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História Dark Room - Capítulo 10


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Capítulo 10 - Chapter ten - Desentendimentos


Fanfic / Fanfiction Dark Room - Capítulo 10 - Chapter ten - Desentendimentos


I'm as dry as a seven-year drought

Estou seco como uma estiagem de seven anos 


I got dust for tears

Minhas lágrimas já viraram poeira


And I'm all tapped out

E eu estou totalmente vazio


(Sometimes I feel broken and can't get fixed)

Ás vezes sinto como se estivesse quebrado e não pudesse ser concertado


— Hole in my soul.


{...}




Uchiha Sasuke 🌪️




{...}


Posso sentir o cheiro de carniça e posso ouvir o gralhar das aves ao meu redor.


Dentro do meu estômago aberto, larvas se divertem passeando para lá e pra cá, enquanto eu sinto minha pele derreter como gelo, expondo toda a minha estrutura óssea pra quem quisesse ver.


Ouço os gritos abafados e engasgados de sangue, arregalo os olhos e aguço a audição para entender mais o que posso fazer... Como posso impedir. A única coisa que consigo ouvir são os gorjeios dos abutres novamente.


Encaro os pés, e lá estão as mãos dela. Mãos brancas e delicadas, esbanjando um anel dourado no dedo anelar e as unhas compridas tingidas de azul-claro. Seus lábios se mexem, mas não ouço som algum.


— Acorda, bela adormecida! – A voz de Neji exclama – Acabou a aula.


— Hm. – Não me dou o trabalho de dar explicações. Levando a cabeça de cima da minha mochila roxa e preta e esfrego um olho, enquanto vejo Hinata fechar o zíper da sua bolsa e Neji jogar a dele para trás das costas enquanto encara algo no fundo da sala com um olhar faíscante. Olho para trás e vejo meu irmão e Sakura conversando.


Sorrio por dentro e me levanto rápido, pra não dar chance de ele me acompanhar, afinal, quero fazer uma coisa.


Saio rápido da sala, deixando Hinata e Neji sem entender nada e me dirijo até a estufa do colégio, atrás da oficina de jardinagem. Enquanto cruzo o corredor, duas meninas fofocam no canto, dando risadinhas e olhando pra mim. Uma tem cabelos cor de água de salcicha e olhos puxados como o de um lince. 


A outra, tem os cabelos tingidos de vermelho sangue e chupa um pirulito, a reconheço como Aimee, que está um ano atrasada e já ficou com Suigetsu em alguma festa cuja qual não me lembro. Ela enfia o pirulito todo na boca enquanto me encara e pisca. Como alguém conseguiria achar isso bonito?


Adentro na estufa passando por aquelas meninas e lá deixo o que havia prometido hoje mais cedo: 


"Já sei quem você é, mas você não sabe quem sou. Deixarei uma pista na estufa"


Penso em como é infantil o que estou fazendo, mas não posso evitar. Há pouco mais de um mês, resolvi fazer o que meu coração mandou e instalei um aplicativo idiota de namoro. Lá, comecei a conversar com alguém que, de certa maneira, podia me entender e não fez me julgar ou me dar atenção demais como se tivesse pena de mim — o que acontece muito.


Observo de longe que o Shino estava guardando seus materiais e levantando-se de uma das mesas de pedra que ficava em frente à estufa... Era um lugar bonito para se estar e admirar: Debaixo do primeiro telhado de vidro ficavam todas as mesas de pedra e em frente às mesmas alguns vasos compridos cheios de terra que iam de uma mesa à outra. Debaixo do segundo telhado de vidro, uma estufa com todo o tipo de plantas ao redor e uma fonte no meio que tinha uma escultura de cupido.


A escultura apontava com seu arco e flecha para cima, o que me deu uma ideia: ali mesmo colocaria a minha pista. Tirei do bolso uma pulseira laranja fluorescente feita de papel e a amarrei indelicadamente no arco. 


— Hahahahahahaahaha! Eu nunca ri tanto, parece que meu estômago vai explodir! – Ouço a voz dele. Então, ele finalmente apareceu.


Vejo Naruto se aproximar com Deidara e Sakura à tiracolo. Ambos dão algumas risadas frouxas, como se tivessem rido tanto que não aguentassem mais dar risada enquanto ela sustenta uma cara emburrada. Me escondo atrás de algumas plantas e os observo.


— Vai logo com isso, idiota! Eu tenho que ir logo pra casa... – Ela diz, de braços cruzados e um péssimo humor. 


— Isso mesmo, daddy. Vai logo com isso que eu também tenho mais o que fazer. – Deidara diz, limpando uma lágrima de seu olho. A palavra em inglês faz Naruto rir mais ainda e mais alto e Sakura imediatamente chuta as costas dos dois. Deidara a empurra de volta.


— Mais o que fazer significa que você vai ficar mais uma hora coladinho com o Sasori, isso sim! – Sakura zomba, abraçando a si mesma de costas simulando um beijo. Deidara mostra a língua pra ela enquanto Naruto vasculha as plantas, em busca da minha pista. 


— Aquela velha rabugenta não me atrai em nada! Muito pelo contrário, passamos horas e mais horas brigando e nunca chegamos a um consenso... – Deidara resmunga de volta.


— Qual a discussão da vez? – Sakura.


— Eu quero que a galera aprenda fotografia também, mas aquela velha coroca tem que insistir em pintar e moldar aquelas breguices dele... – Deidara vasculha o vaso de uma samambaia, ajudando Naruto. Sakura ri.


— O Sasori parece uma idosa mesmo... – Ela diz. — Quero só ver como vai ser quando vocês namorarem! Seria um casal interessan...


— Casal é o caralho! Eu sou um artista muito ocupado e bonito pra ficar de casinho com qualquer um, você melhor do que ninguém deveria saber disso! – Ele aponta pra ela, que apenas revira os olhos - Nunca que eu sentiria alguma coisa por aquele nojento sem coração... Pra começar, ele não sabe o significado da verdadeira arte! A arte é...


— Explosão! Nós sabemos. – Sakura zomba, o imitando.


— E quem é você pra palpitar sobre a minha vida amorosa? – Ele aponta o dedo para Sakura, a acusando – Não se esqueça de que foi você quem ficou anos apaixonada pelo pior Uchiha de todos e no fim nós nem sabemos o que rolou entre vocês dois! 


Minha espinha gela.


— Nada, já cansei de falar... – Sakura suspira, demonstrando preguiça daquela conversa. Nem eu mesmo entendia por que todos tinham essa fixação pra descobrir se estávamos juntos ou não.


— Olha só! Encontrei! – Ouço a voz de Naruto e viro meu olhar pra ele, que desamarrava a pulseira do arco do cupido. Finalmente.


— É uma pulseira da festa na praça central... – Sakura diz o óbvio.


— Ai meu deus, é lá que o velho tarado e casado vai te comer! – Deidara grita. Não consigo conter uma sobrancelha arqueada, que conversa era aquela afinal?


— Você é mesmo um imbecil! – Sakura diz, com as duas mãos na cintura.


— Ele quer me encontrar lá... Isso tá parecendo coisa de filme. – Naruto diz.


— Ai meu deus! Quem será que é? Tenho certeza que é o Gaara ou o Shino! — Sakura dá pulinhos entusiasmados. – Se for o Gaara, eu vou amar! 


Não emito nenhum som, mas por dentro estou gargalhando mais alto do que nunca. Ela sabe, e está fingindo que não.


— Que Gaara o que, garota!? Ele é ex da Ino, é hetero! Esqueceu? – Deidara diz – Eu comprovei dando em cima dele uma vez. Resistiu à mim, é hetero! Pode confiar.


Eu e Sakura reviramos os olhos ao mesmo tempo enquanto Naruto entorta o rosto.


— Pois eu não ficaria com nenhum desses três. Na verdade, vai ser a segunda vez que eu beijo um garoto... – Naruto coça a nuca, envergonhado. Penso não ter nenhum problema com isso, até por que, seria a minha primeira vez. Só não seria o meu primeiro beijo por causa de Sakura, mas com outro garoto, seria a primeira vez.


— Relaxe... Vai dar tudo certo, eu prometo! – Sakura o abraça. – Talvez seja alguém até melhor do que o esperado, como foi no meu caso! – Ela aponta para si mesma. Fico imaginando o que diabos ela quer dizer com aquilo.


— Andei pensando... Tenho duas teorias! – Naruto exclama. Sakura e Deidara o encaram, céticos.


— Devem ser duas burrices sem tamanho... – Deidara tira um cigarro do maço e quando está prestes a acender o isqueiro, Sakura dá um tapa em sua mão que faz tudo cair.


— Ei! – Deidara reclama – Pode tratar de pegar tudo agora mesmo! 


— Você não vai fumar na estufa, retardado! – Ela o fulmina com o olhar. Ambos iniciam uma discussão pequena.


— Dá pra vocês me escutarem? Estão interrompendo o meu raciocínio! Dattebayo... – Naruto grita tão alto que até eu, que estou longe, me incomodo. Deidara e Sakura voltam a prestar atenção e ele se rende, abaixando pra pegar suas coisas. – Muito bem, minha primeira teoria é que seja o Sasori! 


– O QUÊ? – Deidara grita, possesso. Quando percebe que havia se exaltado demais, ele rapidamente se recompõe – Er, quer dizer, por que? 


Sakura dá um sorriso de lado. Claramente está pensando o mesmo que eu — como sempre, aliás.


— Bom... Sempre achei que ele poderia ser como a gente. Ele é todo caladão, mas às vezes pode ser que por trás daquele silêncio todo, tenha algo interessante... – Naruto diz.


— Mas é claro que não! E mesmo se for verdade, como isso poderia significar que ele teria algo com você? – Deidara diz, provavelmente mais alto do que calculado em sua mente. Está mais exaltado do que o normal, isso considerando o fato de que ele vive aos berros.


Observo Naruto e Sakura, os dois espremendo a boca para dentro e trocando olhares cúmplices, se segurando para não rir. 


— O quê? — Deidara pergunta, ainda gritando, o que foi a gota d'água para que seus dois amigos começassem a rir. Me senti tentado a rir também daquela idiotice. – Qual é a graça, idiotas?


— Nenhuma! Nenhuma mesmo... – Sakura diz entre risadas e levantando os dois braços, mostrando as palmas das mãos em rendição. 


— Aiai... Bom, a minha verdadeira primeira opção é um dos Uchihas também, assim como a Sakura–chan! – Naruto diz lançando uma piscadela para Sakura, possivelmente falando de mim. Ela apenas faz uma expressão torta e cerra os cílios – Nesse caso, o Obito.


— Fico impressionado em como o seu grau de burrice ultrapassa lógica – Deidara bufa – Ele é apaixonado pela Rin! 


— E daí? O "B" de "LGBT" é de "bisteca" agora? Ele pode muito bem ser bissexual! — Sakura esbraveja — Cadê a inclusão e visibilidade que o senhor fundador do "movimento sexualidade livre" tanto prega? – Sakura diz. Quando está realmente irritada, ela me lembra a mim mesmo.


— Tá bom! Tá bom! Já entendi! – Deidara se defende, totalmente envergonhado. Sakura sorri como uma vencedora – Vamos! Vamos! Segunda opção agora.


— Bom, a segunda opção seria o sobrancelhudo, com certeza.


— É bem provável... – Deidara coça o queixo, analisando a ideia. 


— Tsc... – Sakura estala a língua, chamando a atenção de todos. – O Lee não faz o estilo misterioso e que conversaria com você da maneira que esse cara está fazendo, quando ele gosta de alguém ele pula em cima da pessoa e a esgana até ela entender os sentimentos dele por ela. Não sei se vocês se lembram...


— Ah, é mesmo! – Naruto se lembra de algum episódio em sua mente que creio ser o mesmo do qual estou me lembrando – Lembra do sexto ano, quando jogamos verdade ou desafio e ele pagou vintão pra todo mundo que parasse a garrafa em algum de vocês dois só pra desafiarem vocês a darem selinhos? – Ele ri, confirmo que me lembrei da mesma coisa. – Nesse dia, o Lee foi feliz de verdade! 


— Quem foi feliz fui eu, faturei a maior grana! – Deidara zomba.


Sakura apenas se rende, rindo em concordância. 


— Por que paramos de brincar de verdade ou desafio? Era super divertido! – Naruto ri. 


— Por que é extremamente infantil e idiota! – Deidara.


— Se bem que, nas circunstâncias atuais... Acho que estamos precisando. – Sakura diz, apoiando a cabeça com os dois braços e espreguiçando-se. Ela se dirige até a porta da estufa, pronta para sair. Ambos os seguem.


— Na época, com certeza você teria ficado feliz de beijar o Teme! Queria saber qual seria sua reação hoje em dia... – Naruto exclama. Não consigo me deixar de remexer desconfortável mente atrás das plantas e acabo derrubando um passarinho de enfeite.


Deidara, que tirava o isqueiro do bolso, vira-se para trás. Naruto, que analisava a pulseira que lhe dei, para de caminhar junto ao amigo. Sakura apenas para ao perceber que seus amigos também pararam.


— Ouviram alguma coisa? – Naruto pergunta, vasculhando o local com os olhos.


— Sim... – Deidara arqueia uma sobrancelha. 


Passam-se alguns minutos e todos estamos em silêncio. Quando repentinamente, sou salvo pela cavalaria: 


— Vocês são paranoicos! – Minha salvadora se pronúncia – Um acha que está sendo perseguido pelo admirador secreto e o outro acha e quer estar sendo perseguido pelo "inimigo mortal". – Ela faz aspas para se referir à Sasori, o que deixa Deidara furioso. 


Ambos voltam a caminhar com Deidara e Sakura mais à frente, trocando socos e pontapés. Naruto caminha um tanto mais atrás e um pouco mais devagar que os amigos. Antes de realmente sair, ele dá outra olhada para trás, procurando alguém. Me procurando. Sakura o puxa, dando um mata-leão nele e berrando algo sobre ele ser paranoico e ela estar atrasada. 


Como sempre, me salvando. 


{...}



Onde você está, Sasuke?


Recebo uma mensagem de Itachi, completamente irritado pela minha demora.


Desculpe, tive um acidente no banheiro, estou passando um pouco mal. Já estou saindo.


Digito e aperto em "enviar mensagem". Itachi era a única pessoa que me levava a abrir o WhatsApp e responder, era só por causa dele que eu não havia desinstalado o aplicativo ainda. A outra única pessoa que eu respondia, estava em outro aplicativo.


Abri o "No Sigilo" e o esperei carregar. Já aberto, no canto direito de cima da tela, notificava-se uma nova mensagem: 


Encontrei a sua pulseira! Quer dizer então que finalmente vou te conhecer nessa festa?


Bloqueio a tela e sigo pelo corredor, com um sorrisinho idiota e deprimente. Lembro-me excepcionalmente de como era a minha rotina antes de começar a conversar com ele: Só ia em festas e outros eventos semelhantes por causa de Itachi, que ficava feliz ao me ver saindo. 


Quando não me restava força alguma para fazer esse sacrifício por ele, tomava três ou quatro pílulas e dormia de sexta pra domingo, acordando na segunda-feira com muita dificuldade e relutância. 


No meio da semana, graças ao meu cérebro altamente funcional, eu mantinha minha média como um dos melhores alunos da turma sem fazer muito esforço. Ria de poucas coisas que Suigetsu e Juugo diziam e me irritava em questão de segundos com todas as vezes que Karin abria a boca para me importunar.


Neji também era um bom amigo e somos tão parecidos que o considero um segundo irmão, talvez pudesse até ser um irmão gêmeo de personalidade, só tínhamos duas diferenças: a primeira era que ele era hetero; a segunda, é que ele não era deprimido, apesar de ter ficado um pouco depois do término com Sakura. 


É claro, também havia Sakura. Como começar a explicar Sakura? 


Nunca havia dado bola pra ela, a achava uma nerd desinteressante, iludida, mimada e com péssimo gosto para roupas. Considerava ela apenas mais uma das inúmeras tapadas que corriam atrás de mim sem saber que nenhuma delas jamais teria chance. Nenhuma garota do mundo jamais teria chance, visto que eu já havia testado e havia descoberto que não há a menor possibilidade de eu me relacionar com alguém do sexo oposto. Sakura me ajudou com isso, e serei eternamente grato.


Passando pelo pátio que tinha uma parede de vidro, consigo ver meu primo Shisui sentado em um banco com uma garota de cabelos cor-de-abóbora e curtos sentada em seu colo. Ela usava a saia da escola e óculos com uma armação amarela gritante, também reparo em seus lindos sapatos azul-escuro de saltinho. 


Shisui mantinha uma mão na nuca da menina e a outra mão dentro da saia dela, enquanto ela por sua vez tinha as duas mãos na nuca dele e ficava olhando para todos os lados procurando uma testemunha indesejada, dando risadas muito esquisitas com a boca formando um "O". 


Meu primo tinha gostos variáveis devido as trilhões de garotas que eu já tinha visto saindo do quarto dele: meninas extremamente magricelas, altas, loiras, com a pele branca como papel sulfite e lábios cor-de-rosa; com meninas de cabelos coloridos (azuis, roxos, verdes e até mesmo todas as cores juntas), que usavam roupas de couro preto até no calor, de maquiagem marcante e cara de assassinas; com meninas de pele escura, longos cabelos cheios de cachos, roupas leves de seda, bocas carnudas e sorriso branco brilhante; e também, meninas como aquela, baixinhas, rechonchudas, de cabelo curto e óculos chamativos. 


Todas eram completamente diferentes umas das outras, o que me fazia pensar como ele gostava de mulheres no geral, sem tirar nem pôr, sem frescuras e sem exigências sexistas. Admirava isso nele, queria ser como ele, queria ser... ser normal.


Não queria ter um motivo a mais para Itachi ou o resto da minha família (principalmente nossos avós) questionarem minha sanidade mental. Não queria dar um motivo para ser o estopim, que finalmente fizesse Madara bater o martelo e decretar que eu fosse mandado para uma clínica psiquiátrica de tratamento não intensivo, não queria ser uma aberração. Não queria, mas era.


Desço a escadaria e vejo de longe meu irmão encostado em seu carro. Em seu carro, e não no carro de Madara. Madara tinha seis carros diferentes e cada um de nós quatro (Obito, Shisui, eu e Itachi) tínhamos um carro, mas Itachi era o único que tinha um carro e uma moto. Ele gostava muito mais da moto, então provavelmente estava de carro apenas para me levar.  


Eu raramente usava o meu, visto que quase nunca ia sozinho para algum lugar e estava sempre com um deles me levando para onde quer que fosse – ou com todos.


O complexo de frente da escola estava quase vazio e tinha um ou outro grupinho de alunos sentados no chão ou tomando sorvete enquanto riam alto. Passo por todos, ignorando alguns olhares e comentários e indo de encontro a Itachi. Olha lá o revoltadinho, diziam eles.


Ele tem o cabelo preso em um bolinho com alguns fiapos soltos, uma mão num bolso da calça enquanto a outra segurava um livro e, é claro, a merda de um cigarro pendendo na boca, o qual eu preferiria que ele não fizesse. 


Ele nota a minha aproximação e fecha rapidamente o livro, dando mais uma tragada no cigarro e apagando-o em um recipiente de metal. Ao invés de jogar aquele rolo letal de nicotina no chão que terminaria de mata-lo mais rápido, ele o guarda em um tubinho de plástico — ou vidro, não consigo identificar direito — e enfia no bolso. Rio pelo nariz. 


— Sabe que não deveria fumar. – Digo.


— Como está? Se sente melhor? – Ele me ignora. Bufo em resposta.


— Estou bem. – O respondo apenas para despista-lo e o impedir de prosseguir com o interrogatório – Onde estão...? 


Não sei direito como dizer. “Onde está o resto de nossa família?” Era o que eu deveria falar, mas não sei me expressar. Tenho a mesma capacidade comunicativa de uma lesma. 


Felizmente, ele sabe traduzir todas as bostas que eu digo.


— Madara teve um compromisso urgente, então pediu pro chofer trazer o meu carro. – Ele faz sinal para que entremos, eu entro e me sento no banco do passageiro e ele no banco do motorista, para só então continuar – Obito resolveu ir embora andando, para poder levar aquela menina que ele gosta pra casa. Shisui está... ocupado. Disse que vai para casa mais tarde. – Não consigo deixar de escapar uma risadinha anasalada quando ouço a palavra "ocupado". – Qual é a graça? – Ele dá partida no carro.


— Eu o vi com uma ruiva rechonchuda lá em cima, não precisa ter vergonha de me contar. – Digo. Entramos na avenida e o carro inicia o caminho para nossa casa. Ligo o rádio, que começa a tocar T.N.T, do AC/DC. 


Itachi sorri de lado e aumenta o som, enquanto dirige. Ele parece distante. Acompanho a playlist de cinquenta músicas junto a ele, que já havíamos ouvido tocar mais de mil vezes. Nunca estávamos com Obito, Madara ou Shisui nesses momentos: éramos só nós, a playlist era só nossa. 


Acompanho a playlist junto a ele: 


Wish You Were Here — Pink Floyd;

Walk This Way — Aerosmith;

Alive — Pearl Jam;

Rock And Roll All Nite — Kiss;

Wonderwall — Oasis.


Quando Rock You Like a Hurricane, do Scorpions começa, eu percebo que não estamos mais na estrada que levaria até o nosso quarteirão e que ele está me levando pra outro lugar, mas não digo nada. Itachi volta e meia aproveitava os momentos que tínhamos juntos e me levava pra algum lugar, e eu jamais protestava.


Depois de dez ou quinze minutos, chegamos à praia. 


— Itachi, estamos de tênis. – Digo, soltando o cinto, enquanto ele desligava o rádio e tirava o blazer. Ele ri pelo nariz.


— Não estou te pedindo pra nadar, apenas sente-se ali. – Saímos do carro e ele joga a chave do mesmo pra mim, apontando com a cabeça para um banco que ficava depois da ciclovia e pouco antes de onde começava a areia. – Irei comprar sorvete.


Ele sai e faço o que ele manda. Vou até o banco e me sento, lembrando-me da última vez em que ele havia me levado ali: No primeiro dia de aula desse ano. Lembro de ter perguntado pra ele como estava se sentindo, e ele me assegurou de que estava melhor do que nunca. No dia seguinte, fiquei sabendo da verdade. 


Nossos avós paternos e nossos tios Naori e Hikaku, pais de Obito, haviam ido nos visitar. Estavam todos conversando na sala quando eu estava prestes a destrancar a porta.


Lembro-me que estávamos todos na casa de Hidan e Deidara, bebendo e fazendo merda, e quando as coisas começaram a me irritar eu pedi para Juugo me levar para casa. Itachi, Obito e Shisui protestaram, mas eu disse que ficaria bem e que apenas estava cansado daquela música irritante e daquelas conversas superficiais. Além do que, Konan havia levado Tenten, que era a última pessoa que eu queria ver no momento.


Quando levantei minha mão direita para digitar o código, ouvi a voz de nossa avó, Keiko. 


— Tem certeza que não seria melhor para ele se fosse para uma clínica, Madara? – Hikaku disse. Parei no mesmo momento e abaixei as mãos. Dei a volta pela casa em direção ao jardim lateral chinês, que era separado da sala apenas por uma gigante porta de vidro, que no momento estava aberta. Me escondi debaixo da ponte, ao lado do lago e algumas das tartarugas e dos peixes se assustaram com a minha presença. Me preparei para ouvir o resto da conversa.


— Ele está indo bem. Agora mesmo está em uma festa com os meninos, talvez esteja se divertindo. – Reconheço a voz de tia Naori. 


— Bobagem! Sasuke não se diverte desde que seus pais foram assassinados, até mesmo um cego vê! – Meu avô protesta – Esse menino irá acabar se matando se não fizermos algo! 


— Papai, não diga isso! – Tia Naori. 


— Seu pai está apenas sendo realista, Naori. – Hikaku intervém – Sasuke toma remédios pra passar o final de semana dormindo, não fala com ninguém direito, repele toques, quase não ri e não tem planos para o futuro, não quer ter um futuro. Apenas a terapia não está funcionando.


— Está funcionando sim, aos poucos, mas está! Tentem entender... – Tia Naori clama. 


— Está se iludindo, filha. – Minha avó entra na conversa – "Aos poucos" não é do que precisamos. Talvez a paciência não seja a solução, talvez seja necessário sermos práticos. – Minha vó se levanta e caminha um pouco, fazendo a bengala bater no chão, a voz dela vai se aproximando então presumo que esteja observando o jardim. – E a verdade é que meu neto tem sido mais infeliz a cada dia que se passa, e tenho medo de que ele tente fazer algo... – Agora, a voz de minha avó carrega tristeza.


— Mamãe, calma... – Tia Naori se levanta e vai até minha avó, afaga-la. Sinto uma dor crescente no peito, e quando percebo, já estou chorando.


— Pare de frescura, mulher! O garoto vai ficar bem! – Meu avô discorda de si mesmo.

Ouço Madara bufar e tomar um gole de seu chá. 


— Infelizmente, não é tão simples. Todos sabem da doença de Itachi – Ele diz mais como uma afirmação e não uma pergunta, todos prestam atenção – e já falei com os médicos dele sobre isso. Tsunade afirma que Itachi não pode sofrer baques emocionais muito fortes ou sua doença, que já está em estado bem crítico, se agravará. 


Mordo o pulso pra não fazer barulho enquanto choro de soluçar. Até aquele momento, não sabia que Itachi havia piorado novamente. 


— O que isso quer dizer? – Minha tia pergunta, com medo em sua voz.


— Como acha que Itachi vai se sentir se o irmão mais novo dele for internado, Naori? – Madara diz aumentando o tom de sua voz grave, repreendendo a irmã mais nova. – Quer mesmo passar esse ano inteiro sem saber se o seu sobrinho vai estar vivo no dia seguinte, assim como no ano retrasado? 


— E você diz isso pra mim? Não fale nesse tom comigo! – Minha tia grita. 


— O que estou dizendo é que consideremos os riscos, estou concordando com você! – Madara responde, pacientemente, e vira-se para os outros membros da família – Sasuke não tem tentado suicídio, está comendo muito melhor e tenho até ouvido boatos de um envolvimento dele com uma garota da escola.


— Uma namoradinha? Oh meu deus! – Minha avó diz, com muita alegria em sua voz – E como ela é? Isso é maravilhoso... Isso muda tudo! 


Meu tio suspira pesadamente.


— Quem ela é pouco importa, mamãe. O que importa é o que isso significa... – Ele toma outro gole de seu chá – E o que significa, é que devemos confiar no tempo. Não temos escolha.


Ninguém protesta e eles mudam de assunto. Ligo para Juugo e peço pra que ele me busque e me leve de volta para a festa. 


— Tome! – A voz de Itachi me tira de meus pensamentos – De chocolate com granulado preto e cobertura de caramelo pra você...


— E de morango pra você. – Sorrio leve, enquanto ele me entrega o sorvete e se senta ao meu lado, olhando pra praia. – Como sempre. 


— Se lembra de quando viemos com nossos pais à praia? – Ele pergunta, eu apenas assinto e ele continua – Você sempre teve medo do mar, era um bebê chorão! 


Dou risada sem mostrar os dentes. 


— Agora temos que vir com Obito e nos esconder toda vez que ele mostra a bunda para os banhistas. Típico... – Reviro os olhos. Itachi começa a gargalhar e eu involuntariamente começo também.


— Sasuke... – Ele começa, já com outro tom de voz. Eu ergo os olhos pra ele, prestando atenção. – Ouvi dizer que Shisui não é o único de nós que tem saído com meninas. 


Engulo em seco e desvio os olhos, de volta para a praia. 


— Não entendi, Obito finalmente conquistou a Rin? – Digo com indiferença na voz. 


— Sabe que pode me contar qualquer coisa. – Ele não cai no meu truque. Ficamos em silêncio um bom tempo enquanto minha cabeça está a milhão, imaginando como conseguirei sair daquela enrascada.


Sakura e eu não tínhamos nada, isso era óbvio pra mim e pra ela ainda mais, pois já havia seguido em frente desde o acampamento de verão. Ela era minha amiga, minha única amiga mulher e uma das únicas pessoas que eu me sentia bem quando estava por perto. Se ela pudesse ouvir essa conversa, sei bem o que teria me aconselhado a fazer: Confesse a ele, Sasuke. E sorriria, gentilmente, com uma das mãos nos meus ombros e me encarando com as enormes orbes verdes. Ele vai entender, ele te ama! 


E era verdade, ela já havia me dito aquelas palavras uma vez, mas ela não sabia sobre a doença de Itachi, não sabia que talvez, se eu o contasse, fosse um baque pra ele. Não sabia que por eu ser diferente, poderia matar meu irmão de desgosto.


Olhei pra ele novamente, ambos os braços apoiados no banco, um sorrisinho leve no rosto e os olhos negros me fitando. Quando percebeu que eu não iria dizer nada, ele continuou: 


— Sasuke, você está saindo com a Sakura, não está? – Pergunta, pacientemente. Os olhos cheios de esperança, a respiração acelerada, como se implorasse pra ter uma resposta.


Desvio o olhar para a praia e decido não responder nada. Ele respira fundo, como se puxasse todo o ar da praia ao nosso redor e devolvesse. Ele também desvia os olhos de mim e encara o mar. 


— Você gosta dela? – Ele pergunta com um pouco de tristeza na voz, provavelmente impaciente por eu o estar ignorando. Penso no que posso dizer, no que é melhor a se fazer. 


— Mais ou menos. – Digo baixo, como se o tom pudesse diminuir a mentira. Ele apenas assente, e não diz mais nada o caminho de volta inteiro. 



🌪️🌪️🌪️🌪️🌪️



GENTE, MIL PERDÕES!!!! 


Sei que fiquei muuuuuuito tempo sem aparecer por aqui, pra compensar, escrevi esse cap enorme e já estou escrevendo o próximo enorme também! (com direito à festa, brigas e yaoi, me aguardem!) Demorei muito pois minha faculdade voltou com tudo e também estou fazendo muitos cursos, incluindo de idiomas, além de estar lendo demais também. 


Queria perguntar pra vcs se vcs pessoalmente só gostam dos caps de Itasaku ou se estão curtindo os caps de Sasodei e Narusasu, me contem por favor que aí eu já sei se diminuo ou aumento a quantidade! 


Outra coisa, vcs devem ter notado que eu enrolo demais e que vcs esperam entrar aqui e encontrar uma fanfic e não um livro ou uma série KKKKKKK queria saber o que acham disso também, estou tentando diminuir a minha tendência a enrolações! Enfim, obrigada pela paciência de vcs e até a próxima meus amores! 🥰



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