1. Spirit Fanfics >
  2. Darkness >
  3. A Dreadful Night

História Darkness - Capítulo 3


Escrita por:


Capítulo 3 - A Dreadful Night


    Pensei que, apesar de difícil, poderia lidar com a solidão de morar sozinho num casarão. Entretanto, a situação complicou quando comecei a duvidar que estava mesmo sozinho. Eram três da tarde, mas eu estava com medo de sair do meu próprio quarto. Abri as cortinas para ver se um pouco de luz afastava o pavor. Neste momento, tive outra recaída e comecei a sentir falta dos meus pais. Especialmente porque minha relação com eles não andava muito boa nos nossos últimos momentos juntos. Eu só queria poder ter consertado as coisas.

    Meu pai, William, era herdeiro da fortuna do meu avô, por isso, dedicava a vida a seu hobby favorito: taxidermia. Nossa casa era decorada com cabeças de cervídeos nas paredes, ursos e felinos pousando em altares e afins. Entrar no seu “Animalium”, como ele chamava o cômodo que usava como oficina de taxidermia, era como entrar em um zoológico congelado. Bizarro para alguns, mas eu sempre gostei.

    Minha mãe, Ceci, era fascinada por relógios e o tempo, no geral. Possuía uma coleção invejável de relógios, livros sobre relógios, livros sobre a ciência do tempo e literatura relacionada ao tempo — meus favoritos, estes dois últimos. Ela poderia liderar uma pesquisa brilhante sobre o assunto em alguma universidade renomada, mas preferia guardar tudo para si. Compreensível, já que foi uma mulher muito reservada.

    Eles eram realmente muito interessantes, os pais mais legais que alguém poderia ter. Contudo, eram obcecados por suas ocupações. Sinto muito por esta ser a realidade, mas eles me ignoravam bastante. Muitas vezes, substituíram carinho e atenção por bens materiais. Apesar disso, nunca deixei de admirá-los.

    Por ser criado de forma tão distante, tive liberdade para ir e vir quando quisesse o tempo todo. O que acabou me metendo em uma enrascada atrás da outra. E a pior e mais estranha delas aconteceu no dia em que eles morreram. Até hoje me pergunto se tudo teria acontecido diferente se eu não estivesse fazendo o que estava fazendo naquela noite.

    No auge dos meus quinze anos, eu havia me transformado em um otário inocente. Me envolvi com um povo nada legal no colégio. Deixei-me seduzir por um rostinho bonito e acabei em rolês estranhos, fazendo uso de substâncias desconhecidas e fumando muita maconha. Eu não fazia ideia do que estava fazendo. Apenas deixei a onda da vida me levar.

    Max, o carinha com quem eu estava ficando, era uns três anos mais velho e me levava junto toda vez que se encontrava com a galerinha do mal. Era um trio mal encarado composto por dois rapazes e uma menina que namorava um deles — não me pergunte qual.

    Um dos caras levou a gente a uma “festa” horrível no meio do mato, na qual todo mundo se entorpecia em volta de uma fogueira e ouvia música ruim. Eu só aturava aquilo tudo por conta das drogas e pelo fato de estar ao lado do Max. Era só mais uma de muitas.

Até a gente sair de lá.

    Nos enfiamos no carro do fulano para ir embora. O veículo estava preenchido por fumaça do lado de dentro. As janelas quase totalmente fechadas. Eu já estava vendo fadas. Não estava nem aí mais.

    Indo a toda na estrada, senti o impacto quando o carro atingiu algo e, de repente, começou a girar. Quando me dei conta, todos estavam aos berros, as portas estavam abertas e o para-brisa todo quebrado. O carro tinha atropelado um cervo.

    Todos estavam razoavelmente bem. Ao menos bem o suficiente para ficarem putos com o motorista. Ele insistia que o bicho entrou na frente do nada. Saímos do carro e vi que alguém estava sangrando um pouco na testa. O carro tinha girado mais ou menos cento e oitenta graus e os faróis iluminavam o cervo ensanguentado no asfalto, ainda se mexendo.

    Enquanto eles não paravam de se xingar, vi um conjunto de sombras saírem da floresta que ladeava a rodovia. Um uivo soou. Todos olharam. Era um bando de lobos pretos. Eles se aproximaram do cervo abatido, o cercaram e começaram a rasgá-lo. Três deles, porém, resolveram que nós éramos mais interessantes. Eles nos encararam e quando percebemos era tarde demais.

    — Para dentro! — alguém gritou.

    Atônito, senti a mão forte do Max me puxar. Os três lobos começaram a vir em nossa direção, o que chamou a atenção dos outros. O motorista levou alguns segundos para religar o motor. Ele fez uma volta desastrada e pisou no acelerador. Olhei para trás e vi a alcateia correndo atrás de nós, fúria nos olhares sedentos. Com sorte, o carro era mais rápido. Não sei como o cara estava dirigindo com o para-brisa todo fodido, eu só fechei os olhos e me escondi nos braços do  Max.

    Quando finalmente cheguei em casa, Max queria entrar, mas disse que queria ficar sozinho. Atravessei o gramado e entrei. A casa estava toda escancarada. O vento soturno da madrugada soprava pelas janelas e portas dos fundos. Dei uma rápida olhada, mas só a quietude da noite se fazia presente. Como estava morto e chapado, resolvi cair na cama e dormir, antes que começasse a ter uma brisa ruim.

    Acordei no dia seguinte com dor de cabeça e nos músculos. Levantei e fui tomar banho. Ao ir para a cozinha, notei que a casa parecia estar do mesmo jeito que a encontrei na madrugada anterior. Estranhei, mas não dei muita bola para isso. Sentei-me ao balcão e comi uns brioches com chá. A cozinha dava para os fundos, então fiquei encarando o dia tentando ser bonito lá fora. O jardim em volta da casa era muito bonito, cheio de árvores, arbustos e com um enorme gramado.

    Usei a porta aberta da cozinha como convite para visitar o quintal. E, ao contemplar a paisagem, meu coração congelou. Senti um nó na garganta, como se tivesse levado um soco forte de alguém. Três metros do chão, pendurados nos galhos de um carvalho gigante e retorcido, vi dois corpos enforcados, meus pais. As cabeças caídas para frente. A pele pálida. Tudo o que eu conhecia, findado ali. Na hora eu não chorei. Eu não me movi. Levou o que pareceu horas para que eu fizesse qualquer coisa. Só consegui fitar os cadáveres em terror.

Deixei os dois lá e entrei cambaleando. Me senti culpado por não conseguir derramar nenhuma lágrima. Estava seco. Meu corpo todo doía. Saí da cozinha, adentrei um corredor e, apoiado na parede, não consegui mais andar. Um abismo começou a crescer no meu estômago. Era como se um vórtice repuxasse minhas entranhas. Vomitei no chão, caí e ali fiquei.

Uma tremedeira começou a tomar conta. Estava terrivelmente difícil respirar. Nada parecia confortável. Os músculos da face contraíam-se involuntariamente. Estava sem forças para me levantar, minhas pálpebras pesaram e acabei desfalecendo.

Acordei horas depois, já de noite. A casa estava escura e lúgubre. Ouvi um barulho de patas batendo na madeira do chão. Ainda deitado, olhei para cima e vi, do outro lado do corredor, a silhueta do que parecia ser um lobo. Algo brilhava em seu pescoço. Ele rosnou e seguiu em frente, sumiu de vista. Levantei e dei passos aflitos até o local onde ele entrou. Dei uma espiada e não vi nada no hall.

— Black — chamou uma voz grave, com um eco que ressoava nas paredes da casa.

Tomei um susto tremendo e comecei a arfar. Era a voz do meu pai. E vinha do Animalium. Fui direto para lá e só o que encontrei foi um monte de estátuas de animais me encarando. Mas uma em especial me chamou atenção. O lobo. Ele sempre esteve lá, desde que me lembro. Mesmo assim, de alguma forma, era o mesmo lobo que acabara de ver. Pelagem negra, de olhar feroz e presas à mostra, como se estivesse prestes a atacar. Em seu pescoço, carregava um cordão com um relógio de bolso dourado. Não se mexia, mas a voz prorrompeu o ar, alta e penetrante:

— Sinto muito.

Ainda tremendo e sem saber o que pensar, me aproximei lentamente. O lobo permaneceu estático como sempre esteve. Ao chegar perto, toquei seu focinho, um tanto receoso. Escorreguei a mão até as orelhas e depois o pescoço, sentindo o pelo macio. Ao examinar de perto, tudo o que eu pude pensar foi em como meu pai fizera um trabalho tão maravilhoso. Meus olhos encharcaram e as lágrimas dispararam subitamente. Meus dedos chegaram na corrente e a segui até chegar ao relógio. Não abri, apenas admirei os detalhes da tampa.

Não sei o que houve. Passei horas sentado em um divã verde-escuro no Animalium, encarando o lobo, esperando por algo, qualquer coisa. Nada aconteceu. Ao sair, me certifiquei de deixar as portas do cômodo trancadas. Fui para a biblioteca da mamãe, olhei para todas aquelas estantes e contemplei todos os relógios deslumbrantes que continuavam a funcionar, como se nada tivesse acontecido. Recostei-me em uma poltrona confortável e permaneci ali, inerte.

Aquele dia se repete constantemente na minha cabeça, por isso, aproveito todas as oportunidades que encontro para tirá-lo dela. Aquela foi a pior noite da minha vida. Dormir se tornou antinatural. A casa parecia muito maior e mais vazia. Me perguntei se eu só nunca havia me sentido tão sozinho antes ou se apenas ficou claro, a partir dali, o quanto eu sempre fui sozinho.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...