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História Cúrame - Capítulo 9


Escrita por: e Luiselele


Capítulo 9 - Lembranças.


ITZIAR ITUÑO MURILLO

Já haviam passado pouco mais de três longos meses desde a morte da mãe do Andrés. 

Foram três meses em que ele tentava se recuperar,e ela,juntamente com a irmã e Tatiana,tentavam ajudá-lo.Aos poucos o homem estava conseguindo voltar a sua vida normal,elas o tinham convencido de que a última coisa que a mãe dele iria querer,era vê-lo triste.

Nesses três meses muitas coisas haviam mudado,Itziar já estava tendo aulas na faculdade,havia tido um envolvimento rápido com um de seus colegas de turma,o que não havia dado muito certo.

Sérgio havia largado o trabalho como professor na faculdade de Bilbao e agora trabalhava no mesmo hospital que Raquel.

Tatiana a filha de Sérgio,estava estagiando e ela e o pai haviam se mudado para a antiga casa onde moravam.Não havia porque continuar morando na faculdade.

A única coisa que não havia mudado era o fato de que o ex de Itziar continuava a ligar,insistindo para que voltassem,ela não era nem louca de cogitar essa opção.

Ainda tinha certeza da falta de caráter dele,e continuava a negar,xingá-lo por telefone ou desligar em sua cara.

O ruim dessas ligações dele,era que elas não a deixavam esquecer o que ele havia feito.E como esqueceria?Ela só havia visto uma das traições, e quantas mais não houveram?Outra pessoa que não parava de perturbá-la era Álvaro,mas não do modo que ela queria,e sim em seus pensamentos e sonhos.

Ela sabia o quão errado era desejar alguém que mal sabia quem ela era, e o quão mais errado ainda era sonhar com essa pessoa.Ela mesma se iludia pensando que talvez um dia ele viesse a reparar nela e seriam "felizes para sempre",sim,ela ainda acreditava em contos de fadas,e nunca deixaria de acreditar. 

Mesmo que a amargura em seu coração não parasse de crescer,lá no fundo ela sempre acreditaria no amor e que o seu "príncipe encantado" estava perdido em algum lugar por aí esperando por ela.Ele poderia não vir em um cavalo branco,como nos contos de fadas,ou com uma roupa pomposa,mas um dia ele viria.  

Enquanto vagava entre seus pensamentos,Itziar estava parada em frente ao espelho analisando a roupa que havia escolhido para o encontro com o amigo de Andrés.

Ela vestia uma calça alta colada ao corpo na cor de um jeans claro,uma blusa um pouco solta estampada em tons de azul,e por cima um blazer branco.

 Estava com um salto não muito alto,também branco,havia se assegurado de que não fosse alto porque andaria de moto.A garota estava animada,havia conhecido Ángel durante um churrasco na casa da irmã. 

Ela havia acabado de chegar do mercado com várias bebidas nas mãos e Raquel,de um modo nada discreto,praticamente o jogou para cima dela.

Durante o churrasco eles acabaram conversando muito e ele a chamou para sair,de primeira ela hesitou um pouco,mas depois que ele disse que era apenas como amigos,ela resolveu aceitar.

Itziar se olhou mais uma vez no espelho e passou um batom vermelho nos lábios,estava pronta.Ouviu uma buzina e logo saiu animada pelo corredor que levava até a sala,pegou uma bolsa e saiu.

Do lado de fora da casa,Ángel a esperava escorado em sua moto,ela o analisou por um momento,ele estava perfeito,mas isso não parecia suficiente.

Uma agonia tomou conta do peito dela,sempre odiara motos e agora estava prestes a subir em uma com alguém que ela mal conhecia,afastou o máximo que pôde aqueles pensamentos e sorriu para o homem que logo retribuiu sorrindo largamente.

— Pronta para a aventura?_Ángel perguntou enquanto encaixava o capacete em Itziar.

Ela hesitou um pouco em responder,ainda estava agoniada por algum motivo,só não sabia ao certo qual era.Havia passado o dia todo com essa agonia constante,várias vezes pensou em ligar e desmarcar com Ángel,chegou a ligar para a mãe e certificar-se de que estava tudo bem. No final decidiu que aquilo não era nada e resolveu sair,nos últimos três meses só havia estudado e precisava sair.Ou como o homem havia dito "Voltar a sociedade."

 — Mais do que pronta._Itziar finalmente respondeu.Ángel subiu na moto e ajudou a garota,meio sem jeito ela subiu,era a primeira vez que chegava perto de uma dessas. Agarrou-se a cintura de Ángel e ele acelerou a moto.Tirando-os da vila rapidamente.Itziar não sabia bem para onde iriam,o homem só havia dito que era uma boate fora da cidade.Hora ou outra a consciência dela pesava dizendo que estava agindo como uma maluca,mas ninguém vive até cometer uma loucura.

Quando finalmente saíram da cidade,a única coisa que se podia ver na beira da estrada eram os postes e as luzes passando rápido.Enquanto o vento frio batia em suas mãos,ela só conseguia agradecer por ter pensado em usar um blazer.

Demorou cerca de vinte minutos até que eles chegaram a uma boate,Ángel não estava brincando quando disse que ficava no meio do nada.Naquele local só havia a boate, que por sinal era bem vigiada por dois guardas enormes.

Itziar desceu da moto de modo meio desengonçado e tentou tirar o capacete sozinha,logo Ángel chegou para ajudá-la.Tirou o capacete dela e passou levemente a ponta dos dedos pelo seu rosto.

A garota sorriu sem graça com o carinho e colocou uma das mechas do cabelo atrás da orelha.

— Vamos?_Ela perguntou.

— Primeiro as damas._Ele sorriu fazendo um gesto para que ela passasse.Chegando na porta,Ángel falou algo com os seguranças que logo o deixaram passar.

— Você os conhece?_ Ela perguntou. 

— Sim,eu não te contei,mas essa é uma das boates que meu pai deixou para mim depois que morreu._Ele falou meio sem jeito.Os dois haviam conversado sobre a morte do pai dele no dia anterior,Ángel havia citado que o pai havia deixado uma empresa em sua mão e que o tio o ajudava,ela só não imaginava que essa empresa seria a boate que iriam. 

Itziar ficou sem saber o que responder,então resolveu apenas elogiar a boate.

— O ambiente é maravilhoso._Ela sorriu.

— Essa é a sede de todas as boates que ele deixou._Ele falou enquanto os dois andavam pela boate._Sei que é estranho uma sede ser no meio do nada.Mas meu pai era meio excêntrico._o homem sorriu.Itziar analisou ao redor,Ángel tinha razão sobre a excentricidade do pai.Cada mínimo detalhe da boate demonstrava isso.

A boate era incrivelmente espaçosa,havia uma pista enorme,as paredes eram de tons de roxo escuro com preto,a iluminação era mais baixa em algumas mesas reservadas,haviam cabines com cortinas escuras,um bar em que o balcão brilhava e piscava mais do que as luzes da pista.Ela estava simplesmente maravilhada com tudo aquilo

— É maravilhosa._Foi a única coisa que ela conseguiu dizer. 

— Vem,vamos dançar._Ángel a puxou pela mão e os dois entraram no meio da multidão.

— Não sou uma boa dançarina._Ela falou próximo ao ouvido dele.O som estava alto.

— Eu te guio._Ángel gritou e pousou as mãos na cintura dela,ajudando-a a dançar.

Depois de um tempo,Itziar já estava solta e com menos vergonha,os dois dançavam em um ritmo perfeito,com seus corpos próximos.Era impressionante como não precisavam de bebida para poderem animar-se,haviam combinado que não beberiam até porque ainda precisariam voltar para a cidade.

Mesmo se divertindo,mesmo dançando,Itziar sentia que algo estava errado,ela tentava afastar tais pensamentos,mas não conseguia. Em um momento se distraia e no outro já estava pensando nisso novamente.  

✽✽✽

— Essa é a última música._Itziar gritou em meio ao som alto enquanto dançava.A música que tocava no momento era "Bailame" do Nacho.Já passava das duas da madrugada e ela estava ficando cansada.

— Eu poderia dançar a noite toda._Ángel gritou de volta.Itziar fez uma cara feia,então ele logo tratou de completar._Mas,eu sei que temos que ir._Ele sorriu para ela.

Dito isso,a música cessou e deu lugar a uma outra que Itziar ainda não conhecia. 

Logo ela e Ángel saíram da pista já em direção às portas.Itziar estava impressionada porque durante toda a noite Ángel tinha se mostrado um bom amigo,e nada mais do que isso.Era do que ela precisava no momento,um amigo e um pouco de felicidade.

Assim que passaram pelas portas da enorme boate,o frio os atingiu.Itziar vestiu o blazer,que havia tirado depois de dançar três músicas. 

— Espero que tenha gostado da noite._Ángel falou assim que os dois chegaram até a moto.  — A noite foi maravilhosa._Ela sorriu largamente pegando o capacete._Obrigada. Ángel subiu primeiro na moto,e depois Itziar subiu,dessa vez sem ajuda.

Estava um pouco mais confiante do que mais cedo.Ángel acelerou e os dois entraram na pista,como já era tarde,quase não haviam carros durante o percurso.Vez ou outra havia um caminhão que eles tinham que ultrapassar.

Itziar olhou por cima do ombro de Ángel a velocidade na qual já iam,160 km/h. Assustou-se com isso,já que antes desse dia não subiria em uma moto nem forçada,apertou ainda mais as mãos em volta da cintura de Ángel.

Como se percebesse o medo dela,ele diminuiu a velocidade da moto para 140 km/h, não era o suficiente para Itziar sentir-se segura, mas já ajudava.

A garota animou-se quando viu as luzes da cidade,os dois já estavam perto.

 Impressionantemente a noite havia sido maravilhosa,e ela esperava que houvessem mais dessas.

— Estamos chegando._Ángel virou o rosto de lado e falou.Depois disso,tudo aconteceu muito rápido,Itziar abriu a boca para responder,mas ao invés disso gritou,um carro vinha na direção deles.Não deu tempo para o homem virar a moto e desviar do carro,já estavam perto demais.

Itziar sentiu a batida e fechou os olhos, a sensação que sentiu depois disso foi como a de voar,um frio invadiu sua barriga,mas isso durou apenas alguns segundos.Logo ela sentiu um baque forte contra algo sólido,rolou algumas vezes e parou por cima de algo relativamente macio.

Forçou-se a abrir os olhos,com muita dificuldade conseguiu,o corpo todo doía e ela não conseguia se mover.Ouviu um chiado angustiante seguido de uma explosão,o céu tomou a cor laranja e ela sentiu um dos braços queimar.

A cabeça doía mais do que qualquer outra parte do corpo,forçou um pouco o pescoço e conseguiu mover a cabeça,mas logo perdeu as forças batendo-a contra o chão e depois disso veio o escuro.


ÁLVARO ANTÓNIO MOLINER 

Uma hora,quarenta e cinco minutos e vinte segundos depois.A correria estava grande na central de emergências do hospital de Bilbao,o homem havia acabado de terminar uma cirurgia quando informaram que havia um acidente em uma estrada próxima à cidade e que trariam as vítimas para lá.Ninguém falou muito sobre o acidente,apenas que haviam dois jovens em uma moto e um casal com uma criança dentro do carro.

Os dois haviam colidido e os jovens foram arremessados da moto,o garoto havia morrido na hora,a garota estava viva,mas durante o percurso já havia tido duas paradas cardiorrespiratórias.O casal estava em estado grave e a criança também,lutando entre a vida e a morte.

Três ambulâncias haviam sido enviadas para o local e estavam prestes a chegar.Álvaro havia ficado encarregado de tratar da jovem que estava na moto,esperava na emergência do hospital para que pudesse fazer tudo o mais rápido possível,não perderia outro paciente.

As sirenes da ambulância soaram alto pelo estacionamento da emergência,Álvaro correu para perto dos elevadores e acionou um deles,mais um médico e dois enfermeiros apareceram ao seu lado.

A ambulância estacionou próximo ao elevador e os paramédicos rapidamente desceram e abriram a porta,dois deles pegaram a maca onde a paciente estava imobilizada e desceram da ambulância,Álvaro se aproximou da maca para ajudar a conduzir a paciente com cuidado. Quando olhou para o rosto dela,suas pernas quase falharam,não era uma jovem,era A jovem.

Aquela que atualmente tomava conta de seus sonhos,aquela por quem ele mantinha uma paixão secreta.Seu coração se apertou quando a viu naquele estado,ele não podia perdê-la,precisava salvá-la a qualquer custo. Voltou à realidade,apressou os paramédicos e entrou no elevador,encarou mais uma vez o corpo de Itziar naquela maca,iria salvá-la.


Uma hora,dez minutos e cinquenta segundos antes.Itziar abriu os olhos,o corpo doía e a cabeça ainda mais,haviam luzes piscando sem parar no local.Ela só conseguia olhar para o céu,queria mover a cabeça,mover o corpo,mas não conseguia.Haviam muitas vozes e sons no local,Itziar tentou se concentrar para ouvir o que diziam.

— Vamos precisar levá-la com urgência ao hospital._Era a voz de um homem.

— Ela sofreu um traumatismo e tanto na cabeça._Era uma voz masculina também, mas diferente da outra._Ela acordou,vamos colocá-la na maca.No três.

— Um,dois,três._As duas vozes falaram juntas.

Itziar sentiu o corpo ser levantado e tocar algo, que deveria ser a maca.Ela queria gritar de dor naquele momento,mas não conseguia,não conseguia fazer nada.Sentiu algumas lágrimas escorrerem pelo rosto,ardendo como brasa ao tocar em uma de suas bochechas.

A única coisa que via antes,o céu,havia sido substituído por um teto totalmente branco.Os olhos de Itziar doíam juntamente com a cabeça,em uma fração de segundos ela os fechou.Então o escuro tomou conta dela novamente,a última coisa que ouviu foi uma frase falada pela voz do primeiro homem.

— Ela está tendo uma parada cardiorrespiratória._Depois disso não havia nada.

Três minutos depois.

Itziar voltou a abrir os olhos,ouviu as vozes comemorarem algo,não entendia bem o que.A dor só parecia aumentar,ela se esforçava para manter os olhos abertos,mas não estava conseguindo.

Antes de fechar os olhos,Itziar torceu para que tudo aquilo acabasse, ela desejou morrer,não queria continuar com aquela dor insuportável.Fechou os olhos e esperou que tudo acabasse,em minutos não havia mais nada o que sentir ou ouvir.


Uma hora,quarenta e oito minutos e cinquenta e seis (56) segundos depois.

— Levem ela para a sala de cirurgia, não podemos perder tempo._Álvaro gritou enquanto corria atrás da maca. 

— Doutor,achamos que a paciente sofreu um Hematoma epidural (1),precisamos fazer um exame antes de fazer a cirurgia._Um dos paramédicos falou,Álvaro sentiu o coração apertar novamente.Quanto mais tempo perdessem,menores eram as chances de salvar Itziar.

— Faça os exames o mais rápido possível, quero isso para ontem._Álvaro praticamente gritou._Não vamos perder essa jovem._Ele falou para todos, mas para si estava falando "Eu não vou perdê-la." 

O hematoma epidural havia sido confirmado uma hora depois que os médicos levaram Itziar para fazer os exames,depois disso a correria para salvar a vida dela foi grande,Álvaro nunca havia se dedicado tanto a um caso como estava se dedicando ao dela. 

Infelizmente ela também havia quebrado uma costela,e quando o dia amanheceu precisou fazer outra cirurgia,essa Álvaro não comandou, apenas acompanhou, já que a sua área era a neurológica.

Quando a cirurgia acabou,Álvaro estava extremamente cansado,mesmo com os conselhos de seus colegas dizendo que ele deveria ir para casa e descansar um pouco, mas ele se recusava a deixar Itziar sem seu acompanhamento mesmo que por poucos minutos.

Ele estava no hospital já fazia mais de vinte e quatro (24)horas,a noite havia sido agitada,mesmo antes do acidente de Itziar.Os olhos de Moliner mal ficavam abertos quando ele se recostava em alguma cadeira,o cansaço já estava tomando conta dele,mas ele tinha prometido a si mesmo que só sairia dali quando os parentes dela chegassem.Ele precisava deixá-los seguros,precisava daquilo não só por eles,mas por si mesmo.

Álvaro levantou da cadeira e foi em direção a cafeteira da sala de descanso do hospital. Enquanto preparava o café,ele tentava afastar de sua cabeça os pensamentos de que ela poderia não resistir.Ela resistiria e ficaria bem, ele tinha certeza disso porque faria de tudo para que isso acontecesse,não perderia mais ninguém importante na sua vida. 

Quando o café ficou pronto,Álvaro ouviu seu nome ser chamado nos Alto falantes,tomou dois goles do café,que desceram queimando por sua garganta,e apressou-se em ir para a sala de espera.O café já não fazia mais tanto efeito, depois de anos tomando bastante dele todos os dias,o organismo já havia acostumado com aquela dose de cafeína e não ficava mais tão ativo.

Ao chegar na sala de espera,Álvaro parou,olhou para os parentes de Itziar e sentiu-se meio receoso,era horrível ter que dar notícias tão ruins a eles,isso não se encaixava só nesse caso,mas sim em todos os casos.Ver o sofrimento nos olhos das pessoas causava dor a ele,mesmo depois de tantos anos trabalhando assim.A primeira pessoa que Álvaro encontrou foi Sérgio,o rosto dele estava abatido e ele não estava próximo a Raquel.Álvaro se aproximou e colocou a mão no ombro do colega.

— Tudo bem?_Ele perguntou com receio,sabia que não tinha como estar bem naquela situação.

— Na medida do possível,sim._Sérgio sorriu fraco._Como ela está?

— Estável.Infelizmente não sabemos quando ela vai acordar e nem como vai estar quando acordar._Álvaro afirmou com pesar na voz, por algum motivo falar aquilo alto doía nele._Ela sofreu um trauma muito grande na cabeça e infelizmente o amigo dela não resistiu.

— Eu ainda tinha esperanças de alguma notícia boa._Sérgio falou baixo,quase que para si mesmo._Acho que na minha vida a felicidade nunca vai estar completa,sempre foi assim e sempre será assim.O dia mais feliz da minha vida se tornou um dos mais tristes em um piscar de olhos.

Quando ouviu Sérgio falar aquilo,Álvaro sentiu-se mal pelo colega.Ele sabia sobre o pedido de casamento,até tinha dado três dias de folga para Raquel,tanto por causa do noivado quanto por causa do aniversário dela, que era exatamente naquele dia.

— Eu sinto muito por isso,Sérgio.Mas vou fazer o que puder para salvar a sua cunhada._Álvaro falou dando dois tapas de leve no ombro de Sérgio.Aquilo poderia não ser muita coisa, mas para eles tinha um significado enorme.

— Tenho certeza que vai._Sérgio afirmou e tentou sorrir.

— Eu preciso ir a um lugar antes de tudo._Álvaro falou e se despediu do colega. 

Caminhando rapidamente até a sua sala.  Chegando lá,ele pegou uma caixinha que continha um colar de ouro com um mini estetoscópio de pingente na ponta,ele havia comprado isso a pouco mais de uma semana para dar de presente a Raquel pelo seu aniversário,ele sabia que aquela não era a melhor hora para se fazer isso.

Mas queria dar todo o apoio possível a ela,e alegrá-la,mesmo que por alguns segundos,já podia ajudar muito. Ele saiu da sala e voltou à sala de espera, encontrou Raquel em um canto conversando com uma mulher que parecia fisicamente com Itziar,deveria ser a mãe dela.Caminhou até elas, logo Raquel levantou e com um olhar esperançoso perguntou.

— E aí?_Podia ser só uma palavra,mas Álvaro sabia o quanto perguntar algo mais específico doeria.Ele havia passado por isso.

— A cirurgia foi um sucesso,mas ela ainda está em coma,as visitas vão ser liberadas a partir de amanhã.Vá para casa e descanse,Raquel,não vai precisar trabalhar essa semana._Ele falou e deu um sorriso fraco para ela.

— Não vou conseguir,Álvaro,ela é a minha irmãzinha.Me sinto tão mal por ela estar nesse estado._Álvaro sentiu o coração apertar ao ouvir aquelas palavras.

— Eu entendo,Raquel._Ele falou e a puxou para um abraço._Lembra do meu sobrinho?Ele era como um irmão mais novo para mim também. Essas coisas não escolhem idade ou gênero, simplesmente acontecem.Vamos torcer para que ela fique bem e eu farei de tudo para salvar a sua irmã._Ele fez uma pausa._E eu sei que é o seu aniversário.

Ele falou e ela se afastou surpresa.

— Quem te contou?_Ela sussurrou.

— Seu noivo._Ele sorriu fraco, tirou uma caixinha do bolso e entregou a ela._Parabéns,Raquel.

— Obrigada._Álvaro observou algumas lágrimas surgirem nos olhos de Raquel

 — Eu adorei._Sorriu fraco.

— Ei,eu vou salvá-la._Ele falou assim que viu as lágrimas escorrerem pelo rosto de Raquel._Vou dar o meu melhor por ela, pode ter certeza disso.

Ela não respondeu nada,apenas confirmou com a cabeça.Álvaro pediu licença e começou a caminhar em direção ao quarto de Itziar ele precisava vê-la.Ele queria realmente salvar Itziar,não só por ela ser irmã de Raquel,mas havia outro motivo desconhecido até por ele.  Voltou para o quarto onde Itziar se encontrava e sentou-se em uma cadeira ao lado da cama dela.Pegou a mão direita dela e envolveu no meio de suas mãos,como havia feito na noite anterior.

— Ei,menina,eu acho que consegui acalmar a sua irmã um pouco.Hoje é o aniversário dela,sabia?Ela sente tanto a sua falta._Ele deu uma pausa suspirando._Todos sentem._Até eu.Ele pensou._Espero que,de onde você está, consiga me escutar.Não sei o que você tem, mas sinto que você é especial,assim como a sua irmã.E quero que saiba que todos esperam a sua volta,queria ter te conhecido melhor em outro momento._Ele deixou uma lágrima escapar.Não podia se envolver emocionalmente com os casos do hospital,mas não tinha como não sentir por aquela família,pela menina que estava ali de cama,desacordada._Leve o tempo que precisar para se recuperar,menina,mas tente não demorar muito,todos sentem a sua falta.Eu virei conversar com você todas as noites e estarei aqui quando você acordar, mesmo você não sabendo quem eu sou._Ele se inclinou e deu um beijo na testa dela e depois colocou,gentilmente,a mão dela na cama.  

Levantou-se da poltrona e olhou novamente para ela,seu belo rosto agora tinha um corte que ia do início da sobrancelha até a bochecha,os braços tinham diversos arranhões e cortes,as mãos também tinham arranhões e a perna que havia sido quebrada estava envolvida em uma bota de gesso,suspensa no ar.

Olhou o prontuário que estava preso ao pé da cama e depois saiu do quarto,dando apenas uma última olhada nos batimentos cardíacos antes de ir.Se dirigiu até a sua sala, cumprimentando rapidamente a secretária que estava ao telefone.

— Espere,Doutor Moliner_A secretária gritou e ele voltou rapidamente._Telefonema na linha 2, é a Luna._Ela falou com a mão cobrindo o telefone. 

— Pode transferir._Ele se apressou em ir até a mesa.

Nesses últimos dias,Luna já havia ligado diversas vezes e ele tinha quase certeza de que ela estava querendo aprontar algo.A menina era a irmã mais nova de Álvaro,com apenas quinze anos já havia passado por mais colégios internos do que qualquer outra pessoa em toda a sua vida,ela era pura confusão por onde passava. 

— O que você quer?_Ele atendeu de modo grosseiro.

— Meu Deus,Ál,que mau humor._Ela reclamou do outro lado da linha._Eu só queria te comunicar que estou namorando.

Ela disparou e Álvaro sentiu o rosto queimar de raiva.

— O que?!_Ele gritou ao telefone.

— Brincadeirinha._Ela começou a gargalhar.

— Seu rosto deve estar vermelho como um pimentão,sabe,já está na hora de você arrumar uma namorada e largar do meu pé._Ela falou em um tom divertido.

— E que tal você falar logo o que quer,pirralha?_Ele falou mais calmo dessa vez.  — Nada,eu hein!Só estava com saudades do meu irmão preferido.

— E eu sou o coelhinho da Páscoa._Ele zombou._Escute,Lu,eu preciso ir,não apronte nada. 

— Não posso prometer isso._Ela falou e desligou na cara dele.Álvaro olhou para o telefone perplexo.

 ✽✽✽

O seu turno de trabalho estava prestes a acabar,e depois de olhar como a senhora Anderson estava,uma senhora de idade que havia feito uma cirurgia para retirada do apêndice,ele resolveu passar novamente no quarto de Itziar e olhar se ela havia apresentado alguma melhora.

Ele andou devagar pelos corredores e entrou no quarto em silêncio,não que isso fizesse alguma diferença naquele momento,pois se barulho a acordasse com certeza ele faria muito.

Sentou-se novamente na cadeira ao lado da cama dela e pegou sua mão.Ficou em silêncio por alguns momentos apenas a observando, fora o corte em sua face tudo parecia normal,era como se ela tivesse apenas dormindo.

Já tinha visto diversas pessoas no mesmo estado em que ela se encontrava,mas nunca havia sentido o que estava sentindo naquele momento. 

— Ei,garota,aqui estou eu de novo.Não te disse que voltaria à noite?!Eu vou precisar ir embora daqui a pouco,mas amanhã cedo eu volto para conversar mais com você.Sabe,foi difícil convencer os seus familiares a irem descansar, eles são muito teimosos,mas tive uma pequena ajudinha da sua irmã.Ela os convenceu de que eu cuidaria muito bem de você,e é isso que vou fazer._Ele suspirou,e encarou o rosto dela._Quando eu for embora,um outro médico tomará conta de você,e acho que você já o conhece muito bem.Sérgio,o seu cunhado.Ele é um ótimo médico,claro que eu nunca direi isso a ele,mas eu reconheço que ele é.Espero que você fique bem,lute com todas as suas forças para voltar,pequena._Ele deu um beijo na testa dela._Até amanhã.

Ele se levantou e percebeu alguém o olhando na porta.

— Você ouviu?_Ele perguntou a Sérgio.

 — Tudinho._Sérgio abriu um sorriso._Obrigado pelo elogio. 

— Nunca irá ouvir isso novamente,sabe disso,não sabe?!_Ele sorriu.

— Sei.Mas já é o suficiente.Você gosta dela?_Sérgio perguntou andando até perto do aparelho que media os batimentos cardíacos.  — Não sei,mas vê-la nesse estado realmente mexeu comigo._A verdade era que Álvaro gostava dela. 

— Ela é uma pessoa maravilhosa._Sérgio falou sorrindo.

— E sei que ela adoraria acordar e continuar te tendo por perto.

Sérgio falou e Álvaro ficou sem graça por um tempo,depois de mais algumas palavras, foi embora, entrou em seu carro já pensando em voltar para lá.Queria dar o melhor de si para não perder Itziar como perdeu o sobrinho.


ITZIAR ITUÑO MURILLO.

Foram longas horas no escuro,várias vezes indo e voltando entre a vida e a morte.A garota estava totalmente desesperada,conseguia ouvir tudo o que se passava ao seu redor como se houvessem caixas de som em algum canto daquele escuro,mas nada via. 

Aquela escuridão era agonizante e o medo já tomava conta dela,ela não sabia se estava em pé,se estava deitada ou até mesmo onde estava. 

Até aquele momento nenhuma das vozes ou sons que ouvia pareciam conhecidos, todos os sons que escutava não eram nítidos o suficiente para se entender.

Sabia que eram pessoas falando,carros buzinando,mas não conseguia ouvir bem.Talvez não quisesse ouvir, tinha medo do que poderia escutar daquelas pessoas.E se estivesse morta?Tinha tanto para viver ainda que não conseguia imaginar essa possibilidade.

Aquele misto de vozes e confusões durou até que ela escutou ao longe uma voz conhecida,a princípio não conseguiu entender o que a voz dizia,mas desejava tanto ouvi-la que se esforçou.

Os sons ficaram mais nítidos,o escuro começou a sumir e deu lugar a uma luz intensa e branca.Ela reconheceu a voz,aquela voz que fazia seu coração acelerar,suas mãos ficarem trêmulas.

Era Álvaro,ele pedia para que ela voltasse e dizia que todos sentiam sua falta.  Meio desnorteada,Itziar olhou a sua volta,ela estava em um tipo de prédio,não tinha nenhuma luz natural,apenas várias lâmpadas fracas no teto do corredor.

Ela olhou para os lados e haviam vinte e uma portas,dez de um lado e dez do outro e uma à sua frente no final do corredor, atrás dela só havia a parede pintada em um tom de vermelho escuro,mesmo com iluminação aquele lugar era sombrio.

Itziar já não conseguia se concentrar na voz de Álvaro,estava hipnotizada por aquelas portas,talvez uma delas fosse a sua saída daquele lugar,seja lá o que fosse.

Ela ouviu ao longe uma última frase dita por Álvaro"Eu virei conversar com você todas as noites e estarei aqui quando você acordar, mesmo você não sabendo quem eu sou.".Ela sabia que aquela frase era uma despedida,tentou gritar para que ele voltasse,estava com medo de afundar no abismo novamente,mas ele já tinha ido.

Itziar fechou os olhos esperando que o escuro voltasse novamente,mas não foi isso o que aconteceu,quando ela abriu os olhos tudo estava do mesmo modo.

Suspirou aliviada e passou a mão pelos cabelos,era estranho como tudo ainda parecia estar em seu devido lugar mesmo depois do acidente que sofrera, as roupas e a pele estavam intactas.

Um brilho forte vindo da fechadura de uma das portas do corredor chamou a atenção de Itziar,ela caminhou até a porta e com receio colocou a mão sobre a maçaneta,aos poucos ela girou a maçaneta e foi abrindo a porta.

A forte luz invadiu todo o local,cegando-a por alguns segundos,quando a visão dela se ajustou à luz,ela conseguiu reconhecer um jardim enorme,tirou a mão da maçaneta e entrou.Ao contrário do corredor,o que havia dentro daquela porta era totalmente iluminado, tudo estava muito verde,como se fosse primavera. 

 — Tizia,cadê você?_Itziar ouviu a voz da mãe e se assustou._Eu vou te achar, sua menina sapeca.

A mãe falava de um modo diferente.Itziar começou a olhar em volta e logo achou ao longe a mãe,ela estava mais nova,com um sorriso enorme no rosto.O liso preto caia sobre os ombros e ela usava um vestido florido.

Algumas lágrimas se formaram em seus olhos e começaram a cair pelas bochechas,ela realmente estava ali,a mãe olhava para ela com felicidade e estava com os braços estendidos pedindo um abraço.

Itziar secou as lágrimas com as costas das mãos antes de começar a andar, mas antes que ela conseguisse dar o primeiro passo uma menininha de curto cachos castanhos passou correndo e se jogou nos braços de sua mãe.

— Eu achei você,mamãe!_A menininha falou com uma voz doce e começou a rir.  

— Tizia!_ Dessa vez Itziar ouviu a voz do pai,olhou para o seu lado esquerdo,de onde vinha a voz e viu seu pai,também com uma aparência mais jovem.

— Papai!_ A menininha se remexeu no colo da mãe até que conseguisse se desvencilhar e correu até o pai.

Foi nessa hora que Itziar se deu conta do que estava acontecendo ali,aquela menina era ela mais nova e tudo aquilo não passava de uma lembrança.Numa tentativa falha de chamar a atenção da mãe,Itziar andou até ela e tocou o seu ombro,mas a mão passou direto e ela quase caiu.

— Você veio,papai._A voz doce da menina chamou a atenção de Itziar,ela olhou para onde a menina e o pai estavam.

— Eu nunca perderia o aniversário de quatro anos da minha princesinha._O pai de Itziar falou enquanto acariciava os cabelos da menina.

— Pai!_A menina exclamou._Agora eu já sou uma adulta.

Ela cruzou os bracinhos e fez um enorme bico.Itziar sorriu com aquilo,algumas lágrimas escorreram pelas suas bochechas,mas dessa vez eram lágrimas de felicidade.

— Eu sei,minha linda._Ele falou e colocou a pequena Tizia no chão._Agora vá lá para junto dos seus amiguinhos que o papai e a mamãe precisam conversar.

A pequena Tizia correu para o outro canto do jardim,onde haviam algumas mesas e várias pessoas,crianças corriam,estouravam balões. Itziar não conseguiu fixar muito o olhar naquele canto,estava mais interessada na conversa que os pais teriam.

— Eu preciso ir._Prieto falou e Itziar observou o rosto sereno da mãe ficar raivoso em instantes.  — Você acabou de chegar!_ A mãe de Itziar respondeu num tom pouco alto,talvez quisesse gritar,mas tinha medo de chamar a atenção de todos na festa.

— Eu só vim trazer um presente para ela,não posso ficar mais._Ele respondeu com uma voz calma e quase fria,Itziar sentiu raiva do pai naquele momento. 

— Você não pode tratá-la desse modo,Prieto.Ela também é sua filha.Não é justo que fique escondendo ela de todos,o erro foi seu,não nosso,então dê um jeito de assumi-lo._ A mãe de Itziar respondeu com raiva,parecia que a qualquer minuto iria voar para cima dele.  — Você sabe que não posso fazer isso._Ele falou em um tom mais alto agora. 

— Pare de ser egoísta uma vez na vida._Piedade gritou. _Você está magoando ela._Os olhos da mulher  estavam cheios de lágrimas,mas ela parecia se recusar a deixar que elas caíssem._Ela é apenas uma menininha,Prieto.Cada vez que você vai embora,o coração dela se parte.

Agora as lágrimas escorriam sem parar pelo rosto de Maria Piedade e Itziar também já chorava,estava com muita raiva do pai.

— O coração dela ou o seu?!_Prieto falou de modo frio._Eu já vou Piedade,entregue o presente a Itziar por mim.

Ele entregou uma grande caixa para ela.A mulher estava chorando silenciosamente quando a pequena Tizia chegou e abraçou uma de suas pernas,rapidamente ela tentou enxugar as lágrimas e se recompor. 

— Mamãe?_A pequena puxou a barra da saia da mãe. 

— Oi,minha linda._Piedade se abaixou e a pegou no colo.

— Aonde o papai foi?_Tizia perguntou e Itziar percebeu no rosto da pequena uma expressão triste.

— Ele precisou ir embora,mas deixou esse presente._Maria Piedade colocou a pequena no chão em frente a grande caixa.

— Eu não quero presentes,já ganhei muitos.Eu quero o papai._A expressão no rosto da menina partiu o coração de Itziar,ela sentiu vontade de correr atrás do pai e bater nele por ser tão idiota.

A luz foi ficando mais intensa novamente até que tudo ficasse totalmente branco,aos poucos a luz foi diminuindo e os olhos de Itziar foram acostumando com a falta de luz do novo ambiente.

Ao olhar ao seu redor,a mulher percebeu que estava de volta ao corredor e a porta por onde havia entrado já não existia mais,restavam vinte portas.

Instintivamente,Itziar caminhou até a porta do lado contrário do corredor,girou a maçaneta,empurrou,girou novamente,mas a porta não abria.Repetiu o mesmo movimento em todas as outras dezone portas,mas nenhuma delas se abriu.Exausta,encostou na parede e deixou o corpo escorregar até o chão,caindo no choro.



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