História Crônicas de Penina: Os desenhos de Cornélio - Capítulo 2


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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Fantasia, Ficção, Ficção Adolescente, Luta, Magia, Mistério, Poesias, Romance e Novela, Sobrenatural, Violência
Avisos: Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Bem, como eu havia dito, cá está mais um capítulo, e nesse, a narração passa a ser feita em primeira pessoa, sob a perspectiva de Cristine. Este é bem introdutório, portanto, teremos o primeiro contato com ela e com o momento que vai dar início a toda essa aventura, a morte do avô.

APROVEITEM! :D

Capítulo 2 - As vontades do falecido


O SEGUNDO-PIOR-DIA.

Se a dor no meu coração podia aumentar, com certeza ela aumentou naquela manhã de Outubro.

Não na manhã da morte dele, mas na seguinte à essa.

Mamãe me acordou bem cedo na sexta-feira – como se eu tivesse conseguido dormir! –, pedindo, com toda simplicidade e desânimo do mundo, que eu me arrumasse logo porque todos já estavam lá em baixo, só nos esperando para começar.

Bem.

Começar o quê, exatamente, eu não sabia, mas me levantei mecanicamente e fui para o banheiro contorcendo o pescoço. Meu corpo todo estava doendo porque passei a noite virando de um lado para o outro na cama, sem conseguir pregar os olhos. As minhas pálpebras ainda ardiam bastante por conta do choro do dia anterior. Quando me olhei no espelho, só me reconheci por causa do sinal de carne no lado esquedo do meu queixo e pelas minhas sardas. Fora isso, minhas olheiras estavam enormes, meus cabelos castanhos não tinham um fio sequer preso e meu aspecto era de quem não precisava de nada mais do que ficar na cama. Não parecia eu, mas era. Fiz uma careta de tério e liguei a torneira. Prendi o cabelo com a mão e me inclinei para lavar o rosto.

Mamãe não costumava me tirar da cama por qualquer coisa, e nas devidas circunstâncias da morte de vovô, achei melhor obedecer, afinal, quando ela falou “todos”, não parecia nenhum exagero da parte dela. Levantei o rosto molhado e a careta de tédio continuava lá.

Pelos meus cálculos, demorou quinze minutos para eu conseguir ficar pronta. Coloquei um vestido cinza porque o único preto que eu tinha, tive que usar no dia anterior. Enquanto fazia tudo isso, minhas lembranças do dia anterior pareciam um sonho ruim, que meu íntimo queria, de alguma forma, me convencer que era mentira. Mas todas às vezes que, inconscientemente, eu recordava, meu estômago dava um nó, minha respiração parecia pesada e a careta voltava.

As vozes, as cenas, os choros, as condilências, os discursos... era tudo muito real, muito sólido, e impossível de ser apenas um sonho.

Tentando afastar tudo isso da minha mente, dei as costas ao quarto e saí pelo corredor silencioso da mansão; cada passo soando abafado no carpete, e enquanto eu ainda descia a escada larga e exagerada feita de madeira, entendi o que mamãe quis dizer com todos: praticamente a família inteira estava esperando na sala de reunião – com exceção do tio Alfredo e da tia Martine, que sempre conversavam alto em qualquer lugar que estivessem, e como senão bastasse, sempre discutiam por coisas bobas. Eu não os vi à primeira vista, mesmo com todos quietos, então deduzi que, se os dois estivessem ali, com certeza eu já os teria ouvido brigando.

Mas a sala estava num silêncio tétrico – meus saltos ecoaram clóc clóc altos nos últimos passos que dei na escada de madeira –, e mesmo que alguns conversassem aos sussurros, e outros tomasse chá de pé ou pelos cantos, notei a mesma atmosfera fúnebre que estávamos mergulhados no fim de tarde da quinta-feira, pouco antes do vovô ser enterrado – essa era outra lembrança que parecia mentira para mim, mas eu sabia ser real.

Então as lembranças voltaram...

Tentei afastá-las observando todos em volta e notei que na sala também havia muitas cadeiras, que estavam enfileiradas como numa sala de aula, de frente para o birô mais ao fundo.

– Sente-se aqui, querida. – Ouvi a voz baixa de mamãe me chamar. Pelos olhos dela, pude notar que estivera chorando de novo. Mamãe era assim: qualquer mínima lembrança a fazia chorar, e eu não podia culpá-la; a vontade em mim era de fazer o mesmo, na esperança de fazer tudo voltar a ser como era antes. Ela fungou o nariz e acrescentou: – Já vamos começar, venha.

Quando ela disse isso, um homenzinho de óculos oval, palito e cabelos lambidos, segurando uma pasta na mão, ficou de pé atrás do birô. Todos na sala se voltaram para suas cadeiras. Pelo jeito, só quem faltava era eu mesmo. Mamãe me apontou a cadeira ao lado dela. Papai sentou na ponta e ela ficou entre nós dois.

Assim que me sentei – sem reparar em quem estava ao meu lado –, senti um toque na minha coxa com leves palmadas, como quem dá um elogio por algum trabalho bem feito. Olhei para o lado e vi tia Martine sorrindo singelamente para mim, de olhos tão vermelhos quanto os de mamãe.

– Você cresceu muito, Cristine – ela disse, erguendo as sobrancelhas e com a voz embargada, mas cheia de doçura. – Está uma bela menina.

– Obrigada – foi tudo que consegui dizer diante da surpresa de ver tia Martine falando baixo. Não fazia muito tempo desde a última vez que nos vimos. Eu tinha 13 anos, e agora estava com 14, mas às vezes a dor da perda dobra corações a expressar sentimentos que seriam difíceis de expressar em outras ocasiões. Por um momento, eu até gostei de ver tia Martine ali, do meu lado, sem falar tão alto como era do seu costume. Ela assentiu e se voltou para o birô, onde o homenzinho baixo ainda arrumava alguns papéis. Aproveitei para dar uma espiada em quem estava do lado de tia Martine, e tive outra surpresa ao ver tio Alfredo sentado ao lado dela, concentrado olhando para a frente. Os dois estavam tão tranquilos que nem pareciam o cão e a gata que eu estava acostumada a ver. Certa vez, lembro que eles brigaram simplesmente porque seus gostos por carne eram diferentes.

Com os olhos arregalados de surpresa, ao confirmar que realmente o luto dobrava corações e sentimentos, voltei a ficar ereta e olhar para onde todos olhavam. O homenzinho de cabelos lambidos finalmente terminou de verificar os papéis e tomou a palavra.

– Bom dia, queridos. Me chamo Teodor, juiz desta região, e é com grande pesar que nos reunimos aqui esta manhã para fazermos a leitura testamentária do falecido Cornélio Bouchard Nowill. Eu serei o orando.

Com a menção do nome completo do vovô, meus olhos enxeram-se de lágrimas. Foi involuntário, mas eu não queria chorar porque estava sem lenço. Foi como se a menção do nome já tão famosos me fizesse vê-lo ali na nossa frente. Aquela sensação de realidade pesada, e de que nada era sonho, mas tudo real, me atingiu com mais força que antes. Eram como batidas que iam e vinham.

Teodor, o orando, retirou o papel e começou sua leitura.

– “Nos meus muitos anos de vida, não fiz muitos bens materiais. Prefiro dizer que os bens intelectuais foram maiores, mas o pouco que construí confio em minha família para os guardarem. Espero que possam recebê-los não como herança, mas como boas lembranças minhas. Para minha filha Mariela, com quem tive tão bons momentos à seus cuidados, antes de minha morte, deixo minha imensa propriedade na cidade, na qual, muito provavelmente, este testamento estará sendo lido. Imagino que seus muitos hectares lhe serão proveitosos, querida.”

Do meu lado, mamãe soltou um gemido agarrada à mão de papai, enquanto se derramava no ombro dele. Ela cuidou de vovô, e nós até nos mudamos para aquela mansão, só para isso, mas acho que nem todas as propriedades do mundo pagariam a falta que ele faria ali agora.

– “...para minha filha Martine, a quem sei que, se não fossem os problemas da vida, também teria vindo cuidar de mim, deixo os direitos sobre minhas obras e todo lucro que elas ainda possam vir a dar – como sei que podem não ser muitos, deixo também algumas ações que juntei num país emergente do sul da África...”

Ao meu lado, tia Martine usou o lenço que tinha para enxugar as lágrimas e os soluços fizeram seus ombros chacoalharem. Com empatia e carinho, achei justo retribui as palmadinhas que ela deu em minha coxa antes daquilo começar. Fiz com delicadeza, como forma de consolo, mas ela nem notou.

– “...para meu filho Alfredo, confesso que é difícil pensar no que eu poderia deixar para ele, sendo o homem já tão bem sucedido que é, mas vou confiá-lo aquela minha fazenda no interior, pois lembro que quando pequeno, ele amava ir para lá. Meus cavalos de raça e minhas criações estarão em boas mãos, acredito. Será uma boa lembrança, meu filho...”

Como tia Martine ainda chorava, não me senti a vontade para esticar meu pescoço além dela e olhar para tio Alfredo, mas acredito que ele também chorou, pois pude ouvir um fungado de nariz. Seguiu-se, então, a herança de outros parentes que estavam ali conosco: um irmão ainda vivo de vovô, dois sobrinhos que eu não conhecia bem, e alguns amigos escritores que receberam objetos preciosos e cheio de valores sentimentais. Minha vista já tinha passado por quase todos da sala.

Então chegou a vez de quem eu menos esperava que fosse ser citada:

– “... e por último, para quem eu jamais poderia esquecer, deixo os bens mais preciosos que tenho, pois fizeram parte das minhas riquezas intelectuais, e que não os poderia confiar a mais ninguém senão a ela: Cristine (minha querida Tine). Deixo-a minha biblioteca inteira, com todo o acervo e tudo mais que houver lá; os meus manuscritos originais de todas as minhas obras (que darão altos valores em leilões e, posteriormente, servirão para a sua futura faculdade); e, por fim, este singelo caderno, que durante anos guardei com tanto afinco. Cuide bem dele, Tine, e lembre-se, não o deixe aberto, em hipótese nenhuma, o deixe aberto... pois pode estragar!”

Então Teodor, o orando, retirou de dentro da pasta um envelope de papel madeira. Eu estava tão surpresa de ter sido citada, que foi preciso mamãe me cutucar e pedir que eu fosse buscar. Por minha mente passavam os momentos bons com vovô, nossas conversas inteligentes, nossas trocas de ideias, as risadas juntos e suas experiências, que sempre me fascinavam. Cruzei devagar a sala, quase chorando, e com todos a me olhar, então peguei das mãos de Teodor o envelope de papel madeira. Senti o caderno dentro, denso e grosso, mas nada demais, então voltei para meu lugar. Assim que sentei, meus pensamentos estavam tão longes, que nem reparei nas últimas palavras que Teodor, o orando, leu do testamento de vovô. Era como se eu sentisse a dor de um segundo enterro. Aquelas tinham sido palavras do vovô, que ele mesmo escreveu, e eu nunca achei que ele fosse me citar especificamente, de forma tão amorosa como sempre fazia. Logo agora, quando eu já estava começando a achar que meu coração tinha se conformado em nunca mais ouvi-lo, então aquela leitura veio, e me fez jurar ouvi-lo pronunciar todas elas dentro da minha cabeça. E o pior, depois voltou a se calar... para sempre!

Não aguentei.

Abaixei a cabeça e chorei.

– Estas foram as últimas vontades de Cornélio Bouchard Nowill. – Foi tudo que escutei do final do discurso de Teodor, o orando. – Agradeço a atenção de todos presentes! – Ele começou a fechar suas coisas ao passo que todos ao redor se levantavam em silêncio.

Sem eu perceber, meu rosto ficou banhado de lágrimas. Quando me pus de pé, minha tia Martine mais uma vez se voltou agora acariciando meu ombro em vez da coxa.

– Ele gostava muito de você, Cristine. – Ela fez uma pausa. – Ele sempre me dizia isso.

– Eu também amava ele, tia Martine – respondi, enxugando as lágrimas.

– Sei que sim – ela assentiu, me admirando com um sorriso contraído.

Neste instante, ouvi a voz de mamãe me chamando:

– Cristine. – Virei-me para olhá-la e ela estava quase à porta, com o braço de meu pai sobre seu ombro, consolando-a. – Vamos ao cartório com o sr. Teodor, resolver algumas papeladas. De lá, vamos almoçar na cidade. Venha com a gente, querida.

Assenti concordando, mesmo sabendo que não iria conseguir comer nada, nem muito menos transformar aquele dia em algo melhor do que foi ontem, ou do que já tinha começado a ser hoje.

Mesmo assim, me despedir de tia Martine e os acompanhei.


Notas Finais


Um momento de luto sempre é pesado, e Cristine está vivendo isso, mas os primeiros passos já foram dados para a empreitada não planejada, e logo logo a rotina vai mudar...

Enfim, espero que tenham gostado do capítulo e não esqueçam de contar o que acharam.
Amanhã posto um terceiro.

Abração! :D


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