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História Darkness - Capítulo 6


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Capítulo 6 - Let Him In


    Antes de ver qualquer sinal do nascer do sol, entrei em casa, tranquei todas as portas e janelas e fui tomar um banho. Tirar toda aquela imundície do meu corpo foi de grande alívio. Comecei a finalmente conseguir relaxar. Então percebi o quanto estava cansado. O tédio não parecia uma ideia tão ruim assim. Me enxuguei e, sem nem mesmo parar para me vestir, caí direto na cama.

    Meu sono foi tão pesado e denso, que desta vez não sonhei com nada. No máximo, ouvi algo que lembrava uma corrente de ar numa caverna, carregando um sussurro longínquo. Acordei abruptamente com o barulho da campainha. Apenas um ding-dong alto que ecoava na casa toda. Ainda meio grogue, não me lembrei que estava nu e simplesmente desci.

    Os tons de preto e silhuetas espalhados ao redor indicavam que já havia anoitecido. Isto significava que eu havia dormido por pelo menos doze horas seguidas. Apesar disso, me sentia como se não tivesse passado mais que quatro horas na cama. Abri a porta e dei de cara com o rosto descontraído de Salem se transformando radicalmente. Uma expressão de espanto tomou sua face e seu olhar desceu, deixando de me olhar diretamente nos olhos.

    — Salem? — balbuciei sonolento, coçando os olhos.

    Ele estava estático. Olhei para baixo e finalmente vi que estava sem roupas. Involuntariamente, trazia uma leve ereção. Fechei a porta o suficiente para escondê-la e mostrar somente metade do corpo. Talvez assim ele se acalmasse um pouco.

    — Foi mal. Acabei de acordar.

    Ele piscou várias vezes e se enrolou um pouco antes de começar a falar:

    — T-tudo bem… Eu tava dando minhas voltas e… como parece ter gostado da minha companhia anteontem, resolvi passar aqui hoje…

    — Na verdade, foi ótimo você ter vindo. — Abri mais a porta, tomando cuidado para não impressionar o pobre garoto, e fiz um gesto de convite. — Eu preciso de alguém para conversar.

    Hesitando por alguns segundos, Salem, por fim, entrou. Apontei em direção à sala, que era visível dali, e fechei a porta.

    — Sinta-se em casa. Eu já volto.

    Subi as escadas com um certo conforto em tê-lo ali. Salem me caía como uma companhia mais sóbria do que a maioria das pessoas. Ainda que ele fosse só um menino de dezesseis anos, como eu, me passava um ar de segurança naquele momento.

    Após ir ao banheiro e depois vestir uma calça de moletom, voltei rapidamente e o levei até a cozinha. Estava faminto. Abri a geladeira e peguei dois sanduíches prontos.

    — Você quer?

    — Não, obrigado. Já jantei hoje.

    Olhei para o relógio da cozinha e vi que já eram onze da noite. Eu havia dormido muito mais do que imaginava. Peguei uma lata de refrigerante, levei à mesa junto com os dois sanduíches e comecei a comer. Ele não parava de olhar para mim, então se sentou na cadeira em frente.

    — O que aconteceu com você? — ele perguntou. Olhei sem entender como ele poderia concluir que algo havia acontecido. — Seu braço… sua barriga.

    Claro, aquela marca preta ainda estava lá, mesmo depois do banho. Agora, sem toda sujeira, ela parecia mais com uma tatuagem. E a barriga, bem, nem tinha notado, mas havia sofrido uma contusão, estava roxa.

    — É sobre isso o que eu queria conversar. — Ele balançou a cabeça em entendimento. — Ontem aconteceram algumas coisas… E eu preciso que você mantenha a mente aberta para o que vou dizer.

    — Claro! Se tem uma coisa que eu sei fazer é manter minha mente aberta.

    Expliquei que poderia parecer irracional no primeiro momento, mas que ele deveria me ouvir atentamente. Falei sobre o outro sonho que tive com a voz. Sobre como Tark apareceu na minha casa. O que houve na casa dele depois, com aquele bando de estranhos. E também a parte mais bizarra: a velha na floresta, a marca que ela havia feito em mim e o homem misterioso que havia me trazido para casa. Tentei detalhar tudo, na medida do possível.

    Salem me encarou por alguns instantes, mas não estava realmente olhando para mim. Era transparente sua cabeça processando toda a informação que eu havia dado. Ele se levantou e pediu para ver meu braço. Examinou bem, deslizando os dedos e até cheirando.

    — Hum… Isso não parece uma tatuagem recente. Não há processo de cicatrização. Mas também não parece ser tinta, nem nada semelhante. Curioso…

    Com a ponta dos dedos em meu peito, ele me afastou da mesa. Estava muito focado. Desceu os dedos até minha barriga e eu a contraí em um reflexo. Mas seu toque era gentil e não fazia mais que cócegas. Encarei o brilho de seus olhos escuros e senti um arrepio me transpassar. Ele rapidamente desviou o olhar, mas não antes de eu sentir uma pontada sutil no meu calção. Molhei meus lábios e engoli. Ele era até bonito, mas pensei que talvez isso não fosse sua praia. Ele era só meio tímido com essas coisas. Para evitar assustá-lo e fazê-lo sair correndo da minha casa, fiquei na minha. Ele terminou sua análise e voltou para sua cadeira.

    — Sua história é completamente irracional. — Ao ouvir isso, comecei a pensar se havia sentido ter contado tudo a ele. — Mas eu acredito que você acredita no que te aconteceu.

    — Eu não sei se acredito…

    — Ótimo! Assim podemos chegar até o fundo disso. Antes de tudo, você fumou alguma coisa, bebeu ou usou droga?

    — Não… não faço mais isso.

    — Nem um medicamento, um comprimido?

    — Tomei um para dormir no dia em que tive o primeiro pesadelo, mas nem funcionou.

    — É… isso poderia explicar o pesadelo, mas só isso. — Ele mordeu os lábios.

    — Não uso nada desde a morte dos meus pais.

    Seu olhar, antes perdido, voltou-se diretamente para mim.

    — O quão fundo você está disposto a ir?

    Ele certamente queria fazer perguntas sobre meus pais, porém era discreto demais para se atrever a soar invasivo. Eu não me senti pressionado, nem desconfortável, muito pelo contrário. Só queria muito entender tudo o que estava acontecendo. Salem tirava notas muito boas, era o melhor em praticamente tudo. Eu estava disposto a confiar nele.

    — Se quer perguntar sobre eles, é só perguntar. Eu não me importo — sugeri, quase deixando um sorriso escapar. Queria soar simpático, mas não pareceu certo no momento.

    — Como era seu relacionamento com eles? Tipo… antes, pouco antes.

    Ele se referia ao dia em que eles se enforcaram. Ninguém se sentia confortável em admitir uma coisa dessas numa conversa comigo. Então, sempre que possível, evitavam ser diretos.

    — Meus pais… — suspirei e evitei olhá-lo nos olhos. — Terrível. É a verdade. Eles mal conseguiam olhar para mim. Nunca foram muito de demonstrar o que sentiam, mas nos últimos meses havia um abismo entre nós.

    — E por que eles se distanciariam assim?

    — Não faço ideia. Desde que o Simon… — me interrompi ao perceber aquilo. — Você se lembra do Simon? — Ele acenou positivamente com a cabeça. — Desde que ele desapareceu, meus pais ficaram muito estranhos. E isso foi piorando com o tempo.

    — Estranhos? Como?

    Ajeitei-me na cadeira, molhei os lábios e respirei fundo.

    — Eu acho que eles ficaram de luto pelo Simon… como se ele fosse filho deles. Eu entendo que talvez eles sentissem assim. Simon e Tark viviam aqui em casa. Mas o filho deles estava vivo. Eu estava bem aqui o tempo todo. Nunca sumi.

    — Entendi… Você acha que há a possibilidade desses sentimentos conflituosos sobre seus pais te tratarem da maneira que trataram e, de repente, morrerem daquele jeito, possam estar causando… surtos psicóticos?

    — Olhe para mim, Salem. Eu pareço psicótico para você?

    — Não — respondeu ele, sem hesitar. — E eu não sou nenhum profissional para fazer diagnósticos… Você me parece alguém que está de luto.

    Senti um leve baque na garganta. Meu rosto queimou e meus olhos arderam. Me esforcei para me manter estável.

Uma memória me veio à mente.

    — Uma vez — comecei —, acordei numa noite com o som da minha mãe aos berros. Ouvindo através da minha porta, escutei meu pai tentando acalmá-la. Ele saiu do quarto e desceu. Eu o segui para perguntar o que tinha acontecido. Mas ele foi direto para o Animalium, a sala de taxidermia dele. As portas estavam fechadas. Abri uma fresta e vi ele sentado, com a cabeça no chão, fazendo reverência a uma estátua de lobo. Ele repetia ‘Por favor, por favor’ e chorava feito uma criança. Eu fiquei assustado. Nunca vi meu pai fazer qualquer tipo de ritual religioso. E lá estava ele, rezando para um lobo.

    — Eles nunca te introduziram a nenhuma religião ou sistema de crença?

    — Até onde eu sabia, meu pai era a pessoa mais cética que conheço. Já a minha mãe, sei que ela acreditava em algo, mas nunca conversou comigo sobre isso.

    — Hum… Estou pensando que talvez seus pais estivessem envolvidos em algum tipo de organização, digamos, uma seita, e você nunca soube.

    — É possível…

    — E que talvez esta seita em questão estaria te assediando por, quem sabe, razões religiosas.

    — O que o Tark estaria fazendo numa seita? Não faz o tipo dele.

    — Ele é próximo de você, Black. O Tark me parece teimoso demais para ser manipulado, mas esses grupos possuem formas de seduzir as pessoas. E se você é o objetivo final deles, conquistar seu melhor amigo é uma boa tática.

    Ouvi aquilo com ceticismo extremo. Salem fazia conjecturas demais sobre as coisas. Seu mundo particular me parecia um tanto mais complexo que o mundo concreto. Por outro lado, suas respostas possuíam um sentido lógico. Talvez Tark e meus pais fizessem parte de algo secreto e eu não fazia ideia.

    — Você consegue pensar em algo que conecte seus pais a qualquer uma dessas coisas que estão acontecendo com você?

    — Não… — respondi sem pensar. Entretanto, lembrei-me de algo intrigante. — Espera. O homem que me trouxe para casa ontem.

    — O de sobretudo e chapéu?!

    — Sim. Quando eu o vi, também vi meus pais, o corpo deles, exatamente como no dia em que morreram. Talvez minha mente estivesse tentando fazer a conexão.

    — Qual conexão?

    — Eu acho que já vi aquele homem antes. Há uns dois anos, meus pais receberam uma visita. Ele vestia o mesmo sobretudo preto e o mesmo chapéu preto. Só o vi por alguns segundos, mas acho que é a mesma pessoa.

    — O que ele queria com seus pais?

    — Eu não sei. Não me deixaram nem chegar perto. Entraram na sala, correram a porta e trancaram. Quando ele foi embora, minha mãe não parava de chorar. Você acha que ele faz parte disso?

    — Isso é confuso. Enquanto os outros estavam te atacando, este homem te salvou… há um conflito de interesses. Eu diria que ele é algum tipo de interventor ou algo assim. Talvez um padre?

    — Você está certo. Isso é muito confuso.

    Ficamos calados por um tempo. Tentei processar os pensamentos do Salem.

    — Black — disse ele, quebrando o silêncio —, alguma coisa aconteceu com você, isso é fato. A marca em seu braço prova isso. Mas se tudo aconteceu exatamente como você me contou… Talvez precisaremos expandir nossa noção do que é real.

    Naquele momento, a campainha tocou e ambos nos viramos para a porta da cozinha. Olhei para o relógio e era meia-noite em ponto. Os relógios da minha mãe tocaram, abafados por trás das paredes. Levantei e fui até a porta, Salem vindo atrás. Toquei na maçaneta, que estava anormalmente gelada, girei e uma brisa gélida se insinuou pela casa.

    Era ele. O homem branco vestido de preto. A sombra do chapéu cobria seus olhos, deixando visível apenas um brilho lugente. Sua pele alva era a mais lisa e perfeita que eu já tinha visto. Um arrepio subiu quando senti a mão de Salem tocar minha cintura. Pelo menos ele estava lá comigo.

    — Kian Black? — disse o homem, a voz mansa e grave.

    — Sim — respondi.

    — Eu sou Orev, amigo de seus pais, William e Ceci. Preciso falar com você. Posso entrar?



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