História Dark Paradise - Capítulo 1


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Categorias Bungou Stray Dogs
Personagens Chuuya Nakahara, Nakahara Chuuya, Personagens Originais
Tags Anime, Bar, Bsd, Bungo Stray Dogs, Dante, Dark, Dark Paradise, Fluffy, Kawaii, Lana Del Rey, Miss Sunshine, Shounen Ai, Sunshine
Visualizações 14
Palavras 6.920
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Bishounen, Drama (Tragédia), LGBT, Luta, Magia, Mistério, Poesias, Policial, Shonen-Ai, Shounen, Survival, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Essa fanfic é dedicada e feita especialmente a pedido de @Shyoni
(Para @Shyoni: Espero que do fundo do meu coração, você possa simplesmente tirar dessa fanfic mais do que meras palavras e espero que possa de alguma forma, ler além das entrelinhas. Tenho cara de ser humano ruim e hipócrita mas no fundo sou boa pessoa e acho que aqui vai mostrar exatamente isso XD)
O título é inspirado na música Dark Paradise da Lana Del Rey https://youtu.be/vmWUUPl8DD4 (vejam a letra também)
Sem mais nem menos, boa leitura ^^

Capítulo 1 - I don't wanna wake up from this tonight




- De passagem?

Lá estava o executivo e agente da máfia do porto, agarrado à uma taça de vinho Malbec como se aquela bebida fosse a única confidência que lhe restava nesse mundo. E era, já que era a única coisa que estava ao seu lado em todos os momentos, como um marco para seus passos, como um remédio para a alma ferida. Os olhos azuis mergulhavam no tom vívido, porém mórbido da bebida alcoólica e o indicador tocava com a ponta o interior da taça. Os pensamentos não focavam em nada específico no momento, apenas observavam os olhos escuros e parcialmente cobertos do homem que jazia — quase que em um estado pós morte — ao seu lado. Dedilhou como se estivesse tocando em um corpo feminino sob o exterior do vidro translúcido e o encarou mais uma vez, recebendo um silêncio tortuoso em resposta à uma pergunta meticulosa.

Edgar Allan Poe não passara ali simplesmente por passar, porém também não desejava ir àquele específico bar para beber. Não bebia absolutamente nada que envolvesse álcool, já que detestava acreditar que houvesse dentro de milhões de maneiras, uma tão estúpida em forma líquida capaz de tirar o bom senso e a sanidade de um homem com apenas poucos minutos e goles; também não bebia nada gaseificado, porque questiona-se a razão da presença do gás carbônico reagir em formato de pequenas bolhas de ar em algo que ultrapassava os quesitos de realidade barra gravidade que em suma, entendia, mas preferia não entender. Também não gostava de beber sucos ou qualquer outra bebida líquida repleta de corante e conservantes, optando apenas por uma água, que às vezes, vinha com gás e uma rodela de limão, pois os velhos hábitos nunca ficavam para trás e que em outras vezes, eram apenas taças transparentes e finas com um líquido extremamente da mesma característica, invisível, sem sabor fixo e ao mesmo tempo, saboroso capaz de cessar sua sede e capaz de acalmar os pensamentos densos e quentes. O líquido, a composição líquida da água, aquela taça pequena e a taça do outro homem ao seu lado lançavam cara a cara, as oposições da vida. Ao seu ver, o ruivo possuía um tipo de brilho etéreo que vivia quase sempre escondido, mantido sobre as trevas para ser esquecido e para se dissipar com os dias e logo anos que viriam a seguir, e para si mesmo, acreditava possuir um caráter dispensável e invisível como tudo ao seu redor, acreditava ser meramente uma peça em um enorme quebra-cabeça. Porém, do que não fazia e se sabia, preferia um bilhão de vezes tornar-se leigo ao questionar-se de que tinha uma importância; Estar ali, estar ao lado de um sujeito quase desconhecido que vira uma, duas vezes, ser parte de um mundo enorme, mover uma das engrenagens da vida, sem ele, sem sua natureza translúcida as pessoas não seriam capazes de lê-lo. De enxergá-lo. Ele refletia as múltiplas facetas de todo o indivíduo, porém também refletia a própria essência. Então mesmo que estivesse ali para de passagem para saborear uma taça insignificantemente minúscula de água, estava ali por uma razão. Ou causa. Não sabia ao certo qual dos antônimos que eram na verdade, sinônimos que o colocava ali, mas sabia que o destino lhe responderia isso em breve.

- Não vai falar nada não? Eu não mordo.

Murmurou o ruivo quando já encarava o perfil de Poe com as bochechas coradas pela bebida, com o rosto ambíguo pelo álcool e com o azul dos olhos mais azuis do que safiras. Virou o vinho nos lábios em um gole generoso e passou a língua no canto dos lábios de um jeito sensual demais ao sentir uma gota da bebida escorrer após outro rápido gole. Os olhos de Edgar insistiam em não vê-lo, em manter-se apenas naquela “bebida” incolor que ali estava em os pensamentos que pareciam cada segundo mais torrar sua sanidade. Se sentia bêbado mesmo sem álcool e se tivesse ingerido qualquer mísero gole então… Suspirou, tomando fôlego para responder ao outro que agora estava alheio, mirando o olhar para um dos cantos do estabelecimento ou para qualquer lugar que lhe trouxesse vagas lembranças. Precisava socializar, pensava o mais alto com as mãos trêmulas e os lábios secos. Era meramente Chuuya, não o Diabo — o que no caso, era exatamente a mesma coisa.

- C-Chuuya-san!

O ruivo virou-se naquele instante para ele, encarando seus olhos — no caso cabelos, porque Poe insistia em cobrir àquelas belas ônix com cabelos escuros e longos, que além de tudo, formavam leves cachos — e balançou o rosto ligeiramente para um dos lados, quieto, absorto, encarando sabe-se lá Deus o que naquela expressão inexpressiva, o que deixava o outro terrivelmente nervoso e ansioso. Poe brincou com os dedos de maneira ansiosa e histérica algumas vezes e notou que Chuuya finalmente dava indícios de uma resposta, o que lhe fez quase abrir um sorriso.

Teriam um diálogo, o começo de uma socialização, era algo ótimo, em suma, perfeito.

Perfeito se Chuuya não estivesse bêbado e se bêbados não fossem terrivelmente contraditórios.

- Por que não tá bebendo? Que tipo de sujeito vai num bar e não bebe nada? Tsk, esquisito.

E que tipo de sujeito vai à um beber apenas para ficar bêbado? Murmurou Allan em pensamento enquanto pensava cautelosamente em como respondê-lo, pelo menos, em como não começar uma discussão ou uma guerra em um lugar classificado como “pacífico”. Chuuya era seu rival acima de tudo, eram inimigos, eram de organizações diferentes, precisava ainda manter a compostura e estar preparado para qualquer indício de ataque ou de bater e retirada. Queria pensar assim, mas se esquecia por completo que o outro estava ali apenas para beber. Nada de estar a trabalho, ou em uma missão, estava fora do expediente e estava ali apenas para acalmar os fins do dia ou da noite, simplesmente para esquecer-se de qualquer aleatoriedade.

- N-Na verdade, não acho que beber seja uma coisa muito adequada. As pessoas cometem muitas coisas impensadas quando ingerem muito álcool, o que acaba desencadeando uma série de decisões catastróficas e consequentemente, leva à pessoa a um estado depressivo. Gosto de estar do jeito que estou. - Disse ao agarrar o pequeno vidro contendo sua água, levando-o para o alto e sorrindo amavelmente, tentando transparecer certa capacidade de socialização. Nakahara permaneceu encarando-o por uns doze, quinze segundos, assimilando letra por letra, sílaba por sílaba, tentando raciocinar com alguma clareza aquela ladainha toda. Blá blá blá adequada, blá blá blá, álcool. Apoiou o braço na bancada, descansando a bochecha no punho e suspirando com impaciência, brincando com um dos fios do próprio cabelo. Resposta errada, pensou ele.

- Não quer mesmo um gole? - Ofereceu com os lábios torcidos, aproximando a taça vazia de vinho às narinas do moreno. Só de sentir o cheiro do álcool Edgar nauseou-se.

- F-Fica para próxima. Obrigado, Chuuya-san. - Novamente tentou sorrir de um jeito convincente ao passo que o ruivo não tinha expressão fixa. Era assim que ficaria caso bebesse?  Murmurava em pensamento enquanto tinha as sobrancelhas franzidas e os lábios enxutos. Deveria aceitar aquele gole, apenas por educação, mas os devaneios insistiam para não aceitar nada de estranhos ou no caso, para aceitar e não se tornar um estranho, os fatores eram os mesmos, apenas em ordem controversas.

- Não me respondeu. Tá aqui de passagem?

E estava? O que estar “de passagem” significava de fato? Que havia passado aqui antes de morrer? Que era um caminho que percorria de praxe? Que havia subitamente chego ali sem razão alguma? Ou quem sabe, que estava ali porque havia algo lá fora que o fizera entrar? Responder àquilo era ainda mais difícil e meticuloso do que tentar socializar com cumprimentos ou do que pedir àquela água ao bartender, então, o que diria para ele? Que os olhos estavam perdidos nas ruas e avenidas e que os pensamentos eram infinitos demais a ponto de chegar ali sem ter controle sobre as pernas, simplesmente porque queria estar ali. Gostaria de responder exatamente como pensava à Chuuya, porém a mente negava a si mesmo. Inventaria algo, mentiria, o ruivo nunca mais se lembraria daquilo, contradizer a si mesmo não mudaria nada. Ou pelo menos ele achava isso.

- Eu estava com sede, estava chovendo lá fora e eu precisava de um lugar coberto para ficar. - Desde que a Guilda caiu, não lhe restava mais nada. - Olhei os letreiros daqui e simplesmente entrei. Não me restava muitos outros lugares próximos.

De maneira geral, não mentiu; com a queda da Guilda e as chuvas fortes que vinham ocorrendo sob Yokohama ficava quase impossível viver na rua, ou transitar sobre ela, optando por serviços domésticos que lhe rendiam alguns trocados em lugares como aquele. Pelo menos, sobreviveria pouco a pouco até que encontrasse uma situação capaz de normalizar tudo a sua volta, maa até lá, desejaria água e desejaria mil vezes estar morto. Foi a vez do outro interromper, com uma resposta um tanto quanto explicativa demais para um bêbado.

- Entendi. - Suspirou e virou-se para encará-lo, com uma expressão confortante e amigável. Às vezes, Nakahara Chuuya não parecia o mesmo executivo que assassinava gangues na Máfia do Porto. - Tem alguns apartamentos por aí que cobram barato. Talvez consiga passar um tempo neles por uns trocados. Não é exatamente aquela coisa, mas acho que dá pra ficar até que a Agência de ofereça algo. Eles são como a casa da mãe Joana, aceitam qualquer um se você passar em um maldito teste. - Rapidamente, buscou por um cigarro no bolso do casaco escuro, encontrando uma caixa quase vazia e agarrando um isqueiro com a outra mão. Não deveria fumar após beber, mas não dava ouvidos a nenhum tipo de ladainha científica que o fizesse pensar o contrário.

- A A-Agência? - Poe pareceu surpreso, imaginando que o ruivo oferecesse algo em relação a Máfia ou qualquer outra organização aleatória, nada que envolvesse os Detetives Armados e Osamu Dazai. Mexeu com os próprios fios de cabelo de modo pensativo e matutou tal possibilidade por alguns breves segundos até notar que Chuuya afundara o rosto nas mãos e largara o cigarro de lado. Estranho.

- É, eu falo do que sei. A Agência é exatamente do que precisava caso queira um lar, um objetivo de vida, essas merdas todas. Eles farão de você um herói. - Disse com certo ciúmes e desdém, suspirando outra vez enquanto ajeitava a bochecha no punho. Edgar sorriu mentalmente ao ouvir tal possibilidade, mas entristeceu-se ao notar que o mafioso parecia bêbado a ponto de tornar-se mais melancólico do que cruel e sangue frio. Era a hora de puxar assunto, de arrumar algo para perguntar que desencadeasse um diálogo, de ser sociável pelo menos uma vez na vida. Ele não se lembraria de nada disso depois, pensava com certo alívio.

- E e-então… Você está aqui de passagem?

Nakahara sorriu, encarando-o com um olhar melancólico e lábios úmidos por conta do vinho. Passagem? Ah, Poe não fazia ideia da história que estava prestes a ouvir e do assunto que havia arranjado. Teriam o que falar pela noite toda, até a madrugada, ficariam jogando conversa fora e falando mal das outras agências e do bar por uma eternidade, conversariam por toda a noite sobre besteiras e hábitos diários. Isso se não fosse tão tímido, e se o outro não tivesse um péssimo hábito de querer beber a cada instante. Mesmo assim, uma amizade entre Nakahara Chuuya e Edgar Allan Poe havia acabado de começar, mesmo que fosse a coisa mais inusitada e caótica de todo o universo.

Os opostos se atraem.

Mas os rivais? Se atraem ainda mais.

O que na verdade é um problema. Um grande problema.


Na segunda vez que se encontraram ali, as coisas tomaram rumos estranhamente diferentes. Chuuya mergulhou Poe em uma série de perguntas caóticas e distintas, do tipo que envolviam assuntos profissionais à questões pessoais e outras que não faziam coerência alguma. Às vezes fazia perguntas e objeções monossilábicas às respostas longas e explicativas dadas pelo moreno e outrora, dava de ombros e balançava a cabeça quando o assunto era sim e não. Se sentia levemente interessado pela aquela conversa incomum, mesmo que não fossem amigos ou colegas, nada íntimo ou duradouro, simplesmente dois estranhos que se conheceram antes e estavam juntos em um bar por nada mais, nada menos, que jogada do destino. Tal destino que fora imparcial e eloquente ao lançar literalmente duas figuras opostas em um ambiente complemente esporádico, vivendo de aleatoriedades e discussões infundadas além de taças de água e vinho — o que em suma, não se completava ou tinha coerência, era a mais por distinção entre oposição e diferente.

Edgar também não ficara apenas nas respostas o tempo todo. Quando dava indícios de perguntas ou objeções técnicas, o ruivo lhe dava espaço para usufruir de todas aquele vasto vocabulário, mesmo que ele falasse novecentas palavras em uma pergunta que poderia ser resumida em apenas quatro. Era nesses momentos, nas perguntas técnicas, e como Nakahara pensava, expositivas ao seu ser, que ele ficava confuso e retraído, buscando mudar o assunto seja qual fosse aquele e preferindo responder com uma palavra de baixo calão e um gole do vinho que mais se parecera um curto shot de tequila. Às vezes as conversas tomavam rumos desagradáveis, o que era sinônimo de vexame ou proibição para Chuuya e o que fazia ele saltar daquela banquete de madeira e partir para cima de Poe com os punhos fechados e as sobrancelhas demoníacas. Ah, ele se irritava fácil.

- O que te dá liberdade de pensar que venho aqui para afundar as mágoas? Que tipo de idiota de merda vai à um bar para afundar as mágoas? Acha que não tenho apreço pelo álcool e que sou meramente um bêbado solitário? Acha que sou um pobre coitado?  - Mesmo que tentasse soar ameaçador e destrutivo, era pequeno demais aos olhos de Allan, que em momentos como esse, calava-se e engolir saliva, novamente procurando responder um bêbado de alguma maneira que soasse natural. Não conseguia acreditar que estava discutindo com o ruivo simplesmente por um comentário verídico e analítico que havia concluído, e que sua verdade havia afetado tanto um pequeno executivo bêbado. Brigaria quando fosse necessário, preferindo não discutir por tosqueiras e míseras frases racionais. Suspirou, tentando agarrar a gota da camiseta semi aberta do outro e tentando colocá-lo de volta ao chão. Perda de tempo e de paciência.

- Não foi o que eu disse, Chuuya-san…

- Que se dane então, o que faço aqui ou deixo de fazer não te diz respeito, não mesmo. - Retomou seu lugar no bar e tentou manter a compostura. - Esqueça isso, é pura merda. - Afundou o rosto em uma das mãos e grunhiu baixinho, enquanto o moreno o encarava com atenção, torcendo os lábios e assentindo.

- Não se preocupe, foi só uma observação. - Com toda a calma e cautela que sempre tinha, descansou o rosto nas mãos cruzadas e olhou ao redor, encarando toda a estrutura que constituía o bar e logo, encarando os cabelos ruivos bagunçados e ligeiramente suados que pendiam nas mãos do mafioso. Sua figura bêbada era adorável e pacífica após uma discussão, mas quando estava mergulhado na raiva alheia ou no estresse súbito era ainda pior do que um possuído. A cabeça não pensava com clareza, se tornava bipolar e inconstante além de ter uma atitude incontrolável. Tornava-se sinônimo de selvageria e insanidade, mas quando o efeito do álcool chegava ao fim, se sentia fraco e melancólico, se sentia o indivíduo mais sofrido de todo o universo. Talvez fora de fato antes, mas as coisas possuem um rumo diferente agora; estava livre, sem tormentas ou demônios para perturbá-lo, tinha controle sobre sua vida mesmo que não soubesse como. Chuuya era o exemplo de inconstância e Poe…


Poe era o exemplo de confusão.


- Tá me dizendo que se meteu numa furada por acidente? - Os olhos de Nakahara estavam mais abertos e esbugalhados do que de um peixe beta e os lábios tortos entreabertos soavam engraçados aos olhares de fora. Essa era sua habitual expressão de surpresa barra dúvida, agarrado novamente à uma taça de algo que agora não era vinho: era conhaque. Edgar questionou-se mentalmente se a mudança da bebida do ruivo era consequência do dia que teve, ou das ações que tomou, ou de qualquer fruta do meio externo que fizera trocar de bebida, guardando as observações e deduções para mais tarde — e para longe de Chuuya. Com os cabelos mais enrolados, gesticulou, tentando explicar coerentemente a resposta que tinha àquela perguntar sem que parecesse uma má índole ou um mafioso encrenqueiro.

- B-Bem, eu estava andando na rua, quando tropecei e empurrei uma mulher que passava, o que coincidentemente tropeçou em um cara que era de uma gangue e que tinha uma paciência minúscula e quando me dei conta, fui atingido por um soco e um pontapé! - Levou as mãos para o alto e cruzou os braços, arrancando uma risada do ruivo que tentava ao máximo se conter. Era impossível, já que sempre que Edgar ia contar suas histórias, tudo era sobre desavenças acidentais e brigas sem causa fixa. Raramente contava para Chuuya sobre as reais brigas que tinha, já que preferia vê-lo sorrir do que franzir o cenho em preocupação. Estranho? Para ele, era mais do que de praxe.

- Você também é um desgraçado do caramba. - Observou como se aquilo não fosse óbvio. - Se for chamar alguém pra uma briga, chame direito e tenha ciência de que pode apanhar até cair. - Balançou a cabeça algumas vezes, encarando-o com certa malícia e perversão no olhar, além de sorrir de canto. Se divertia com qualquer desgraça alheia. - Senão, nem tire o pé de onde está.

- Qual a razão de querer brigar sem sentido? - Poe indagou com uma expressão confusa. Agora era ele que não entendia esses velhos hábitos de Chuuya e seu vício infundado por litros de álcool — e cigarros, claro.

- E qual a razão de ser tão desastrado? Bem, cada um tem seus motivos, oras. - Rapidamente, cruzou os braços, encarando-o com um olhar falsamente bravo e rosto retorcido. Não estava irritado por aquilo, já havia se acostumado com as indagações esporádicas do moreno e suas perguntas mais técnicas do que um interrogatório criminal. Edgar sentiu as bochechas corarem ao ser encarado tão fixamente pelo seu mais novo amigo e suspirou alto, tentando não perder o rumo das coisas e tentando acalmar seu problema com a dicção.

- Idiota. - Nakahara lhe deu um tapinha nos ombros ao notar que inconscientemente, também havia corado e desta vez, nada tinha a ver com a bebida. Era estranho se sentir assim tão próximo de um amigo, tão próximo, vulnerável e bêbado. Como os dois haviam se acostumado a estar naquele bar para começo de conversa? Ele mal se lembrava da primeira vez que trocaram cumprimentos ou que lançaram olhares de inimizade um para o outro. Agora as coisas haviam tomado um rumo diferente, desde olhares até troca de palavras. - Vai tomar um gole hoje? - Ofereceu ao quebrar o gelo e chacoalhar levemente o resto de conhaque que ainda jazia na taça, lançando-a diante dos olhos cobertos do outro. Com as mãos um pouco trêmulas, Allan agarrou a taça, completamente desajeitado e desfamiliarizado com as noções de etiqueta, aproximando com receio até o rosto. Segurava o vidro como um homem segurando uma bomba radioativa.

- O cheiro é péssimo. - Murmurou com uma careta e olhos fechados, tentando se manter longe daquilo. Chuuya sorriu e tentou segurar o riso. Era terrivelmente hilário como Edgar reagia à coisas vindas de um homem da Máfia.

- Qual é! Só toma um gole e paro de te perturbar, falo sério.

Um suspiro profundo do moreno e levou a taça aos lábios, engolindo saliva antes mesmo de trazer o líquido a boca. Um gole apenas, um gole e não seria perturbado nunca mais. Mas estava completamente certo em dizer que aquilo fedia.

- Certo, um gole. - Virou em dois segundos a taça nos lábios e deixou um pouquinho, quase o mínimo, cair dentro de sua boca, engolindo de imediato ao sentir o amargo percorrer as bochechas e o aroma do álcool percorrer as narinas. Fez uma careta nítida e mostrou a língua de um jeito involuntário, como quando se come algo azedo, sentindo o gosto quente que logo desceu por sua traquéia. Foi nesse momento que julgou os gostos de Chuuya como terrivelmente péssimos e que julgou a bebida como veneno para alma. Pensava: se o álcool fosse para diminuir o tempo de vida, que as pessoas arranjassem uma forma mais bonita de morrer então. Queria mandar para fora dos lábios o que já tinha engolido, mas era mais que tarde e certamente não faria isso na frente do outro. Não mesmo.

- Viu? Não disse que era bom? - E disse? Não, insistiu para que ele bebesse e após ver sua reação, caiu na risada e tentou ao máximo, manter a postura fria diabólica de mafioso que buscava ter. Tossiu, encarando o outro ainda em meio às caretas e sorriu, tomando a taça de sua mão enquanto dava um fim aquele último gole. Desperdiçar estava fora de questão.

- É horrível! Tem gosto de água com xixi, açúcar e algo amargo e quente como remédio, não, xarope talvez. - Mostrou a língua algumas vezes mais enquanto tentava beber água para tirar o sabor quente dos lábios. A sensação não passaria de imediato, disso estava certo e se arrependia por estar. Os olhos escuros e brilhantes olhavam por debaixo dos cabelos, a expressão zonza e bêbada de Chuuya, além de notar que lambeu os próprios lábios para dar fim ao gosto alcoólico. Tinha sensualidade estampada no rosto mesmo que não quisesse.

- Ah, jura? - Perguntou com sarcasmo ao fazer um “tsk” cômico e sorrir de canto, literalmente como um bêbado, tentando pela milésima vez naquela noite, encarar os olhos de Allan, já que não ter um olhar definido fazia dele ainda mais misterioso. - Se acostume, eu vou te oferecer uns vinte desses ainda e não vou aceitar não como resposta.

- Vinte?! - Assustou-se e reagiu com um sobressalto, abrindo os lábios sem som algum. Ouviu uma risada e um “aham” em tom bêbado pervertido e sorriu timidamente no mesmo instante. - Enquanto a “Só um gole”?

- Só um gole desse, ainda tem vários e vários, meu caro. - Virou uma taça pequena de vinho nos lábios e soluçou, já bem bêbado. Bêbado e sóbrio ao mesmo tempo, se é que aquilo era possível.

- Chuuya-san? - O chamou com uma voz tímida e passiva, virando o rosto para ter uma noção de seu estado atual e notar que a bebida havia sido demais. Precisava dar um jeito qualquer e rápido de contê-lo, um que fosse estar longe de cigarros, álcool e pessoas normais na qual poderia brigar.

- Poe. - Era a primeira vez que falava seu nome; primeira e possivelmente a última, já que encarava os olhos daquele alto homem com um olhar ambíguo, com as bochechas marcadas pela excesso de bebida e os lábios úmidos que agora pareciam secos e rachados.

Trocarem olhares por três longos infinitos minutos, ambos imóveis, fixos em pensamentos diferentes, em semblantes diferentes. Nakahara estava perdido, com um olhar vago e barulhento, com os cabelos lançados no rosto da maneira mais bela que poderia se adequar e as mãos perdidas por aí, tentando encontrar um caminho para agarrar as roupas de Edgar Allan Poe. Murmurou alguns ruídos indecifráveis e quase eternos com si só, agarrando-se as roupas do outro e pressionando seus lábios no dele. Um, dois, três segundos até o moreno corar como um tomate e sentir o toque dos lábios alcoólicos do ruivo pressionar os seus, se dando conta de que estavam em meio a algo romântico e que esse algo era mais amargo do que doce por culpa de muita bebida. Correspondeu, beijando os lábios de Chuuya com os olhos fechados e a mente concentrada naquilo, permitindo que uma de suas mãos infiltrassem os fios ruivos em um gesto gostoso e acolhedor, sentindo seus lábios molhados pela língua do outro que pressionava a pedido de uma passagem. Mais uma vez, permitiu, sentindo o gosto forte de todo o tipo de drinque invadir sua boca, sentindo o calor que os lábios daquele mafioso bipolar eram e mergulhou em uma sensação viciante de querer mais daquilo. Aquilo que logo teve fim, porque Chuuya não sabia ao certo como receber os lábios de um homem e também não sabia exatamente como manter o fôlego por muito tempo, cessando o toque das línguas e dos lábios, enquanto um fio de saliva escorria e unia lábios de dois rivais. Estava mais corado do que antes, e sentia o coração bater forte sem ser capaz de controlar o estado atual. Poe estava ainda pior, porque além de corado e surpreso tal como ele, acabara de notar que havia feito uma coisa sem volta; Havia se apaixonado, se apaixonado por um rival, pequeno, inconstante e bêbado, uma figura oposta a sua, que ainda sim, era exatamente a oposição que precisava.

Chuuya também havia sentido algo, mas nunca admitiria, pelo menos, não quando estivesse sóbrio.



Já havia outros dias, em que Chuuya era o problema e que as conversas não eram sobre como Poe ficava bem com isso, ou o que sentia acerca disso ou daquilo, eram conversas sem palavras, uma que trazia o ruivo para a realidade e que fazia sua sanidade durar nem que fosse por pouco. Era em dias como aquele, que todo o clima entre ambos se alterava e que um deles parecia encarnar no corpo errado, no momento errado. Estavam todas as noites no bar, mas quando Nakahara se atrasava um segundo ou estava lá há tempo demais, Poe já sabia que algo estava fora do lugar. Algo não, alguém, alguém difícil de lidar e incapaz de ser perfeitamente compreendido.

- Chuuya-san?

Chuuya estava quieto, deitado com o rosto sob o balcão, com uma taça de vinho virada do seu lado esquerdo e parte do líquido lançado sob o mesmo lado daquele balcão de madeira de carvalho. Os cabelos estavam uma bagunça, as mãos estavam frias e cobertas por luvas de couro preta, as roupas estavam rasgadas e sujas e tinha alguns arranhões nos braços, aqui e ali. O dia não fora bom para ele e a noite parecia se seguir com a mesma melancolia e raiva diária, além do álcool não estar funcionando como apagador de memórias ruins universais e da cabeça estar mergulhada em uma raiva alheia que não sabia qual era exatamente. Puxou os próprios fios em resposta à pergunta dele, murmurando um “huh” completamente ambíguo e pressionando os olhos no antebraço, detestando imensamente estar sóbrio.

- Chuuya-san… - O convívio diário, o hábito de estar sempre ali com ele, os segundos que passavam falando sobre os diversos sons da chuva e sobre os péssimos gostos das bebidas, tudo desencadeou para que suas mãos fossem automaticamente para os cabelos ruivos com mistos alaranjados e para que deixasse um carinho ali, passando os dedos longos e magros por fios bagunçados e retorcidos. Finalmente, percebeu que ele reagiu, levantando parte do rosto e posicionando a cabeça entre aqueles dedos finos e esbeltos, pedindo por outro carinho, enquanto tinha os olhos azuis marejados e o rosto destruído. Tinha marcas escuras debaixo dos olhos e alguns arranhões pela face, nada grave, apenas incomum e lamentável quando se observado com precisão.

- Poe. - Os lábios mal se abriram e ele grunhiu, levando uma das mãos para os cabelos castanhos escuros enquanto tentava deixar um carinho amigável. Era péssimo nisso, mas estava melhorando com o tempo.

- Teve um dia ruim?

- Uhum. - Murmurou quase que automaticamente, bocejando algumas vezes até mergulhar o rosto nos braços outra vez. Só precisava daquele carinho e esqueceria das idiotices que fez e do sangue que sujou suas mãos. Se esqueceria de tudo o que realmente queria se fosse acalmado e mimado ali, sem qualquer tipo de perversão ou ambiguidade nos gestos, sem qualquer demonstração de fala e sem muitos motivos ou obrigação no quesito de humanidade, apenas assim, os dois ali, no silêncio de um bar barulhento e sozinhos nos próprios devaneios.

- E o que aconteceu? - Perguntou baixinho, ainda com os dedos mergulhados nos fios vermelhos-alaranjados e os olhos concentrados naquela feição sonolenta irritada.

Chuuya resmungou algo que fora novamente incompreensível e retirou o rosto dos braços, encarando o rosto do moreno e resmungando algumas poucas vezes mais. Estava irritado e algo terrivelmente ruim havia acontecido, aquilo era mais que notável, por isso Edgar queria saber mais do que o visível existente. Queria tentar ler as entrelinhas e pelo menos uma vez, entender mais do que simplesmente deduzia de Nakahara. O ruivo levou as mãos até aqueles cabelos escuros outra vez, e fez o favor a si mesmo de tirar os fios compridos que escondiam suas belas ônix por alguns breves segundos, finalmente encarando aqueles tais oblíquos e fugitivos olhos. Olhos que eram mais esbugalhados e brilhantes do que imaginava, que refletiam mais do que uma simples alma e que bagunçava a linha tênue que considerava ser seus atuais pensamentos. Deuses, aqueles olhos compridos e ligeiramente saltados, como olhos mágicos e etéreos tiraram qualquer vestígio de sanidade ou raciocínio lógico que tinha naquele momento. Era por isso que sempre escondia as janelas da alma? Era por aquela razão que as trocas de olhares em dois bons conhecidos era mais forte do que qualquer outra demonstração afetuosa ou profunda? Era por isso que bebia tanto quando estava acompanhado?

- Ah… Nada de mais, só o habitual. Esqueça isso. - Desviou o olhar ao notar que o rosto estava completamente ruborizado e logo Poe fez o mesmo, escondendo os olhos rapidamente outra vez, passando alguns dedos entre a “franja” comprida. O que aconteceu naquele momento? Perguntava-se dezena de vezes em pensamentos, tentando trocar o assunto, quebrar aquela tensão toda, fazer qualquer coisa que livrasse sua pele de elogios, críticas ou sabe-se o que mais viria de Nakahara Chuuya. Não fora necessário, o ruivo já fizera aquilo primeiro. - O que… O que faria se cansasse de ser você?

- B-Bem… - Edgar nunca vira Chuuya daquele jeito, muito menos com uma pergunta tão existencial em mente, por isso, pensou com cuidado nas tais palavras, na composição da frase e em como de fato iria respondê-la. -  Depende. Depende de qual “eu” que eu estivesse sendo. Também depende do que exatamente eu estiver cansado. - Tocou os lábios com o indicador e o polegar, fazendo um ruído adorável pensativo e piscando levemente como uma mística criatura. O mafioso ruivo ficara encarando a expressão pensativa que tinha com o rosto imóvel, ainda com aqueles olhos azuis marejados e o corpo mole pelo cansaço. Não fazia sentido. Mesmo que dependesse de um talvez e de um porquê, aquela resposta não fazia sentido, não do jeito que imaginou ouvir. Então Poe precisava de motivos para cansar-se de si mesmo? Talvez Chuuya não estivesse entendido de fato, mas fez questão de insistir na mesma coisa.

- Não… Não foi o que eu realmente quis dizer. O que faria caso se cansasse de si mesmo? Como um todo, em todos os aspectos. - Parou para pensar nas palavras que dizia e meneou algumas vezes, pressionando as têmporas com uma das mãos. - Esqueça, é melhor esquecer. Não sei se me entende, nem sei como cheguei nisso.

- Já disse. - O moreno se aproximou de seu rosto, olhando aqueles olhos azuis nublados e suspirando baixinho, tentando controlar o coração batendo tão rápido quanto uma bomba e tentando controlar as mãos mais que meramente trêmulas. Ele entendia, mais do que qualquer um, ela entendia exatamente essa sensação, esse sentimento de vazio, de odiar-se a si mesmo, de lutar contra o próprio ser; ele entendia aquilo mais do que ninguém, e às vezes, preferia não entender. Gostaria de tornar-se leigo do que ter ciência do mundo ao seu redor e dos olhares que lançavam em sua direção. - Eu te entendo. Entendo completamente, Chuuya-san. - Um sorriso amável pintou seus lábios e um leve rubor atingiu seu rosto e bochechas. O que era inusitado e estranho para Nakahara era de praxe para Allan. Mais do que de praxe.

Não houve resposta. Os olhos de safira se fecharam com lentidão e pensatividade, e simplesmente mergulhou as mãos nos cabelos castanhos escuros, fazendo um cafuné e torcendo os lábios em uma tentativa de transparecer confiança. As palavras que queria dizer não saíram, então calou-se de uma vez e voltou a mergulhar o rosto em uma das mãos, intrigado com aquela resposta. Talvez fosse paranoia sua ou estava estressado demais pelo dia ruim, ele não sabia ao certo. Ou talvez fosse paranoia de Allan, que trocara a taça de vinho do ruivo por um copo de água para impedir que bebesse outro gole de álcool. Ou talvez fosse uma paranoia coletiva e o convívio de ambos deixava tudo mais notável. Foi a primeira vez que Chuuya e Poe dormiram juntos no apartamento do ruivo, a primeira e de muitas, e a melhor das melhores.



Na primeira carta que Nakahara Chuuya recebeu, leu-a na calada da noite, sentado em um dos cantos do bar enquanto fumava um grosso cigarro, encarando a paisagem desértica pela janela e franzindo as sobrancelhas do jeito que demonstrava todo o seu ódio. Parecera tão frustrado e chateado por estar pela primeira vez após tanto tempo sozinho que fumou mais do que a caixa habitual de cigarros, resmungando todas as vezes que era capaz, após ler aquele manuscrito rebuscado escrito caligraficamente belo aos olhos de um sujeito da máfia. A caligrafia e a assinatura, eram de ninguém mais, ninguém menos que Edgar Allan Poe, o que deixava seus nervos ainda mais sobressaltos. Detestava pensar o pior, mas a frequência constante com quem seu coração batia e as gotas de suor pingavam de sua face no papel eram surreais. Alguns minutos e chegou ao fim, concluindo apenas que ao que lera ali, Poe estava sendo perseguido por uma gangue incomum e preferiu não ir ao bar naquela noite, deixando a carta com o bartender e preferindo ficar longe das rua e de bares movimentos. Irritou-se mais e mais, amassando a carta com os punhos enquanto a lançava no fogo e observava o papel espesso e pardo queimar.

Quando menos se deu conta, estava cansado, bêbado e dormiria no próprio bar já que não havia companhia alguma capaz de ir para o apartamento consigo.

Na segunda e última carta, Chuuya chorou antes mesmo de abri-la e lançou tudo o que estava próximo de si para os ares.

Aquilo não poderia ser real.

Não não, não após tudo aquilo, não após tanta coisa.

Ele não poderia perder Poe.

Não naquele dia, nem nunca.

A carta que recebera tempo depois, a segunda infame carta, já chegara às suas mãos com alguns respingos de sangue e uma caligrafia apressada de uma caneta tinteiro que pela primeira vez, falhou em algumas sílabas e acentos, que contribuiu para agravar ainda mais tudo aquilo. As mãos abriram o envelope com força e desdobrou o papel lançado sob o mesmo com certa pressa e desespero, lendo-a com a voz, não com o olhar.


Caro Chuuya-san,


Eu nunca fui desde a infância jamais semelhante aos outros. Nunca vi as coisas como os outros as viam. Nunca logrei apaziguar minhas paixões na fonte comum.

Nunca tampouco extrair dela os meus sofrimentos.

Nunca pude em conjunto com os outros despertar o meu peito para doces alegrias,

E quando eu amei o fiz sempre sozinho.

Por isso, na aurora da minha vida borrascosa evoquei como fonte de todo o bem o todo o mal.

O mistério que envolve, ainda e sempre,

Por todos os lados, o meu cruel destino…¹

Fui perseguido, vi tudo o que tinha sumir diante de meus olhos e senti na pele, todo o mal que o ser humano poderia sentir.

Não dormi em leitos caros ou me alimentei da melhor comida, mas o tempo que passei ao seu lado foi um remédio capaz de curar tais memórias partidas.

Chuuya-san, sinto que não me resta muito tempo.

Talvez quando estiver com esse manuscrito em mãos, se dê conta de que estou na pior das hipóteses e de que estará sozinho quando precisar beber para esquecer nos bares de todas as noites. Talvez se dê conta de que eu sempre fui tímido demais para encará-lo frente a frente e que mesmo que eu em suma, desejasse, não fora capaz de tocar seus dedos mais do que nas piores e demoníacas noites.

Não o culpo por ser viciado em bebidas horrorosas ou por fumar cigarros tão baratos em que poucos ienes eram gastos, mas o culpo por calar-se quando eu mais queria ouvir a sua voz.

Às vezes eu tenho medo do meu coração, de sua constante fome por seja lá o que ele queira², além de suas batidas frequentes que me deixavam e ainda, me deixam envergonhado.

Enquanto escrevo aqui nos segundos que ainda me restam, penso em como tudo seria diferente se não fossemos rivais, e se não me quisessem morto pelo o que fui e pelo o que sou.

E sendo jovem e mergulhado na insensatez,

eu me apaixonei com melancolia³ e nós amamos com um amor que era mais que amor.⁴

Me despeço com nada mais do que um triste adeus e ciência de que não há um outro lado a minha espera.

Porque um homem como eu não tem lugar para ir.

PS: Eu só queria que você soubesse que é o melhor.

Edgar Allan Poe


Os seus lábios estavam frios e secos quando chegou ao fim da carta e os olhos estavam marejados, abertos ao máximo para impedir que aquelas malditas lágrimas caíssem outra vez e para que o manuscrito não ficasse coberto de gotas salgadas. As mãos ainda agarravam o papel com força e o sentia um tipo de arrepio macabro, um tipo da sensação gélida na alma, como se lhe faltasse algo. Como se Edgar Allan Poe realmente não estivesse mais consigo em pessoa, como se o vazio voltasse a preencher sua pele e suas feridas, voltasse para lhe fazer companhia. Ele tinha tanto a dizer, tanto a pensar, tanto a fazer com o moreno alto e tudo aquilo fora tirado de si, fora arrancado com a mesma velocidade e audácia que se arranca um doce de uma criança. Preferia estar sonhando, preferia morrer em seu lugar do que imaginá-lo sendo assassinado a sangue frio ou do que ter que imaginar-se visitando sua cova.

Foi uma das noites que bebeu tanto, tanto, que desmaiou e quando acordou, não sabia que dia ou ano estava, não sabia exatamente quanto havia dormido, mas ainda tinha aquela carta em mãos como a única prova de que aquele homem viveu. Com a única prova de que lhe restava esperança e de que houvesse alguma chance dele estar vivo.

Era o que Chuuya queria acreditar.

E era o que ele queria convencer-se.


Um mês se passou, um longo e quase infinito mês que atrapalhou suas noites de sono e suas atividades diárias, trinta longos dias que fez questão de contar nos dedos, no calendário, em todo tipo de papel e lugar para aguardar a volta de Poe. Foi àquele bar todos os dias, noite após noite, bebeu o mínimo para manter-se sóbrio a ponte de enxergar o moreno de longe, se segurou para não dormir em momento algum e fumou dezenas de caixas de cigarro numa tentativa de esquecer da dor psicológica — uma dor psicológica incurável, ao seu ver.

Um longo mês sem respostas, avisos ou sinais, um que fora preenchido com álcool e charutos baratos além de noites que tentava segurar as lágrimas e controlar os punhos. Um que se esqueceu de quem realmente era e que levou um choque de realidade ao seu dar conta de que ninguém voltaria.

Edgar Allan Poe estava definitivamente morto.

Fôra morto, o que era ainda pior.

E não havia lhe dado nenhum beijo de adeus.

Suspirou, já outra vez no bar após aqueles trinta dias e agora, trinta e um dias, se sentando na banqueta do bar e olhando ao redor, procurando qualquer coisa que lhe deixasse confortável. Olhou para o lado de súbito ao ter imaginado a voz de Edgar, o que era simplesmente, coisa de sua cabeça. Estava realmente sozinho e nem ao menos soubera o que aconteceu com o único homem com que se preocupou por tanto tempo.

Teve a atenção desviada para as inúmeras bebidas, murmurando metodicamente enquanto pensava em o que escolher ou quanto beber, descansando o queixo nas mãos com os cabelos bagunçados e fazendo o gesto com uma das mãos para atrair a atenção do bartender.

- Um copo de água, por favor.

Solicitou o ruivo sem expressão qualquer ou reação fixa. O atendente o encarou e rapidamente, serviu o copo minúsculo de água, ainda meio confuso. Confuso e intrigado a ponto de perguntar a razão de uma escolha tão vaga para um bar onde se vendiam inúmeros drinques alcoólicos.

- Não vai querer uma taça de Malbec, senhor?

O ruivo tocou o exterior da pequena taça translúcida, passeando os dedos com calma e atenção, virando-se para olhar para o bartender rapidamente, tentando ignorá-lo. A taça de água era pequena e transparente, o que lhe fez notar que era capaz de enxergar seu reflexo ao olhar no fundo, além de ser totalmente líquida, sem partes densas ou espessas como vinhos e licores. Era meramente uma água, mas era a água. Sorriu de canto, sentindo um aperto no peito e uma sensação seca na garganta. Água, huh?

- Não. Hoje só estou de passagem.





Notas Finais


¹,²,³ e ⁴ - São todos fragmentos do real Poe. Duas frases foram traduzidas diretamente do inglês e uma parte é fruto de parte de um poema escrito por ele.
Obrigada por lerem <3


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