História Crescendo - Capítulo 3


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Categorias Sussurro (Hush, Hush)
Personagens Nora Grey, Patch "Jev" Cipriano, Vee Sky
Tags Anjos Caídos, Hush Hush, Nefilim, Romance, Suspense, Sussurro
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Palavras 7.526
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Ficção, Ficção Adolescente, Luta, Mistério, Policial, Romance e Novela, Saga, Sci-Fi, Sobrenatural, Suspense, Violência
Avisos: Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


LIVRO DE BECCA FITZPATRICK!!!!!!!!!!

PARA QUEM NÃO LEU O LIVRO 1 (HUSH, HUSH), O LINK ESTARÁ NAS NOTAS FINAIS!!!

Irei excluir em breve.

Capítulo 3 - Capítulo 2


CAPÍTULO

2

 

Eu tinha passado os últimos onze segundos deitada de bruços, apertando o travesseiro sobre a cabeça, tentando não ouvir o relatório de Chuck Delaney sobre as condições do trânsito no centro de Portland, que chegava alto e bom som do meu radiorrelógio. Da mesma maneira, eu tentava calar o lado racional do meu cérebro, que berrava para que eu me vestisse, prometendo consequências graves caso isso não acontecesse. Mas o lado que queria prazer venceu. Prendeu-se ao sonho que eu estava tendo — ou melhor, ao tema do meu sonho. Ele tinha cabelos negros ondulados e um sorriso matador. Nesse momento, estava sentado ao contrário na moto, e eu estava sentada de frente para ele, nossos joelhos se encostando. Agarrei sua camisa e o puxei para beijá-lo.

Em meu sonho, Patch sentiu o beijo. Não apenas no aspecto emocional, mas também como algo real e físico. Em meu sonho, ele se tornou mais humano que anjo. Anjos não têm sensações físicas — sei disso —, mas, no sonho, quis que Patch sentisse a pressão macia e sedosa de nossos lábios ao se juntarem. Quis que ele sentisse meus dedos passando por seu cabelo. Precisava que ele sentisse a força do inegável e excitante campo magnético que puxava todas as moléculas de seu corpo para junto do meu.

Como eu sentia.

Patch passou o dedo sob a corrente de prata em meu pescoço. O toque produziu um calafrio de prazer que atravessou todo o meu corpo.

— Eu amo você — murmurou.

Apoiei as pontas dos dedos em seu abdômen rígido e me inclinei, parando quando estava prestes a beijá-lo. Eu amo mais, afirmei, esbarrando em sua boca ao falar.

O único problema era que as palavras não saíram. Elas ficaram presas na minha garganta.

Enquanto Patch esperava pela minha resposta, seu sorriso vacilou.

Eu amo você, tentei novamente. Mais uma vez, as palavras ficaram presas dentro de mim.

A expressão de Patch se tornou angustiada.

— Eu amo você, Nora — repetiu ele.

Assenti freneticamente, mas ele se virou. Saltou da motocicleta sem olhar para trás.

Eu amo você!, berrei, correndo atrás dele. Eu amo você! Eu amo você!

Mas era como se houvesse areia movediça em minha garganta. Quanto mais eu tentava forçar as palavras a saírem, mais elas afundavam.

Patch se misturou à multidão. A noite havia caído bruscamente, e eu mal conseguia distinguir sua camiseta preta das centenas de outras camisas escuras em meio à massa. Corri atrás dele, mas, quando segurei seu braço, foi outra pessoa que se virou. Uma garota. Estava escuro demais para distinguir seus traços, mas dava para ver que era bonita.

— Eu amo Patch — declarou, sorrindo com lábios pintados de batom vermelho berrante. — E não tenho medo de falar.

— Eu falei! — argumentei. — Disse a ele ontem à noite!

Passei por ela, meus olhos varrendo a multidão até que consegui vislumbrar o boné de beisebol azul, marca registrada de Patch. Forcei passagem freneticamente até chegar a ele, estendi o braço para segurar sua mão.

Ele se virou, mas havia se transformado na mesma garota bonita.

— Você está atrasada — disse ela. — Agora eu amo Patch.

— E agora vocês ficam com Angie e a previsão do tempo — berrou Chuck Delaney animadamente em meu ouvido.

Meus olhos se arregalaram com a expressão "previsão do tempo". Fiquei deitada na cama por mais um momento, tentando me desvencilhar de algo que não passava de um pesadelo, para então organizar minha cabeça. A previsão do tempo era transmitida vinte minutos antes de cada hora extra, e eu não poderia estar ouvindo aquilo a menos que...

Curso de verão! Eu dormi demais!

Joguei as cobertas para o lado e voei para o armário. Enfiei as pernas na mesma calça que havia largado no chão a noite passada, joguei uma camiseta branca por sobre a cabeça e, em seguida, pus um casaquinho lilás. Usei a discagem rápida para ligar para Patch, mas, depois de tocar três vezes, a secretária eletrônica atendeu.

— Ligue para mim! — pedi, fazendo uma pausa de meio segundo para pensar se ele estaria evitando por causa da grande confissão da noite anterior. Eu tinha resolvido fingir que nada havia acontecido até que tudo passasse e voltasse ao normal, mas, depois do sonho daquela noite, eu começava a duvidar se conseguiria deixar tudo para lá com tanta facilidade. Talvez Patch sentisse a mesma dificuldade para dizer aquilo. Apesar de poder jurar que ele havia me prometido uma carona...

Enfiei uma faixa no cabelo, em vez de arrumá-lo, peguei a mochila no balcão da cozinha e saí correndo pela porta.

Parei na entrada tempo o suficiente para soltar um grito de exasperação ao ver a superfície cimentada de dois metros e meio por três metros, onde meu Fiat Spider costumava ficar. Mamãe tinha vendido o Spider para pagar três meses de contas de luz e encher a geladeira de modo que garantisse nossa sobrevivência até o fim do mês. Tinha até dispensado nossa empregada, Dorothea, minha "mãe" substituta, para cortar as despesas. Enviei um pensamento odioso para as Circunstâncias, coloquei a mochila no ombro e comecei a trotar. A maioria das pessoas talvez considere pitoresca a propriedade rural do Maine onde minha mãe e eu moramos, mas a verdade é que não há nada de pitoresco na caminhada de quase dois quilômetros até os vizinhos mais próximos. E, a menos que você considere pitoresco uma dispendiosa espelunca do século XVIII, cheia de correntes de ar, localizada no centro de uma inversão atmosférica que suga toda a neblina daqui até a costa, peço licença para ter uma opinião diferente.

Na esquina de Hawthorne e Beech, vi sinais de vida enquanto os carros avançavam depressa em seus deslocamentos matinais. Usei uma das mãos para erguer o polegar enquanto a outra desembrulhava um chiclete, para refrescar o hálito, em substituição à pasta de dentes.

Um Toyota 4Runner vermelho freou no acostamento, e a janela do carona se abriu, com um zumbido mecânico. Marcie Millar estava ao volante.

— Problemas com o carro? — perguntou.

Problema com carro é não ter carro. Não que eu fosse admitir isso para Marcie.

— Precisa de uma carona? — ela refez a pergunta com impaciência quando não ouviu resposta.

Eu não podia acreditar que, de todos os carros que passavam por aquele trecho, tinha sido justamente ela quem resolvera parar. Eu queria uma carona de Marcie? Não. Ainda estava incomodada pelo que ela dissera sobre o meu pai? Sim. Estava prestes a perdoá-la? De maneira alguma. Eu teria feito um gesto para que seguisse em frente, mas havia só um probleminha. Segundo os boatos, a única coisa que o sr. Loucks gostava mais do que a tabela periódica era de entregar notificações de retenção para alunos atrasados.

— Obrigada — aceitei com relutância. — Estou indo para a escola.

— Então sua amiga gorda não pôde lhe dar uma carona?

Minha mão ficou paralisada na maçaneta. Vee e eu tínhamos desistido muito tempo atrás de tentar esclarecer às pessoas mais limitadas de que "gorda" e "curvilínea" não significavam a mesma coisa, mas isso não queria dizer que tolerávamos a ignorância. E eu teria ficado feliz em pedir uma carona para Vee, mas ela havia sido convidada para comparecer a uma reunião para os candidatos a editor do eZine da escola e já estava lá.

— Mudei de ideia, vou andando — declarei e empurrei a porta de Marcie, voltando a fechá-la.

Marcie tentou demonstrar um ar de confusão.

— Você se ofendeu porque eu a chamei de gorda? Mas é a verdade. Qual é o seu problema? Parece que tudo o que digo tem que ser censurado. Primeiro seu pai, depois isso. O que aconteceu com a liberdade de expressão?

Por uma fração de segundo, pensei que seria bom e conveniente se eu ainda tivesse o Spider. Não precisaria sair por aí procurando carona e, além disso, talvez tivesse a oportunidade de passar por cima de Marcie. O estacionamento da escola ficava bastante caótico depois das aulas. Acidentes podiam acontecer.

Como não podia atingir Marcie com meu para-choque, optei pela segunda melhor opção.

— Se meu pai fosse dono da concessionária da Toyota, acho que teria consciência ambiental suficiente para pedir que ele me desse um modelo flex.

— Bem, seu pai não é dono da concessionária da Toyota.

— Isso mesmo. Meu pai está morto.

Ela ergueu um ombro.

— Foi você quem disse, e não eu.

— De hoje em diante, acho melhor a gente evitar cruzar o caminho uma da outra.

Ela examinou as unhas.

— Ótimo.

— Muito bom.

— Estava apenas querendo ser simpática e veja o que ganhei com isso — falou baixo.

— Simpática? Você chamou Vee de gorda.

— Também lhe ofereci uma carona — concluiu ela. Depois pisou fundo no acelerador, os pneus cuspindo poeira na minha direção.

Eu não havia acordado esta manhã procurando mais uma razão para detestar Marcie Millar, mas lá estava ela.

 

 

 

Coldwater High foi construída no fim do século XIX e seu estilo era uma mistura eclética de gótico e vitoriano, o que lhe dava um ar mais de catedral do que de escola. As janelas eram estreitas e em arco, com vidros trabalhados. A fachada de pedra era multicolorida, mas o cinza predominava. No verão, a hera subia pela fachada e dava à escola certo charme da Nova Inglaterra. No inverno, as plantas lembravam dedos longos e esqueléticos a asfixiarem o prédio.

Eu estava andando rápido, quase correndo pelo corredor até a sala de química, quando o celular tocou no meu bolso.

— Mãe? — respondi, sem diminuir o ritmo. — Posso ligar daqui a...

— Você não imagina quem encontrei na noite passada! Lynn Parnell. Você se lembra dos Parnell. A mãe de Scott.

Olhei a hora no celular. Tive sorte de conseguir uma carona para a escola com uma completa desconhecida — uma mulher que estava a caminho da aula de kickboxing na academia —, mas estava em cima da hora. Menos de dois minutos para o último sinal.

— Mãe? Minha aula já vai começar. Posso ligar durante o almoço?

— Você e Scott eram tão amigos!

Ela despertou algumas vagas lembranças.

— Quando nós tínhamos 5 anos — completei. — Não era ele quem sempre molhava as calças?

— Fui tomar um drinque com Lynn, ontem à noite. Ela acabou de se divorciar e está voltando para Coldwater com Scott.

— Que ótimo. Vou ligar para você...

— Convidei os dois para jantarem lá em casa, hoje à noite.

Quando passei pela sala da direção, o ponteiro dos minutos no relógio sobre a porta avançou para a próxima marca. De onde eu estava, parecia marcar algo entre 7h59 e oito em ponto. Dei um olhar ameaçador de Não ouse tocar antes da hora para ele.

— Hoje não é um bom dia, mãe. Patch e eu...

— Não seja boba! — Mamãe me interrompeu... — Scott é um de seus amigos mais antigos. Você o conheceu bem antes de Patch.

— Scott me obrigava a comer tatuzinhos-de-quintal — contei, as lembranças começando a voltar.

— E você nunca o obrigou a brincar com as Barbies?

— São situações completamente diferentes!

— Hoje à noite, às sete — exclamou mamãe com uma voz que eliminava todos os argumentos possíveis.

Corri para a sala de química com apenas alguns segundos de antecedência e sentei-me em um banco de metal atrás de uma mesa de laboratório em granito negro, na primeira fileira. Cada mesa abrigava dois alunos, por isso cruzei os dedos, torcendo para ficar com alguém cujos conhecimentos de ciências superassem os meus, o que não era algo difícil de acontecer. Eu tendia a ser mais romântica do que realista e escolhia a fé cega em detrimento à frieza da lógica. O que me deixava em dificuldades na matéria desde o início.

Marcie Millar desfilou pela sala de salto alto, jeans e uma blusinha de seda da Banana Republic que fazia parte da minha lista de compras para a volta às aulas. Quando chegasse o Dia do Trabalho, ela estaria em liquidação e ao alcance do meu poder aquisitivo. Estava mentalmente eliminando a blusa da minha lista de ambições quando Marcie se empoleirou no banco ao lado do meu.

— O que aconteceu com seu cabelo? — perguntou ela. — Acabou o creme para pentear? Ou a paciência? — Um sorriso ergueu um canto de sua boca. — Ou foi porque você precisou correr seis quilômetros para chegar até aqui na hora?

— E o que aconteceu com aquela ideia de a gente manter distância uma da outra? — perguntei e dei uma olhada incisiva para o banco dela e o meu, comunicando que cinquenta centímetros não eram suficientes.

— Preciso de uma coisa sua.

Soltei o ar silenciosamente, estabilizando minha pressão sanguínea. Eu deveria imaginar.

— É o seguinte, Marcie — comecei. — Nós duas sabemos que esse curso vai ser loucamente difícil. Deixe que eu lhe faça um favor e avise a você que ciências é minha pior matéria. A única razão que me leva a fazer um curso de verão é porque ouvi dizer que as aulas de química são mais fáceis aqui. Você não vai me querer como parceira. Não vai ganhar uma nota dez na moleza.

— Eu tenho cara de quem vai ficar sentada ao seu lado por causa da minha média? — disse ela, com um movimento impaciente da mão. — Preciso de você por outra razão. Na semana passada, arranjei um trabalho.

Marcie? Trabalho?

Ela abriu um sorriso forçado e eu só pude imaginar que ela havia lido meus pensamentos por meio da minha expressão.

— Organizo os arquivos na secretaria. Um dos vendedores do meu pai é casado com a secretária. Não é ruim ter contatos. Embora você não tenha ideia do que é isso.

Eu sabia que o pai de Marcie era influente em Coldwater. De fato, ele era tão generoso em suas doações para as associações estudantis que costumava ser ouvido sempre que se precisava de um treinador no colégio, o que, aliás, era ridículo.

— De vez em quando, uma pasta se abre e eu não consigo deixar de ver algumas coisas — disse Marcie.

O.k. Acredito.

— Por exemplo, sei que você ainda não superou a morte de seu pai. Você está sob aconselhamento da psicóloga da escola. Na verdade, sei tudo sobre todo mundo. Menos sobre Patch. Na semana passada, reparei que a pasta dele estava vazia. Gostaria de saber a razão. Quero saber o que ele está escondendo.

— Por que isso interessa a você?

— Ele estava na entrada da minha casa na noite passada, olhando para a janela do meu quarto.

Pisquei.

— Patch estava na entrada da sua casa?

— A menos que você conheça outro cara que dirige um Jeep Commander, se veste todo de preto e é supergato.

Franzi a testa.

— Ele disse alguma coisa?

— Ele me viu olhando pela janela e foi embora. Devo pensar em um mandado judicial para que ele fique longe? Este é um comportamento típico dele? Sei que ele é esquisito, mas de que tipo de esquisito estamos falando?

Eu a ignorei, preocupada demais em processar aquela informação. Patch? Na casa de Marcie? Tinha que ter sido depois que ele saíra da minha casa. Depois que eu dissera que o amava e ele dera o fora.

— Sem problemas — disse Marcie, empertigando-se. — Existem outras formas de se obter informações; com a administração da escola, por exemplo. Estou supondo que vão ficar preocupados com uma pasta vazia. Eu não ia dizer nada, mas, para minha própria segurança...

Não fiquei preocupada com a ameaça de Marcie de procurar o setor de administração da escola. Patch podia se cuidar. Eu estava preocupada com a noite passada. Patch havia ido embora abruptamente, dizendo que tinha algo a fazer, mas eu não conseguia acreditar que fosse ficar à espreita na entrada da casa de Marcie. Era bem mais fácil aceitar que ele havia ido embora por causa das minhas palavras.

— Ou com a polícia — acrescentou Marcie, tamborilando com a ponta do dedo sobre o lábio. — Uma pasta de informações escolares vazia soa quase ilegal. Como foi que Patch conseguiu entrar para a escola? Você parece transtornada, Nora. Será que cheguei a algum lugar? — Um sorriso divertido de prazer apareceu em seu rosto. — Cheguei, não foi? Tem mais alguma coisa nessa história.

Pousei um olhar frio sobre ela.

— Para alguém que deixou claro que se considera muito superior a todos os outros alunos dessa escola, você perde muito tempo tentando conhecer os detalhes das vidas tediosas e sem valor de cada um de nós.

O sorriso de Marcie desapareceu.

— Eu não seria obrigada a isso se vocês ficassem longe de mim.

— Longe de você? Esta escola não é sua.

— Não fale assim comigo — disse Marcie com um meneio incrédulo de cabeça, quase involuntário. — Para falar a verdade, não fale comigo.

Virei as palmas da mão para cima.

— Tudo bem.

— E, aproveitando a ocasião, saia daí.

Olhei para o meu banco. Com toda certeza, ela não queria dizer...

— Cheguei primeiro.

Marcie me imitou, virando as palmas da mão para cima.

— O problema não é meu.

— Não vou sair.

— Não vou me sentar do seu lado.

— Que bom!

— Saia daí! — ordenou Marcie.

— Não.

A campainha nos interrompeu e, quando o som estridente acabou, eu e Marcie percebemos que a sala havia ficado em silêncio. Olhamos em volta e então notei, com um aperto no estômago, que todos os lugares estavam tomados.

À minha direita, no corredor, o sr. Loucks apareceu, sacudindo uma folha de papel.

— Estou segurando um mapa da sala de aula, em branco — disse ele. — Cada retângulo corresponde a uma mesa desta sala. Escrevam seus nomes no retângulo apropriado e passem adiante. — Ele jogou o mapa na mesa, à minha frente. — Espero que gostem de seus parceiros — observou ele. — Vão passar oito semanas com eles.

 

 

 

Ao meio-dia, quando a aula acabou, peguei uma carona com Vee até o Enzo's Bistrô, nosso lugar favorito para tomar mochaccinos gelados ou leite quente, dependendo da estação. Senti o sol queimar meu rosto ao cruzarmos o estacionamento e foi então que o vi. Um conversível branco Volkswagen Cabriolet com um anúncio de venda colada na janela: MIL DÓLARES OU A MELHOR OFERTA.

— Você está babando — disse Vee, usando o dedo para levantar o meu queixo caído.

— Você por acaso não teria mil dólares para me emprestar?

— Não tenho nem cinco. Meu porquinho está oficialmente anoréxico.

Soltei um suspiro de desejo na direção do Cabriolet.

— Preciso de dinheiro. Preciso de um emprego.

Fechei os olhos imaginando-me atrás do volante do Cabriolet, com a capota abaixada, o vento batendo em meu cabelo cacheado. Com ele, eu nunca mais precisaria sair por aí pedindo carona. Teria liberdade para ir aonde eu quisesse, quando quisesse.

— É, mas conseguir um emprego significa que você vai ter que trabalhar. Quer dizer, tem certeza de que quer perder o verão inteiro ralando por um salário de fome? Sei lá, você talvez tenha que dar duro ou coisa parecida.

Revirei a mochila em busca de um pedaço de papel e anotei o telefone que estava no anúncio. Talvez eu pudesse conversar com o dono e convencê-lo a vender por uns duzentos dólares a menos. Enquanto pensava nisso, incluí examinar os classificados com empregos de meio período à minha lista de atividades para aquela tarde. Um emprego significava tempo longe de Patch, mas também significava transporte particular. Por mais que eu amasse Patch, ele sempre parecia ocupado... fazendo alguma coisa. Por isso, eu não podia contar muito com ele em se tratando de caronas.

No interior do Enzo's, Vee e eu pedimos os mochas gelados e a salada picante de noz-pecã e desabamos em uma mesa com nossos pratos. Nas últimas semanas, o Enzo's tinha passado por uma grande reforma para trazê-lo para o século XXI, e Coldwater agora tinha seu primeiro lounge com internet. Considerando-se que o computador de casa tinha seis anos, a notícia havia me deixado empolgada.

— Não sei se é o seu caso, mas estou pronta para as férias — disse Vee, colocando os óculos escuros na cabeça. — Oito semanas a mais de espanhol. São mais dias do que eu desejaria pensar. O que precisamos é de distração. Precisamos de alguma coisa que remova nossas mentes dessa infindável quantidade de educação de boa qualidade que nos é oferecida. Precisamos fazer compras. Portland, aqui vamos nós. A Macy's está com uma grande liquidação. Preciso de sapatos. Preciso de vestidos e preciso de um novo perfume.

— Você acabou de comprar roupas novas. Duzentos dólares em roupas. Sua mãe vai ter um ataque quando receber a conta do MasterCard.

— É, mas preciso de um namorado. E, para arranjar um, é preciso estar com boa aparência. E cheirar bem também não atrapalha.

Mordi um pedaço de pera que estava no meu garfo.

— Está pensando em alguém em particular?

— Para falar a verdade, estou.

— Só me prometa que não é Scott Parnell.

— Scott quem?

Eu sorri.

— Está vendo só? Agora estou feliz.

— Não sei quem é Scott Parnell, mas acontece que esse cara que eu vi é um tremendo gato. Um gato de arrasar. Um gato mais gato do que Patch. — Ela fez uma pausa. — Bem, talvez não tanto assim. Ninguém é tão gato. Falando sério, estou livre o restante do dia. Portland ou nada, eu digo.

Abri a boca, mas Vee foi mais rápida.

— Ah, não — disse ela. — Conheço aquele olhar. Você ia me dizer que já tem planos.

— Vamos voltar a Scott Parnell. Ele morava aqui quando nós tínhamos 5 anos.

Vee parecia estar fazendo um esforço para acessar sua memória remota.

— Molhava as calças com frequência — suferi, prestativa.

Os olhos de Vee se iluminaram.

— Scotty, o Mijão?

— Ele está voltando para Coldwater. Minha mãe o convidou para jantar, hoje à noite.

— Já estou vendo tudo — disse Vee, assentindo com ar de sabedoria. — Isso se chama "encontro armado". É o ponto de interseção nas vidas de dois possíveis parceiros românticos. Você lembra quando Desi acidentalmente entrou no banheiro dos homens e pegou Ernesto no mictório?

Parei com o garfo entre o prato e a boca.

— O quê?

— Em Corazón, a novela em espanhol. Não? Não importa. Sua mãe quer juntar você e Scotty, o Mijão. Pronto.

— Não, ela não quer. Ela sabe que estou com Patch.

— Só porque ela sabe não quer dizer que esteja feliz com isso. Sua mãe vai gastar muito tempo e energia modificando a equação Nora mais Patch é igual a amor para Nora mais Scotty é igual a amor. Que tal? Talvez Scotty, o Mijão, tenha virado Scotty, o Gatão. Já pensou nisso?

Eu não tinha pensado nem ia pensar. Eu tinha Patch e ficaria perfeitamente feliz se continuasse assim.

— Podemos conversar sobre um assunto ligeiramente mais urgente? — perguntei, pensando que era hora de mudar o rumo da conversa antes que o atual permitisse a Vee ter mais ideias extravagantes. — Como o fato de minha nova parceira de química ser Marcie Millar.

— A filha da mãe.

— Aparentemente, ela está trabalhando nos arquivos da secretaria e andou olhando a pasta de Patch.

— Continua vazia?

— Parece que sim, porque ela quis que eu lhe contasse tudo o que sei sobre ele. — Incluindo a razão para ele ficar parado na entrada de sua casa, ontem à noite, contemplando a janela do quarto dela. Uma vez, ouvi um boato de que Marcie deixava uma raquete de tênis na janela, quando estava disponível para prestar certos "serviços", mas eu não ia pensar nisso. Afinal, noventa por cento dos boatos são falsos, não é?

Vee se aproximou de mim.

— O que você sabe?

Nossa conversa se transformou em um silêncio desconfortável. Eu não acreditava em guardar segredos até dos melhores amigos. Mas existem segredos... e existem verdades duras. Verdades assustadoras. Verdades inimagináveis. Ter um namorado que é um anjo caído transformado em um guardião se encaixa em todas essas categorias.

— Você está escondendo alguma coisa de mim — disse Vee.

— Não estou.

— Está sim.

Profundo silêncio.

— Eu disse a Patch que o amo.

Vee tapou a boca, mas não consegui saber se ela estava abafando uma exclamação de espanto ou uma risada. O que só me deixou mais insegura. Era assim tão engraçado? Será que eu tinha feito algo mais idiota do que havia imaginado?

— E o que foi que ele disse? — perguntou Vee.

Eu apenas olhei para ela.

— Tão ruim assim? — perguntou.

Pigarreei.

— Fale desse cara por quem você se interessou. Quer dizer, é um caso de atração a distância ou você chegou a falar com ele?

Vee entendeu a deixa.

— Se falei com ele? Comi cachorro-quente com ele no Skippy's, ontem, no almoço. Era um desses encontros às cegas, mas acabou sendo melhor do que eu esperava. Bem melhor. Aliás, você já saberia de tudo isso se tivesse retornado minhas ligações em vez de ficar agarrando seu namorado sem parar.

— Vee, sou sua única amiga e não fui eu quem arranjou esse encontro para você.

— Eu sei. Foi seu namorado.

Quase engasguei com um pedaço de gorgonzola.

— Patch arranjou um encontro às cegas para você?

— É, e daí? — disse Vee em um tom que beirava o defensivo.

Sorri.

— Achei que você não confiava nele.

— Não confio.

— E então?

— Tentei ligar para você para checar informações sobre o cara primeiro, mas, repetindo, você não retorna mais as minhas chamadas.

— Missão cumprida. Eu já me sinto a pior amiga do mundo. — Abri um sorriso conspiratório. — Agora conte o restante.

A resistência de Vee se desfez e ela retribuiu meu sorriso.

— O nome dele é Rixon e ele é irlandês. O sotaque dele, ou seja lá como se chama aquilo, arrasa comigo. Sexy elevado à última potência. Ele é um pouco magrelo, considerando-se que tenho ossos grandes, mas, como planejo perder uns dez quilos no verão, estaremos equiparados lá por agosto.

— Rixon? Fala sério! Eu amo Rixon!

Como regra, eu não confiava em anjos caídos, mas Rixon era uma exceção. Da mesma forma que os de Patch, seus limites morais ficavam na área cinzenta entre o preto e o branco. Não era perfeito, mas também não era mau.

Sorri, apontando para Vee com o garfo.

— Não posso acreditar que você saiu com ele. Quer dizer, é o melhor amigo de Patch. Você detesta Patch.

Vee me lançou seu olhar de gato preto, com o cabelo praticamente arrepiando.

— Não quer dizer nada o fato de serem grandes amigos. Olhe para mim e para você. Somos completamente diferentes.

— Isso é ótimo. Nós quatro podemos passar o verão inteiro juntos.

— Não, não. De jeito nenhum. Não vou ficar por aí com aquele maluco do seu namorado. Você pode dizer o que quiser, mas ainda acho que ele teve alguma relação com a morte misteriosa de Jules, no ginásio.

Uma nuvem carregada baixou sobre a conversa. Havia apenas três pessoas no ginásio na noite em que Jules morreu e eu era uma delas. Não contei para Vee tudo o que havia acontecido lá, só o suficiente para que ela parasse de me pressionar, e, para garantir sua segurança, eu planejava que as coisas continuassem desse jeito.

 

 

 

Vee e eu passamos o dia andando de carro de um lado para o outro, coletando fichas de inscrição para empregos em lanchonetes da região. Já eram quase seis e meia quando cheguei em casa. Joguei as chaves no aparador e verifiquei a secretária eletrônica. Havia um recado da minha mãe. Ela estava no Michaud's Market comprando pão de alho, lasanha e vinho barato e jurava chegar em casa antes dos Parnell.

Apaguei a mensagem e subi até o quarto. Como tinha deixado de tomar a chuveirada matinal e meu cabelo tinha ganhado volume máximo durante o dia, resolvi mudar de roupa para diminuir o estrago. Todas as lembranças que eu tinha de Scott Parnell eram desagradáveis, mas visitas eram visitas. Já havia desabotoado metade do cardigã quando ouvi baterem à porta da frente.

Encontrei Patch do outro lado da porta, com as mãos nos bolsos.

Normalmente, eu o teria saudado me jogando diretamente em seus braços. Hoje me contive. Na noite passada, eu dissera que o amava e ele tinha se segurado e supostamente se dirigira diretamente para a casa de Marcie. Meu estado de espírito oscilava entre orgulho ferido, raiva e insegurança. Eu esperava que meu silêncio discreto lhe enviasse um recado de que havia algo de errado e que continuaria assim até ele tomar a iniciativa de consertar as coisas, com um pedido de desculpas ou uma explicação.

— Ei — disse eu, com um ar falsamente casual. — Você se esqueceu de me ligar ontem à noite. Para onde foi, afinal?

— Por aí. Vai me convidar para entrar?

Não convidei.

— Fico feliz em ouvir que a casa de Marcie fica... bem, você sabe, por aí.

Um momentâneo fulgor de surpresa em seus olhos confirmou aquilo em que eu não queria acreditar: Marcie tinha dito a verdade.

— Você quer me contar o que está acontecendo? — perguntei em um tom ligeiramente mais hostil. — Quer me dizer o que estava fazendo na frente da casa dela, ontem à noite?

— Você parece estar com ciúme, Anjo — disse ele. Talvez houvesse uma nota de deboche por trás da frase, mas, ao contrário do habitual, não havia nada de carinhoso nem de brincalhão em seu tom.

— Talvez eu não estivesse com ciúmes se você não me desse motivo — retruquei. — O que estava fazendo na casa dela?

— Cuidando de negócios.

Ergui as sobrancelhas.

— Não sabia que você e Marcie tinham negócios para resolver.

— Temos, mas é apenas isso. Negócios.

— Poderia explicar melhor? — perguntei. Havia uma forte dose de acusação disfarçada entre aquelas palavras.

— Você está me acusando de alguma coisa?

— Eu deveria?

Patch costumava ser um especialista na arte de esconder suas emoções, mas a linha formada por seus lábios se comprimiu.

— Não.

— Se sua passagem pela casa dela ontem à noite foi tão inocente assim, por que está tendo tanta dificuldade para me explicar o que fazia lá?

— Não estou tendo dificuldade — respondeu ele, medindo cada palavra. — Não vou lhe dizer, porque o que eu estava fazendo na casa de Marcie não tem nada a ver com a gente.

Como ele poderia achar que não tinha nada a ver com a gente? Marcie era a única pessoa que aproveitava todas as oportunidades de que dispunha para me atacar e me humilhar. Nos últimos onze anos, ela havia debochado de mim, espalhado boatos terríveis e me envergonhado em público. Como ele podia pensar que não era pessoal? Como podia pensar que eu simplesmente aceitaria aquilo, sem fazer perguntas? Acima de tudo, como ele podia não perceber como eu estava apavorada com a possibilidade de Marcie usá-lo para me ferir? Se ela suspeitasse que ele estivesse minimamente interessado nela, faria qualquer coisa que estivesse a seu alcance para roubá-lo para si. Eu não conseguia suportar a ideia de perder Patch, mas morreria se fosse para ela.

Rendida por aquele medo súbito, eu disse:

— Não volte aqui até você estar pronto para me contar o que fazia na casa dela.

Com impaciência, Patch forçou passagem e fechou a porta atrás de si.

— Não vim aqui para discutir. Queria que você soubesse que Marcie arranjou encrenca hoje à tarde.

Marcie, de novo? Será que ele achava que não havia me magoado o suficiente? Tentei ficar calma o bastante para ouvir o que ele tinha a dizer, mas na verdade eu queria berrar.

— É? — perguntei com frieza.

— Ela ficou no meio do fogo cruzado, quando um grupo de anjos caídos tentava obrigar um nefilim a jurar lealdade, dentro do banheiro masculino do Fliperama do Bo. O nefilim ainda não tinha 16 anos, por isso não podiam obrigá-lo, mas se divertiram tentando. Machucaram-no muito e quebraram algumas costelas. Então Marcie apareceu. Ela tinha bebido demais e foi parar no banheiro errado. O anjo caído que estava de guarda deu-lhe uma facada. Ela está no hospital, mas vai ter alta logo. Ferimento superficial.

Meu pulso se acelerou e eu sabia que estava perturbada por Marcie ter sido esfaqueada, mas era a última coisa que queria revelar a Patch. Cruzei os braços rigidamente.

— Puxa. E o nefilim ficou bem?

Lembrei-me vagamente de ouvir a explicação de Patch, algum tempo atrás, sobre o fato de os anjos caídos não poderem obrigar os nefilins a jurar fidelidade até completarem 16 anos. Da mesma forma, ele não podia me sacrificar para obter o corpo de um humano antes que eu fizesse 16 anos. Dezesseis anos era uma idade sombriamente mágica, até mesmo crucial, no mundo dos anjos e dos nefilins.

Patch me lançou um olhar que continha um brilho mínimo de indignação.

— Marcie talvez estivesse bêbada, mas é bem possível que se lembre do que viu. Obviamente você sabe que os anjos caídos e os nefilins tentam permanecer invisíveis, e alguém como Marcie, com uma boca tão grande, pode ser uma ameaça para o segredo deles. A última coisa que desejam é que ela saia por aí espalhando o que viu. Nosso mundo funciona bem melhor quando os humanos ignoram o que se passa. Conheço os anjos caídos em questão — Ele retesou o queixo. — Vão fazer o que for necessário para manter Marcie em silêncio.

Senti um calafrio de medo por ela, mas logo o ignorei. Desde quando Patch se importava com o que acontecia a Marcie? Desde quando ele se preocupava mais com ela do que comigo?

— Estou tentando me sentir mal — confessei —, mas parece que você já está suficientemente preocupado por nós dois. — Virei a maçaneta da porta e a escancarei. — Talvez devesse visitar Marcie e ver se seu ferimento superficial está sarando adequadamente.

Patch encarou minha mão livre e fechou a porta com o pé.

— Estão acontecendo coisas mais importantes do que eu, você e Marcie — declarou. Em seguida, hesitou por um momento, como se tivesse mais a dizer, mas fechou a boca no último momento.

— Você, eu e Marcie? Desde quando passou a colocar nós três na mesma frase? Desde quando ela passou a ter alguma importância para você? — retruquei.

Ele colocou a mão na nuca, dando a impressão de que sabia que deveria escolher as palavras com muito cuidado antes de responder.

— Diga apenas o que está pensando — exclamei. — Diga logo! Já é muito ruim não ter ideia do que você sente, quanto mais do que você pensa!

Patch olhou em volta como se estivesse se perguntando se eu falava com outra pessoa.

— Dizer logo! — disse ele com um tom de voz incrédulo e sombrio. Talvez até incomodado. — O que acha que estou tentando fazer? Se você se acalmasse, eu poderia dizer. Agora você vai ficar histérica, independentemente do que eu lhe contar.

Senti meus olhos se apertarem.

— Tenho direito de ficar zangada. Você não vai me contar o que estava fazendo na casa de Marcie ontem à noite?

Patch jogou as mãos para o céu. Lá vamos nós de novo, é o que o gesto dizia.

— Há dois meses — comecei, tentando soar orgulhosa para esconder o tremor em minha voz —, Vee, minha mãe, todo mundo me avisou que você é o tipo de cara que vê as garotas como conquistas. Disseram que eu era apenas mais um nome no seu caderninho, outra menina idiota que você seduziria para sua própria satisfação. Afirmaram que, no exato momento em que eu me apaixonasse, você me largaria. — Engoli em seco. — Preciso saber se todos estavam certos.

Embora eu não quisesse pensar naquilo, a lembrança da noite anterior voltou com perfeita clareza. Recordei toda a cena humilhante nos menores detalhes. Eu tinha dito que o amava e ele me deixara ali. Havia uma centena de formas diferentes de analisar seu silêncio. Nenhuma delas era boa.

Patch sacudiu a cabeça, incrédulo.

— Você quer que eu fale que todos estão errados? Porque estou com a sensação de que não vai acreditar em mim, não importa o que eu diga.

Ele me lançou um olhar zangado.

— Você está tão comprometido com este relacionamento quanto eu? — Eu não podia deixar de perguntar isso. Não depois de ter visto tudo desmoronar, desde ontem à noite. De repente, percebi que não tinha ideia do que Patch realmente sentia por mim. Achei que eu significasse tudo para ele, mas... e se eu tivesse visto apenas o que eu queria? E se tivesse exagerado sobre seus sentimentos? Continuei a encará-lo, porque não ia tornar as coisas mais fáceis para ele, para não lhe dar uma segunda chance de fugir do assunto. Eu precisava saber.

— Você me ama?

Não posso responder a essa pergunta, disse ele, assustando-me ao falar em meus pensamentos. Era um dom que todos os anjos possuíam, mas não compreendi porque ele tinha escolhido justamente aquele momento para usá-lo.

— Passo aqui amanhã. Durma bem — acrescentou secamente, dirigindo-se à porta.

— Quando a gente se beija, você está fingindo?

Ele parou no meio do caminho. Sacudiu a cabeça, novamente incrédulo.

— Fingindo?

— Quando toco em você, você sente alguma coisa? Até onde vai o seu desejo? Você sente alguma coisa parecida com o que sinto por você?

Patch me observou em silêncio.

— Nora... — começou ele.

— Quero uma resposta direta.

Depois de um momento, ele disse:

— Emocionalmente, sim.

— Mas fisicamente não, não é? Como é que eu poderia manter um relacionamento quando nem tenho ideia do que isso significa para você? Será que estou experimentando as coisas de uma forma totalmente diferente? Porque é o que parece. E eu detesto isso — acrescentei. — Não quero que você me beije por obrigação. Não quero que finja que isso significa alguma coisa, quando é só uma representação.

— Só uma representação? Você está ouvindo o que está dizendo? — Ele encostou a cabeça contra a parede soltando outra risada, mais sombria, e partiu-me ao meio ao me olhar de relance. — As acusações acabaram?

— Você acha graça? — protestei, tomada por uma nova onda de raiva.

— Pelo contrário. — Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele se virou para a porta. — Ligue quando estiver pronta para falar racionalmente.

— O que isso quer dizer?

— Quer dizer que você está maluca. Está impossível.

— Eu estou maluca?

Ele ergueu o queixo e deu um beijo rápido e áspero em minha boca.

— E eu devo estar maluco por aguentar isso.

Eu me soltei e esfreguei o queixo, ressentida.

— Você desistiu de se tornar humano por minha causa, e é isso que eu ganho? Um namorado que fica parado na frente da casa de Marcie e não me explica o motivo? Um namorado que vai embora ao primeiro indício de uma briga? Quer saber? Você é um... canalha!

Canalha?, ele perguntou nos meus pensamentos, com a voz fria e cortante. Estou tentando seguir as regrasNão devo me apaixonar por vocêNós dois sabemos que isso não tem relação com MarcieTem a ver com como me sinto em relação a vocêPreciso me segurarCaminho em uma corda bambaFoi por me apaixonar que arranjei problemas, da primeira vez. Não posso ficar com você do jeito que eu quero.

— Por que você desistiu de se tornar humano por minha causa, se você sabia que não poderia ficar comigo? — perguntei, a voz ligeiramente trêmula, o suor molhando as palmas das minhas mãos. — O que você esperava de um relacionamento comigo? De que adianta — minha voz falhou e engoli em seco, sem ter essa intenção — estarmos juntos?

O que eu esperava de um relacionamento com Patch? Em algum momento, devia ter pensado para onde esse namoro se encaminhava e o que aconteceria. Naturalmente, tinha pensado. Mas havia ficado tão assustada com o que eu tinha previsto que fingi não ver o inevitável. Fingi que era viável manter um relacionamento com Patch porque, bem no fundo, qualquer tempo passado com ele era melhor do que nada.

Anjo.

Levantei os olhos quando Patch disse meu apelido em meus pensamentos.

Estar perto de você, da forma que for, é melhor que nada. Não vou perdê-la. Ele fez uma pausa e, pela primeira vez desde que o conheci, vi uma sombra de preocupação em seus olhos. Mas já caí uma vez. Se eu der aos arcanjos motivos para imaginarem que estou remotamente apaixonado por você, eles vão me mandar para o inferno. Para sempre.

A notícia teve o impacto de um soco em meu estômago.

— O quê?

Sou um anjo da guarda, ou pelo menos foi o que me disseram, mas os arcanjos não confiam em mim. Não tenho qualquer privilégio, nem privacidade. Dois deles me encurralaram ontem à noite para uma conversa e saí com a sensação de que querem que eu volte a falharSeja lá qual for a razão, decidiram ficar no meu pé. Estão procurando qualquer desculpa para se livrarem de mim. Estou em observação e, se eu estragar tudo, minha história não vai ter um final feliz.

Olhei-o fixamente, pensando que ele devia estar exagerando, pensando que não podia ser tão ruim assim, mas bastou dar uma olhada em seu rosto para saber que ele nunca tinha falado mais sério.

— O que acontece agora? — perguntei-lhe em voz alta.

Em vez de responder, Patch suspirou com frustração. A verdade era que tudo ia terminar mal. Não importava quanto a gente mudasse de ideia, parasse ou olhasse para o outro lado — um dia, muito em breve, nossas vidas se separariam. O que aconteceria quando eu terminasse o ensino médio e fosse para a universidade? O que aconteceria quando eu fosse atrás do emprego dos meus sonhos, do outro lado do país? O que aconteceria quando chegasse a hora de casar e ter filhos? Eu não estava fazendo um favor a ninguém ao me apaixonar por Patch um pouco mais a cada dia. Será que eu queria mesmo continuar nesse caminho, sabendo que só poderia terminar em sofrimento?

Por um momento fugaz, achei que tinha a resposta — desistiria dos meus sonhos. Era simples assim. Fechei os olhos e abandonei meus sonhos como se fossem balões amarrados em finos e longos fios. Eu não precisava daqueles sonhos. Não podia sequer ter certeza de que se realizariam. E, se fossem realizados, eu não ia querer passar o restante da minha vida sozinha e torturada por saber que tudo o que eu fizera não significava nada sem Patch.

Então percebi, de forma terrível, que nenhum dos dois poderia desistir de tudo. Minha vida continuaria a avançar para o futuro e eu não tinha o poder de paralisá-la. Patch permaneceria como anjo para sempre. Prosseguiria no caminho que percorria desde que havia caído.

— Não há nada que possamos fazer? — perguntei.

— Estou trabalhando nisso.

Em outras palavras, ele não tinha nada. Estávamos, os dois, encurralados — os arcanjos pressionavam por um lado e os dois futuros assumiam direções diametralmente opostas.

— Quero terminar tudo — falei baixinho. Sabia que não estava sendo justa; estava apenas me protegendo. Qual era minha alternativa? Não podia dar a Patch a chance de me fazer mudar de ideia. Precisava fazer o que era melhor para nós dois. Não podia ficar ali, insistindo, quando aquilo a que eu me apegava desaparecia cada vez mais, a cada dia. Não podia demonstrar o quanto me importava, quando aquilo só tornaria tudo ainda mais difícil, no final das contas. Acima de tudo, eu não queria ser responsável por Patch perder tudo pelo que havia batalhado. Se os arcanjos estavam à procura de uma desculpa para bani-lo para sempre, eu só estava facilitando as coisas para eles.

Patch olhou para mim como se não conseguisse decifrar se eu falava sério.

— É isso? Quer terminar? Você teve sua chance de dar sua explicação, que eu, aliás, não engoli, mas agora é a minha vez. Ou você quer que eu simplesmente engula sua decisão e vá embora?

Abracei os cotovelos e me virei.

— Você não pode me obrigar a continuar em um relacionamento contra a minha vontade.

— Podemos falar sobre isso?

— Se você quiser falar, conte-me o que estava fazendo na casa de Marcie ontem à noite.

Mas Patch tinha razão. Não se tratava de Marcie. Era porque eu estava apavorada e perturbada com a armadilha que o destino e as circunstâncias tinham preparado para nós dois.

Voltei-me e vi Patch passar as mãos no rosto. Ele soltou uma risada curta, sem humor.

— Se eu tivesse passado na casa de Rixon ontem à noite, você iria se perguntar o que estava acontecendo — ataquei.

— Não — disse ele, em uma voz perigosamente baixa. — Confio em você.

Com medo de perder minha determinação caso não agisse imediatamente, bati com os punhos em seu peito, fazendo com que ele desse um passo para trás.

— Vá embora! — exclamei, com as lágrimas tornando minha voz mais áspera. — Tenho outras coisas para fazer com a minha vida. Planos que não envolvem você. Tenho a universidade e empregos no futuro. Não vou jogar tudo fora em nome de algo que não deveria ter acontecido.

Patch estremeceu.

— É isso mesmo o que você quer?

— Quando beijar meu namorado, quero saber que ele é capaz de sentir!

Assim que falei aquilo, me arrependi. Não queria magoá-lo — só queria acabar com tudo o mais rápido possível, antes de perder o controle e começar a soluçar. Mas tinha ido longe demais. Vi que ele se enrijeceu. Ficamos cara a cara, ambos com as respirações entrecortadas.

Depois ele saiu, batendo a porta atrás de si.

Assim que a porta se fechou, desabei, apoiada contra ela. Meus olhos ardiam com as lágrimas, mas não escorreu nem uma gota. Eu estava tomada por tanta frustração e raiva que não era capaz de sentir muito mais, mas suspeitava, e de uma forma que provocou um soluço em minha garganta, que, em cinco minutos, quando tudo tivesse se acalmado e eu percebesse todo o impacto do que eu havia feito, eu sentiria meu coração se partindo.


Notas Finais




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