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História Crônicas de Penina - Livro 2 - A profecia do Espúrio - Capítulo 4


Escrita por:


Notas do Autor


Olá, pessoal! :D
Aqui estou eu mais uma sexta trazendo capítulo novo pra vocês.
Este aqui é o segundo de uma introdução de três capítulos que, na verdade, eram um capítulo só, mas devido a extensão eu preferi dividí-lo em três para trazer para vocês.
Saberemos enfim quem atacou Tine no capítulo anterior, então...

APROVEITEM! :D

Capítulo 4 - As ruinas de Valdomeio


ÀS MARGENS DO GRANDE RIO CISÃO.

Meu coração acelerou quando fui agarrada pela cintura e jogada no chão. Gritei antes e depois de dar com as costas na grama fofa junto às águas que corriam. Quem quer que fosse, estava tentando agarrar minha espada, por isso resisti o quanto pude, dando chutes e tapas, mas depois de uma penosa peleja (pois era forte), eu consegui juntar força nas pernas para empurrá-lo para longe.

Fiquei no chão e a coisa rolou à minha frente. Houve um estalo e só então eu o vi. Era um rapaz magricela, talvez não tivesse mais de dezesseis anos, com roupas sujas e cabelos arrepiados que faziam sua cabeça pequena parecer uma árvore depois de uma ventania. Ele arquejava quando camabelou para trás e me olhou através do olhos fundos e cheios de olheiras. Levantei-me rapidamente e saquei a espada para mantê-lo à distância.

– Quem é você? – perguntei assustada, antes que ele tentasse outra coisa, pois me olhava como se estivesse prestes a avançar novamente. – Fique longe de mim, estou dizendo!

– Você está armada – ele disse, e não foi a resposta que eu queria.

– Eu sei, mas você me atacou, por isso saquei.

– Precisa me dar a arma – ele argumentou como um texto decorado.

– Nada disso, não sei quem é você.

– Se quer passar em paz, deve se desarmar.

– Quem faz as regras por aqui, você? – desdenhei.

– Se me obrigar a tirá-la de você vai ser pior.

– Tenta.

Eu nem bem terminei a frase e outra vez ele me surpreendeu. Sem dar nenhum aviso – e muito, muito rápido –, seu corpo modificou-se e diminuiu de tamanho, levando-o a sumir abaixo da relva alta que crescia naquela margem. Meus olhos piscaram rapidamente porque não entendi o que aconteceu, apenas agitei a espada de um lado para o outro sem saber para onde ele tinha ido.

– Que é isso...

Então a relva mexeu-se – na verdade sacudiu-se como se sacodem quando um bicho grande se move entre ela. Minha dúvida ficou maior.

O que era aquilo?

– É você? – perguntei. – Apareça! O que fez?

Então um barulho sibilante veio de algum ponto ali à frente quando novamente houve agitação. Estava chegando mais perto e vinha rápido. Eu não sabia o que fazer, pois sequer sabia do que se tratava.

Onde estava o rapaz?...

Então subitamente a coisa pulou. Dei um grito porque percebi que era grande e áspero, mas cerrei os olhos por reflexo e no vulto do momento, entre o tremer da vista e impulso de recuar para trás, vi garrar e uma boca aberta. Pensei que a espada não seria eficaz para me livrar do bote, mas então ouvi o piado alto de águia, que Tauane sempre dava quando estava agitada, e percebi uma sombra atrás de mim. Foi quando abri os olhos rápido e vi que a harpia pulou abrindo a asa boa e içou com as garras dos pés o bicho para trás, caindo por cima dele e o imobilizando no pescoço.

Engoli em seco tentanto retomar o controle do meu corpo trêmulo e então corri para ver. Era um enorme lagarto de couro grosso, cinzento e enrugado, quase do tamanho de um jacaré, que agora contorcia-se com vigor. Com as penas ouriçadas, Tauane guinchava prestes a dar o golpe final para matá-lo quando enfim gritei:

Não, espera, Tauane! Espera!

Ela parou com fúria nos olhos e me olhou com surpresa. No segundo seguinte, enquanto nos olhávamos, houve um farfalhar na grama e já não havia mais o imenso lagarto sob as garras dela, mas novamente o rapaz de antes, que gemia e choramingava agarrando o membro pontudo da harpia como se estivesse com falta de ar.

– Vamos dar uma chance a ele, por favor – eu disse, tentando apaziguar o instinto dela.

– Você é muito piedosa! – ela resmungou com asco de mim, ainda relutante em soltá-lo. – Desse jeito o Horto vai devorar você, mastigá-la e cuspir fora! – Depois olhou o rapaz. – Ele pretendia matá-la... merece morrer... merece ter o fim que queria...

– Eu sei, eu sei – continuei a tentar, lembrando-me de que as harpias eram mesmo criaturas bastante vingativas. – Mas vamos dar uma chance a ele de se explicar; se não for o suficiente, juro que a deixo fazer isso.

Tauane guinchou mais uma vez, claramente descontente de me obedecer, mas finalmente soltou o rapaz, que tossiu e respirou aliviado.

– Diga-nos logo – eu perguntei sem hesitar e sem esperar, tomando um ar sério ao fitá-lo de cima. – Quem é você?

Suas malucas! – ele remungou, ficando de bruço e tossindo. – Eu odeio ter que fazer isso, sabiam? E se torna mais desagradável quando me batem.

– Do que você está falando?

– Da vida que eu estou tentando levar aqui! – E tossiu novamente, erguendo-se. – Estou tentando defender o que sobrou de gente como vocês.

– Você ia me matar se Tauane não impedisse – respondi ainda sem saber bem do que ele falava.

– Eu não ia matar coisa nenhuma, queria a arma apenas. Fiquei desconfiado porque você soltou meu bode. – Ele ficou de pé, cambaleante. – Inimigos desarmados são mais fáceis de conter. Se soubessem pelo que já passei, me entenderiam.

– Eu não sou inimigo.

É, agora eu sei! – ele berrou como quem está altamente ofendido e alisando o pescoço com uma careta. Encarou nós duas. – Quem são vocês?

– Pensei ter perguntado isso primeiro.

Ele nos fitou outra vez, com certo asco na face, como se ponderasse o quanto valeria a pena continuar aquilo, mas por fim disse:

– Sou Berny. Berny Teiú. Moro aqui desde que as trevas que vieram do Horto passaram. – E explicando aquilo ele pareceu bem mais normal. Seus cabelos desgrenhados sacudiam pouco de tão sujos e suas sobrancelhas eram grossas e os dentes tortos. – Não sobrou ninguém que eu conhecia, então estou tendo que pagar dobrado pra sobreviver aqui – concluiu num dar de ombros.

– Bem, eu sou Cristine. Esta aqui é minha amiga, Tauane.

Ele olhou para a harpia com certo medo, mesmo que ela já tivesse recuado um pouco por conta da asa que, pelo esforço, parecia estar doendo novamente.

– É. He-he. Prazer. – Ele acenou meio sem jeito e sem fazer contato visual, alisando o cotovelo. – Não vou esquecer dela, pode deixar.

Nem Tauane também parecia ter superado a coisa toda. Ainda olhava para Berny como se fosse dar o bote a qualquer instante.

– Espada legal – ele disse. – É negra e brilhosa. Bem diferente das que já vi.

– É uma espada de Yllen.

Ele abriu a boca como se eu tivesse dado um beliscão em seu braço.

Capídions me mordam! Que maneiro! É sério? Elas são raríssimas!

– Sim, parece que são mesmo, e muito poderosas também.

– É eu sei. Como conseguiu?

– É uma longa história, mas pra resumir, ganhei de uma amiga.

Fez-se um silêncio em que Berny contemplou a espada mesmo de longe. Eu fiquei sem jeito para continuar a conversa.

– O que foi isso que você fez? – inquiri por fim, guardando finalmente a espada e convencida de que ele era apenas um sobrevivente tentando se defender.

– Isso o quê?

– Num instante você era você, depois era um... lagarto? Agora é você de novo.

– Ah, isso! – ele de repente ficou sem jeito, meio triste, como se o assunto fosse desagradável. – Digamos que isso não seja lá muito digno de orgulho; eu nem deveria fazer na frente de ninguém... quer dizer, ninguém que se transforma num lagarto gigante é normal, as pessoas acham desrespeitoso, sabe? – E sem avisar, mudou de assunto, apontando para Tauane. – Sua amiga tá ferida né? Querem ajuda?

– É, hum... S-sim, mas... Sim, nós queremos – eu gaguejei diante da visível tentativa dele de fugir daquele assunto.

– Ótimo, acho que sei como ajudar. – Ele nos cruzou. – Sigam-me.

E tomou a nossa frente, na direção das casas abandonadas. Eu chamei Tauane para seguirmos, mas enquanto caminhávamos eu não pude esquecer aquilo, então me aproximei de Berny e tentei de novo:

– Está brincando, né? – Sorri a fim de motivá-lo. – É incrível o que você fez! – E ao ver a dúvida no seu rosto, acrescentei: – Estou falando da transformação. Lagarto. Achei muito maneiro!

Berny subitamente abriu um sorriso e seus olhos brilharam quando me ouviu dizer aquilo. Parecia o tipo de coisa que ele não ouvia o tempo todo – ou talvez o tipo de coisa que ele nunca tinha ouvido antes.

Está falando sério? – questionou.

– Sim. E pensando bem, acho que já ouvi falar disso – eu franzi a testa, tentando lembrar do nome que Dinter-Dim tinha me dito há muitos dias atrás. – São chamados de Into... Indo...

Indômus – ele me corrigiu com um sorriso contido.

– Isso mesmo. No clã NicBlood eu encontrei com um que podia se transformar numa cobra, acredita?

– Acredito. Uma vez um viajante do Deserto Sebáceo passou por aqui e ele podia se transformar num chacal. Foi a primeira vez que vi um Indômus além de mim.

Sorrimos juntos e então, num momento de curiosidade, perguntei:

– Como é isso, afinal? Você aprendeu a ser um Indômus?

Berny riu-se num fungado e eu me senti mal por talvez fazer uma pergunta boba, mas o que eu poderia fazer? Dinter-Dim não me explicou como era aquilo.

– Aprender? Jura? – Ele gargalhou. – Não se aprende a ser um Indômus, isso é uma maldição.

– Nossa, que horror! – exclamei, mas conformado, Berny deu de ombro e prosseguiu:

– Dizem que foi uma praga antiga rogada pelos sagrados Kruétas nos confins do mundo, quando uma família de Filhos do Pó tentou alcançar os céus. Tem até canções, escuta... – E recitou enquanto caminhávamos pela passagem lamacenta: – “Filhos do Pó, Filhos do Pó, sempre rebeldes, teimosos e ambiciosos... Se houver uma cria, sob o céu de lua cheia, para nascer, fadada a mudar de pele ela vai ser. Se sob a grande lua o filhote do pó não chorar, a maldição de um Indômus terá de carregar. Por mil geração esta jura não falhará, até que os Filhos do Pó aprendam o seu lugar.

– A rima nem é tão boa – eu conclui.

Ele sorriu novamente.

– Seja como for, cá estou eu. Poderia ser pior. Alguns não conseguem controlar a transformação. Eu, pelo menos, aprendi a me transformar e permanecer com roupas.

E diante disso, ambos continuamos a sorrir bem mais alto. Berny estava bem mais a vontade depois daquilo e eu sentia que podia confiar nele. Demos a volta no cercado onde algum outro dia existiram porcos e a harpia veio sempre atrás de nós.

– Pra onde está nos levando? – ela perguntou de repente, séria e claramente fechada a interações. Olhei-a como quem pede bons modos, mas ela ignorou (talvez nem tenha entendido) e resmungou: – Não gosto dele.

– Estamos indo para um amigo – Berny disse. – Foi o único que restou aqui e cá entre nós – ele baixou a voz a um sussurro –, ele foi melhor que poderia ter ficado.

Mas no instante seguinte, escutamos gritos. Alguém desesperado estava berrando além das casas. Surpreso, Berny piscou os olhos aparentemente reconhecendo a voz.

– É ele – murmurou num fio de voz e então saiu correndo.

Berny, espera! – eu tentei dizer, indo atrás.

Mas quando ele cruzou a esquina da primeira casa e se deparou com o motivo da algazarra, derrapou na terra seca tentando parar e caiu tremendo no chão, de boca aberta, pois Audur estava deitado sobre os destrosos de uma estalagem com a cabeça repousada dentro de um curral lamacento cuja fumaça subia enquanto, do nariz do bicho, saia um vapor que esquentava a lama. As bolhas estavam fazendo ele relaxar e seu rabo serpenteava tranquilamente.

Diante de tudo isso, um velho de poucos cabelos na cabeça – cabelos brancos –, berrava inconformado e incomodado com a presença do bicho ali, bramindo os restos de uma roda de carroça enquanto praguajava:

Saia daí, sua criatura horrenda! SAIA! Essa pocilga não é para você! Meus porcos estavam aí... Meus porcos! Eu estava tentando engordá-los há uma semana, sua criatura miserável, faz ideia disso?

Meio trêmulo, Berny gritou:

Senhor Dippet, senhor Dippet! Não faça isso! Afaste-se!

Mas ver Berny – ou pelo menos ouvir sua voz – não o fez se afastar. Ao invés disso, o tal senhor Dippet tentou se explicar, sacudindo os pedaços de madeira acima da cabeça:

– Ele comeu meus porcos, Berny! Acredita? Todos os meus porcos!

– Eu estou vendo, senhor, mas isso é um dragão, não enxerga? É voraz e vai devorá-lo! Afaste-se!

– Dane-se o dragão – o velho exclamou irritadiço. – Não é porque esses bichos não aparecem há anos que vão comer meus porcos!

– Por favor, me perdoem – eu disse finalmente, correndo até eles cheia de vergonha.

Ei, garota, volta aqui! – Berny tentou me impedir, talvez porque não soubesse que Audur era meu dragão.

– Está tudo bem, senhor Dippet, ele está comigo – eu me expliquei, mas isso em nada deixou o velho menos chateado.

Essa coisa é sua? Viaja nele? – Seus olhos arregalaram-se. – Que tipo é você? De algum povo selvagem d'além do Errante?

– Não – respondi, sorrindo simpaticamente. Ele continuou pasmo:

– Acho que ninguém monta um dragão em Penina desde que Salatyn Riviery perdeu o primeiro Império de Engor para os Cavaleiros Dragões na grande guerra, e olha que naquela época conta-se que esses bichos eram numerosos aqui! Você vem das terras selvagens de Ashmir ou daquelas bandas?

Eu sorri mesmo sem fazer a mínima ideia do que ele falava.

– Não, eu venho da Cidade-Forte. Sou Cristine, prazer. – E estendi a mão. Ele retribuiu o gesto, exclamando com prazer:

Ó, a Cidade-Forte! Não vejo aquele lugar desde que era moço.

– Prometo que Audur não vai mais comer nenhum dos seus porcos – jurei.

– É justo, não sobrou nenhum – ele exclamou, irritado, mas seu aperto de mão foi sincero. – O que fazem em Valdomeio? Quer dizer, no que sobrou dela.

– Então é assim que chamam esse lugar? – repeti: – Valdomeio.

– Sim, e para oeste, do outro lado do Cisão, fica Caudal, minha cidade natal, regada pelas águas do rio, rica em ferro e emergente – o velho disse, com diplomacia e admiração. – Se Dur do Leste não fosse tão cruel conosco, seríamos mais conhecidos, mas eles cobram absurdos pra manter livre aquela bendita passagem do Cisterna Oeste.

– Calma, senhor Dippet – Berny pediu, sorrindo com a falácia dele da qual eu pouco entendia. – Nem Valdomeio nem Caudal são mais problemas para Dur do Leste. Não sobrou nada aqui que possa preocupá-los. Relaxe.

– E o que aconteceu aqui afinal? – eu aproveitei a deixa para perguntar.

– Ah, garota – Dippet pareceu tremer –, em setenta e sete anos de vida eu nunca vi nada igual. Nem mesmo quando houve a grande estiagem de cinquenta e um e o Cisão secou e os Ogros das Águas Turvas passaram para a banda de cá. Não. O que aconteceu aqui foi horrível, a escuridão pareceu crescer em torno da cidade, numa noite dormíamos tranquilamente e na outra havia fogo por toda parte, gritos e choros. Quando amanhaceu, os homens tinham sumido e só restou mulheres e crianças.

– Foi – Berny concordou. – Algumas crianças disseram que viram uma grande sombra voar no céu. Eu escapei porque me tornei em lagarto e corri para a floresta. Não vi mais nada. – ele baixou os olhos e respirou fundo. – Não faço ideia de onde meu pai está agora.

Engoli em seco diante disso e olhei para Audur, deitado na lama. A grande sombra que viram no céu sem dúvida era ele, mas como dizer isso agora? Era melhor não.

– E onde estão as mulheres e crianças?

– Fugiram pra Dur do Leste; migraram como um povo sem terras – Dippet resmungou, virando-se para voltar à casa que estava. Parecia chateado. – Até isso Dur do Leste nos roubou! Até isso! Nossas mulheres e filhos. Aquela cidade ainda vai pagar caro um dia, ouçam o que digo!

Berny sorriu e acrescentou:

– Ele odeia as três cidades salgadas, mas fora isso é um bom velho. – E tomando a frente novamente, nos chamou: – Venham, ele vai ter o que comer e como tratar a ferida da sua amiga.

Achando os dois um tanto excêntricos – muito embora a harpia ainda estivesse relutante para com Berny –, eu os acompanhei.


Notas Finais


Então por hoje é isso.
Vemos que Tine está criando novos laços, conhecendo novas pessoas e novos lugares (embora Valdomeio não esteja nos seus melhores dias) e para alguém como ela, que está sozinha numa jornada completamente desconhecida, isso pode ser bom. Berny pareceu ser bem travesso, apesar de ser mais velho que nossa heroina, e Dippet se mostrou um tanto frágil de humor, mas ambos se mostraram receptivos. No próximo teremos mais desses dois.

Enfim, espero que vocês tenham gostado e não deixem de me contar o que acharam.
Um abração e até o próximo! :D


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