1. Spirit Fanfics >
  2. Dark eyes >
  3. Chapter V

História Dark eyes - Capítulo 6


Escrita por:


Capítulo 6 - Chapter V


Aquilo caiu como um meteoro no meu coração, o seu eu de ontem não queria me esquecer. Respirei fundo tentando controlar meus batimentos e não criar nenhuma expectativa ou esperança, não queria sair frustrado de novo. Ficamos parados por instante na porta, até que voltei a mim e a convidei para entrar.

— Bem, eu li que você me convidou para um chá. — continuou ela ao entrar e passar por mim, senti que ela tinha algo nas mãos — Não sei se tomamos esse chá ontem, mas trouxe uma torta que fiz agora pela manhã, assim poderemos tomar aquele chá novamente.
— Chá?!

Minha mente estava um pouco paralisada com aquilo, ela estava agindo como se eu fosse normal, agindo como antes de saber sobre minha cegueira, o que me deixava ainda mais confuso e desnorteado. Fechei a porta, tentei me concentrar um pouco e pensar no que iria fazer, a deixei na sala e fui até o quarto, fiquei alguns segundos respirando fundo e tomando coragem para voltar para sala.

Coloquei meu óculos, troquei de roupa rapidamente e voltei, tentei me acalmar um pouco, tinha que me concentrar para saber onde ela estava, mas assim que cheguei na sala, ouvi um barulho vindo da cozinha. O que será que ela estava aprontando?

— Jamie ?! — disse dando alguns passos na direção do barulho — O que está aprontando na minha cozinha?
— Bem... — ela parecia prender o riso — Me desculpa invadir sua casa assim, mas estava procurando uma faca para cortar os pedaços, aí acabei encontrando a chaleira.
— A chaleira?! — só de falar daquele objeto eu já me lembrava do dia anterior.
— Sim, então tomei a liberdade e colocar água para esquentar. — ela caminhou até mim e ficou parada ao meu lado — Mas ainda preciso encontrar a faca.
— Pode deixar que eu assumo daqui. — eu ri um pouco indo em direção a bancada da pia, abri a segunda gaveta onde ficava as facas e estiquei a mão para ela.
— Agora sim. — ela riu — Obrigada pela faca.
— Só tenha cuidado, não quero que se machuque.
— Não se preocupe, não está muito afiada. — retrucou ela, ouvi o barulho de alguma coisa sendo arrastada.

Cruzei os braços mantendo minha face na direção do barulho e fiquei em silêncio, ela começou a cantarolar alguma coisa que eu não entendia bem, segurei o riso várias vezes. Assim que terminou ela me pediu dois pratos, peguei para ela sem a menor dificuldade e terminei de preparar o chá, eu ainda não conseguia acreditar que estava mesmo acontecendo isso.

— E o que está achando do meu chá? — perguntei ao tomar um gole.
— Nem forte, nem fraco, está na medida. — respondeu ela se sentado na banqueta ao meu lado — E você? O que achou da minha torta?
— Maravilhosa, nem sem doce e nem com exagero, está na medida certa. — eu sorri espontaneamente, meio bobo.
— Que bom, eu mesma inventei depois do meu acidente, faço ela todos os dias para não me esquecer. — disse ela — Mas essa foi a primeira vez que fiz sem olhar a receita.
— Uau, que progresso. — elogiei subjetivamente.
— Acho que foi por sua causa. — explicou ela tranquilamente.
— Minha causa? — desviei minha face para a direção da sua voz — Porque seria por minha causa?
— Não sei, eu estava animada de mais para te agradecer, só agora reparei que não li a receita.
— Agora estou mesmo surpreso, estou comendo uma unidade única da sua torta. — brinquei um pouco a fazendo rir e rindo junto.
— Bem, acho que sim. — ela suspirou um pouco, comecei a pensar se ela estava me olhando.

Eu desviei minha face para frente, complicado não imaginar coisas negativas, principalmente quando o silêncio tomava conta, a maioria eram perguntas simples e idiotas para muitos, mas que representava aqueles detalhes, que salvava meu dia. Tentar imaginar como ela me olhava, a cor dos seus olhos, como era seu sorriso, se ela tinha alguma mania como mexer no cabelo ou coçar a nuca quando estava com vergonha.

— O que foi? — perguntou ela — Ficou calado de repente.
— Nada, só me perdi nos meus pensamentos. — disfarcei minha voz melancólica e comi outro pedaço da torta.
— Se eu estiver atrapalhando, posso ir se quiser. — disse ela.
— Não. — peguei automaticamente em sua mão, nem imaginava que conseguiria ser tão preciso assim — Não vai.
— Tudo bem. — assentiu ela mantendo sua voz serena — Eu não queria mesmo ir.
— Fico aliviado em ouvir isso. — disse respirando fundo.
— Você parece estar meio tenso. — comentou ela — Tem algo te incomodando?
— Não, é que não estou acostumado em ter companhias. — direto e sincero — Isso me deixa meio desnorteado.
— Mas, você vive aqui sozinho? — perguntou ela confusa.
— Ah, não. — eu ri de nervoso — Eu moro com meu primo e a namorada, noiva dele.
— Hum, seu primo. — ela suspirou um pouco, parecia tentar lembrar de algo — Ele é cliente da cafeteria?
— Sim, certamente ele passou lá antes de ir para o trabalho. — assenti.
— E você trabalha com o que? — perguntou ela.
— Hum. — comecei a cogitar a ideia de mentir para ela, mas não seria um bom jeito de iniciar nossa quem sabe futura amizade — No momento não há nada que eu queira fazer da minha vida.
— Nada?! — sua voz de surpresa ecoou — Nossa, que estranho, é a primeira pessoa que me diz isso de forma tão frustrada.
— Me desculpa se te choquei, mas é a realidade. — respondi respirando fundo.
— Não há nada que te chame a atenção e te faça querer investir seu tempo?
— Não. — agora sim senti aquela frustração na voz — Porque não paramos de falar sobre mim, e falamos de você?
— O que quer saber sobre mim? — ela perguntou curiosa — O mais importante você já sabe, corro o risco de te esquecer amanhã.
— Não corre não. — retruquei tranquilamente — Você já disse que não quer me esquecer, tenho certeza que vai escrever sobre mim.
— Ah, eu não deveria ter contado sobre isso. — ela riu de leve — Você gosta de chuva?
— Nossa, que pergunta mais aleatória. — eu ri desviando minha face para sua direção — De onde veio essa curiosidade?
— Darya me contou que choveu no dia que você me salvou, eu ouvi o barulho da chuva nessa madrugada, fiquei curiosa em saber se gosta de chuva.
— Uau, que explicação mais detalhada. — sorri para ela, eu gostava disso, detalhes.
— Desculpe se expliquei de mais.
— Não. — senti meu coração pulsar mais forte — Eu adoro quando as pessoas detalhas seus pensamentos para mim.
— Você é um psicólogo? — perguntou ela num tom confuso.
— Não. — eu ri — Não, só gosto que as pessoas se expressam sem esconder nada de mim.
— Hum. — ela ficou um tempo em silêncio, senti que estava balançando a perna — Você não me respondeu.
— Não, mas sim.
— O que? — ela riu — Não entendi.
— Não gosto de chuva, mas sempre que chove eu me sinto bem e renovado.
— Hum. — ela pareceu gostar — Eu gosto de chuva, mas gosto mais da neve no inverno, guerras de bolas de neve, me faz lembrar da infância.
— Estou sentindo pela empolgação na sua voz. — eu ri um pouco — Também gosto do inverno, é um período de calmaria e ao mesmo tempo celebração.

Ficamos conversando por mais algum tempo, tanto que nem senti as horas passarem, foi estranho quando eu a levei até a porta e nos despedimos. Uma parte de mim, ou melhor, eu por inteiro não queria que ela fosse embora, ela tinha transformado meu dia de uma forma inexplicável. Fiquei me perguntando se aquela garota do perfume de jasmim, voz doce e suave, chamada Jamie , realmente existia.

A cada passo que ela dava para perto do elevador, sentia meu coração acelerar, me veio um sentimento de perda que não conseguia entender, uma junção de insegurança e angústia. Pensamentos sobre eu não vê-la no dia seguinte, ou ela me apagar do seu álbum e nunca mais saber sobre mim, a parte negativa dos meus sentimentos tinham retornado para mim. Difícil ser otimista com um histórico de decepções como o meu.

— Finalmente cheguei. — disse Jin ao entrar pela porta, ele parecia estar carregando algumas caixas, pelo barulho que estava fazendo.
— Quer uma ajuda? — perguntei desviando minha face para ele.
— Não, não precisa, são só duas caixas. — disse ele tranquilamente, então parou de repente — Como sabia que eu estava carregando algo?
— Com esse barulho todo. — suspirei voltando meu olhar para a televisão — Não tinha como eu não imaginar isso.
— Você bem que poderia agir como cego pelo menos por um dia, ainda me assusto com sua precisão sobre as coisas. — reclamou ele indo em direção a cozinha.
— Me desculpe querido primo, mas agora mais do que nunca, vou ser a pessoa mais normal do mundo. — retruquei.
— E a que se deve essa mudança toda? — ele parecia admirado.
— A Jamie veio aqui hoje de manhã, ficamos um bom tempo conversando. — expliquei mantendo minha empolgação para mim mesmo — Eu até descobri que ela é alérgica a bichos e pelúcia.
— Uau, e como isso tudo aconteceu enquanto eu estava trabalhando? — perguntou ele voltando para a sala — Ela se lembrou de você?
— Bem, ela disse que leu sobre mim no seu álbum de fotos, que talvez o eu dela de ontem não queria me esquecer.
— Uau, que profundo. — brincou ele — E você disse para ela que está interessado?
— O que? — desviei minha face para a direção dele — Não.
— Olha, friendzone não combina muito com você.
— Yah, fiquei calado Jin, não vou me declarar para ela, eu nem sei definir meus sentimentos por ela ainda. — reclamei — A única coisa que consigo admitir é que essa tarde, eu me senti vivo de novo, como se pudesse ver mesmo no escuro.
— Essa garota realmente tem algo especial, para te fazer sentir isso. — concluiu ele.
— Sim, eu me senti livre com ela aqui. — assenti me levantando do sofá — Depois de todo esse tempo, pela primeira vez eu agradeci pela hora não ter passado de forma rápida.

Passei por ele e fui até meu quarto, uma guerra interna estava começando dentro de mim, surpreendente que ao mesmo tempo que eu queria nutrir a esperança de repetir aquele dia com Jamie , eu queria apagar esse dia com medo de nunca mais viver algo parecido com ela. Me deitei na cama pensando sobre isso, quanto mais a voz dela ecoava em minha mente, mais eu sentia vontade de vê-la, ver seu sorriso, ou a forma como olhava para mim.

A noite passou e logo pela manhã, Jin bateu na porta do meu quarto, demorei um pouco para assimilar que era mesmo ele e não um sonho, ergui meu corpo me espreguiçando.

— O que você quer? — gritei.
— Eu nada, mas você tem uma visita inesperada. — disse ele rindo — E acho que deveria se levantar de bom humor.
— Visita?! — meu coração acelerou novamente, será que era ela?

Me levantei, troquei minha roupa rapidamente, coloquei o óculos e segui em direção a sala, logo que entrei consegui sentir o perfume de jasmim, mantive minha respiração tranquila e minha face baixa, estava tentando localizar sua posição na sala.

— Bom dia. — disse ela, estava perto da porta.
— Bom dia. — respondi me lembrando do dia anterior — Você veio, de novo.
— É, acho que sim. — ela riu de leve — Eu li sobre você, eu não sabia se tinha agradecido, então...
— Veio agradecer. — completei, desviei minha face para o lado da cozinha — Você não tem que ir trabalhar Jin?
— Ah, yah, eu estava terminando meu café. — reclamou ele com uma voz de chateação, certamente queria ficar vendo minha conversa com Jamie — Vejo você mais tarde, e foi um prazer te conhecer Jamie .
— Igualmente. — respondeu ela de forma simpática.

Assim que eu ouvi a porta se fechar, voltei minha face para onde sentia a respiração dela, estava escolhendo as palavras certas.

— Você veio mesmo para agradecer de novo? — perguntei de forma séria, porém serena.
— Sim. — assentiu ela convicta — Por mais que eu possa pensar que já te agradeci, ou que leia sobre isso, está sendo mais forte que eu, ler sobre você e querer te agradecer.
— Bem, você já agradeceu. — tentei não ser áspero, mas comecei a imaginar que aquilo não se tornaria real, ela sempre iria somente para me agradecer, porque eu a salvei, nunca seria mais que isso — E sei o quanto sempre será grata por isso, acho que se você escrever assim, vai conseguir imaginar que já me agradeceu o suficiente.
— Se é isso que deseja. — seu tom parecia de decepção, talvez por eu ter agido meio friamente.

Ela me agradeceu mais uma vez por eu ter salvado ela, não era sua culpa, mas era a minha, eu estava tão preso ao meu sofrimento de anos, que era difícil não imaginar que poderia sair magoado novamente. Às vezes pensar negativamente era mais atraente e menos doloroso que pensar positivos, criar expectativas me fazia ficar frustrado quando não eram realizadas.

Era isso que eu estava sentindo com Jamie , e imaginar que ela pudesse bater na minha porta todas as manhã só para agradecer, não conseguia ver algo positivo nisso, nem mesmo para me beneficiar e não passar algum tempo sozinho. Eu queria ter a companhia dela por mim e não porque a salvei, esse desejo era egoísta de minha parte?

Enfim, após ela sair e fechar a porta, senti que minha vida tinha voltado a escuridão de antes, melhor assim, me sinto tão acostumado com a escuridão que tenho medo de me render a luz.

As semanas foram se passando, Haneul tinha retornado da sua viagem e o apartamento voltou a ser barulhento com ela, pense numa pessoa que não conhece a palavra privacidade, ou o termo respeitar o espaço alheio. Infelizmente eu estava ali de favor, mas ainda queria um pouco de respeito a minha solidão, o que me levou a ter uma percepção bem maior do tempo, afinal Haneul agora trabalhava aos finais de semana, e era uma manhã ensolarada de sábado.

Eu acordei tão bem disposto que até fiquei assustado, acho que era o silêncio que reinava naquele apartamento, Jin tinha saído para jogar basquete com uns amigos e eu estava solitário mais uma vez. Me espreguicei um pouco e fui para a cozinha, assim que coloquei a mão na geladeira para abrir a campainha tocou, senti um frio na barriga e ainda intrigado fui atender.

— Jamie ?! — disse ao abrir a porta.
— Bom dia. — ela suspirou um pouco — Jungkook?!
— Sim. — assenti mantendo meu olhar abaixado.
— Acho que já deve ter ouvido isso, mas ver você é meio novo para mim. — disse ela meio sem jeito — Mas já tem uma semana que quero te ver.
— O que? — eu não estava entendendo mais nada.
— Eu li sobre você, li que me salvou, sobre meus agradecimentos, sobre você não querer que eu agradeça mais. — sua voz ficou um pouco triste — Eu não sei o que houve, mas estava escrito que eu não podia te ver, e isso me fez querer te ver ainda mais.

Coloquei a mão na altura do meu coração, era para ele estar acelerado, mas naquele momento não estava sentindo nada, nenhuma pulsação. Meu corpo todo estava estático e paralisado, mas de alguma forma aquecido por dentro.

 

“Ouça meu coração,
Ele está chamando você com vontade própria,
Porque você é luz dentro,
Dessa imensa escuridão.”
- Save Me / BangTan Boys (BTS)



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...