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História Darkness - Capítulo 2


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Capítulo 2 - The Call of the King


    Tark foi embora e não me restava mais nada para fazer. Resolvi tomar um remédio para dormir. Deixei as janelas do quarto abertas para a brisa fria da noite entrar. A luz do luar iluminava partes do cômodo. Deitei e esperei o sono vir.

    Uma coisa é certa: não consegui parar de pensar na história que a Eva contou. Eu amo viajar em teorias sobre mundos paralelos e os mistérios que os habitam. Já ouvi histórias de pessoas que se perdem em outras dimensões sem nem saber como foram parar lá. Quando fico sozinho até tenho um pouco de medo.

    Quando finalmente peguei no sono, não durou muito. De olhos fechados e tudo, me senti um tanto sufocado. Não conseguia me mexer e um frio congelante tocou minha pele. Estava dentro de um pesadelo, mas ainda sentia meu corpo deitado na cama. Meus olhos viam imagens embaralhadas e meus ouvidos eram invadidos por ruídos ensurdecedores.

    Então, algo sinistro aconteceu. Tudo ficou um breu e o barulho cessou. Senti algo se aproximando de mim. Como se uma presença estivesse em meu quarto. Ouvi um sussurro ao pé do ouvido direito.

    — Caos. — Uma voz penetrante com um suspiro frio.

    Neste momento, eu finalmente consegui abrir os olhos. Puxei o ar com toda força e senti meu peito gelar. Estava todo suado, com calafrios.

    Eram três da manhã. O sono morreu.

    Tirei toda a minha roupa, que estava encharcada, e sentei na cama. Tentei respirar fundo para acalmar a respiração ofegante. Senti meu coração batendo. Era como ter emergido na superfície após um mergulho longo em um lago profundo e glacial.

    Depois de encarar o nada por algum tempo, me levantei e fui até a janela mais próxima. Estava uma madrugada clara, com um céu limpo e estrelado. Do alto do terceiro andar, dava para ver a aragem batendo nos altos das árvores. Essa cena se tornou algo muito tranquilizador para mim. As folhas, negras com a escuridão da madrugada, dançando em um ritmo hipnotizante. A janela era bem grande, então senti meu corpo inteiro ser secado pelo ar. Pode parecer estranho, mas eu amo sentir o frio das estações frias.

    Dali também dava para ver os outros casarões, relativamente distantes uns dos outros — os quintais eram enormes —, dormindo silenciosamente. Arquitetura pomposa que lembra uma mistura de vitoriana com gótica. E uma alarmante falta de cor. Quando olhei para baixo, no jardim da minha casa, vi alguém.

    Parecia um rapaz. Olhando diretamente para mim e meu corpo nu exposto. Achei intrigante, nunca tive muito pudor. Ele levantou a mão direita em um gesto singelo de cumprimento. Fiz o mesmo.

    Resolvi por uma calça de moletom rapidamente e descer até ele. A região sempre foi muito segura e o maior risco de que já se ouvira falar é o de morrer de tédio. Muito provavelmente, era alguém insone e solitário, como eu. E, é claro, como eu andava desesperado por uma distração, não me demorei.

    Saí da casa descalço mesmo e caminhei calmamente pelo gramado gelado com apenas uma calça de proteção, ao som do cricrilar dos grilos. Ao me aproximar, comecei a reconhecer o menino. Ele estava de costas para mim, olhando para as estrelas, mas eu tinha certeza de que era o Salem, um vizinho que também era da minha sala na escola, antes de eu sair. Ele trajava um pijama escuro e tinha cabelos pretos.

    — Salem?

    — Black — respondeu, sem desviar o olhar do céu.

    — O que faz aqui?

    — Hum. Eu não durmo de verdade. Ficar em casa é meio chato. E você, o que estava fazendo?

    — Eu? Eu estava…

    — Nu — interrompeu ele, virando-se para mim.

    — É…

    — Perdão, não tive a intenção de invadir sua privacidade, você me pegou de surpresa.

    — Eu te peguei de surpresa? O que você está fazendo no meu jardim?

    — Nada. Só caminhando mesmo. Gosto de andar no meio das casas. Elas são tão grandes. Me sinto protegido por gigantes.

    Salem é meio viajado. Não que eu não seja também, mas é que ele não se importa em dizer tudo o que pensa em voz alta. É uma qualidade positiva, na minha opinião.

    — Sei… Eu também não tenho dormido ultimamente. Pelo menos não de noite.

    — Quer vir comigo?

    — Aonde exatamente?

    Ele sorriu.

    — Lugar nenhum. Só caminhar por aí.

    A gente foi, em passos lentos, perambulando pelos gramados alheios, dando voltas pelas casas. Salem me contava sobre seus pensamentos peculiares e nem se importava se eu não dissesse nada. Fiquei à vontade o suficiente para contar sobre meu pesadelo.

    — Eu tive o pesadelo mais estranho… Não consigo me lembrar direito do que era, só de uma coisa. Uma voz. Não conseguia me mexer, nem abrir os olhos. Um sussurro demoníaco — vi ele mexer o lábio em um sorriso discreto ao ouvir esta palavra — disse “Caos!” no meu ouvido e aí eu acordei.

    — Interessante.

    — Você já passou por algo do tipo?

    — Síndrome da bruxa? Não.

    — O quê?

    — É um nome popular para paralisia do sono. Eu prefiro usar termos mais divertidos.

    — Bruxa! — me empolguei, de repente. — Você já ouviu falar em um conto chamado “O Rei das Trevas”?

    — Não. Quer me contar?

    Tentei me lembrar o máximo possível e recontei a história da Eva a ele. Conhecendo Salem, ele iria, no mínimo, soltar algum pensamento curioso. Ele ouviu tudo enquanto escaneava os arredores e, principalmente, o céu, de forma casual, como um fazendeiro admirando sua propriedade. Quando terminei, ele ficou um momento pensativo e disse:

— Não fique pensando nisso.

— Como assim??

— Eu gosto de fantasia, Black. Mas eu sei bem separar as coisas. Se você está se sentindo perturbado com algo, deve procurar, antes de tudo, explicações lógicas. Pelo que sei, você tem passado muito tempo sozinho em casa…

— Eu sei, eu gosto de ficar sozinho. Mas o Tark tem vindo me visitar muito ultimamente.

— Tark. — Salem respirou fundo antes de continuar — Ele não tem ido à aula ultimamente. Quase não o vejo, mas vi que está diferente.

— Diferente?

— Não notou? — Olhou para mim, surpreso. — Nas minhas voltas noturnas, acabo vendo várias coisas que não faço questão. Vi que vocês têm saído algumas noites pelo bosque. Mas também vi o Tark se encontrando com estranhos. Em horários estranhos. Só o vejo à noite agora. Ele está até mais branco. Nas últimas vezes que esteve na escola não falou um A com ninguém.

— Acho que notei, sim.

Demos mais uma volta até retornarmos até meu jardim. Me despedi dele e entrei. Meus pés estavam imundos, então resolvi tomar um banho. A hora passou voando e, do nada, já eram cinco e meia. Fiz um lanche rápido com um pudim que estava na geladeira. O sono de verdade finalmente começou a bater. Fechei as cortinas, deixei o quarto completamente escuro e fui dormir.

Sonhei com algo terrível. Estava perdido em um deserto de areia cinzenta repleto de árvores mortas e escuridão. Era tudo plano e parecia não ter fim. Tive a sensação de estar preso ali para sempre. E aí, algo começou a me perseguir, mas estava escuro demais para ver. Senti um tremor vindo junto com o perseguidor e ouvi um ruído, que parecia um milhão de vozes, irromper de repente. Quando aquilo me alcançou, acordei, abri os olhos imediatamente e vi o teto do meu quarto. Pensando estar a salvo, dei um pulo ao ouvir um berro diabólico vindo da porta aberta do meu quarto.

— Caaaaaaooossss!

Parecia que alguma coisa tinha acabado de sair do quarto e estava correndo escada abaixo, deixando, de rastro, apenas um grito longínquo para trás. Arfante, suado e taquicardíaco, fiquei petrificado em minha cama, apavorado demais para sequer sair do quarto.



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