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História Da água para o vinho - Capítulo 8


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Notas do Autor


Sinto muito pela ausência e falta de atualização, e prometo me esforçar para continuar postando. Eu amo escrever essa fanfic, e cada vez me sinto mais envolvida com seus personagens. Espero que você, que está lendo, esteja gostando e se envolvendo também.

Capítulo 8 - Pelo telefone


Alicia estava no pátio, aproveitando o horário de sol, e se não fosse o constante estado de alerta que Las Dunas inspirava, sentia como se pudesse fechar os olhos e dormir ali mesmo, banhando-se de luz. Usava apenas a parte de baixo do macacão amarelo, com as mangas amarradas na cintura, exibindo a regata branca que usava por baixo. Queria aproveitar o sol em cada centímetro de pele, e sentia-se confortável o suficiente pela primeira vez para andar mais despojada pelo pátio. Não sentia-se em casa, mas cada vez mais pensava que não precisava se sentir assim. Iria embora em breve, e enquanto não fosse, estava sob as asas de Roxana Rodiles. Tinha seus dois protetores, Plutarco e o Professor. Nada de mal podia acontecer.

O calor tocava seus braços, seu rosto e seu colo, e uma brisa leve afastava seus cabelos do rosto. Aquele era seu melhor momento desde que chegara a Las Dunas, tinha certeza. Até que uma nuvem de sombra se colocou sobre seu rosto - ou ao menos ela imaginava que era uma nuvem. Sentiu primeiro o frio em seu braço esquerdo, e quando olhou para a sombra, a nuvem tomou forma - era Eladia, a carcereira de estimação de Roxana Rodiles. A mulher entroncada de uniforme preto passara a frequentar muito mais o bloco B desde a chegada do Professor, e a relação de trabalho entre as duas era evidente. Ela sequer disfarçava chamar Rodiles de “senhora” na frente das outras detentas, e a atitude perto dela era sempre de servidão e proteção.

- Alicia Garcia? - seu nome soava estranho na voz de Eladia, com quem nunca havia conversado - Tenho algo para você.

- Para mim?

- Levante-se e caminhe comigo.

Alicia estranhou o pedido, mas a mulher parecia falar sério, e ela levantou-se para caminharem juntas. Seria algo de Roxana Rodiles? Estaria ela entrando para a lista do Professor? Tinha medo de precisar trabalhar para o cartel para garantir sua estadia e proteção no bloco B, já que tinha planos traçados com seu advogado, e esperava notícias dele. A verdade é que seus medos, angústias e vontades, mais frequentemente do que gostaria, lembravam seu advogado. Tinha medo de decepcioná-lo com alguma ação que atrapalhasse sua defesa jurídica. Tinha vontade de presenteá-lo, como fizera com Rodiles. Às vezes sentia-se aflita que ele tivesse visto sua foto de prisão. Com que cara será que tinha ficado naquela foto? E quando pensava em sua foto no registro prisional, não pensava em como aquilo parecia fútil, mas sim em que imagem ele tinha dela. Não queria que a primeira impressão na mente de Plutarco Cuesta fosse sua cara de choro ao ser presa. Sua mente transitava pelas lembranças de seu advogado quando sentiu um deslize de algo para dentro de seu bolso, e acordou do transe.

- Esse presentinho no seu bolso - disse a carcereira - é para você se comunicar. É seu cartão telefônico.

- Mas eu… não posso pagar…

- É um presentinho, Alicia. Não pagamos por presentinhos.

Eladia estava séria, mas Alicia continuava caminhando com ela. Queria saber mais sobre o “presentinho”, de quem era, o que queriam em troca…

- Mas pra usar o seu presentinho, tem alguém que quer muito falar com você.

Alicia ouvia atenta as palavras da mulher de uniforme preto, que atiçava sua curiosidade, por não falar de uma vez do que se tratava.

- Quem? É alguém daqui? O que eu preciso fazer? - a voz não disfarçava a ansiedade e afobação por mais informação.

- Tudo ao seu tempo, Garcia, tudo ao seu tempo. Ou você quer que o bloco B inteiro saiba o que você tem no bolso?

Eladia era discreta, e tinha razão. O cartão telefônico era tão útil para Alicia quanto para qualquer outra mulher ali, e podia causar confusões se fosse descoberto por pessoas indesejadas.

- Tudo que eu posso dizer agora é que o número anotado atrás do cartão é de um sr. Cuesta, e ele precisa que você entre em contato com ele o quanto antes.

Ao ouvir o sobrenome Cuesta, Alicia mal pôde conter sua animação. Ele tinha notícias! Ele lhe conseguira o cartão telefônico porque tinha notícias!

- Agora, vá para sua cela, e finja que nunca tivemos essa conversa.

Alicia, ainda em êxtase com a novidade do cartão, precisou controlar-se para não saltitar até sua cela. Caminhou com as mãos nos bolsos, alisando o cartão telefônico como se fosse alguém, como se pudesse acariciar o cartão em agradecimento. O plástico liso não se assimilava em nada a pele humana, mas o carinho de Alicia era real. Chegando à sua cela, Alicia finalmente retirou o cartão do bolso, e observou cada detalhe. A paisagem de Ciudad Juarez estampada na frente, o logo da companhia telefônica, as instruções de uso no verso, e o número de Plutarco Cuesta, escrito às pressas a caneta esferográfica. Antes que o número se apagasse, a jovem achou sensato anotá-lo em um lugar mais seguro. Sacou seu pequeno caderno de desenho debaixo do travesseiro, e abriu-o, dedicada a anotar o número do advogado. Admirou brevemente a foto da mãe, colada na parte de dentro da capa, e pôs-se a escrever o número. Não queria identificá-lo com o nome, caso o caderno caísse em mãos erradas, mas queria algum tipo de rótulo - algo que lembrasse o advogado. Decidiu que não iria escrever, mas sim desenhar algo. A imagem que não saía de sua cabeça eram os óculos - a moldura dos olhos tão verdes e ternos do advogado. E assim, abaixo do número, desenhou a armação grossa dos óculos de Plutarco Cuesta. Desenhando, ela quase esquecia da circunstância onde estava.

Porém não podia esquecer do motivo pelo qual estava desenhando ilustrações sobre o sr. Cuesta - precisava ir ao telefone e contatá-lo. Era o meio da tarde, e não queria incomodá-lo em algum compromisso, mas também não podia ligar fora do horário de trabalho. Decidiu esperar meia hora, e desenhar um pouco mais enquanto isso. Encheu a página de rabiscos, a princípio, inocentes. Uma caneta elegante, uma maleta de couro, um relógio, uma árvore frondosa. Quando parou para observá-los, porém, os rascunhos unidos aos óculos desenhados acima deles formavam uma única resposta. O advogado de cabelos grisalhos, e cheiro de frescor e couro. Se fizesse um esforço, podia ver as folhas da árvore que desenhara farfalharem com o vento. E se tivesse lápis de cor, teria tentado em vão imitar o tom dos olhos do advogado nas folhas da planta.

Fechou o caderno, guardou-o, e dirigiu-se ao telefone compartilhado. Os arredores do aparelho estavam vazios, não era comum fazerem muitas ligações à tarde. As presas que mais usavam o telefone falavam com suas famílias à noite, e nos finais de semana, e raramente se via alguém lá para qualquer outro fim. A maioria das outras tinham celulares contrabandeados, e Alicia já vira alguns, guardados nos lugares mais inusitados. Parou em frente ao aparelho, inseriu o cartão, e digitou o número, que por incrível que fosse, já sabia de cor. Entre os toques da chamada, seu coração parecia bater milhares de vezes por minuto. Nunca uma chamada havia levado tanto tempo para ser atendida. Porém logo sua ansiedade foi substituída pelo calor de uma voz conhecida.

- Alicia?

- Senhor Cuesta? Sou eu! Como o senhor sabia que era eu?

- O telefone, quando atendi… - ele não conseguia organizar as palavras em uma frase - “um detento de Las Dunas…” blablabla “você deseja aceitar a chamada?”, e eu sabia que só podia ser você. Passei a tarde esperando essa chamada!

Alicia podia ouvir a empolgação na voz de seu advogado. Ele prometera voltar a se comunicar quando tivesse notícias, e pelo seu tom de voz, elas pareciam boas. A jovem ansiava pela comunicação, mas não queria transparecer o quanto pelo telefone.

- O senhor que enviou o cartão telefônico?

- Sim! Assim você pode ligar para mim, e posso deixar um celular com a dona Lupe pra vocês poderem se comunicar!

- Dona Lupe? O senhor viu a minha mãe? Como ela está?

O advogado tinha visitado a mãe de Alicia dia sim, dia não desde que conhecera sua filha na cadeia, e já a tratava pelo apelido, Lupe, em vez do nome completo. Apesar disso, não queria parecer maluco, ou investido demais na situação, então apenas assentiu.

- Sim, a visitei no hospital. Ela está bem! Digo, dentro do possível. Ela vai ficar bem. Posso te contar tudo no sábado.

- Sábado?

- Sim, agendei uma nova visita sábado para conversarmos, e prepararmos sua audiência.

- Audiência? - Alicia sequer formava frases completas, apenas perguntava sobre as informações que queria entender.

- O juiz marcou a audiência para julgar seu habeas corpus. Foi por isso que consegui o cartão. Por isso que quis falar com você!

- Vai ser julgado? Quando? Eu vou poder sair daqui?

- Se der tudo certo, vai sim! A audiência é em duas semanas! Logo, você vai estar cuidando da sua mãe aqui fora, e vamos poder ter reuniões no meu escritório.

Ele falou no escritório, mas pensou em levá-la a um café, pagar uma torta de chocolate bem saborosa, para que ela nunca mais lembrasse do que é se alimentar na prisão sem poder comer a sobremesa. Plutarco queria que ela saísse logo de lá, para diminuir um pouco seu grau de preocupação.

- Duas semanas? Eu tenho chance de sair em duas semanas? Ah, senhor Cuesta! O senhor existe mesmo? Obrigada, muito obrigada! - Alicia falou, o sorriso transparecendo na voz, e as lágrimas de felicidade caindo por suas bochechas. Já não sabia o que era chorar de felicidade há muito tempo, e aquelas lágrimas que não lhe davam dor de cabeça não pareciam tão salgadas quanto as de tristeza.

- Você sabe que pode me chamar só de Plutarco, né? E não tem nada que agradecer, eu só…

- Tem sim, Plutarco. O senhor… - ela buscava uma palavra sem saber ao certo onde queria chegar - … mudou a minha vida. É isso. Eu achei que para sobreviver aqui, teria que fazer “amigos”, me envolver com gangues, crimes… E o senhor está me devolvendo a chance de sair daqui menos culpada que entrei. Não sei se um dia vou poder agradecer o suficiente o que o senhor está fazendo por mim.

- Eu faço com prazer, Alicia.

A frase saiu da boca de Plutarco sem plano nenhum. Ele sabia que fazia por prazer, e que trabalhar para Alicia Garcia era o mais pleno que tinha se sentido em anos. Completo, útil, podia até arriscar dizer que se sentia feliz.

Os dois acertaram os detalhes para a visita de sábado, e Plutarco pediu que Alicia preparasse algumas coisas para a audiência. Se despediram, e Alicia retirou o cartão telefônico do aparelho. Guardou-o de volta no bolso, e fez seu caminho de volta ao bloco B leve e feliz, e ao mesmo tempo restaurada e reenergizada, como se alguma força tivesse tomado conta dela. Passou pelo pátio, para ver se ainda havia sol, porém deu de cara com os macacões verdes do bloco A, entre eles a Mariscala. Por mais forte que se sentisse, não queria entrar em confronto, então passou de cabeça baixa por ela, pronta para seguir reto até sua cela.

- O bebê chorão estava chorando de novo?

Ela esquecera que ainda estava com o rosto molhado das lágrimas de alegria que chorara com Plutarco, e que mais uma vez passaria a imagem de bebê chorão, que a Mariscala gostava de apontar. Alicia esfregou as costas da mão no rosto e encarou a mulher à sua frente, com o macacão recortado, e harness vermelha por baixo.

- O que foi dessa vez, Alice? Saudades da mamãezinha?

- Não lhe devo satisfações. - Alicia estava possuída por uma força sobre-humana, uma força emocional, como se houvesse sofrido uma descarga elétrica de super poderes. - Por que as minhas lágrimas te incomodam tanto?

- A bebezinha vai me afrontar agora?

- Não. Só estou perguntando. Você me disse pra me adaptar, não disse? Estou me adaptando.

O pátio parecia inteiro focado na conversa das duas, e o clima estava tenso, como se pudessem brigar a qualquer instante. Mas Alicia não queria brigas. Queria estar inteira e livre e tranquila para sua visita de sábado. Então começou a caminhar para trás, na expectativa que a Mariscala a deixasse ir. Tinha medo das consequências que seus segundos de coragem poderiam ter, e assim que tomou distância o suficiente, virou as costas, e caminhou rápido em direção ao bloco B. Chegou em sua cela ofegante, e deitou-se na cama.

Encarando o teto sujo e úmido de sua cela, Alicia recapitulou o dia em sua mente. A imagem que permanecera era apenas o ponto alto de tudo: Plutarco. Ele visitou sua mãe, e a chamou de Dona Lupe. Ele a tiraria dali, e podia ser em apenas duas semanas. Ele e seus olhos verdes, ele e seus óculos de armação grossa. Fechou os olhos, e era como se pudesse vê-lo. Tentou levantar-se para desenhar, mas a caneta passava no papel em círculos, como se desenhasse o emaranhado de cachos grisalhos do advogado. Passou o resto do dia pensando em tudo que havia acontecido de bom desde que o conhecera. Até que chegasse sábado, e com ele chegasse Plutarco, quanto tempo Alicia passaria pensando nele?

 



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