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História Cyberpunk - Capítulo 1


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Notas do Autor


Uma adaptação de algumas obras literárias e séries dentro do universo Cyberpunk.
Para quem não conhece é um subgênero alternativo de ficção científica, mesclando tecnologia avançada e um futuro distópico com pessoas marginalizadas, solitárias que vivem à margem da sociedade. Uma fronteira evidente entre o real e o virtual.
O mundo Cyberpunk é um lugar sombrio, onde computadores ligados em rede dominam todos os aspectos da vida cotidiana. Empresas multinacionais gigantes substituem o Estado como centro do poder.

Capítulo 1 - Olá amigo?


Fanfic / Fanfiction Cyberpunk - Capítulo 1 - Olá amigo?

 

 

Lauren POV

Olá amigo.

Olá amigo? Ah isso é tosco. Talvez eu devesse te dar um nome, mas seria uma falácia da derrapagem. Você só está na minha cabeça. Droga! Aconteceu mesmo, to falando com uma pessoa imaginária.

Mas o que eu vou te contar é super secreto, uma conspiração maior que todos nós.

Há um grupo poderoso de pessoas que secretamente dirigem o mundo. To falando dos caras que ninguém conhece, os caras que são invisíveis. O 1% mais rico do 1% mais rico. Os caras que brincam de Deus, sem permissão.

E agora acho que eles estão me seguindo.

*Freios estridentes ecoam*

INT. Metrô Chiba City, Tokyo – 06:45am

Observo alguns punks com seus moicanos coloridos e visual agressivo que fogem dos padrões da socialização, com sua rebeldia discutindo suas ideologias com um salaryman(homem assalariado de baixo escalão, particularmente aqueles que trabalham nas corporações).

O capuz do moletom preto cai perfeitamente na minha cabeça, tampando praticamente meu rosto todo.

Espreito o olhar para os dois homens misteriosos em pé vestidos de terno, um de cada lado do metrô. Um deles lê o Tokyo Post, um tipo de jornal holográfico em um tablet de tecnologia avançada. O outro olha para frente, desconfiado.

Tem haver com a noite passada. Quando fui ao...

Flashback On

Uma placa neon em formato de Ganesha(um dos deuses mais celebrados na Índia) escrito "Ron's Coffe" é exibida no letreiro do lugar. Uma pequena cafeteria indiana no subúrbio de New Dheli, distrito de Downtown. Entro e vejo alguns clientes conversando. Sento-me em uma mesa bem no fundo da cafeteria, com alguns símbolos espalhados e uma estátua de Shiva bem no canto. Parece ser aconchegante apesar das pessoas ao redor... Com o capuz ainda na cabeça, minhas pernas batem nervosamente.

Então observo atentamente como um indiano de cabelos negros, pele morena e bigode entra.

Esse é Ron-penso reconhecendo-o.

Ele pede algo no balcão e logo senta em uma das mesas ali perto. Pega algo parecido com um iPad e bebe um gole do líquido no copo, parecendo aproveitar tranquilamente a noite.

Reúno coragem com uma respiração profunda, coloco a mochila no ombro e me aproximo lentamente. Sentando em sua frente sem dizer uma palavra. Retiro o capuz e arrumo um pouco meu cabelo bagunçado, arrumando-o para o lado e revelando meu sidecut.

Ron olha para mim.

-Você é Ron-digo e aponto para uma placa pendurada na parede-confuso, Ron continua encarando- Mas seu nome verdadeiro é Rohit Mehta. Você mudou para Ron quando comprou sua primeira cafeteria Ron's seis anos atrás. Agora você tem 17 delas, com mais 8 no próximo trimestre.

Um silêncio constrangedor aparece. Ron inclina a cabeça, sem saber se deveria ficar lisonjeado ou preocupado.

-Posso ajuda-la com alguma coisa?-ele então pergunta com um forte sotaque indiano.

-Eu gosto de vir aqui porque seu Wi-fi é rápido. É um dos poucos lugares com conexão ótica e velocidade gigabit. É boa! –afirmo e continuo-Tão boa que coçou aquela parte da minha cabeça, a parte que não permite que o bem exista incondicionalmente. Então, eu comecei a interceptar todo o tráfego da sua rede. Foi quando reparei uma coisa estranha-digo e observo-o curioso- ...Foi aí que decidi hackear você.

Outro silêncio paira e Ron se inclina novamente travando o maxilar.

-Hack..-interrompo

-Eu sei que você administra um site chamado Lolita City-digo de uma vez.

-Desculpe-me?-pergunta ainda confuso.

-Você está usando a rede Tor para manter os servidores anônimos. Você tornou muito difícil para alguém ver, mas eu vi.

Apesar de parecer um pouco nervosa no começo, minha confiança aumenta à medida que continuo falando.

-Todas as suas informações e dos usuários. Datas de nascimento, sobrenomes, carteira de identificação...-limpo a garganta-Quebrei sua senha em três minutos.

Já com uma expressão irritada e confusa Ron olha para mim com cuidado.

-Mas o que isso significa?-pergunta.

-O protocolo de roteamento do Tor, não é tão seguro quanto você pensa que é. Quem está no controle dos Nos de saída também está no controle do tráfego, o que me torna...aquela no controle-digo o deixando sem resposta.

-Eu devo pedir gentilmente que você saia daq...

Pego uma pasta de arquivos em minha mochila e coloco sobre a mesa.

-Eu possuo tudo. Todos os seus e-mails. Todos os arquivos. Todas as fotos, vídeos, etc.

Ron folheia algumas páginas e as fecha rapidamente.

-Saia daqui agora, ou eu ligo para a...-diz se levantando.

-Polícia? Você quer que eles descubram os 100 terabytes de pornografia infantil que você serve para seus 400 mil usuários?-digo rapidamente sem pensar duas vezes.

Ron fica atordoado, olha para baixo, encurralado e sem saída.

-Antes de descobrir eu estava esperando que fosse apenas um lance de BDSM dos velhotes. Você percebe o quanto isso seria mais simples?

-Eu não machuquei ninguém. Eu nunca fiz. Esse é o meu negócio, a minha vida pessoal.

Ele finge enxugar os olhos e a emoção começa a preencher seu rosto.

Finjo ter um pouco de pena e culpa. Mas internamente sinto uma raiva profunda dos infernos.

-Entendo como é ser diferente. Eu também sou muito diferente.-digo encarando-o- Quero dizer, não me masturbo olhando garotinhas, mas, não sei como conversar com as pessoas.-suspiro- Meu pai era o único com quem eu podia conversar. Mas ele morreu.-volto a olhar ao redor.

A princípio, Ron não sabe ao certo como agir. Mas sentindo uma oportunidade, ele respira fundo e assente simpaticamente.

-Sinto muito por ouvir isso. Como ele morreu, posso perguntar?

-Leucemia. Definitivamente, ele recebeu uma radiação na corporação em que trabalhava, embora eu não pudesse provar. Agora ele está morto. Mas a empresa está bem-ironizo.

Ron começa a se emocionar e finjo acalma-lo.

-Ei. Está tudo bem, Rohit. Você não precisa mais se preocupar.

Ron olha voltando com sua expressão de raiva.

-Eu não entendo. Você está me chantageando? Então é isso que se trata. Dinheiro. É isso que você quer né? Mas não. Se eu pagar agora, você vai querer mais e mais. Não importa o quanto eu te der. Você informará a polícia de qualquer maneira. Eu não vou pagar. Lembre-se, você também violou a lei.

Concordo com a cabeça. Olho pela janela, como se estivesse procurando alguma coisa.

-Na verdade você está certo. Parcialmente. Veja, eu costumo fazer esse tipo de coisa no meu computador, mas desta vez eu queria faze-lo AFK. Em pessoa. Sabe, estou tentando trabalhar na minha ansiedade social. Mas sempre há a ameaça de você fugir depois que eu te chamo.

Inclino o corpo e começo a fechar a mochila me preparando para levantar.

-Você diria ao administrador do sistema para derrubar seus servidores e limpar todos os dados-digo e levanto, colocando a mochila no ombro- Então me certifiquei de incluir a hora e o local atual na minha denúncia anônima.

Ron se levanta desesperado.

-Espere. Vou te dar o dinheiro. Quanto você quer? Eu te pagarei-pergunta desesperado.

Sirenes podem ser ouvidas se aproximando. Luzes rodopiam do lado de fora das janelas.

-Essa é a parte que você errou, Rohit. Eu não dou a porra da mínima para o dinheiro.-e saio rapidamente deixando-o para trás.

Policiais correm em direção a cafeteria enquanto passo por eles, deixando o caos cercar Ron destruído.

Flashback Off

De volta ao metrô.

Acordo dos pensamentos. Olho os dois homens de terno que ainda sorrateiramente olham para mim.

Agora estou sendo seguida. Os superiores não gostam dos meus poderes. Em três minutos eu destruí os negócios, a vida e a existência de um homem. Eu o deleitei.

No outro extremo do trem lotado, um homem velho boceja alto. Ele parece um americano que foi forçado a mudar. Usa calça cargo e o que parece ser uma camisa escrito: Reparo de computador, com um sorriso. Abaixo dele, um logotipo: Robô. Olha para mim com um sorriso de canto enquanto alisa sua barba desgrenhada. Mas não sorrio de volta. Em toda a multidão de pessoas, o homem grita:

- Ei! Ei você. Ei, garota. O que está olhando?-pergunta mostrando um tom levemente embriagado.

Não respondo. Em vez disso, desvio o olhar, fingindo que não ouvi.

- Momento emocionante no mundo agora. Momento emocionante.-diz como se soubesse de algo.

O Sr volta a deitar esparramado, retornando ao seu sono no banco do metrô.

Chego na próxima estação e saio do metrô subindo as escadas.

Caminho pelas ruas movimentadas da Corporate Plaza, o maior centro de corporações de Tokyo. Evitando cuidadosamente o toque de outros seres humanos. Pessoas apressadas andam correndo para seus trabalhos. Enormes arranha-céus e outdoors holográficos cercam a rua.

Chego então ao edifício em que passo praticamente o dia todo.

Subo aquele elevador transparente observando a cidade toda lá embaixo e entro nos modestos escritórios da AllSafe Cybersecurity, como anunciado pelo logotipo corporativo.

Sou apenas uma hacker vigilante na noite. De dia, apenas uma engenheira de segurança cibernética regular, funcionária n°ER28-0652.

Quando entro na enorme sala com várias mesas e pessoas trabalhando, vejo de longe o chefe da AllSafe, Franklin Gideon, um metrossexual barbudo com aparelho no ouvido em seu escritório enquanto Ally, uma garota loira do lado da porta olha para ele dizendo alguma coisa preocupada. Ele não querendo responde-la, sua atenção cai em mim e grita através de sua porta de vidro:

- Lauren, aqui!-e logo caminho até o pequeno escritório.

Consigo ouvir a conversa deles enquanto chego.

-Por todo o preço. Sim, eu posso totalmente, eu posso lidar totalmente com isso..-ela diz

- Olha..-ele diz mas chego interrompendo

Entro desconfortável por interromper, olhando curiosamente para Ally, que finge nem está lá. Gideon passa um arquivo para ela.

-Eles foram hackeados novamente. Noite passada.-Franklin diz me olhando.

-Gideon...-Ally o interrompe

Essa é minha colega de trabalho, Ally. Ela pode ser um pouco tensa às vezes, mas confie em mim, ela é uma das melhores.

Olho as anotações.

-O que estou olhando? É esse o código? Foi um ataque RUDY.

"RUDY Attack - Também conhecido como R-U-Dead-Yet? Essa ferramenta de ataques vai destruindo as sessões disponíveis no servidor web até elas morrerem."

Preocupado, Gideon assente. Balanço a cabeça impressionada.

-Isso é incrível..-digo vendo o código do ataque.

-Gideon, por favor, me responda?-Ally diz e ele ignora olhando novamente pra mim.

-Você acha isso incrível? Isto está nos ferrando, Lauren!-diz um pouco irritado.

-Gideon, eu não vou embora...-Ally insiste e ele olha severo.

-Ally, vamos ver como o reunião vai hoje. Eles estão sendo hackeados toda semana agora. Quem sabe se eles ainda serão nossos clientes.-Franklin suspira.

-Eles estão vindo?-pergunto curiosa.

Gideon assente confirmando. Ele olha para o minha roupa nada formal.

-O que dizemos sobre o código de vestimenta?-pergunta me fazendo lembrar.

Tiro o capuz e abre o zíper do casaco, revelando uma camisa social preta de botões por baixo. Odeio isso.

-Continue analisando esses códigos e esteja preparada para à tarde no caso deles terem alguma dúvida-Franklin diz e saio junto com Ally caminhando ao meu lado.

Enquanto andamos ela para e cheira algo em mim.

-Você voltou a fumar?-pergunta curiosa e ignoro.

-Lauren, você não recebeu minha mensagens ontem a noite? Eu enviei exatamente 32.-diz severamente aborrecida.

-Sim, desculpe, eu não consegui...-tento achar uma desculpa mas logo sou interrompida.

-Mas prometeu que ia tentar dessa vez..

FLASHBACK ON

Ontem à noite, caminho nervosamente até a entrada de um bar lotado. Através das grandes janelas do lado de fora, vejo Ally rindo, bebendo com os amigos dela. Minha mão vai para a porta, mas ela treme vendo toda aquela gente. 

Faz algum que tenho andado assim, ou melhor, acho que a minha vida toda. Sem vontade de interagir com as outras pessoas, me sentindo sufocada em lugares lotados. Parece que nada mais faz sentido, toda essa coisa de relações humanas e blá blá blá. O mundo se tornou tão superficial, com todas essas pessoas falsas e interesseiras. 

Ou talvez o problema seja eu. Sou uma grande esquisitona.

FLASHBACK OFF

-Pare de pensar em outra coisa quando estou falando com você. Eu odeio quando faz isso.-Ally diz me fazendo despertar.

-Desculpe baixinha, eu estava pensando no trabalho.-minto

-Talvez seja por isso que Gideon te ama tanto. Ele me agradece o tempo todo por ter te trazido pra essa empresa. Mas, por algum motivo, acho que você odeia isso aqui secretamente.-diz em tom de brincadeira.

Ela estava certa. Gostava de algumas pessoas ali, mas o negócio - uma empresa de segurança cibernética que protege corporações - não consigo pensar em nada que eu odeie mais.

-Não, eu gosto daqui.-minto e forço um sorriso amarelado.

Ally tenta encontrar algum vestígio de mentira na minha cara mas acabamos rindo.

-Sinto muito, Lauren. Estou de mau humor. Atrasada nos meus dois últimos pagamentos do aluguel e não consigo que Gideon me dê um aumento.-diz tristonha.

Um homem branco com cabelos escuros e roupa social com ar de superioridade se aproxima e beija Ally.

Reviro os olhos com nojo daquela cena.

-Ei.-Ollie cumprimenta ela.

-Oi.-a baixinha responde com sorrido tímido.

-Ei, Lauren. Senti sua falta na noite passada. Onde você estava?-vira para mim e o ignoro. Sem tempo irmão!

-Tenho que ir, grande reunião hoje.-digo saindo.

Não espero por uma resposta, desapareço rapidamente no labirinto de cubículos de mesas.

 

SALA DE CONFERÊNCIA - AllSafe

Em uma ampla sala de conferências cheia de executivos, programadores e vice-presidentes, Franklin fala sobre os hacks e a situação que a empresa se encontra.

-Os hackeamentos recentes na rede têm sido motivo de grande preocupação não apenas para eles, mas para esta empresa. Vamos verificar isso com detalhes mais tarde. Mas antes de entrarmos...

Em meu assento empurro a cadeira um pouco mais longe, observando com cautela. Na TV do canto, o MSNBC Tv reproduzindo um vídeo do ex-secretário de Defesa Leon Panetta. A conversa ao seu redor se afoga quando eu me concentro na TV.

"... há uma forte probabilidade de o próximo Pearl Harbor que enfrentamos poderia muito bem ser um ataque cibernético. Isso é o futuro dos gastos em defesa do país, engenheiros de computação com experiência em hackers. Este é o novo soldado, o soldado da inteligência..."

Sou despertada por um barulho e olho para meu colega de trabalho Chang, um engenheiro chinês, que come seu yakisoba fazendo aquele barulho irritante puxando o macarrão.  Forço um sorriso e volto minha atenção novamente para Franklin.

Com o fim da conferência todos voltam ao trabalho.

Meu cubículo é tão pequeno quanto uma prisçao. Passo o dia codificando em uma linha de comando do Linux, e meus fones de ouvido conectados, claro. Meus dedos fazem pausas rápidas apenas para buscar as batatas fritas na sacola. 

EXT. RUAS DE CHIBA CITY - 19:01pm

Percorro as ruas com mais facilidade quando não tem muitas pessoas. Com minha mochila nas costas, meus olhos vagam paranoicos.

A chuva cai como uma onda escura e nojenta de águas contaminadas que reuniu a sujeira e a poluição dos céus e edifícios, que permeia a cidade e leva embora a esperança e uma camada de rendição sobre o povo comum.

A chuva em Tokyo representa a desesperança e infunde nas pessoas uma melancolia que nunca pode ser abalada.

CONSULTÓRIO DE PSIQUIATRIA

Me sento diante da minha psicóloga Krista, uma mulher afro-americana esbelta que se esforça muito na juventude com um vestido curto.

Estamos nos encarando em silêncio.

- O que você está pensando?-pergunta

- Nada.

-Quer saber o que estou pensando? A primeira vez que você veio até mim.-me analisa

Eu não vim exatamente atê Krista. Eu fui forçada a estar aqui. Mas eu gosto dela. Hackear ela era simples. Sua senha: Dylan2791. Artista favorito e o ano em que ela nasceu, ao contrário. Embora seja psicóloga, é péssima em ler as pessoas. Mas sou boa em ler pessoas. Meu segredo: eu procuro o pior neles.

Eu sei que ela se divorciou há quatro anos. Sei que ela ficou arrasada com isso e agora namora perdedores no eHarmony desde então.

Uma foto de perfil de um sal e sem açúcar aparece. Ele é um sujeito rechonchudo, com um bigode e um sorriso simpático. Seu nome está listado como Michael Hansen.

Algo nele me incomoda.

Arranhando essa parte da minha mente novamente.

Olho para Krista.

-Você estava com tanta raiva. Você odiava todos. Foi o que você disse. E eu te disse, você não pode mudar o sistema odiando ele. Lembra daquilo?-ela disse

-Eu lembro disso.-respondo

-Eu sei que você não está gritando como antes, o que é bom. Mas eu posso dizer você ainda está segurando. Nós temos que lidar com seus problemas de raiva, Lauren. Você está com raiva de todo mundo, na sociedade.

Para e me analisa

-Você tem muito com o que se irritar, e acaba guardando para si mesmo, ficando quieta como você está fazendo, isso não vai ajudá-la. Há dor por baixo. É para onde nosso trabalho precisa ir.

Não falo nada e Krista percebe isso.

-O que há na sociedade que te decepciona tanto?-Krista pergunta

Me retenho enquanto meus olhos vagam pelo logo da Apple brilhando no laptop de Krista em sua mesa.

Lauren's Voice 

- Eu não sei, será porque nós coletivamente pensamos que Steve Jobs era um grande homem, mesmo quando sabíamos que ele fez bilhões explorando crianças?

Digo e meus olhos se voltam para o cartaz da Tour De France emoldurado em vidro pendurado na parede com Lance Armstrong.

-Ou talvez porque todos os nossos heróis são falsos, o mundo em si é apenas uma grande farsa.

Meus olhos voltam a se concentrar no reflexo da moldura de vidro, vendo o navegador de Krista no laptop dela está no Twitter.

- Assediamos uns aos outros com comentários imbecis disfarçados de opiniões, e as mídias sociais fingindo intimidade. Ou será porque votamos nisso? Não com nossas eleições fraudulentas.

Meus olhos agora percebem os acessórios caros de Krista. Brincos, relógio, sapatos, o livro "Jogos Vorazes" na mesa.

-Mas com nossas coisas, propriedade, dinheiro. Isso não é novidade. Sabemos porque fazemos isso. Não porque "Jogos Vorazes" nos fazem feliz, mas porque queremos ficar sedados. Porque é doloroso não fingir. Somos covardes. 

Foda-se a sociedade!

Saio dos meus pensamentos e volto á realidade respondendo Krista sobre o que me decepciona na sociedade.

- Nada.-pois é, as respostas foram apenas na minha imaginação. Não posso mais expor sobre minhas crises existenciais, as pessoas acham doideira, coisas de conspiração.

Krista se recompõe frustrada por não estar chegando a lugar algum.

- Não fique frustrada.-digo e ela olha confusa.

- Por que não deveria estar?

- Você é diferente da maioria. Você pelo menos tenta. Você pelo menos entende.

- Entende o que?-continua intrigada.

- Como é se sentir sozinha. Você entende a dor. Você quer proteger as pessoas disso. Você quer me proteger disso. Eu respeito isso em você.

Longo silêncio.

-Por que você acha que eu sei como é me sentir sozinha?-pergunta quebrando o silêncio.

Merda! Pelos e-mails dela! Mas esqueço que ela não sabe disso.

- Lauren...

- Eu não sei.-respondo

Krista deixa para lá e continua.

- Vamos falar sobre a noite passada. Você foi à festa de aniversário da Allyson?

FLASHBACK ON

Minha mão treme quando ela alcança a porta do bar. Transpiro enquanto fecho os olhos e tento me forçar a entrar, mas não consigo. A porta se abre, três pessoas saem. Eu rapidamente me afasta do caminho, evitando o contato físico a todo custo. Respiro e olho através das janelas novamente. Ally está feliz, cercada por amigos, curtindo seu aniversário. E pessoas. Muitas pessoas naquele lugar. Isso é o suficiente pra eu colocar a cabeça no capuz e ir embora...

FLASHBACK OFF

-Sim. Foi agradável.-respondo mentindo.

-Você tentou falar com alguém?-questiona.

- Claro. Eu tenho o número de uma garota.-e ela olha impressionada.

- Você tem?-por mais que eu não me abra muito para Krista, em uma sessão acabei assumindo minha sexualidade e ela não vê problema nisso.

-Ela é fofa. Ela gosta dos Jogos Vorazes.-digo abrindo um sorriso falso mas ela suspeita.

- Você está se escondendo de novo, Lauren. Quando você se esconde, seus delírios voltam. É uma falácia. Vamos falar dos homens de preto que você tem visto. Eles ainda estão lá?

- Não, eu disse que eles se foram. Os remédios que você me deu estão funcionando.

Logo depois de outra sessão com Krista vou para casa me apagando pelo sono e cansaço.

 

ESCRITÓRIO ALLSAFE- 11:45am

Estou digitando em meu computador. Olho para cima e percebo Ollie se aproximando. Ah de novo não, que cara chato. Relutantemente tiro os fones de ouvido.

- Ei Laur. Você quer almoçar hoje?-ainda por cima com essa intimidade toda?

- Não, eu tenho outros planos.-respondo seca.

- Outros planos. Certo. Foi o que você disse nas últimas três vezes que lhe perguntei.

Ele realmente ainda não sacou que não vou com a cara dele...

Ollie olha em volta.

- Olha, você e Ally são próximas há muito tempo, e essa é ainda mais uma razão pela qual quero que lidemos bem. Eu apenas sinto que as coisas são estranhas entre nós. Não é?

- Eu estou bem com isso sendo estranho entre nós.-respondo com sorriso forçado

-Hum, sim. Eu - eu - eu não estou bem com isso.-ri e responde sem jeito.- Olha, eu amo a Allyson, e quero que a gente se dê bem por ela. Quero dizer, é para isso que estou aqui. Eu apenas, eu - eu normalmente não faço coisas

Enquanto Ollie continua falando, meus pensamentos me tiram dali:

Eu sou tão louca por não gostar desse cara? Entre algumas de suas curtidas no Facebook estão..

"Pontos de decisão de George W. Bush, Transformers 2: Revenge of the Fallen e a música de Josh Groban"(algo atual meme hétero). Devo realmente me justificar ainda mais?

O dele era o mais fácil de hackear. A senha era 123456Seven.

Idiota.

Eu testemunhei seu primeiro "eu te amo" com Ally no Gchat.

E um perfil de uma mulher chamada Stella B.

Então eu testemunhei a primeira de muitas infidelidades com Stella B.

De volta à realidade....

Ollie ainda está no meio de seu pedido falso.

-Eu nunca fiz nada assim antes.-termina seu discurso.

Penso em contar para Ally mas ela não iria acreditar em mim, aliás tem um dedo podre pra homem. Sem falar que nunca me perdoaria por estar vigiando ela nas redes sociais.

- Você gosta de musica. Eu gosto de musica. Maroon 5.-disse sorridente.

De onde esse cara tirou que gosto de Maroon 5?

A verdade é que eu não deveria odiar Ollie, ele não é tão mau assim. Ele é burro demais para ser mau. De fato, quando penso nas pessoas realmente ruins ...

Como se sentisse isso, espio para fora do meu cubículo. Vejo lentamente alguns homens de terno andando no corredor. Os engravatados de negócios vão em direção ao escritório de Gideon.

ECorp, o maior conglomerado do mundo. Eles são tão grandes que estão literalmente em todo lugar.

O logotipo da E Corp é exibido em todos os produtos dentro do escritório: desktops, smartphones, laptops.

Um monstro perfeito da sociedade moderna. EC pode muito bem representar o mal.

Um anúncio é exibido na televisão e exibe alguns dos empreendimentos da E Corp. Agricultura, eletrônica, medicina, construção.

"É o que temos a oferecer. Juntos, podemos mudar o mundo com a E Corp.."

Depois dessa reprogramação completa e intensiva, é tudo o que minha mente ouve, vê ou lê quando aparece no meu mundo.

Agora substitua o logotipo da E Corp por Evil Corp.

Krista não acreditaria nisso mas é isso que eles são... um conglomerado do mal. E agora eu tenho que trabalhar pra eles.

Gideon e a equipe do SUITS andam ao lado das mesas.

-Existem seis engenheiros no local em sua conta. Além de alguns fora do local.-diz Gideon.

Dou uma espiada no traje principal, Steve Ballmer, com uma juba na cabeça.

Lá está ele, Terry Colby, o CTO.

Mesmo sendo o chefe de tecnologia de uma das maiores empresas do mundo, ele possui um Blackberry.

Mas também parece que ele não vê um terminal com muita frequência. Ele não é um técnico. É um idiota. Um idiota arrogante. O pior tipo.

Me concentro no meu terminal, mas uma pessoa do bando caminha até mim. Ele é bem vestido e tem um sorriso sacana. Ele estende a mão e eu dolorosamente aceito.

-Oh, oi. Tyrell Wellick. Sou vice-presidente sênior de tecnologia.

-Eu sou... Lauren. Apenas uma engenheira.-digo com um sorriso amarelo desfazendo o contato.

Me acomodo em meu cubículo com um suspiro resignado. E vejo meu pequeno universo de cubos de três paredes entre os outras trinta mesas de escritório idênticas.

Às vezes sonho em salvar o mundo.

Salvando todos da mão invisível, que nos marca um crachá de funcionário.

Olho para as pessoas trabalhando, todos parecendo servos escravizados com os crachás da empresa pendurados neles.

RUAS DE CHIBA CITY- 20:34pm

Ando pelas ruas sozinha enquanto um grupo de amigos riem entram e saem de bares. Os cartões de crédito são passados, as notas de dinheiro são jogadas, um mendigo implora por mudanças.

Aqueles que nos obrigam a trabalhar para eles. Aqueles que nos controlam todos os dias sem que saibamos. Mas não consigo mudar isso. Eu não sou tão especial. Sou apenas anônima. Só estou sozinha.

Entro no meu pequeno e bagunçado apartamento e caminho até um aquário, nadando dentro é um peixe preto chamado Cosmo.

Se não fosse o Cosmo, eu estaria completamente vazia.

Sento-me na canto da cama olhando para o teto.

Eu odeio quando não consigo segurar minha solidão. 

Esse choro vem acontecendo com muita frequência, a cada duas semanas agora. O que as pessoas normais fazem quando ficam tão tristes? Eles encontram amigos ou familiares, eu acho.

Flashback on

Lembro-me na infância de está sentada na mesa da cozinha. Minha mãe, era bonita mas fria. Sempre perdida, cabelo curto e rosto inexpressivo. Ela fumava um cigarro rapidamente depois de ter usado suas pílulas. E eu sempre era repreendida. Ela agarrava meus braços e os jogava na mesa, me forçando a comer qualquer refeição transgênica preparada no microondas.

Flashback Off

Isso não é uma opção pra mim.

Esmago os comprimidos de morfina e coloco aquele pó amassado numa mesinha de vidro, formando uma linha com um cartão.

-É, eu uso morfina.

Cheiro aquela linha de morfina e deito no sofá olhando para o teto enquanto o efeito é ativado.

-A chave para ingerir morfina sem se tornar um viciado é se limitar a 30 miligramas por dia. Qualquer coisa a mais apenas aumenta sua tolerância. Eu verifico a pureza de cada comprimido que recebo. Eu tenho 8 miligramas de Suboxone para manutenção no caso de eu passar por uma overdose.

A morfina é meu mortal calmante, fiel amante que anestesia toda dor, angústia e solidão!


Notas Finais




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