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História Crow's Flight - Capítulo 29


Escrita por:


Notas do Autor


Oiii amores!!! Bem, eu iria demorar mais para atualizar mas hoje estou num clássico dia horroroso na escola e preciso urgentemente me distrair com um dos meus hobbys favoritos.
Esse capítulo é bem interessante, temos a exploração de uma informação que ficou esquecida lá atrás, algumas interações do nosso casal (que abre brecha para vocês verem como eles estão desde o capítulo anterior que vocês amaram, fiquei muito feliz!!!), e temos também um novo momento legal da Lydia sendo agente. Percebi que vocês gostaram bastante dos novos traços da personalidade dela na CIA e eu também curti, fico feliz que vocês tenham gostado. Hoje vocês verão ela num aspecto diferente, mas também interessante.
Além disso, queria ressaltar que a ideia do ambiente desse capítulo (assim como a Resguarda) e o fato de agentes terem suas próprias salas é minha, integrada na história. Eu tenho curtido muito descrever ambiente e acho que dá um tom bem legal pra história, tenho ideias sobre isso!!!
E, por último, eu quero muito saber o que vocês estão achando da escrita. Eu tenho tentado melhorar alguns pontos específicos, mas não sei se a maioria está curtindo. Se possível, peço que me deem esse retorno.
Eeenfim, boa leitura! <3

Capítulo 29 - Névoa


Fanfic / Fanfiction Crow's Flight - Capítulo 29 - Névoa

Terceira Pessoa

Martin apoiou as mãos na mesa de vidro de sua sala e respirou fundo, tentando conter o nervosismo irracional que disparava cargas elétricas nas veias. Correu os olhos pelo relatório pela milésima vez, atenta nas informações que já conhecia, escaneando a pequena foto do homem que tinha arrancado seu sono por dias enquanto esteve na Resguarda.

Seus sentimentos rasos e ao mesmo tempo com raízes espessas no peito estavam lampejando com desgosto, irradiando o bolo de desconforto que ela tornou a engolir mais uma vez naquela manhã enquanto espalmava as mãos suadas e mordia a boca e pensava.

Os poucos minutos que tinha correram até duas batidas na porta soarem, mas Lydia não fez esforço para se mover. Seu corpo relaxou e endureceu ao mesmo tempo, os músculos reféns do congelamento prazeroso que só um homem conseguia disparar através dela.

Desde que haviam voltado da missão em Manhattan, Martin esforçava-se para manter a cabeça concentrada e longe de tudo que pudesse a conectar a Mitch, principalmente porque estar perto dele já a afetava o suficiente. Mas, Lydia soube que estava em uma batalha perdida no momento em que o viu novamente depois de tê-lo deixado no quarto com Allison.

Toda a compostura leve e o olhar seguro faziam seus nervos se retorcerem de novas vontades sempre que conversavam – ainda que pouco – ou quando simplesmente ele a olhava com discrição. Mitch não tinha o menor problema em tratá-la como se nada tivesse acontecido, tranquilo e centrado como ela era acostumada a percebê-lo. Nos três dias que seguiram sem nenhuma menção ao assunto, ela se questionou se ele se sentia como ela, se ele também estava afetado pela energia entre os dois.

Sem coragem para questioná-lo, ela não tocou no assunto e afastou a preocupação que julgava desnecessária, concentrando-se no trabalho. Esforçou-se para agir como ele, sem pensar no pequeno envolvimento, mesmo que fosse quase impossível. O toque fantasma de Mitch era fixo na pele da mulher, sempre recordando-a da sensação de tê-lo mais perto, do cheiro que vinha dele, da forma poderosa que seus olhos brilhavam quando ele sentia desejo.

– Pronta?

Rapp se aproveitou do mero momento em que Lydia ainda estava de costas, focada nos papéis para escorar no batente da porta e olhá-la sem pudor. Correu os olhos por toda as costas cobertas pela jaqueta de couro fino, caindo na cintura estreita, escaneando a bunda apertada nos jeans escuros até os tornozelos com as botas de cano curto. O cabelo ruivo estava solto com duas mechas atrás da cabeça, e o detalhe nos fios ondulados não passou despercebido.

Ele lambeu a boca fina, contendo um suspiro ao relaxar contra o batente. Pensou mais uma vez em como era vê-la por baixo de toda aquela roupa, como a pele da mulher era macia e quente, o quão Martin – apesar de tímida – era rendida em momentos íntimos. Suas mãos arderam com vontade de tocá-la de novo, os sons vívidos reverberando nos ouvidos e se concentrando no quadril.

Lydia respirou fundo e se desencostou da mesa depois de um instante, olhando-o por cima do ombro sem grande interesse.

– Estou. – Murmurou ela.

A agente fechou a pasta e reservou o celular de cima da mesa no bolso, voltando para ele sem hesitação. Se aproximou em passos relaxados, e absorveu com a boca repentinamente molhada a intensidade crua que brilhava nos olhos castanhos em direção a ela. Mitch abriu a porta e Lydia passou ao lançá-lo um mero sorriso, esperando enquanto ele fechava-a.

Poucos segundos ao lado dele foram o suficiente para despencarem uma nova carga de ansiedade no corpo, acelerando seu pulso. A mulher lambeu a boca grossa, caminhando quando Rapp a indicou o corredor com o braço. Segurando todo o nervosismo que parecia querer corrompê-la, a agente jogou o cabelo por cima do ombro e conteve um respirar pesado, organizando os pensamentos agitados.

– Já fazem meses. – Falou baixinho. – Acha que Irene esperou por mim?

Mitch passou distraído uma mão pela camisa social de mangas dobradas dos antebraços e empurrou para cima, movido pela ansiedade que de repente domou o organismo. Ele mordeu a própria boca por um instante, ignorando os impulsos do corpo. Tentou pensar em uma resposta verdadeira, mas se frustrou ao concluir que não tinha nem uma linha de pensamento para seguir. Não sabia o que dizer a ela.

– Talvez. – Respondeu, a voz rouca agitando as células da mulher enquanto seguiam para o elevador. – Sabe que Kennedy é difícil de entender.

Um som cru e debochado escapou de Lydia. O agente não resistiu a vontade de olhá-la, cativado pelo sorriso que conseguia ser doce em algum ponto, a maneira que os traços antes rígidos de nervosismo relaxaram com o humor. Sentiu os dedos formigarem de vontade de pescar uma das mechas que pendiam na frente do rosto pelo penteado, mas se conteve.

– Difícil de entender... – Estudou a frase, baixinho, bem-humorada. – É assim que você a define?

Quando entraram no elevador, Mitch clicou no painel e as portas rolaram. A agente permaneceu arqueada, enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta e sustentou os olhos quase bem humorados dele.

– Como você a definiria?

– Complexa.

– É uma boa palavra. – Ele deu de ombros, enfiando as mãos nos bolsos das calças.

Martin se agitou ao olhar para o outro lado e fechar os olhos por um momento, incomodada com a naturalidade tão fácil do agente, a maneira que ele parecia enorme e tão físico ao lado dela. Mitch apertou as mãos escondidas nos bolsos e tentou se distrair do ar carregado de lembranças, de toques físicos que agora formigavam entre seus dedos com saudade.

Ela arranhou a garganta e respirou áspera, ansiosa para as portas abrirem, sentindo o cabelo da nuca suar frio. O silêncio no local pequeno era como uma onda convidativa de faíscas que agora inundava os corpos, levando-os a um espiral de vontades e incertezas que já conheciam. Rapp conteve um bufar aliviado quando as portas abriram, caminhando para fora com ela.

Lydia se distraiu da energia, lutando contra os instintos que sentia ao olhá-lo, a agitação comum e fervente que escorria nas veias por estar perto dele de novo. Seu coração quebrado ameaçava sussurrar ora ou outra, mas Martin estava mais envolvida nas memórias magnéticas dos últimos dias. Na maior parte do tempo não lembrava que ainda estava machucada emocionalmente, e nem cogitava entender a magnitude do que o mero envolvimento com o agente podia significar.

– Quem de vocês tentou nas duas primeiras vezes? – Perguntou ela.

– Allison. – O nome pinicou a garganta da agente, mas ela não se abateu, ignorando a sensação. Mitch também esforçou-se para parecer indiferente. – Ela geralmente é boa com isso mas não conseguimos nada. Eu tentei depois, mas ele não fala. Desde que soltou a palavra “cobaia” se fechou completamente, e não podemos forçá-lo aqui. Irene nos deu até a noite e eu cheguei atrasado, estava com você antes de você sair com Hurley para a Resguarda. – Disse ele, algum lampejo de culpa e raiva martelando nos olhos que Lydia não encarou. – Se demorássemos demais iríamos chamar a atenção de superiores e Irene deixou claro que isso não podia acontecer.

– Mas ele está escondido. – Indicou ela, confusa.

– Mas os superiores sabem. Se ele aparecer com um arranhão à mais a chance de algo feder para a Irene é maior, então nossa chance de machucá-lo era meses atrás.

– Certo. – Murmurou em desagrado. – Você relatou que ele não disse mais nada depois que soltou a palavra, mas Allison fez uma observação de alguma coisa em espanhol. Ele disse algo como el vuelo del cuervo es libre.

– Não sabemos o que significa, no contexto. Ele não respondeu mais. – Mitch suspirou cansado, em decepção. – Pode ter sido qualquer coisa. Ele podia estar delirando, nós fizemos um bom estrago na perna dele.

Direcionaram-se para a saída do prédio.

Lydia estava dominada pelas conclusões que ameaçavam se formar na cabeça. Entraram no carro e Rapp não quis corromper a expressão pensativa dela, também não se atentando em Lydia por receio de intimidá-la embora prestasse atenção nela de qualquer forma. Mas Martin estava quieta, consumida por todos os açoites de ansiedade que estavam zunindo dentro da própria cabeça.

Pensou em Theo por um único instante, calculando tudo que aquela pequena visita à Lorenzo podia significar se conseguisse o que precisavam para agregar ao caso. Lembrou-se das últimas semanas, do buraco fundo ainda aberto no peito, da raiva cega que drenava nas mãos ao pensar no rosto do loiro.

Ajeitou a cabeça no estofado e olhou pela janela, mas não se enrijeceu contra o banco, o que fez Mitch pensar que ela só estava cansada. Cogitou iniciar uma conversa, mas não sabia como ela se sentia, se seria invasivo expor que se preocupava com ela. Optou por ficar quieto, concentrando-se no trânsito.

Chegaram na área industrial de Virgínia pouco menos de meia hora depois, descendo do carro estacionado. Martin inalou o ar sutilmente gelado, inspecionando quase curiosa o céu nublado e escuro em cima deles. Os olhos verdes correram pela rodovia ao longe, escaneando a pequena estrada de cascalho até a magnitude das estruturas repletas de ferros dentro da área. Ao redor, a floresta densa de Virgínia dominava a região com um conjunto de verde e amarelo.

– Vamos? – Mitch chamou ao vê-la distraída.

Lydia foi puxada para a realidade ao balançar a cabeça, assentindo e murmurando:

– Desculpe.

Rapp caminhou quando ela se uniu a ele. Passaram por um portão de ferro e cruzaram o pátio de cascalho, dirigindo-se a um prédio enorme e maciço com algumas pichações na fachada. Martin não enxergava janelas em lugar nenhum, e algum pânico acendeu na boca do estômago.

Quando chegaram em uma porta enferrujada, Mitch forçou a maçaneta que rangeu. Empurrou-a para dentro ao pressioná-la, abrindo para uma sala enorme. Existiam caixas abandonadas e repletas de poeiras, cadeiras jogadas no chão e consumidas por ferrugem, mesas tingidas de amarelo por sujeira e fuligem. Uma onda penetrante de ar quente a atingiu e Lydia só enxergou um fio de luz vindo de uma abertura de uma janela perto do teto.

A mulher avançou e quando Mitch fechou a porta, a escuridão tornou a consumir seus instintos de claustrofobia. Ela ofegou sozinha, engolindo em seco e apertando as mãos em punho. Rapp parou ao lado dela, percebendo a repentina rigidez do corpo pequeno, inspecionando-a com atenção.

– Tudo bem? – Perguntou ele.

Seus olhos se encontraram e mesmo no escuro, Mitch percebeu que ela parecia pálida e suada.

– Sim... – Ela tornou a engolir, e procurou pelas paredes. – Só está abafado

– Tente relaxar, já estamos dentro. – Disse ele. – Vem.

Eles caminharam e ao saírem do pequeno corredor inicial, a amplitude da sala abafada conseguiu fazê-la respirar melhor, apesar de ainda se sentir em uma toca minúscula. A poeira no ar provocou um espirro na mulher que fungou baixinho.

– Parece abandonado. – Disse ela.

Eles seguiram para os fundos da sala, no canto direito. Lydia o seguiu curiosa e agoniada e ao pararem no meio do aparente nada, ela abriu a boca para questioná-lo. Entretanto, se calou quando apertou os olhos e enxergou no escuro marcas de linhas na parede. A agente enxergou a porta, surpresa em como era bem escondida na parede. Era metal escuro, do mesmo tom das paredes azuladas e sujas de concreto.

– A CIA é boa com esconderijos. – O agente respondeu. – Ninguém se atreve a entrar aqui porque sabem que é uma zona.

Rapp puxou um cartão do bolso, esfregando o antebraço em uma caixa de vidro pendida na parede, retirando poeira. Ele posicionou o cartão em cima e o leitor acendeu uma luz verde no painel, tornando a destravar com um som de ruptura.

O nariz da mulher tornou a pinicar e Martin soltou um novo espirro enquanto Mitch abria a porta que rolou leve, revelando uma escada escura, rumo ao solo.

– Você quer que eu vá na frente?

Lydia considerou a ideia, mas recusou a si mesma rejeitar-se a assumir a frente. Balançou a cabeça e passou por ele, avançando alguns passos e parando ao esperá-lo. Mitch tornou a fechar a porta e a acompanhou quando a agente começou a descer. Fragmentos de luzes amarelas surgiram do teto conforme os passos avançavam pela escada.

Ao chegarem em um piso reto, um corredor estreito e silencioso surgiu na extensão dos olhos da mulher. Como a fachada do prédio, as celas de emergência também eram domadas por concreto escuro e impressionantemente bem cuidados, ao menos por fora. As celas eram separadas por portas enormes de metal.

O silêncio frio e duvidoso que vinha daquele andar correu um arrepio na espinha de Lydia.

Mitch e ela se encararam por uma razão desconhecida. Algo puxou seus olhos, e palavras não ditas pareceram evaporar pelo ar, um êxtase diferente se enraizando no oxigênio escasso.

– Quem fica aqui além dos criminosos?

– Existem outros departamentos mais à frente. – Disse ele. – É maior do que parece. Os guardas ficam para lá. – Apontou para o fim do corredor, que continha uma curva.

– Certo.

O agente a avaliou por um instante, sendo adornado por pura admiração quando percebeu que não existia hesitação nela. Martin ainda tinha os olhos vivos, palavras decididas e ombros arqueados, o que provava mais uma vez a ele que ela tinha tomado a decisão certa ao entrar para a agência. Ele segurou um sorriso, admirado, se contentando com um suspiro profundo ao abaixar os olhos quando percebeu que podia estar sendo indiscreto ao olhá-la.

Lydia sentiu as bochechas ardendo com o desconforto pela situação, mas algo dentro de seu corpo relaxou em desejo e satisfação ao perceber o olhar de reconhecimento e segurança dele, deixando-a inegavelmente contente por agradá-lo. Ela mordeu a boca e segurou o instinto de sorrir, realizada com a sensação que formigou no peito.

Rapp arranhou a garganta e indicou:

– É a dez.

Martin sabia qual era a cela de Lorenzo, mas reservou a informação.

– Sophie disse para deixar você assumir, então me chame se precisar. Vou esperar aqui.

Ela assentiu. Não relutou em caminhar para longe, afastando-se dele. Sozinha, suas emoções sedentas tornaram a sussurrar na cabeça como loucas.

Seus pés avançaram pelo corredor estreito, os saltos ecoando em todo o espaço estranhamente sufocante. Lydia engoliu um suspiro, sentindo a têmpora latejar e o pequeno grau de claustrofobia de repente esmurrar-lhe o peito. Observou as portas rígidas, procurando por sons que pudessem vir de dentro das celas, mas a quietude penetrante do lugar predominava nas paredes.

O coração da mulher deu um pulo inesperado quando um guarda cruzou o corredor, fazendo a ronda. Ele assentiu ao passar por ela, brotando um sorriso nervoso na boca de Lydia. Ao chegar na cela dez, parou em frente à porta e respirou fundo.

Puxou seu próprio cartão da agência do bolso e o estendeu ao leitor na parede por segundos. Um bipe soou, seguido de um estrondo rangido, e a grossa porta de metal rolou automática, revelando a pequena cela. Algo pressionou o corpo da mulher, gritando para que ela fugisse, mas Martin ignorou o instinto. Sabia que confrontar seus fantasmas do passado iriam assustá-la e correr deles não era a opção que Hurley tinha a ensinado na Resguarda.

Conteve o nervosismo irracional que ameaçou domá-la, avançando na cela escura, de repente presa no cheiro ácido que corria ali dentro. Seu corpo disparou um novo arrepio frio quando os olhos bateram em Lorenzo. Ele estava algemado – como planejado – em uma barra de ferro suspensa na parede, ao lado da cama de colchão fino.

O homem usava uma calça jeans e empoeirada, apesar de Lydia ter a impressão de ter sido cedida pela agência, assim como a camisa preta no corpo dele. Ele ainda tinha hematomas pelo rosto do que parecia um bom tempo atrás e novos cobriam a clavícula, manchas roxas e vermelhas que cresciam na extensão da pele magra.

Na foto do relatório, Lorenzo tinha o rosto mais cheio do que agora, o cabelo era menor e sua pele jovem estava livre de qualquer resquício de barba. Agora, ele parecia uma versão muito distante e enferma de si mesmo. Ele tinha uma barba crespa e desregular se desprendendo do maxilar, olheiras fundas nos olhos e o cabelo grande caía sobre um dos olhos, empoeirado.

Ele encarava o próprio colo, quase como se o som da porta não tivesse atingido os ouvidos. Martin parou há alguns metros seguros, inspecionando-o da cabeça aos pés com parcelas de uma admiração sádica. Não tentou afastar a satisfação sombria que bateu nas veias com a cena, lembrando-se de quanto medo tinha passado na fuga por pessoas como ele, pensando que o homem diante de seus olhos tinha atirado contra ela e Mitch.

A mulher enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta de couro, calma, saboreando o corpo rígido do criminoso. Lydia inalou o ar escasso, incomodada com a ausência da pouca luz que o céu nublado do dia concedia do lado de fora. A iluminação precária da lamparina fraca no teto de concreto irritou seus nervos.

Os segundos de silêncio se arrastaram pela cela pequena, a quietude penetrante tremendo nas paredes espessas.

– Cinco meses, Lorenzo. – Começou ela, baixinho. Apertou as mãos escondidas e sua voz soou baixa e quase misteriosa. – É um bom tempo apodrecendo aqui, não acha?

O homem não se moveu por um momento, parecendo congelado com os pulsos espremidos. De um segundo ao outro ele ergueu as pálpebras cansadas, os olhos fundos encontrando os quase divertidos da agente. Ele cerrou os cílios, seu peito quase não se mexia, e correu a visão por todo o corpo coberto, mas seus olhos sádicos e divertidos fizeram-na se resetar.

– Então... – Sussurrou ele, fraco. As orelhas dela formigaram de curiosidade. – A cadela de Theo entrou para a CIA...

Lydia apertou os dentes e as narinas dilataram com a corrente de raiva fervente que correu nas veias. Estudou o rosto divertido dele, prendendo o acesso de fúria no fundo da garganta enquanto respirava fundo. Lorenzo abriu um sorriso largo, doentio, e relaxou contra a parede de concreto. As mãos pendidas na algema pareciam desconfortáveis, o que confortou Lydia em algum nível.

– Você vai aguentar mais um mês aqui, no máximo. – Disse ela, ignorando a provocação. – Se você nos disser o que sabe, podemos soltá-lo. – Lorenzo tentou protestar, mas a mulher o impediu, prosseguindo mais firme. – Embora eu reconheço que pode ser um problema.

O espanhol cerrou os cílios com desconfiança e confusão, inspecionando-a. Lydia não se abateu, mantendo os pés firmes no chão enquanto esforçava-se para manter uma máscara de naturalidade no rosto, tentando conter a raiva que ainda borbulhava em seus impulsos.

– Como se sentiriam se nós mandássemos um traidor de volta?

– Eu não os trai. – Rosnou ele, rouco. – Vocês me pegaram, vadia.

– Exatamente, nós pegamos. – Disse ela, serena. Martin avançou alguns passos e apesar de algum alerta soar para não se aproximar, parou ao lado da cama. Seus olhos brilharam escuros e divertidos. – Seu chefe deve estar puto, não?

Blanco não comprou a conversa, soltando uma risada áspera e fervente.

– Vocês acham que isso desestabilizaria ele?

– Eu não sei. Mas sei que essas surras e a falta de comida estão te desestabilizando.

Lorenzo soltou uma nova risada que penetrou nos músculos empedrados da mulher. Martin respirou fundo, drenando os sentimentos impulsivos, buscando paciência e uma maneira de invadir o círculo do homem. O encarou por um instante, estudando cada traço do rosto maltratado dele.

Um novo minuto se arrastou enquanto a agente o avaliava, e Lorenzo fugiu de seus olhos naquele tempo. Ela conteve uma risada satisfeita.

– Você está com medo, não é, Lorenzo? Você sabe que existem muitas apostas sobre onde vão embrulhar sua cabeça. – Sussurrou, e um lampejo de satisfação entonou na fala. Ele apertou a mandíbula e abaixou os olhos.

– Você se acha muito esperta, Lydia. – Martin travou, o próprio nome atravessando os ouvidos em um tom sombrio que ainda não conhecia. – Acha que estão com vantagem só por quê me pegaram? Eu sou só mais um deles. Um que também tinha que te capturar, vadia.

– Capturar? – Testou ela, em um pensamento alto.

Lorenzo não vacilou mesmo que pudesse ter percebido errar com a palavra, ignorando-a.

– Theo sabe que você está aqui agora. – Comentou, baixinho. – Eu não preciso estar com ele para saber que deve ter olhos em cima de você o tempo inteiro.

Lydia sentiu o coração – contra sua vontade – despencar um oceano de veneno. Esforçou-se para manter o rosto rígido enquanto por dentro, se contorcia em ódio e rancor. Seus olhos vacilaram em uma piscada hesitante, mas Lorenzo não reagiu.

– Me torture, me deixe definhar aqui... – Provocou ele, e um sorriso doce e maligno predominou na boca do homem. – Os negócios vão ir bem com ou sem mim e a CIA continua por fora, sempre chegando atrasada. Você deveria estar preocupada, na verdade. Aproveite por aqui enquanto ele não te encontra. Nós sabemos que sua boceta vai te trair quando isso acontecer.

Um vulto ágil como névoa se desenrolou no escuro e dedos suados e firmes de repente agarraram Lorenzo no pescoço, fincando as unhas curtas na carne ao apertá-lo. Ele ofegou um gemido e se remexeu apesar de dolorido, mas a agente pressionou um joelho na coxa machucada dele, apertando-o enquanto limitava o oxigênio da cela.

Ele arfou arranhado, as mãos abriram e fecharam em vão, algemadas.

– Me escute. – Exigiu ela, baixinho, penetrante. – Eu tenho mais paciência do que Mitch, mas você já a esgotou. Nós vamos fazer um acordo. Você vai me dizer o que significa a porra da palavra mágica que saiu da sua boca naquele dia e eu vou tentar te ajudar de dentro da CIA. – Lorenzo se espremeu contra a parede rígida e fechou a boca que buscava ar, as narinas dilataram enquanto ele respirava brusco, os lábios apertados em ira. – A única coisa que ainda te mantém vivo aqui sou eu, que pedi para que te deixassem vivo enquanto eu estivesse fora.

A mentira jorrou com naturalidade e selvageria, como Martin queria. Ela apreciou a coloração vermelha que começou a predominar nas bochechas de Lorenzo e afrouxou o aperto, vendo-o ofegar, mas o joelho pressionou com mais força na coxa deteriorada onde Mitch e Allison haviam enfiado uma faca, meses atrás.

– Você me chamou de cobaia. – Disse ela, sentindo-o suar frio contra seus dedos. – Eu sei que vocês contrabandeiam drogas adulteradas, vocês matam jovens todos os anos com as misturas alucinógenas. Eu quero saber qual a merda da minha parte nisso, e acho bom você não me enrolar.

Lorenzo tornou a mexer as mãos, em vão. Os olhos brilhantes e assassinos de Lydia conseguiram o fazer se encolher, embora ele não demonstrasse tanto medo quanto ela queria.

– Você não pode me matar. – Sussurrou ele, fraco, irritado. – Se você fizer, nunca vai saber.

– Eu posso te matar e pegar outro de vocês. Eu sei que sou importante para ele, atraí-lo é o menor dos nossos problemas. – Rosnou ela, contida. – Então pense bem, posso me esforçar para salvar seu pescoço se você colaborar. Vou te dar mais alguns dias de surras e essa comida de merda, talvez sirva para você ter um acesso de consciência.

Martin se desprendeu dele como uma sombra na cela escura, tornando a ficar de pé. O homem gemeu quando a carne comprometida na coxa se livrou do peso do corpo dela, suando e ofegando, recuperando os sentidos antes apertados pelo domínio da agente. Lydia ajeitou a jaqueta no corpo com um suspiro cansado e o inspecionou mais uma vez, vendo-o ainda ofegar como um peixe fora d’água.

– Poucos dias, Lorenzo. – Tornou a dizer.

Lorenzo a encarou mais uma vez, se rejeitando a intimidar-se, mas Martin o devorou com a mesma intensidade. Deu uma última olhada na cela e caminhou para a porta, abrindo-a por dentro ao passar o cartão no leitor. Ao sair no corredor, olhou para o criminoso uma última vez, vendo sua silhueta nas sombras.

Algum peso ameaçou adentrar o peito, mas Lydia rejeitou a sensação humana. Não estava em condições de se deixar abater por sentimentos de compaixão, tinha aprendido que a CIA não era um lugar para ser dominada por sentimentos bons. Fechou a porta e caminhou em direção à saída.

Mitch estava conversando com um guarda, as mãos ainda nos bolsos enquanto ouvia o homem fardado falar. Um choque a correu quando os olhos castanhos conhecidos pousaram nela, e Lydia sentiu-se estranha por imaginar o que ele via. Ainda tinha nas mãos o suor frio de Lorenzo, o hálito dele cravado nos poros do rosto, e mesmo sem ter o ameaçado em vão, sentia como se já tivesse o tirado um último fôlego de vida.

Foi consumida por adrenalina, êxtase e nervosismo, calculando as palavras do homem. Engoliu seco e abaixou os olhos por um momento, sentindo os dedos tremerem. A palavra “cobaia” ainda corria incessantemente por seus ouvidos.


Notas Finais


Pois bem, eu acho que vocês até já tinham esquecido o Lorenzo. Caso alguém esteja aéreo ainda, ele foi quem atirou contra mapp enquanto a Lydia estava atravessando o muro lá, depois do Mitch a encontrar. Nós estamos finalmente desenrolando o plot e eu já me organizei, estou bem ansiosa para poder desenvolver toda a ideia por que eu particularmente adorei! Essa é sem dúvida a história mais complexa que já escrevi, estou empolgada! <3
O próximo capítulo é meu favorito até agora, vou tentar postar novamente mais cedo. Teremos muita interação mapp pra suprir esse momento profissional deles, embora eles tenham tirado uma casquinha né hahaha.
Quero saber tudo sobre as teorias de vocês, li algumas opiniões bem interessantes sobre o contexto cobaia! Adoro como vocês são atentos. E se possível me falem da escrita rs. Enfimmm, obrigada por tudo. Beijosss, até!! <3


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