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História Crônicas de Vermelho - Capítulo 2


Escrita por: Ogawabruu

Capítulo 2 - Um Homem Desprezível


Fanfic / Fanfiction Crônicas de Vermelho - Capítulo 2 - Um Homem Desprezível

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Sentado em sua sala separando uma papelada que estava empilhada, o governante de Grimbol's Cutlass olhou para frente e viu que o jovem estava ali, então coçou o queixo, refletindo sobre a situação em que estava. Não era medroso, mas não lhe agradava nem um pouco a ideia de ficar sozinho com o estranho de cabelos negros.

- Não há dúvidas. – pensou, analisando os 1,60 de altura do jovem. – Esse imenso poder mágico... está no mesmo nível que aquele velhote... não, é tão forte quanto...

Então finalmente, tomou uma decisão.

– Saiam – ordenou aos poderosos magos e guardas, que estavam com suas armas desembainhadas em defesa contra o jovem. Trocaram olhares, mas no final obedeceram às ordens do conte, saindo e fechando a porta atrás dele. – Quanto a você, sente-se.

A sala era grande e circular, algo parecido com o salão oval, porém duas vezes maior. As altas janelas iam do chão ao teto, com espessas cortinas que pareciam quase nunca serem tocadas. O conde estava sentado em uma poltrona estofada e aveludada de tom avermelhada, atrás de uma grande mesa feita de cedro polido, e ao seu lado direito havia uma lareira junta da qual se aqueciam dois cães de caça.

- Não, não aqui – resmungou o conde, ao ver que o jovem pretendia sentar-se nas poltronas a sua frente -, um pouco mais afastado, se não for incômodo.

O jovem desconhecido sentou-se no sofá, cerca de quinze passo à frente, posicionado exatamente para que as pessoas sentadas nele pudessem ficar de frente para a pessoa sentada à mesa.

– Sou todos ouvidos – disse o governante, brincando com uma taça cheia de vinho. Ele era um homem que aparentava estar na casa dos 50 anos. Velhas cicatrizes estavam cravadas em seu rosto comprido, marcas de uma vida inteira de guerra. Aparentava ser relativamente alto, esguio e com uma aparência de um homem de meia idade relativamente saudável. Seu longo cabelo negro que já estava bastante grisalho era mantido em um rabo de cavalo solto na altura dos ombros com alguns fios caindo sobre a testa, além disso, ostentava uma barba muito bem cuidada no estilo donegal. Seus olhos refletiam seu humor, mudando levemente para esfumaçados para duros como pedras; vestia roupas de ceda e linho, em um estilo típico da nobreza europeia. Sobre seus ombros um manto de veludo preto com o brasão de sua casa estampado em seu peito, e em seu pescoço uma gola de lã acinzentada. – Me chamo Ehrendil Zylgwyn, governante de Grimbol's Cutlass e de todo o Norte. O que tem a dizer, senhor bandido, antes de ser preso? Três mortos e alguns soldados psicologicamente abalados... nada mal, nada mal. Aqui costumamos viver pacificamente, mas empalamos as pessoas que atormentam nossa paz. Mas como sou um homem justo, pretendo ouvi-lo antes. Portanto, fale.

O jovem levou a mão até a pequena bolsa em seu cinto e jogou sobre a mesa uma espécie de ficha metálica e dela emergiu um texto holográfico.

– Vocês têm enviado isto incansavelmente para a Guilda. – falou baixinho, mexendo no anel dimensional em seu dedo indicador, um gesto que fazia quando sentia dores de cabeça.  – É verdade o que está escrito aqui?

– Oh, um disco de recompensa. – murmurou Ehrendil, olhando para o holograma sobre a mesa. - Então é disso que se trata. Devia ter adivinhado. Sim, é a mais pura verdade. O pedido foi enviado por mim, o que significa que é verdadeiro. Mas um pedido é um pedido e leis são leis. Meu dever aqui é fazer com que as leis sejam cumpridas, e não vou permitir que as pessoas sejam assassinadas sem mais nem menos! Entendeu?

O jovem assentiu com a cabeça, demonstrando que entendera.

– Por acaso você é um espiritualista? Consigo sentir a energia de um espirito muito raro vindo de você.

- Hã...? Você é um? – murmurou o jovem. - Como você sentiu a energia de meu espirito? Uma pessoa comum não deveria ser capaz de perceber...

- Algumas pessoas dizem que sim. Tudo bem, tudo bem. Não precisa responder, estava brincando. Você tem aquilo? Como se chama... aquela coisa da Guilda?

experiência? –

- Sim, Conde.

O desconhecido enfiou a mão na região do pescoço, retirando uma plaqueta negra com rachaduras douradas pendurada em uma corrente de prata. Ehrendil acabou soltando um pequeno "Oh...". Mesmo ele não entendendo muito, sabia o que aquela plaqueta significava. Era uma das maiores posições no ranque do sistema da Guilda. Normalmente não era possível encontrar um explorador de tal nível, pois a maioria tralhava para governos e outros raramente colocavam-se em missões de baixa recompensa, mas ali estava um hábil explorador, não afiliado, que exercia seus ofícios independente.

- Você não é muito jovem para isso? – indagou o conde, analisando o porte físico do jovem. Você tem experiência?

Ele ficou em silêncio, olhando friamente para o governante.

– Bem... de poucas palavras – ele hesitou por um momento -, e você tem nome? Pode ser qualquer um. Não estou perguntando por curiosidade, mas para facilitar nossa conversa.

– Nemo.

– Hummm.... Nemo? Não significa "ninguém"?

Naquele momento, o jovem percebeu que Ehrendil tinha uma suspeita de quem ele era. Ele não sabia como ele conseguiu perceber, mas por seu olhar e tom, soube que o homem sabia de algo.

- ... parece ser um nome apropriado para você, já que pouco se sabe a seu respeito. Pois que seja, Nemo.

O desconhecido ergueu a cabeça e fixou o conde diretamente nos olhos, mas o mesmo desviou o olhar.

– Sabe de uma coisa? Não se envolva neste assunto. É um caso bastante sério. Muitos já tentaram. Isso, minha criança, não é o mesmo que arrebentar a cabeça de alguns vagabundos.

– Estou ciente disso. É minha profissão, senhor. No pedido está escrito: três mil créditos de recompensa.

– Três mil – confirmou Ehrendil, de boca cheia. – E mais a mão de uma de minhas filhas. Se sobreviver, é claro.

– Não estou interessado em nenhuma de suas filhas. – falou calmamente, sentado imóvel, com as mãos sobre os joelhos. – O importante é o que está escrito: três mil créditos.

O jovem não se importava com a atitude do senhor a sua frente, agia de forma casual, o mais importante para ele era terminar a missão e receber sua recompensa.

– Ah, que tempos! – suspirou o conde. – Que tempos desgraçados, meu garoto! Quem poderia imaginar, mesmo estando embriagado, que pudessem existir tais profissões? Exploradores! Assassinos errantes de monstros! Caçadores ambulantes de espectros e demônios! Diga-me, Nemo... sua profissão permite beber algo forte?

– Certamente.

Ehrendil bateu palmas.

– Whisky! – gritou. – Quanto a você, Nemo, achegue-se.

O whisky estava frio e em um copo do mais puro cristal.

– Vivemos em tempos asquerosos – dizia o conde, bebericando de seu copo. – Circulam por aí todos os tipos de imundices. Só se vê aberrações e outros seres estranhos. Criancinhas são raptadas, doenças das quais nunca se ouviu falar por toda parte. É de arrepiar. E, para completar o quadro, ainda por cima isto! Não é de estranhar, garoto, que haja tanta demanda por seus serviços.

– E quanto a essa missão, senhor? – disse calmamente, erguendo a cabeça. - O senhor sabe de mais detalhes?

Ehrendil recostou-se na cadeira e entrelaçou as mãos sobre a barriga.

– Detalhes, você pergunta? É lógico que conheço, não de primeira mão, mas de fontes seguras.

– É isso mesmo que desejo saber.

– Bem, já que parece irredutível, escute-me.

O homem tomou mais um gole de whisky e abaixou a voz.

– Um tempo atrás, ao extremo norte de minhas terras, um dragão pousou no Santuário do Crepúsculo.

O jovem olhou friamente para o homem.

- Sei o que está pensando. – disse o homem. – "Impossível! Dragões são extremamente raros". Mas é verdade. O primeiro sinal de sua chegada, foi um barulho como as turbinas de um poderoso cargueiro vindo do céu, o Norte estremeceu e todas as arvores chiaram e estalaram com o vento. Algumas pessoas, por acaso, estavam nos campos e tiveram sorte, isso salvou suas vidas, quando, de uma boa distância, viram aquela sombra pousar na montanha num jato de chamas. Ele permanece dentro dela em hibernação. Sai duas vezes ao ano para causar destruição. É uma pena que você não tenha visto os cadáveres. Eu vi. Se você tivesse visto, certamente teria evitado vir para cá.

O jovem permaneceu calado.

– Então – continuou Ehrendil –, como lhe disse, convocamos inúmeros exploradores, "feiticeiros", cada um mais excêntrico que o outro. Perdoe-me, garoto, se você tem outra opinião deles. Levando em conta sua profissão, provavelmente tem, mas para mim eles não passam de boçais e aproveitadores. Vocês, exploradores, despertam mais confiança. Pelo menos, vocês são... como dizer?... mais concretos.

Nemo cerrou os olhos, mas não fez nenhum comentário.

– Voltemos ao assunto principal. – O homem olhou para dentro do copo e despejou mais Whisky, na sua e na do jovem. – Algumas recomendações dos idiotas até que não pareciam tão estúpidas. Um deles sugeriu que evacuássemos, outro recomendou que alimentássemos a besta.

O homem interrompeu seu relato. E Nemo permaneceu calado.

– E isso continua assim, garoto, há dez anos e três meses. Agora eu estou em apuros. Meu filho irá se casar com a filha de um importante Visconde. O que significa que eu tenho que me livrar dessa praga assassina a qualquer custo. Por esses motivos concretos e compreensíveis, eu resolvi ordenar uma caçada, mas acabei atraindo para cá todo tipo de destrambelhados, guerreiros andantes e até um atorzinho pornô, um idiota conhecido em toda a região, que descanse em paz. Por último, quatro equipes de elite aceitaram e já partiram para se livrar da besta. O vencedor ganha tudo. Enquanto isso, a besta vai muito bem. Só que de vez em quando come alguém. Dá para se acostumar. Quanto a esses heróis que tentam matá-lo, temos a vantagem de saciar a fome da criatura com eles e não se aproximar das vilas e da cidadela.

– Durante todo esse tempo... – disse o jovem, friamente. – Ninguém conseguiu resolver o problema?

– Pois é, ninguém. – Ehrendil lançou um olhar penetrante ao jovem. – Porque, ao que tudo indica, o problema é impossível e temos de nos conformar com isso. No entanto, o número de voluntários vem diminuindo consideravelmente. Faz pouco tempo que apareceu um explorador de Ouro I, mas ele queria receber os três mil com antecedência. Diante disso, nós o amarramos e o jogamos para...

– Não faltam trapaceiros.

– Não, não faltam. Na verdade, há muitos – concordou o homem, sem tirar os olhos do jovem. – Por isso, quando descer, não peça pagamento antecipado. Isto é, se você for realmente.

– Irei.

– Bem, é um assunto seu. Mas não se esqueça de meu conselho.

Ehrendil fez um simples de mãos para que ele se retirasse, assoviou para os cães e Nemo encaminhou-se à saída. Por um momento, o jovem teve a impressão de que ele iria o conde não iria dizer uma palavra, sem um gesto de despedida. Mas, chegando à porta, o conde disse:

– Tenho certeza que você já sabia que eu o conhecia. Mas aceito. Sou forçado a aceitar. E sabe por quê?

Ele não respondeu.

– ... foi há quase mil anos. Trinta de nós rumo ao extremo norte. O lugar em que uma besta foi avistada. Temendo que fosse um dragão adulto, não nos arriscaríamos. Me lembro que naquela noite eu escrevia para uma garota, minha amada garota. Ou alguma bobagem dessas. Então o céu se abriu. Um rastro de fogo tornou a noite em dia. Parecia o próprio inferno. A preocupação com a garota se perdeu entre as chamas. A bravura e o treinamento nos fizeram seguir em frente, até a boca da morte. Só soubemos quando o vimos, à luz do próprio fogo. Suas escamas negras oscilavam à luz da lua. Seus olhos púrpuros eram irracionais e ilógicos, como se devorassem a própria realidade. E seu tamanho fez eu me perguntar como ele se movia.

O jovem virou-se em direção do conte. Seus olhos cinzentos deram um frio na espinha no lorde, como se cada fibra do seu corpo estivesse gritando “perigo”. Ignorando o protesto do seu corpo, ficou sem expressão, acariciando a cabeça de um dos cachorros antes de falar.  

- Então, quando a boca daquela besta se abriu... saiu dor de dentro dela. Saiu a morte. Saiu caos e ruina. Os redemoinhos de ventos causados pelo bater de suas asas carregavam as cinzas da carne queimada das pessoas. O próprio ar parecia fogo e cada vez que respirávamos ele nos queimava por dentro. Senti a mão do nosso destemendo em minha perna. Aquilo fez com que eu perdesse todas as minhas forças restantes, não havia sobrado nada dele abaixo do peito. O homem que havia me ensinado a brandir uma espada, o homem amado e louvado por guerreiros e, principalmente, pelo povo... havia se tornada nada... virado em polpa. Trinta homens foram ao extremo norte. Um voltou. Eu voltei.

O jovem não confirmou, muito menos piscou, em resumo, não fez gesto algum. Mas aquilo bastou para Ehrendil, ele havia compreendido. Sabia a resposta apenas com o silêncio perturbador.

- ... o que eu quero dizer com tudo isso é ... que em algum momento no futuro ... chegará a hora em que você pagará por tudo o que fez. Quando isso acontecer... eu oro para que você sofra muito...

Nemo saiu, fechando a porta atrás de si.

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No chão de pedra estava jogado o corpo magro de uma jovem garota que termia de medo. Seu adorável e doce rosto, emoldurado pelos seus longos quase negros, estava franzido com uma junção de lagrimas e sangue. Seus finos braços, suas perdas, todo seu deslumbrante corpo estava despido. Suas vestes rasgadas brutalmente.

- Não... irmão, por favor, não me machuque mais... — soluçava a jovem, contorcendo-se em posição fetal.

Laiex a puxou à força pelos cabelos, arrancando cachos tufos de cabeço ainda com couro capilar. Ela reagiu o empurrando com seus braços e gritando de dor. 

- Quieta! – rosnou ele, desferindo um soco no rosto dela com toda sua força e fazendo ela cair de bruços no chão. Com um gemido, e uma expressão cheia de raiva, fez força com os braços, tentando se levantar. Então, virou-se e cuspiu o sangue que banhava sua boca em Laiex.

A garota era uma meio-elfa, comuns no sul. Os elfos puros os desprezavam e a maioria das outras raças também, tudo para não ter más relações com os nobres elfos. Sem apoio com nenhuma das raças, as mulheres eram frequentemente capturadas e escravizadas. Com os homens era pior, serviam como brinquedos sexuais para os monstros. Mais fracos que um humano normal, não tinham grande utilidade como trabalhadores. Mas para ela, mesmo sendo uma bela jovem de cabelos negros e olhos dourados, era considerada um símbolo sinistro. Todos os elfos costumam nascer de cabelos brancos, e conforme envelhecem o cabelo se torna mais louro, prateado, ou alguma outra cor como o verde ou vermelho, mas nunca negros. 

– Seu lixo imundo!!! - veio mais um soco no meio do rosto, e mais um, seguido de outros, até que ela ficasse atordoada.

- Irmão, deixe a garota – murmurou um jovem cerca de dez passos de Laiex. Tinha um olhar sério, cabelos louros ondulados e olhos azul claro quase cinza escondidos atrás de óculos de grau redondo. Era magro e aparentava estar na casa dos 14 anos de idade.

- Sempre um covarde, Folre. Você com certeza puxou ao idiota do nosso pai, herdou o mesmo gosto ruim. – gritou ele, colocando o joelho sobre o peito da garota, na tentativa de fazê-la parar de se mexer. – Se quiser culpar alguém culpe sua mãe, vadia.

Ela recebeu mais dois socos na cabeça, que lutava para se desvencilhar.

- Nunca vi uma vadia tão resistente. – murmurou ele, retirando uma pequena faca de sua cintura. - Foi você que pediu!

Ele então cravou o objeto na coxa direita da garota, que gritou com toda força.

- Calma... eu só cortei o músculo, não vai morrer... não posso deixai-la morrer. – disse ele, retirando a faca lentamente, enquanto ela agonizava de dor. – Mesmo você sendo podre, ainda é da família.

- Não, p-por favor... - implorou ela, enquanto agonizava de dor por causa do corte e por causa do último chute que havia levado que acabou quebrando algumas costelas.

- Eu... falei... para... ficar... calada! - cada palavra proferida por Laiex vinha com um chute na direção do peito e estômago dela. Ela tossiu, não conseguia respirar. Sentia como se todo seu corpo estivesse quebrando como um simples graveto. Gemia de dor e nojo. Desesperada, decidiu seguir o antigo conselho de sua mãe e fechar os olhos, mas, de repente, sentiu algo quente e molhado em suas pernas. Laiex parecia ter sentido o cheiro, e seu rosto se contorceu em um sorriso sádico. Mas antes que pudesse ir mais longe, foi puxado para trás com tanta força que parou à quase três metros de distância da jovem, batendo suas costas em um pilar de mármore próximo. Seus amigos, que estavam em apreciando tudo de camarote, aproximaram-se furiosos. Um total de seis. Nemo estava de costas para eles, falando com a jovem, que ainda estava prantos. Estava acostumada a aguentar coisas daquele tipo, mas dessa vez eles haviam passado do limite. O irmão mais novo de Laiex, Folre, planejava falar com Nemo e tentar acabar com tudo aquilo pacificamente, mas Nemo não parecia tão sensato, pela forma que havia separado Laiex da garota.

- Querem mesmo fazer isso? Eu não est.... – antes que terminasse a frase, Laiex preencheu a lacuna de distância entre eles, enquanto sua fina espada cortou alguns fios de cabelo ao lado da orelha esquerda de Nemo. Mas, escondido atrás da estocada, veio um soco com o punho esquerdo. Nesse instante o som de ossos quebrando ecoaram por todo o ambiente, e logo após os gritos desesperados de Laiex.

- Feliz? – disse Nemo, com um olhar irritado para o desprezível nobre. Lambeu o sangue de seu lábio inferior que havia sido machucado por causa do golpe. – Não se levante, será uma péssima ideia.

Rangendo os dentes largou o braço ao lado do corpo e preparou para o seu próximo movimento. O ar foi cortado novamente pela espada de Laiex, mas Nemo apenas girou o corpo e um corte pequeno apareceu na ponta do nariz do jovem nobre. Seu rosto não conseguiu esconder a surpresa, mas Laiex estava com mana fortalecendo seu corpo e sua espada, não importava o quanto estivesse ferido, seu poder e velocidade não eram brincadeira. Rangeu ainda mais os dentes e fortaleceu o seu corpo e espada ao limite, ambos brilharam num prata reluzente e desferiu um chute rotativo na lateral do corpo de Nemo. Mas o chute reforçado foi recebido sem qualquer prejuízo. A força do chute ao atingir o corpo de Nemo criou uma pequena nuvem de poeira ao redor deles e Laiex usou dessa oportunidade para ganhar distância.

- ... isso... ele sequer tirou os braços de dentro da capa. – pensou Folre, com os olhos redondos arregalados. – Ele sequer deu um passo do lugar que estava..., mas cada vez que a espada estava prestes a corta-lo em dois, virava um borrão, e tudo que a espada do meu irmão cortava era o rastro dele.

- Eu tenho que me desculpar por subestimar você. – disse Nemo, com um singelo e frio sorriso nos lábios. – Eu serei um pouco mais sério agora.

O olhar opaco e desinteressado de Nemo brilhou com uma intensa e chocante intenção assassina, assim como seus olhos demostraram um brilho multicolor. 

- Você vai morrer, filha da puta! - gritou Laiex, agora com os olhos vermelhos, provavelmente devido a dor que estava sentindo. Os homens que olhavam o espetáculo se colocaram ao lado do nobre, alguns socorreram seu senhor e outros cercaram o agressor. - Não matem ele... Quero que veja o que vou fazer com ela

Laiex lutava para manter sua voz firme, enquanto segurava o braço quebrado junto ao corpo. Todos estavam preparados para sacar suas espadas. Folre respirava fundo, enquanto buscava em sua mente uma forma de acabar com aquilo pacificamente, sem muito sucesso.

- ... maldito... – Laiex deu um sorriso ameaçador, ainda confiante que poderia vencer, apertou o cabo de sua espada com força e atacou novamente, mais rápido e com mais força do que a última vez, porém não saiu do lugar.

- Se um pós vida existir, para insetos que nem vocês, deveriam repensar sobre o que fizeram na vida.

Sem saber como, sua espada saiu voando. O som que ecoou pelo local era como uma espada mandando outra para longe, mas ninguém viu nada. Nem mesmo viram Nemo sair do local.

- Brincadeira... morte é muito para insetos como vocês. 

As pupilas de Laiex se contraíram e os pelos de seu corpo erguem-se devido à eletricidade no ambiente. Então olhou para baixo e percebeu um corte profundo em sua coxa direita e em seu braço direito.

- Eu posso ter me entusiasmado um pouco. – ele apenas suspirou despreocupadamente.

Nesse instante todos caíram no chão. Folre apavorado havia fechado os olhos, imaginando ver os corpos ensanguentados de todos partidos em dois pelo golpe que viria de Nemo. O jovem irmão lentamente abriu os olhos para ver o que havia acontecido. Viu seu irmão mais velho em um estado de arrependimento. Seus olhos estavam saltados e seu corpo rígido, como se estivesse petrificado. Murmurava algo sem sentindo e podia-se ver lagrimas descendo de seus olhos, enquanto que a área da virilha em suas calças estava escura. Foi então que Folre escutou a voz metálica de Nemo:

- Ei, você! – os olhos cinzentos dele cravaram-se no jovem, como um predador analisando sua presa – Quanto?

- C-como é? – respondeu ele, meio atrapalhado.

- Quanto querem pela garota.

Nemo abriu o manto negro, deixando aparecer um de seus baços. E Folre quis fechar seus olhos novamente, mas não ousou, por ainda sentir a sede de sangue no ar.  Porém, ele apenas estendeu seu braço e Folre escutou um som seco e intenso ao atingir seu peito, era um saco cheio que havia saído do anel de Nemo. Através da abertura, peças de ouro brilhavam. O jovem olhou para ele em silêncio, relutante em aceitar. Ninguém poderia o culpar. Aquela quantia poderia comprar um cargueiro espacial ou até mesmo uma pequena cidade em algum planeta tropical.

- Que tipo de plano é esse?! – pensou o jovem, ainda na dúvida sobre a melhor estratégia para sair vivo e acabar com o problema ao mesmo tempo.

- Responda logo, se não quer que eu realmente perca a paciência.

Mas assim que Nemo demonstrou querer retirar seus braços de dentro da capa, uma voz profunda percorreu o pátio:

- Já chega! – interrompeu Ehrendil junto de seu filho mais velho, Arbelladon. - Aceitamos!

Envolto em sua capa de seda, o conde se aproximou a passos largos.

- É terrivelmente lucrativo ser um explorador. – disse o conde serrando os olhos e mordiscando seu lábio inferior, uma expressão que fazia quando busca por uma solução para seus problemas.

- Os negócios têm sido bons ultimamente.

- É mesmo? Diga, você... você está? – ele era normalmente tão bom em lidar com as pessoas, mas se tratando daquele homem, ficava com a língua presa. Ele simplesmente não conseguia entender. Com uma mistura de medo e resignação, Ehrendil finalmente continuou:

 -... Você está indo hoje?

- Sim. – respondeu calmamente. Sempre com o mesmo aceno lento com a cabeça. – Terminarei a missão e partirei de suas terras.

- Obrigado. – disse ela, segurando na mão dele e aconchegando-se agora na capa dele.

– Responda-me – gritou Ehrendil, engolindo em seco, - ele morrera ou não?

O jovem o olhou sobre o ombro direito e respondeu:

– Confirmo.

– Tão simples assim?

– Bem, não é tão simples quanto imagina. Em primeiro lugar, podem surgir complicações, imprevistos, até... acidentes fatais.

- Sim – disse o homem. – As pessoas não se cansam de me falar isso.

– Vocês realmente querem me irritar, né? – perguntou o jovem, calmamente.

Ehrendil fixou os olhos no jovem por um longo tempo. Levantou uma sobrancelha escura.

– Você não me entendeu...

O jovem interrompeu o homem:

- O senhor que não entendeu. Pretendo fazer tudo o que estiver ao meu alcance para acabar com isso. Um homem sozinho não consegue matar um dragão adulto. Nem dez e nem vinte. Seria estupidez agir de qualquer maneira. Desperta-lo resultaria na morte de todas as pessoas dentro de um raio de quilômetros. Deixe-me fazer meu trabalho... agora se puder dar licença. 

- Prezado senhor – a voz de Arbelladon rompeu o silêncio –, preste atenção a quem está se dirigindo. O governante de Grimbol's Cutlass pode mandar o senhor embrulhar suas coisas e voltar para casa, mas não o inverso. Está claro?

Como tudo nessa era é potencialmente um risco, Arbelladon aprendeu como se virar, se tornou um soldado de renome. Um dos mais habilidosos guerreiros da nova geração, famoso pelo uso de armas de fogo e sabres de energia. Um homem alto, com o corpo bem definido por anos de uso de armaduras pesadas, sua pele branca coberta por cicatrizes e queimaduras severas. Seus cabelos negros eram presos em uma longa trança que caia sobre seu ombro esquerdo, possuía um olhar cinzento que exalava um desejo incontrolável por sangue, tão mortífero quanto a espada em seu quadril.

– Não – respondeu o jovem orgulhosamente –, não está. Não está porque eu não recebo ordens de ninguém e eu não vou receber ordens de alguém que não consegue resolver seu próprio problema. O senhor se dá conta, projeto de monarca, que, caso eu diga algumas palavras e faça um simples gesto com a mão, o senhor se transformará num montículo de bosta de vaca, e seu governante, em algo indescritivelmente pior? Está claro?

Antes que Arbelladon pudesse responder, Ehrendil aproximou-se de seu filho e agarrou-o pelo braço. Calados e com um ar sombrio, deram suas costas para o homem. Nemo se virou em direção da garota.

- Reis exigem que se ajoelhem perante fortunas e de títulos injustos. Eu quero que levante para se reforjar na gloria divida por todos. – disse ele, oferecendo a mão casualmente para a jovem. – Não é mais subordinada. Hoje, se quiser, se tornará livre... então decida-se.

Os olhos dourados dela saltaram de Nemo para Ehrendil que já estava longe, e vice versa. Ela o encarou por alguns minutos, então acenou com a cabeça e aceitou sua ajuda. Ele quietamente avaliou a jovem garota. Sentia algo profundamente especial na garota. Havia sido abençoada com uma poderosa magia, era um brilho, mas não apenas uma luminescência visual, era um poder que ardia com tamanha intensidade que se espalhava como um incêndio por seu interior. Era com uma chama que trazia à vida. E sobre o resto de sua personalidade, ele não podia ver nada.

- Obrigado... – a jovem da garota gaguejou. – muito obrigado... senhor...

A testa de Nemo franziu-se com agradável surpresa, como se encontrasse um parente que não sabia que tinha.

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Com o vento o açoitando e com o uivo da banshee o envolvendo, Laiex sentiu um tremor de trepidação com o que estava prestes a fazer. Não estava vestindo sua armadura brilhante e muito menos seu manto carmim, mesmo estando seminu sentia-se confortado. Memórias que não pertenciam a ele o assombra-lo. O quebrar de ossos, os gritos e as chamas da guerra ecoaram em sua mente.

- Ainda sinto o cheiro de urina em sua perna. Todos sabem. Todos riem de você, jovem nobre.

As palavras encharcadas de pavor ecoaram na mente dele, palavras que rasgavam as parentes de sua mente como garras de uma besta enjaulada. Ele olhou para a queda a sua frente e o abismo o olhou de volta desejando-o.

- Você é a piada do Norte. Triste e patético. Um covarde.

Caminhou calmamente ao longo da prancha metálica, como se estivesse em transe, sob o olhar das antigas estatuas guardiãs que marcavam o caminho.

- Sinto ela, a raiva. Sim. Podemos usar isso.

Os ventos inclementes o agrediam, gritando em torno de seu corpo magro em redemoinhos cortantes. 

- Podemos, sim. Podemos matar a fera. Matar as duas. Você e eu.

A prancha em que ele estava possuía muitos nomes. Se já teve um nome durante seu uso, já havia se perdido. Entre os habitantes do Norte, era chamada de Prancha dos lamentos. Milhares de pessoas haviam sido jogadas por ela, afinal. Ela era realmente antiga, havia sido construída para jogar os traidores e bruxas. É claro, o tempo dessas atrocidades passaram há muito tempo. Mas naquele momento ela serviria como carrasco para Laiex.

- Ninguém precisa saber do seu pavor secreto. Sua impotência... farei todo o trabalho.

Parte da construção se despedaçava aos poucos, caindo na escuridão do abismo. Os anciões falavam que o tempo não tinha respeito pela beleza antiga. Tudo era passageiro, se tempo suficiente fosse considerado. Mesmo o maior dos monumentos seria desfeito pelo vento e gelo com o passar de suficientes anos.

- Só precisa me deixar entrar. Só precisa...

Ele alcançou o final da prancha. Logo abaixo avistou o precipício que caíra sem fim. Suas mãos permaneceram caídas e vazias ao lado do seu corpo. Laiex soltou um pesado suspiro e caiu, a cidade alada não era mais visível por causa da neblina que se fechavam em torno dele como um manto sombrio. Então, em um relâmpago vermelho seu corpo desapareceu.



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