinte... e um número menor continuava do outro lado.
— Qual a probabilidade agora?
Ela comprimiu os lábios. "Setenta e cinco por cento?" Ela pensou como uma pergunta, e percebi que estava sendo generosa.

"Fala sério", pensou ela quando viu meus ombros caídos. "Você apostaria no seu sucesso com essa probabilidade. Eu estou apostando."
Automaticamente, mostrei os dentes.
— Ah, me poupe. Como se eu fosse perder a oportunidade. A questão não é só Sakura. Estou bem confiante de que ela vai ficar bem. É uma chance de ensinar Izumi e Obito a terem mais
respeito — disse ela.
— Você não é onisciente.
— Sou quase.
Eu não conseguia acompanhar seu bom humor.
— Se você fosse onisciente, poderia me dizer o que fazer.
"Você vai dar um jeito, Sasuke. Eu sei que vai."
Se ao menos eu tivesse essa certeza também...


Meus pais eram os únicos em casa quando voltamos. Itachi sem dúvida avisara os outros de que era melhor sumirem. Para mim, não fazia diferença. Eu não tinha energia para me importar
com o jogo idiota deles. Rin também foi em busca de Obito.
Fiquei grato pela redução das conversas mentais.
Isso ajudou um pouco enquanto eu tentava me concentrar....


Na primeira vez que provei sangue humano, meu corpo ficou em êxtase. Sentime totalmente saciado e bem. Mais vivo do que antes. O sangue não era da melhor qualidade — o corpo da minha primeira presa estava saturado com drogas de sabor amargo —, mas ainda assim fez meu alimento habitual parecer água suja. E, no entanto... minha mente não abraçou por completo a gratificação que invadiu meu corpo. Não deixei de ver o horror daquele ato. Não consegui ignorar o que Fugaku  pensaria da minha escolha.

Presumi que esses escrúpulos acabariam desaparecendo. Encontrei homens muito ruins que mantinham o corpo limpo, ainda que tivessem as mãos sujas, e provei sangue de melhor qualidade.
Mentalmente, calculava o número de vidas que poderia estar salvando com aquela minha operação de juiz, júri e carrasco. Mesmo se eu estivesse salvando apenas uma vida a cada morte, apenas a próxima vítima da lista, não seria melhor do que ter deixado aqueles predadores humanos à solta?

Passaram-se anos até eu desistir. Não entendia por que o sangue não era o êxtase absoluto da existência, por que a saudade que eu continuava sentindo de Fugaku e Itachi  era maior do que o apreço por minha liberdade, nem por que o fardo de cada morte parecia se acumular até eu estar prestes a desabar sob o peso de todas elas. Após voltar para Itachi e Fugaku, ao longo dos anos em que me esforçava para reaprender toda a disciplina que havia abandonado.

Não tive dúvidas. Naquele momento eu soube a que essa frase se referia. A maior alegria da minha vida era aquela garota frágil, corajosa, calorosa e perspicaz, dormindo tão calma ali perto. Sakura. A maior alegria que a vida tinha para me oferecer e também a maior aflição, quando eu a perdesse.

Meu celular vibrou no bolso da camisa. Peguei-o, vi o número e o aproximei do ouvido.
— Sei que você não pode falar — disse Rin, baixinho —, mas achei que você ia querer saber. A probabilidade é de oitenta por cento agora. O que quer que você esteja fazendo, continue.
Ela desligou.

É claro que eu não podia confiar em sua voz tranquila sem ler seus pensamentos, e Rin sabia disso. Ela poderia mentir para mim ao telefone. Mas ainda assim me senti encorajado.

O que eu estava fazendo era me aquecer, me afogar, me afundar em meu amor por Sakura. Não seria difícil continuar.

O sonho de Sakura era tão profundo que fiquei agoniado. Pelo que naquele momento me parecia um bom tempo, desde que sentira seu cheiro pela primeira vez, eu não conseguia mais
impedir meu estado de espírito de ir de um extremo a outro a cada minuto do dia. Aquela noite estava pior do que o normal. O fardo do perigo iminente provocou um pico de estresse mental como nenhum outro que eu enfrentara em cem anos.



SAKURA


Acordei cedo, tendo dormido profunda e perfeitamente graças a meu uso desnecessário de remédios. Embora estivesse descansada, voltei de imediato ao mesmo frenesi da noite anterior. Vesti-me a jato, alisando a gola no pescoço, puxando o suéter caramelo até que ele caísse sobre meu jeans. Dei uma olhada rápida pela janela e vi que o papai já havia saído e Hinata ainda estava dormindo.

Uma camada fina de nuvens, como algodão, cobria o céu. Não parecia que ia durar muito.
Tomei o café-da-manhã sem sentir o gosto da comida e limpei tudo correndo depois que terminei. Olhei pela janela novamente, mas nada
mudara. Eu tinha acabado de escovar os dentes e estava descendo a escada de novo quando uma batida baixinha fez meu coração martelar na caixa torácica.

Voei para a entrada; tive um probleminha com a tranca simples, mas por fim escancarei a porta, e ali estava ele. Toda a agitação se dissolveu assim que vi seu rosto, a calma assumindo seu lugar. Soltei um suspiro de alívio - os temores da véspera pareciam muito tolos com ele aqui.
Ele no início não sorriu - seu rosto era sombrio. Mas depois sua expressão iluminou ao me olhar de cima a baixo, e ele riu.

— Bom dia — disse ele rindo.
— Qual é o problema? — Olhei para baixo para me certificar de que não tinha esquecido de nada de importante, como os sapatos, ou as calças.
— Nós combinamos. — Ele riu de novo. Percebi que ele estava com um suéter caramelo comprido, a gola aparecendo por baixo, e jeans azuis.

Eu ri com ele, escondendo uma pontada secreta de mágoa — por que ele tinha que parecer um modelo de passarela quando eu não conseguia?
Tranquei a porta de casa enquanto ele seguia para o meu carro. Ele esperou junto à porta do carona com uma expressão de martírio que era
fácil de entender.
— Fizemos um acordo —  lembrei-lhe presunçosa, subindo ao banco do motorista e estendendo a mão para destrancar a porta dele. —  Para onde?
— perguntei.
— Coloque o cinto… Eu já estou nervoso.

Olhei longamente para ele enquanto obedecia.
— Para onde? —  repeti com um suspiro.
— Pegue a um-zero-um norte — ordenou ele.
Foi surpreendentemente difícil me concentrar na estrada ao sentir o olhar dele em meu rosto.

Compensei dirigindo com mais cautela do que de costume pela cidade ainda adormecida.
— Você pretende deixar Forks antes do anoitecer?
— Este carro é velho o bastante para ser o carro do seu avô… Tenha respeito - retorqui.

Apesar do negativismo dele logo estávamos fora dos limites da cidade. Uma grossa vegetação rasteira e troncos cobertos de verde
substituíram os gramados e casas.
— Vire à direita na um-um-zero —  instruiu ele assim que eu estava prestes a perguntar. Obedeci em silêncio. — Agora vamos seguir até o final do asfalto.

Pude ouvir um sorriso em sua voz, mas estava com medo demais de sair da estrada e provar que ele tinha razão.
— E o que tem lá, no final do asfalto?— perguntei.
— Uma trilha.
— Vamos andar? — Graças a Deus eu estava de tênis.
— O problema é esse? — Ele deu a impressão de que esperava mais.
— Não. — Tentei fazer com que a mentira parecesse confiante. Mas se ele achava que meu carro era lento...
— Não se preocupe, são só uns oito quilômetros e não vamos correr.

Oito quilômetros. Não respondi, para que ele não tivesse que ouvir minha voz falhar de pânico. Oito quilômetros de raízes traiçoeiras e pedras soltas, tentando torcer meu tornozelo ou qualquer outra coisa que me incapacitasse. Isto ia ser humilhante.

Seguimos em silêncio por algum tempo enquanto eu contemplava o horror que estava por vir.
—  No que está pensando? —  perguntou ele com impaciência depois de alguns minutos.
Menti de novo.
— Só me perguntando aonde vamos.
— É um lugar aonde gosto de ir quando o tempo está bom. —  Nós dois olhamos pela janela para as nuvens finas depois que ele falou.
— O papai disse que hoje faria calor.
— E você disse a ele que íamos sair? - perguntou ele.
— Não.
—  Mas Ino acha que vamos juntos a Seattle? —  Ele parecia animado com a idéia.
— Não, eu disse a ela que você cancelou… O que é verdade.
— Ninguém sabe que você está comigo? — Agora com raiva.
— Isso depende… Hinata sabe e Imagino que Rin saiba também.
— Isso é muito útil, Sakura - rebateu ele.
Fingi não ter ouvido essa.
— Está tão deprimida com Forks que ficou suicida? - perguntou ele quando eu o ignorei.
— Você disse que podia causar problemas para você… que nós estejamos juntos publicamente. —  lembrei a ele.
— Então você estava preocupada com os problemas que podia causar a mim… se você não voltasse para sua casa? —  A voz dele ainda estava irritada, com um sarcasmo amargo.
Assenti, mantendo os olhos na estrada.
Ele murmurou alguma coisa, falando tão baixo que não consegui entender.

Ficamos em silêncio pelo resto da viagem. Eu podia sentir as ondas de censura furiosa vindo dele e não consegui pensar em nada para dizer.
E depois a estrada terminou, restringindo-se a uma trilha estreita com uma pequena placa de madeira. Estacionei no pequeno acostamento e
saí, com medo porque ele estava irritado comigo e eu não tinha dirigido como uma desculpa para não olhar para ele. Agora estava quente, mais
quente do que vira em Forks desde que cheguei, quase mormacento sob as nuvens. Tirei o suéter e o amarrei na cintura, feliz por ter vestido a blusa leve e sem mangas - em especial se eu ainda tinha oito quilômetros de caminhada pela frente.

Ouvi a porta dele bater e vi que ele também tinha tirado o suéter. Ele agora estava de frente para mim, na floresta cerrada ao lado da picape.
— Por aqui — disse, olhando para mim por sobre o ombro, os olhos ainda irritados. Ele entrou na floresta escura.
— A trilha? — O pânico era evidente em minha voz enquanto eu contornava correndo a picape para acompanhá-lo.
— Eu disse que havia uma trilha no final da estrada, e não que íamos pegá-la.
— Não tem trilha? — perguntei, desesperada.
— Não vou deixar você se perder. — Ele se virou então, com um sorriso de zombaria, e eu reprimi um suspiro.

A camisa branca de Sasuke  não tinha mangas e ele a usava desabotoada, de modo que a pele branca e macia de seu pescoço fluía ininterrupta pelos contornos de mármore de seu peito, a musculatura perfeita agora não só sugerida por baixo das roupas que a escondiam. Ele era perfeito demais, percebi com uma pontada penetrante de desespero. Não havia como esta criatura divina ser cruel comigo.

Ele me encarou, confuso com minha expressão torturada.
— Quer ir para casa? — disse ele em voz baixa, uma dor diferente da minha saturando sua voz.
— Não. — Avancei até estar bem a seu lado, ansiosa para não perder um segundo sequer que podia ter com ele.
— Qual é o problema? — perguntou ele, sua voz gentil.
-—Não sou boa andarilha — respondi. — Terá que ter muita paciência.
— Posso ser paciente… Se me esforçar muito. —  Ele sorriu, sustentando meu olhar, tentando me demover de meu abatimento súbito e inexplicado.

Tentei sorrir também, mas o sorriso não foi convincente. Ele analisou meu rosto.
— Vou levar você para casa — prometeu ele. Eu não sabia se a promessa era incondicional, ou restrita a uma partida imediata. Eu sabia que ele pensava que era o medo que incomodava e fiquei grata novamente por ser a única pessoa cuja mente ele não conseguia ouvir.

— Se quiser que eu atravesse os oito quilômetros pela selva antes do pôr-do-sol, é melhor começar a andar — eu disse com azedume. Ele franziu o cenho para mim, lutando para entender meu tom e minha expressão. Sasuke desistiu depois de um momento e seguiu para a floresta.

Não foi tão difícil quanto eu temia. A maior parte do caminho era plane e ele empurrou as samambaias e teias de musgo para o lado a fim de me dar passagem. Quando o caminho reto nos levava por árvores caídas e pedregulhos, ele me ajudava, erguendo-me pelo cotovelo e depois me soltando de imediato quando o
caminho era limpo. Seu toque frio na minha pele não deixava de provocar um batimento errático em meu coração. Por duas vezes, quando isso aconteceu, captei uma expressão nele garantindo-me que ele podia ouvir alguma coisa.

Tentei ao máximo desviar os olhos de sua perfeição, mas sempre escorregava. A cada vez, sua beleza penetrava em mim com tristeza.
Na maior parte do tempo, andamos em silêncio. De vez em quando ele me fazia uma pergunta qualquer que não incluíra nos dois últimos dias
de interrogatório. Perguntou-me sobre meus aniversários, meus professores na escola, meus animais de estimação da infância - e eu tive que admitir que depois de matar três peixes seguidos, desisti de seus costumes. Ele riu disso, mais alto do que eu estava acostumada - o tinido do eco voltava para nós do bosque vazio.

A caminhada me tomou a maior parte da manhã, mas ele não demonstrou nenhum sinal de impaciência. A floresta se espalhava à nossa
volta em um labirinto ilimitado de árvores antigas e comecei a ficar nervosa, acreditando que nunca encontraríamos o caminho de volta. Ele estava perfeitamente à vontade, confortável no labirinto verde, sem jamais aparentar nenhuma dúvida quanto à direção que tomávamos.

Depois de várias horas, a luz que se infiltrava pelas copas das árvores se transformou, o tom verde-oliva escuro passando para um jade claro. O dia ficara ensolarado, assim como ele previra. Pela primeira vez desde que entramos no bosque, senti um arrepio de excitação - que
rapidamente se transformou em impaciência.
— Ainda não chegamos? — brinquei, fingindo mau humor.
— Quase. — Ele sorriu com a mudança no meu estado de espírito. — Está vendo aquela claridade ali?
Olhei a floresta densa.
— Hmmm, deveria ver?
Ele deu um sorriso malicioso.
— Talvez seja cedo demais para os seus olhos.
— Hora de ir ao oftalmologista — murmurei.Seu sorriso se tornou mais pronunciado.

Mas então, depois de mais uns cem metros, pude ver nitidamente um clarão nas árvores adiante, um brilho que era amarelo e não verde.
Acelerei o ritmo, minha ansiedade aumentando a cada passo. Ele agora ia atrás de mim, seguindo sem fazer barulho.

Cheguei à beira da fonte de luz e passei por cima da última franja de samambaias, entrando no lugar mais lindo que já vira na vida. A campina era pequena, perfeitamente redonda e cheia de flores silvestres - violeta, amarela e de um branco delicado. Em algum lugar perto dali, pude ouvir a música borbulhante de um riacho.

O sol estava a pino, enchendo o círculo de uma névoa de luz cor de manteiga. Andei devagar, assombrada, através da relva macia, agitando as flores, e do ar quente e encantador. Eu quase me virei, querendo partilhar isso com ele, mas ele não estava atrás de mim, onde pensei que estivesse. Girei o corpo, procurando com um súbito sobressalto. Por fim localizei Sasuke, ainda sob a sombra densa da floresta, na margem da clareira, observando-me com olhos cautelosos. Só então me lembrei do que a beleza da campina expulsara de minha mente -
o enigma de Sasuke e o sol, que ele prometeu explicar para mim hoje.

Dei um passo na direção dele, meus olhos brilhando de curiosidade. Os olhos dele eram cautelosos e relutantes. Sorri para encorajá-lo e acenei para ele, dando outro passo. Ele ergueu a mão num alerta e eu hesitei, girando em meus calcanhares.

Sasuke  pareceu respirar fundo e entrou no brilho intenso do sol de meio-dia. Na luz do Sol, Sasuke era chocante, eu não conseguia me
acostumar com aquilo, embora o tivesse olhado a tarde toda. Sua pele, branca apesar do rubor fraco da viagem de caça da véspera, literalmente
faiscava, como se milhares de diamantes pequenininhos estivessem incrustados na superfície. Ele se deitou completamente imóvel na relva, a camisa aberta no peito incandescente e escultural, os braços nus cintilando.

As reluzentes pálpebras pálidas como lavanda estavam fechadas, embora ele evidentemente não estivesse dormindo. Uma estátua perfeita, entalhada em alguma pedra desconhecida, lisa como mármore, cintilante como cristal. De vez em quando seus lábios se mexiam, tão rápido que pareciam estar tremendo. Mas quando perguntei, ele me disse que estava cantando
consigo mesmo; era baixo demais para que eu ouvisse.

Também aproveitei o sol, embora o ar não estivesse tão seco para o meu gosto. Eu teria gostado de me deitar de costas, como ele fez, e deixar o sol aquecer meu rosto. Mas fiquei sentada, o queixo apoiado nos joelhos, sem vontade de tirar os olhos dele. O vento era suave; enroscava meu cabelo e agitava a relva que se espalhava ao redor de sua forma imóvel.

A campina, tão espetacular para mim no início, empalidecia perto de sua magnificência.
Hesitante, sempre temerosa, mesmo agora, que ele desaparecesse como uma miragem, lindo demais para ser real… Hesitante, estendi um dedo e afaguei as costas de sua mão faiscante, onde estava ao meu alcance.

Outra vez fiquei maravilhada com a textura perfeita, macia como cetim,fria como pedra. Quando ergui a cabeça novamente, seus olhos estavam abertos, observando-me. Hoje cor de caramelo, mais claro, mais quente depois da caçada. Seu sorriso rápido virou o canto de seus lábios perfeitos para cima.
— Eu não assusto você? - perguntou ele brincalhão, mas pude sentir a curiosidade real em sua voz suave.
— Não mais do que de costume.
Ele abriu mais o sorriso; seus dentes cintilaram ao sol.

Aproximei-me mais um pouco, agora com a mão toda estendida para acompanhar os contornos de seu braço com a ponta dos dedos. Vi que
meus dedos tremiam e sabia que ele não  deixaria de perceber isso.
— Importa-se? — perguntei, porque ele fechara os olhos novamente.
— Não — disse ele sem abrir os olhos. — Nem imagina como é. —  Suspirou.

Passei a mão suavemente pelos músculos perfeitos de seu braço, acompanhando o leve padrão de veias arroxeadas por dentro da dobra de seu cotovelo. Com a outra mão, virei a palma dele para cima. Percebendo o que eu queria, ele virou a mão naqueles seu movimentos ofuscantes de tão rápidos e desconcertantes.

Isso me sobressaltou; meus dedos paralisaram
em seu braço por um breve segundo.
— Desculpe — murmurou ele. Ergui a cabeça a tempo de ver seus olhos dourados se fecharem novamente. — É muito fácil ser eu mesmo com
você.
Levantei a mão dele, virando-a enquanto via o sol cintilar em sua palma. Eu a trouxe para mais perto de meu rosto, tentando ver os aspectos
ocultos de sua pele.
— Diga o que está pensando — sussurrou ele. Olhei-o e vi seus olhos me fitando, intensos de repente. — Não saber ainda é estranho para mim.
—  Sabe de uma coisa, todos nós nos sentimos assim o tempo todo.
— É uma vida difícil. — Será que imaginei o sinal de arrependimento em sua voz? — Mas você não me contou.
— Eu é que queria poder saber o que você está pensando… — hesitei.
— E?
— E queria poder acreditar que você é real. E queria não ter medo.
— Não quero que sinta medo. — Sua voz era um murmúrio suave.
Ouvi o que ele não pôde dizer verdadeiramente, que eu não precisava ter medo, que não havia nada para temer.
— Bom, não me refiro exatamente ao medo, embora isso certamente dê o que pensar.

Tão rapidamente que perdi seu movimento, ele estava quase sentado, apoiado no braço direito, a palma esquerda ainda em minhas mãos. Seu rosto de anjo estava a centímetros do meu. Eu podia - devia - ter me afastado de sua proximidade inesperada, mas não consegui me mexer.

Os olhos dourados me hipnotizavam.
— Do que tem medo, então? — sussurrou ele intensamente.
Mas não consegui responder. Como tinha feito antes, senti seu hálito frio em meu rosto. Doce, delicioso, o aroma me dava água na boca.

Era diferente de tudo o que eu conhecia. Instintivamente, sem pensar, cheguei mais perto, inspirando. E ele se foi, a mão arrancada de mim. Quando consegui colocar os olhos em foco, ele estava a uns cinco metros de distância, parado na beira da campina pequena, na sombra de um abeto enorme. Ele me encarava, os olhos escuros nas sombras, a expressão indecifrável.

Eu podia sentir a dor e o choque em meu rosto. Minhas mãos vazias formigavam.
— Desculpe… Sasuke — sussurrei. Eu sabia que ele podia ouvir.
— Me dê um minuto — disse ele, alto o suficiente para meus ouvidos menos sensíveis. Fiquei sentada, imóvel.

Depois de dez segundos incrivelmente longos, ele voltou, devagar para ele. Parou, ainda longe, e afundou graciosamente no chão, cruzando as
pernas. Os olhos não deixavam os meus. Ele respirou fundo duas vezes e depois sorriu, desculpando-se.
— Lamento muito. — Ele hesitou. — Você entenderia se eu dissesse que fui apenas
humano?

Assenti uma vez, sem conseguir sorrir da piada dele. A adrenalina pulsava em minhas veias enquanto a percepção do perigo afundava lentamente em mim. Ele podia sentir o cheiro de onde estava sentado. Seu sorriso ficou debochado.
— Sou o melhor predador do mundo, não sou? Tudo em mim convida você… Minha voz, meu rosto, até meu cheiro. Como seu eu precisasse disso! — Inesperadamente, ele estava de pé, afastando-se num salto, de imediato fora de vista, aparecendo debaixo da mesma árvore de
antes, depois de contornar a campina em meio segundo. — Como se pudesse ser mais rápida do que eu — ele riu amargamente.

Ele estendeu a mão e, com um estalo ensurdecedor, quebrou sem esforço um galho de sessenta centímetros de espessura do tronco de um abeto. Balançou-o na mão por um momento, depois o atirou numa velocidade ofuscante, espatifando-o em uma árvore enorme, que sacudiu e tremeu com o golpe.

E ele estava na minha frente de novo, parado a meio metro, ainda como uma pedra.
— Como se pudesse lutar comigo — disse ele delicadamente.
Fiquei sentada sem me mexer, com mais medo dele do que jamais senti. Nunca o vi tão completamente livre de sua fachada refinada. Ele nunca foi menos humano… Nem mais lindo. Pálida e de olhos arregalados, fiquei sentada como uma ave presa pelos olhos de uma serpente.

Seus olhos adoráveis pareciam brilhar com uma excitação imprudente. Depois, com o passar dos segundos escureceram. Sua expressão aos poucos assumiu a máscara de uma tristeza antiga.
— Não tenha medo — murmurou ele, a voz de veludo involuntariamente sedutora.— Eu prometo… — ele hesitou. — Nunca machucar você.



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