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História Crow's Flight - Capítulo 7


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Notas do Autor


Oi amores! Primeiro desculpe pelo horário (rs), nem ia corrigir capítulo hoje mas estava com preguiça de fazer outra coisa então aproveitei e corrigi. Nova fase da fanfic, e estou bem empolgada com esse momento. Espero que vocês curtam as emoções dos personagens de hoje, eu particularmente gostei bastante desse capítulo. Sobre a narração, existem momentos claros em que o Mitch passa para Bruce e vice e versa, isso se dá porque quando a narração se concentra um pouco mais na Lydia (que tem o Mitch como Bruce) é preciso colocar pela visão dela, que o coloca como o nome falso. (Acho que vocês entenderam, rs). No capítulo de hoje, quando houver as mudanças de Bruce para Mitch, saibam que é porque a narração se concentrou mais nele. (Isso na fanfic inteira).
Nos vemos nas notas finais. Obrigada Clara por tudo.
OBS: Créditos a maioria das stills bonitas e de boa qualidade como a desse capítulo: cecistydiax <3
Boa leitura! <3

Capítulo 7 - Pavor


Fanfic / Fanfiction Crow's Flight - Capítulo 7 - Pavor

Terceira Pessoa 

Mitch encarava a rua movimentada da grande Nova Iorque sentado ao lado de fora da pequena padaria, consumido pelos pensamentos traiçoeiros. Desde que havia visto o suposto Josh Dunn entrando no apartamento de Lydia, a madrugada da noite anterior, sua cabeça estava sendo açoitada por atordoantes pensamentos.  

Ainda que a frustração profissional o consumisse, Rapp sabia que boa parte de seus tormentos estavam envoltos a sensação desgastante que corroía o estômago. Assim que Lydia recebeu o loiro com um beijo ardente antes de fechar a porta, Mitch precisou se desconectar do quanto a cabeça fervia até contatar a CIA para que ficassem à espreita com ele. 

Acionou a escuta que estava conectada no apartamento da Martin uma única vez para descobrir se conversavam alguma coisa, mas ouvir sussurros abafados em meio a baixos gemidos se afastando pela sala foi o suficiente para que desligasse, incapaz de violar a privacidade de Lydia assim como toda a CIA. 

Desde que soube da existência de Lydia quando começaram a investigá-la, Mitch nunca cogitou nenhum envolvimento com a ruiva. Mesmo depois que descobriu que precisaria protegê-la e adquirir sua confiança para que a missão fosse bem sucedida. Entretanto, depois de tantos dias negando para si mesmo que não poderia a querer – e nem deveria –, era como se seus sentidos estivessem começando a se apagarem com os alertas inúteis. 

Ao ver Sophie se aproximando, relaxou na cadeira. Ele engoliu seco ao ver a subchefe sentar de frente para ele, retirando os óculos escuros e os guardando na bolsa que trazia ao ombro. O rosto sério, após um suspiro cansado, bateu nos olhos vulneráveis de Mitch, embora o corpo do agente permanecesse arqueado e atento. 

– Achei que tinha sido clara sobre como você deveria agir, Rapp. 

Rapp debochou com um sopro áspero que escapou da boca enquanto os olhos desviavam. A mulher batucou alguns dedos no colo, ansiosa e avaliadora. 

– Você queria que eu fizesse o que? –  Raiva encandeceu seus olhos castanhos, e Mitch apertou as mãos em punho. – A agarrasse? Roubasse um beijo? Comprasse um anel e me ajoelhasse na frente dela? 

Sophie pigarreou, ainda em silêncio.  

– Mesmo com toda a nossa tecnologia eu ainda não posso ler mentes. 

White não se abateu diante do sarcasmo e o rosto rígido do agente, desviando os olhos para a rua em silêncio. Conteve o impulso momentâneo de mandá-lo se calar, se convencendo de que ele estava uma pilha de nervos por conta do cansaço. 

– Só precisava fingir que estava atraído por ela e... 

– Ainda estou fingindo. – Mitch respondeu duro, a cortando, e uma de suas sobrancelhas subiu com rancor. – Se não estivesse, teria contado a verdade muito antes. 

Sophie se aproximou ao unir as mãos em frente ao tronco, na mesa. 

– Vocês estão me mandando atraí-la sem o menor escrúpulo enquanto a investigamos. Não pode me culpar se ela não sabe da verdade e quer dormir com quem se aproxima dela. 

Mitch passou uma língua aflita pela boca, suspirando nervoso. Odiou que precisasse saber que Lydia estava se envolvendo com alguém quando no dia do encontro ao restaurante japonês – arquitetado pela CIA – Rapp acreditou que estivessem se aproximando como precisava. 

Sabia que não o pediriam para dormir com ela, entretanto, saber que Lydia se aventurava com Josh – um suposto criminoso – gerou uma perturbação imatura e raivosa em seus neurônios. Rapp apertou os punhos e conteve a vontade de esmurrar a tela do computador naquela noite. 

A lembrança ainda fazia sua coluna arder.  

– Não posso fazer o que está fora de meu alcance.  – Ergueu-se da cadeira de rompante, mas o braço delicado da subchefe em seu pulso o bloqueou.  

Impaciente, Rapp desejou ignorá-la com um bufar. As pernas ardiam com vontade de se distanciar, mas seu poderoso instinto profissional o obrigou a sentar-se de volta com um baixo gemido inconsistente. O bolo ácido de desconforto – antes por Lydia – no estômago dele tornou a inflar. 

Sophie o encarou, avaliando a postura defensiva. Seus olhos castanhos se perderam em chateação e impaciência. 

– Eu sei que é difícil, Mitch... Mas estamos no mesmo barco. 

– Estamos? – Rude, ele disparou. – O que você tem feito além de estudar com ela? Tem fingido o que além de dizer que seus pais morreram e você adora cursar enfermagem por que sua mãe era médica? 

Sophie semicerrou os olhos, astuta e perigosa, e o estresse transmutou pelo ar como uma nuvem pesada. 

– Cuidado com o que diz, você ainda trabalha para mim. E já salvei sua vida. 

Mitch abaixou os olhos para o próprio colo, engoliu seco e mesmo intimidado, seu semblante permaneceu sério e instintivamente seguro. Suas bochechas o traíram com um leve tom avermelhado, embora ele acreditasse que o rosto ardia por pura impaciência e desgosto. 

Ele apertou as costas na cadeira, não dando atenção a mulher que ainda tinha os olhos ameaçadores fixos em seu rosto. Mitch pigarreou, os braços cruzaram no peito.  

Paciente, Sophie decifrou cada sentimento que dançava nas íris castanhas enquanto a discussão recém terminada ainda pairava em sua cabeça. 

– Você não quer enganá-la. – Sophie concluiu baixinho. 

– É claro que não. – Chateado, ele negou com a cabeça. – Consegue imaginar o que estamos fazendo? 

– É nosso trabalho, Rapp.  

– Sujo. Esse trabalho é sujo pra caralho. –  Murmurou ofendido. – Mesmo quando me infiltraram no Brooklyn meses antes de descobrirmos sobre tudo isso, nunca me pediram para enganar alguém como querem que nós façamos com ela. Essa corporação é uma piada de mal gosto. 

Mitch bufou, irritado com a insistente sensação de que estava agindo errado mesmo que por obrigação. Ele não tornou a falar, torturado pelos pensamentos acusatórios. Sophie não suportou a ideia de prolongar o assunto, exausta e sem saber o que dizer para confortá-lo. 

– Terminará logo. – Disse por fim, baixinho. –  Allison disse que Irene perguntou por você. 

– Claro, ela deve estar preocupada. – Camuflou o estresse com indiferença. Um sorriso amargo passou pela boca fina. O homem deslizou uma mão pelo cabelo curto. – E quanto ao Josh Dunn? 

– Sumiu do mapa. Estamos esperando a próxima transação como mercenário para rastrearmos. 

– Não sei como esse desgraçado estava contatando a Lydia. – Mitch negou com a cabeça, confuso. – Não existe rastro algum no celular dela e ele nunca tinha ido até o prédio antes de ontem. 

– Já mandou a caricatura para a agência? 

– Sim. 

– Parecida com a minha? 

Mitch assentiu, confirmando a subchefe que o homem que Lydia tinha recebido no apartamento na madrugada anterior era o mesmo que havia fugido da vista da agente na avenida outro dia. 

– Ele provavelmente não vai aparecer de novo. Não no prédio pelo menos. 

Rapp encarou a mulher que apesar de dura, transmitiu-lhe alguma espécie de conforto com a fala. O peito dele se agitou, indecifrável sobre qual sentimento. 

– Preciso ir agora, estou atrasada. Fique atento a Foster, ele está com o comando do rastreamento. 

– Certo.  

Sophie levantou sobre os olhos castanhos. 

– Se algo mudar, estaremos preparados. – Mitch assentiu, ouvindo-a prosseguir: – E... apenas não a confunda. Sei que quando está com ela, você não é totalmente Bruce Sanders. 

Rapp se agitou internamente, mas se esforçou para manter o rosto nublado.  

– Vai me culpar pôr a achar bonita? 

– Sua língua afiada não vai fazê-lo sentir-se melhor. 

Mitch deu de ombros com deboche enquanto um sorriso divertido pairava na boca. Sophie ignorou, se afastando em passos largos sem dar importância. Sozinho, ele mergulhou novamente em seus pensamentos confusos. 

** 

Alguns dias após a conversa com a subchefe, Rapp e ela calcularam o próximo passo enquanto na sede da CIA a equipe de agentes se preocupava em rastrear algo sobre a facção.  

Assim que Foster encerrou a ligação e avisou para o agente que o suposto John Dunn estava fora de Nova Iorque, Mitch relaxou, sabendo que era o momento de abaixar a supervisão e se aproximar de novo como havia combinado com Sophie. Esforçou-se para formular um diálogo na cabeça e após a instrução da agente, de prosseguir com o protocolo do suposto encontro, seguiu pelo corredor. 

Respirou fundo ao parar em frente a porta de Lydia, passando uma mão pelo cabelo curto e após alisá-la na calça jeans, bateu na madeira branca. 

Esperou ansioso, tentando conter a pulsação acelerada quando Martin abriu e encarou seus olhos, surpresa. Ela o avaliou dos pés à cabeça, interessada no que pudesse ver, como se procurasse uma razão física para que ele estivesse ali. 

A mulher soprou ar, a mão na maçaneta suou contra o metal. Mitch arranhou a garganta, as mãos deslizando para o bolso frontal do jeans em uma fuga discreta. 

– Oi. – Cumprimentou baixinho. – Podemos conversar? 

Lydia avaliou em silêncio, os olhos brilhando de curiosidade. 

– Sim.  

Martin o convidou para entrar em um pedido mudo, insinuando o apartamento ao erguer uma mão. Mitch ruborizou, mas seus pés agiram ao darem passos receosos para dentro. Ao fechar a madeira atrás dele, Lydia avaliou o corpo forte, instigada em como os músculos pareciam grandes contra a camisa lisa. 

Ela se apressou em colocar-se de frente a ele, atrás de um dos sofás da sala. Rapp organizou os pensamentos sob os olhos verdes, se atentando em cada palavra que surgia na cabeça.  

– Estou curiosa com o que o trouxe aqui. – Ela confessou. 

– É claro, seus olhos estão brilhando tanto em me ver... 

Lydia revirou os olhos, cruzou os braços embora um sorriso tomasse conta da boca. Esperou que ele falasse. 

– Eu queria fazê-la um convite, na verdade.  

Ela cerrou os cílios, a cabeça se curvou ligeiramente para o lado enquanto os olhos dançavam na camisa branca e lisa do homem. Mitch engoliu seco, pulando sutilmente nos calcanhares, nervoso com a maneira despretensiosa que ela o instigava sem fazer nada. Mais uma vez, sentiu-se o pior agente de toda a CIA por seu corpo traiçoeiro ter instintos poderosos. 

– Mais umas horas de sushi e conversas sobre a França?  

Rapp riu, sobrecarregado de bom humor e algum deboche enquanto ela permanecia séria embora existisse pura diversão nas palavras que flutuavam no ar. Mitch, no fundo, sabia que achava divertido como Martin fingia não se importar tanto com ele. 

– E algumas taças de vinho, sim. – Deu de ombros. 

Duas batidas na porta distraíram os dois, que tornaram a se olhar quando o som cessou. 

– Minha pizza está aqui. – Ela informou. – Já volto. 

Sozinho, Mitch percebeu como no fundo, bem no fundo, um emaranhado de sensações o consumia.  Ele passou uma mão pelo cabelo, bufou sozinho, e deu as costas para Lydia ao se virar para a janela da sala. 

Encarou os prédios que podia ver do outro lado da rua, a cabeça sendo engolida pelo alvoroço desconhecido e incomum do peito. Ele escutou Lydia conversando com o entregador, mas não se atentou a ela. Estava prestes a se virar novamente quando os olhos pescaram um ponto verde em meio ao prédio escuro em frente a janela. 

Um ponto verde, fluorescente, brilhando de uma janela alta, se movimentando. Mitch franziu o cenho e confuso, ele deu alguns passos pela sala inexplorada, atento no que podia ver da luz pequena. 

Estava se movendo, correndo por toda a fachada do prédio, até que o apartamento de Lydia foi cortado pelo fio verde e silencioso. Mitch se alarmou, o coração disparou uma descarga de adrenalina que fez as pernas serem consumidas por impulso. Ele correu de volta, gritando vulnerável: 

–  Lydia! 

Lydia travou, paralisada com o pavor que cortou o ar na voz que clamou seu nome. Antes que procurasse por Bruce, seu corpo foi sugado para trás com um impulso. Caída no chão, mãos firmes a envolveram pela cintura enquanto nas costas, sentia o impacto do tronco forte de Bruce batendo ao seu corpo.  

A queda ao solo firme fez a Martin gemer com a dor latejante que atingiu o corpo e seu cérebro foi bombardeado por tiros estridentes que queimaram nas orelhas. Vidros se partiram, esbugalhando-se no piso marrom da sala, decorando o ambiente em milhares de pedaços brancos e afiados.  

Caída, inspirando o oxigênio espesso, Lydia assistiu em câmera lenta os tiros perfurarem o corpo do entregador de pizza. As balas atravessaram o peito do jovem, suas mãos cederam a pizza embalada que se perdeu no piso e ele, com sangue escapando dos lábios, tremeu ao ser metralhado.  

Quando o corpo não suportou mais os disparos os joelhos cederam, e rígido, ele despencou ao chão. Os olhos abertos e chocados do jovem pararam-nos de Lydia, encarando-a enquanto o terror a tomava.  

O sangue começou a drenar no piso, lento, paciente, dropando do corpo sem vida. Aterrorizada, com o coração berrando nos ouvidos, Lydia estremeceu e gritou. O pavor ardendo na garganta como se brasa estivesse a queimando. Bruce se apressou em apertá-la contra si e trazer uma mão a boca da Martin, tampando-a enquanto sussurrava: 

– Shhhh. – Pediu, tentando confortá-la em meio ao próprio medo. – Está tudo bem. Está tudo bem, Lydia.  

Apavorada, os olhos verdes foram inundados por lágrimas espessas. A poça de sangue se estendeu até alcançá-los no chão gélido. O vermelho vivo e escuro recordou Lydia dos cabelos da irmã. 

Espesso, com um cheiro cítrico, e quente como água fervida, o sangue mergulhou nos braços e barriga de Lydia, ameaçando consumir também a calça de moletom preta.  

Ela apertou os olhos com força, apavorada, o corpo permaneceu rígido contra o de Bruce enquanto ele a mantinha nos braços. Na escuridão das pálpebras, o rosto do jovem loiro que estava em sua porta, vivo, há poucos minutos, assombrou seus pensamentos e a arrepiou da cabeça aos pés.  

– Precisamos ir, Lydia. – Bruce sussurrou. 

Ela negou com a cabeça, confusa e chocada, tremendo contra as mãos que cercavam sua barriga. O estômago embrulhado retorceu, e todo o mundo à sua volta girou com uma vertigem repentina que atingiu a cabeça. O sangue quente ferveu sua pele, e ela saberia que quando secasse, Lydia desejaria arrancar os próprios poros. O cheiro a fez engolir de volta o bolo na garganta. 

– Agora, Lydia. – Bruce tornou a chamar, se colocando de cócoras em um movimento ágil. Ela tomou coragem para encará-lo, o choque em seu rosto acelerou o coração dele. Seus lábios tremiam e as grossas lágrimas nos olhos brilharam mesmo no escuro. O rosto de Sanders era determinado e ansioso quando disse: – Eu sei que você está assustada, está bem? Mas precisa vir comigo agora. Não temos tempo. Ou nós dois vamos morrer aqui. 

Ela assentiu desconexa, engolindo seco, lutando contra a fraqueza do corpo. Agarrou a mão que lhe foi estendida, erguendo-se junto a Bruce. Eles se encararam, e Lydia quase pode suspirar de alívio por enxergar alguma segurança no fundo dos olhos castanhos. Ela deslizou os olhos para o vermelho que cobria um antebraço dele, toda aquela extensão congelada e parasita em cima dos pelos que Sanders tinha. 

A cor a enjoou em conjunto ao cheiro metálico que penetrou as narinas com mais força. De mãos dadas, Bruce se apressou em caminhar para a saída. Os pés confusos de Lydia agiram, mas tornaram a travar quando ela exclamou dolorida: 

– Bobby!  

Bruce buscou a direção que os olhos verdes e arregalados estavam fixos, encontrando o gato amarelo dropando sangue como uma fonte que jorrava. Os pelos do animal tinham adquirido uma coloração vermelha e a língua do bicho estava para fora, entre os dentes pequenos. O corpo sem vida do animal de estimação fez com que ela segurasse as lágrimas nos olhos.  

– Vamos. Agora. – Bruce chamou, puxando-a. 

Inerte, sem entender o que acontecia ao redor, se permitiu ser guiada. Eles praticamente correram até o elevador, Bruce a segurando firme pela mão, certificando-se que estava com ela.  

Cochichos surgiram por perto, mas ele não olhou para trás e tão pouco permitiu que Lydia o fizesse. 

Ao entrarem no espaço de metal, ele foi rápido em apertar o botão para descerem. Quando o elevador começou a se mover, Bruce soltou um curto suspiro de alívio, embora o peito disparasse em adrenalina e medo. 

Ele se virou para a ruiva, tocando-a nos ombros com firmeza enquanto os olhos desciam da cabeça aos pés. 

– Você está machucada? – Ele perguntou, a voz estável em meio a respiração aflita.  

Ela negou com a cabeça, engolindo seco, os olhos apagados buscando refúgio nos dele. Ele assentiu urgente, e um dedo ansioso tornou a apertar o botão do elevador em uma tentativa inútil de que fosse mais rápido. 

– Porra... – Gemeu baixinho, o dedo clicando sem descanso. 

Quando as portas finalmente abriram, Bruce a puxou pela mão com pressa. Eles caminharam urgente pelo hall vazio, atravessando-o rumo ao estacionamento. Lydia se viu perdida, sem saber para onde ir, e não encontrou forças para questioná-lo de nada. Seus pés o seguiam enquanto na cabeça, os últimos elétricos minutos a assombravam. 

Sanders abriu a porta de seu carro e a orientou a entrar, fechando a porta com urgência enquanto olhava para os lados. Ele se apressou em entrar no veículo e deu a ré, direcionando o carro para fora do local. 

Ao entrarem na avenida, o carro seguiu uma trajetória conforme Bruce marcou no GPS. Lydia, confusa, com lágrimas instaladas nos olhos e o recém horror tremendo nos dedos, não conseguiu dizer uma palavra sequer. Martin encarou a janela, uma mão confusa passou pelos olhos e ela se projetou para a frente, abraçando o próprio corpo. 

Os olhos castanhos do homem a analisaram, procurando pelo o que a transmitia desconforto. Lydia encarou o braço manchado de sangue, os dedos tremendo enquanto lágrimas escorriam pelos olhos. Era como ter um cadáver pendurado na própria pele. Bruce pisou no acelerador, o carro zarpou como um míssil pela avenida, e ele ultrapassou diversos veículos sem preocupação com a quebra de leis. 

– O quê... – A voz feminina, com um único fio de desespero e medo, alcançou os ouvidos de Sanders. – Para onde estamos indo?  

Ela fungou, os dedos apertaram os próprios braços enquanto tornava a se encostar no assento, desejando se afundar na poltrona.  

– Você precisa confiar em mim, Lydia. 

– De que porra você está falando?! – Perguntou aflita, fazendo-o engolir seco. – Pare o carro! Agora!  

– Não posso fazer isso. – Murmurou. 

– Bruce!  

– Eu já disse que você precisa confiar em mim.  

Ela o encarou, os olhos verdes saltando em descrença e ira. Lydia gemeu, enfiou as mãos na raiz do cabelo enquanto lágrimas desciam pelos olhos. Sentia-se confusa, completamente perdida enquanto era guiada por um homem que mal conhecia. E se odiou por ser covarde e não ter coragem de simplesmente fugir, com receio de que não pudesse lidar com a situação – qualquer que fosse – sem ele. 

De repente, o veículo cortou a avenida, entrando em um beco escuro e vazio. Eles seguiram, e Martin se resetou instantaneamente. Ela se alarmou, as mãos buscando as laterais da poltrona como quem desejava saltar. 

– Para onde estamos indo?! – Questionou aflita. – Que lugar é esse?! 

Bruce freou de rompante, o carro paralisou com o barulho dos pneus raspando na calçada. Ele tornou a encará-la, os olhos frios e calculistas em seu rosto assustado. Lydia engoliu nervosamente com as lágrimas secas congeladas no rosto, seu corpo se aproximou da porta e uma corrente de energia aqueceu o estômago, deixando-a atônita e paralisada em puro medo. 

– Me deixe... 

– Preciso que venha comigo, não posso te deixar sozinha. – Ela negou com a cabeça, aflita, os lábios tornaram a abrir para uma pronúncia, mas ele impediu que ela falasse, prosseguindo com um tom mais alto e claro: – Não posso explicar agora, mas você precisa confiar em mim, Lydia. Eu salvei a sua vida. Vamos entrar em uma boate, não fale com ninguém e em hipótese alguma abandone a minha mão. Você entendeu? 

Martin o avaliou quieta, o barulho ensurdecedor do coração palpitando nos ouvidos preenchendo seus pensamentos ansiosos. Ela quase pode se assustar com a seriedade no rosto do vizinho. Ainda que com medo, percebendo que ele não responderia suas perguntas, ela assentiu e sussurrou: 

– Sim.  

– Certo. 

Bruce abandonou o carro com urgência, e Lydia não conseguiu se mover. Naqueles poucos segundos em que ficou sozinha no veículo, seu corpo considerou a ideia de tentar a todo custo conseguir a chave e pilotá-lo de volta para o apartamento destruído, mesmo que não soubesse para que. 

Quando a porta ao lado abriu e Sanders a estendeu a mão, Martin voltou para a realidade. Ela respirou fundo, captando a mão masculina que a apertou com firmeza. Ele tornou a fechar a porta, impaciente, e seguiu pelo beco escuro. 

– Está tudo bem. – Tornou a dizer, embora suas palavras não a confortassem. 

Conforme foram caminhando, o som abafado de uma música passou a preencher os ouvidos de Lydia, crescendo à medida que se aproximavam. Eles pararam em frente a uma porta e quando Sanders a abriu, o som inflou pelo beco silencioso.  

Lydia sentiu-se tonta, trouxe atordoada uma mão ao ouvido enquanto a outra ainda se confortava no calor da pele do homem. Bruce os levou para dentro, atravessaram um pequeno corredor escuro e ao passarem por uma cortina roxa, todo um paraíso pecaminoso surgiu diante dos olhos de Lydia. 

O cheiro de cigarro estava impregnado no ar, a nicotina quase tão forte quanto a essência de fluídos – quaisquer que fossem –. Existiam pequenas passarelas redondas onde mulheres seminuas se exibiam, dançando, a maioria fazendo acrobacias insinuantes para homens que as lançavam dinheiro e sorriam ao bebericarem drinks rosados. 

Ao sentir a mão ser puxada, Lydia caminhou ao lado de Bruce à contragosto. Eles passaram pelas pessoas que mal os percebiam, direcionando-se para o fim do estabelecimento. As luzes vermelhas do teto obrigaram a Martin a abaixar a cabeça, incomodada com a claridade. Eles pararam diante de uma mesa afastada, onde um asiático de corpo forte e cabelo bem penteado para trás estava sozinho. 

– Está na hora. – Sanders falou. 

Lydia ainda vasculhava o lugar, confusa e curiosa enquanto olhava para as pessoas que fumavam e se divertiam. A cabeça latejou com a música alta, as lágrimas pousadas nos olhos ainda lhe pareciam frescas, aptas a escorregarem pelo rosto a qualquer momento. Uma mulher seminua passou próxima dela, lançando-a um olhar malicioso. 

Martin se encolheu a apertar a mão de Bruce e a outra mão envolvê-lo pelo braço enquanto ela se resetava, assustada. Ele observou a mulher, vendo o terror marcar seu semblante vulnerável. Lydia sentiu o seu pequeno grau de claustrofobia apertar na cabeça. 

– Já estamos indo. – Ele informou para ela. – Depressa, Joe.  

O homem asiático fuçou no bolso do blazer e retirou uma chave e duas identidades, passando para Bruce ao arrastar pela mesa. Discreto, Sanders pescou os objetos e os conservou no bolso de trás da calça jeans. 

– Sua dívida está paga.  

O homem deu um sorriso amargo. 

– Preta e nova, no canto direito. 

Bruce assentiu e puxou Lydia e eles tornaram a caminhar, dessa vez na direção oposta a que haviam entrado na boate. Passaram por uma nova porta e saíram em um pequeno estacionamento aberto e vazio, onde seguiram até uma moto estacionada.  

Sanders pegou um dos capacetes e estendeu para Lydia, mas ela rejeitou ao negar com a cabeça. Os olhos castanhos se apagaram em estresse e, por um momento, Martin percebeu irritá-lo. 

– Eu não vou a lugar nenhum com você. – Esclareceu, seus olhos se fecharam por um breve instante. Sua voz tão frágil que Mitch sentiu que poderia quebrá-la ao meio. – Eu... não vou.... – Negou com a cabeça, e lágrimas desceram pelo rosto. 

– Lydia, você precisa confiar em mim.  

– Pare de repetir essa merda! – Ela exigiu com a voz apertada. – Eu preciso confiar em você? Isso é a última coisa que faço desde que o conheço.  

– Você entende que tentaram te matar hoje? – A dureza e a impaciência na voz dele fizeram-na estremecer. Engoliu seco, abraçando o próprio corpo enquanto chorava em silêncio. – Era para você estar gelada no chão de sua porta agora, mas você está aqui graças a mim. 

A realidade caiu sobre a cabeça de Lydia como um balde de água fria. Ela corou enquanto os olhos se perdiam no chão.  

– Você precisa vir comigo, ou vai estar morta até amanhã.  

Ela o encarou, confusa, amedrontada, enquanto os olhos dele ameaçavam suavizar nos dela. Ainda que impaciente, algo no rosto dele transbordava de puro clamor, quase como se implorasse para que ela aceitasse. E perceber alguma vulnerabilidade nele diminuiu o corroer da culpa na garganta dela, que já não tinha coragem para falar. 

 Ele tornou a estender o capacete, e dessa vez Martin o agarrou. 

– Estamos perdendo tempo. Suba.  

Ele encaixou o capacete na cabeça e a auxiliou a fazer o mesmo. Bruce acelerou a motocicleta pelas ruas quando Lydia subiu. Poucos minutos se arrastaram até ela enxergar a fachada de um hotel surgindo no horizonte. Não tinha a menor ideia de que estava fazendo, mas não tinha mais forças para questioná-lo.  

– Não fale com ninguém. – Foi a instrução dele antes de entrarem no prédio e reservarem um quarto. 

Martin não tornou a fazer perguntas, rendida a exaustão que a adrenalina congelada nas veias liberou em seu corpo. Ao entrarem no quarto e trancarem a porta, Bruce se apressou em ir até a janela e observar a rua, atento a qualquer movimentação possível. 

Lydia permaneceu em pé, observando o ambiente aconchegante que, ironicamente, parecia desconfortável para ela. E de repente, com tanto silêncio externo em contradição a euforia do interior, Martin sentiu-se tonta. 

– Sente um pouco. – Bruce orientou, indicando a cama com a mão enquanto ainda olhava pela janela, alarmado. 

Ele bateu urgente as mãos no bolso da calça, gemendo com o estresse congelando os olhos castanhos: 

– Porra! O telefone. 

Quieta, Lydia não entendeu o contexto da frase, mas também não se esforçou para fazê-lo. Passou confusa o dorso da mão nos olhos, limpando novas lágrimas que se acumulavam e o ligeiro suor frio que surgiu na pele, prestes a caminhar para a cama. Entretanto, seu estômago revirou com a descarga de adrenalina cortante e ela trouxe uma mão a boca, contendo o que subiu pela garganta. 

Aflita, as pernas dispararam pelo espaço em direção ao que parecia ser o banheiro. Segurou firme as mãos na boca enquanto a cabeça se apertava e em frente a janela, Bruce a encarava, analisando-a dos pés à cabeça enquanto o terror primitivo o tomava. 

– Lydia?!  

Martin empurrou a porta com força, usando as costas para atropelar a madeira e seus joelhos encontraram o chão com urgência após os passos aflitos que a direcionavam para a frente da privada. Despejou a mistura do estômago, gemendo sem conter o estremecer interno que a fazia desejar se encurvar.  

Vomitou enquanto a cabeça girava e os olhos, por alguma razão, acumulavam lágrimas. Atrás dela, Sanders surgiu com o semblante apavorado, visivelmente relaxando ao perceber que ela estava apenas vomitando. Ele se aproximou e sem nenhum tipo de permissão segurou as pontas dos cabelos ruivos no alto, livrando-a dos fios soltos que caiam no rosto enquanto o estômago revirava. 

– Você está bem. – Ele concluiu, observando que ela estava corada. – Aconteceu o mesmo comigo quando vi alguém ser atravessado por balas pela primeira vez. 

Lydia poderia rir de deboche se não estivesse concentrada na sensação de vergonha e humilhação que a corroía. Quando inspirou uma última vez, Bruce acionou a descarga. Martin gemeu, passando o dorso na mão na boca como um reflexo. 

Quietos, as mentes divagaram por um instante. 

– Estou assustada. – Ela confessou baixinho, de repente.  

Sanders suspirou. 

– Vem cá. 

A ajudou a se levantar, colocando-a de frente para ele, em pé. Bruce alcançou a pequena toalha que estava estendida ao lado do espelho e molhou na torneira da pia. O barulho da água corrente, livre e calma, quase fez a mulher relaxar. Ao fechar a torneira, ele torceu o pano úmido. 

Pescou o braço manchado de sangue da Martin e começou a limpa-la, pacientemente, atento a todo o rastro de vermelho que era absorvido pelo pano. Lydia quase pode derreter ao observar o rosto tão de perto, atencioso e focado nela. Ele parecia tranquilo, o que conseguiu aquecê-la com chamas de conforto que brotaram no peito. 

Quase esqueceu do motivo que os trouxera ali. 

– Eu sei que você está com medo, eu também estaria. – Disse ele, baixinho. – Mas eu prometo que tudo fará sentido amanhã. 

Quando o braço da mulher tornou a ser limpo, ele largou a toalha na pia e a puxou pela mão. O único olhar que trocaram foi o suficiente para que ela sentisse, mesmo que por poucos instantes, paz.  

Caminharam pelo quarto e Bruce a colocou sentada na cama, observando como o rosto de Lydia era vazio de sentimentos naquele momento. Ele se apressou até o pequeno frigobar e voltou com uma garrafinha d’água na mão, entregando-a. Ela parecia, definitivamente, perdida, o que fez o coração de Rapp apertar-se. 

Lydia limpou a boca ao beber a água gelada, suspirando com algum alívio quando o líquido atingiu o estômago. 

Todas as verdades possíveis subiram na garganta de Mitch, mas ele se obrigou a engolir o próprio impulso amargo. Agachou-se nos calcanhares, pescando uma mão dela perdida no colo. Acariciou a pele macia, satisfeito por um traço de segurança passar pelos olhos verdes. 

Em contradição à pele fria dela, os poros de Rapp eram confortantemente mornos. 

– Vamos dormir um pouco, para descansar. – Rapp conteve um sorriso traiçoeiro. – Eu posso ficar no tapete enquanto você se esparrama pela cama. 

Lydia deu um sorriso fraco, que não alcançou seus olhos. 

– E amanhã, eu vou te contar tudo o que quiser saber. – Ele engoliu seco. – Depois que chegarmos em Virgínia. E vou te arrumar uma blusa limpa. – Rejeitou o sangue na blusa dela com um suspiro cansado. 

– Virgínia?! – Martin protestou, baixo, impotente, ignorando a segunda informação. – Você quer me tirar do estado? Você nem pode fazer isso! 

– É preciso e eu posso. – Respondeu baixo, atencioso. – Mas prometo que tudo fará sentido logo. Só fique calma e tente dormir. 

Lydia passou a mão livre pela raiz do cabelo, apertando os fios ruivos com estresse. Rapp odiou aquela situação mais do que imaginava. Achou que vê-la cercada de segurança nacional enquanto mentia para ela sobre sua identidade fosse ruim, mas descobriu que Martin triste e amedrontada era muito pior. O estado dela, ainda em choque, fez seu coração se apertar em compaixão. 

– Não vamos pensar nisso hoje. – Ele pediu baixinho. Mitch se ergueu sobre os olhos verdes. – Vou te colocar na cama, você só precisa descansar. 

Sem esperar uma resposta ele se direcionou para a cabeceira da cama e puxou a coberta, auxiliando Lydia – que relutou por um segundo – a se enfiar embaixo deles. Ela se acomodou ao ajeitar a cabeça no travesseiro macio, embora estivesse distante de qualquer definição de conforto. 

Nem a melhor cama do mundo conseguiria fazê-la sentir-se bem naquele resto de dia. Antes que ele se virasse para caminhar, Martin o segurou pela mão. Os olhos castanhos a encararam curiosos, e baixinho, corando, ela pediu: 

– Não me deixe sozinha, por favor.  

Mitch a avaliou, tão pequena e indefesa na cama que achou que ela pudesse se quebrar contra seus dedos mornos. 

– Está tudo bem, não vou dormir. – Justificou em um sussurro. – Vou estar no quarto.  

– Não... – Ela negou baixinho, os olhos se fechando. – Pode ficar aqui? 

Lydia não conseguia negar como estava apavorada. Os tiros que ainda ecoavam nas olheiras desencadeavam inesperados arrepios horrorizados em sua pele. Mitch a avaliou, cativado pelo receio nos olhos verdes. Ele se sentou na cama, ainda a segurando na mão, e sussurrou: 

– Tudo bem. –  Concordou, e ela não expressou nada. O rosto bonito de Lydia estava oco. – Boa noite, Martin. Descanse. 

– Boa noite, Bruce. 

Aquele nome fez Mitch desejar desferir socos na parede. Ele permaneceu acariciando o dorso da mão pálida que agora não tremia, sabendo que não a abandonaria até o momento em que fosse obrigado. Lydia demorou para fechar os olhos, e os minutos se prolongaram ainda mais até ela conseguir dormir. Enquanto isso, Rapp ainda a acariciava, pacientemente esperando que ela descansasse enquanto ele pensava e repensa no que havia acontecido. 


Notas Finais


Para onde vocês acham que eles estão indo??? E quem vocês acham que atirou rs?
Foi bem legal escrever o tiroteio, e mais ainda o Mitch todo fofo depois rsrs... Próximo capítulo algumas das muitas perguntas que vocês me fazem desde que a fanfic começou vão ser respondidas. Agora dei uma travada na história mas estou me dedicando para driblar isso, prometo que as atualizações não vão demorar muito.
Comentem! Beijos, até <3


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