História Cretino irresistível - Fillie - Capítulo 20


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Notas do Autor


Bom madrugada pra vcs kkk

Capítulo 20 - Dezenove


Eu sabia que as mulheres às vezes trocam de humor sem aviso. Eu até conhecia

algumas que se perdiam em pensamentos imaginando trinta anos no futuro e

ficavam bravas por alguma coisa que eu supostamente faria. Mas não era isso

que parecia estar acontecendo com a Millie, e ela nunca foi esse tipo de mulher.

Já tinha visto ela brava antes. Inferno, já tinha visto ela brava de todo jeito

possível: irritada, irada, raivosa, quase violenta. Mas nunca a vira machucada.

Ela se enterrou em documentos na curta viagem até o aeroporto. Depois pediu

licença e se afastou para ligar para seu pai enquanto esperávamos no portão de

embarque. No avião, ela adormeceu quase instantaneamente, ignorando minhas

insinuações para nos encontrarmos no banheiro do avião para uma sessão de

sexo nas alturas. Ela ficou acordada apenas tempo suficiente para recusar o

almoço, mesmo não tendo comido nada desde o café

da manhã. Quando acordou durante a aterrissagem, ficou encarando a janela em

vez de olhar para mim.

– Você vai me dizer qual é o problema?

Ela não disse nada durante uma eternidade e meu coração começou a acelerar.

Tentei pensar em todos os momentos em que eu poderia ter estragado tudo. Sexo

com a Millie na cama. Mais sexo com a Millie. Orgasmos para a Millie. Ela teve

vários orgasmos, para ser honesto. Então achei que não era esse o problema. Eu

tinha acordado, tomado banho, basicamente confessado meu amor. Saguão do

hotel, Gugliotti, aeroporto. Parei. A conversa com Gugliotti tinha me deixado um

pouco mal. Eu não sabia por que tinha agido como um idiota possessivo, mas não

podia negar que a Millie causava isso em mim. Ela fora ótima na reunião, como

eu sabia que seria, mas eu nunca deixaria ela dar um passo para trás na carreira,

indo trabalhar com um cara como o Gugliotti depois que terminasse o MBA. Ele

provavelmente a trataria como um pedaço de carne e ficaria olhando o dia todo

para sua bunda.

– Eu ouvi o que você disse – sua voz soou tão quieta que eu demorei um pouco

para entender que ela tinha falado algo, e demorei mais ainda para processar o

que ela tinha dito. Meu estômago se revirou.

– O que eu disse quando?

Ela sorriu, virando o rosto para finalmente olhar para mim. E, que droga. Ela

estava chorando.

– Para o Gugliotti.

– Eu pareci possessivo. Desculpe.

– Você pareceu possessivo... – ela murmurou, virando de novo para a janela. –

Você me menosprezou... você me fez parecer ingênua! Você agiu como se a

reunião fosse apenas um exercício de treinamento. Eu me sinto ridícula pela

maneira como descrevi a reunião para você ontem, pensando que tinha sido algo

importante. Coloquei a mão em seu braço, rindo um pouco.

– Caras como o Gugliotti possuem egos frágeis. Ele precisa sentir que os

executivos estão escutando o que ele diz. Você fez tudo que precisávamos. Mas

ele acha que precisa receber o contrato oficial das minhas mãos.

– Mas isso é absurdo. E você perpetuou isso, me usando como um peão.

Eu pisquei, confuso. Eu fizera exatamente o que ela falou. Mas é assim que se

joga o jogo, não é?

– Você é minha estagiária.

Uma risada ríspida escapou de seus lábios e ela se virou novamente para mim.

– Certo. Pois esse tempo todo você sempre se importou com o progresso da

minha carreira.

– É claro que sim.

– E como você sabe que eu preciso amadurecer? Até ontem, você mal tinha

olhado para meu trabalho.

– Isso não é nem um pouco verdade – balancei a cabeça, começando a ficar um

pouco irritado. – Eu sei disso

porque observo tudo que você faz. Não quero colocar pressão demais pedindo

para você fazer mais do pode agora, e por isso estou mantendo o controle da

conta do Gugliotti. Mas você fez um ótimo trabalho lá, e fiquei muito orgulhoso

de você.

Ela fechou os olhos e deitou a cabeça no encosto do assento.

– Você me chamou de “menina”.

– Chamei? – tentei lembrar da conversa e percebi que ela estava certa. – Acho

que eu não queria que ele olhasse para você como uma mulher de negócios

supergostosa que ele poderia contratar e depois tentar levar para a cama.

– Deus, Finn. Você é tão idiota! Talvez ele quisesse me contratar porque eu

trabalho bem!

– Eu peço desculpas. Estou agindo como um namorado possessivo.

– Essa coisa de namorado possessivo não é nova para mim. O problema é que

você está agindo como se tivesse feito um favor para mim. Você está sendo

condescendente. Acho que agora não é o melhor momento para entrarmos em

mais dessa interação típica estagiária-chefe.

– Eu já disse que acho que você fez um trabalho incrível na reunião.

Ela me encarou e seu rosto começou a ficar vermelho.

– Você nunca teria dito isso antes. Você teria dito “Bom. Agora volte ao

trabalho”. E só. E com o Gugliotti você

agiu como se eu fosse sua protegida. Antes, você teria fingido que nem me

conhecia.

– A gente precisa mesmo discutir por que eu era um idiota antes? Você também

não era exatamente a garota mais agradável do mundo. E por que lembrar disso

agora?

– Eu não estou falando sobre como você era um idiota antes. Estou falando sobre

como você está agindo agora. Você está tentando compensar. É exatamente por

isso que não se deve transar com o seu chefe. Você era um bom chefe antes...

deixava eu fazer as minhas coisas e você fazia as suas. Agora você se

transformou no mentor sensível que me chama de “menina” depois de eu salvar

a sua pele? Inacreditável.

– Millie...

– Eu posso lidar com você sendo um grande estúpido, Finn. Estou acostumada,

até espero isso. É assim que nós funcionamos. Porque debaixo de todas as caras

feias e batidas de porta, eu sabia que você me respeitava. Mas a maneira como

você agiu hoje... coloca uma nova barreira que antes não existia – ela balançou a

cabeça e voltou a olhar pela janela.

– Acho que você está exagerando.

– Talvez – ela disse, inclinando-se para pegar o celular na bolsa. – Mas trabalhei

muito duro para chegar onde cheguei... será que estou arriscando tudo isso agora?

– Podemos ter as duas coisas, Millie. Por mais alguns meses, podemos trabalhar

juntos e ficar juntos. Isso que está acontecendo hoje? Isso faz parte do

amadurecimento de uma relação.

– Não estou tão certa disso – ela disse, piscando e olhando para o nada. – Estou só

tentando fazer a coisa certa, Finn. Nunca questionei meu próprio valor antes,

mesmo quando pensei que você podia estar questionando. E

então, eu achei que você tinha enxergado quem eu realmente sou, mas depois

você me menosprezou daquele jeito... – ela levantou a cabeça, mostrando a dor

em seu olhar. – Acho que não quero começar a questionar a mim mesma agora.

Depois de trabalhar tão duro assim.

O avião aterrissou com um forte solavanco, mas que não me abalou tanto quanto

as palavras que ela disse. Eu já

liderara discussões com os chefes de alguns dos maiores departamentos de

finanças do mundo. Já tinha encarado executivos que pensavam que poderiam

passar facilmente por cima de mim. Eu poderia discutir com aquela mulher até o

fim dos dias e me sentir mais homem a cada palavra. Mas naquele momento eu

não conseguia encontrar uma única palavra para dizer.

Dizer que eu não consegui dormir naquela noite seria um eufemismo. Eu não

consegui nem deitar direito. Cada superfície plana parecia ter a marca da Millie,

apesar de ela nunca ter entrado na minha casa. Só o fato de termos conversado

sobre isso – e eu ter planejado trazê-la ali em nossa primeira noite após a viagem

– me fazia sentir sua presença em todo lugar.

Eu liguei para ela, mas não obtive resposta. Certo, eram três da manhã quando

liguei, mas eu sabia que ela também

não estava dormindo. Seu silêncio era agravado porque eu sabia que ela sentia o

mesmo que eu. Eu sabia que ela estava nisso tão profundamente quanto eu. Mas

ela devia pensar o contrário. Parecia faltar uma eternidade para o amanhã

chegar.

Cheguei ao trabalho às seis horas, com intenção de entrar antes que ela chegasse.

Peguei café para nós dois e atualizei minha agenda para poupá-la desse trabalho.

Enviei o contrato para Gugliotti por fax, dizendo que a versão que ele viu em San

Diego era a final, e que o que a Millie tinha apresentado estava valendo. Dei a ele

dois dias para retornar as assinaturas.

E então, esperei.

Às oito horas, meu pai entrou no escritório, com Nick acompanhando-o logo

atrás. Era comum ver meu pai de cara fechada, mas raramente era por minha

causa. E Nick nunca parecia irritado. Mas desta vez os dois pareciam querer

me matar.

– O que você fez? – meu pai jogou uma folha de papel na minha mesa.

Meu sangue parecia ter se transformado em gelo.

– O que é isso?

– É a carta de demissão da Millie. Ela entregou para a Sadie hoje de manhã.

Passou-se um minuto inteiro antes que eu conseguisse falar. Nesse tempo, o

único som veio do meu irmão, dizendo:

– Finn, cara. O que aconteceu?

– Eu estraguei tudo – eu disse, pressionando meus olhos com as mãos.

O rosto do meu pai voltou ao normal e ele se sentou – na mesma cadeira em que,

nem um mês antes, a Millie também sentara, abrira as pernas e começara a se

tocar, enquanto eu tentava manter a compostura ao telefone. Deus, como deixei a

situação chegar a isso?

– Diga o que aconteceu – a voz do meu pai se tornou muito baixa: uma calmaria

antes da tempestade. Afrouxei minha gravata, pois sentia que estava sufocando

com o peso do meu próprio peito. A Millie me deixou.

– Estamos juntos. Ou estávamos.

Nick gritou “Eu sabia!” e meu pai gritou “Você o quê?”.

– Mas não antes de San Diego – eu disse, tentando acalmá-los. – Antes de San

Diego nós estávamos apenas...

– Transando? – completou Nick, recebendo um olhar duro do meu pai.

– Sim. Estávamos apenas...

Uma pontada de dor parecia perfurar meu peito. Sua expressão quando eu me

inclinava para beijá-la. A maneira como eu tomava seu lábio entre os dentes. Sua

risada em minha boca.

– E, como vocês dois sabem, eu era um idiota. Mas ela retribuía na mesma

moeda – eu disse. – E, em San Diego, aquilo se transformou em algo mais.

Merda – estiquei o braço para pegar a carta, mas desisti. – Ela pediu mesmo

demissão?

Meu pai assentiu, com uma expressão totalmente enigmática no rosto. Esse era

seu superpoder: quanto mais emocional estivesse, menos emoções ele mostrava.

– É por causa disso que temos nossa política de fraternização, Finn – ele disse,

atenuando a voz ao pronunciar meu nome. – Achei que você era mais esperto do

que isso.

– Eu sei – esfreguei as mãos em meu rosto, fiz um gesto para Nick se sentar e

então contei todos os detalhes de quando tive aquela intoxicação alimentar, da

reunião com Gugliotti e de como a Millie cuidara muito bem de tudo. Deixei

claro que tínhamos basicamente decidido ficar juntos, antes de eu encontrar

Gugliotti na frente do hotel.

– Você é um filho da puta tão estúpido – disse meu irmão quando terminei de

falar. Eu só pude concordar. Após um duro sermão e a promessa de que

discutiríamos novamente todas as maneiras como eu estragara tudo,

meu pai voltou ao seu escritório, para pedir que ela trabalhasse com ele até o fim

do estágio. Se a Millie decidisse continuar na empresa após o estágio, ela poderia

facilmente se tornar um dos membros mais importantes de nossa equipe de

marketing. Mas a preocupação do meu pai não era apenas com a

wolfhard Media.

Acontece que, se a Millie fosse embora, ela teria menos de três meses para

encontrar um novo estágio, aprender o trabalho e preparar um novo projeto para

apresentar à banca examinadora. Por causa da influência da banca na faculdade

de administração, a avaliação da empresa seria determinante para Chloe se

graduar com honras e receber uma carta de recomendação do CEO da JT

Miller.

Isso poderia alavancar ou destruir o começo de sua carreira.

Nick e eu ficamos sentados em completo silêncio. Ele me encarava e eu

olhava para a janela. Quase podia sentir o quanto ele queria dar um chute no

meu traseiro. Meu pai voltou ao meu escritório, pegou a carta de demissão e a

dobrou três vezes. Eu ainda não tinha sido capaz de ler. Era uma carta digitada e,

pela primeira vez desde que conhecera Millie, eu queria ver aquela caligrafia

ridícula dela ao invés de uma folha impressa e impessoal com fonte Times New

Roman.

– Eu disse que esta empresa a valoriza muito, que esta família a ama e que nós

queremos que ela fique – meu pai parou e seus olhos caíram sobre mim. – Ela

disse que isso era mais uma razão para querer se tornar independente. Chicago se

tornou um universo alternativo, no qual Billy Sianis nunca amaldiçoara os Cubs, a

Oprah nunca existira e a Millie Bobby Brown não trabalhava mais para a Wolfhard Media. Ela

se demitira. Ela se afastara de um dos maiores projetos da Wolfhard Media. Ela se

afastara de mim.

Tirei os arquivos da Papadakis de sua gaveta. O contrato fora preparado pelo

departamento legal enquanto estávamos em San Diego, só era preciso assinar. A

Millie poderia passar os dois últimos meses de seu MBA aperfeiçoando sua

apresentação para a banca examinadora. Em vez disso, ela começaria tudo de

novo em outra empresa.

Como ela podia ter aguentado tudo que eu fiz antes, mas desistir agora? Era

mesmo tão importante eu a tratar como uma igual com um homem como o

Gugliotti? Ela sacrificaria tudo entre nós por causa disso?

Com um gemido, suspeitei que o motivo para eu fazer essas perguntas era

também o motivo para ela me deixar. Pensei que seria possível manter nossa

relação e nossas carreiras, mas isso era porque eu já tinha provado o meu valor.

Acontece que ela ainda era a estagiária. Tudo que ela queria era a minha

garantia de que sua carreira não sofreria por causa de nossa imprudência. Mas

fiz exatamente o contrário.

Fiquei surpreso por o escritório não estar pegando fogo com a história do que eu

tinha feito, mas parecia que apenas meu pai e Nick sabiam. A Millie sempre

guardou nosso segredo. Eu me perguntei se a Sadie sabia e se ela ainda falava

com a Millie.

Logo tive uma resposta. Alguns dias após Chicago mudar, a Sadie entrou na minha

sala sem bater na porta.

– Essa situação é completamente idiota.

Levantei os olhos, baixei o contrato que estava lendo e encarei seu rosto tempo o

bastante para ela estremecer. Então eu disse:

– Quero lembrar a você que essa situação não é da sua conta.

– Como amiga dela, é sim.

– Como funcionária da Wolfhard Media, e como funcionária do Nick, não, não é.

Ela me encarou por um momento e então assentiu.

– Eu sei. Eu nunca contaria a ninguém, se é isso que você está dizendo.

– É claro que é isso que estou dizendo. Mas também estou falando sobre seu

comportamento. Não quero ver você

invadindo minha sala sem bater.

Ela pareceu arrependida, mas não se abalou com meu olhar severo. Comecei a

entender por que ela e a Millie eram tão amigas: as duas tinham temperamento

forte e eram ferozmente leais.

– Entendido.

– Posso perguntar por que você está aqui? Você falou com ela?

– Sim.

Esperei. Eu não queria pressioná-la para se tornar minha confidente, mas Deus,

eu queria apertar aquele pescoço para arrancar cada detalhe que ela sabia.

– Ela recebeu uma oferta de emprego na Studio Marketing.

Soltei um suspiro tenso. Era uma empresa decente, mesmo que pequena. Uma

empresa que estava crescendo e que tinha alguns bons executivos juniores, mas

verdadeiros filhos da puta no topo.

– Com quem ela está trabalhando?

– Um cara chamado Julian.

Fechei os olhos para esconder minha reação. Jacob saturius Julian fazia parte do nosso

conselho: era um egocêntrico com fama de ir atrás de garotas jovens. A Millie

sabia disso. No que então ela estava pensando?

Pense, seu idiota.

Ela provavelmente estava pensando que Julian teria os recursos para lhe dar um

projeto substancial, que ela poderia apresentar em três meses.

– Qual é o projeto dela?

A Sara andou até a porta e a fechou.

– Comida de cachorro da Sanders.

Dei um soco na mesa. A fúria tomou conta da minha mente e fechei os olhos

para me controlar e não descontar na assistente do meu irmão.

– Essa é uma conta muito pequena.

– Ela é só uma estudante de MBA, sr. Wolfhrad. É claro que é uma conta pequena.

Apenas alguém apaixonado deixaria ela trabalhar num contrato milionário de dez

anos – sem olhar de volta para mim, ela se virou e foi embora.

A Millie não atendia o celular ou o telefone de casa, nem respondia qualquer e-

mail meu. Ela não me ligou, não passou no escritório e nem deu nenhuma

indicação de que queria falar comigo. Mas, quando seu peito dói tanto que você

nem consegue dormir, você acaba fazendo coisas como procurar o endereço da

sua estagiária, dirigir até

lá às cinco da manhã de um sábado e esperar ela sair.

E, quando ela não apareceu após quase um dia inteiro, eu convenci o porteiro do

prédio dizendo que era seu primo e que estava preocupado com sua saúde. Ele

me acompanhou até o apartamento e ficou atrás de mim enquanto eu batia na

porta.

Meu coração estava quase saindo pela boca. Ouvi alguém se mexendo lá dentro,

se aproximando da porta. Eu podia praticamente sentir seu corpo a centímetros

do meu, separados apenas pela madeira. Pude ver uma sombra se movendo

através do olho mágico. E então, o silêncio.

– Millie.

Ela não abriu a porta. Mas também não se afastou.

– Linda, por favor, abra a porta. Preciso conversar com você.

Após o que pareceu uma hora, ela disse:

– Não posso, Finn.

Encostei minha testa na porta e pousei as duas mãos na madeira. Ter

superpoderes seria útil ali. Mãos de fogo, sublimação, ou até mesmo a habilidade

de encontrar a coisa certa para dizer. Mas agora, isso parecia impossível.

– Desculpe.

Silêncio.

– Millie... Eu já entendi, certo? Brigue comigo por ser um tipo novo de

idiota. Diga para eu ir me foder. Faça isso do jeito que quiser... só não

desapareça.

Silêncio. Ela ainda estava ali. Eu podia sentir.

– Sinto sua falta. Merda, eu sinto muito a sua falta. Sinto demais.

– Finn, só... agora não, certo? Não posso fazer isso agora.

Ela estava chorando? Eu odiava não saber.

– Ei, amigo – o porteiro definitivamente soava como se aquele fosse o último

lugar em que ele queria estar, e dava para perceber que estava irritado por eu ter

mentido. – Não era por isso que você queria subir. Ela parece bem. Vamos

embora.

Fui para casa e comecei a beber uísque. Por duas semanas, fiquei jogando sinuca

em um boteco e ignorei minha família. Disse que estava doente e só saí da cama

ocasionalmente para pegar uma tigela de cereal, encher meu copo ou usar o

banheiro, onde olhava para meu reflexo e mostrava o dedo do meio para mim

mesmo. Eu estava na pior e, como nunca experimentara nada assim antes, não

fazia ideia de como sair dessa. Minha mãe apareceu com algumas compras de

supermercado e as deixou na minha porta. Meu pai enviou mensagens diárias

com atualizações do trabalho.

A Mina trouxe mais uísque.

Finalmente, Nick apareceu com a única cópia das chaves da minha casa,

derramou um balde de água fria na minha cabeça e então me deu um pouco de

comida chinesa. Acabei comendo quando ele ameaçou colar fotos da Millie nas

paredes da minha casa se eu não saísse logo dessa e voltasse ao trabalho. Durante

as semanas seguintes, a Sadie começou a suspeitar que eu estava ficando maluco

e que precisava de uma atualização semanal. Ela manteve tudo em nível

profissional, contando como a Millie estava se saindo no novo emprego com

Julian. Seu projeto caminhava bem. O pessoal da Sanders a adorava. Ela

mostrara a campanha para os executivos e recebera o aval deles. Nada disso me

surpreendeu. A Millie era de longe melhor do que qualquer pessoa que

trabalhava para eles.

Ocasionalmente, Sadie deixava escapar algo a mais. “Ela voltou a frequentar a

academia”, “Ela parece melhor”,

“Ela cortou o cabelo um pouco mais curto e ficou muito bonito”, “Saímos com o

pessoal no sábado à noite. Acho que ela se divertiu, mas foi embora cedo”.

Porque estava com alguém? , eu me perguntei. Então, afastei esse pensamento.

Eu não poderia nem imaginar sair com outra pessoa. O que tivemos fora algo

muito forte, e eu tinha quase certeza que ela também não estava saindo com

mais ninguém.

As atualizações nunca eram suficientes. Por que a Sadie não tirava umas fotos

escondida com o telefone? Eu tinha esperança de esbarrar na Millie em uma loja

ou na rua. Entrei na La Perla algumas vezes. Mas não a vi durante dois meses.

Um mês passa voando quando você está se apaixonando pela mulher com quem

está transando. Dois meses se tornam uma eternidade quando a mulher que você

ama te deixa para trás.

Então, quando o dia da apresentação da Millie se aproximou e a Sadie disse que

ela estava preparada e lidando com o Julian com mãos de ferro, mas que ao

mesmo tempo parecia “triste e menos como ela mesma”, eu finalmente tomei

coragem.

Sentei à minha mesa, abri o PowerPoint e o arquivo da Papadakis. Ao meu lado,

o telefone tocou. Considerei não atender, pois queria me concentrar apenas

naquilo.

Mas era um número desconhecido, e uma grande parte do meu cérebro queria

pensar que poderia ser a Millie.

– Aqui é o Finn Wolfhard.

A risada de uma mulher ecoou do outro lado da linha.

– Lindo, você é mesmo um Cretino Irresistível.


Notas Finais


O último antes do epílogo


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