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História Dark Dawn - Capítulo 16


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Notas do Autor


Décimo sexto capítulo.
Boa leitura!

Capítulo 16 - Capítulo 16: Hostilidade


Fanfic / Fanfiction Dark Dawn - Capítulo 16 - Capítulo 16: Hostilidade

A VIAGEM ATÉ O LUGAREJO QUE SAKURA escolheu como esconderijo foi dura para o grupo. A neve os acompanhou o tempo todo, ora crescendo para uma nevasca de ventos uivantes que lhes penetravam os ossos, ora diminuindo para uma nevada contínua que servia apenas para retardar os seus avanços.

Levaram dois dias para atravessar a montanha, o terreno pedregoso e sufocado por uma alvura que não terminava estendia-se de um horizonte a outro. Mas, ao amanhecer, o sol incidia sobre o gelo e projetava um arco-íris de luzes, desde o topo da montanha até a floresta densa que a cerceava.

Quando a montanha ficou para trás, o terreno aplainou, revelando a eles uma planície vasta e congelada. O lugarejo que Sakura mencionara não era uma aldeia propriamente dita como Sasuke imaginou. Era diminuta demais para carregar esse título. Na realidade tratava-se de algumas casas construídas às margens de um grande lago cuja superfície estava coberta por uma fina camada de gelo que brilhava sob o sol da manhã. Insignificante demais para constar em qualquer mapa e, por isso, era o lugar perfeito para que eles se escondessem até que a data da Cúpula estivesse próxima.

— Ah, que lindo! — Hikari disse, uma mão sombreando os olhos e protegendo-os do sol que ainda nascia por trás das montanhas.

Os dois garotos, Toyoharu e Yusuke, flanqueavam-na o tempo todo e estavam sempre por perto, vigilantes e cuidadosos. Sasuke não trocou uma só palavra com eles durante toda a viagem, mas os observara de perto, desvendando as suas personalidades e a dinâmica da equipe que Sakura treinava. As comparações com o seu próprio time, o time 7, eram inevitáveis.

Hikari, a garota, era espontânea e amável, sorria para todos, falava com todos e atraía a atenção e os olhares como se possuísse um magnetismo próprio, um encanto só dela. Em muito ela o lembrava da Sakura adolescente que ele conheceu. Apesar de não conversar com ele — o único do grupo com quem ela não tentara uma aproximação —, Sasuke sentia os olhos dela seguindo-o às vezes, acompanhando os seus movimentos como se também procurassem desvendá-lo.

Por parte dos garotos só havia hostilidade, contudo. Toyoharu era o menor dos dois. Tinha um cabelo castanho espesso, e olhos também castanhos expressivos e calorosos. Era sincero e fazia as pessoas ao seu redor rirem com frequência, além de possuir uma determinação de ferro. Ele lhe lembrava Naruto, por vezes. Exceto que o garoto fitava-o de um jeito emburrado sempre que o flagrava olhando-o.

Por último havia o mais alto e o mais reservado: Yusuke. Os olhos dele, tímidos e da cor do cobalto, estavam sempre meio escondidos por trás das lentes quadradas dos óculos que usava. Sasuke não conseguira ler muito da personalidade dele uma vez que o garoto não era generoso com palavras e passava a maior parte do seu tempo acompanhando os parceiros. Quando não estava se assegurando disso, olhava Sasuke de esguelha como se o recriminasse por simplesmente estar ali.

E nenhum dos três se deu ao trabalho de conversar qualquer coisa com Sasuke.

Com Sakura, porém, eles se esqueciam de quaisquer inibições, cercavam-na de sorrisos, gentilezas e cuidados. E era para ela que a atenção de Sasuke teimosamente se desviava, prendendo-o num emaranhado de pensamentos confusos e dolorosos. Não se aproximava, mas tampouco era fácil manter a distância que os separava — quase um abismo inteiro.

O único que veio conversar com Sasuke naqueles dois dias havia sido Sai. Escolheu um momento mais propício para ser aproximar, enquanto Sasuke comia a sua porção da refeição sob um grande freixo coberto de neve. O bolinho de arroz que ele mastigava não tinha sabor, mas isso apenas porque toda aquela situação deixava-o tenso e mais mal-humorado do que o comum.

— Está tudo bem, Sasuke-kun? — Sai lhe perguntou enquanto se ajeitava sobre o tronco de uma árvore, espanando a neve antes de se sentar.

— Aa — ele se limitou a responder, terminando de mastigar e engolir o último bocado do seu bolinho de arroz.

Sai esboçou um meio sorriso.

— Não está se sentindo solitário? Posso te fazer companhia.

Sasuke bufou para a proposta do antigo membro da Anbu. A última coisa que lhe passaria pela cabeça seria pedir para que Sai lhe fizesse companhia. Arrancaria a própria língua antes de se sujeitar a isso.

Sai percebeu o seu mau humor e riu.

— Desculpe, estou apenas brincando. Vendo se consigo te fazer desmanchar essa cara um pouco.

— Que cara? — Sasuke retrucou, áspero.

— A cara de quem está sofrendo com toda essa situação, mas não quer admitir. Você se faz de forte e de durão, mas é bem fácil enxergar através disso. Na verdade, eu acho que você é bastante sensível e passional.

“Você se deixa levar pelos seus sentimentos mais intensos. Pensa demais, sente demais. O fato de que tenta esconder isso de todo mundo não muda que você é verdadeiramente emotivo.

Sasuke cerrou os dentes, estava começando a se sentir indisposto com aquela conversa.

— O que é isso agora? Está tentando me ler? Me desvendar?

— Acho que você é um enigma fascinante, Sasuke-kun — Sai comentou, tocando o dedo indicador no queixo liso. — Tenho que admitir que era difícil te desvendar antes, as suas ações faziam pouco sentido para mim. Não compreendi, por algum tempo, por que o Naruto-kun e a Sakura-san se davam ao trabalho de tentar salvar alguém como você.

“Mas, agora, eu vejo o que eles foram capazes de ver, a pessoa escondida sob toda a dor e a solidão que você sente. No seu mundo, você foi capaz de se tornar um homem bastante interessante: um protetor, alguém disposto a fazer inúmeros sacrifícios em nome do bem comum e da paz.

Sasuke suspirou. Estava se sentindo exausto de repente e aquela conversa com Sai estava deprimindo-o ainda mais.

— Aonde você quer chegar?

Sai se levantou num movimento fluído, fitava Sasuke com a sua típica expressão serena.

— Acho que você deveria deixar que as pessoas enxergassem esse seu lado. Deveria mostrar a elas que tipo de pessoa que você é. Sei que a Sakura-san precisa, mais do que ninguém, enxergar isso. Pode não parecer, mas ela está lutando bravamente para resistir à tentação de te dar o benefício da sua dúvida. Acredito que só não o fez ainda porque não quer se machucar de novo, é claro.

Sasuke o encarou num silêncio amuado; Sai suspirou.

— O que eu quero dizer é que se isolando dessa forma e agindo como se não fosse parte do grupo você não conseguirá convencer ninguém das suas boas intenções, Sasuke-kun. Especialmente alguém que foi tão ferida pelas atitudes do Sasuke-kun desse mundo quanto a Sakura-san.

— Não há nada que eu possa fazer para fazê-la mudar de opinião sobre mim. — Sasuke também se levantou e lhe deu as costas a fim de esconder a expressão vulnerável que trazia no rosto.

— Você poderia começar pela verdade. Até o momento, não te vi tentar se aproximar dela para explicar toda a situação.

Ele balançou a cabeça, frustrado.

— Não há garantias de que ela acreditará em mim. Kakashi não acreditou no início. Precisei cortar o meu próprio braço diante dele para provar que estava falando sério.

Depois de uma pausa breve que durou algumas batidas de coração, Sai concluiu:

— Bem, mas você conseguiu convencê-lo no fim, não foi? E convenceu a mim, e à Ino. E ao Shikamaru-kun.

É diferente, Sasuke refletiu, pesaroso. Com a Sakura, sempre é diferente. Porque sempre havia sentimentos demais envolvidos entre os dois. E nunca tinha sido fácil encará-la nos olhos e abrir o seu coração, expelir a verdade — por mais feia que ela fosse — e esperar, angustiado, para que ela conseguisse lidar com o horror no seu passado.

— Vou pensar a respeito. — Foi o que disse a Sai, embora não tivesse tentado se aproximar dela em nenhuma ocasião.

Não só por que ela estava sempre cercada por pessoas — se não fosse pelo time que treinava era por Ino ou por Shikamaru —, mas porque Sasuke se acovardara. Seria mesmo necessário que ele tivesse de se explicar para ela? Contar toda a verdade a troco de quê? De que ela perdoasse os erros do Sasuke daquele mundo? Isso estava fora de cogitação e muito além do seu alcance. Não, nem mesmo a verdade que ele omitia salvaria ou redimiria as ações do Sasuke daquela realidade.

Ele tinha apenas uma missão: deter o Chikage e voltar ao seu mundo. Era a isso que precisava se apegar. Era esse o seu único objetivo. Sakura e Sarada estavam esperando por ele, não podia desapontá-las, não suportaria decepcioná-las. Nunca havia sido um homem perfeito, mas a ideia de falhar com a sua esposa e com a sua filha era mais do que poderia suportar.

Então, eles haviam chegado, no alvorecer do segundo dia, ao lugarejo que Sakura apontara e qualquer oportunidade que ele tivesse de conversar com ela estaria perdida uma vez que estivessem ao redor de ainda mais pessoas. E mais: completos estranhos para Sasuke.

Não importa, ele se convencia. Em poucos dias, tudo estaria acabado e ele estaria de volta à única vida que conhecia, cercado pela família e no mundo ao qual pertencia. Não cabia a ele redimir as ações de outro homem, mesmo que este outro homem fosse uma versão mais obscura de si próprio.

O grupo avançou pela planície nevada enquanto o sol subia por trás das montanhas e o céu se tornava de um azul-claro limpo e profundo. As nuvens se dispersaram pela primeira vez desde que ele chegou ao país do Ferro e o calor tênue do sol começou a derreter todo aquele gelo.

Sakura ia à frente com Shikamaru, e o time dela logo atrás. Ino, Sai e Chouji iam no meio, vasculhando o cenário atrás da presença de possíveis inimigos. Por último — e protegendo a retaguarda — vinha Sasuke.

— Eu conheci as pessoas que moram aqui há alguns anos, durante uma das minhas missões. São pessoas simples, mas muito gentis — Sakura dizia entre sorrisos. — Tenho certeza de que nos deixarão permanecer por alguns dias.

À medida que se aproximavam das casas aglomeradas que orlavam o lago congelado iluminado pelo sol, mais nítido ficava para Sasuke que aquelas pessoas levavam um estilo de vida bastante modesto. As chaminés das casas fumegavam, indicando que havia fogos acesos nos seus interiores. Nos currais, os animais se espreguiçavam, ainda sonolentos. Havia ferramentas para aragem do solo e para o cultivo, embora não se visse um único pedaço daquela planície cultivado.

— Por favor, sejam gentis com eles — ela acrescentou, olhando para cada um deles, inclusive para Sasuke, a quem dedicou um olhar duro. — E demonstrem gratidão. Não permaneceremos por muito tempo, mas isso não significa que devemos tornar as suas vidas mais difíceis do que já são.

— Hai, sensei! — Hikari concordou energicamente, prestando continência com um largo sorriso.

Sakura aquiesceu e se virou em direção às casas, avançando mais depressa e, com isso, se afastando do restante do grupo na direção de uma das residências. Era modesta, embora tivesse um charme indiscutível no mais tradicional estilo de construção: dois andares, uma varanda com alpendre, uma chaminé fumegante, portas largas de correr e uma sacada com balaústre no segundo piso. Toda feita em madeira escura de cedro com telhas cinzentas no telhado anguloso.

Antes que ela batesse à porta, uma mulher de compleição robusta a abriu com um largo sorriso.

— Sakura-san! — saudou-a. — Oh, há quanto tempo não nos vemos!

— Já faz algum tempo, Kumiko-san — ela respondeu com um aceno e um sorriso doce.

Duas crianças, um menino e uma menina, espiaram pela porta e exclamaram, surpresas, quando se depararam com Sakura na varanda da sua casa.

— Sakura-sama! — elas a cumprimentaram ao mesmo tempo e lançaram-se pela varanda para pular em Sakura, abraçando-a aos risos.

— Kaito-kun, Kaya-chan!

Kumiko, provavelmente a mãe delas, abriu a porta e também pisou na varanda. Sorria enquanto observava os filhos sufocarem a Kunoichi tanto de perguntas quanto de abraços. Questionavam-na por que não retornou antes, onde esteve, com quem esteve, se tinha realizado mais missões perigosas pela vila ou curado mais pessoas em diferentes países.

— Eu estive em muitos lugares — Sakura disse, conciliadora, buscando aplacar a curiosidade desmedida das pequenas crianças. — Prometo que vou contar algumas histórias para vocês mais tarde.

Os dois irmãos se satisfizeram com essa promessa, afastando-se dela. Só então perceberam os demais presentes, passando os olhos pelos rostos de cada visitante com evidente curiosidade. Kumiko, a mãe, também o fez, mas com uma nota de cautela.

— Ora, não veio sozinha — ela observou ainda cordial.

Sakura suspirou com pesar.

— Eu não pediria que nos recebesse se não fosse uma emergência, Kumiko-san — disse, soando como se pedisse desculpas à mulher pela visita inconveniente.

Os ombros de Kumiko se sacudiram quando ela riu.

— São todos muito bem-vindos à minha casa. Se não se importarem com o nosso estilo de vida simples, é claro.

Imediatamente todos aquiesceram, agradecendo à anfitriã pela hospitalidade. Todos exceto por Sasuke, que permaneceu em silêncio, furtando olhares daqueles estranhos e de Sakura.

— Pois entrem, entrem! — ela os urgiu, indicando a entrada da casa.

As crianças se acercaram da mãe com risinhos, brincadeiras e cochichos. Prestaram uma atenção demasiada à figura soturna de Sasuke, decerto achavam-no interessante devido ao seu comportamento reservado. Deixaram-no desconfortável quando desceram da varanda, pisando descalços na neve, para correr ao redor dele aos risos.

— Kaito, Kaya! — Kumiko os repreendeu com severidade, mantendo contato visual com Sasuke por um breve momento. — Não importunem os amigos da Sakura-san!

As crianças pediram desculpas e voltaram depressa para junto da mãe, desaparecendo dentro da casa. Os outros também o fizeram, passando um de cada vez pela porta entreaberta. Sakura ficou para trás por tempo o suficiente para que Sasuke a ouvisse sibilar entredentes:

— Ele não é mais meu amigo.

A frieza na voz dela fê-lo estagnar no lugar por um momento. Então mudou de ideia e, ao invés de entrar na casa, deu meia-volta e se afastou, deixando pegadas na neve.

Havia uma floresta de abetos nas redondezas, com pinheiros escondidos sob uma pesada camada de neve. Foi para lá que Sasuke se dirigiu, ansiando poder encontrar um pouco de paz e de silêncio. E a mata estava quieta, como suspeitara. Não se ouvia um único gorjeio ou som de animal. O sol já brilhava sobre as copas das árvores àquela altura, os fachos pálidos de luz incidindo sobre toda aquela neve com uma beleza singular. Ao menos, a nevada cessara e era possível ver o azul do céu outra vez.

Seria fácil perder-se ali, esquecer onde estava e imaginar que estava em casa, com Sarada e Sakura lhe chamando para tomar café da manhã, esperando-o na cozinha com o cheiro da comida para fazer o seu estômago roncar. Sentia tanta falta delas que a saudade praticamente se tornara uma dor física, comprimindo o seu peito.

Sasuke ouviu o som de passos e se virou para o visitante inoportuno, esperando deparar-se com o olhar raivoso de Sakura. No entanto, quem o encarava, insegura, era a jovem aluna dela: Hikari.

A garota pisou na pequena clareira, abaixando o capuz do manto e revelando as pálidas madeixas lilases presas numa trança. Trazia na testa um hitaiate preto com a insígnia de Konoha, o seu maior orgulho de Kunoichi.

— Eu... — ela começou, soando incerta. — Não pretendia parecer invasiva.

Sasuke foi pego de surpresa pela suavidade das palavras dela, quase um pedido de desculpas pela invasão de privacidade. Hikari tinha olhos azuis grandes e expressivos, envoltos em espessos cílios negros.

— Precisa de alguma coisa?

Não pretendeu pressioná-la nem tampouco soar rude, mas tinha a sensação de que Sakura detestaria ver a aluna sozinha com ele, não depois de toda a hostilidade e desconfiança que ela demonstrou nos últimos dias, fazendo-o lembrar com cada gesto e cada olhar que ele não era bem-vindo ali e de que estava sendo constantemente vigiado para não pisar fora da linha.

Hikari mordeu o lábio, hesitando, mas então criou coragem e o fitou de novo. Havia algo de diferente no seu olhar daquela vez, uma coragem que não estivera lá um momento atrás.

— Eu só queria conversar um pouco com você, Sasuke-sama.

O tratamento respeitoso acabou surpreendendo-o pela segunda vez. Hikari deu um passo adiante, mais ousada a cada segundo que passava na companhia dele, e avançou sobre a neve até estagnar diante de Sasuke.

— Queria tentar entender...

— Entender? — ele ecoou, aturdido.

Entender — a garota confirmou, engolindo a seco. — Por que você fez o que fez. Por que magoou tanto a Sakura-sensei e por que machucou tantas pessoas. Todos costumam dizer que o seu clã era amaldiçoado e, que, eventualmente, os Uchiha seguiam por um caminho de escuridão e ódio. Nós todos estudamos na Academia sobre a Quarta Guerra Ninja e sobre tudo o que você fez.

Sasuke firmou os pés sobre a neve. O frio tinha voltado a incomodá-lo. Seus músculos estavam rígidos e doloridos sob o manto. As pontas dos dedos estavam entorpecidas. Ele abriu-os e fechou-os a fim de abrandar a sensação de desconforto.

— Você não deveria estar aqui então — ele concluiu pela garota, muito embora suas palavras não expressassem rudeza e, sim, uma profunda tristeza; era assim que todas as pessoas o viam naquele mundo e isso dificilmente seria mudado.

Hikari umedeceu os lábios e deu outro passo adiante, franzindo o cenho.

— Todos abaixam a voz quando pronunciam o seu nome. Alguns poucos demonstram o desprezo abertamente, enquanto outros insistem que você estava fadado a sucumbir à maldição do seu clã desde o começo. Mas eu sempre achei que houvesse algo a mais nessa história, uma motivação oculta para explicar tudo o que você fez, por mais monstruosos que tenham sido os seus atos.

Sasuke suspirou. Encarou a garota sem saber o que responder a ela a princípio. O que deveria dizer em primeiro lugar? Deveria se explicar e tentar limpar um pouco da própria imagem? Não fazia diferença; estava apenas de passagem por aquele mundo. Era um viajante em todos os sentidos. Um intruso. Sua presença ali contrariava a ordem natural e era fruto das tramoias cruéis do Chikage.

— Ninguém pode ser assim tão mau — Hikari concluiu num fôlego curto, expelindo fumaça fria pelos lábios.

— Por que acredita nisso com tanto fervor? — Sasuke sentiu uma necessidade incompreensível de pressioná-la, de entender a forma como aquela garota verdadeiramente pensava e o quê ela pensava dele.

— Porque somos seres humanos no fim das contas. Nós, shinobis, sofremos, não é mesmo? E esse mundo não costuma ser nada gentil conosco — ela respondeu com convicção em cada palavra proferida. — Acredito que alguns só estão perdidos e precisam de ajuda para encontrar a luz outra vez. Para voltar a sentir esperança e enxergarem que valem a pena, que existe outro caminho... Um caminho melhor, um jeito melhor.

Para a completa mortificação da garota, Sasuke riu. Um riso baixo, suave e encantador.

— P-Por que está rindo? — Ela ruborizou e averteu depressa os brilhantes olhos azuis ante o prospecto de ter dito o que não deveria dizer. — Eu fui inconveniente, não fui?

— Nada disso — Sasuke cessou o riso, muito embora ele ainda vivesse nos seus olhos. — Você só me lembra de alguém. Um amigo que pensa dessa mesma forma e que, por isso, se recusa a desistir das pessoas. Não importava quantas atrocidades elas tivessem cometido no passado, ele sempre estava pronto para perdoá-las e para mostrar que havia um caminho melhor. Ele não desistiu de mim também e, graças a isso, eu me encontrei de novo.

Hikari ruborizou ainda mais, encarando Sasuke com olhos esbugalhados e muito vívidos. Sasuke ergueu o rosto e fitou o céu azul pelas nesgas nas copas das árvores, a luz que as transpassava aqueceu a sua pele.

Ele é a esperança do mundo. Eu já sabia disso há muito tempo, mas agora sou capaz de ver com ainda mais clareza. — A sua boca se projetou para baixo. — Um mundo em que ele não viva é um mundo sem esperança, sem luz.

Eles ouviram passos se aproximando e os dois se viraram a tempo de ver ninguém menos do que Sakura recuando de trás de um pinheiro e pisando na clareira. Sasuke a fitou em silêncio, ponderando se ela havia ouvido o que ele dissera antes. A julgar pela expressão dela, estava inclinado a acreditar que sim.

— Sakura-sensei! — A garota soou culpada, como se houvesse sido flagrada fazendo algo proibido ao ficar sozinha com Sasuke para conversar com ele, o que, de certo modo, era.

Sakura se dirigiu à aluna com um sorriso, contudo:

— Hikari-chan, o Toyoharu-kun e o Yusuke-kun estão te procurando — informou-a. — Deveria ir ao encontro deles.

— S-Sim! — ela anuiu.

E, dito isso, virou-se e disparou para longe dos outros dois Shinobis adultos. Uma vez que ficaram sozinhos, um silêncio pesado recaiu sobre a floresta. Sakura cruzou os braços e fitou Sasuke.

— Ouvi o que você disse mais cedo. Não pude deixar de perceber que se refere ao Naruto no presente, e não no passado.

Sasuke não soube o que dizer a ela, então deixou que continuasse.

— Sai vem me incomodando há dias, dizendo que eu preciso, ao menos, ouvir o que você tem a me dizer. Então vou perguntar outra vez: quais são as suas intenções?

— Eu já as deixei bastante claras: estou aqui para derrotar o Chikage — ele respondeu, cansado.

— Por quê? — Sakura pressionou.

Sentindo-se acuado, ele vomitou uma parte da verdade.

— Para poder voltar ao meu mundo, o lugar ao qual eu pertenço de verdade. Aqui não é o meu lugar.

— E que mundo seria esse?

Sasuke não averteu o olhar em nenhum momento.

— Você quer mesmo saber? — desafiou-a, devolvendo o olhar duro que recebia. — Há outro mundo, outra realidade muito diferente dessa. Um mundo em que eu não venci a batalha no Vale do Fim; Naruto e eu empatamos, embora tenhamos perdido, cada um, um braço por isso. Há um mundo em que percebi que não precisava seguir pelo caminho de escuridão e ódio que eu pensei que estava destinado a mim. Um mundo em que eu me redimi dos meus pecados, Sakura.

Ele não deixou de notar o modo como ela estremeceu quando pronunciou o seu nome.

— Um mundo em que eu viajei por cada canto de cada país a fim de me encontrar e de encontrar o meu propósito. Um mundo em que eu voltei quando me senti pronto, quando me senti completo de novo. Voltei por você. Para você.

Sakura esbugalhou os olhos e fez menção de interrompê-lo, mas ele não permitiu.

— Um mundo em que somos marido e mulher, e um mundo onde nós dois trabalhamos pelo crescimento e pela proteção da vila. É um mundo em que Naruto se tornou o Nanadaime Hokage e onde todos se curaram dos horrores da guerra, semeando uma nova geração de ninjas que herdarão a vontade de fogo, continuando a nossa missão de mudar esse sistema tão falho e injusto que fez tanto de Naruto quanto de mim as suas vítimas.

Por fim, ele suspirou. Sasuke resfolegava no ar gélido.

— Um mundo em que essa nova geração, Sakura, inclui a nossa filha... Sarada. E eu tenho que voltar para a minha família, tenho que voltar para a minha casa.

“Fui tirado do meu mundo, fui separado da minha família e amigos. Acordei nesse lugar, no corpo desse Sasuke que você conhece, e o responsável por tudo isso foi o Chikage. Por isso preciso derrotá-lo na sua realidade. É a única maneira de eu voltar para onde pertenço. Se não fizer isso, jamais conseguirei retornar. Você consegue me entender um pouco melhor agora?

Sakura estava pálida e — ele podia afirmar com certeza — chocada com o que lhe revelara. Os olhos verdes estavam arregalados, tempestuosos, carregados com uma emoção poderosa e comovente. Os sentimentos dela fluíam através da expressão mortificada no seu rosto, independentemente do quanto ela lutasse contra isso, tentando suplantá-las a qualquer custo atrás de uma máscara engessada.

— Está tentando manipular os meus sentimentos?! Por que devo acreditar em você? — ela indagou depois de um breve momento que usou para se recompor e reaver a própria voz. — Por que devo acreditar em uma única palavra do que você me diz?

Sakura cerrou os dentes e explodiu, inopinadamente.

— Sabe o que eu passei durante todos esses anos?! Como foi acordar daquele genjutsu, correr com o Kakashi-sensei até o Vale do Fim só para me deparar com a visão do corpo do Naruto sem vida?! Com um buraco no peito que nem mesmo eu podia consertar?!

O peito de Sasuke comprimiu-se com a dor.

— Sabe como foi constatar que eu cheguei tarde demais?! Que não pude fazer nada para te impedir outra vez?! Nem mesmo quando você matou a minha mestra e os outros Kages enquanto eles ainda estavam indefesos e presos dentro do Tsukiyomi?! — ela cuspiu, a mágoa e a dor mescladas no seu tom; eram uma só depois de tanto tempo e, portanto, indiscerníveis. — Tudo o que eu sei é que você tem o sangue de duas pessoas preciosas demais para mim em suas mãos... Tudo o que soube de você em todos esses anos foi que deu as costas para todo aquele horror. Simplesmente se afastou... Simplesmente foi embora!

Lágrimas eram derramadas dos olhos em brasa e escorriam em cascatas ardentes pelas faces dela.

— E desde aquele dia eu jurei que nunca mais acreditaria em você. Nem uma palavra sequer! Nunca mais permitiria que você se aproximasse o suficiente para me machucar ou machucar as pessoas que eu amo de novo. Porque enquanto você se tornava o criminoso mais procurado em todo o mundo, eu lutava para refazer a minha vida a partir dos cacos que sobraram. A morte do Naruto foi um golpe duro demais, mas saber que ela aconteceu pelas suas mãos... — Ela balançou a cabeça, consternada. — Tudo desmoronou naquele dia e você foi o grande responsável por isso. Mas eu também me culpo, sabia? Porque eu quis acreditar em você quando se uniu a nós na guerra, eu quis, com todo o meu coração, confiar em você e isso me custou caro demais. Porque você recompensou a minha confiança com a pior forma de traição.

Sasuke se encolheu, abaixando o rosto. A dor dela era crua demais, afligi-o, atormentava-o. Sakura enxugou as lágrimas com as costas da mão num gesto cheio de raiva. Detestava-se por chorar diante dele outra vez, por demonstrar fraqueza ante o rosto do homem que causou todo o seu sofrimento.

— Nunca mais — declarou entre dentes. — Nunca mais confiarei em você depois daquele dia. Então pouco me importa que tipo de história você tenha contado para convencer o Kakashi-sensei ao ponto de ele permitir que participe dessa missão. Não sei que jogo está jogando, mas eu lhe garanto que não acreditarei em nenhuma palavra que saia da sua boca. Guarde as suas mentiras para você — ela o alertou. — Eu não quero ouvir mais nada.

Então, deu-lhe as costas e abandonou a clareira sem mais uma palavra. Sasuke refletiu que estivera certo em suas suspeitas, e o que ele mais temia aconteceu: nada do que ele dissesse remendaria o seu laço com a Sakura daquele mundo. Havia dor demais entre ambos, e ponte nenhuma voltaria a unir as duas extremidades do abismo que os separava.

Seus esforços seriam todos em vão. Estavam fadados ao fracasso.

 

 

 

 

 

 

 


Notas Finais


Bom, óbvio que não seria fácil convencer a Sakura da verdade, ela está muito machucada e o Sasuke vai ter um pouco mais de trabalho pra provar que não está mentindo. Mas calma que ele consegue contornar isso!

Esse capítulo saiu um pouco atrasado porque andei passando por alguns problemas pessoais. A minha doguinha acabou adoecendo, tivemos que interná-la e nisso o meu emocional não colaborou pra eu publicasse o capítulo no sábado porque eu não estava me sentindo bem, logo, não me sentia satisfeita com o capítulo de jeito nenhum. Agora, a minha doguinha já está em casa e se recuperando, logo, consegui postar o capítulo hoje.

E tenho novidades! Devido à pandemia do corona vírus, fui dispensada de trabalhar pelos próximos quinze dias e estou oficialmente de quarentena. Pretendo aproveitar esses dias em casa da melhor forma possível e decidi usá-los pra terminar de vez Dark Dawn (atualmente estou escrevendo o capítulo 26). Estou pertinho de escrever a palavra "Fim" nessa história! ;D

Enfim, agradeço a todos pela leitura, como sempre, e nos encontraremos em quinze dias com o capítulo 17!

Até o próximo!


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