História Crush On You - Capítulo 5


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jeongguk (Jungkook), Jung Hoseok (J-Hope), Kim Namjoon (RM), Kim Seokjin (Jin), Kim Taehyung (V), Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin), Personagens Originais
Tags Hoseok Gordinho, Hoseok Nenem, Hoseok!bottom, Menção!hopekook, Seoktae, Taehope, Taehyung Babaca Da Porra, Taemin, Taeseok, Top!taehyung, Vhope, Vmin, Vseok
Visualizações 921
Palavras 14.797
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ficção Adolescente, Fluffy, Romance e Novela, Shonen-Ai, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


É a despedida. Último capítulo, dessa vez narrada por Kim Taehyung o mais odiado do rolê, e eu peço mil desculpas por demorar tanto a voltar. Enfim escrever essa fanfic foi importante pra mim porque senti como ela tinha um pouquinho de algum leitor em certo ponto, e eu espero não decepcionar vocês com esse final. Eu me esforcei pra deixar tudo do jeitinho certo, espero que possam compreender o que tentei passar aqui.
Nas notas finais segue o link da musica half moon do Dean para quem não conhece apenas queria dizer que ela é bastante importante no decorrer do capitulo.
Enfim, eu juro que tentarei responder aos comentários dessa fanfic porque eles são muito emotivos e especiais e eu espero que esse final continue trazendo a vocês emoção suficiente para fazerem comentarios semelhantes
Enfim, foi bom enquanto durou, mas é hora da gente se despedir de crush on you
Boa leitura

Capítulo 5 - Existe um outro lado


“Eu ainda não entendi.” Yoongi se pronunciou, olhando-me como se tudo que eu tivesse dito até aquele momento não fizesse sentido. Tudo bem, eu compreendia que não fazia sentido, uma vez que para todos eu só usava Hoseok em vista de ganhar pontos nos trabalhos, e fê-lo de motorista. Para falar a verdade eu não sei de onde surgiu o boato de que ele era apenas meu capacho, as coisas saíram de total controle desde aquela festa.


Gostar de Jung Hoseok nunca fora uma tarefa fácil, não com as minhas inseguranças, não quando eu tinha medo de como poderiam tratá-lo caso eu assumisse o que sentia. Não me vitimizo de forma alguma ao dizer que estava apenas protegendo-o do que poderiam fazer com ele se estivéssemos juntos. Certamente a culpa era inteiramente minha por ser um covarde. Fui criado com um pensamento tão arcaico de padrão de beleza que inicialmente, confesso que, não entendia porque eu estava tão atraído por ele, uma vez que ele não se encaixava em nem um daqueles padrões. Confesso a culpa que tive desde o ínicio de recusar o que eu estava sentindo, meu eu anterior ao de hoje em dia era alienado demais a tudo que diziam ser belo, e parecia tão errado ter interesse por quem ninguém apontava beleza. Eu me sentia coagido, preso a aquela ideia de que Jung Hoseok não era a pessoa certa para mim. No entanto, todos os dias desde que o conheci, fizeram-me ter certeza de que o problema não era ele, e sim eu, e as pessoas a minha volta. Jung Hoseok era lindo, pateticamente bonito, com os quilinhos a mais; as bochechas rechonchudas, a barriga saliente, e as coxas fartas. Por um tempo, tempo que julgo até demais, tentei moldar suas características como detestáveis, assim como cresci ouvindo e vendo que tais características não eram apreciáveis. Reneguei, erroneamente, a atração que eu sentia por ele, apenas por ignorância, medo, e arrogância. Não importava o quanto eu quisesse me desprender dos seus traços bonitos e trejeitos despadronizados, apenas para esperar que a pessoa certa, alta, e extremamente magra aparecesse na minha vida. A pessoa certa era ele, exatamente do jeitinho que ele era, com gordurinhas e crises de asma. Inicialmente eu tive vergonha de Jung Hoseok, mas há muito tempo tenho vergonha de mim mesmo, por não me desprender dos padrões, por ser tão arrogante a ponto de renegar um sentimento tão puro e avassalador. Em dado momento me senti sem valor, ele era demais para alguém tão vazio e superficial como eu, ele era tudo, um alguém para se admirar horas e horas, e eu concordava que não era digno de uma lágrima sua, um sorriso seu, ou um xingamento que fosse, eu não era digno de Hoseok por me prender a cultura padrão, e ele merecia alguém melhor que eu por isso. Desta forma, ainda que durante o ensino médio eu estivesse ao seu redor com meu irmão e os amigos dele, eu não me sentia digno de estar ali. Todavia quanto mais tempo eu passava ao seu lado, com todos juntos, mais eu me via preso a aquela pessoa incrível, dita sem valor, quando para mim era o ser humano mais valioso do mundo. Arrisquei-me a tentar uma aproximação, mesmo que um pouco, e quando consegui, ainda sentia toda aquela confusão, ouvindo tudo que ouvi durante a minha vida inteira.


Dos oito até os doze anos eu estava acima do peso, acredito que foram os piores anos da minha vida, a cobrança dos meus pais, o descaso de todos comigo, eu sentia como se não fosse ninguém, e queria ser alguém, ainda que meus pais quase cuspissem em mim, por desgosto de ter um filho gordo, vinte quilos acima do peso dito como ideal. Eu sentia a vergonha que eles tinham de mim; sabia que nada para eles era mais importante do que ter um corpo que diriam ser atraente, e eu era apenas uma criança querendo amor e aceitação dos pais, contudo, enquanto eu lutava, passando dias sem comer e entrando em todos os clubes de jogos esportivos disponíveis - quando me mandaram para um colégio interno quando tinha dez anos -, eu acreditei nas palavras deles, acreditei que não havia beleza em mim;  que minhas mãos gordinhas causavam repulsa, que meu cheiro era forte como de um porco, que minhas bochechas eram nojentas, e as papadas abaixo do meu queixo causavam enjoo, ninguém nunca veria beleza em algo tão repugnante, não é? Eu acreditei em tudo e levei todas aquelas memórias comigo, desprezando qualquer pessoa que me lembrasse o que eu era, porque eu me tornei alguém admirável aos olhos alheios, com corpo esguio e magro, de pernas longas e firmes, braços leves e delgados, barriga lisa e livre das gorduras acumuladas formando dobrinhas. E quando olhava-me no espelho recordando-me do eu do passado, eu acreditava que eles tinham razão, todos tinham razão… Até que Jung Hoseok com uma empurrão para fora de sua caminhonete me fizesse compreender que não só eu estava errado, mas toda aquela escola, todas aquelas pessoas, meus pais e até mesmo Seokjin estavam errados. Não era uma calça 38 que faria Jung Hoseok ser lindo, assim como não era sua calça 44 que o tornaria feio. Ele era lindo, indubitavelmente lindo, não fofo, não apertável, mas… Lindo. E era patético como eu não conseguia dizer isso a ele, como sempre que eu tentava me aproximar acabava causando mais problemas para o que tínhamos. Eu não conseguia exteriorizar meus pensamentos, eu não conseguia confrontar a minha arrogância. De certo modo, todas as vezes que fugi, foi para que ele não se rendesse a mim, porque repito, eu era vazio demais para ele, eu não o merecia, e não merecê-lo significava não permitir que ele se afogasse de sentimentos por mim. Ele era demais, ele era tudo, ele era o mundo, ele era a lua, e eu era apenas um admirador covarde e insípido, com pensamentos tão cravados e intolerantes que tinha medo de contaminá-lo com a minha sujeira interior. Mas, no meio de tudo isso, eu também sentia medo de admitir para ele e trazê-lo para o meu mundo onde as pessoas fossem ainda mais cruéis, que zombassem dele e o atormentassem apenas por estar comigo. Pois, eu sabia que zombariam, eu sabia que não o deixariam em paz.


Mas acredito que tudo que vivemos é um risco, não damos um passo a frente sem nos arriscarmos, não saímos de casa sem riscos, afinal, qualquer coisa pode acontecer quando se coloca os pés para fora de sua redoma. A vida é um risco, e eu alimentei esse pensamento insanamente quando encontrei-o com Jungkook naquele bar, não durante a discussão que ocorreu na expulsão do bar nem mesmo durante o momento em que o segui até o banheiro. Eu alimentei àquele risco quando Hoseok testou-me ao gritar que eu poderia ir a sua casa, eu sabia que era um teste, sabia que ele estava tentando ter a certeza de que eu era um babaca, e o meu risco foi permitir que ele pensasse que sim, eu era um babaca e não valia a pena alimentar sentimento algum por mim. Isso pode soar como uma desistência, mas eu não desisti, eu decidi que faria diferente, que confrontaria a todos os meus medos e mostraria o melhor de mim para ele, ou o melhor dele para si mesmo, embora ele tivesse que pensar sozinho daquela forma. Eu queria que ele tivesse confiança em si mesmo, queria dizer tudo que não ouvi quando tinha onze anos. E, de forma alguma, tive a intenção de magoá-lo a ponto de fazê-lo se sentir mal por ser quem é - ainda que minhas atitudes até o momento só tivessem o feito mal, e admito a minha culpa, assim como carrego-a comigo todas as horas.


“Eu nem deveria estar falando com você.” Namjoon grunhiu em uma resposta ácida.


Sabia que seria difícil convencê-los a me ajudar, mas eu só podia contar com eles.


“Então você deu uma surra no cara porque ele era um idiota com o Hoseok, mas, porque não bate a cabeça na parede então? Você também foi um idiota com o Hoseok.” Yoongi se esparramou na carteira, com um olhar debochado.


Eu respirei fundo e torci o lábio, desviando o olhar por um instante. Eu sentia muito pelo que causei a Hoseok, por minhas atitudes imaturas e cruéis, mas queria que ele soubesse que eu podia ser mais que isso, que eu podia lutar contra tudo por ele, até contra mim mesmo, e estar onde eu estava naquele momento, era fruto de muita luta contra o meu eu de semanas atrás.


“Eu me arrependo de tudo que aconteceu, tudo bem? As coisas não deviam ter acontecido daquela forma, e eu admito que fui um cretino, e não vou tentar convencê-los disso mas…” Respirei fundo. “Eu gosto do Hoseok, quero que ele saiba o quanto é importante pra mim.”


“Você tem uma forma estranha de demonstrar isso. O que aconteceu com sua paixão pelo Park?”


Eu nunca estive apaixonado pelo Park, é ridículo e vergonhoso confessar que eu apenas queria me encaixar como todo cara como eu, interessado em alguém de corpo atlético e ridiculamente popular. Todos diziam que eu devia investir em Park Jimin, e eu cultivava de um complexo lamentável de ouvir tudo que me diziam para ser mais aceito, ser visível. Eu tinha medo de voltar a ser invisível se fizesse o que as outras pessoas ditavam como estranho e fora do que admitiam. Eu tinha medo de voltar a não ser visto. Mas eu compreendi que não era importante, ser notado por todos, uma vez que aquilo magoaria Hoseok. E ele passou a ser a única pessoa que eu queria que me enxergasse, quando eu estava em sua presença, com os olhos presos a mim, eu sabia que não precisava ser visto por mais ninguém, se não ele, apenas ele e seus olhinhos pequenos eram suficientes. Era uma pena ter demorado demais para notar isso.


Em meio a todos esses fatores que me levavam a agir como um idiota, eu compreenderia se Hoseok nunca mais quisesse olhar para mim, meu egoísmo transcendia os limites, e eu não o culparia por terminar o ensino médio me mandando à merda e saindo de mãos dadas com Jeon Jeongguk… Ah, Jeongguk.


“Eu não estava apaixonado pelo Jimin.” Respondi-o, e vi Namjoon rolar os olhos, soltando uma lufada de ar. “Eu sei que foi idiota, e que pode ter machucado Hoseok, por isso estou disposto a dar um tempo a ele.”


“Então o que estamos fazendo aqui?” Yoongi levantou-se da carteira, encarando-me impaciente. “Nos tirou de casa às seis e meia da manhã pra isso?”


“Quero que vocês sejam meus olhos e ouvidos enquanto ele me odeia.”


“Eu não vou fazer isso.” Namjoon abanou as mãos. “Tudo bem, você gosta dele e que bom que não liga pro que te dizem sobre ele mais, mas isso não apaga o que você fez. E eu nem sei toda a história.”


“Eu sei que não apaga, mas eu quero um recomeço entende? Eu quero que ele saiba que não a nada de errado com ele, e que o problema nunca foi ele, foi eu…”


“Então diz a ele.” Yoongi voltou a se sentar bufando.


“Eu vou dizer… Em forma de bilhetes que vocês vão entregar a ele ou colocar nas coisas dele, sejam criativos.”


“Isso é estúpido.”


“Você pediu o Namjoon em namoro por mensagem, estúpido é você.” Apontei, e ele se encolheu, no entanto, sem deixar de me oferecer o dedo do meio. Dedo este que o Kim segurou levemente, abaixando-o.


“Mesmo que ele não te perdoe, fará bem a estima dele receber coisas assim. Eu sei que nossa autoestima não se monta pelas pessoas, que é algo que devemos criar e nos amar. Mas é bom receber elogios, certo? Ele nunca recebe elogios, você deve elogiá-lo, apenas isso, sem dizer seu nome, ou deixar que ele reconheça sua caligrafia. É o primeiro passo para você se redimir.”


“Mas porque ele não pode saber que sou eu?”


“Por que eu só aceito fazer isso focando no fato de que os bilhetes podem lembrá-lo de que ele é bonito e qualquer pessoa pode achar isso. Não estamos falando agora só de você, mas principalmente dele e da estima dele.”


E foi concordando com essa ideia que eu assisti Hoseok ler o primeiro bilhete e correr atrás de Jungkook com a ideia de que podia ser ele, assim como Bonhwa, uma outra fonte da turma dos dois, me contou. Não me frustrava vê-lo correndo para o encontro de Jeon, apesar de tudo que ele havia me feito, com Hoseok as coisas eram diferentes, ele era cuidadoso, carinhoso e não permitia que as pessoas o intimidasse. Minha história com Jeon começou no colégio interno e ele era diferente do que se mostra hoje.


Meus pais estavam cansados de olhar para mim, e decididos da ideia de que eu não cresceria sendo tão rechonchudo. Como eu poderia ser digno do sobrenome Kim se não encontrava roupas do meu número na sessão infantil para que eu pudesse usar? Eles consideravam que eu não seria respeitado por ninguém, e que meu peso e aparência eram vergonhosos demais para que eu ainda estivesse sob o teto Kim. Levaram-me a diversos nutricionistas a procura de dietas perfeitas e respostas para aquele dito problema que carregavam como uma cruz pesada; tiraram-me os mais básicos alimentos, mas quando não obtiveram resultado instantâneo e apenas uma criança gorda desidratada, e de imunidade baixa devido a falta de vitaminas e nutrientes alimentícios o colégio interno militar foi como a válvula de escape para eles. E para mim.


Eu acreditei que eles mereciam mais, que eu nunca seriam tão amado quanto Seokjin se continuasse daquela forma que me fizeram crer ser abominável e asquerosa. De repente era assim que eu me via, e era assim que Jungkook fazia com que eu me visse durante o tempo em que estudamos naquele colégio. Ele era filho do diretor; extremamente magro e de corpo adorável para uma criança de nossa idade, mas absurdamente cruel também. Não sei porque adquiri seu favoritismo, mas todos os dias letivos e não letivos naquele colégio, Jungkook me lembrava o quão repugnante eu era. Eu não o odiava, eu me odiava, eu me detestava, e construí barreiras contra suas investidas, mas estas sempre eram facilmente destruídas e estilhaçadas. E em meio a todos os treinamentos rígidos daquela instituição, em três anos eu poderia ser lido como normal perante a sociedade; ou até mesmo atraente. E durante esse período, antes que o ano terminasse; Jungkook sentia-se ameaçado por mim, pelo que me tornei, por ser um encaixe tão perfeito naquele padrão que ele ficava para trás.


Foi aí que iniciou-se as competições, as desavenças, a minha vontade insana de superá-lo ainda que fosse incapaz pois o menino gordinho dentro de mim ainda era levemente intimidado pelas lembranças dele puxando minhas calças no meio do corredor ou molhando minha cama e dizendo a todos que eu era um porco que urinava na cama ainda. Admito que meus dedos tremeram numa ansiedade agoniante a primeira vez que o encontrei com Hoseok, mas eu não tive coragem de dizer a Jung o porquê dele ser uma ameaça, o porquê dele não ser confiável. Não tive coragem de confessar meu medo disfarçado por ódio de um Jeon Jeongguk tirano, pelo menos; era assim que eu o enxergava.


Mas foi quando Hoseok me encheu de pudim de chocolate e logo após eu confrontei Jeon, que eu soube que seres humanos poderiam evoluir. Seus pedidos desculpas me atormentaram por noites seguidas; e eu não podia perdoar alguém se não conseguia perdoar a mim mesmo. Tudo que vivi naquele colégio, e com os meus pais, fizeram com que eu detestasse quem me tornei; e a visão que eu possuía do mundo ao meu redor. E ainda que Jeon confessasse que havia compreendido que o que fazia era cruel, eu não evoluía em pensar que o que eu deixava as pessoas fazerem com Hoseok era tão cruel quanto. Eu não podia mudar a cabeça de todos, mas eu podia aprender como Jungkook a evoluir; e acredito que ser enxotado daquela caminhonete serviu da melhor maneira para que eu começasse minha evolução.


Eu via em Hoseok o meu passado, e eu não considerava o meu passado bonito; mas no fim, eu era tão bonito quanto Hoseok e merecia tanto amor quanto poderia dar a Hoseok. Eu não queria que Hoseok fraquejasse como eu e deixasse sua essência para viver em sociedade e ser tratado como alguém existente. Porque ele merecia isso sem precisar de esforço, dietas ou exercícios.


[...]


Deixei que as semanas passassem sem interromper no cotidiano de Hoseok, sem ousar entrar em seu caminho ou fê-lo ter vista de mim. Acredito que tenha sido a pior coisa que fiz, porque a única pessoa que eu queria que me enxergasse; não me enxergava mais. Atrelado e acorrentado a uma melancolia obstinada e abusiva eu apenas alimentava-me das reações que meus bilhetes causavam toda vez que ele os encontrava pela manhã em seu armário, de longe eu via sua expressão taciturna tornar-se tímida e cordialmente alegre, ele guardava o bilhete no bolso da calça e em seguida sumia do meu campo de visão, literalmente, eu não o encontrava mais pelos corredores da escola.


Tentei o meu máximo para evitar o cotidiano absurdamente cruel em que ele vivia, era ridículo como por eu ser Kim Taehyung, as vezes eu apenas pedia com um meio sorriso para que o deixassem em paz; e certas pessoas deixavam. No entanto, algumas vezes minha aparência não era significativa, e apesar de não sair com nada quebrado de uma briga, os danos eram visíveis e as pessoas em questão, acabavam descontando minha tentativa de pará-los em Hoseok. Como se fosse quase um crime hediondo tentar impedi-los de fazer o meu doce menino de chacota.


Nesses momentos eu notava que não era nem um herói, que não podia bancar um, mas que deveria estar ao lado dele mostrando apoio, fazendo-o esquecer das tempestades diárias com beijinhos e abraços que mostravam o quão importante ele era. Compreendi que a questão não era defendê-lo a pulso, era estar ao seu lado, mostrando-o que eu não era como os outros, que eu gostava dele por quem ele era; por como ele era, e por toda construção de seu corpo também.

Com a chegada do verão, uma nevasca impetuosa pendurou-se sobre meu peito, Namjoon me contava os programas entre amigos que fazia com Hoseok e eu me imaginava junto a eles, apesar de não sair de casa porque sentia-me doente demais. Com o passar do tempo ele me contou que Hoseok estava mudando, que sua amizade com Jungkook o fazia bem, e os bilhetes que ele recebeu até o início das férias também. Hoseok andava sorrindo mais, mostrando mais aqueles dentes adoravelmente metálicos dando-lhe uma essência infantil e fofa, assim como mostrava mais confiança em si mesmo. Em algum momento senti inveja de Jeon, pois queria estar em seu lugar; independentemente do relacionamento que tinham. Eu apenas queria estar no lugar de Jeongguk, fazendo bem a aquele quem esfriava meu coração pela distância e indiferença.


Claro que foi eu quem decidi fugir, dá-lo um tempo para pensar e acalmar o ódio que sentia por mim, mas ainda assim; não seria errado querer que ele perguntasse por mim a Namjoon ou Yoongi, e isso, de fato, nunca aconteceu. Ele estava tão confortável longe da minha presença que todos os dias eu adiava o momento de confrontá-lo com a verdade e os meus sentimentos sinceros e puros por ele. Eu não queria incomodá-lo ou atordoá-lo novamente; não quando ele parecia progredir.


Quando o conheci ele mal conseguia falar; quando eu me apaixonei ele estava sempre ao alcance da sua bombinha de asma, Namjoon dizia que suas crises de asma derivam-se de seu nervosismo, ansiedade e insegurança enquanto a alguém ou algo. E eu causava tudo isso nele. Seria demais deixá-lo sem ar pela euforia de um beijo? Era tudo que eu mais desejava, beijá-lo. Acalentá-lo em meus braços e transmitir todo meu amor no calor que emanava de mim para ele. Mas aqueles desejos estavam tão distantes de ocorrer, Jung Hoseok estava melhor sem mim.



[...]


Apesar da minha vida emocional ter parado, e meu coração já não ter outra função além de bombear sangue, eu precisava viver. Não viver aquela vida onde todos me tratavam como um maldito rei idiota, mas uma vida minha, só minha, onde eu poderia fazer o que eu quisesse sem que as pessoas acabassem por me repreender. Não que trabalhar em uma loja de doces no shopping tenha sido a coisa mais radical que já fiz, mas eu aproveitava aquele verão para trabalhar, nove horas, cinco vezes na semana naquela lojinha adorável, que me cheirava a infância. A doces e chocolates que eu escondia debaixo do colchão, a balas que eu guardava no fundinho da gaveta, e que de vez em quando eu levava para casa apenas para me recordar disso, daquela sensação satisfatória de saborear uma barra de chocolate escondido, ou balas açucaradas longe dos olhos de mamãe. Mas, não seria surpreendente que ao ser pego com algo assim eu fosse obrigado a jogar fora. Na semana anterior, mamãe jogou no lixo um saco de balas que eu guardava na cômoda do quarto, gritando que aquilo me faria voltar a ser um - em suas palavras -: gordo nojento, um maldito porco asqueroso. Chegou a questionar se era realmente isso que eu queria, mas ela não queria saber da resposta, porque o que importava era que eu não devia voltar a deixá-la com os cabelos alvoroçados por ser acima do peso novamente.  


Apesar disso eu continuava burlando as dietas que mantive a mais de anos enquanto trabalhava na loja, assim como optava por ter meu horário de almoço em algum fast food, que não, não era aquele o qual Hoseok trabalhava, eu tomava muito cuidado para não ser notado. Acredito que me permitir como naquelas férias foi incrível, ainda que eu fizesse pouco, eu já não me matava para ser dito como perfeito. Facilmente ganhei uma barriguinha mole, e talvez dois quilos naquele período. Eu não mais parecia um modelo prestes a entrar na passarela; sentia-me tão normal e livre de pesos que era obrigado a carregar que minhas costas estalavam de alívio. Eu estava tão livre da alienação social de corpo perfeito, quanto Hoseok estava livre de seu amor por mim. Uma prova concreta desse fato, ocorreu em um domingo a tarde, Hoseok entrou na loja, escolheu os doces sem nem mesmo olhar para mim, o único balconista no local. Ele estava sozinho, e sem uniforme de onde trabalhava, então deduzi que estivesse apenas a passeio. Queria conseguir guardar a quentura que me assolou no peito, mas acabou indo para as bochechas, e boca comprimindo-se num meio sorriso quando ele deixou os doces escolhidos no balcão e finalmente seus olhos encontraram os meus. Aqueles olhinhos pequenos escondidos atrás de óculos redondos, eram lindos, em conjunto a sua pele oleosa que dava vida a algumas espinhas avermelhadas pelo seu rostinho, a boca inchadinha e mal fechada por conta do aparelho dental, os cabelos de cor caramelo em leves ondas me enlouqueciam de vontade de afundar os dedos alí e acarinhá-lo. Seu corpo pequeno e robusto me agradava tanto que perdi a conta das vezes em que me toquei naquelas férias lembrando das vezes em que estivemos tão perto. Ah, se ele soubesse, de certo modo ficaria horrorizado, teria a pele rubra e me chamaria de imbecil, e talvez eu fosse um imbecil.


“O que está olhando? Acha que quero mais alguma coisa? Não parece suficiente para uma baleia como eu?” Sua atitude arrogante e defensiva fez-me voltar a realidade, e desviar o olhar.


“Eu só estava reparando no quão bonito você é.” Eu não deveria falar naquele momento, talvez eu só devesse deixá-lo seguir em frente, mas algo me impediu de permitir que ele saísse daquela loja realmente considerando que eu podia pensar daquela forma.


Como eu não o olhava e apenas calculava o preço e em seguida levava as guloseimas para a embalagem rosa de papel, eu não visualizei sua reação, mas talvez seu silêncio pudesse ser algo.


Dado tudo pronto eu finalmente o olhei enquanto o entregava a pequena sacola.


“Ainda não cansou de brincar comigo.” Vi-o respirar fundo. “Eu não sou mais aquele garoto idiota que se derretia toda vez que você fazia um elogio só por estarmos sozinhos Taehyung, eu deveria ter vergonha de ser visto com alguém como você e não do contrário.”


Mordisquei a parte interna da boca sem saber como conter a vontade de beijá-lo, antes de dizer que ele tinha razão. Ele estava certo. Ele deveria se envergonhar por estar comigo, por ser visto com alguém tão vazio enquanto ele transbordava força e personalidade inquebrável anti a padrões sociais e bullying. Naquele momento passei a admirá-lo, e amá-lo mais um pouco. Eu realmente senti vontade de beijá-lo, ainda que isso me rendesse problemas futuramente tanto com ele quanto com meu supervisor.


De repente, Song Mina uma das garotas que sempre esteve no meu ciclo social padrão e popular entrou na loja a reboque de mais dois rostos conhecidos. Infelizmente elas vieram diretamente para o balcão onde eu estava quase empurrando Hoseok para estarem a minha vista. E eu não percebi que aquele era o momento certo de eu começar a mostrar a Hoseok que as coisas haviam mudado, assim como Jungkook não era mais a mesma criança, eu não era mais o mesmo babaca.


“Taehyung, que bom que está trabalhando aqui, porque não responde nossas ligações? Estávamos planejando uma viagem pra Jeju esse final de semana.” Song acomodou os cotovelos no balcão, numa tentativa de dar vista aos seus seios presos em um decote. Ela ainda não aceitava minha homossexualidade.


“Eu estou trabalhando e atendendo um cliente agora, Mina!” Arranquei coragem de onde ao menos sabia que existia para cortá-la, quando vi Hoseok olhar para mim sem esperança, realmente ele acreditava que eu nunca mudaria. “Você passou a frente dele, espere que eu o atenda, por favor.” Pedi.


“Mas é só o porco do Hoseok. Ele pode esperar.” Mina revidou olhando para o Jung com repulsa, e eu respirei fundo.


“Se o assunto que tem comigo é sobre essa viagem; a resposta é não.” Informei rápido. “E se não percebeu eu não respondo suas mensagens porque eu não quero, meu celular está muito bem, recebendo todas a mensagens e ligações suas e dos outros. Em terceiro lugar, se ofender esse cliente outra vez eu serei obrigado a chamar o segurança do shopping e dizer que você está incomodando.”


“O que foi? Agora você vai tratar a gente assim por causa desse nojento? Já sentiu o cheiro dele? Ele fede a gordura.”


Eu olhei para Hoseok e vi-o vacilar, aquele olhar indiferente morreu e eu não queria que acontecesse. Desejava imensamente que ele me olhasse com superioridade a olhar para mim como se estivesse afetado pelas palavras de Mina. E era isso que eu temia antes de tudo acontecer, que os ataques indiretos se tornassem diretos por ele estar comigo.


“Não vou repetir que vou chamar o segurança, Mina!”


“Mas…”


“Chega, eu já disse, se não vai comprar sai da loja agora!”  


Confesso que quando aquelas três saíram eu não esperava um Hoseok sorridente considerando-me o herói do ano por fazer o que qualquer outro ser humano de bom caráter faria. Mas eu também não esperava que Hoseok fosse jogar o dinheiro em cima do balcão e com grosseria caminhasse para fora da loja carregando seus doces sem ao menos olhar para mim enquanto dizia:


“Você é um imbecil, Taehyung!”


Okay, talvez eu tenha feito algo errado, eu sempre fazia tudo errado mesmo, no entanto, até aquele momento eu realmente considerei ter acertado e tido uma boa atitude. Acho que devo rever os conceitos de boas atitudes a partir de agora.



[...]



Naquele mesmo dia eu vi Hoseok passar em frente a loja, algumas horas depois, dessa vez uniformizado com aquela camisa cinza e calça blue jeans de onde trabalhava e acompanhado por Jeon Jeongguk. Uma amargura latente configurou meu sistema emocional, assim instalando-se como um virús que me desanimou o restante do dia. Não que eu andasse animado naquelas férias, conquanto era mais que o meu desânimo normal. Além de não fazer nada certo eu continuava empurrando Hoseok para os braços acolhedores de Jeon Jeongguk. E naquele momento notei que Hoseok queria que eu soubesse disso, que ele estava na companhia de Jeon, com um sorriso brilhante aparelhado e uma aura leve. Cheguei a essa conclusão quando desde que iniciei meu trabalho na loja Hoseok nunca passou por ela; havia outra forma de chegar ao seu trabalho, deste modo, questiono-me se sua vinda até aqui também não tenha sido para me provar algo, uma vez que havia uma diversidade de lojas semelhantes à minha naquele imenso shopping, e ele me evitou tempo suficiente para nunca passar ao menos em frente a este lugar até hoje. Não sei se ele apenas queria me mostrar que havia me superado, ou, se fora apenas para me ver e eu estraguei tudo.


Considerar a segunda alternativa era dissimulado demais até para mim, que andava delirando de saudade, de vontade dele. Então, de modo cético, devo infelizmente aceitar o argumento de que sua vinda tenha sido para mostrar sua superação. Que talvez, eu já não fizesse mais parte de seus pensamentos.


Concluir esse fato deixou-me ainda mais para baixo, mas eu não podia fazer muito, se não aceitar que ele havia me superado. Me superar talvez signifique até mesmo curar-se de uma virose para ele, já que eu era tão nocivo quando estava presente, quando tínhamos aquela sutil intimidade. Se a intenção dele é de certo modo ter uma vingança e me machucar um terço do que eu o machuquei, eu aceito, sem reclamar, assim como já carrego o fardo da culpa que me corrói todos os dias, e do arrependimento que me deixou inválido.


Por volta das oito da noite troquei de turno com Akane, a minha colega de trabalho estrangeira, ela não era nem um pouco gentil e geralmente não sorria muito e até mesmo assustava os clientes com sua falta de paciência, mas a loja era de algum parente seu, então ela sempre teria sua vaga garantida, não importava o quão desagradável fosse.


A troca de turno foi rápida, e eu caminhei para casa. Recordei-me nostalgicamente do meu falso emprego, das vezes em que passei a tarde no shoppinhg só para estar com Hoseok, admirá-lo de longe, estar em sua caminhonete a qual ele carinhosamente chamava de Suzy e tinha cheiro pinho, do fato dele sempre ouvir a mesma estação de rádio a qual tocava músicas antigas, românticas e melancólicas, no entanto algumas raras vezes tocavam atuais e eu podia contemplá-lo ao som de um cantor R&B chamado Dean, Hoseok gostava especificamente da música D(Half Moon), e sempre que ela tocava, eu ouvia sua voz bem baixinho cantarolando, contendo o tom com tamanha vergonha porque sabia que eu estava ao seu lado, mas se não estivesse talvez ele estaria estourando os pulmões cantando-a com tamanha vontade. Eu nunca pensei que veria-me protagonizando a letra daquela música que ele cantarolava tão baixinho, que eu me sentiria exatamente daquela forma longe dele, sem a rotina em que passávamos tanto tempo juntos, sem aqueles pequenos momentos em que eu o apreciava de longe, ou bem de perto, ouvindo sua voz em sussurros.


“Ei… Ei! Por acaso é cego?” Questionou-me Yoongi, após um esbarrão e tanto que demos quando eu já estava na rua, na esquina do shopping. Eu estava tão distraído, como se estivesse ouvindo a voz de Hoseok cantarolando baixinho o quanto eu me sentia vazio naquele momento que não me surpreenderia acabar esbarrando em alguém. “Ah, é você.”


“É bom te ver também, Yoongi.” Forcei um sorriso cheio de cinismo em contrapartida ao seu descaso.


“Você quase me fez cair com a merda do meu violão, se algo acontecesse eu iria te…”


“Vamos poupar as ofensas, me desculpe, tá legal?” Afundei as mãos no bolso da minha jaqueta e como o bom esquentadinho que ele era, continuou emburrado, mas não seguiu seu caminho apenas encarou-me silencioso por um tempo, digamos, constrangedor.


“Você sempre vem trabalhar com essa cara de quem está faltando um órgão aí dentro?” Questionou quando eu estava prestes a dar boa noite e seguir meu caminho, Yoongi era tão estranho, no entanto, sua sinceridade era bem vinda a maioria das vezes. De vez em quando, ele era aquele sacolejar tão estimado da música snap out of it de Arctic Monkeys, a banda que às vezes ele fazia cover. Apesar do estilo que carregassem fosse punk, era comum que arriscassem covers de estilos alternativos indo do rock clássico ao indie.


“Estou tão acabado assim?” Ri sem humor.

“Parece que te falta mais que um orgão, por acaso esse trabalho suga sua alma ou é Hoseok que está fazendo isso?”


“Nunca achei que você fosse do tipo de fazer perguntas óbvias.” Suspirei. “Hoje eu o irritei quando tentei fazer algo por ele, e parece que as coisas com Jeon estão mais íntimas do que eu pensava.” Enquanto eu falava não tinha coragem de olhá-lo nos olhos, então tinha a opção de abaixar a cabeça e esfregar a sola do tênis no chão.


“Quem diria, você o fazia de motorista e agora parece mais vazio que o pote de biscoitos da mãe do Namjoon depois que saio da casa dele.”  Ele me socou o ombro amigavelmente.


“Eu não o fazia de moto…” Respirei fundo, não iria ficar me explicando, talvez nem mesmo fizesse sentido se eu contasse que usava as caronas como uma forma de álibi pra me aproximar do Jung. “Quer saber Yoongi, hoje foi um dia cansativo e eu só quero ir pra casa então nos vemos depois.”


“Espera.” Ele segurou-me o pulso quando tentei atravessar a rua, puxando-me rudemente de volta para o meu lugar anterior. Eu estava começando a perder a paciência. “Eu não queria fazer isso mas, aparece lá no bar hoje. É sábado, você tá precisando fazer alguma coisa cara. Nem com seu irmão você passa o tempo mais.”


Encarei-o pensativo. Fazia muito tempo que eu não saía de casa, realmente as férias logo tomariam um fim e eu ao menos estive em algum clube aproveitando o calor em uma piscina gelada ou perdendo a cabeça com bebida destilada em bares como costumava fazer anteriormente. De repente aqueles programas pareciam sem graça, meu interesse era tão pequeno em atividades adolescentes de verão que o máximo que eu fazia além do trabalho era caminhar pelo meu bairro porque as flores dos jardins da vizinhança eram sempre bonitas naquela época. A noite eu costumava apenas ir a loja de conveniência mais próxima para comprar algo gelado que ajudasse a suportar o calor abafado e pra respirar um pouco longe do quarto. O que eu mais costumava fazer era aguardar a volta das aulas, era a única coisa interessante nos últimos tempos. Escrevi tantos bilhetes que talvez Hoseok se cansasse deles em algum momento, mas eu estava ansioso para entregá-los, um por um.


“Vamos Taehyung, beba um pouco, talvez o que esteja te faltando seja um porre.” Ele incentivou-me mais, e eu continuei ponderando, embora considerasse a ideia ruim. “Eu preciso ir agora, hm? Mas vou ficar te esperando no Bloody Mary, fracassado.” Ele voltou a me socar o ombro, em seguida correndo na direção oposta a minha.


Eu não tinha o mínimo interesse em ir, sabia que aquele era o lugar onde mais haviam estudantes, e principalmente aqueles que insistiam em me procurar e estar ao meu redor. E eu só queria evitar, nada de bom poderia me render indo ao Bloody Mary em um sábado a noite de verão.


[...]


Volto a repetir que todos os dias nos arriscamos saindo de nossa redoma, e eu, estava me arriscando ao me render a insistência de Min Yoongi que não deixou de me mandar mensagens até que eu dissesse que sim iria, e que estava a caminho. Meus planos não eram beber, não eram ter um porre a ponto de não conseguir lembrar meu nome e que meu coração estava com o vírus da amargura deteriorando-o desde aquela tarde. Meus planos também não eram encontrar Jung Hoseok naquele lugar, especificamente no cantinho do palco pequeno do bar, junto a Namjoon, e foi então que eu me dei conta de que Yoongi era um babaca. Quando nos encontramos ele estava indo para o shopping encontrar Hoseok, porque Hoseok quem levava os instrumentos da banda em suzy quando ele tocava em algum lugar. Sinceramente desejei dar meia volta quando o vi ali, escondidinho, observando Yoongi com admiração enquanto a banda dele tocava uma de suas músicas originais e agitadas, irritantes também, devo dizer. Mas eu não consegui me desprender da sua imagem, assim como também não consegui ser invisível aos olhos daqueles quem mais evitei ao ficar parado ali como um tolo olhando para Hoseok.


Logo, sem controle da minha própria vida eu estava em meio a um grupo de pessoas que passei a desprezar, recebendo uma garrafa de cerveja e ouvindo ladainha, papo furado de que estavam preocupados com o meu isolamento, quando, ninguém havia se disposto a ir a minha casa me procurar. Aquele grupo me causava desconforto, principalmente porque eu me sentia coagido a olhar para todo lugar, menos para onde Hoseok se encontrava. Não era por vergonha, era por medo, medo de que me questionassem o porquê de eu olhar e acabarem por chamá-lo até aqui ou ir até ele para humilhá-lo. Acredito que, agora, se me perguntassem sem riscos de ocorrer algo contra Hoseok, eu diria que estava apenas admirando, porque estava preso no meio de cinco imbecís bêbados que não me permitiam levantar daquela mesa. Mas se eu fizesse algo assim, teria problemas.


Não fingi sorrisos, não fingi a simpatia que era sempre obrigado a fingir, não montei a minha face de cara mais bacana de todos e apenas fiquei ali, pensando se me levantava e ía embora mesmo com a insistência para que eu ficasse ou se mandava mensagem para Yoongi alegando que ele era um idiota. Nessas opções claramente não estava incluso ver Jeon Jeongguk passar perto a nossa mesa e minutos depois, voltar junto a Hoseok. Somente naquele momento, de nonos segundos, eu pude olhar para Hoseok, nossos olhos se encontravam, nos dele refletia desprezo, nos meus angústia e tristeza.


Depois que ele passou não aguentei muito tempo, tomei o último gole da minha cerveja e me levantei dando a desculpa que de que precisava muito urinar. Não sabia se estava indo atrás de Hoseok ao sair do bar, ou se estava fugindo para casa, eu simplesmente não conseguia mais ficar ali. Não quando aquelas pessoas me incomodavam e a ideia de Hoseok indo para não sei onde com Jeongguk também. Mas ainda que eu quisesse apenas ir para casa, a vontade de falar com Hoseok também era imensa. O vi nos braços de Jeon, do outro lado da rua, encostado no capô de Suzy, recordando-me da última vez que nós três estivemos em uma situação parecida onde eu queimava em ciúmes e também só queria conseguir usar bem as palavras para me explicar e explicar como eu me sentia, mas ele não compreendia.


Haviam algumas pessoas que me conheciam em frente ao bar, na verdade parecia que boa parte da escola estava ali, então não foi surpreendente para mim ouvir alguém soltar um comentário ofensivo sobre Jeon e Jung estarem juntos ali. Ouvi também algo como “nojento”, e mordi a língua para não refutar. Essas mesmas pessoas me cumprimentaram, gritando meu nome com animação, mas eu ao menos os olhei, somente caminhei, em foco e silêncio em direção a aqueles dois - que, graças a deus se afastaram e ficaram uma distância aceitável quando eu os alcancei.


“Hoseok… Podemos conversar um minuto?”


“Não.” Respondeu, com tamanha secura.


“Não vou tirar muito do seu tempo, você já vai poder voltar a se agarrar com esse idiota.” A amargura dominou-me por um todo, e ao soltar aquilo eu sooei patético por alguma razão, pois Jeon soltou uma risada desacreditada e quase debochada. Desejei perguntar qual era a graça; e quase avancei em sua direção, mas eu realmente não estava com cabeça para criar confusão com Jungkook; não quando eu sabia que iria perder.


“Eu já disse que não.” Hoseok se afastou. “Além de que seus amigos estão te esperando”


“Eles não são meus amigos, Hoseok. Por fa…”


“Hey Taehyung, derruba esse botijão de gás e vê se ele sai rolando ladeira a baixo.”


“Acho que se derrubar ele não consegue levantar, é como uma vaca.”


“Ou um porco.”


Hoseok outra vez, que tinha uma expressão superior a minha desabou gradativamente diante daqueles comentários, e jamais direi que a coragem que tive de dar meia volta e quase os alcançar como um touro enraivecido foi por culpa da única garrafa de cerveja que ingeri, embora eu fosse bastante fraco para bebida. Eu estava consciente no momento em que segurei um deles pela gola e disse para rever o modo como tratava Jung Hoseok, assim como estava em um juízo perfeito, porém enraivecido, quando comecei a gritar o quanto aquela gente era idiota e mesquinha. Meus pulmões arderam quando eu permiti-me dizer a eles o quão estúpidos eram e o quanto eu queria socar cada um deles, minhas mãos tremularam numa raiva e num alívio libertador quando eu empurrei um deles e exigi que ele repetisse o que disse embora ele não tivesse coragem. Claro que chamei atenção daquele tanto de gente que estava fora do bar; além de talvez ter chamado a atenção de quem estava dentro; pois notei mais pessoas aparecendo. Alguns perguntando qual era o meu problema, e se eu estava sob efeito de entorpecentes, outros enraivecidos por ouvir a verdade e incentivando que me dessem uma surra, já que eu era apenas um naquele meio e seria fácil me calar. Seria fácil me socar até que eu perdesse a consciência; e sinceramente, foi, pois não me lembro exatamente o que aconteceu depois que eu soquei a cara de um daqueles que chamava de amigo e cuspi em Yoonsuk, o qual insistia em chamar Hoseok de porco e que deveria ser tratado como um sem que eu tivesse pena e interferisse. Acredito que enfrentar tantas pessoas em um único momento não foi a coisa mais inteligente que eu fiz nos últimos anos, mas eu não enfrentei apenas por Hoseok, eu enfrentei por mim também, naquele momento eu me senti com a frustração que sentia aos oito anos e só queria explodir, e comigo levar os outros que me coagiram, me ofendiam e me intimidavam. Sim, eu fui um idiota, um idiota que na volta às aulas sentaria sozinho como um fracassado, e diria adeus a aquela popularidade; sem holofotes sobre mim, eu seria apenas Kim Taehyung, o idiota que levou uma surra por enfrentar um terço da escola por um garoto que talvez não tenha nem presenciado e eu esperava que ele tivesse partido com Jeon antes de me ver perder a consciência em uma briga como aquela.


Apesar de tudo, de levar uma boa surra, de não conseguir me levantar depois e de ousar em níveis que jamais pensaria, não havia uma gota de arrependimento em mim. Eu estava livre, assim como Hoseok parecia estar livre dos sentimentos que tinha por mim.



[...]


Quando recobrei minha consciência sentia meu corpo queimar em partes específicas, como boca, nariz, olho esquerdo, estômago, canela direita e algumas partes do peito. Não estava em meu quarto, e ainda bem que também não era um hospital. Talvez tivessem pegado leve comigo, eu achei que acabaria com alguma parte do corpo quebrada. Dei-me conta de que a cama com um acolchoado fofo era de Namjoon, ao perceber o cheirinho de lavanda do lugar e ouvir uma voz doce e feminina; era a voz da senhora Kim. Tentei me sentar, mas contive-me pela dor intensa nas costelas que pareceram despertar junto com a minha consciência. Voltei e me esticar no colchão e resolvi abrir os olhos antes de voltar a pensar em levantar. A luz que adentrava o quarto por dentre as frestas das cortinas amarelas era parca, suave e delicada, dando uma iluminação parcial no quarto, então deduzi que fosse seis ou sete da manhã. Fechei os olhos notando que até minhas mãos doíam, os nós dos meus dedos, talvez eu deva ter dado alguns murros bem dados. Lembro-me de fazê-lo, na verdade. Não era intenção ser agressivo com ninguém; mas eu estava cercado e em desvantagem, tinha de me defender de alguma forma.


Deixei de ouvir a voz doce e feminina perto do quarto, e em seguida, ouvi a porta rangendo ao se abrir. Respirei fundo, e acomodei-me um pouco mais no travesseiro, olhando para um Kim Namjoon que se aproximava com um copo com água e uma cartela de comprimidos.


“Analgésico.” Ele me disse ao me entregar ambos e se sentar na cadeira perto da cama, acredito que ele tenha me observado durante a noite pois aquela cadeira não costumava ficar ali. Tomei um dos analgésicos com água e entreguei o copo a ele, ficando com a cartela de comprimidos porque eu iria precisar pelo restante da semana. Por um tempo ele apenas me observou, não do jeito que Yoongi fazia, mas simplesmente observou, examinando-me talvez como se buscasse uma resposta nos meus ferimentos ou da minha própria boca, e eu sinceramente não tinha o que dizer.  


“Sinto muito pelo que aconteceu.” Ele disse quando eu não ousei me pronunciar. “Eles não fizeram muito depois que você apagou, porque os seguranças interviram. Eles iriam dar queixa de você, porque disseram que você começou todo o tumulto, custou metade do dinheiro que banda do Yoongi iria receber pra que o dono do bar não desse queixa.”


“Eu devolvo o dinheiro a ele quando conseguir chegar em casa.” Murmurei, sentindo-me culpado. Mas nada parecia importante ou fazer sentido quando até aquele momento, Hoseok não havia sido mencionado.


“A questão é que… Você não deveria ter feito isso.”


“Eu perdi a cabeça.” Fechei os olhos, estalando meu pescoço, implorando mentalmente para que o remédio fizesse efeito logo. “Eles estavam me tratando como cumplíce, como se eu também fosse como eles.”


“O silêncio te torna cumplíce, a imparcialidade diante a situações como essas geralmente te torna culpado também.” Contou.


“Eu… Eu estou tentando mudar isso.”


“Agora você mudou.”


“O que quer dizer com isso?” Questionei quando ele se levantou, suspirando.


“Só não sei se você vai conseguir voltar a ficar do lado mais fraco da corda a partir de agora, Taehyung.”


Namjoon nunca me soou tão esquisito e sábio, e eu de fato entendia o que ele queria dizer; e mesmo sem respondê-lo em voz alta, a resposta era sim. Eu estava,há mais tempo do que imaginava.


“Durma um pouco, o remédio já vai fazer efeito.”


“Não! Eu vou pra casa.” Dessa vez consegui me sentar, com os pés no chão gelado do local senti falta dos meus sapatos, assim como também notei que não vestia as minhas roupas as quais fui para o bar, mas sim um pijama de ursinhos. Era de Namjoon e aquilo era esquisito demais, não por ser muito infantil; mas pelo fato de que ele provavelmente tirou minhas roupas e me vestiu com as suas roupas. “Que merda…” Resmunguei ainda olhando para o pijama colorido.


“Eu já avisei pra sua mãe que você vai chegar mais tarde, relaxa.”


E então ele saiu, deixando-me sozinho, e aliviado para não ter que perguntar porque ele tirou minhas roupas. Que o assunto termine antes que comece, espero nunca entrarmos em detalhe sobre essa noite, assim como espero conseguir dormir sem parar de me questionar o que aconteceu com Hoseok durante todo o estardalhaço.


Fiquei pouco tempo na casa de Namjoon, saí de lá ainda pela manhã, usando suas roupas porque segundo ele, as minhas estavam sujas demais para que eu as usasse e logo me devolveria. Agradeci sua empatia por mim, e me desculpei pelo transtorno, recebendo respostas esquisitas. O que não era de todo incomum. A minha intenção nunca foi fazer um grande show, onde eu apontava o dedo para todos explorava a minha raiva pelos comentários absurdos. Mas, acredito que estava no meu limite, de repente era como se eu estivesse na cena de um anime, onde o protagonista alcança o ápice da angústia e simplesmente faz um discurso que desperta até mesmo pena de algumas pessoas, onde tudo está perto do fim, ou perto de alguma mudança. A única diferença num todo, era; eu não estava em um universo de animação japonesa. Minha vida não estava sendo redigida em um estúdio em Tóquio, e fazer o que fiz, era apenas estúpido. Reforço o pensamento de que eu não mudaria ninguém, apenas deveria mostrar a Hoseok que estava ao lado dele. E era o melhor a se fazer. No entanto tomar atitudes imaturas e imprudentes percebe-se ser algo cravado a minha personalidade, então, não posso dizer que não faria novamente, pois eu faria.


Reflexões sobre a noite anterior a parte, ao chegar em casa naquela manhã não encontrei minha mãe, e quando averiguei meu celular também não havia mensagens; de fato Namjoon havia feito um bom trabalho e ela não demonstrou preocupação com meu desaparecimento. Ao me desfazer das roupas de Namjoon a procura de um banho não fiquei muito tempo diante ao espelho, o que refletia no espelho estava longe do que diziam ser bonito. Não estava tão machucado, mas haviam mais hematomas do que eu achava que iria encontrar, não só pelo meu corpo, mas rosto também.


Suspiros rasgaram meus pulmões durante o banho, assim como durante o restante daquelas férias. Os ferimentos desapareceram em poucas semanas, logo como Hoseok também. Não perguntei mais a Namjoon sobre ele, talvez eu devesse entender que nós não fomos feitos um para o outro, por mais clichê que isso soe. Em algum momento produzimos sentimentos um pelo outro ao mesmo tempo, juntos, formando uma reciprocidade indiscutível, embora sutil. Mas agora, acredito que a reprodução é semeada apenas por mim, e nada funciona quando apenas um lado trabalha. Desisti um pouco de tentar contatá-lo, uma vez que há muito tempo eu havia sido bloqueado nas redes sociais e ele simplesmente não atendia minhas ligações também. Depois da festa foi a última vez que tentei entrar em contato, mandei uma mensagem de texto, apenas questionando se ele estava bem. Como não enviei por nem um aplicativo ou conta, eu não soube se ele visualizou a mensagem, mas ele não me respondeu, o que não me tirou a esperança por pelo menos uma semana e meia. Depois desse tempo, concluí que ele não me responderia e que se ele não estivesse bem, Namjoon me diria ainda que eu não perguntasse.


Chegando ao assunto redes sociais, surpreendi-me por não ter sido excluído por todos que me seguiam ou eram meus contatos nelas. Na realidade, cheguei a ver alguns comentários sobre o ocorrido no twitter, mas não era nada que me surpreendesse. Pessoas me considerando um idiota, ou me denominando hipócrita, até mesmo Park Jimin apareceu, mas para a minha surpresa, ele não estava me xingando, sua postagem era como uma exposição implícita, quando, em suas palavras, ele não acreditava que eu o usei para fazer ciúmes ou coisa parecida no meu motorista, e que ele sabia que era estranho aquele papo de pagamento para fazer coisas para mim.


Park Jimin expôs meus sentimentos por Jung Hoseok para toda escola, ainda que de forma errônea e sem ao menos perceber. Apesar de exposto, apenas Hoseok não devia ter visto aquela postagem. Não acredito que ele perca seu tempo vendo coisas relacionadas a mim. E nem devia também, não o julgo se ele desprezar até mesmo ouvir meu nome em alguma conversa, considerar-me perda de tempo.


Com o passar do tempo o assunto dissipou-se e ninguém tinha mais interesse em saber sobre aquele sábado, ou, em me mandar mensagens ofensivas. Assim como aqueles os quais eu chamava de grupo de amigos não me incluíam mais em seus planos ou insistiam em ligações e mensagens.  Certamente senti-me aliviado, eu estava pronto para me reconstruir e sair do palco daquela instituição nociva. Demorei a perceber que sempre desejei aceitação e inclusão das pessoas erradas, e como o sábio Namjoon havia dito; a imparcialidade tornava-me culpado e cumplíce. E admito minha culpa, assim como anseio por perdão.


Dois dias antes do ínicio das aulas resolvi optar por um método mais objetivo para falar com Hoseok uma última vez. Comprando um milk-shake. Ele não poderia fugir de mim, não quando eu era um cliente. Tudo bem que talvez agora ele estivesse em outra, e engajado em algum tipo de relacionamento com Jungkook, mas eu não podia reconstruir-me se ele era a peça que faltava na minha construção. Era ele quem eu mais queria libertar das minhas atitudes imbecis, eu somente precisava saber se ele conseguiria me desculpar em algum momento e deixar claro que eu nunca mais ousaria machucá-lo, ainda que sem intenção de fazê-lo.


Quando eu cheguei o local estava vazio, apenas ele e outro caixa esperavam que alguém se aproximasse, e era uma segunda a tarde; não havia ninguém. O nervosismo ansioso tomou conta de mim como um abraço forte e intenso, minhas pernas quase fraquejaram e eu, por um instante, quando recebi seu olhar, quase dei meia volta, mas não podia, eu estava ali. Saí no meio do horário de trabalho apenas para estar ali,  para ter a nossa última conversa e deixar que ele seguisse em frente e que eu também seguisse, embora minha vontade fosse permanecer seguindo consigo e não sozinho. Forcei-me a caminhar em passadas firmes, e quando parei no caixa a sua frente, parecia que eu não o via a mais tempo do que eu calculava. Meu coração bateu tão forte que uma dorzinha me assombrou por um instante, quase me vi tonto de amor, com as pernas bambas e coração acelerado, respiração quase desregulada e olhos levemente marejados. Não entendi a minha vontade intensa de chorar quando ele me recebeu com um boa tarde fraco, diferente dos tons que ele usava quando falava comigo, assim como seu olhar parecia deveras distinto daquele que me atingia como uma facada. Eu não encontrei desprezo, não encontrei raiva, não encontrei rancor, ele apenas olhava para mim. Ajeitei meu cabelo, soltando e prendendo-o outra vez em puro nervosismo quando ele insistiu em perguntar o que eu desejava pela segunda vez. E naquela insistência eu me encontrei porque estava perdido nele e na minha própria cabeça, e sentimentos. Como eu poderia estar ali, desistindo de Jung Hoseok sem ao menos beijá-lo uma vez na vida? Sem sequer ter mostrado como eu poderia dar amor a ele e como poderíamos construir um relacionamento gostoso e fofo, assim como ele era? Como eu estava ali prestes a desistir de vez quando eu queria mesmo era implorar por uma chance de mostrar que eu podia fazer diferente; que eu não era como as outras pessoas, e que eu sentia muito se minhas atitudes inicialmente não refletiram ao que eu semeava dentro do meu peito?


“Um milk-shake de chocolate por favor.” Eu pedi, numa fungada. Não queria começar a chorar ali, seria tão estranho, e eu tinha certeza que aquele colega de trabalho dele estava olhando para mim. “E também um sabor me desculpe, eu sinto muito, espero que possa me perdoar pelo que aconteceu.” Adicionei quando ele começou a computar meu pedido, e seu olhar lentamente voltou a focar-se em mim, eu não sabia dizer o que aquele par de olhos pequenos refletiam, mas talvez suas maçãs rechonchudas avermelhadas denunciassem algo.


“Não temos esse sabor aqui.” Ele disse formalmente, e o vi desviar o olhar para o seu colega, o que me fez olhar também para o rapaz, como eu imaginei ele nos examinava. Hoseok estava constrangido, envergonhado por eu estar no seu trabalho agindo daquela forma. Mas, ele não me deu outra alternativa. “Mas…” coçou a garganta, voltando a olhar para mim. “O sabor chocolate já vai sair.”


“Desde que nos conhecemos eu sinto que posso morrer de amor por você, mas nunca tive a oportunidade de verbalizar esse sentimento. Peço desculpa por isso, peço desculpa por ter medo de mostrar esse sentimento, assim como peço desculpa por ser tão cego e me prender a tantos preconceitos. Não era apenas amar você, era amar uma antiga parte de mim que me confundia inicialmente, mas eu não estou mais confuso a muito tempo, eu amo você Hoseok, e amo o que você mudou em mim; amo a pessoa que você me transformou e o que você me fez enxergar. E tudo bem se você não tiver o sabor perdão aí agora, eu posso esperar, mas queria que você soubesse tudo isso, que tivesse a noção de como é e sempre foi importante pra mim.”


Surpreendentemente eu não chorei, apesar da minha fala não ter soado uma das melhores quando um bolo se aglomerou em minha garganta e o choro travou ali para que eu não passasse vergonha, uma vez que tínhamos plateia. Quando é que não temos plateia? Eu não esperava que Hoseok mudasse suas expressões também, quando era óbvio que ele já não sentia o mesmo por mim e ouvir aquilo talvez não significasse mais nada para ele. Não era importante, mas eu precisava dizer e que ele soubesse, que o amor em mim sempre floresceu, todos os dias; moldando um jardim repleto de flores coloridas e distintas, porque cada dia eu o amava por alguma razão diferente, cada dia eu o amava mais intensamente.


“Quer cancelar o sabor chocolate?” Foi tudo que ele disse após alguns segundos, encarando-me inexpressivo, ainda que suas bochechas estivessem mais e mais tonalizadas. Eu soltei um suspiro leve, enquanto abaixava a cabeça. Aquela era a minha deixa, ele não tinha nada a dizer, porque sua indiferença dizia tudo. E eu não o considerei errado de sua parte.


“Sim.” Mordi o lábio inferior, contendo relutante e firme o choro.


“Okay. Tenha uma boa tarde, senhor.”


Eu o encarei por poucos segundos, não tive coragem de olhar para nossa plateia de um só que talvez devesse estar com pena de mim, ou coisa parecida. E, sem alternativas dei meia volta, de costas para ele, seguindo meu caminho em direção a saída da área de alimentação, e quando tive a consciência de que  seus olhos não poderiam nem mesmo ver minhas costas foi o momento que minha garganta aliviou a dor e eu me permiti chorar. Foi um pouquinho só, eu acho, até chegar a loja, e eu não me importava muito se estava chamando atenção de quem passava por mim. Chorar não deveria ser uma vergonha, e eu não me sentia envergonhado por chorar por Jung Hoseok.


Eu não me sentia envergonhado por nada que envolvesse Jung Hoseok, no entanto, acredito que ele sentia vergonha por tudo que envolvesse o meu nome.


[...]


As aulas voltaram, mas nada voltou a ser como antes. Por incrível que pudesse parecer algumas pessoas continuavam falando comigo, pessoas até demais, no entanto, não era o mesmo tratamento de antes, o que de fato não me incomodava. Eu costumava deixar a todos, desde o início do ensino médio para me juntar a mesa de Namjoon durante o almoço, certamente não seria possível nos tempos atuais porque houve uma substituição na programação, e apesar de ser convidado para sentar em outras mesas durante os primeiros dias de aula, como a mesa em que meu irmão se sentava, eu preferi me sentar sozinho, não era muito legal, é claro. Mas eu tinha uma visão agradável de Jung Hoseok, apesar de ser apenas suas costas largas. As vezes ele virava de perfil para conversar com quem sentava-se ao seu lado, e eu podia ver suas bochechas rechonchudas cheias de arroz, deixando-o ainda mais adorável e fofo, bonito também. Eu quase não conseguia terminar o meu lanche a tempo, pois passava a maior parte do intervalo olhando para aquela mesa, lembrando de quando sentávamos juntos, e que de certo em certo tempo, nossos olhares se encontravam e ele ruborizava, ele achava que eu nunca notaria como havia vergonha e carinho na forma como seus olhos olhavam para mim, mas eu notava, assim como em todas as vezes as quais pesquei-o perdido em mim, nas minhas feições, ou somente no que eu dizia. Perdi tantas chances de surpreendê-lo com beijos quando ele se tornava alheio do mundo apenas para me contemplar, assim como perdi inúmeras chances de acariciar suas maçãs do rosto tonalizadas por estar sendo encarado por mim. Era até mesmo deprimente, passar meu tempo desejando o regresso de momentos que não voltariam para que eu agisse diferente. E aquele carinho nos seus olhos, jamais seriam direcionados a mim novamente.


Apesar de ter pleno conhecimento do meu sentimento agora unilateral, não desisti completamente de Hoseok. Alguém havia tomado um bilhete que deixei em seu armário e feito chacota dos elogios, humilhando o meu menino com tamanha agressividade. Nos dias seguintes, começaram a aparecer bilhetes ofensivos e depreciativos sobre sua aparência, causando um efeito reverso a aquele que eu tanto desejei naqueles tempos. E eu não permiti que durasse muito tempo, no segundo dia consecutivo, eu passei a tirar todos os bilhetes antes que ele visse, e ao invés de deixar apenas um por dia, eu deixava mais de dez, uma vez que durante as férias tive tempo para acumular uma onda deles. Era cansativo, mas era melhor que enfrentar toda escola novamente de maneira imprudente e até mesmo burra. Eu não trazia atenção para mim, e não levava mais ódio para ele, e no fim, eu prossegui admirando seu sorriso continuamente, sua reação envergonhada e seu quase saltitar quando ele terminava de ler todos os bilhetes diários em frente ao armário. Esquentava meu coração vê-lo sorrir, mesmo quando as pessoas queriam o pôr para baixo. Eu não precisava ganhar os créditos, ou fazer com que ele soubesse que eu o desejava tanto, porque ele merecia os créditos por ser daquele jeitinho tão desejável, e precisava saber disso.


Não me incomodava viver no escuro, literalmente.


“E aí você vem pro festival de talentos?” Yoongi quase me fez saltar de susto, pegando-me em flagrante ao retirar os bilhetes colados na porta do armário de Jung outra vez. “Parece que você anda tendo bastante trabalho.” Ele encostou-se de lado, no armário mais próximo. “Cara, essa gente não tem mesmo o que fazer”


“Não podia deixar que ele visse isso todos os dias.” Murmurei, ao recuperar-me do susto. “E não, não vou no festival de talentos.”


“Ouvi dizer que você canta bem, vai ser interessante te ganhar.” Ele zombou, e eu torci o nariz, retirando o último bilhete que dizia; suas pernas apertadas numa calça jeans me dão vontade de vomitar. Bufei rasgando o bilhete. “Eu e Namjoon também tivemos a ideia de tirar antes que ele visse mas; você sempre chega mais rápido.”


“Como… Como ele está?” Não queria perguntar; eu prometi a mim mesmo que não perguntaria mais sobre Hoseok, uma vez que não havia porque ter tamanho interesse no seu cotidiano ou bem estar. No entanto, era difícil passar tanto tempo sem me render a curiosidade. Observar ao longe não me dava certeza de nada.


“Não há como ele ficar 100% quando toda escola enche o saco dele, mas ele ‘tá legal, eu acho. Parece mais de bem consigo mesmo.”


“Isso é bom…” Suspirei, enquanto juntava todos os bilhetes e amassava formando uma bolinha mediana.


“Ele nunca falou que gostava de você pra gente então não sabemos se ele ainda gosta ou não, sabe, ele não expõe muito esse lado.”


“Não foi isso que eu perguntei.” Refutei em um resmungar.


“Não conte para o Namjoon mas você sabia que foi ele quem te levou na casa do Namjoonie naquele dia e pagou para que não dessem queixa?! Ele pediu pra falar que quem perdeu a grana foi eu, e que não contássemos sobre ele.”


Encarei Yoongi em silêncio, a surpresa era demais para que eu dissesse qualquer coisa. Era como se eu perdesse a voz por um dado momento e não conseguisse sequer miar qualquer coisa. Não estava acreditando, e esperava que em segundos Yoongi caísse na gargalhada dizendo que eu acreditava em qualquer besteira e papo furado, mas os segundos passaram e ele não prosseguiu afirmando uma brincadeira. Era quase inacreditável que ele estava falando a verdade, e a verdade parecia não condizer com o que aconteceu naquela noite quando, na minha cabeça Hoseok saiu antes mesmo que eu fosse surrado. Ao menos eu queria que ele tivesse saído.


“Por quê?” Consegui sibilar num sussurro.


“Vocês são esquisitos, eu não sei.” Ele deu de ombros. “Mas ele quem cuidou de você inteirinho, e enquanto eu estava com Namjoon na sala ele ficou ao seu lado até pouco antes de amanhecer. Ele não disse, mas parecia se sentir culpado.”


“Por que você está me dizendo isso agora?”


“Porque eu queria te dar um motivo pra você participar do festival de talentos. Qual é?! Só tem nove pessoas inscritas e precisa de pelo menos dez pra rolar a competição.”


“Isso é um motivo?” Franzi a sobrancelha, contendo a vontade de lhe dar um soco por ele ser tão idiota e interesseiro. Eu não conseguia nem mesmo denominar aquele sentimento como raiva, porque o pensamento de que Jung se importava comigo a aquele ponto me impedia de sentir qualquer outra coisa se não vontade de ir atrás dele de novo, e de novo, e de novo, até que ele entendesse que eu não desisti e jamais desistiria.


“Se você for inteligente, é um motivo.” Ele piscou para mim, seguidamente dando-me as costas. “Ele até levou sua roupa pra casa, disse que lavaria.” Ele falou enquanto caminhava. “Também disse que você era estúpido.” Gargalhou.


Então cheguei a conclusão de que tamanho zelo naquela madrugada nunca derivou-se de Namjoon, apesar de saber que ele era cuidadoso e se importava o suficiente comigo para também cuidar de mim. Mas sempre considerei suspeito todo aquele cuidado, na realidade, e agora tinha uma explicação. Hoseok fora caridoso o suficiente para não permitir que eu ficasse ao menos sujo, além de gastar seu pouco e suado dinheiro para que eu não entrasse em uma roubada. Eu nunca pude agradecer por sua preocupação, porque estava ocupado demais remoendo a amargura de pensar que ele tinha mais interesse em partir para sua casa ou a casa de Jungkook. Nem mesmo tive a oportunidade de sentir seu carinho com tamanho cuidado até mesmo com as minhas roupas. E eu simplesmente o deixei ir, sem considerar que ele quisesse espaço, mas não tanto espaço, ele quisesse que eu fosse até ele mas não das formas como tentei ir. E agora, pensando no dia em que ele fora até a loja, quem sabe eu possa ponderar que ele tenha ido para me ver. Mas, seria auspicioso demais da minha parte pensar desse modo? Chegar a essa conclusão, quando era possível que naquela noite ele tenha feito tudo aquilo por se sentir culpado... Eu não queria levar para o lado cético da coisa, mas também havia aquele pensamento mais condizente com a realidade, e eu não podia me agarrar a informações não confiáveis de alguém que apenas queria me usar para conseguir algo.


[...]


Apesar de querer que aquela informação mudasse as coisas, parecia não fazer diferença quando no dia seguinte eu busquei pelos seus olhos e ele desviou o olhar todas as vezes. Quando tentei pateticamente caminhar em sua direção no corredor, ele deu meia volta e entrou em uma sala que nem mesmo era sua. Ele continuava fugindo de mim, evitando a minha presença, e não havia nada que eu pudesse fazer para que ele me desse um pouquinho de atenção. Era sempre assim, nunca tive sua atenção focada em mim para que eu pudesse contar a verdade, apesar dele saber de forma forçada em seu trabalho que eu o amava não era tudo que eu tinha a dizer, não era com todos os detalhes o que eu sentia. E eu só queria que ele me deixasse falar, que ele também falasse comigo, queria ouvir sua voz murmurar meu nome em um sussurro dengoso e fofo, enquanto ele absorve com clareza tudo que eu poderia dizer ao pé de seu ouvido ou olhando em seus olhos. Eu aceitaria até mesmo que ele me xingasse, porque pelo menos ele estaria me respondendo de alguma forma, e não manteria aquela distância ardida onde sequer poderia ouvir minha voz. Em partes eu deveria aceitar que aquela noite não significou nada para ele, mas eu ainda tinha aquele lado esperançoso e cheio de vida fazendo meu coração bater com força e que alimentava a ideia de que não fora apenas culpa, mas sim seus sentimentos expressados da forma como ele mais sabia fazer; cuidando de mim.


Era uma besteira, eu sabia, mas, Yoongi havia despertado o que lenta e custosamente foi adormecendo dentro de mim. E eu precisava de um jeito de fazer Hoseok me ouvir…


Me ouvir…


É claro! Min Yoongi maldito, ele sabia que Hoseok não falaria comigo e continuaria fugindo de mim. Era essa a ideia brilhante que passava por sua cabeça? Que eu falasse não só para Hoseok mas para toda escola como me sentia? Ele havia jogado baixo e sujo, mas eu não podia negar que era uma ideia quase brilhante, se não houvesse o risco de atirarem coisas em mim, ou, nele. Eu não podia acreditar que estava em frente a grade de inscrição para o festival de talentos apertando com tremor a ponta da caneta sobre a folha de papel. Era uma junção de genialidade com estupidez naquela ideia que alcançava o absurdo, assim como o clichê. Eu precisava também mostrar um talento e não só falar diretamente sobre meus sentimentos, e eu, de certo modo não conseguiria pensar em algo com apenas mais um dia para o festival. Eu era bom em muitas coisas, mas não conseguia imaginar o que eu poderia usar para me expressar e que Hoseok entendesse onde eu queria chegar.


Trêmulo, meu nome saiu como um rabisco esquisito. Guardei a caneta no bolso frontal da calça e continuei examinando aquela grade, com o pensamento distante e a sensação de fracasso, não tinha mais volta; e eu notei isso quando alguém parou a minha frente me afastando da grade e gritou que a lista havia alcançado os dez candidatos. Vi apenas três pessoas comemorarem, e os demais alunos que perambulavam pelo corredor apenas ignoraram. A maioria não se importava com o festival, era apenas mais um sábado na escola.


Decidi que não tinha como voltar atrás, que a partir daquele momento eu precisava de algo até o final do dia seguinte e definitivamente aquela seria uma missão difícil de concluir. E o barco já estava longe demais para eu saltar dele e voltar nadando para a praia. A partir daquele momento, ou eu conseguia trazer a atenção de Hoseok para mim e causar uma boa impressão, ou eu só faria o que sempre fiz; estragaria tudo e faria-o fugir.


“Akane…” Murmurei, enquanto olhava distraído para o aparelho celular, sabendo que ela fazia o mesmo com seu livro, sentada ao meu lado. A loja sempre estava vazia naquele momento da tarde, e faziam alguns dias que precisávamos trabalhar juntos. O gerente dizia que Akane não dava conta da loja sozinha, e eu poderia supervisioná-la e impedir que ela assustasse os clientes.


“O que é?” Perguntou, usando de ironia digo que ela me respondeu com muita educação e cuidado. “Eu não xinguei ninguém hoje.”


“Não é sobre isso que eu quero falar.” Resmunguei.


“Se não é pra bancar o chefe então eu não sou obrigada a falar com você.” Ela me ofereceu o dedo do meio enquanto, ainda tinha os olhos presos ao livro encadernado e de capa dura, escuro como sua aura e educação.


“É sério Akane.” O desespero pedia por medidas humilhantes às vezes.


“Okay.” Ela fechou o livro com impaciência, após um longo e áspero suspiro nasal. Logo seus olhos me examinaram com inquisição e eu bloqueei a tela do meu celular para focar minha atenção na única pessoa que poderia me dar algum conselho, ainda que eu considerasse que ela nunca tenha experimentado do amor para ser tão grosseira e amarga assim e que seria inútil questionar ao diabo coisas sobre o coração. “Desembucha, Kim.”


“O que você… Faria se tivesse que mostrar seu amor para alguém sem realmente verbalizar isso?”


De primeira instância, quase me diverti com sua expressão esquisita de quem não acreditava no que ouvia, em seguida surpreendi-me quando ela voltou seus olhos para o livro e mudou a página como se eu não tivesse feito uma pergunta tão aleatória e inapropriada para o nosso tipo de relacionamento.


“Lembranças de pequenos momentos considerados insignificantes, quando você mostra para alguém que ama que notou esses momentos, esse alguém vai saber o que você sente.”


“O quê…?” Sussurrei mais para mim mesmo e tão baixo que duvidei que ela conseguisse ouvir. Sinceramente, eu não entendi o que ela quis dizer, então a única pessoa que eu poderia pedir ajuda era quase ou totalmente inútil. Eu sabia que ela não ajudaria mas não imaginava que ela falaria coisas complexas e ao meu ver um pouco sem sentido. “Ajudou bastante.” Resmunguei.


“Não me interrompa de novo se não for pra assuntos do trabalho, Taehyung.” Ela contrapôs, e eu ciciei qualquer coisa confirmando.


Ela não ajudaria mesmo.


No entanto, por mais que eu não compreendesse de fato o que ela quis dizer, tentei encontrar um sentido naquilo durante o resto do dia, da noite, e da manhã seguinte, sendo esta a manhã do festival de talentos. Alguma coisa como pequenos momentos e insignificância, pairava sobre a minha cabeça e eu apesar de, durante a manhã de sábado chegar a conclusão de que eu deveria mostrar algo que somente eu poderia notar nele, eu não tinha ideia de como usar aquilo no festival de talentos, assim como não sabia quais eram as nossas pequenas e íntimas lembranças; algo só nosso. Algo que ninguém mais saberia, e que ao ser mostrado para ele, chamaria sua atenção e ele perceberia o meu amor sendo expressado naquela íntima lembrança.


Quem sabe a ajuda de Akane havia sido útil ao fim das contas, e o inútil para falar a verdade era eu. Compreendi o significado das suas palavras mas ainda não sabia como usá-lo.


Faltavam poucas horas, eu havia me cansado de alternar entre girar na cadeira lentamente olhando para o teto matutando e tentando encontrar algo nosso, e jogado na cama fazendo o mesmo. Não tive fome ou cede, dado que não queria quebrar minha linha de raciocínio e me perder, voltar para a estaca zero onde o que Kaname ditara parecia estúpido.


Por fim terminei com a cara enfiada no travesseiro e com o desespero gritando nos meus ouvidos que eu estava totalmente ferrado. Acabei chorando um pouquinho até, só um pouco, era inevitável, as lágrimas molharam meu travesseiro e por um momento eu solucei meio bobo, realmente eu era um adolescente intensamente apaixonado, não era preciso que eu chorasse mas lá estava eu, chorando feito um idiota porque estava prestes a fazer a coisa mais idiota do século ciente de que ainda seria feito de chacota pela plateia. Eu estava a ponto de desistir, deixar que Hoseok vivesse em paz com Jungkook e que seguisse seu caminho sem as minhas tentativas de pará-lo ou trazê-lo de volta para mim.


“Taehyung?” A voz de Seokjin fez-me fungar, apesar de não estar mais chorando. E ele recebeu aquilo como uma resposta. “Por que não está se arrumando pro festival?”


“Acho que eu não vou.” Respondi, com a voz abafada pelo travesseiro em meu rosto. “Não sei o que apresentar.”


“Não sabe? Então por que se inscreveu? Por que não canta alguma coisa? Qualquer coisa, você precisa ir, aquelas pessoas que se inscreveram querem muito ganhar o prêmio.”


“É só um vale pra um restaurante japonês.” Resmunguei.


“Se é só um vale então porque você vai participar?” Ele puxou o travesseiro do meu rosto, e eu virei na cama, afundando a cara no colchão. Não queria que ele visse meu estado pós-choro.


“Porque eu queria mostrar para o Hoseok como eu me sinto, já que ele não me deixa chegar perto para falar.”


“Cante uma música para ele.”


“Isso parece clichê.”


“Eu não quero saber, Taehyung, sabe quem está organizando esse festival? Eu! E sabe quem vai pagar o pato se você não aparecer? Eu também. Então, pelo amor de deus, levanta dessa cama, toma um banho arruma esse cabelo e pensa em alguma música no caminho até escola. Eu sei que você não vai querer perder a única oportunidade de mostrar para o Hoseok como se sente.”


Quase me arrependi por ter escolhido passar o fim de semana na casa do meu pai com Seokjin, ele realmente não permitiria que eu ficasse em casa, e provou isso quando me puxou da cama pelos pés, fazendo com que eu quase batesse com a cara no chão, e antes de sair do quarto ditou em um tom autoritário que voltaria em vinte minutos e queria me encontrar cheiroso e bem vestido. E eu não tive escolha, me preparei para fazer um show vergonhoso, usando a minha melhor roupa e o meu perfume favorito, assim como deixava meu cabelo solto permitindo que ele despojadamente caísse sobre meus ombros.


Trinta minutos depois eu estava roendo as unhas no banco de trás do carro de papai, balançando as pernas num sinal nocivo de ansiedade e nervosismo, enquanto não conseguia focalizar meu olhar em um lugar específico, acredito que se eu fosse Hoseok, estaria tendo um ataque de asma.


“Parece que está apaixonado papai, troque de rádio, essa chega a ser deprimente de tão romântica.” Seokjin chamou minha atenção durante uma discussão com papai, tentando trocar a estação.


“Não seja rabugento, Seokjin! As vezes é bom ouvir essas músicas, me lembram sua mãe. Sabe, quando éramos felizes.”


“Pai…”


Uma epifania! Eu tive uma epifania naquele momento. Lembranças únicas; pequenas e ditas como insignificantes. Pequenos momentos. Era isso!


Sorri nervosamente, estava ainda mais agoniado para chegar à escola.


“Você é inteligente.” Yoongi falou, após descer do palco com a banda. Cheguei tão atrasado no local atrás do palanque, e que os participantes se preparavam, que algumas pessoas já haviam se apresentado. Na realidade, a maioria delas. Yoongi era um dos últimos, logo, seria a minha vez e eu não teria nem tempo de sentir meu estômago revirar.


“Você me forçou.”


“Te fiz enxergar.” Ele suava, tirando a jaqueta de couro, mostrando que havia se esforçado bastante com a apresentação. “É diferente.”


“Preciso te agradecer, de certo modo. E, também preciso que toque violão para mim.”


“Tudo bem.”


Não me surpreendi por ele ter aceito; apesar de talvez ter complicação no momento de julgar com quem ele oficialmente estaria se apresentando. Não pensei muito no que poderia acontecer com ele quando Seokjin começou a me empurrar alegando que eu precisava ir para o palco, pois algumas pessoas estavam nervosas e tímidas demais com a plateia exigente. Sussurrei no ouvido de Yoongi o nome da música quando o vi se sentar com um banquinho e um violão atrás de mim. Eu estava de costas para a plateia, e quando finalmente virei-me, recebi vaias, obviamente. Mas nada importou quando, eu encontrei, bem ali nas primeiras fileiras um Jung Hoseok focando sua atenção totalmente em mim. Eu não olhei para mais ninguém, eu não notei o foco de luz tão preso a mim enquanto as luzes do auditório diminuíram. Eu estava me apresentando para Hoseok, e era como se ele fosse a minha plateia inteira. Ele me ouviria, ele saberia como eu me sentia, e saberia que eu valorizava nossas pequenas memórias juntos.


“Love, love the stars. Love, love the moon.” Cantarolei quando Yoongi começou a tocar.  


*Ame, ame as estrelas. Ame, ame a lua.


Vi a expressão de Jung mudar tanto que quase me permiti sorrir, mas eu não saberia dizer se ele estava surpreso ou desacreditado. Seu olhinhos pequenos se abriram um pouco mais, e eu com toda atenção, pude notá-lo engolindo em seco, vendo-o inquieto na cadeira ao lado de Jungkook.


“Wae byeol iyu eopsi gongheohan geonji geujeo myeot sigan jjae meongman ttaerineun ge” A medida que eu prosseguia com a música, eu sentia como se tivesse ouvindo sua voz cantarolando comigo, como nas voltas para casa, bem baixinho. Eu não só estava dizendo para hoseok como me sentia com aquela música, como seguia o conselho de Akane de mostrar para ele que eu tinha lembranças de cada pequeno detalhe de nossos momentos juntos.


*Sem motivo algum me sinto vazio

Sonhando acordado por horas e horas


Segurei o microfone, e caminhei pelo palco, até estar na direção de Hoseok, sabendo que estava sendo seguido pelo foco de luz. E então as vaias ficaram um pouco mais intensas.


“Da neoui ban, ban banui banui bando chaewojujil mot hane chaewojijiga anhne, yeah” Continuei cantando, focando-me em Hoseok, e agora ele encolhia-se na carteira e eu prosseguia sem conseguir denominar o que ele estava sentindo.


*Nada pode preencher nem metade, metade

Metade do vazio

Que você deixou

Não consegue me encher


Não me surpreendeu nada quando, assim que eu terminei esse verso da metade do refrão da música, fui atingido por um copo de refrigerante que se abriu ao se chocar no microfone e molhou parte da minha camisa e calça. Considerei que fosse acontecer em algum momento. Logo em seguida ouvi um grito ordenando para que eu saísse, mas eu não saíria.


“Ttak neoui ban, ban. Banui banirado naege namassdeoramyeon Ireohge bung tteoissjineun anheul tende”


Hoseok se levantou.


*Se eu tivesse metade, metade da metade de você

Se metade de você

Ainda estivesse comigo, eu não estaria tão vazio


E quando fui atingido pela segunda vez, dessa vez com suco, ele simplesmente começou a andar enquanto eu cantava. Eu cantei até vê-lo sumir pela porta do auditório, enquanto era vaiado mais e mais intensamente. Eu tinha a esperança que em algum momento ele olhasse para trás.


“Nega issdeon jari Geu jari wi bamhaneulkkaji (boyeo) jeo ban jjok jjari dari Ttak jigeum naui moseup gatji”


Mas em nenhum momento ele olhou para trás.


*Eu posso ver o céu noturno

De onde você costuma ficar

A meia noite no céu

É um reflexo meu


Quando a porta do auditório se fechou atrás de seu corpo rechonchudo, cantei o último verso quase parando, com a garganta ardendo e os olhos marejados. Não que eu fosse chorar, mas a vontade era grande, era imensa. O que eu fiz de errado? Eu não conseguia entender, eu estava cantando para ele, eu estava dizendo para ele e só para ele, mas ainda assim ele não queria me ouvir. Todavia dessa vez eu não permitiria que ele fugisse, afinal eu estava todo molhado, e haviam acabado de jogar metade de um sanduíche gorduroso em mim que fez com que eu derrubasse o microfone e voltasse a realidade. Eu não continuaria cantando, então desci do palco, sem dar meia volta e ir para area dos participantes, corri em meio ao auditório, sem me importar com o fato de que continuavam gritando, acredito que meu pescoço e parte da minha blusa estava sujo de molho barbecue do sanduíche, e essa era definitivamente a pior maneira de fazer com que Hoseok parasse. Quando saí do auditório ele estava dobrando o corredor, e eu embarquei numa corrida ainda mais rápida para alcançá-lo, aproveitando os corredores vazios. Ele não corria, mas estava em uma distância considerável. Assustei-me quando o vi entrar em uma sala, e engoli em seco quando notei que sala era aquela. Era a salinha estreita e pequena do almoxarifado, onde quase beijamos, e onde ele jogou pudim de chocolate em mim. Não sabia porque ele estava ali, mas entrei ainda assim.


“Você está aqui de propósito? Para me fazer lembrar?” Perguntei quando ele não disse nada.


“Agora eu sei porque você me puxou para esse lugar, porque se confessou para mim aqui.” Ele suspirou, e torceu o nariz, num fungar. “Ficamos mais tranquilos quando ninguém nos vê.”


“Hoseok…”


“Eu não quero que você sofra comigo, carregue uma cruz tão pesada como eu, quando você tinha uma vida perfeita longe de mim.”


“Você está brincando?” Abri a porta, e saí daquela salinha, sujando sua mão de molho quando segurei-a o puxando para o centro do corredor. Umedeci os lábios e quase sorri com o aperto da mão pequena e gordinha sobre a minha quando ele ousou olhar para ambos os lados. Sujei-o um pouco mais quando soltei sua mão, e levei as minhas até o seu rostinho, forçando-o a olhar para mim, somente para mim.


“Você é incrível e eu quero que todos saibam que eu amo alguém tão incrível como você.”


“Você está me sujando.” Ele tentou rir, mas era apenas pra disfarçar o seu choro, logo quando algumas lágrimas astutas molharam suas bochechas e encheram seus olhinhos vermelhos.


“Desculpe…” Tentei-o acompanhar na risada, mas meu coração estava triste demais para que soasse verdadeiro. Quando tentei tirar minhas mãos que sujavam seu rostinho ele repousou as mãos fofinhas e delicadas sobre as minhas, fazendo com que eu mantivesse contato.


“Você é tão burro.” Sussurrou. “Todos os bilhetes, todas essas coisas, todas as declarações, por alguém como eu.”


“Como… Como sabia que era eu quem escrevia os bilhetes?”


“Yoongi não é bom guardando segredos.”


“Ele me contou que você cuidou de mim.”


“Porque você me mostrou que eu era… Especial.” Ele se aproximou, e eu me aproximei também. “Eu não precisei dos seus bilhetes pra entender que não tinha nada de errado comigo, e nem mesmo de Jungkook como amigo pra saber que as pessoas podem simplesmente gostar da minha companhia. Eu sei que eu mereço todo amor do mundo, Taehyung. Mas se todo amor do mundo for te causar toda essa bagunça, eu não quero.”


“Eu não me importo, Hoseok. Poxa, tudo que eu fiz não mostra que eu não me importo? Eu vou estar ao seu lado sempre, porque viver em cima do muro, apenas te amando de longe, me custou tão caro que é um preço que eu não pagar novamente.” apertei minhas mãos sobre seu rosto, erguendo-o quando ele ameaçou chorar mais um pouco, e aquela altura do campeonato eu já chorava também. “Se você não se importar com o que dizem, eu também não vou me importar.”


“Eu não me importo.” Ele agitou a cabeça soluçando, e num ato abrupto estava entre meus braços, sem se importar, literalmente com a minha sujeita; afundando o rostinho em meu pescoço, fazendo com que eu rodeasse o braço pelo seu corpinho gordinho e o acolhesse também. “Eu não me importo mais como me importava antes, eles não vão me convencer de que eu não mereço mais.”


“E…” O afastei um pouquinho, somente para olhá-lo, e poder encostar nossos lábios, finalmente beijando-o. Era um beijo dócil, apesar de tímido, nossas bocas eram desconhecidas, mas faziam bem o papel ao se apresentarem corretamente uma a outra. Seus lábios eram tão cheínhos, e seu beijo tinha gosto do seu hálito mentolado. “Espero que você sempre esteja ciente de que é bom demais pra esse mundo, assim como é bom demais até pra mim, mas que possa me dar a chance de dar todo amor que você merece a… Não ser que Jungkook já esteja fazendo isso.” Sussurrei esfregando nossos narizes, e ele voltou a rir entre o choro. Ele era lindo até mesmo com o rostinho vermelho, molhado, e com um sorriso triste metálico.


“Jungkook bem que disse que você morreria de ciúmes. Ele estava tentando te dar uma lição.”


“Eu acreditei mesmo que…”



Xii!” Ele estalou os lábios nos meus em um selinho. “Apenas me dê todo amor que você tem, que te dou o meu Taehyung. Você é precioso, e eu te amo.”


Eu abracei mais forte, e o tomei num beijo mais molhado, porque naquele momento eu voltei a ver carinho naquele par de olhos, quase solucei por lembrar-me da sensação de receber aquele olhar. Havia reciprocidade entre nós novamente, andávamos em sincronia, mas dessa vez, expondo-a para quem quisesse ver e também um paro o outro.


Hoseok merecia mais do que eu poderia dar, mas todos os dias, eu me esforçaria para ser suficiente para alguém tão único como ele, pois agora ele sabia que era único, que não havia ninguém no mundo como ele, que merecesse mais que ele. E eu, particularmente, preferia esse Jung Hoseok consciente.


Assim como prefiro-me consciente de que nós teríamos dores de cabeça, mas não significariam nada quando poderíamos trocar beijos como aqueles e abraços cheios de carinho onde quer que estivessemos, e nosso amor continuasse caminhando em reciprocidade e zelo.  


Notas Finais


VOCÊS ACEITARIAM UM BÔNUS COM LEMON? Narrado pelo hoseok. Pesquisa de campo rs


Link da musica que o taehyung cantou https://youtu.be/79K-yYbO838

Espero mesmo ter dado a vocês uma nova perspectiva do Taehyung, ele é um personagem humano demais, e apesar de tudo merece Hoseok tanto quanto Hoseok o merece.

Não são pessoas fora do padrão que tem que mudar para serem aceitas, mas sim o padrão tem que ser quebrado para que todos sejam livres para ser da forma que quiser ser e viver. Mas embora a gente queira que isso aconteça; o padrão nunca vai desaparecer, e sempre seremos julgados por alguma coisa, mas é importante termos apoio pelo menos, daqueles que nós respeitamos e amamos. Espero ter conseguido passar isso na fanfic tchau

https://curiouscat.me/Jiwont


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