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História Damned - Capítulo 24


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Capítulo 24 - Dúvida


Fanfic / Fanfiction Damned - Capítulo 24 - Dúvida

— Humana? — A palavra finalmente saiu depois de minutos engasgada contra sua garganta. 

— Eu também não consegui acreditar quando ouvi, mas parece haver uma possibilidade. — Caius lhe parecia genuinamente animado. 

— Você não odeia humanos? — Katerina sentiu a tensão e a confusão tomarem seu corpo. — Eu poderia ser transformada de novo? Em vampira?

— Quanto a isso não sabemos, mas Carlisle não acredita que seja uma possibilidade… uma nova transformação pode fazer você retornar a este estado já que desequilibraria tudo de novo. — Ele segurou seu rosto para que ela o olhasse nos olhos. — E você sabe que eu jamais odiaria você. 

— Como tudo isso pode ser possível?

— Pelo que entendi, vamos usar os dois venenos até que um anule as propriedades do outro, como usar um ácido e uma base tão forte quanto, na esperança que um neutralize o outro. 

— E se der errado?

— Não vai dar. — Ele tentou a confortar. 

Katerina o ofereceu um sorriso breve. 

— Quando? — Perguntou, engolindo o veneno de sua boca, em seco. 

— Assim que o amigo de Carlisle chegar, vamos começar a tentar. Já coloquei Elijah responsável por isso então não deve demorar muito. 

— Então você e Carlisle já se decidiram? — Katerina procurou camuflar seus pensamentos por trás de seu sorriso, que ainda sustentava. 

— Acho que é a nossa melhor chance. — Caius a puxou para os braços.

Pediu para que ele a deixasse por alguns minutos para que pudesse se lavar. Era a única desculpa que encontrou para ficar completamente sozinha. 

Novamente, sua vida não estava sob seu controle. 

E a decisão que determinaria seu futuro, não havia sido feita por ela. 

A água estava quente o suficiente para que a sentisse, quando finalmente entrou. Para a pele de um humano, a temperatura incomodaria e machucaria até se tornar insuportável. 

Vampiros não sentem frio e é preciso de muito para os queimar, mas o calor, quando intenso, é fácil de ser sentido, agradável até tornar-se letal.

Encaixou seu pescoço em meio a porcelana que a envolvia e, com os dedos, brincou com a água que aos poucos, esfriava ao entrar em contato com sua pele e ia tingindo-se de vermelho. 

“Humana outra vez…” Sussurrou para si mesma, pouco antes de permitir que a água lhe cobrisse a cabeça e afundar completamente. 

O líquido, aos poucos, formava uma barreira invisível sobre seus olhos, mas não a impediam de enxergar os oito cores que se formavam na luz, com a ajuda das pequenas partículas de água presentes no ar. 

Não precisava retornar à superfície para respirar. 

Não precisava piscar ou fechar os olhos por sequer um segundo, perdendo qualquer instante das milhares de coisas que aconteciam...sem que olhos humanos pudessem enxergar. 

A água era confortável, ainda que agora fria, sentia-a quase como se fossem uma só. Era como estar dentro de uma película que não a inibe do que acontece do outro lado, mas a protege. 

“Ser humana de novo...somente humana.” Pensou mais uma vez. 

Emergiu uma outra vez. 

Lavou seus cabelos até que o cheiro de sal finalmente a deixasse. Limpou-se até que em si não houvesse nada além do cheiro de cereja e outras frutas vermelhas, até que o sangue deixasse suas unhas. 

O sangue que em breve poderia não ser mais necessário. 

Secou os cabelos até que o castanho se tornasse vivo mais uma vez. Passou os dedos pelos fios ajudando as ondas voltarem a se formar. 

No espelho, sua imagem, com seus olhos carmesim e as bochechas livres de qualquer cor. 

Mármore.

Indestrutível. 

Tudo o que a deixaria quando voltasse a ser exatamente o que era. 

Tornou-se pesada para as próprias pernas e a tensão passou a consumi-la aos poucos enquanto o teto parecia vir ao chão e as paredes tornavam-se mais próximas, fechando-a aos poucos, ameaçando mantê-la presa. 

Deixou o banheiro e se trocou rapidamente na esperança de que o sentimento a abandonasse. Caius não estava mais ali. 

Queria que os diversos tipos de tecido fossem capazes de a distrair a ponto de esquecer o que quer que sentisse. 

Mas não havia qualquer seda, cetim, algodão, linho ou lã que pudessem a ajudar. Perguntou-se como qualquer um deles aparentaria em seu corpo quando finalmente se tornasse humana, provavelmente não a serviria bem, era o que acreditava. 

Jeans escuros e uma blusa cinza de ombros caídos, que estavam bem a sua frente, o tempo todo, é que foram a sua escolha. 

Olhou pela janela, vendo o céu começar a escurecer. 

Ainda lhe restava um lugar que pudesse a confortar. 

O telhado da casa não era facilmente acessível, mas isso não era um problema. Alto o suficiente para a livrar dos outros sons e reservado o suficiente para que se sentisse só. 

Fechou os olhos por um instante, percebendo por fim o quanto estava confusa. Não compreendia o que sentia, mas sabia que a incomodava, como uma farpa de madeira presa debaixo da unha. 

O silêncio momentâneo a ajudava, mas não o bastante para lhe entregar as respostas. Reconhecia que deveria se sentir aliviada por finalmente ter em mãos a possibilidade de uma solução, mas não era isso o que acontecia. 

Sua vida tinha acabado de ser estendida por mais alguns anos, mas não era felicidade ali, talvez qualquer outra coisa. 

— Katerina? — Ouviu Caius. 

Não estava mais sozinha. 

A voz dele aos poucos percorreu o caminho todo até a encontrar, penetrando-a como o tiro de uma bala, fazendo-a completamente refém. 

Seu corpo estremeceu, finalmente libertando-se de sua tensão. Qualquer coisa que a preocupava, parecia ter ido embora agora que ele estava por perto.

— Sim? — Respondeu, ajudando-o a encontra-la. 

— Pensei mesmo que tivesse a ouvido terminar. — Ele sorriu, alcançando-a com facilidade. 

— Estava com Carlisle?

— Sim, mas ele acabou de deixar a casa. — Caius caminhou para perto dela e deitou-se ao lado dela. 

— Não esperava que se tornassem tão confortáveis perto um do outro tão rápido. 

— Eu não diria confortável… ambos temos um interesse em comum. — Trouxe-a para os braços. — Proteger você. 

— Hum. — Murmurou, enquanto sorria. 

— Mas, você ainda é a minha companhia preferida. 

— Eu fico feliz por isso. 

— O que foi?

— O que? Nada! — Katerina disfarçou, não muito bem. 

— Eu consigo perceber quando alguma coisa a incomoda…

— Não é nada demais, é só...tudo isso. — Katerina guardou dentro de si o que pensava. 

— Hey. Vai ficar tudo bem. — Apertou-a contra si. 

— Talvez...— Ela levantou os olhos para capturar a visão dele em meio às sombras que se tornavam mais e mais densas. 

Cada pedaço de seu corpo respondia às milhares de sensações que a abraçavam e, mais uma vez, viu-se mais viva na morte. O cheiro dele misturado a todos os outros que conhecia, finalmente faziam-na sentir-se em casa.

A sensação de completude que jamais pensaria ser capaz de sentir.

Percebeu que ele estava tão assustado quanto ela e que estavam prontos para pular de um penhasco, mas juntos. 

O fim se tornou mais assustador.

A beleza de Caius era capaz de a fazer esquecer o que a atormentava. O dourado em seus cabelos em contraste com a palidez translúcida de sua pele e o vermelho escuro de seus olhos, lhe davam um acabamento etéreo, fazendo-o se parecer a uma escultura que destoa de todo o resto. Traços tão bem feitos que Katerina sentia poder passar o dia os contornando com as pontas dos dedos, sem se cansar.

Ele era a definição de sobrenatural, fora do comum, diferente de qualquer outra coisa que já tenha visto.

— Conte-me sobre ela. — Katerina quebrou o silêncio que começava a se formar. 

— Ela?

Katerina então trouxe à mente dele a imagem de quem se referia. Sentiu-o enrijecer sob si. 

— Por favor…

— Não tem nada que já não saiba. 

— Mas, eu gostaria de o ouvir falar sobre ela…

Ele hesitou deixando-a perceber o quão difícil aquele assunto em específico era. 

Por entre tudo o que havia visto em seus pensamentos, aquela era a última memória que continha qualquer resquício de humanidade e tinha sido dolorosa o suficiente para que arrancasse dele todas as outras emoções por muito tempo. 

Se ele não quisesse dizer, Katerina não o forçaria ou mencionaria novamente. 

— Ceres...foi a terceira filha de meu pai, sendo eu o mais velho. Eu já tinha muitos deveres e idade o suficiente para ajudar em muita coisa nas propriedades quando ela nasceu. — Puxou o ar para dentro de seus pulmões, algo que raramente ela o via fazer. — Quando soubemos que teríamos mais uma criança, eu não a vi mais do que via as outras coisas, ela deveria ser mais uma tarefa e mais uma responsabilidade...mas no momento em que a vi, fui completamente rendido, ainda que ela tivesse acabado de tirar a vida de nossa mãe no parto. 

“Éramos ricos o suficiente para que Ceres já tivesse dezenas de pretendentes aos seis anos de idade, mas ela cresceu como uma garota alheia a qualquer coisa, dedicada a seus interesses e apenas a eles. Para o meu pai, eu era a sua melhor ferramenta, nosso irmão do meio se mudou assim que completou 18 anos para administrar algumas das terras mais distantes e aos poucos, ela se tornou tudo o que eu tinha.” 

— Eu a vi… olhos acinzentados, cabelos longos dourados e um rosto que lembrava muito o seu. — Katerina o envolveu um pouco mais procurando o confortar. 

— Tinha muito mais naqueles olhos cinzentos e atrevidos, do que as pessoas eram capazes de notar. A maneira como observava tudo o que a interessava...eu podia dizer que tudo era mais intenso para ela e ela não fazia questão de esconder sua excitação por muitas coisas da vida.  — Caius falava com profundo respeito e admiração, ainda que a dor ainda lhe apontasse aos olhos como duas agulhas afiadas. 

— Eu gostaria de ter a conhecido…

— Vocês adorariam uma a outra. — O sorriso dele se tornou brilhante. — Ela também era uma amante de História e Arte, ainda que fosse limitado para ela, qualquer estudo, por ser mulher...ela simplesmente não ligava...tão teimosa quanto você. 

— Eu poderia a ensinar muita coisa sobre como fazer as coisas escondido… — Katerina sorriu, lembrando-se dos dias de hospital onde nada lhe era permitido. 

— Eu tenho certeza que ela seria quem conversaria mais, sempre tagarelando sobre suas ideias intermináveis… lembro-me de um dia onde passamos uma tarde toda, simplesmente analisando todos os seus vestidos porquê Ceres precisava ter certeza de que escolheria o perfeito para o seu baile de apresentação. 

— Eram muitos? — Kate o observava sorrir como nunca antes. 

— Dezenas! Todos feito sob medida para a ocasião porque ela não conseguia se decidir entre um modelo só… não me deixou ir embora até lhe dizer qual era o meu preferido. 

— O quão próximos eram?

— Eu sentia que meu dever era protegê-la e ela me via como seu protetor… confidente, o único que daria atenção ao que ela teria dizer, então estávamos juntos durante todo o meu tempo livre. 

— Como...aconteceu? — Katerina não queria perguntar, mas não conseguiu segurar-se. — Se quiser dizer, claro. 

— As pessoas que moravam perto, em vilarejos e cidades próximas, começaram a morrer uma a uma e os boatos eram de que a peste havia chegado. Todos os meus ossos me alertavam que aquilo era muito diferente de qualquer coisa que já tivéssemos enfrentado, mas minhas suspeitas somente foram confirmadas quando vimos os primeiros corpos. Peste nenhuma os destruiria daquela maneira.  

— As pessoas sabiam?

— Haviam boatos, muitos deles não faziam sentido e outros não levavam a coisa alguma. Sabíamos que era ruim, rápido e parecia vir em nossa direção. 

— Não poderiam simplesmente irem embora?

— Pretendíamos… Até nossos servos começarem a serem atacados…Não tinha mais tempo! Tentamos nos proteger trancando todas as portas e iluminando toda a propriedade com fogo. Banhamos todos os cantos com água benta e muitos de nós reuniram-se na capela enquanto suplicavam por suas vidas. Tentamos manter a calma, mas o barulho era alto demais… os gritos eram intensos demais...Gritos que pareciam vir de todos os lados, daqueles que não escaparam a tempo. O que quer que fosse, parecia ir e vir muito rápido, mas deixar uma dor maior do que poderíamos imaginar. 

Tinha que ser o próprio demônio. 

— E eu suponho que você não ficou junto com os outros...

— Estava me juntando a meu pai, na capela, quando percebi que Ceres não estava junto a nós. Foi uma escolha minha sair e a procurar. 

“A cena que vi, não poderia ser descrita por qualquer outra coisa. Jamais tinha ido a guerra, mas imaginava que aquele teria sido o resultado de um campo de batalha completamente massacrado. Corpos desmembrados, cabeças separadas, frios e drenados de sangue. 

— Hey...— Katerina o sentiu se tornar tenso e o trouxe mais para perto, esperando que seu toque pudesse o confortar. — Não precisa dizer mais...

— Ceres estava em seu quarto, deitada em sua cama… segurava nos braços o vestido que eu tinha lhe dito ser o meu preferido — As palavras pareciam o deixar com dificuldade, mesmo assim continuou. — Eu pensei que estava dormindo quando me aproximei… estava tão pálida...tão fria..— Os olhos dele encaravam o vazio. — Toquei sua bochecha por alguns segundos...foi quando percebi as marcas em seu pescoço. — Ele fechou os olhos. 

— Caius... — Katerina o sentiu se encolher sob si, permitindo-se ser mais acolhido por ela. Ela ainda era o seu conforto e isso a tranquilizava. 

— Não tive tempo de sentir por ela. Algo me atacou antes que eu pudesse ver e por algum motivo, foi embora antes que pudesse terminar de me matar… foi assim que me transformei.

Katerina viu sua última lembrança humana. Seus olhos aos poucos se fechando para a vida que tinham enquanto procuravam imortalizar a imagem de sua irmã uma última vez, alheios do que viria em seguida. 

Seu coração sentiu por ele, mais do que poderia lhe dizer, mas estava feliz por ele ter conseguido lhe dizer tudo o que disse. 

— Eu sinto muito por tudo isso. — E nesse momento, as palavras de Seth a invadiram mais uma vez. 

“Pedir desculpas não conserta nada.” 

— Eu fico feliz em ter finalmente conseguido falar tudo… guardar cada pequeno pedaço daquela noite, além de todas as outras memórias que tenho dela… é o que eu devo a ela. 

— Eu tenho certeza de que ela olha por você..

— Não depois das coisas que eu fiz! Ceres teria desprezado todas aquelas coisas. Eu fiz questão de morrer junto a ela naquele dia e desde então, me tornei alguém que ela e eu odiaríamos. 

— Você nunca deixou de ser você, estava preso e eu tenho certeza de que Ceres sabe disso. 

— Eu não sou merecedor do perdão dela...ou do seu, Katerina. As coisas que eu fiz, não podem ser desfeitas e não merecem anistia. 

— Então...— Katerina tomou o rosto dele por entre as mãos. — Eu aceito você assim, com todos os seus crimes, o partido, o que sangra e o que está sujo...aceito tudo isso. 

— Por que?

— Eu amo você… não quem você foi a dois mil e quinhentos anos atrás, ou qualquer fazia que eu tenha criado na minha cabeça...mas você, com sua alma condenada e todo o resto que vem junto. Eu me apaixonei pelo diabo e tenho consciência disso e tenho certeza de que Ceres se sentiria assim. — Ela sorriu. 

— Eu não diria que eu seja o Diabo. — Ele sorriu. — Apenas o seu ajudante. — Tomou o queixo dela por entre os dedos e trouxe seu rosto para que pudesse a beijar. — Se eu te perder...— Suspirou contra seus lábios. 

— Você não vai me peder. 

— Promete? 

Não era uma promessa que ela poderia fazer e Caius sabia disso. Não havia nada que os assegurasse de um final feliz. Tudo poderia dar errado, a qualquer momento. 

— Prometo! — Ela o prometeu mesmo assim. 

Encontrou com o olhar a floresta a sua frente. Sem que sua boca formasse qualquer som, dentro de si, suplicou para que seu caminho fosse diferente daquele que a aguardava. Parecia-lhe cruel demais que, mais uma vez, estivesse prestes a ter tudo tirado de si. 

Ser fraca e vulnerável ou envelhecer, presa em uma realidade na qual deixou de fazer parte. Desejou com tudo de si que algo presente na terra, nas folhas, na madeira ou até mesmo no ar, pudesse a responder e mudar o que parecia já ter sido escrito. 

No entanto, sabia que não havia qualquer outra resposta e aquela era a forma do Destino lhe dizer que, não havia como fugir de algo que sempre lhe pertenceu. 

E então, a verdade, que sempre esteve ali, finalmente lhe ocorreu. Havia algo que desejava, muito mais do que qualquer outra coisa. Mais do que o amor que era capaz de sentir, maior do que a ânsia pelo sangue. Sobreviver. No fim, era tudo o que sempre desejou. 

Se tornar-se humana era a única maneira de continuar viva, então humana teria de ser. 

***

Dia 4

 

Aquela floresta era mais calma do que as outras que conhecia, calma demais. Era o perfeito prenúncio da tempestade que em breve enlouqueceria seu solo. As árvores e os animais, assim como a terra sob seus pés, tentavam proteger as criaturas que ali viviam, mas, Athenodora melhor do que qualquer um, sabia conversar com os espíritos antigos. Tinha dado-se o trabalho de ir até ali para conhecer o que se escondia. Conseguia se esconder de lobos e dos vampiros de olhos dourados. Vinha se escondendo por décadas.

Seu desejo não era perturbar aquilo que procurava apenas cuidar de si, no entanto, ficar longe não tinha sido possível, não quando a sensação era tão intensa.

Em algum lugar ali, ainda que não pudesse enxergar, sentia a presença de uma criatura mística conhecida. Podia sentir pelo cheiro de seu sangue que a conhecia.

Sua pele ainda sentia as paredes de pedra às quais tanto estava acostumada, fazendo-a lembrar do caminho que tinha escolhido, porém, suas veias gritavam como se seu sangue desejasse pulsar mais uma vez. Era a alma da qual havia jurado se livrar.

Confinada e conformada, tinha se esquecido do que o mundo realmente guarda e do quanto, não somente a noite, mas o dia, são perigosos. Não que tivesse medo algum. Tinha vendido-se para que não sentisse mais medo. O preço tinha sido alto e as consequências irreversíveis, mas não havia uma parte sequer de si que se arrependia.

Observar seria o suficiente. Já era muito ser capaz de sentir tudo aquilo mais uma vez. 

O cheiro de lobo incomodava por todas as partes daquela floresta, mas ali pareceu se tornar mais intenso. 

Não demorou para perceber que tinha companhia. 

A criatura jurava estar sendo discreta o suficiente para se esconder dos outros que estavam por perto, mas o cheiro o denunciava. 

Era o filhote de lobo que fazia parte do círculo de conhecidos da pequena Katerina, se tivesse feito sua pesquisa direito. 

***

Seth observava de longe a casa dos Cullen quando a viu voltar para casa, com os próprios pés, sozinha, como se nunca tivesse sumido. 

Seu primeiro instinto foi correr até ela, mas, quanto mais acompanhava pelas paredes de vidro, mais se sentia preso em seu lugar. Quando finalmente percebeu o outro chegar, ainda que não soubesse exatamente o que diziam, um nos braços do outro, foi o suficiente. 

Não fazia ideia do quanto ela tinha o escondido. 

E agora, mesmo depois de tudo, tinha voltado para a casa da Bruxa. 

Não tinha qualquer coisa que justificasse seu retorno àquele lugar mesmo depois de ter dito para si mesmo que não voltaria. 

Depois de passar um dia vagando longe de qualquer um que conhecesse, teve certeza de não poder voltar, não enquanto não soubesse o que fazer com os seus pensamentos e ainda fosse um risco colocar a vida de Katerina em perigo. 

Era o que ele jamais desejaria, mesmo que seu coração fosse partido centenas de vezes. 

A casa não era muito fácil de ser encontrada e a olhos humanos dificilmente seria notada, mas Seth conhecia seu cheiro e sabia exatamente como chegar a ela. 

Encontrou a porta e bateu. 

Felizmente, a resposta não demorou a chegar. 

— Conseguiu o que pedi? — A bruxa mal o cumprimentou. 

— Eu…

Mas, os olhos dela passeavam pelos arredores, mostrando-o que ela não ouvia qualquer palavra que ele dissesse. Sem qualquer outra explicação, puxou-o para dentro. 

— Então? — Não lhe ofereceu um lugar para se sentar ou qualquer gesto amigo. 

— Eu não consegui…

— Desistiu então? — Ela não se importava com o que ele fazia, podia perceber isso. 

— Eu…

— Hum… o que é que pode ter atrapalhado o sonho do jovem lobo de se tornar um sanguessuga? 

— Não é o meu sonho, eu só...— Seth não sabia como usar as palavras quando estava perto dela. Tudo nele lhe dizia que ela era uma ameaça. 

— E o que faz aqui se não precisa mais dos meus serviços? 

— Eu não disse que não preciso mais...— Seth alarmou-se. — Gostaria de saber se poderia me ajudar a prender meus pensamentos dos outros lobos. 

— Hum? Bom, a telepatia deve ser mesmo um problema para você que tem todas essas ideias idiotas. Pense o que o líder da sua tribo diria se soubesse que deseja virar um deles.

— Então não consegue. 

— Eu não disse isso. — A mulher sorriu. 

— Qual é o seu preço? 

— Bruxas são proibidas pelos espíritos de pedir qualquer valor monetário em troca de seus serviços. — Revirou os olhos. — No entanto...tem algo que pode trazer para mim. 

— O que é?

— Veneno de lobo. 

— O que? Nós não...— Seth estava verdadeiramente confuso. 

— Não vocês, metamorfos...lobos! O lobo mais velho do seu grupo tem um pouco guardado em um vidrinho, que está com a família dele a gerações,  em uma de suas prateleiras de ervas, seu instinto deve lhe dizer o que é. Pegue e traga para mim, assim que eu terminar com você. 

— Eu não posso simplesmente roubar o líder do conselho, eu poderia ser expulso por isso. 

— É pegar ou largar… 

— E o que quer com isso?

— Não é da sua conta. 

Seth sentiu sua garganta apertar. 

Já teria virado as costas se não se lembrasse do que Carlisle havia dito. Tinham regras sobre respeitarem o conselho, os anciões e a aldeia, mas as regras mais assustadoras se aplicavam a vampiros bebedores de sangue. Katerina seria morta por isso e os Cullen forçados a se mudar, proibidos de retornar, levando Renesmee e Jacob consigo. 

Faria, desde que fosse a coisa certa a se fazer. 

— Tudo bem. 

— Muito bem. — Ela indicou um lugar onde ele pudesse se sentar. O casebre era pequeno, mas cheio de coisas que Seth não sabia o nome. Sentou-se em uma das cadeiras da pequena mesa de madeira localizado no, que ele acreditava ser, centro da sala. — Não sei por quanto tempo isso vai durar, então retorne assim que conseguir escutar qualquer coisa da cabeça de outro lobo. 

— Pode deixar. 

—Vai doer... muiro. 

A Bruxa colocou as mãos em sua cabeça e começou a varrer seus pensamentos sem qualquer permissão. 

Por entre eles, um rosto e um nome lhe chamaram a atenção. 

Katerina Karizma Hale Cullen. 

***

Qualquer feitiço que a Bruxa tenha colocado para proteger a casa dos olhos de outros, não impediu com que Athenodora escutasse muito bem o que havia sido dito. 

Sentia ter acabado de ganhar a luta. 

Esperou, em pé, em um dos galhos de árvores, a espreita, até que o lobo aparecesse mais uma vez. Tonto e aparentemente enfraquecido, ele tinha deixado de ser uma ameaça. 

Pulou em sua frente, bloqueando seu caminho. 

— UOU — Seth se afastou, colocando-se automaticamente na defensiva. 

— Não se assuste...eu não mordo. — Ela sorriu. — A não ser que me pessa. 

— Quem é você? — Seth se perguntou se ela conhecia os Cullen ou se sabia que estava muito perto de terras onde não seria muito desejada. Certamente era um rosto que nunca tinha visto, muito menos familiar do que o do outro, mas poderia dizer que pareciam ser irmãos. 

Os mesmos cabelos dourados e olhos vermelhos irritantes. 

Ele a consideraria bonita, se ela não o lembrasse tanto do outro. 

Talvez estivesse ali por causa dele. 

— Isso não importa. 

— Claro que importa. — Seth ainda se sentia fraco, e sua cabeça latejava como se tivesse enxaqueca. Talvez conseguisse se transformar, mas teria trabalho para a perseguir sozinho se fosse necessário. 

— O que importa...— Ela se aproximou. — É que eu quero muito uma coisa… e pelo visto você também. 

—...E? — Aquilo não fazia o menor sentido. 

Ela tomou por entre os dedos, o colar que levava ao pescoço. Nele parecia haver o que acreditava ser um pequeno frasco, preenchido por um líquido escuro. Sangue. Tinha certeza. 

Olhando-o ainda nos olhos, virou em seus lábios tudo o que havia ali dentro até que o vidrinho se tornasse vazio. Quando Seth menos esperava, ela cuspiu dentro do vidro, tampou-o e estendeu o colar em direção a Seth. 

— Faça! — Soou como uma ordem. — Faça e eu tiro ele do caminho dela. 

Os pés de Seth se prenderam ao chão quando terminou de ouvir. 

Não parecia ser o certo. 

Na verdade, tinha certeza de que aquilo era uma péssima ideia. Confiar em estranhos nunca dava certo. 

— Eu não a conheço o suficiente para confiar em qualquer coisa que diga. 

— Lobo...— Ela sorriu mais uma vez, desta vez expondo os dentes brancos levemente manchados de vermelhos. — Eu sou o que você é para ela, só que para ele. 

— E eu devia aceitar isso por que?

— Porque pode ser a sua última chance de a ter de volta. 

O colocar continuou estendido por mais alguns instantes. 

Até que Seth se cansasse de recusar. 

Era uma péssima ideia, mas deixaria-se ser egoísta, pelo menos uma vez, pelo menos por hora. 

— Como sabe de que é isso o que preciso? 

— A muito tempo atrás, eu também fui uma bruxa. — Ela sorriu, antes de sumir por entre as árvores sem deixar qualquer rastro de sua presença.

 


Notas Finais


A história de Caius foi inspirada da de um dos vampiros de Anne Rice que não me lembro o nome agora...


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