História Crônicas do Mundo Antigo: O Cavaleiro. - Capítulo 2


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Alvar, Antigo, Aventura, Cavaleiro, Cronicas, Destino, Dragão, Estevão, Fantasia, Monstros, Mundo, Perigo, Romance
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Palavras 2.470
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Luta, Magia, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Saga, Sobrenatural, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


O capítulo ficou muito grande então tive que dividi-lo.

Capítulo 2 - O trabalho de um cavaleiro. Parte 1.


A verdade é que Estêvão não sabia onde ficava o castelo da família Teravim. Também era verdade que ele nunca havia saído das redondezas de sua casinha e do vilarejo. Então, assim que se deparou com a imensidão diante dele, ele congelou. Ele ficou parado quase a manhã inteira, em cima de Tufão, olhando a estrada de terra que se perdia no horizonte.

Seu estômago não fora o mesmo desde o começo da aventura, teve que parar várias vezes antes de alcançar a estrada, que ficava mais profunda dentro do reino. Olhou para trás e viu como não reconhecia nada dali. Demorou tanto a se mexer que sua montaria perdeu a paciência, saiu da estrada e foi pastar, mastigando a grama alta.

Desceu do cavalo e se sentou. O calor estava de matar, o sol nem estava a pino ainda e ele já bebera quase toda a água que tinha no odre. Já que ia morrer, resolveu beber tudo num longo e demorado gole. “Por que não segui o rio? Por que quis me adentrar no interior do reino?”

Levantou-se e foi procurar nas bolsas penduradas na cela do cavalo o mapa. Ainda não havia ficado louco, tinha certeza de que vira um mapa na bagunça de papéis e outras bugigangas. Encontrou-o amassado na última bolsa em que procurou. Suspirou aliviado, quase chorou, mas quis poupar água.

Virou e revirou o mapa por um bom tempo, sem identificar nada a sua volta com o que estava desenhado nele. Achou o castelo com o nome “Teravim” marcado logo acima, mas não achou nada que lembrava sua antiga vila. O rio estava lá, com as cidades ao longo dele. Supôs que a estrada logo na esquerda dele fosse a que estava, mas onde exatamente é que ele se encontrava nela?

“Chega de perder tempo.”, pensou, “só tenho que seguir este caminho sem fim até chegar a algum lugar, aí saberei aonde ir.”.

Assim criou a coragem que lhe faltava. Montou Tufão e galopou rumo só a Dama sabia aonde.

*

Avistou algo reconfortante adiante. Uma cidade, com uma paliçada e tudo, cercada por um foço e a única entrada sendo uma ponte apertada ligando a estrada e ela.

Cavalgara por dias antes de encontrar civilização, estava exausto e com sede. Por sorte havia chovido algumas noites antes, então pôde encher seu cantil novamente. Contudo, ele se esvaziara pouco antes dele ver a cidade. Agradeceu à Dama pela boa sorte e se postou a galopar com todo poder de Tufão.

Chegando perto ele viu que acima do portão havia três arqueiros vigiando os arredores. Puxou levemente as rédeas e desacelerou. Aquele seria o teste da sua nova identidade. Se ninguém ali desconfiasse de quem dizia ser, teria certeza que estava bem com os demais lugares.

Trotou até a beirada da ponte que ligava a estrada. Pôde ver as flechas miradas nele e em seu cavalo. Puxou as rédeas até parar e ergueu o braço direito, acenando o mais amigavelmente possível, com um sorriso no rosto.

- Sou um cavaleiro, deixe-me entrar! – Gritou.

Os arqueiros se entreolharam e um deles sumiu da visão de Estêvão. Pouco depois o portão se abriu e de lá saíram quatro guardas. Separam-se ficando dois de cada lado, deixando um sujeito corpulento, careca e já de idade avançada passar. O homem foi até ele a passos largos com uma carranca no lugar da cara de tão mal humorado que aparentava.

Resolveu desmontar para tratar com ele face a face.

- Boa tarde. – Disse querendo soar educado.

- Então é cavaleiro? – Perguntou o velho, e antes que pudesse responder ele continuou. – Achei que essa pobre gente tinha sido abandonada por vocês, suas miseráveis sanguessugas!

Empurrou-lhe com mais força do que Estêvão estava preparado. Caiu no chão para o riso abafado dos guardas e arqueiros, mas se levantou depressa e pôs a encarar o sujeito nos olhos.

A longa barba branca denunciava sua velhice. Era um palmo mais baixo que Estêvão, mesmo assim seu ar feroz indicava que não era alguém com quem se implica ou discute. Vestia uma cota de malha e botas de cano longo como um guerreiro, sua mão direita segurava o cabo da espada, ainda presa à bainha.

- Eu lhe asseguro que não faço a mínima ideia do que está falando senhor. – Afirmou, engolindo em seco. – Vim de muito longe, convidado ao torneio de cavalaria, não sei de nada dos problemas que afligem essa cidade.

O velho soltou o cabo da espada e cuspiu, então fez um sinal e os arqueiros pararam de apontar para o cavaleiro. Enxugou o suor e aguardou até que se certificou que estava seguro. Todos voltavam para dentro e o velho gritava ordens aos guardas que se preparavam para fechar o portão.

Pegou Tufão pelas rédeas e o trouxe rapidamente pela ponte. O velho não o tirava de sua vista, mas não fez objeção alguma quando passou pelos portões de madeira que se fechavam aos empurrões dos guardas da cidade.

Ficou surpreso em ver o quanto era olhado pelas pessoas em seus quintais e varandas. As ruelas dali eram apertadas e sujas, com um cheiro que misturava estrume e outras coisas que achou melhor não imaginar. Passou por mulheres varrendo as ruas, idosos fumando cachimbos e tagarelando, e crianças correndo em bandos e esbarrando nos adultos.

O lugar não lhe parecia muito ruim, e apesar do ar triste e monótono que rodeava todos ali, podia ver que era essencialmente bom para se viver. O parrudo e barbado velho que o questionou na entrada parou bem na sua frente, com a mesma cara de poucos amigos e a postura ameaçadora.

- Por que diabo está me seguindo?

- Achei que...

- Que eu estava te levando pra minha casa como convidado? – Ele gargalhou. – Suma da minha vista. Se quiser descansar vá para a estalagem, só saia de perto de mim!

E saiu bufando e praguejando até virar para um beco e desaparecer. Esperava que nem todos os moradores dali fossem como cães raivosos prontos para morder.

Caminhou pelas estreitas e lamacentas ruas ainda sendo assistido com desconfiança. Era quase noite quando finalmente encontrou a estalagem. Tinha se perdido e ninguém lhe dava direções, era como se todos os habitantes dali fossem mudos. O estabelecimento era bem simples, com dois andares, uma placa em frente presa ao chão escrita “Estalagem”. O dono parecia não se dispor a imaginar um nome.

Prendeu Tufão ao lado de outro garanhão, igualmente musculoso e de aparência feroz, ambos apenas se distinguiam na cor, aquele era marrom como terra molhada. Abriu a porta com cuidado excessivo, querendo ser respeitoso. Por dentro o local era escuro, apenas algumas velas nos cantos da sala a iluminava. As janelas estavam fechadas, pôde ver que até as selaram com tábuas de madeiras.

Uma mulher rechonchuda varria e tirava o pó, e um sujeito que não enxergava o rosto bebia sentado em frente ao balcão. As mesas redondas eram pequenas, feitas talvez para pessoas solitárias e sem companhia. O silêncio dali o deixava desconfortável.

- Olá. – Disse para a mulher que apenas lhe respondeu com uma careta. – Há quartos, sim? Estou faminto também, se puder me dar algo para comer.

Ela não abriu a boca, só foi para de trás do balcão e começou a revirar as panelas e outras coisas de cozinha. Ele se sentou no canto da sala, bem onde havia pouca luz, queria passar despercebido.

Aguardou ali até a senhora trazer uma sopa que cheirava a cebola e uma caneca de cerveja.

- São quatro barões. – Disse com uma voz até amável e doce para alguém de aparência tão hostil.

Pagou-a de bom grado e sorriu. Foi retribuído com um olhar de escárnio. Estava muito quente para se comer sopa, porém se conteve de reclamar. Só engoliu e ficou feliz por não ter gosto ruim. Ao final da refeição se viu até lambendo o prato de barro.

Ficou abanando-se e bebendo por um tempo. Assim que terminou, indagou para a senhora qual era o nome da cidade, mas não obteve resposta, ela apenas falou quanto era o valor do quarto por noite. Ao insistir ela ameaçou lhe dar um tabefe na cara, então desistiu da questão.

Não havia outra escolha a não ser o homem que ainda bebia quieto no balcão. Sentou-se a algumas cadeiras de distância, só para vê-lo melhor. Primeiramente o sujeito era enorme, tão grande que ficou confuso de como não tinha percebido isso assim que entrou ali. A cabeça estava raspada e sua barba era rala, fazia alguns dias que não a aparava. Seu nariz era longo e seus lábios grossos, ele parecia pensativo. Não usava armadura, apenas cota de malha e calças longas sem rasgos ou consertos recentes.

- Com licença. – Aproximou-se cuidadosamente, sentando-se ao lado dele. – Meu nome é Estêvão Vascalen, deve ser um cavaleiro também, não é?

Os olhos do homem eram perfurantes, imediatamente ficou desconfortável e amedrontado. Parecia que seria engolido vivo.

- Sim. – Ele respondeu com uma voz feito trovão. – Gregório Lucas Mormodan.

- O senhor sabe o nome dessa cidadezinha?

- Espinhal, se não me engano.

- Muito obrigado. – Ia se retirar, mas não se conteve. – O senhor está indo para a abertura do torneio?

- Que torneio?

- Ora, o de cavalaria, no castelo da família Teravim.

- Não sei de nada disso, estou aqui para resolver o problema que está assolando Espinhal.

Por um instante, Estêvão havia se esquecido de que alguma coisa estranha acontecia naquele lugar. Acabou por ficar curioso.

- Veio sozinho? Suponho que seja simples.

- Não. – Ele deu dois longos goles de cerveja e arrotou estrondosamente. – Estou sempre sozinho, e o que ocorre aqui não é nada simples.

- O que seria?

Gregório Lucas ficou quieto de repente. Ele olhou ao seu redor, procurando Estêvão não sabia o quê. Não se conteve e ficou olhando também, até se dar conta de que agia feito um louco.

- Vamos, sou um cavaleiro também, posso ajudar.

- Espinhal foi amaldiçoada.

- Amaldiçoada? Pelo que?

- Pelo que não, e sim por quem. Uma bruxa que vive não muito longe daqui soltou uma maldição. Aparentemente todas as noites de lua cheia uma criança some da cidade.

- Como exatamente? Por que não as escondem, ou talvez as amontoem e as guarde uma noite?

- Já fizeram isso. Uma sempre se vai, não adianta.

- Por que ela amaldiçoou esta cidade?

- Ninguém aqui quer me contar. Eles não confiam em mim o suficiente pelo jeito.

- Quando cheguei, um velho de barba branca disse que os cavaleiros abandonaram essa cidade, por quê?

Ele o olhou como se tivesse surpreso com a pergunta. Deu até uma risadinha achando que fosse uma piada. Estêvão continuou sem entender. Foi só quando insistiu que finalmente ele falou:

- Onde você esteve nesses últimos anos? Claro, no castelinho da família, comendo grandes refeições e dando bailes todas as noites. É por isso que a cavalaria morreu. Ninguém mais se importa com a aventura e a honra, eles não querem mais saber de serem heróis, são todos nobres agora, donos de terra e de servos, jogam o jogo da política e nada mais.

Estêvão ficou calado, as palavras não saíam de sua boca. A cavalaria que conheceu ainda novo havia morrido. “Por que fiz tudo aquilo então?”, se perguntou ainda pasmado.

Contudo, aquele sujeito enorme ainda estava lá. Fazia o trabalho de cavaleiro, ou ao menos planejava fazer. Talvez ainda existissem os renegados que viviam da maneira tradicional, ainda havia esperança.

- Que tal trabalharmos juntos nisso? Como cavaleiros devem fazer.

- Tem certeza? Vai ser perigoso.

Juntou toda a coragem e espírito que tinha dentro de seu ser e levantou-se.

- Nunca estive tão certo em minha vida.

*

Passou a noite em um quartinho minúsculo sem espaço o suficiente para se espreguiçar. Toda hospedaria cheirava a mofo e madeira molhada, mas o odor era especialmente forte nos quartos do andar de cima.

Havia sido uma noite calma, diferente do que achava ser nas cidades. Os grilos faziam o mesmo barulho que faziam no seu vilarejo, a lua era a mesma, assim como o céu estrelado. Não sabia por que pensara que fossem diferentes.

Na manhã seguinte o cavaleiro, que na verdade parecia um armário com pernas, bateu em sua porta e chamou-o como se o mundo estivesse se acabando. Acordou assustado e quando se deu por si já estava do lado de fora com a armadura toda atrapalhada. Teve que arruma-la enquanto preparavam os cavalos.

Gregório ainda usava a mesma cota de malha sem pedaço algum de ferro protegendo seu corpo. Notou um machado de lenhador preso à sela, juntamente com as outras coisas de viagem.

Os habitantes de Espinhal também acordavam com as galinhas. Abriam as janelas e tiravam o pó, aprontando-se para mais um dia. Nenhum deles dava bom dia ou nem ao menos acenavam para eles, ou procuravam evitar o olhar ou simplesmente cuspiam em seu caminho. Desde garoto que Estêvão tinha o sonho de chegar a uma grande cidade e ser recebido com uma grande festa, celebrando o retorno de uma vitoriosa campanha. Sonhos eram sonhos afinal de contas.

Chegando ao portão eles foram abordados pelo velho de barba branca e seus guardas desnutridos e catarrentos.

- Onde pensam que vão? – Perguntou desferindo um olhar ameaçador.

Estêvão não se conteve, não deixou que seu companheiro respondesse:

- Ora adivinhe! Matar a bruxa que os aflige. Saia logo da frente e nos deixe trabalhar.

Antes que pudesse passar pelo velho, ele o agarrou pelo pescoço e pôs a perna direita atrás de seu corpo, empurrando-o. Caiu no chão pedregoso e uivou de dor.

- Como se eu fosse acreditar nisso! Ouçam bem, vocês não vão a lugar algum sem mim! Se abrirmos esse portão e os deixar sair, vão simplesmente nos abandonar.

- Ora somos cavaleiros! – Estêvão retrucou, levantando-se e esticando as costas. – Não acreditam na nossa palavra?

Todos ficaram em silêncio entreolhando-se, então desataram a gargalhar. Um dos guardas quase caiu de tanto dar risada. Até o cavaleiro ao seu lado não deixou de mostrar um sorrisinho e fazer um comentário:

- Você não tem saído mesmo do castelinho do papai não é?

- Quietos! – Tinha ficado nervoso de verdade. – Eu sou um cavaleiro à moda antiga, se dou minha palavra é porque a cumprirei. Mas o senhor é que sabe velhote, se quiser ir eu não impedirei.

- Eu também não. – Disse Gregório.

- Muito bem, podem me chamar de Urik.

Urik fez um sinal e seus homens abriram o portão com suas próprias forças. Os três saíram passando pela ponte e pararam na estrada.

- A casa da bruxa é a oeste daqui. Dentro da floresta sombria. – Afirmou o velho, coçando a barba.

Foram devagar porque só havia dois cavalos, Urik teve que ir caminhando.



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