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História Dangerous - Capítulo 14


Escrita por: MAVE-UK

Notas do Autor


Obrigada pelos comentários e favoritos ❤
Link da música 🎧
https://youtu.be/IZ4CYn16e4w?list=PLqnUSa2wAImJFQSGo2Ss0h0L85CPYeAp4

Boa leitura 📖❤

📢 ATENÇÃO, CAPÍTULO, COM CENAS FORTES!

Capítulo 14 - Fourteen


Fanfic / Fanfiction Dangerous - Capítulo 14 - Fourteen

Respirando no escuro, deitado ao seu lado

As ruínas do dia, pintadas como uma cicatriz

E quando mais eu me endireito, menos elas querem tentar

Os sentimentos começam a apodrecer

MGMT – Little Dark Age

____________________

Por Mave-uk

Alguns anos antes...

Naruto, 17 anos 

Coloco meus pés na mansão, e sou recebido por Zeus.

Ele parece ter comido demais e crescido horrores nessas duas semanas que passei fora. 

Tento desviar de sua língua molhada enquanto suas patas empurram meu peito quase me derrubando no chão.

— Calma, eu também senti sua falta! 

Eu o empurro suavemente e afago sua orelha felpuda de golden retriever.

Olho ao redor e sigo para as escadas, com sorte conseguirei chegar ao meu quarto, pegar mais mudas de roupas, e sair antes que alguém me note.

Zeus se empurra em minhas pernas como um fodido gato, seu pelo dourado gruda em minhas calças de caça, sujas de sangue e terra.

Odeio ficar tanto tempo longe dele, mas é inevitável. 

Abro minha porta e suspiro frustrado ao ver que o quarto não está vazio. 

Ela está de costas em frente a minha cama, seu cabelo ruivo está solto, ela me nota e se vira, um sorriso branco e predatório surge em seus lábios.

— Querido, que bom que voltou.

Eu me movo para o closet, abrindo minha mala, jogando as roupas sujas pelo chão, e começo a encher com novas mudas.

— Já estou saindo, vim apenas buscar algumas coisas, Sasuke está me esperando.

Uma mão toca minhas costas, meu estômago revira, fixo meu olhar nas prateleiras em minha frente.

— Mas precisamos de você no jantar desta noite filho, alguns amigos importantes de seu pai comparecerão, e é importante que a família toda esteja presente, você entende não é? — sua mão corre por minha espinha lentamente.

Observo as gravatas coloridas, e me imagino enforcando ela com uma delas, seria uma porra de surpresa para o jantar.

— Eu não posso. Você sabe que não, não me obrigue.

— Querido, isso não é apenas para seu pai, é para você também. Estamos apenas cuidando do seu futuro, eu apenas estou cuidando de você, Naruto. — sua voz enjoativa diz ao meu ouvido.

Memórias torcidas e perturbadoras queimam minha mente.

Travo meus dentes para não responder.

Sinto a bile subir por minha garganta.

Oh sim! Eu sei, é tudo para o meu bem, é tudo sempre para mim.

— Sim, mãe, eu sei.

— Vou mandar as cozinheiras fazerem seu prato favorito, vai ser tudo perfeito. — ela planta um beijo em minha nuca, e diz suavemente. — Use o Armani e a gravata branca querido, e não se atrase, não é elegante nos deixar esperando.

Não me viro enquanto a ouço sair do quarto, solto minha bolsa no chão.

Gravatas e roupas me cercam, todas limpas e dobradas, nada fora do lugar, nada além da pura e etérea perfeição é permitida nessa casa.

A mentira me enoja, me revolta, me enlouquece.

Algo escapa por entre meus dedos, e com fúria destruo tudo que vejo.

Eu não controlo nada, eu odeio o controle.

Ouço latidos, mas nada me para, nada atravessa meu frenesi de ódio, não até que todo o closet esteja destruído.

 

X

X

X

 

Desço o lance das escadas tentando controlar meu desprezo, e mando uma mensagem para Sasuke explicando o porquê de ainda não ter aparecido, sua resposta é apenas um ok.

— Naruto, lembrou que tem casa pelo visto.

Sua voz prepotente me alcança. 

— Seria uma bênção me esquecer que esse lugar existe, senhor Uzumaki.

Eu estalo o pescoço e me afasto.

Sinto seu olhar queimar minhas costas, tamanho atrevimento não vai passar impune, eu sei, mas não me importo, não posso evitar.

Eu estou no limite, preciso de algo para me tirar do ar, e sei que vai ser a única maneira de aguentar essa noite. 

Sequestro um copo e uma garrafa de whisky do bar, o garçom olha rapidamente para o outro lado.

Fodido covarde.

Arrasto-me até o jardim desejando que um meteoro caísse e lavasse essa merda de lugar, me jogo nas espreguiçadeiras e olho a escuridão.

Zeus adoraria correr por essas terras se estivéssemos em uma família normal, ele seria um cachorro bem feliz, mas como todos nessa família, ele está aqui apenas para interpretar um papel.

Uma fachada de família perfeita e comercial.

— Me passe isso. 

Karin se senta ao meu lado, e puxa a garrafa de minhas mãos, ela toma um longo gole e eu puxo a garrafa novamente.

Só um de nos pode ficar entorpecido hoje.

— Como está o Sasuke? — ela pergunta ansiosa ajeitando os pequenos peitos no vestido tomara que caia.

Reviro os olhos e não respondo.

Sasuke está mais instável ultimamente do que eu.

Queria ter sua sorte, ele não precisava aparecer nessas merdas, ele não precisava ser a fachada para nada.

A família dele o esconde tanto quanto a minha gosta de me mostrar.

Eu tomo um gole direto na garrafa, fodasse o copo.

— Queridos o jantar será servido, vamos. 

Minha mãe aparece e puxa a garrafa de minhas mãos.

Nossos olhos se encontram, os dela um reflexo dos meus, o que me faz querer arranca-los de meu rosto às vezes. 

Karin salta em pé e some para dentro da casa, ela é tão maleável e obediente às regras que me irrita.

Todos aqui parecem gostar de dançar conforme a música, menos eu. 

Eu não sou como eles, mas ninguém parece notar ou se importar.

Sigo até a sala e me sento ao lado esquerdo do senhor Uzumaki, Karin ao meu lado, e minha mãe na minha frente, como sempre.

O jantar ocorre normalmente, eu respondo sempre que solicitado, me esforço mortalmente para evitar responder às alfinetadas que meu pai lança para mim, e eu sorrio.

Como, sempre. 

Somos treinados desde pequenos a nos portar como uma família sorridente e perfeita.

Para alguém de fora, parecemos um típico clã americano, esbanjando dinheiro, felicidade, classe e beleza. 

Somos os mais abastados, todos nessa casa se comportam como deuses intocáveis e brilhantes.

E essa é a grande mentira.

Horas depois observo eles sorrirem como hienas de merda, pingando malícia e falsidade.

Cada respiração nesse lugar me enjoa, a euforia em meu peito alimenta meu ódio, eu sinto as chamas correrem por meus membros a medida que minha fodida família, cheias de beijos e abraços, tão podres e falsos, dá seu “show”.

Ok, estou sendo hipócrita, eu admito, sou podre também, mas não existe falsidade em mim, isso eu não suporto.

O reflexo mais velho de mim mesmo me observa enquanto minha mãe se inclina ao seu lado, como uma esposa dedicada, meu estômago torce, eu nunca serei eles.

— Naruto está estudando para isso, assim que sair da faculdade, nós vamos apoiar em peso sua candidatura para vereador.

Eu congelo assim que a conversa entra em meus ouvidos, nem fodendo.

— Venha querido, venha conhecer o senador Zuir, ele está muito interessado nos seus planos, para o futuro.

Sua voz doce me faz querer vomitar. 

Estou sufocando, passei tempo demais aqui, estou a tempo demais pairando nessa merda, preciso me movimentar.

Levanto-me e atravesso a sala, olhos me seguem, quero arranca-los um por um.

— Naruto? Naruto, onde você vai querido? Está tudo bem?

Eu paro, o copo de scott pesa em minhas mãos, quero matar todos e pendurar suas cabeças nas paredes assim como faço com os animais de caça, porque é isso que eles são, pedaços de carne podre dessa cidade.

Alguém me segura pelo braço, Karin.

— Onde você pensa que vai? Você não pode sair assim, eles vão ficar irritados e vão descontar em mim!

Eu olho seu cabelo reluzente.

Seus traços de garota de dezesseis anos ressaltados com maquiagem.

Ela poderia ser minha irmãzinha, eu poderia ser o grande irmão que a protege do mau, mas o problema, é que esse não sou eu, o mau já está em mim.

Estou cansado de proteger, de mentir, cansado de me importar.

Eu me viro, e a olho dos pés até a cabeça, fixo em seus olhos verdes e prepotentes, em meu peito sinto uma chama queimar, mas ela é fria como gelo, aquele menino que amava sua irmãzinha não existe mais, a menina inocente também não.

E agora olhando essa casca de miss América, eu percebo que desprezo cada centímetro da sua fodida existência.

— Vocês são iguais irmãzinha, são todos podres, está na hora de começar a se virar sozinha.

Eu sorrio e aceno para o senhor Uzumaki e para minha fodida mãe que me fuzila, eu não vou mais me curvar para ninguém.

Eu sou melhor que eles.

Aproximo-me e sussurro em seu ouvido.

— Arrume outro para te salvar, quando você começar a gritar.

Afasto-me e lanço o copo de whisky com toda minha força, direto na parede da sala, bem onde todos eles estão sentados, fumando seus malditos charutos.

O som de vidro se quebrando, gritos e cadeiras caindo enche meus ouvidos. 

Caos. 

Porra, eu amo esse som, me viro e saio da casa, batendo a porta com força atrás de mim. 

A adrenalina enfim começa a fazer meu corpo funcionar.

Estou livre!

Sim! PORRA!

 

 

Sasuke, 17 anos

Ela está na cama faz uma semana, e vai ficar nela por mais tempo, fratura na bacia eles disseram, repouso total, meu pai odiou isso, odiou não a ter em sua disposição, mas com ordens médicas nem ele se atreveu a interferir, não comigo, fazendo vigilância em seu quarto.

Admiro seu rosto sereno enquanto ela dorme, meu peito torce por dentro, como ela consegue parecer tão pacífica no meio dessa realidade fodida?

Talvez sejam os remédios, talvez essa seja sua máscara. Máscara, minha mente volta ao que ela me disse naquele dia no sótão, suas palavras estão pairando dentro de mim desde quando as ouvi.

Tudo pareceu tão sem sentido no momento, mas agora, noto que mesmo meio delirante, ela pareceu lúcida e consciente como nunca.

 Não tem problema se você for um monstro também, Sasuke. Todos nós somos lá no fundo.

Pego meu celular e olho a foto que tirei a anos atrás no acidente. Kessy me olha, com seus olhos azuis, ensanguentados e mortos.

Sim, talvez minha mãe esteja certa.

Naruto me manda uma mensagem, ficou preso na mansão e ira vir depois, respondo com um ok, e guardo o celular voltando a velar seu sono, ela está certa sobre mim, mas qual será o monstro que ela esconde?

Ouço gritos vindo do andar de baixo, esfrego meus olhos e me levanto, fazendo o máximo para não acorda-la antes de sair, e ver quem o fodido do meu pai resolveu atormentar.

Ele está gritando com a nossa cozinheira, ela se encolhe no canto da cozinha, existe uma bolsa em sua mão, olho para ele, pelo cheiro, ele secou o estoque de bebida da casa.

— Você não passa de uma ingrata miserável!

— Senhor Uchiha, eu avisei que iria me mudar a alguns meses, eu... — ela me olha aflita. 

Eu inclino a cabeça, ela parece respirar aliviada e começa a se mover para sair, mas ele segura seu braço.

— Eu não liberei você ainda.

Dou quatro passos entrando na cozinha e puxo seu braço dela, que suspira alto, murmura um agradecimento e desaparece entre as portas.

Eu meio que invejo esse poder.

— Me solta moleque! — ele puxa e se move cambaleante. — Essas mulheres malditas são todas ingratas!

Reviro os olhos e começo a ir para meu quarto, mas ele começa a gritar o nome da minha mãe, olho aflito para a porta de seu quarto, se ela ouvir, vai querer se levantar, ele se move para entrar, mas eu salto em sua frente, ele não pode ficar perto dela, não quando ele está assim.

— Saia da frente do meu quarto porra!

Sua voz está enrolada, mas ele transpira raiva, eu sei que isso vai acabar mal, mas mesmo assim não posso deixar ele passar, normalmente ele já é tóxico, mas bêbado sei muito bem o quão ele pode ser nocivo para ela.

Cruzo os braços e não me movo, ele começa a berrar, a chamando mais alto, e em meu peito começa a crescer uma raiva, a vontade de pegar o revólver que está a poucos metros, e plantar uma bala bem no meio de sua testa.

— Sasuke é a última vez que eu falo, saia da minha frente! — sua voz sai mais rouca e lúcida dessa vez.

Se eu pudesse falar diria para ele tentar passar por mim.

Ele não me toca, nem toca nela a anos, talvez seja por medo, medo do que eu poderia fazer com ele se fizesse, talvez ele soubesse o que eu realmente sonhava em fazer com ele todos os dias.

Encaro seus olhos negros e injetados, ele segura meu braço e puxa, mas eu não me movo, sou bem maior do que era antes, não sou mais o moleque franzino que se curvava sobre seus ataques.

E quando ele percebe que não vou me mover vejo a raiva assumir seu corpo como em todas às vezes, contudo, quando seu punho desse eu não fico parado, não, algo assume meu corpo também, e em meus olhos eu vejo tudo o que ele fez comigo. 

Vejo o que ele fez com ela, cada tapa, cada soco, cada humilhação.

Eu esqueço que não podia fazer barulho, eu me esqueço de tudo, e pela primeira vez, uma emoção se espalha em meu corpo e reflete em meu rosto, eu sei porque sua expressão muda.

Ele está irado sim, mas vejo algo a mais ali, eu vejo medo.

 

X

X

X

 

Estou na beira da rocha, abaixo de mim um abismo de água, olho o céu negro, a lua cheia e avermelhada me ilumina, ilumina minhas mãos sujas de sangue. 

O buraco em meu peito, está crescendo em uma velocidade impressionante, eu não sei como parar, eu não sei o que isso é.

Entre seus punhos ele me chamou de doente, quando eu sorri e reagi, ele me chamou de monstro. 

Talvez esteja certo, afinal carregamos o mesmo DNA, carregamos a mesma podridão, meus punhos se contraem, não, não somos iguais.

O que eu sou? 

Um doente?

Um psicopata?

Um anormal?

Realmente não me importo. 

Não me importo em não sentir o mesmo que eles, eu não me importo em ser como eles, porque eu sei o que não sou. 

Eu não sou ele, nunca serei ele.

Nunca serei um verme, eu nunca me curvarei, nem me submeterei à nada, nem à ninguém mais.

A gravidade me puxa, e eu me deixo levar, e nos segundos de queda, eu tenho clareza, eu entendo o que eu sou, o que preciso fazer, entendo meu lugar nesse mundo.

A água gélida enche meus poros, sinto-me desfazer.

Sinto tudo se desintegrar e ser refeito em gelo e escuridão, e quando eu emerjo, todo meu ódio, meu medo, meu pesar, tudo que me fazia como ele e aos outros desaparece.

Do lago que era meu paraíso, quem ressurge não é aquele que caiu, o sangue foi lavado, a dor dos hematomas se foi.

Sinto meus lábios torcerem, sim, ele está certo.

Eu sou um monstro, e vou arrastar quem eu quiser para o abismo comigo.

 

X

X

X

 

Eu sei que tem algo errado assim que passo pela porta.

A antecipação vibra em meu sangue, olho ao redor procurando algum sinal dele, mas não vejo nada. 

Eu não devia ter saído, mas estava sufocando, se continuasse ali depois da nossa briga, eu o mataria.

Subo as escadas, meus passos são o único som da casa, até as criaturas que cantam na noite estão silenciosas, e diferente de algumas horas atrás, a casa está escura, não existe luz alguma, um trovão estoura e seu som reverbera por entre as paredes, eu o sinto em meu corpo inteiro.

A porta da suíte principal está aberta, vejo a luz da lua refletir no corredor, mãe, eu corro agora.

Eu ouço minha respiração e nada mais, meu corpo desliga, minha mente morre, meus joelhos batem no chão, eu não sinto nada.

A luz da lua reflete na cama sob a janela, minhas mãos arranham o chão enquanto eu me arrasto até ela. 

Como um verme, não tenho força para me manter em minhas pernas, elas não me respondem, meus dedos tocam os lençóis que um dia foram brancos, a umidade neles me faz ter vontade de me contorcer, me forço e ajoelho ao seu lado, observo sua mão que pende para fora do colchão.

O menino que eu não sabia que ainda existia em mim não quer olhar seu rosto, ele não consegue olhar nada além de sua mão azulada.

Maldito covarde.

Eu sento no colchão ao seu lado, ele não merece ser poupado de nada, covardia a ele nunca foi permitida. 

Seu belo e cansado rosto não está em paz, não há a serenidade do descanso eterno.

Não, ela não está serena, ela não está em paz, tal coisa nunca existiu, não nessa casa, não nesse mundo podre. 

Paz é uma mentira, uma mentira inventada para manter o controle, para manter o silêncio, e pela primeira vez eu odeio esse silêncio.

Seus olhos negros como um abismo, estão fixos e injetados, neles eu vejo toda a dor, todo o sofrimento, toda a loucura.

Eu a pego em meus braços, está tão fria, tão úmida, no fundo do meu ser, ouço sua melodia tocar, e ecoar cada vez mais forte. 

Ouço sua risada doce e contida, eu ouço seus gritos.

Tento sentir seu cheiro, mas não consigo, não consigo porque está errado, esse cheiro não é dela, esse cheiro metálico não combina com ela. 

Eu a aperto contra meu peito tão forte que sei que a sufocaria.

Acorde, por favor!

Acorde!

Eu clamo em minha mente, eu imploro para um Deus que nunca existiu, eu clamo para o diabo suplicando que ele a devolva para mim, eu peço para qualquer um, mas não adianta, porque nesse mundo não existe salvação, não existe luz, não existe nada além de tormento e dor.

Eu a nino, do mesmo jeito que ela me ninava depois das surras, em minha mente, eu canto a mesma melodia que ela cantava quando o pânico era grande demais, e não me deixava dormir, eu fecho meus olhos e a vejo.

— Não se preocupe meu amor, eu estou aqui, ele se foi agora, mamãe está aqui. Meu pequeno pássaro negro, mamãe está aqui.

Eu sinto algo dentro de mim, explodir, o menino quebra em sangue e dor, seus pedaços são afiados e me rasgam, e mesmo eu que não sentia nada, sou destruído com ele, seus gritos me ensurdecem.

A dor é muito grande, o desespero maior ainda, a aperto, e seus braços pendem frouxos ao me redor, observo seus cortes, tão profundos que posso ver a carne branca dividida, não existe mais sangue.

É minha culpa.

— É minha culpa, é minha culpa! — sinto minha garganta queimar. — É minha culpa, é minha, é minha culpa!

A voz que nunca surgiu, nem por tortura, nem por seus pedidos, surge para afirmar a verdade.

— É minha culpa!

Quanto mais ela queima, mais eu grito, mais eu forço, mais eu peço perdão, como se ela pudesse me ouvir.

Ela nunca vai poder me ouvir.

A voz vem livre agora, e eu a odeio, odeio tanto quanto odeio minha existência, o quanto eu me odeio por estar respirando, quando ela não está

Está errado, a voz do menino quebrado diz para mim, sua voz se misturando a melodia melancólica.

Está errado, ela devia estar descansando. 

Sim, ela devia. 

Eu a deito suavemente e me levanto, em sua cômoda pego a escova, e quando volto a cama, suspendo minha mãe novamente nos braços, uso a escova e meus dedos enquanto desembaraço seus longos cabelos grisalhos e negros.

Ela adorava fazer isso antes de dormir, ela tem que fazer isso para descansar. 

Eu a deito com todo o cuidado sobre o colchão felpudo, ajeito seus braços, um sob o rosto, outro próximo à barriga, como ela sempre fazia, é assim que ela dorme, agora sim, beijo sua testa e me afasto, cobrindo seu corpo com os lençóis vermelhos vivos.

Como horas antes, admiro seu sono.

Não! Não! Não! 

Eu quero bater minha cabeça na parede até abrir, porque não adianta, nada que eu fiz adiantou, ela não está dormindo.

Eu bato no rosto do menino quebrado em minha mente, você não serve para nada, eu grito, ela ainda está morta, ela ainda está retalhada e torcida.

Ela ainda me deixou, ela não voltou para mim, ainda está sofrendo.

Ela ainda está sofrendo, nunca vai parar de sofrer e a culpa é minha, a culpa é minha.

Seguro meus cabelos e puxo, puxo com toda minha força, quero arrancar a pele, quero arrancar a carne de meu corpo até eu estar frio e pálido como ela. 

A lua muda de lugar e sua sombra ilumina algo no criado ao seu lado, está embebido em sangue, às duas coisas estão, a faca de caça, a faca dele, e um livro.

— Não deixe ninguém ler.

Sua voz vem em minha mente, pego a faca, quero cortar minha garganta até que não sobre mais nada, mas abaixo meus olhos para o livro, existem coisas dentro dele, como um buraco falso, eu o pego, é uma carta, manchas ensanguentadas em formas de dedos estão espalhadas por todo o texto, me forço a entender cada palavra, até que meu corpo treme violentamente, a faca caí no carpete em um baque surdo.

O choque e a traição não me cortam.

Não, não sobrou mais nada em mim para cortar, meus olhos ardem e gotas caem borrando ainda mais as palavras, eu a leio diversas vezes, leio cada um dos papéis, até que a verdade se acomoda em meus ombros, até que o verdadeiro demônio é revelado, e o rosto dele me encara.

Solto o livro e papéis caem, cartas e fotos se espalham pelo chão, a melodia para. 

Eu não escuto nada, nem mesmo minha respiração, estou morto também.

Eu a admiro, como uma de suas pinturas macabras e tristes.

Por quê?

— Por que você mentiu?

— Por que você aturou?

— Por que não arrancou a desgraça de dentro de você?

Eu digo e repito em voz alta, como se ela pudesse me responder, como se ela pudesse me ouvir, eu rio sem humor algum, ela não pode, nem eu mesmo posso. 

Porque o buraco que me consumia levou tudo ao meu redor, foi para isso que nasci, para a desgraça, eu nasci para arruinar todos em minha volta.

Abaixo-me e pego a faca, a mesma que ele me deu para abrir o primeiro animal que matei, a mesma que ele deu para ela se livrar de sua vergonha.

Levanto-me e como se estivesse sob às águas novamente, eu tenho clareza, tenho concentração.

A escuridão cobrou seu preço, mas preciso terminar o que ela começou.

O menino em mim, desapareceu, porém, ainda escuto sua risada.

Sim, ele sabe agora, sabe o que preciso fazer, o que nascemos para fazer.

Eu caço.

 

X

X

X

 

Existe clareza, a névoa habitual está ausente, meu corpo se move sem qualquer esforço, mas não sou eu que o controlo.

Algo me faz caminhar, a força me leva pelos corredores, um passo após o outro sigo lentamente seu rastro. 

Não existe nada, não existe dor, não existe tristeza, apenas a vontade incontrolável, e é ela que me ilumina na escuridão, que me faz respirar, que me leva até às portas fechadas de seu escritório.

Seu rosto transtornado vira em minha direção assim que abro e passo pelas portas duplas. 

Ele já me esperava, posso ver em seu rosto, seus lábios se movem violentamente, ele esbraveja, mas não posso ouvi-lo, a vontade me ensurdeceu, não ouço nada além do sangue, pulsando em meus ouvidos.

Meus passos me levam em sua direção, meu eu, está flutuando em alguma parte da minha mente, enquanto a força que me possui apenas observa sua presa com total frieza.

Estou preso em um sonho, ele levanta uma pistola, meus lábios se separam contra minha vontade, e o que ele vê em mim, faz sua mão tremer.

— Você foi muito imbecil de voltar aqui seu bastardo doente!

Bastardo.

Bastardo.

A palavra me tira do torpor, pisco algumas vezes, o som voltou, mas meus movimentos ainda não são meus.

Meus pés se movem lentamente enquanto meu corpo se aproxima do seu, até que sua respiração fedorenta banha minha pele, e o cano do revólver em minha testa, ele sorri.

— Você é doente! Eu devia ter imaginado, todo esse tempo as minhas custas. Eu devia saber que algo defeituoso como você nunca poderia sair de mim.

— Está enganado, eu saí de você sim. Saí de dentro da sua alma.

A voz que ecoa pela sala é, e não é a minha, ela é morta e ácida, e faz ele se atrapalhar e piscar confuso com o som.

Rápido como um golpe de serpente, sinto minha mão se levantar e afundar em sua barriga de baixo para cima, sinto a lâmina rompendo a pele, banha e órgãos.

Vejo seu dedo tencionar em reflexo e desvio do gatilho que dispara, o ardor queima a lateral de minha cabeça, me ensurdecendo novamente.

A umidade lava meu ombro esquerdo, mas nada além disto, meu eu, observa ele gaguejar e cair aos meus pés.

Como na floresta, eu paro e deixo ele se afastar, se arrastando pelo chão em busca de salvação, permito que chegue a porta, que tenha esperança enquanto espalha sua sujeira pútrida pelo tapete.

Então um movimento no corredor o traz de volta a realidade, meu eu sorri largamente.

Ele esqueceu que no mundo que vivemos, não existe luz no fim do túnel, não existe salvador aqui.

A porta fecha suavemente, o prendendo no escritório, o prendendo com a criatura que me dá vida.

Aproximo-me e o viro, me ajoelhando sobre seu corpo, ele tenta me afastar, é hilário observar sua fragilidade, ele não tem forças, seus punhos não me atingem, ele não é nada.

Sento-me sobre sua barriga, seu sangue ensopando minhas calças, seu rosto está torcido em pânico e ódio. 

Não, ele não está cooperando, temos que brincar direto.

Talvez melhore se eu correr a lâmina pela moldura de seu rosto, sim, talvez resolva. 

Observo a força que me move, inclinar meu corpo, e com a dedicação e delicadeza de um artista, desenhar em seu rosto. 

Mas ele se mexe demais, irritação surge em meu peito.

O maldito está estragando tudo, embrenho meus dedos em seus cabelos, puxo sua cabeça e a bato com força no assoalho, uma, duas, três, quatro.

Sim, ele retardou os movimentos, agora sim, posso trabalhar.

Ajeito a lâmina em meus dedos e volto a desenhar, a inspiração me atingindo em um frenesi estonteante. 

Espirais, listras e formas surgem sob a lâmina, sobre cada centímetro de pele.

Afasto, meu eu, e a força que me move nos misturamos como tinta, nos tornamos algo novo, algo criativo e talentoso, artístico

Admiro seu rosto ensanguentado, máscara sangrenta, o nome me surge, sim, eu chamaria essa obra de máscara sangrenta.

— Todos usamos máscaras filho, porque as pessoas se assustam com nosso real rosto, então nós escondemos, para que ninguém fique desconfortável ou com medo.

A doce voz de minha mãe clareia minha mente em meio meus movimentos.

Eu não quero me esconder porque eles têm medo, quero mostrar minha perversão, anseio seu desconforto, a perdição, o desespero.

Quero seu medo, eu preciso dele.

Meus dedos largam a faca e se enfiam entre seus cortes, a sensação de carne em minha pele me põe novamente em frenesi, eu quero ver o que se esconde atrás de sua máscara.

Seguro e começo a puxar lentamente, ele não se mexe, é uma tela perfeita, está se comportando tão bem, seus olhos não deixam os meus, eu gosto disso, é lindo.

A pele se parte, não consigo puxar mais, não consigo ver o que ele esconde, meus dedos escorregam, a irritação volta, a frustração.

Maldito idiota imprestável.

Fecho meus dedos em seu pescoço, seu corpo treme suavemente sob mim, mas ele não pisca, eu me aproximo como se fosse um amante, o aperto se intensifica e no segundo final, vejo o último pedaço sujo de vida partir.

Ele escorre para fora de seu corpo lentamente, como areia seca em uma ampulheta. 

É tão lindo que sinto meus olhos arderam, então algo molhar meu rosto, e cair sobre sua máscara incompleta, solto meus dedos e toco meu rosto, a gota de líquido transparente na ponta de meus dedos sujos, tão pura e salina quando a provo.

Um som metálico corta o ar, me viro e vejo a chama acender e desaparecer na escuridão.

Levanto-me do chão e o fito se aproximar, seus olhos azuis cristalinos estão injetados e vermelhos, sua mão se aproxima e me estende um cigarro e quando o ponho em meus lábios, o som metálico corta o ar novamente enquanto ele o acende.

— Desculpe o atraso irmão.

 

 

Agora...

Sakura

Eu corro.

Corro como nunca corri.

Meus pés descalços se rasgam em pedras, galhos e raízes. Eu não paro nem para respirar. 

Eu corro como um lobo sob a lua cheia.

Eu sei onde estou indo.

É como se a criatura dentro de mim, soubesse se localizar na escuridão.

A mesma escuridão que eu temia.

A luz da lua aparece entre a copa das árvores, sinto criaturas me seguindo, me acompanhando, as sombras dançam a minha volta, elas entram em mim, e saem por meus lábios e narinas.

Posso sentir suas línguas gélidas, lamberem o sangue em mim.

Elas cantam.

Elas cantam tão alto que tenho vontade de dançar com elas.

Mas eu não paro.

Eu tenho um lugar para ir.

Eu sinto. 

Eu sei.

Eu posso fazer qualquer coisa.

Porque mesmo que ele não acredite em mim, eu sinto dentro de mim, que Gaara não vai passar dessa noite.

Eu paro.

O som de água me atinge.

Sim, estou perto.

Enfio-me por entre os arbustos, os espinhos entram em minha pele, liberando a criatura cada vez mais, eu vejo o lago agora.

Eu me sento a beira d'água.

E espero.

A criatura dele, pode farejar a minha.

Ele vai me encontrar, ele me conhece.

Ele sabe que eu vou vir para cá.

Mesmo que ele me mate, eu não me importo.

A criatura vai rasgar Gaara, pedaço por pedaço.

E eu vou sorrir.

Vou gargalhar tanto quanto Naruto, disse que eu poderia se quisesse.

Eu respiro fundo.

Existe algo em mim, sussurrando.

O que é?

Medo? De perder ele? 

Se ele acreditou nas mentiras de Gaara, eu já o perdi.

Meu Sasuke.

Meu coração ainda dói.

O quanto de dor, eu ainda posso suportar?

Eu respiro fundo, e espero pela morte novamente.

 

X

X

X

 

Ele está parado em minha frente, a máscara negra em seu rosto

Não á nada ali.

Mas ainda assim, não consigo temê-lo, perdi minha capacidade de sentir medo. 

Meu corpo está coberto do sangue de Naruto. 

Sasuke olha para mim, completamente frio, seu olhar assimila cada fodida gota de sangue, cada pele exposta.

Será que ele pode ver a dor em mim?

Será que ele percebe que não pretendo sair daqui?

Será que ele vê a criatura?

Será que ele vê o quando eu o amo? 

Naruto me pediu para correr.

Eu não podia negar nada a ele.

E pela primeira vez, eu corri de Sasuke.

É algo que não se pode fazer mais de uma vez.

E eu corri a vida toda. 

Estou cansada.

Tão cansada!

Eu me lembro de quando segurei sua mão, na beira daquela estrada.

Se eu soubesse que ele seria meu fim, eu...

O canto de meus lábios se levanta, seus olhos seguem o movimento.

Se eu soubesse que ele seria meu fim, eu teria pegado sua mão da mesma maneira.

Uma mariposa idiota, atraída pelo fogo.

E mesmo que minha tentativa de recomeçar, tenha terminado em tragédia, não me arrependo.

Naruto me mostrou o que era poder gritar com toda a força da minha alma, já Sasuke, me mostrou o que era abraçar o lado mais sombrio de mim, e amar em meio a escuridão.

E eu amei meus demônios.

Eu amei nossos demônios.

Amei a violência, amei a hiperatividade, amei a nossa loucura.

O sorriso de Naruto vem em minha mente, sinto a lágrima solitária cair por meu rosto.

Ele me mostrou o que era respirar de verdade.

O que era ser livre.

É curioso que a minha morte, tenha me ensinado o que era realmente viver, eu prendi a prosperar na podridão.

Eu abraço meu corpo e foco em seus olhos, sua mão se levanta.

O revólver cromado de Naruto me encara.

Eu quebro de novo.

Meu corpo treme.

Meu Naruto.

Meu Sasuke.

Corra!

Eu não vou correr. 

Eu escolho confiar na escuridão.

Eu escolho me perder em seus olhos hipnóticos.

— Eu sinto muito bad boy.

A arma dispara.

 


Notas Finais


Cara esse cap, foi tenso para escrever, espero mesmo que vocês tenham gostado.

No próximo teremos algumas explicações, acho que esse final deve ter deixado todo mundo em pânico. 🤭

Comentem muito, quero saber a opinião de vocês. ❤️

Beijosssss 😘😘😘


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