História Da cabeça aos pés - Capítulo 17


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Categorias Naruto
Personagens Chouji Akimichi, Gaara do Deserto (Sabaku no Gaara), Hinata Hyuuga, Ino Yamanaka, Karui, Kiba Inuzuka, Naruto Uzumaki, Sai, Sakura Haruno, Sasuke Uchiha, Shikamaru Nara, Shino Aburame, Temari
Tags Amizade, Amor, Aomesmotempo, College, Conexão Naruhina, Conexãonaruhina, Europa, Faculdade, Fanfics Naruhina, Fanfics Naruto, Fanficsnaruhina, Fanficsnaruto, Fnh, Head Over Feet, Hentai, Hinanaru, Hinata, Hyuuga Hinata, Konoha, Medo Bobo, Naruhina, Naruto, Paixão, Policial, Revolução Naruhina, Romance, Suspense, Universidade, Universo Alternativo, Uzumaki Naruto
Visualizações 312
Palavras 10.348
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Bishoujo, Bishounen, Comédia, Famí­lia, Festa, Fluffy, Hentai, Poesias, Policial, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Suspense, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olá, amorinhxs

Depois de um longo e tenebroso inverno, olha quem voltou?!
Surpresa.

Finalmente, a vida entrando nos eixos, os bloqueios sumindo.
Não vou me alongar muito sobre minha ausência por aqui, porque o que vocês querem mesmo é capítulo, né? E também porque eu fiz dois jornaizinhos para explicar, deem uma olhada depois :)

Só uma dica antes de começar, para vocês entenderem algumas coisas que o Deidara fala, estou deixando dois links de para "dicionário de dialetos" nas notas finais. Consultem em caso de dúvidas.

Ps: vou corrigir a fic amanhã, ok? acabei de escrever e queria liberar como o prometido


Espero que gostem, foi feito com amor para vocês.
Um cheiro e até as notas finais!

Capítulo 17 - Ressaca


— Delegado Uchiha, bom dia! Gostaria de me voluntariar para ajudar em um caso de sua competência. É sobre Uzumaki Naruto. - disse a voz meiga.

— Do que está falando?

— Soube que investiga um atentado contra a vida do Naruto e a filha do senhor Hiashi. Eu gostaria de ajudar com o caso, se possível.

 — E como você acredita que possa ajudar a polícia?

 — Acredito que eu possa ter informações confidenciais, vindas diretamente da pessoa que está por traz de qualquer tipo de mal que possa acontecer com esses dois.

 — Que tipo de informação?

 — Do tipo que só quem está dentro do jogo conseguiria saber os bafões do tipo e tê-los gravados bem neste dispositivo.

 Óbito ficou olhando para aquela pessoa com os olhos arregalados. Se o que estava falando era verdade, isso poderia dar uma reviravolta na investigação. Mas, e se fosse um tipo de blefe? Ou pior, se fosse algum aliado de quem queria o mal para Hinata e Naruto, e que, agora, se movia para confundir as investigações?

Só que o relógio marcava nove horas da manhã e o cansaço já o abatia, assim como a falta de esperanças em obter respostas rápidas, fáceis e esclarecedoras. Havia passado toda a madrugada tentando interrogar o homem capturado, que atendia pelo nome de Jirobo, encontrado com o carro cuja a placa tinha sido rastreada pela equipe de Óbito, por coincidir com a do carro que quase atropelou a primogênita dos Hyuuga.

E se alguém acredita que houve alguma chance do delegado ou sua fiel escudeira Rin dormir, enganou-se. Nas primeiras horas daquela manhã, os dois, juntamente a mais três peritos, se debruçaram sobre filmagens, placas e informações sobre compras e vendas de veículos. Isso porque ainda não tinham conseguido detectar o segundo carro relatado por Naruto, que possivelmente seria de um aliado do primeiro envolvido no atentado. A placa que conseguiram era fria e, portanto, voltavam à estaca zero, diante do silêncio do homem detido. Por mais de três horas de interrogatório, tudo que Óbito havia conseguido arrancar dele, fora:

— Se eu te contar qualquer coisa, terei que matar você e toda sua equipe presente. - Tal fala foi seguida por: — Ou eu, ou vocês vão para a vala. Claro que é melhor vocês.

Essa ousadia fez a Rin tremer de raiva e o Óbito fechar uma carranca, que só piorou ao ouvir: — Só falo na presença do meu advogado. Posso ser apenas um peão no tabuleiro, mas conheço os meus direitos e eles dizem que tenho duas ligações a serem realizadas.

Suspirou. Diante de tanta negativa por aquelas horas, talvez estivesse no momento de pensar um pouco mais positivo e recuperar a confiança. Talvez, a presença tão repentina daquela pessoa fosse mesmo uma resposta dos céus.

— Por favor, entre e feche a porta. Quero ouvir o que tem a dizer.

Se aquilo fosse o que realmente parecia, seria de muita ajuda. Quando voltasse da cafeteria, onde foi para providenciar o santo líquido negro, Rin ficaria curiosa e levemente feliz em saber dessa novidade no caso.

--

Já estava inquieto. Há vinte minutos permanecia sentado na mureta próxima ao rio, atirando pedras na água a espera de Sasori. Não podia, no entanto, culpá-lo. O ruivo era sempre muito pontual e, daquela vez, quem tinha se antecipado era ele. Antes do encontro, resolveu o que achava que deveria resolver sobre aquele assunto e passou em alguns lugares a fim de se certificar que estaria fazendo a coisa correta. Alguma coisa de muito podre estava sendo escondida sob o manto dos Otsutsuki e, claro, não era ele que iria acobertar isso.

Embora tenha um jeito marcante pendendo para o escrachado, Deidara era muito mais observador do que falante. Aprendera desde cedo a mais ouvir do que expor, e ficar atento a todos os pormenores que o cercavam. Essa era uma característica dos Bakuton.

Quando foi interpelado pelo senhor Hamura ao fim daquela madrugada, já imaginava que boa coisa não viria. Formado em Tecnologia da Informação, Deidara prestava serviços ao Porto de Konoha como terceirizado e há meses percebia movimentações estranhas não apenas no cais, mas também nos algoritmos dos programas que ele conhecia quase como a palma da sua mão.

— Tá agredindo o rio dessa forma por quê? - riu anasalado.

— Porque eu não aguentava mais te esperar.

— Mas eu estou cinco minutos adiantado, Dei.

Arremessou a última com mais força e mais raiva, respirando profundamente em seguida.

— Eu sei. Desculpe-me, Saso! Mas é muito aleijo para pouco Bakuton no Deidara. Eu vou pirar os picumã, bicha! Por isso estou parecendo um rebento de 7 meses! É muito mafuá para administrar, é muito tiro, porrada e bomba para o meu mega segurar. - exasperou-se.

— Como se esse mega não estivesse na cabeça que abriga uma das mentes mais brilhantes que já tomei nota.

— Você é suspeito para falar, garoto.

— É... porque esse garoto tem os quatro pneus arriados por você, bebê. – deu um abraço apertado no loiro, que permanecia de costas para ele. Os dois tinham uma diferença considerável de altura, mas o par não ficava menos gracioso por isso.

Deidara respirou profundamente e, pela primeira vez desde aquela abordagem - no mínimo inusitada - que teve nas primeiras horas daquele dia, esboçou um sorriso.

— Em definitivo, você é a calmaria para as minhas tempestades. – girou nos próprios calcanhares, abraçando seu namorado da forma que merecia, curvando-se delicadamente para frente, depositando um beijo casto em sua testa.

— Vai me contar o que tá acontecendo?

— Aquele cacura, Saso... aquele cacura tá aprontando algo... e se meu feeling está correto, é um senhor bafão de implodir quarteirões.

— O que te faz pensar nisso?

— Eu venho catando movimentações esquisitas durante a madrugada nos meus plantões e eu sou afrontosa demais para simplesmente desaquendar dessas situações. Pessoas andam praticamente na ponta dos pés para não serem notadas. Alguns padrões de atracagem também foram quebrados nos últimos quatro meses. E, desde então, aquele velho babão do Hamura faz questão de checar todos os navios que chegam ao porto pela madrugada, assim como inspeciona pessoalmente algumas das mercadorias que dão entrada por Konoha. Essa bicha velha ta cagando no maiô de tricot, Saso. Tô certa!

— ...

— Soma-se a isso o fato de que há algum tempo tenho notado alteração no algoritmo do sistema do porto, fora acessos remotos e uma parte criptografada que não existia.

— Você acha que…

— Com certeza, mais alguém além de mim anda tendo acesso às partes mais profundas do sistema. E isso tem ligação com os navios e as cargas misteriosas. Fora o sumiço do registro de chegada e saída de algumas pessoas que transitam pelo porto. E hoje, quando chegou no trabalho, qual foi a primeira coisa que a cacura fez? Mandou eu deletar os registros. É a primeira vez que ele pede diretamente a mim.

— E você...?

— Cumpri, depois de ser ameaçado por aquela ursa uó do Kakuzu.

— Deletou?

— Sim. – estreitou os olhos e passou a língua nos lábios, tentando umedecê-los. Depois, colocou uma das mãos no bolso e retirou um pequeno objeto de lá. — Isso é o que eles sabem e o que eles vão encontrar no sistema. O que eles não sabem é o tombo que eu vou dar naquela cacura mavamba. Deusa me dibre, mas aquela bee é tão mavamba que você tá pensando em levar ela para casa e suas jóias já tão sumindo de lá. Aquilo ali é coisa ruim, benhê. Aquilo é do mal. É filhote de capiroto zarolho.

— Dei...

— Eu dei o truque e fiz a Elsa, né, bebê? A cópia de segurança está guardadinha bem aqui.

Sasori ao notar o pequeno objeto preto em suas mãos, arregalou os olhos e abriu a boca em um O perfeito, depois, exibiu um sorriso ladino.

— Não esperava menos da minha diva bafônica! – brincou, sentindo-se orgulhoso pela inteligência do namorado.

— É um momento sério, Sasori! Aliás, muito me impressiona você brincando em uma situação dessas. – deu um soquinho em seu ombro, antes de bufar.

— Dei, dá um tempo, vai? Essa tensão toda não combina com você.

— Ai meu edi! Como não ficar tensa quando sabe que pode morrer a qualquer momento por ter informações valiosas dentro dessa coisa pequetita aqui? – Sasori, finalmente, fez uma cara de pavor, diante da amargura das palavras de Deidara. — Se eles descobrirem que eu já tenho a cópia do último mês de movimentações do porto e que há um outro microdispositivo fazendo uma varredura para armazenar dados dos últimos dez anos pelo menos, Sasori, você vai ser um viúvo.

O ruivo sentiu as mãos suarem, enquanto os olhos ficaram levemente marejados com a mínima possibilidade de perder a quem tanto amava. Um turbilhão de coisas passava pela sua cabeça, quando teve o queixo delicadamente erguido, se deparando com um par de azuis o encarando profundamente.

— Acho bom você providenciar um look ryco e poderoso. Quero você arrasany no meu funeral, entendeu bem? E isso não é close, é condições!

— Porra, Deidara. Depois você fala de mim fazendo brincadeira em um momento sério. Quer foder meu psicológico, me beija, porra!

— Já que faz tanta questão…

E foi atacado pelo loiro, que lhe deu um beijo inicialmente calmo, apaixonado e, ao mesmo tempo, denso.

--

— Fofolete.

— Tá noite ainda…

— FOFOLETE!

— Preciso dormir…

— NEJI, SAI DE CIMA DE MIM OU EU VOU MORRER SUFOCADA!

Foi em um pulo que Neji caiu da cama. O susto foi tão grande que demorou alguns minutos ainda para que pudesse entender onde estava. Não obteve muito sucesso, pois as longas madeixas castanhas tomavam sua visão.

Quando finalmente conseguiu prendê-las,  em um coque quase perfeito, tentou abrir os olhos em vão. As pupilas quase esbranquiçadas reclamaram a claridade e o sinal foi direto para o seu cérebro, que parecia tomado por uma escola de samba.

O corpo doía terrivelmente e a garganta parecia não ver água por longos meses. A única certeza que o Hyuuga tinha naquele momento era o de estar na presença de Tenten. Menos mal.

Agoniado, tateou o chão em busca da cama e percebeu que o mesmo gelado dali estava em contato com o seu traseiro. Foi, então, que se deu conta de que estava completamente nu. Mas se o chão estava gelado, porque diabos sentia tanto calor?

— Tenten… o que aconteceu comigo?

— Você não se lembra, Neji?

— Ora, se eu estou perguntando…

Fez um bico carrancudo, enquanto piscava várias vezes seguidas, na esperança de conseguir visualizar alguma coisa. Sentada na cama, coberta por um fino lençol rosado, Tenten olhava boquiaberta para o Hyuuga, como quem quisesse gravar cada detalhe. Pensava em como tinha sorte em ter um homem daquele para si e o quanto amava cada detalhe daquele corpo e daquele rosto, mesmo que estivesse emburrado.

Neji era difícil de lidar, mas nada que com o tempo as barreiras não fossem se quebrando e o cara amoroso fosse aparecendo. Entre as principais qualidades, ela poderia destacar a lealdade e o instinto protetor, que se sobrepunham até mesmo a inteligência daquele que era chamado de prodígio.

Tenten o amava desde sempre, por mais que ele lhe irritasse quando mais novo. A verdade é que sempre quis ser o seu porto-seguro, o colo para o qual ele correria em qualquer circunstância, principalmente nos momentos de fragilidade. E poucos conheciam o lado vulnerável de Neji. Aquela madrugada tinha sido uma delas.

Pegou um lençol que ainda estava dobrado ao seu lado e jogou contra o namorado, em uma tentativa de melhorar aquele mal-humor matinal que só Hyuuga Neji sabia ter.

— Primeiro, faça o favor de se cobrir se não quiser ser atacado. É uma falta de educação você ficar mostrando essa neca odara por aí!

— Neca o quê?

— Odara, meu amor. Um baita pau grande e cheio de vida. Não sei se você sabe, Hyuuga, mas você acorda com a pica nas alturas e nem é do famoso mijo matinal. - dizia, enquanto o namorado finalmente conseguira abrir um olho e tentava constatar o que a menina dizia. —Tampa essa porcaria ou eu vou fazer cosplay de rã.

— Com quem você aprende essas coisas?

— Deidara, né?

— Terrível. - deu um risinho fraco. — Mas, acho que bem combina comigo mesmo.

— Ah, pelo amor, fofolete! Às vezes eu acho que você é leonino, que teu nome verdadeiro é Narciso e, se deixassem, tu foderia com o espelho!

Levantou-se com certa dificuldade e foi quase se arrastando para a cama, dando um abraço em Tenten pelas costas.

— Você sempre tão romântica!

— Nem vem que você não combina com esse signo de Câncer! A não ser por essa coisa de superproteção familiar…

— Mas você mesma me ensinou que 3 de julho é terceiro decanato e, portanto, eu pego umas características de Leão mas preservo um pouco da essência do caranguejo.

— A parte boa é que você aprende rápido. - deu um beijo estalado na bochecha branquinha.

— Tá, agora me conta o que aconteceu. Espero que você tenha anotado a placa...

— Placa de quê?

— Do caminhão que me atropelou, ué. - dizia, enquanto massageava as têmporas, aconchegando o queixo na clavícula da namorada.

A morena, por sua vez, soltou outro riso baixinho e anasalado, ao mesmo tempo em que iniciava um gesto delicado de pentear os próprios fios de cabelo com as mãos.

— Não foi um caminhão. Foi uma legião… um enxame… - Neji uniu as sobrancelhas. — … ou seja lá qual for o coletivo de fadas… verdes, para ser mais exata.

— O quee?

— Absinto, Neji. Você tomou absinto aos baldes e ficou retardado. Primeiro, que você fez um semi-streap no palco em que apresentou a dancinha com os meninos, com direito a “I sexy and I know it” de trilha sonora; depois, fez o favor de arranjar uma confusão com o embuste do Toneri, dizendo que iria fazer sopa com os olhos dele, e isso foi bem nojento; em seguida, cismou que queria matar o Naruto, por ele ter sumido com a Hina, como se as pessoas não tivessem o direito de se comerem em paz; aí tomou mais absinto e veio falar que estava com um tesão absurdo, me pegou no colo e saiu correndo pela rua e paramos nesse cafofinho beira de estrada onde você me atacou feito um búfalo raivoso. Fim.

Neji piscou algumas vezes. Estava estarrecido, incrédulo. E, então, como era raro de se ver, as bochechas ganharam um tom avermelhado intenso, enquanto os olhos pareciam de uma criança aprontona.

— E foi bom?

— Te aguentar bêbado?

— Não, marrentinha, ser atacada por um búfalo raivoso… - quase sussurrou.

— A julgar pelas suas costas, acho que tirei de letra. - sorriu maliciosa.

Neji olhou as próprias costas e sentiu as bochechas esquentarem. Nem pensar que alguém poderia ver aquilo. Após bocejar algumas vezes, ainda tomado pela vergonha com o relato que acabara de ouvir, afagou os cabelos castanhos, dando-lhe um beijo casto naqueles lábios femininos.

— Você sempre tira de letra tudo que diz respeito a mim, Matsashi Tenten. Definitivamente, o melhor lugar para se estar é no seus braços. Eu amo você, garota!

Os olhos castanhos brilharam e, a medida que as bochechas ganhavam um tom cada vez mais rosado, a boca abria em surpresa, com uma respiração baixinha, mas pesada. O peso de quem sabia o quanto era difícil para aquele garoto à sua frente dizer essas três palavras tão simples, mas com significado único e forte. Ela sentiu o golpe. Mas não era algo ruim, pelo contrário.

Tenten sabia que apenas quatro mulheres nesse mundo ouviram essa frase. As duas primeiras não existiam mais nesse plano: a mãe e a madrinha. As outras duas eram Hinata e Hanabi. Ser merecedora das palavras de Neji sufocava por ser deveras emocionante. Todas que tiveram esse privilégio - e ela considerava assim - eram pessoas realmente importantes e com significado ímpar para o prodígio dos Hyuuga. Era ainda mais sabido a lealdade dele para com essas pessoas e a quase devoção que tinha, o senso de responsabilidade, de proteção, de carinho, de amor. Ela era uma dessas pessoas e mal conseguia retribuir, não por não sentir o mesmo, mas por lhe faltar palavras diante de tal confissão. O quanto esperou por aquilo?

O filme passou na cabeça. O dia que viu os longos cabelos castanhos de costas e pensou ser uma menina. E o quanto ficou impressionada ao perceber que era um menino. O choque maior foi perceber o quanto a beleza quase angelical de Neji a petrificou e encantou. E a ponta de decepção quando ele lhe dirigiu palavras quase ofensivas. A flechada final veio com o senso crítico exagerado e a inteligência incomparável, que o tornava quase arrogante e o quanto tudo isso somado a irritava profundamente. O primeiro sinal de amor veio com as incontáveis cenas de implicância de ambas as partes. Mas Neji jamais foi capaz de se afastar de Tenten desde que trocaram as primeiras palavras. E ela sequer fez esforço para que ele saísse do seu lado, mesmo repetindo minuto sim - e  outro também - o quanto ele era irritante e desnecessário.

E, então, veio aquele dia fatídico em que o viu sair correndo sem rumo e, sabe Deus de onde tirou forças, foi atrás. O dia que o viu esconder em uma espécie de gruta no Monte Hokage e chorar feito um bebê assustado por não estar mais dentro do ventre quentinho da mãe. O dia que ouviu o urro de dor mais doloroso que já presenciou, que vindo do ponto mais alto da cidadezinha, provavelmente ecoou na maior distância que pode percorrer. O dia da morte dos pais de Neji foi o dia que Tenten decidiu que tudo que queria ser era um porto-seguro para quem tanto amava em um silêncio quase ensurdecedor, num medo absurdo de não ser retribuída.

— Eu te amo infinitamente, garoto irritante e desnecessário. - sorriu com lágrimas nos olhos em um fio de voz. — Sempre, não importa quantas vezes forem precisas, sempre estarei aqui por você. Porque você é uma pessoa única em minha vida, Hyuuga Neji.

— Obrigada, Tenten. - o moreno disse, cochilando em seguida os ombros da menina.

Tenten não o acordaria. Sabia que ele precisava daquele momento. Nem só de sexo foi feito o momento de bebedeira. Naquela madrugada, a dor que deveria ter ficado na gruta, voltou. O sono tornou-se agitado para o sempre sereno Neji. O grito veio por duas vezes e as lágrimas foram de soluçar. Quando se levantou para ir no banheiro, viu o namorado a procurar no meio de seu sono. E, quando a sentiu, mesmo que inconscientemente, agradeceu-a por estar ali, fazendo aquele pedido cheio de dor: “Por favor, não me abandone jamais, Tenten”.

Ela não iria a lugar algum. Ele nunca saberia das palavras desconexas que dissera no meio da tormenta que foi aquela noite. Mas ela já havia prometido para si mesma que descobriria o que estava acontecendo para vê-lo tão atordoado depois de tanto tempo.

--

A  noite tinha sido cansativa para Minato, por dois motivos óbvios: o sofá não era nada confortável e brigar com Kushina lhe tirava, literalmente, o sono. Passara metade da madrugada tentando achar uma posição mínima no sofá e, quando tinha perdido todas as esperanças de conseguir encontrá-la, gastou o restante das horas em que o céu se mantinha escuro para matutar sobre os últimos acontecimentos. Primeiro, munido de copos de whisky e, depois, por xícaras incessantes de café. Ele não tinha saída.

Dobrar a esposa não era fácil. Nunca fora. Lembrou-se dos acontecimentos que sucederam a morte de Hizashi e a morte de Toru. A imagem da fera que ela se tornou quando soube do acontecido com o Hyuuga, sua responsabilidade. Kushina caçou incansavelmente os culpados e tratou de um por um com as próprias mãos. Era até difícil acreditar que as mãos tão carinhosas e leves que percorria seu corpo durante as madrugadas mais quentes, porém cheias de vontade, fossem capaz de cometer tais atos. Ela se transformava. E no próprio demônio, diziam.

Com Toru não era para ter sido como foi. Mas, ela também não poderia perder mais ninguém. Só não imaginava que salvar todas aquelas vidas lhe custaria uma tão importante. Até hoje não tinha ficado claro da onde partira a bala que matou o Otsutsuki. Ela atirou, mas vários outros disparos foram ouvidos e, quando em um ato de distração para acudir Jiraiya, o corpo sumiu. Ninguém nunca mais soube do filho de Hamura. Sinal de que mais gente desagradava de sua presença na Terra.

Contudo, a culpa recaíra sobre a casa dos Namikaze-Uzumaki e o primogênito se foi, prematuramente, arrancado do seio de sua mãe, sem uma possibilidade sequer de revide ou algum choro que denunciasse seu furto. Desapareceu tal como o corpo de Toru.

Chorou.

Um choro dolorido, agarrado há 20 anos em sua garganta. E o ato incomum veio. Toda sua frustração descontada na garrafa de whisky e no copo atirados contra a parede, esfarelando-se no chão como seu coração de pai fazia há anos. E, quando achou que iria sufocar, lá estava a fotografia do seu sol: Naruto, sua imagem e semelhança, porém com um sorriso tão iluminado.

Trouxera  novamente o amor para aquela casa. A esperança de dias melhores. Seria mesmo correto que ele não soubesse a verdade sobre o seu passado? Era mentir para si mesmo dizer que, dessa forma, seu caçula estaria protegido de todo e qualquer mal? Saber menos era estar fora do jogo covarde imposto pelo sistema criado naquela cidade?

Seu menino não merecia sofrer. Seus pais já sofriam o suficiente. Abriu a carteira e olhou para a foto do bebê sorrindo. Como seria seu primogênito hoje em dia? Seria igual ao irmão? Seria menos escandaloso? Teria sua personalidade ou também teria puxado Kushina? Os olhos tinham o azul da mãe, mas e os cabelos, seriam ruivos também? Ele não sabia. O primeiro filho do casal foi tirado ainda muito novinho, sem dentes formados ou cabelos aparentes. Pouco tinha mamado e mal conviveu com quem o gerou. Suspirou profundamente na tentativa de conter suas emoções, mas não conseguiu. Explodiu em um grito quase desesperado. O relógio marcava 7h30 quando o calmo e sereno Namikaze Minato finalmente quebrou as próprias barreiras e colocou para fora todo o sofrimento que guardou ao longo desses anos em que ficou calado. Poderia dizer que pedia ajuda aos céus, se ainda acreditasse em alguma ajuda que pudesse vir de lá. Não era esse o caso.

— MINATO! - não se importou em bater às portas do escritório ou de ter saído deixando um rastro de destruição pelo caminho, por onde deixou uma fila de objetos caídos. — Pelo amor de Deus, homem, o que aconteceu com você? - pegou o rosto entre as mãos...

— Deus não existe, Kushina! E não me chame de homem. E-e-e-eu sou uma bosta de pessoa…

— Como pode dizer uma coisa dessas?

— Sobre Deus ou sobre mim? - tentou fazer um movimento sem muito sucesso com a mão...

— VOCÊ ESTÁ BÊBADO?

— Como se isso fizesse alguma diferença… seria ótimo se eu fosse apenas um homem morto.

— Da onde está saindo tanta sandice, Minato?

— De uma mente insana que não aguenta mais conviver com o fato de que é uma merda de pai e uma merda de marido.

— Como você pode dizer uma coisa dessas, Namikaze?

— Olhe para você, Kushina. Está sofrendo. Você sofre todos os dias desde aquela noite. Você nunca mais foi a mesma. Eu não fui capaz de proteger o nosso filho…

— Ele não é o nosso único filho a ser protegido…

— Eu protejo o Naruto a base da mentira. Que espécie de pai eu sou, então?

— …

— Viu? Você não responde porque sabe o tipo de pai e marido que sou: aquele que falha miseravelmente em todas as tentativas de tentar fazer as pessoas que ama feliz. Eu falho até mesmo na tentativa de corrigir meus erros. Anos e anos tentando achar a tecnologia perfeita que seja capaz de rastrear qualquer vestígio que possa existir dele. Reconhecimento facial, mesmo que esteja velho; DNA; padrões visuais; rastreamento de alterações na fisionomia ou cabelos; e até hoje nada. Você sabe, não sabe, o quanto Naruto sempre sonhou em ter um irmão… e tudo que fizemos foi mentir mais uma vez. Mentimos sobre a forma que ele foi concebido, as condições. Inventamos até um problema de saúde meu e seu para justificar o fato de não termos mais filhos. Meu Deus, Kushina, eu não quero sequer imaginar o que seria desse menino se ele descobrisse tudo que o privamos de saber.

— Apenas protegemos ele e as demais crianças de Konoha depois de tanto sangue derramado, Minato.

— Saber menos realmente os priva de perigos? Pelo visto não… - deitou no colo da esposa, abraçando as próprias pernas.

— Se essa decisão foi errada, Minato, o tempo irá dizer. Mas a culpa não recairá apenas sobre você, meu amor. Ela foi tomada de forma conjunta por nós dois. É assim que deve ser a educação de um filho, não é mesmo? Em conjunto, com decisões tomada pelo casal. Eu tenho sido injusta em te cobrar tanto nos últimos dias… fiquei realmente magoada por você esconder de mim o que está acontecendo com o nosso menino… e possessa só de imaginá-lo em uma situação de perigo. Instinto materno que chamam, né? Mas eu sei que não posso te cobrar que me diga apenas verdades, quando tenho te ajudado a mentir para o nosso filho. Um pedido meu… feito a todos naquela sala de reunião após o sumiço do nosso bebê. Ah, Minato… não se culpe. Não quero vê-lo assim… eu puxei o gatilho, não você. Se eu pudesse voltar no tempo faria tanta coisa diferente…

— Você se arrepende da sua vida, Kushina? - disse quase em um sussurro.

— Não de você. Não da nossa família. Mas da Pimenta…

— Você é linda mesmo quando brava, minha menina… - sorriu com um pouco de esforço… — Estou tão cansado, Kushina…

— Durma, meu menino. Eu amo você, Minato. E devo tudo que eu tive de bom e normal nessa vida a você… - sussurrou, enquanto observava o marido dormir abraçado às próprias pernas, com uma expressão de dor e o caminho lágrimas marcando o rosto branquinho, porém bronzeado.

Eu vou defender a minha família, nem que seja uma última vez, Minato.

--

— Isso tudo é saudades, curiosidade ou apenas senso de vingativa querendo tomar o homem de volta a qualquer custo, Shion?

— Se não for para ser desagradável, você nem sai de casa, né mesmo, Toneri? - ironizou.

— Ela é nervosa, ela. - sorriu em deboche. — Mas ainda acho que é saudades. Não tem nem 12 horas que nos vimos e você se quer exitou em aceitar meu convite para o almoço.

— Estava entediada em casa, mal dormi, precisava resolver coisas importantes logo pela manhã…

— Tá com cara de acabadinha mesmo. - disse e recebeu o dedo do meio.

— Toneri, sem gracinhas, não estou para isso, certo? Minha cabeça dói e eu queria estar na minha cama e…

— Podemos resolver isso.

— Sem você, obviamente. Estou aqui apenas porque te fiz perguntas e você me deve respostas. Creio que queira me dá-las, caso contrário não estaria aqui. Pelo visto devo ser uma ajuda valiosa, seja lá o que você esteja planejando.

— Se fizer as coisas da forma que eu orientar, provavelmente será de grande valia.

— O que você pretende, Toneri?

— Tudo que você precisa saber no momento é que pretendo ter a Hinata.

— Tsss… quando você vai acabar com essa sua síndrome de vira-lata de querer os restos do Naruto, garoto?

— Eu não quis algo que era do Naruto. Oficialmente, no momento que passei a desejar Hinata, eles ainda não tinham nada.

— Mas agora, aparentemente, sacramentaram…

— E estamos os dois chupando dedo. Então, pare de querer tirar alguma vantagem ou sarro da minha situação, a sua é bem pior que a minha.

— Pior?

— Ao que me consta, você levou um pé na bunda porque o água oxigenada tinha um tesão reprimido pelo meu Lírio de Konoha.

— Não foi nada disso…

— Foi, Shion. E você tinha certeza que poderia fazê-lo feliz. E a sempre bem resolvida garota dos olhos lilás nunca mais foi a mesma…

Fez uma cara de poucos amigos. Aquilo realmente incomodava Shion e a deixava com um amargor da boca, que parecia a consumir desde o estômago.

“— Shion, eu vejo todos os dias aquela menina bem resolvida sumir bem diante dos meus olhos. O que eu vejo é que a admiração que sentimos um pelo outro se esvaindo… o cansaço está batendo. E eu prefiro que paremos por aqui, enquanto ainda respeitamos um ao outro, do que quando isso não mais existir. Desculpa, Shion, mas você merece alguém por inteiro e não pela metade. Isso pode soar cafajeste ou medíocre, mas eu estou apenas sendo um cara sincero. Eu gosto de verdade de você, mas você sabe que…

— Você é incapaz de me amar não é, Naruto?”

Toda vez que se lembrava daquele dia que marcou um pouco mais de 9 meses junto ao Uzumaki a vontade de vomitar subia. Era nervoso, frustração, coração partido. A raiva de não conseguir recuperar a autoconfiança, o azedume do amor não-correspondido com o ácido sabor da rejeição.

— Ah, o amor, loirinha. A faca de dois gumes que nos consome de tantas formas diferentes. O amor que anda de mãozinha dada com o ódio a ponto de não conseguirmos, a determinada altura, distingui-los. Sócrates já dizia: “Deve-se temer mais o amor de uma mulher do que o ódio de um homem”. E é por isso que você está aqui.

Permaneceu muda, apenas digerindo aquelas palavras que pareciam dar socos em seu estômago, a chamando para a realidade negada a tanto custo.

—  Nós dois, aqui, nessa mesa de restaurante, prestes a fazer nossos pedidos e também quase um pacto, somos a prova de que Anton Chekhov sempre esteve certo.

—  E quem é esse cara?

— A ignorância é mesmo uma benção ou não. - disse sarcástico. — Um médico russo que era dramaturgo e escritor nas horas vagas. Apenas um dos maiores contistas de todos os tempos.

— E o que ele dizia, óh, sábio Otsutsuki? - ergueu uma sobrancelha, em um tom de zombaria.

“Nada une tão fortemente como o ódio. Nem o amor, nem a amizade, nem a admiração”. Eis que estamos aqui, cada com seu motivo particular, mas movidos pelo mesmo sentimento.

— Estou achando esse  papo pesado demais, Toneri.

— Mas eu nunca disse que seria leve. Veja, vamos pedir um vinho para ver se as coisas se tornam mais tragáveis para você. Mas, antes que você sente de vez, quero deixar avisado, esse é um caminho sem volta, Shion. Uma vez dentro, você é refém das regras do jogo… e o que você irá encontrar pode não ser nada agradável.

Deixou o corpo cair sobre a cadeira. Ela não estava interessada nisso. Tinha seus motivos, como bem observou o albino. Ela estaria decaindo firmando um pacto com alguém tão sem escrúpulos? Talvez. Mas ela julgava os próprios motivos maiores do que esse detalhe.

— Apenas me diga de uma vez o que eu tenho que fazer.

__

O sol estava a pino no céu. Realmente, aquele verão não deixaria a desejar. Fora deixada a poucos minutos na porta de casa e, mesmo tendo tomado pelo menos dois banhos ao longo daquele dia, sentia-se quente. Um calor que nada tinha a ver com a época do ano. Soltou um risinho sapeca, ao sentir o corpo fraco e começou a andar pé ante pé em uma tentativa de não ser vista. Plano frustrado ainda no quarto degrau de escada.

— Eu posso saber onde diabos a mocinha se meteu?

— Pa-pa...Papai?

— Não te vejo gaguejar assim desde os cinco anos, Hinata. - levantou uma sobrancelha.

As bochechas tomaram uma coloração vermelha. Nas piores hipóteses que traçou em sua cabeça do caminho do sobrado à sua casa, ela esbarrava apenas com Neji ou Hanabi. O primeiro faria todo um discurso moralista, a segunda a encheria de perguntas constrangedoras. Antes só fosse um dos dois. Respirou.

— Desculpe, papai. Apenas me assustei. Não tinha notado o senhor aí. - deu um meio sorriso.

— Assustado estou eu, minha filha. Que estado deprimente é este?

Quis morrer. Repassou na sua cabeça e sabia muito bem a imagem que apresentava: os longos cabelos azulados estavam levemente úmidos tomados por nós e frisos, que não foram desfeitos em uma despretensiosa penteada com as mãos; o rosto já estava vermelho como se tivesse participado de uma maratona; o pescoço tomado por manchas roxas, assim como parte de seus braços e algumas partes mais íntimas. Teve vontade de gargalhar. A situação era realmente terrível.

— O que quer dizer com isso, papai?

— Foi assaltada ou algo do tipo?

— Ah, claro que não… Acabamos dormindo no sobrado, não tinha ventiladores ou ar, estava muito quente, sem pente, sabe como é… - gesticulava com as mãos tentando achar alguma lógica em suas palavras. Esforço em vão.

— Hmmm… e por acaso Neji não dormiu por lá também?

— Neji? - desesperou-se.

— Ele também não voltou para casa.

— Ah, ele deve ter ido levar a Tenten em casa… acho que o vi sair um pouco antes de mim e…

— Definitivamente eu não ensinei vocês a mentirem. Céus, Hinata, você é péssima nisso. - falou com um tom de humor.

— Mas eu não estou… - ia descendo as escadas para tentar consertar as coisas. Estava perdida.

— Eu só espero que vocês tenham usado camisinha. Por Deus, eu não estou preparado para ser avô e tio-avô nessa idade. Não mesmo… - disse em negação soltando uma gargalhada em seguida. — Vá tomar um banho e volte para tomar o café que preparei para vocês… afinal de contas, eu já tive essa idade e sei a fome que se fica em dias assim… - soltou, seguindo em direção para cozinha, deixando a filha sem ação e boquiaberta para trás.

Aquilo estava acontecendo mesmo? Em menos de 10 minutos seu pai tinha feitos perguntas embaraçosas após flagrá-la em uma situação quase pós-crime, descoberto que estava mentindo e ainda por cima feito piada sobre isso e sobre netos. Hyuuga Hiashi realmente mencionou algo relacionado a sexo de forma descontraída? Era a treva.

Subiu as escadas correndo para não ter que passar por nenhuma nova vergonha familiar em menos de meia hora em que estava, finalmente, em casa.

___

Acordou ainda deitado no tapete do escritório, porém rodeados por travesseiros e envolto em alguns edredons. O ar-condicionado estava no talo, fazendo com que o clima ali estivesse totalmente diferente do exterior. Sentiu as pontadas na cabeça e espremeu os olhos em uma tentativa de afastá-las. Tentou puxar alguma coisa na memória e lembrou-se dos choros e de adormecer nos braços da esposa. Pelo estômago ruim, embora reclamando por comida, julgou ter bebido, mas o gosto de café em sua boca acusava o contrário. Café.

O cheiro vindo do lado de fora daquele ambiente chamou sua atenção e aguçou suas papilas gustativas. Basicamente, foi isso que o fez levantar-se e mover-se dali. Arrastando os pés envoltos por chinelos, seguiu o faro e deparou-se com longos cabelos vermelhos a preparar um cheiroso café, com uma mesa já preparada com guloseimas.

— Meu menino finalmente acordou. - disse ao observar o loiro coçar os olhos e bocejar.

— Que horas são?

— Quatro da tarde, Minato!

— Sério? - arrastou-se para a cadeira.

— Alguém andou aprontando durante a madrugada e fazendo bagunça. - lembrou-se dos cacos de vidro que teve que colher, mas o que saltou mesmo de suas memórias recentes foram as imagens que mostravam o marido dormindo feito um adolescente após uma crise existencial. Sorri graciosa. — Vamos, tome um pouco de café e coma algumas coisas. Tem bolo, pão, pasta de tofu com ervas e algumas frutas. Se quiser, posso fazer ovos.

— Adoraria… - respondeu, enquanto se servia de uma generosa quantia de café e levava à boca a xícara. — Minha nossa, eu estava precisando muito disso.

— Se tomar com tanta pressa vai queimar a boca, Minato.

— Eu nem me importaria. - disse, enquanto já devorava um pedaço enorme de bolo de laranja, o seu favorito. — Kushina, cada dia que passa você se supera.

— A receita da minha sogra é infalível.

— Pois saiba que conseguiu superar a mamãe.

Kushina abriu a boca em O perfeito. Sabia da quase tara que o marido tinha pelo bolo feito por sua mãe. Superá-la significava muitas coisas naquele momento, até mesmo um “eu te amo” de forma velada.

— Não está exagerando? - questionou em meio a surpresa.

— De forma alguma. - conclui e pôs-se a comer enquanto observava a esposa fazer seus ovos mexidos. Sua segunda iguaria preferida.

Kushina era graciosa quase o tempo todo, menos a trabalho e quando a tiravam do sério. E três coisas a tiravam do sério: mexer com sua família, falhar no trabalho e ser contrariada.

Aos poucos, as lembranças da madrugada foram sendo desenhadas na mente ainda inebriada do Namikaze. Primeiro, sentiu vergonha do seu ato. Depois, sentiu alívio por ter finalmente colocado para fora tudo que estava guardado profundamente dentro de si. Externar sua dor e abrir-se para Kushina tirou um peso que não conseguia quantificar.

— Me perdoe, Kushina. - disse, assim que a esposa se aproximou com a frigideira para entregá-lo os ovos.

— Pelo quê?

— Por essa madrugada…

— Está tudo bem, querido. - sorriu sincera.

— Principalmente, por ter omitir fatos tão importantes. - Kushina assumiu uma postura mais séria, dando uma leve empalidecida. Era a segunda vez que era pega de surpresa em poucos minutos e ela sabia o que se sucederia não seria apenas uma pesar de seu marido. — Eu pensei muito durante a madrugada, consigo me lembrar perfeitamente, e decidi…

— Decidiu o que? - quase sussurrou.

— Não vou te esconder mais nada daqui por diante. Decidi que sempre te contarei o que se passa, principalmente com o nosso filho. E, então, contarei com o seu bom senso para a forma como agirá com as informações que receber.

— Minato… não…

— É o melhor a se fazer, Kushina. Não quero cometer mais injustiças. Nem com você, nem com Naruto e nem comigo mesmo. - os olhos fixos em um ponto da parede à sua frente, onde a janela para o jardim estava aberta, denunciando a tarde ensolarada e abafada pela falta de ventos. — Assim que eu terminar aqui, gostaria de conversar com você no escritório.

— Tudo bem, então.

Apertou forte o cabo da frigideira. Por dias queria receber aquelas informações, mas será que ela estava realmente preparada para o que iria ouvir. Pedia forças aos céus para que não fizesse nenhuma besteira por conta do que estava para descobrir.

——

— E, aí, pirra? - entrou despretensiosamente em casa, como se não tivesse praticamente esquecido de que tinha uma.  Passou pelo moreno, afagando-lhe os cabelos de forma exagerada. O que arrancou um bico do menor.

— Puta merda, Itachi, eu já tenho 18 anos e você continua me chamando de pirralho?

Pulou por cima do sofá sem se preocupar se poderia sujar o estofado e parou na frente do mais novo.

— Qual é, Sasuke, não saca aquelas paradas tipo de pais? “Filhos sempre serão crianças para nós”, eles dizem. Funciona da mesma forma para mim: você sempre será  meu irmãozinho querido! - disse, em um misto de amor e zombaria ao ver a carranca formando na cara do outro. Concluiu aquele pensamento com um poke em sua testa, gesto que marcava a estrada do dois.

Sasuke não conseguiu não sorrir. O poke era um gesto de carinho dos dois, herdado de sua mãe. Aquilo lhe trazia um sentimento nostálgico, misturado com a saudade profunda que sentia dos pais. Entretanto, diante de todo esforço que Itachi fez para cuidar dele e de si mesmo, não se permitia ficar triste, preocupá-lo.

Reparou o irmão caminhar até a mesa, a roupa desalinhada, os cabelos longos desgrenhados, amarrados  em um coque, a barba um pouco por fazer. Ele estava diferente. Há alguns anos Itachi ganhara fama de garanhão, o pegador da cidade, o que podia ter a menina que quisesse. E podia mesmo. Isso porque, apesar de levar uma vida amorosa sem muitos compromissos, o primogênito dos Uchiha era um homem sério, que tocava de forma genial para a pouca idade a herança deixada pelos pais; cuidara o caçula desde a tragédia que se abateu sobre a família; respeitava as pessoas e era muito íntegro.

Na área jurídica, Itachi era visto como uma pessoa imbatível, tal como seu pai Fugaku e tal como seu parente distante Madara foram. Diziam por aí, que a forma firme de olhar para seus adversários e o juiz, era o que garantia as vitórias nos processos que assumia. Já os derrotados por ele juravam que ele colocava o júri em um feitiço. O poder de argumentação e  persuasão dele eram incomparáveis. Sasuke o admirava e esperava ter a mesma carreira sólida e de sucesso, com aquela idade.

— Esse banquete aqui é o que? Cunhadinha is in da house?

— Você demorou tanto para chegar que ela até foi embora. Mas mandou um beijo e, pra variar, mandou dizer que você é o cunhado favorito.

— Ainda bem, né? Imagina que merda se ela tivesse outro cunhado. - riu da própria piadinha sem graça ao ouvir o irmão bufar. Era fácil irritar Sasuke, mas hoje parecia estar especialmente mais suscetível à provocações. Mordeu o pão no qual acabara de rechear com bastante queijo.

— Taí, se algum dia der merda no escritório, você já pode fazer stand up comedy, ou virar palhaço em algum circo. Tão engraçadinho….

— Qual é, Sasuke? Pode arrancar essa veia da testa. Tua cara de cú já me é comum, mas essa tensão tá demais. Que foi? Cunhadinha te deixou nos cinco dedos? - disse com a boca cheia mesmo e suja de manteiga.

— Toda vez que alguém vem me falar do quanto você é sério, eu tenho vontade de me socar, porque lembro dessas suas tiradas horríveis.

— Trabalho é trabalho, casa é  para relaxar. Ou tenho cara de Rihanna para work work work work work?

Levou uma travesseirada. — Eu que pergunto o que aconteceu com você. Tá demais para minha cabeça hoje. Isso é efeito Matsuri?

— Incrível, né? - disse piscando para o irmão, enquanto lambia os cantos da boca limpando a manteiga depositada ali.

— Itachi… não deveria brincar com os sentimentos dela.

— E quem disse que estou brincando?

— “Eu sempre deixo claro que não quero relacionamento sério e, portanto, isso não é enganar ou brincar…” mas e se ela estiver se apaixonando?

— E se eu estiver me apaixonando?

— O QUÊ?

O susto de Sasuke foi tanto que ele deu um pulo do sofá involuntariamente e caiu no chão, sentado. Não ligou para a dor. Aquilo era informação demais. Desde que entendia por gente, Itachi jamais poderia se apaixonar por qualquer outra pessoa, porque sentia pertencer a uma única mulher.

— Para que esse escândalo, Sasuke? Pessoa se conhecem, estreitam suas relações, formam laços, desenvolvem afeto, encontram pontos em comum e se apaixonam. Alguns, às vezes, começam a relação se odiando, implicando e quase se matando… mas, oops, essa história é sua e da Sakura e não minha. - deu um sorriso debochado, que tomou o rosto indiferente diante da surpresa do irmão.

— Itachi, mas você…

— Ciclos são finitos. É chegada a hora que precisamos seguir em frente. Achei que tivesse te ensinado isso… que a vida tivesse nos ensinado isso.

— Você tem certeza? A Mat acabou de sair de um relacionamento bem bosta com o Gaara. Ele fodeu o psicológico da menina. Você, bem, foderam bastante com o seu… não seria justo com você e muito menos com ela.

Itachi suspirou calma e profundamente, pegou um copo de leite e sentou-se no sofá à frente de Sasuke, depositando a vasilha no chão, ao lado do pé. Tentou ser didático.

— Você está preso a fatos que aconteceram há, pelo menos, seis anos. Eu sei que gostava muito dela… e quem não gostava, não é mesmo? Mas a Izumi escolheu o caminho que seguiria, irmãozinho. Ela sabia que se fosse por ele, eu não poderia acompanhá-la. E se foi pelo mundo afora. Não é como se a qualquer momento ela fosse entrar por essa parte e dizer: “Voltei, Itachi, meu amor. Vamos reviver os nossos belos anos adolescentes em que só queríamos ser felizes em nosso mundinho particular!”.

— Aconteceu algo semelhante com o Naruto…...

— Sasu, supere. Apenas.

— Eu me sinto culpado…

— Pelo quê?

— Você não foi por minha causa.

— Também. Mas não se sinta tão exclusivo, pirra. Esqueceu da mamãe? Jamais largaria ela naquele quarto ou nessa casa sozinho. Ainda há tudo que papai construiu ao lado dela e deixou para nós. Não era como se eu pudesse jogar todas as minhas responsabilidades na lata do lixo e sair por aí vivendo um grande amor, tanto porque eu precisava cuidar dos meus primeiros amores que sempre serão vocês, minha família. Entenda isso.

— A vida te cobrou crescer muito rápido, não é mesmo?

— E que mal há nisso? Sempre ouvi aquela piada ridícula de parecer um anão, por ser sempre mais avançado que todas as crianças da minha idade. Não é como se eu sofresse ou fizesse cosplay de Atlas, Sasuke. Tudo que fiz até hoje… nada disso é um sacrifício para mim. Faria tudo exatamente igual.

— Não está tentando curar um coração ferido com um coração partido?

— E quem disse que não podemos pegar as partes de cada um, colar e ver nascer um novo coração? Já tentou olhar por esse viés, cabeçudo?

— Óh…

— Sasuke, você conhece a Mat pouco. Eu também, isso é verdade. Conhecia pelo grupo de vocês, pouco interagia. Mas nesses dias, desde a boate, nos falamos todos os dias e, nossa. - os olhos brilharam. — Ela é mais nova, mas tem um papo interessante, é inteligente, consigo conversar sobre qualquer coisa com ela porque flui naturalmente. E, quando eu me empolgo falando sobre Direito, não me deparo com cara de tédio como as outras meninas, muito pelo contrário. Além de tudo, a Mat é divertida, alegre e bondosa, fora o tesão absurdo que existe entre a gente. Eu realmente não consigo entender que merda Gaara tá fazendo da vida deixando essa menina escapar assim.

— Nossa!

— A parte mais bacana, com certeza, é que ela não está comigo por eu ser um Uchiha, por eu ser o Itachi que pintam, o bem sucedido, pegador. Estava cansado disso. Essa futilidade que me fazia não querer nada sério nunca. Matsuri está mais preocupada com o ser do que com o ter. - suspirou e Sasuke levantou uma sobrancelha com esse fato. — Ao invés de ficar colocando empecilhos, que tal você torcer para seu velho aqui se dar bem nessa, ein?

Sasuke não aguentou. Deixou um sorriso largo aparecer no rosto sempre apático e deu um impulso para frente abraçando o irmão. — Eu espero que ela te faça bem e que o maluco do Gaara não arranje encrencas. Caso contrário, ele vai ter que se ver é comigo, Ita. Vai fundo.

Bagunçou mais uma vez os cabelos do mais novo dando um sorriso ladino. — Agora me conta o que tá criando essa ruga em sua testa.

— Nossa, velho, há uma semana eu estou tentando falar a você com isso, mas a pessoa não desgruda da mulher, né?

— “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, Peter”.

— Seu grande poder é ter um pinto de ouro? E eu achando que o Acquaman é que era inútil. - zombou, recebendo um dedo do meio. Se recompôs. —  Ok, sem brincadeiras agora. O assunto é sério. Naruto está em perigo e eu tenho motivos fortes para acreditar que a casa Otsutsuki está por traz de fatos estranhos que colocam a vida dele em risco.

Pronto. “Putaquepariu.com modo ativar”, pensou Itachi.

__

Se ela andasse mais um pouco de um lado para o outro abriria um rasgo no chão, pensava Minato, enquanto munia Kushina de informações. Desde que começara a contar realmente tudo que aconteceu com o filho deles na última semana, a ruiva não conseguiu mais se manter sentada. O escritório parecia pequeno, embora fosse enorme e o segundo maior cômodo da casa, sendo superado apenas pela sala. A ruiva sentia todo seu corpo tremer e podia ter certeza que a qualquer momento teria um piripaque. As mãos passavam uma na outra constantemente, em uma tentativa de frear a ansiedade, a raiva, a angústia e de secar o suor gélido que saia delas.

Minato tentava ser didático e, ao mesmo tempo, detalhista para que tudo ficasse claro à esposa. Não quebraria sua promessa de nunca mais esconder-lhe nada.

—  FILHODUMAPUTAVELHA. - gritou ao fim da fala do marido, batendo violentamente os punhos contra a mesa, arrancando um suspiro pesado do loiro. —  Minato, o que mais esse desgraçado quer? Ele não vai desistir dessa porra? E o que meu menino tem a ver com isso?

— Hiashi acredita que nada. Que se o ataque foi a mando de Hamura, ele acredita que o alvo real seja a Hinata e Naruto era apenas a pessoa errada na hora errada. Na verdade, a pessoa certa, por ter salvado a vida da menina.

—  Meu Deus. Isso é sofrível, Minato. Nosso menino ama essa garota. Não é possível que depois de tudo que ele passou, quando finalmente a reencontra, tenha que passar por livramentos. Por que?

—  Ainda precisamos avaliar a questão da rixa do neto do Hamura com o Naruto. Parece antiga, mas deve ficar pior porque ele abordou a Hinata e nosso filho intercedeu, como eu falei anteriormente.

—  Por que Naruto nunca contou nada para gente sobre esse menino?

—  Porque ele sabe a mãe que tem, né, Kushina!?

Parou de andar e olhou incrédula para o marido. — Nem adianta, meu amor. Eu, você e ele sabemos muito bem que era capaz de você dar uma surra no moleque Otsutsuki na porta da faculdade. Naruto morreria.

— Óbito não conseguiu realmente nada?

— Tentei ligar para ele, enquanto te esperava para nossa conversa, mas não obtive sucesso. Mandei uma mensagem para ele, ainda não visualizada. Vamos aguardar e tentar entender esse quebra-cabeça.

— Sabe o que me deixa indignado? Nosso menino e nossa menininha correndo perigo por causa de um software de merda…

— Que poderia dar um poder infinito para o seu usuário, possibilitaria negociada com diversas nações e renderia bilhões e bilhões de dólares…

—  Mesmo assim, Minato…

—  E quem tem sede de poder dá valor a alguma outra coisa mais, Kushina? Olha o histórico dos próprios Otsutsuki. São capazes de pisar na própria linhagem se for para garantir o status, o poder político e econômico.

A ruiva abaixou a cabeça quase em pesar, lembrando das missões as quais serviu, todas investigativas, de detenção ou mesmo aniquilação de pessoas envolvidas em esquemas de corrupção e crimes hediondos ligados a fatores político-sócio-econômicos de Konoha.

— Existe mais uma coisa que eu ainda não te contei…

— Mais? - assustou-se.

— Há um infiltrado na nossa equipe de desenvolvimento. Identificamos ele há um mês. A equipe de inteligência da segurança da empresa acredita que o alvo é o novo dispositivo, mas há suspeitas de que eles tentam informações sobre a tecnologia capaz de rastrear qualquer vestígio de pessoas  desaparecidas, o interesse seria principalmente no banco de dados que usamos para fazer o cruzamento de informações; a tecnologia de reconhecimento facial mesmo diante de plásticas e envelhecimento; o rastreio e modificação de códigos de DNA e padrões visuais.

— Meu Deus. Minato, você sabe o que isso significa? - disse em um fio de voz, levando as mãos à boca. Era informação demais, ela iria entrar em um colapso. — Namikaze, você não pode… VOCÊ NÃO VAI SER O NOVO HIZASHI. EU NÃO VOU DEIXAR FAZEREM O MESMO COM VOCÊ. NÃO, NÃO PODE. VOCÊ… MEU FILHO… NÃO.

Do lado de fora, alheio a qualquer situação tensa que pudesse ter acontecido em sua casa naquela madrugada ou que estivesse acontecendo naquele exato momento, Naruto tentava passar  despercebido em sua chegada em casa.

— Tadaima. - disse baixinho, colocando primeiro a cabeça para dentro e vasculhando o cômodo. — Uhul, barra limpa! Bora correr pro quarto antes que dona Kushina apareça.

A sua única preocupação era com a bronca que levaria de sua mãe pelo estado em que se encontrava: sujo, todo roxo, descabelado e chegando em casa no fim da tarde do dia seguinte, 24 horas depois de ter saído para uma festa. Além disso, passaria por momentos constrangedores ao dizer que esteve com Hinata. Devido ao calor, estava sem camisa, o que denunciava a farra particular que ocorreu na madrugada, manhã e início daquela tarde. Seria obrigado a dizer. A mãe amava a amiga e isso acalmaria um pouco os ânimos para broncas, mas abriria uma enorme brecha para perguntas desnecessárias, planos de almoços, jantares, noivado, casamento e nome dos netos que ela queria correndo pela casa. Balançou a cabeça em negação.

— NÃO, MINATO. EU NÃO VOU PASSAR POR TUDO ISSO DE NOVO. EU NÃO POSSO. EU NÃO POSSO PERDER  MAIS NINGUÉM. NINGUÉM.

O grito que saía do fundo da garganta da mulher chamou a atenção de Naruto, mesmo que estivesse um pouco abafado pelas grossas portas do cômodo mais afastado da casa.

— Mamãe…

— EU NÃO VOU ACEITAR QUE TE USEM DE BODE EXPIATÓRIO, MINATO. QUE CONSIGAM O QUEREM E TE ELIMINEM DEPOIS. EU NÃO VOU. ISSO ESTÁ FORA DE COGITAÇÃO.

— Kushina se acalme. - o loiro correu para perto da esposa, que estava abaixada no chão, abraçando o próprio corpo enquanto balançava a cabeça em negação para cada frase que pronunciava

— Sempre fui forte, capaz de suportar horas e horas de treinamento, os piores deles. Tenho uma mente que é capaz de guardar uma série imensa de números, padrões, códigos. Sei falar diversas línguas, sou perita em decodificação. Aguento dias de tortura e nunca tiraram uma informação sequer de mim. Sou capaz de  matar mais de 30 pessoas sem nem piscar, muitas vezes apenas com a força dos meus punhos, sei me disfarçar, me camuflar e até mesmo não existir nesse mundo se essa for a minha missão. MAS EU NÃO SOU CAPAZ DE PERDER TUDO QUE EU MAIS AMO OUTRA VEZ. EU NÃO VOU PERMITIR QUE FAÇAM COM NARUTO O QUE FIZERAM COM O NOSSO BEBEZINHO, MINATO. NARUTO NÃO VAI TER O MESMO DESTINO DO IRMÃO DELE E NEM VOCÊ O DESTINO DE TODOS OS OUTROS QUE OUSARAM DESAFIAR OS OTSUTSUKI.

— Irmão…? - sussurrou ao pé da porta.

— DÓI, MINATO. DÓI TANTO QUE EU TENHO VONTADE DE ARRANCAR MEU CORAÇÃO COM AS PRÓPRIAS MÃOS, VONTADE DE ME RASGAR TODA NA TENTATIVA DE FAZER CESSAR, DE TAPAR ESSE BURACO. NÃO PODEM LEVAR TUDO DE MIM. NÃO É POSSÍVEL QUE ELES FAÇAM O QUE QUEREM E NÃO RECEBAM PUNIÇÃO. NÃO!

Caiu em um choro pesado e sofrido, depois de uma cena que comoveu o marido. Minato não conseguia com aquilo. Mas ela precisava externar como ele fez na madrugada. Mas ver a esposa se batendo, arranhado, era pertubador.

—  Eu estou aqui, Kushina. Eu vou proteger você e o Naruto.

— Eles não vão matar outro filho nosso, Minato. Dessa vez, eu mato ele primeiro.

Ficou branco e sentiu o estômago embrulhar. O que estava acontecendo? O que era tudo aquilo que estava falando? Irmão? Matar? Hizashi? Esse não era o pai do Neji, tio da Hinata? O que os Otsutski tinham a ver com ele? E o que queriam com o seu pai?

Naruto nem mesmo conseguiu lembrar que as suspeitas recaíam sobre Toneri no caso da tentativa de atropelamento, mas alguma coisa no fundo dele o alertavam para conectar o que acontecia agora com o que ouviu na mansão Hyuuga. Mas ele não conseguia. Estava atordoado. Ele tinha um irmão morto? Por que ele não sabia disso?

Correu para as escadas a fim de se trancar no quarto e assimilar aquilo tudo. Mas o vaso caindo pelo caminho o denunciou.

— Quem está aí?

O barulho tirou tanto Minato, quanto Kushina do transe.

— Será que é o Naruto? Será que ele ouviu alguma coisa, Minato?

— Calma, eu vou olhar, ok?

Saiu devagar do escritório, não sem antes olhar mais uma vez para a esposa e andou em direção a sala.

— Naruto? Naruto, meu filho, você já chegou? - gritou ainda do corredor.

O mais novo se encontrava na metade da escada. Não estava assimilando nada direito, mas resolveu parar e esperar pelo pai. Tentou fazer uma cara de normalidade.

— Papai, cheguei.

— Ô, garotão. Onde você se meteu? - perguntou, coçando a nuca, ao ver o estado de Naruto. Embora ainda anestesiado com a conversa que ouviu do escritório. Ficou vermelho e também coçou a nuca, tique que herdara do pai quando ficava envergonhado com algo.

— Ah, a festa foi até de manhã… acabamos dormindo no sobrado… e…. e…. bom, quando acordamos já tarde, meio que demos continuidade a festinha, digamos assim… mas aí dormi de novo e perdia a hora… he… he… hehehehe - estava nervoso.

Minato olhou para o filho arregalando os olhos ao começar a notar as manchas roxas e a assimilar com o que Naruto acabara de falar. E começou a gargalhar sem o menor pudor.

— Acho melhor você correr para o seu quarto antes que sua mã…

— O que tem eu? Por que ir para o quarto sendo que ainda nem me deu um beijo de boa tarde e explicou onde estava até essa hora? - Kushina já andava a passos largos, passando pelo marido e subindo as escadas até onde o seu caçula estava.

Na verdade, depois daquele choque, apenas queria abraçar e beijar a sua cria. E foi o que fez, constatando que o menino estava muito mais alto que ela. Naruto deixou-se abraçar pela mãe e segurou para não chorar, ao perceber que ela estava emocionada. As lágrimas quiseram sair mais ainda por saber o porquê dela estar assim. Ele estava com muitas dúvidas e certa raiva, mágoa e rancor por assimilar que em algum momento da vida mentiram para ele, mas era a sua mãe ali. Kushina, ao ter o abraço retribuído, aconchegou a cabeça entre o pescoço e o ombro do filho, com os olhos fechados e ficou ali por um segundo.

— Mamãe, ama esse abraço, sabia, querido? Ama mais ainda dar um cheiro nesse cang…. MAS O QUE É ISSO AQUI, NARUTO? - disse ao abrir os olhos e dar de cara com um roxo de tamanho considerável no pescoço do filho.

Procurou os olhos dele em busca de respostas e o viu desviar e coçar as bochechas. Ação essa que fez com que o puxasse pelos ombros e fizesse uma análise minuciosa de sua aparência.

— CÉUS, NARUTO, O QUE ACONTECEU COM VOCÊ? FOI ASSALTADO? BRIGOU NA RUA? MEU FILHO….      

— Não é nada disso, dona Kushina. - disse meio ríspido.

— Onde você estava?

— No sobrado.

— Até a essa hora, Naruto? A festa acabou ainda na madrugada, ouvi uns meninos passando por aqui falando sobre o término da bagunça que vocês fazem todos os anos…

— …

— Naruto?

— Ai, mãe, que saco… eu estava com a Hinata. Está satisfeita?

Kushina ficou muda e estática tentando assimilar a quantidade de arranhões e roxos que Naruto apresentava pelo corpo.

— Bom, eu estou cansado, vou tomar um banho e dormir um pouco.

Subiu correndo, deixando os pais sorrindo maliciosos para trás. Bateu a porta do quarto, tirando a roupa. Pegou o celular e mandou uma mensagem para Sasuke. Eles tinham muito o que conversar.

__

Naquele momento, Itachi preferia estar morto a ter que tomar conhecimento daquilo. O que mais temia estava acontecendo. Era chegada a hora que a nova geração abriria a caixa de pandora de Konoha.

Suava frio e sentia-se empalidecer a cada fato pronunciado por Sasuke. Então, Toneri descobrira e já encontrara a herdeira dos Hyuuga. E o pior, tinha deixado claro que a queria e não a deixaria em paz. Na sua cabeça, ecoava se aquilo fazia parte de um plano do alucinado do Hamura ou se era apenas uma péssima coincidência e se, assim como todos os que eram criança até o último assassinato, o herdeiro dos Otsutsuki não sabiam do passado de sangue da cidade. Aquilo era apenas um garoto mimado que não sabe receber um não de uma garota?

As coisas pioravam bastante com Naruto direta ou indiretamente envolvido. Primeiro, tratava-se do impulsivo número um de Konoha. Segundo, tratava-se do amor da vida dele na mira de pessoas loucas. Ainda tinha o agravante familiar dos Namikaze-Uzumaki. Certamente ele surtaria quando soubesse quem a mãe realmente é e a história do irmão.

— Itachi, você sabe de alguma coisa, não sabe?

— Eu?

— Você está pálido e quase não respirou desde que comecei a contar a situação.

— Impressão sua. Apenas estou de ressaca. É isso. - disfarçou. — Sobre isso, não tenho como ter certezas sobre essas teorias de vocês, eu teria que conversar com o Óbito. - manteve o disfarce. — Só não entendi ainda como exatamente você quer que eu ajude.

— Naruto ouviu uma conversa nos Hyuuga, entre Hiashi, Neji e Óbito, há uma treta antiga deles com os Otsutsuki, você não sabe de nada? Isso talvez ajudaria a gente a descobrir e resolver as coisas…

— Resolver? Isso não deveria ser um problema para o Óbito?

— Podemos perfeitamente ajudar…

— NÃO. - pigarreou, voltando a voz. — Não podem. Civis devem deixar a polícia e a Justiça investigar e solucionar possíveis crimes. Não devem se meter, podem arranjar mais problemas. Você faz Direito, Sasuke, deveria saber.

— Sou advogado do Naruto.

Aicalaessaboca. Sasuke, existem coisas que é melhor não mexer…

A campainha tocou.

— Tá esperando visita, Ita?

— Não, e você?

— Que eu saiba, não. Deixa que eu atendo.

Nem bem abriu a porta e foi quase atropelado pelo furacão Uzumaki.

— Porra, você não lê essa droga de celular não? Tem whatsapp para que?

— Nossa, Naruto. Boa tarde para você também. Com esse humor nem parece que fodeu pra caralho. O que tá pegando?

— Eu tenho um irmão morto minha mãe é uma assassina em potencial querem meu pai na vala e a culpa é do Otsutsuki. - falou num fôlego só.

— O QUÊ?

A atenção dos dois foi chamada pelo barulho de copo de quebrando e um Itachi mais branco do que antes.

Ok, você venceu Sasuke. Vocês precisam conhecer o Livro de Madara e o Diário de Fugaku, mas não reclame pelo que estão por descobrir. É um caminho sem volta.

Os dois mais novos se entreolharam, engolindo em seco.


 


Notas Finais


E aí, o que acharam para um capítulo de retorno?
Com esse, encerro o arco 2 de DCAP.
O próximo já será o início do arco 3, onde vocês começam a entender mais sobre os mistérios, as mortes, a história da cidade e de cada família. E vocês achando que era apenas mais uma fic de paixão adolescente, não é mesmo? ahahaha

Os links para entender algumas gírias usadas por Deidara, vocês encontram aqui:
- http://igay.ig.com.br/2014-03-07/conheca-o-gaycionario-o-dicionarios-com-os-temas-mais-divertidos-da-comunidade-gay.html
- https://pt.scribd.com/document/165192044/Aurelia-o-Primeiro-Dicionario-Gay-Do-Brasil

Ah, lembrando que a fic tem playlist no Spotify: https://open.spotify.com/user/fiorellagomes/playlist/6uZyJTWmGzl2kfZdTl85OQ?si=a-tX82p-TxChVQLYldRIPg

Vejo vocês no próximo! <3

Ah, essa semana ainda tem Angel. o/


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