1. Spirit Fanfics >
  2. Dark Paradise >
  3. Prom Queen

História Dark Paradise - Capítulo 14


Escrita por:


Capítulo 14 - Prom Queen


Fanfic / Fanfiction Dark Paradise - Capítulo 14 - Prom Queen

Sexta-Feira 20:50

Baile de verão. Papa Don’t Preach tocava a toda a altura, uma das minhas músicas favoritas e nem ao menos ela foi capaz de me animar. Estava escorada na parede, com as luzes e a fumaça típica de festas passando por entre meus olhos entediados vislumbrando todos os estudantes animados e acompanhados no último baile de primavera/verão, o último baile de nossas vidas. Claire fez um ótimo trabalho, a decoração era impecável, seguia o tema sonhos com cortinas azuladas, globo de luzes e luas para todos os lados e pendurados no teto, em contraste com a formatura que chegaria daqui exatos dois meses, não mais dois meses e meio. Apenas dois meses. Havia muito ponche sem álcool, petiscos refinados, professores renomados e rígidos perdidos, tentando sem jeito parecerem legais. Havia muita gente escondida por entre os corredores e trancados em salas de aulas fazendo sabe Deus o que, mas algo muito perto de: pegação e ponche com álcool de verdade.

Pessoas, filhos de milionários, usavam seus trajes e vestidos caros, igual ao que eu estava usando, último modelo de festa da Dior, branco com renda e tule para todos os lados, algo que minha mãe comprou e me obrigou a usar, alegando que sonhava com o dia do meu baile desde que eu havia nascido e me obrigou a tirar a típica foto na escada, uma pena que eu não estava lá com a melhor cara de felicidade, passava muito longe para falar a verdade depois do final de semana passado na casa dos pais de William, sendo obrigada a ser gentil, tocar piano, participar de conversas sobre o futuro, faculdade e noivado, ser uma dama para William, acenar e usar luvas, apostar em cavalos, jogar golfe, beber vinho e usar roupas que mais pareciam com as da minha mãe e as da mãe de William. E a pior parte: fugir de William, dois dias inteiros fugindo de William tentando me tocar, me beijar e até me levar para seu quarto. Eu me trancava no banheiro, fugia para qualquer lugar da luxuosa e enorme casa de três andares apenas para não conviver com ele e deu certo, mas não daria por muito mais tempo pois meus pais e os pais de William estavam animados com nossa junção. Minha mãe extremamente orgulhosa e meu pai tão feliz que passava até mais tempo em casa, obrigando-me a estudar para a faculdade e me privando de sair, colocando uma empregada para me vigiar e o motorista para me esperar na porta da escola. Entrada e saída. Mas pelo menos hoje eu dormiria na casa de Claire, uma grande piedade da parte da minha mãe.

 

E o pior, eu nunca consegui me justificar e nunca mais consegui ver Kirk. 11 dias sem vê-lo.  E só mais dois meses até julho. 

 

- Vem, é Madonna, você ama! - Claire me puxou - Vamos dançar! 

 

- Não estou muito afim, desculpa - a soltei - Vai dançar com o Brian.

 

E outro fator. Eu era a única sem um par no baile, mas a mais invejada por todas aquelas garotas pois a notícia de que eu estava saindo com William, o solteiro mais cobiçado da “high society” já estava circulando e durante a semana fui parada por diversas garotas que me perguntavam como ele era e me chamavam de sortuda. 

 

E de repente Madonna acabou e deu lugar para um música lenta. Abaixei o rosto, evitando fitar todos aqueles casais felizes, agarrados e dançando. E esse era o momento que toda garota espera desde os 12 anos. Dançar no baile com o garoto que gosta. Um rito de passagem importante e idiota que cultivei e que hoje, só hoje eu odiava. 

 

- Você está bem? - Claire me estendeu um copo de ponche - Está batizado,os garotos do terceiro ano jogaram vodka, pode beber e ser feliz. 

 

Aceitei, dando um longo gole, fazendo careta. 

 

- Estou sim - sussurrei e sorri - Vai dançar, se divertir! Seu baile está perfeito. 

 

- Eva, sei que não está bem - ela me abraçou - Sei de toda a merda com o William - outro abraço e um olhar de piedade que me deixava com raiva - Mas você pode fazer como eu, segue o meu plano, nós vamos juntas - e pela primeira vez a ideia louca de Claire de roubar dinheiro dos pais e fugir para bem longe depois da formatura começou a fazer sentido na minha cabeça, mesmo sabendo que não daria certo, que me achariam. Pensar em fugir me confortou - Você sabe que não precisa estar aqui, sei que você não quer estar aqui - ela abriu minha mão e colocou cinco dólares - Pega um ônibus, vai ver ele, eu te dou cobertura, sua mãe acha que você vai dormir na minha casa, só esteja em casa amanhã a tarde, por favor.

 

Só se vive uma vez e no meu caso, só se vive por mais dois meses.

 

Fechei a mão com o dinheiro - Obrigada.

 

- Toma cuidado.

 

- Vou tomar - retirei os sapatos altos para conseguir andar com mais facilidade - Ah, eu votei em você e no Brian para rei e rainha.

 

- Votou o suficiente para me fazer ganhar?

 

- Umas cinquenta vezes - sorri e Claire retribuiu. 

 

(...)
POV KIRK

Sexta-Feira 23:50

 

Joguei a toalha de lado depois de secar o suor resultado da uma hora e meia de show. Vesti a camisa novamente e sentei na cadeira velha que o bar reservou apenas para chamar o lugar de camarim. Observei a conversa alegre de James, Cliff e Lars de como destruímos nesse show e de como, a cada dia que passava, mais e mais pessoas conheciam a banda e maior ficava o nosso cachê. Dez dólares por show para cada um e isso era ótimo, vantajoso, já que até o ano passado ganhávamos um dólar e meio cada, não dava nem pra pagar cerveja e normalmente sobrevivíamos e conseguíamos comer com o dinheiro que o pai rico de Lars mandava. 

 

Guardei o dinheiro no bolso da calça e a guitarra na case. Não estava afim de participar da conversa, mas igualmente feliz junto a todos os meus companheiros de banda. O Metallica estava crescendo, seríamos alguém na vida e só isso importava. 

 

Aceitei de bom grado o cigarro de Cliff e dei um longo trago, pronto para voltar ao bar e encher a cara sentado na mesa com os outros três para gastarmos o cachê da noite - Vou pegar uma mesa - acenei para eles e saí em direção ao bar lotado e hoje eu seria o arrastado inconsciente de bêbado até em casa, minha vez de tirar proveito e me vingar de todas as vezes que precisei carregar James e Lars mortos de bêbados.

 

- Uma cerveja - pedi no bar e escorei enquanto esperava meu pedido e alguma mesa com quatro lugares ficar vaga.

 

- Oi, Kirk - me assustei com a voz conhecida. Ansiedade atacando e mãos trêmulas com aquela voz que afundou minha consciência. A garota estava parada atrás de mim, cabelos mais curtos do que a última vez que a vi, olhar dissimulado. Sarah. Minha ex namorada sorrindo em minha direção - Quanto tempo - levou a mão até meus ombros - Por que não paga uma dessas pra mim? - apontou para a cerveja que o garçom acabara de me entregar. Dei um longo gole, querendo fugir dali e da humilhação que a presença de Sarah trazia, assim como o ódio em meu peito por lembrar do acontecido. Sarah e Mustaine. Na verdade, estranhei, pois ao lembrar nem ao menos consegui sentir ódio, apenas indiferença e nada mais. 

 

Nem a respondi, decidi ignorá-la que para ela saísse dali, não estava interessado em nada que viesse de Sarah. Só queria me afastar e cumprir o feito de encher a cara para esquecer o único rosto que estava em minha cabeça: Eva. Algo que tento fazer há 10 dias e obtive um total de zero sucesso. Ela continuava ali, presa na minha cabeça.

 

- Não lembra de mim? - Sarah sentou ao meu lado e pegou minha cerveja, dando um longo gole - Fiquei sabendo que está de turnê marcada. Mais um álbum, vocês estão conquistando a América. A casa está cheia hoje, pode me pagar mais de uma cerveja, babe.

 

- Como sabe disso? Está interessada na minha vida? - deixei a cerveja com ela, não querendo ter que tocar em suas mãos para pegá-la. E só querendo sair dali logo.

 

- Tenho minhas fontes - ela sorriu e levantou, passou as mãos em minha jaqueta, abraçando-me lateralmente como costumava fazer quando estávamos juntos. Desviei, mas ela tornou a fazer o mesmo, seguindo meus movimentos - Qual é, Kirk! Ainda está bravo com o que aconteceu comigo e o Mustaine? Eu era estúpida e idiota, foi um erro grotesco. Não consegue esquecer isso? Poxa - fez bico - Eu vim aqui dar minha cara a tapa, vim atrás de vocês para sei lá...nos aproximarmos novamente, sabe...Não pode perdoar isso? Não podemos nos conhecer de novo e…

 

- Voltou aqui por quê? Porque eu tenho uma turnê marcada e outro álbum? Sou mais viável pra você agora? 

 

- Claro que não, Kirk! Como pode pensar em mim desse jeito…eu não sou interesseira, foi o idiota do Lars que enfiou isso na sua cabeça, não foi, eu só percebi que fui uma grande tola por ter deixado você...mas o que é aquilo? - Sarah olhava por cima do meu ombro, assim como as pessoas ao nosso redor, algo chamava a atenção de todos e a curiosidade me tomou também. 

 

Virei.


 

POV EVA

Sexta-Feira 22:58

Minhas mãos suavam. As sequei no enorme vestido que usava.
 

Estava parada na frente da casa dele. Depois de pegar dois ônibus e receber olhares estranhos pelos meus trajes durante o caminho perigoso do ponto até o beco que esconde a casa já conhecida por mim.

 

Bati novamente. Meu peito batia em minha cabeça. Eu não sabia o que falaria. Minhas pernas tremiam. Eu só queria pedir desculpas por não ter aparecido no show. Eu só queria vê-lo.

 

A porta abriu. 

 

Fitei o chão, tentando controlar o nervosismo em meu estômago e foi então que notei uma silhueta feminina na porta - Eva??

 

- Ah, oi, Corinne! - respondi a garota que me fitava com surpresa, provavelmente devido ao vestido enorme que eu usava - O Kirk tá aí?

 

- Não, os meninos têm show hoje.

 

- Ah...você sabe que horas ele volta?

 

- Vish, em dia de shows eles costumam voltar bem tarde, quase ao raiar do sol.

 

- Ah, tá, tudo bem - respondi com desânimo.

 

- Você quer entrar e esperar?

 

Esperar. Só essa palavra me deixava desesperada de uma ansiedade tremenda me corroendo - Você sabe em qual bar eles tocam hoje? Pode me explicar como chego lá?

 

Eu estava desesperada. Desesperada porque só tinha mais dois meses até minha vida acabar de vez e ser mandada para Nova York e cada minuto era precioso. Desesperada porque estava sendo vigiada e quase nunca conseguia sair de casa, essa era uma chance única e eu não podia desperdiçá-la. Desesperada porque lembrava do telhado e dele e de como queria que...tudo se repetisse hoje a noite. 

 

(...)

Sexta-Feira 23:50

Uma hora, dois ônibus e muito desespero causado pela madrugada em partes perigosas de San Francisco. Adentrei o bar quente, lotado e ainda mais decadente dos que eu frequentei desde que passei a me aventurar pelas partes erradas. 

 

Empurrei algumas pessoas tentando chegar até o palco, mas o mesmo estava desmontado, indicando que o show já tinha acabado e que eles provavelmente já haviam saído. Decidi procurar entre rostos desconhecidos e nem ao menos me importei com o olhar de todos para o jeito nada comum que eu estava vestida. 

 

Paralisei. Não consegui dar os últimos passos para completar o caminho do destino que botei na cabeça desde que deixei a escola em uma aventura nada segura para encontrá-lo e eu havia o encontrado. 

 

“Ela é linda” foi a primeira frase que veio a minha cabeça quando encontrei Kirk no bar conversando com uma garota. Uma garota descolada e que representava tudo que eu queria ser, cabelos em um penteado da época, maquiagem que caía perfeitamente em seu rosto, uma calça de couro mostrando curvas, assim como a blusa de uma banda que eu não conhecia amarrada e mostrando sua barriga. Liberdade. E ele conversava com ela. A invejei, pois ela era tudo que eu queria ser. Ela fazia parte do local, do bar, da cena e combinava com ele.

 

Notei o olhar da garota em mim e me assustei quando ela disse em alto e bom som “mas o que é aquilo?”. Desviei o olhar pois eu provavelmente a assustei de tanto que a olhava. Engoli em seco quando Kirk virou. Os olhos dele bateram nos meus. Olhos assustados, tão assustados quanto os meus devem estar. 

 

Minhas mãos pingavam suor quando ele levantou, deixando a garota falando sozinha no bar e veio em minha direção. Vacilei. Mal conseguindo respirar - Eva? Está tudo bem? - ele fitou meu rosto assustado e perdido, sem saber o que fazer. A garota ainda nos fitava, não parecia contente - O que faz aqui? - voltei meus olhos para o rosto de Kirk e pude por fim respirar. Ele desceu o rosto para o meu vestido e imediatamente notei o olhar de todos no bar para nós, alguns até sorrindo ao me fitarem. Minhas mãos pingavam, minha cabeça rodava, meu peito batia com força e ecoava o olhar de todos ali, o olhar da garota em nós. Claustrofobia, mal consegui respirar - Quer sair daqui? - ele perguntou provavelmente notando minha face de desespero. Agarrei a manga de sua jaqueta enquanto ele nos guiava ao lado de fora do bar. 

 

Rua vazia. Frio da noite. Pude por fim respirar. Certo, Eva. Coragem, faça o que veio fazer - Estou uma semana atrasada - o fitei - Perdi esse show também - dei um riso sem graça - Desculpa não aparecer…

 

- C-como - ele gaguejou parecendo extremamente surpreso, risonho e perdido - Como achou esse bar?

 

- Ah, eu fui na sua casa e Corinne disse que estariam aqui.

 

- Você foi até minha casa? - outra pergunta, olhos surpresos, outro riso perdido. Eu fiz algo errado vindo aqui certamente, eu o tirei da conversa com a garota e que chance eu tinha contra ela? Zero. Ela era perfeita, era o estilo dele provavelmente.

 

- Desculpa, eu acho que não devia  ter vindo - algumas pessoas saíam do bar e me fitavam e novamente o sentimento de não pertencimento me abraçou com força, deixando-me triste, perdida, desesperada e com uma sensação de fracasso no peito e nem era meu vestido de baile o causador da sensação e sim ao lembrar de Kirk com a garota lá dentro e ao fitar a cara de incredulidade do moreno parado a minha frente com as mãos no bolso e um olhar confuso e de como eu não combinava com ele, de como não tínhamos algo em comum - E-eu acho que...é...vou...indo - apontei para o ponto de ônibus - Só vim me desculpar por não ter aparecido semana passada e...enfim, xau, Kirk! - forcei um riso que deve ter saído assustador ao julgar pela forma robótica que a ansiedade me fez reagir e falar. 

 

- Espera, ei, Eva - ele segurou meu braço - Espera - ele sorriu ao me fitar depois de correr alguns passos para me alcançar - Não vai embora não - fitou meu rosto e esperou longos segundos sem ter uma resposta minha, até falar de novo -  Você está bem mesmo? 

 

- Tô - levei minhas mãos trêmulas bagunçando penteado e sorri sem jeito, não sabendo o que fazer após uma quebra de expectativa ainda com a garota conversando com ele em minha mente - Eu tava no baile - segurei meu vestido ao notar que ele ainda estava confuso ao fitar meu estado, vestido bufante e sandálias de salto que me deixavam com a altura dele - Baile da escola.

 

- Você está perdendo o baile? Quer que eu te deixe lá?

 

- Não, Kirk, eu saí porque eu...eu queria...queria te ver - arranquei o band-aid, não tinha nada a perder mesmo. 

 

 - Queria me ver? - mais incredulidade em seu rosto. Outro sorriso - Quer sair daqui? Comer alguma coisa? Você está...pálida e gelada - só então notei que ele ainda segurava meu braço e minhas mãos transpiravam frio. 

 

- É...eu tenho...pressão baixa - menti, ainda nervosa. 

 

(...)

Sábado 01:05am

 

- Esse é o único lugar aberto - Kirk retornou com uma bandeja nas mãos. Estávamos sozinhos num McDonald's de beira de estrada. O único estabelecimento com comida aberto de madrugada por essas bandas barra pesada de San Francisco. 

 

Pegamos um ônibus até aqui, apenas dois pontos, ambos calados. Kirk parecia querer dizer algo, mas no geral só fitava meu rosto escorado na janela, pensando no futuro e nas escolhas que me trouxeram até aqui e em como eu só queria repetir a noite daquela segunda-feira no telhado. Ele sentou do meu lado. A mesa dividia dois bancos, pensei que ele fosse sentar no banco a frente, mas ele sentou ao meu lado, algo que me fez respirar aliviada. 

 

Peguei uma batata da bandeja a nossa frente, passei no ketchup e a comi. Ele ainda me observava. Mas não consegui dizer a frequência pois ele estava ao meu lado, a poucos centímetros de mim, no mesmo banco e por isso eu não conseguia fitá-lo, pois teria que olhar para o rosto dele e a minha cabeça ainda estava presa na garota do bar e no medo de estar sendo invasiva ou atrapalhar a vida dele. 

 

Fitei o local vazio. Mesas em tons amarelados e vermelho, alguns atendentes jogando conversa fora e ao nosso lado uma grande janela que tomava toda a lateral do estabelecimento e possibilitava a vista completa do lado de fora com uma grande placa e carros passando pela madrugada. 

 

Peguei o hambúrguer e dei uma mordida grande, notando os dedos de Kirk irem em direção a batata que ele comprou e a levou até a boca. Encostei na janela, cruzei as pernas por baixo do longo vestido e sentei virada para ele. Pensando em dizer algo, mas não encontrando as palavras exatas em minhas cabeça. 

 

Ele ainda me fitava. Parou de mastigar no exato segundo que notou que eu o encarava. Jeans e tênis pretos como sempre.  Hoje ele usava uma camisa branca com estampa de uma banda que eu não conhecia. Cabelos cacheados e ainda mais volumosos, dedos longos, amarrador de cabelo no pulso que ele nunca usava, sinal no rosto, olhos escuros e uma típica jaqueta de couro - Melhorou? - perguntou enquanto eu dava um gole no milkshake de baunilha e assenti com a cabeça - Ok - mais silêncio, outra batata, mastigou, me fitou através do reflexo da janela.

 

- Eu queria te ver - sussurrei de novo ainda mastigando e não o encarando - E me desculpar por não ter aparecido.

 

- Tudo bem, você já disse isso - sorriu - Não precisa se desculpar, Eva. 

 

Ele queria me ver? Eu atrapalhei o tirando do bar? Eu posso perguntar isso pra ele?  

 

- Obrigada pelo lanche - apontei para a bandeja em nossa frente - E pela passagem de ônibus.

 

- Sem problemas - outra batata. 

 

- Como foi o show?

 

- Bem legal.

 

- E o da semana passada?

 

- Você não perdeu muita coisa - ele sorriu. Covinhas aparecendo. Kirk estava calmo, mais calmo, relaxado e risonho do que o normal. Também estava mais calado, porém era a primeira vez que eu não o via nervoso ou sem jeito. Ele parecia...surpreso e feliz, estranhamente muito feliz e surpreso. 

 

- Eu não te tirei de algo importante, né?

 

- Como assim? - me fitou de novo, parecendo confuso.

 

- No bar...a garota que você estava conversando.

 

- Sarah? - ele deu uma gargalhada  - Não. Sarah é só uma conhecida da banda. Você me salvou para falar a verdade.

 

Soltei um riso de alívio com a indiferença com a qual ele respondeu sobre a garota. Certo, eu sou uma idiota insegura. Eu sou uma idiota insegura. A verdade é que nunca gostei de alguém e não sei como agir, não sei lidar com todas as reações que tomam o meu corpo quando eu o encontro. O frio na barriga, a ansiedade para ele me tocar, falar comigo ou ao menos só encostar seu braço no meu enquanto caminhamos. A forma que meus batimentos aceleram só porque ele me olha. Não sei como reagir, não sei controlar o que acontece...eu nem sei ao menos definir o que está acontecendo, mas conto as horas todo dia para vê-lo e não aparecer sexta passada me detonou, me detonou ainda mais não conseguir avisá-lo.

 

POV KIRK

Eu estava sonhando?

 

Nada justificava o fato de Eva ter aparecido, me procurado em casa e me encontrado no bar.

 

Meu peito batia rápido e por um momento agradeci os tragos que dei no cigarro de Cliff, ao contrário estaria em pânico com a frase da garota “eu queria te ver.”

 

Eva queria me ver?

 

Eva?

 

Queria me ver?

 

Eva está aqui? Eva está aqui. 

 

E de repente toda a semana que passei enchendo a cara e me deprimindo ao tentar enfiar na cabeça que nunca mais a veria e precisava esquecê-la, escutando piadas dos outros três parecia não ter existido, assim como as minhas promessas de “vou esquecer Eva, qual a probabilidade afinal, eu vou conseguir esquecer Eva.”

 

E só de vê-la ali, mal consegui respirar de uma felicidade estranha. 

Eva estava ali. Estava ali porque queria me ver. Então eu não imaginei a noite no telhado.

 

- Ah - ela deu de ombros e sorriu em minha direção. Ela estava linda. Queria tocá-la, beijar sua pele. Os cabelos que antes formavam um penteado estavam desgrenhados e bagunçados. Ela estava descalça com os pés no banco e as pernas cruzadas com o longo vestido tomando todo o banco entre nós e alguns pedaços do tecido espalhafatoso invadia meu espaço e estava em minha pernas. Olhos claros e gigantes em minha direção. Boca com resto de batom. Sandália de salto no chão. Ela parecia perdida, mas não tanto quanto no começo da noite. E eu não entendia o motivo. 

 

Não entendia o motivo de a ter ali ao meu lado comendo um hambúrguer com os lábios sujos de milkshake. Não entendia o motivo pois na semana passada tive o peito esmagado quando ela não apareceu no show, coloquei na cabeça que não tinha nenhuma chance com a garota esplêndida sentada ao meu lado e que me tirou o sono e me deixou sem vontade de viver por uma semana pois acreditei que ela não tinha aparecido por me evitar, por não querer nenhum contato comigo. Mas ela estava ali e eu não conseguia parar de sorrir. 

 

Estava tão anestesiado e confuso com sua presença e ao mesmo tempo com meu peito batendo rápido a cada vez que eu a fitava que não sabia como agir e não consegui explicar ou falar o tanto, tanto, tanto que queria vê-la. O tanto que quero vê-la toda hora, todo minuto, todo segundo desde que a conheci. 

 

Então havia um motivo, uma justificativa para ela não ter aparecido na semana passada? Lars estava certo de novo.

 

Eu sou um idiota inseguro. Um idiota inseguro como Lars diz que sou. A garota que dana meus sentidos me dizendo que queria me ver e a minha insegurança me fazendo estragar tudo.

 

- Eu também queria te ver - desviei o olhar e falei enquanto comia uma batata - Quero te ver todos os dias - sorri - Mas eu não sei como…

 

POV EVA

 

Kirk pegou outra batata e desviou o olhar - Eu também queria te ver - ele disse e congelei, parando de mastigar na hora, sentindo que a comida subiria a qualquer momento tamanha reação gélida no estômago que sua frase me causou. Minhas bochechas queimaram e uma vontade sorrir incontrolável me tomou - Quero te ver todos os dias - ele sorriu ainda sem me fitar - Mas eu não sei como.

 

- Você sabe meu endereço - respondi dando outro gole no milkshake - Só precisa enfrentar os seguranças do meu pai.

 

- É um risco que estou disposto a correr - ele respondeu ainda sem me fitar. Falávamos tudo isso sem nos fitar. Dois idiotas inseguros - Falando nisso - ele me fitou, não desviei, mas torci para ele não notar minhas bochechas coradas - Aconteceu algo sexta passada? Senti sua falta...no show.

 

- É, me desculpa, eu prometi que iria, mas tive uns problemas e não consegui avisar.

 

- Não precisa se desculpar. Não quero que se encrenque por minha causa.

 

Ah, Kirk, eu estou muito, muito encrencada e não é por sua causa. 

 

- Meus pais são bem rígidos - falei com cuidado pois eu nunca queria jogar meus problemas nele. Por que uma garota rica e que tem tudo reclamaria da vida? Ele não merecia escutar meus dramas, e eu queria, queria contar tudo pra ele, inclusive queria contar que ele era o motivo que me fazia enxergar graça e cor na vida, que só de pensar nele todos os problemas desapareciam - Muito rígidos. Eu nunca posso sair de casa. Tem um motorista que sempre me pega e me deixa nos lugares. Tenho 3 babás que na verdade são empregadas e que ficam de olho em cada passo meu. Eu só posso ir pra casa de Claire e normalmente quando digo que estou com Claire, estou com você.

 

- Eu não sabia disso. Que horrível, sinto muito.

 

- Tudo bem, eu já estou acostumada - dei um riso sem graça - Minha vida é planejada desde que eu nasci, minhas roupas, minhas babás, minha grade horária, os cursos, os instrumentos, as línguas, até o que eu como,  com quem eu saio, com quem eu falo, para onde vou, a faculdade que vou fazer e outras coisas. Já está tudo pronto e planejado - pensei em falar sobre William, mas escolhi que o garoto não precisava ser incomodado com isso, William era um babaca insignificante que eu precisava me livrar.

 

Kirk parecia chocado, me encarava com pena, talvez dó, não sei distinguir - Mas veja pelo lado bom - ele escolheu as palavras com cuidado - Você se forma em julho e está livre para seguir sua vida e tomar suas próprias decisões.

 

- Queria que fosse assim, de verdade.

 

- Não vai? 

 

- Na verdade não. Preciso seguir o caminho da família, ser uma advogada como meu pai ou uma psicóloga como minha mãe. Para isso preciso de uma carta de recomendação com média máxima para entrar na faculdade mais cara do país.

 

- A faculdade mais cara do país fica em...Nova York - ele sussurrou e assenti - E não é isso que você quer?

 

Apenas neguei com a cabeça - Eu nem sei o que eu quero. Nunca tive espaço para pensar por mim mesma, por isso nunca criei nada, nem ao menos um futuro, pois desde que nasci ele foi planejado e eu nunca poderia mudá-lo. Por isso invejo aquelas pessoas no bar. Uma pobre menina rica sem personalidade - sorri - Então foi por isso que não apareci sexta passada. 

 

Ele ficou quieto e me senti melhor por colocar tudo isso para fora, ou ao menos metade da situação. Mas o clima ficou pesado e me senti mal por ter metido Kirk nisso, me senti péssima. 

 

- Eva, eu sinto muito - ele virou, sentando em minha direção - Você...você pode sair disso, você já é maior de idade e tem direito a escolher sua vida, seu futuro e…

 

- Tudo bem - me aproximei e segurei suas mãos enquanto ele falava e gesticulava, parecendo incrédulo - Eu vou dar um jeito nisso, tenho um plano em mente - falei apenas para que a noite não fosse estragada com meus problemas. A verdade é que eu nunca conseguiria fugir disso, da minha família, era impossível, mas Kirk não merecia se preocupar com isso e eu não tinha o direito de jogar meus problemas em cima dele, por isso o tranquilizei, para que saíssemos desse assunto e não estragasse a noite. Na verdade o único futuro que me importa são os dois meses antes de entrar na faculdade, os dois meses que torço para que ele faça parte. 

 

Então é isso que chamam de primeira paixão repentina e avassaladora? Bom saber.

 

- Nunca mais fale que não tem personalidade - ele desviou o olhar - Você é incrível e única. Não deixe que digam o contrário. Nunca. 

 

Suas palavras tocaram o interior. Engoli o engasgo em minha garganta com sua frase que por um segundo me confortou como nunca na vida.

 

- Quer milkshake? - perguntei sentindo meus olhos marejados e sorri em sua direção. 

 

- Não, obrigado - Kirk negou com a cabeça, me fitando com os olhos atentos - Você está bem?

 

- Estou ótima - sorri de verdade - Estou ótima, de verdade. 

 

- Você precisa voltar pra casa hoje ou não está encrencada?

 

- Claire vai me dar cobertura. 

 

- Espero não estar estragando seu baile - ele pegou um pedaço da seda do meu vestido que estava em suas pernas -  Está linda demais para não ser vista. 

 

-  Você está me vendo - o fitei, segurando meus olhos nos seus pelo máximo de tempo possível. Ninguém falou. Apenas olho no olho. Dois minutos depois, precisei quebrar o silêncio pois senti que minhas bochechas queimavam e deviam estar da cor do logo da lanchonete - Eu nem me importo com isso, baile, essas coisas. Acho um porre. 

 

Ele gargalhou - É um rito de passagem, por mais que odeie, você precisa passar por isso. É uma memória importante para quando for mais velha.

 

- É? E como foi seu baile?

 

- Muito ponche alcoólico e vômito na quadra de basquete. 

 

- Saudável - sorri imaginando a cena.

 

- Bastante - ele sorriu de volta, e eu adorava quando ele sorria, adorava o som de sua gargalhada tímida e das covinhas se abrindo em suas bochechas - Mas é algo que vou lembrar pra sempre. Não acho justo que perca o baile e o substitua por uma noite no McDonald's com Milkshake aguado.

 

- E o que sugere que eu faça no lugar? - me aproximei dele, sorrindo e o empurrando de brincadeira.

 

- Tudo bem - Kirk levantou e fitou o lugar vazio, exceto pelos atendentes entediados e que nem notavam nossa presença - Sabe que esse é um dos meus lugares favoritos de San Francisco? Existe aproximadamente uma centena de McDonald's aqui, mas esse é o primeiro McDonald's de San Francisco e nunca foi reformado porque é histórico, está exatamente como era nos anos 60 - ele caminhava para trás enquanto falava e eu o fitava, sorrindo. Simplesmente não conseguia controlar meu rosto para não sorrir. 

 

- É isso? Quer que eu coloque a formação do McDonald's em San Francisco como uma memória importante? 

 

Ele sorriu - Não! - outro riso - Me deixa terminar - ele tirou uma moeda do bolso - É por isso que ele é o único que tem uma Jukebox, eu costumava vir aqui quando era criança e escutar músicas antigas e bregas por horas - e foi então que o segui com o olhar e encontrei a Jukebox escondida na parede. Ele colocou a moeda - Só tem um problema. O botão de selecionar não funciona mais, então, vamos ter que aceitar o que ela decidir tocar - ele veio em minha direção e estendeu a mão - Não pode usar um vestido desse e não dançar no baile - gargalhei e aceitei seus dedos. Senti meus pés descalços no chão e Kirk me colou nele, passou as mãos em minha cintura e automaticamente levei minhas mãos para seu pescoço - Eu não sei dançar  - ele sussurrou perto demais e pude sentir seu hálito quente de uma mistura agradável de menta com cerveja em meu rosto.

 

- Tudo bem - sussurrei de volta, não conseguindo parar de sorrir - Eu te ensino - arrumei seus dedos em minha cintura e o mostrei como segurar minha mão no exato momento que Put your head on my shoulder de Paul Anka começou a tocar. A música era um clássico que qualquer velho conhece. A Jukebox acertou em colocá-la - Agora você só precisa nos balançar - encostei minha cabeça em seu ombro e fechei os olhos, sentindo seu cheiro agradável, sentindo a textura da jaqueta de couro em meu rosto enquanto suas mãos me guiava e nos balançava ao ritmo da música. Meus pés descalços sentiam o chão frio a cada mínima movimentação, podia sentir a quentura do seu corpo no meu, seus cachos fazendo cócegas em minha testa, sua mão quente me guiando no ritmo da música que durou pouco tempo...apenas 2 minutos e 30 segundos que passaram voando e eu não queria largá-lo nunca. 

 

Mas ele não me soltou. Mas soltou minha mão e eu soltei a dele apenas para passar meu braços ao seu redor e o abraçar e ele fez o mesmo, grudando-me nele num abraço apertado e demorado. Sem palavras. Sem movimentação no qual eu podia sentir seu peito batendo colado em minha cabeça e que durou por quase três minutos até meus braços começarem a ficar dormentes. Kirk me soltou e voltou em direção a mesa, pegou a embalagem de batata e veio em minha direção - E a rainha do baile de 1984 é…- e colocou a caixa de papelão vazia em minha cabeça que logo foi ao chão, fazendo-me sorrir e provar uma sensação de felicidade no peito nunca antes sentida. E isso me preocupou. Gargalhei a ponto de lágrimas de felicidade caírem de meus olhos. E isso me preocupou, me preocupou nunca mais sentir algo assim…

 

Ele sentou de novo na mesa e pegou uma batata levando-a até a boca - Kirk - o chamei e ele me fitou com olhos escuros e atentos - Acho que preciso de outra memória para guardar - sussurrei e me aproximei do banco, segurei o vestido com as duas mãos e sem pensar duas vezes no que estava fazendo ou nas consequências, sentei em seu colo. Uma perna de cada lado do seu quadril, minhas coxas nuas e cada centímetro das minhas pernas podiam sentir o material do jeans que ele estava usando. Kirk estava surpreso, olhos saltados. Senti seu toque em minha cintura, suas mãos quentes em cima do tecido do vestido. Fechei os olhos e desci o rosto, sentindo sua respiração em minha face, sentindo seu aroma agradável, agarrei seu pescoço com os dedos e senti o toque de seus lábios úmidos. Ele me apertou com as mãos, beijando-me com a força e vontade que eu desejava. Podia senti-lo por inteiro, sua barriga encostando na minha, o material da jaqueta de couro em meus braços despidos, a falta de ar e a sensação que me arrepiava: sua língua contornando a minha com precisão, ele sabia o que estava fazendo, controlava os movimentos, fazendo-me tremular em suas pernas com a sensação agradável do beijo úmido e quente resultado do encontro de nossas línguas e bocas, a minha particularmente afundando nele, o puxei com os braços para senti-lo mais, assim como o roçar da pele de nossos rosto a cada movimentação. Sentei em seu quadril, dessa vez sem medo e o apertei com as pernas, trazendo-o mais em minha direção enquanto seus dedos agarrados em minha cintura, levava-me até ele.

 

Um pigarro me assustou e o soltei, fitamos ao mesmo tempo a mulher atrás de nós - Os dois, vão procurar um motel e deem o fora daqui, isso é um estabelecimento familiar.

 

- Desculpa - Kirk falou baixo em meio a um sorriso.

 

Saí  de cima dele, passando os olhos pelo local vazio e prendi um sorriso - Desculpa, moça - sussurrei enquanto Kirk me entregava minhas sandálias e saímos correndo do lugar.

 

- Uau - gargalhei assim que saímos, ele sorria alto também - Okay, eu definitivamente vou guardar essa memória - o empurrei e segurei seus dedos entre os meus.

 

- Expulsa do McDonald's - ele sorriu apertando ainda mais seus dedos nos meus - Que exemplar, Eva, esperava mais de você.

 

Gargalhamos e me aproximei para limpar meu batom que manchava seu rosto e estava por todo o seu queixo e lábios. 

 

Ele não sabia o quanto e o tanto de força que eu faria para guardar essa noite na cabeça e nunca, nunca mais esquecê-la.

 



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...