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História Darkness Rises - Capítulo 6


Escrita por: sanktamorozova

Notas do Autor


Olá, grishas stans.
Apenas frisando que há muito de liberdade criativa nesse capítulo, como já sabem não tenho a menor intenção de seguir fielmente a narrativa de Sombra e Ossos. Essa é a minha versão de Ravka, espero que gostem.
Boa leitura! 💜

Capítulo 6 - Sekrety


Fanfic / Fanfiction Darkness Rises - Capítulo 6 - Sekrety

"If you close your eyes and you pick a side, will you follow blindly into the darkness?

If you close your eyes and you pick a side, will you find yourself broken and heartless?"

(World on Fire - Klergy)

 

Annieska fazia o possível para não se deixar influenciar pelas vantagens e desvantagens de manter as aparências da posição que ocupava. Atuar como a filha benemérita de Balakirev tinha dado abertura para o poderoso e visionário Barão Dmitri Golovin compactuar a seu favor, mas o homem já começava a sair do controle dela colocando Ravka ainda mais em risco ao desafiar a vontade do rei.

"Pensei que fosse essa a intenção… Minar a autoridade de Alexander Lantsov", Genya sussurrou para Annieska enquanto esperavam a carruagem protegendo-se da garoa fria sob a marquise da edificação que fazia vezes de gabinete do barão de Balakirev.

"Não quando Ravka depende de uma resposta unificada contra ameaças externas. Uma guerra civil é tão terrível que deve ser evitada a todo custo. Antes de eu mesma assinar a sentença do tsar por seus crimes, preciso fazê-lo abdicar o trono para que a transição de poder aconteça de modo pacífico e legítimo", Annieska afirmou, calçando seu par de luvas negras de pele de zibelina.

"Acredita que a sua sugestão de retirada dos soldados grishas da defesa de Balakirev irá dissuadir o barão e os aliados dele de se negarem a pagar os impostos do rei"?

"Você sabe que uma porcentagem dos impostos do rei é destinado ao soldo do Segundo Exército. Aquilo não foi uma sugestão, mas um ultimato, Genya. Já enviei Sergei e Reevah para o posto avançado de Balakirev. Irão remanejar metade dos meus conjuradores de volta para o Pequeno Palácio. O barão e seus simpatizantes terão de aprender a nunca subestimar a palavra de uma mulher em comando", Annia redarguiu, os olhos de ametista vagando impacientes pelo movimento da rua apinhada de transeuntes, vendedores ambulantes e pedintes.

"Nada como insultar a masculinidade frágil dos otkazat’sya", respondeu a grisha com cabelos cor de fogo, seu humor desdenhoso logo sendo substituído por ares de fatalidade. "Veja essas tristes pessoas… Suas vidas são degradantes".

Annieska foi obrigada a concordar. Considerando que para cada família otkazat'sya era esperado o nascimento de pelo menos uma criança grisha, ela não podia fazer vista grossa diante da extrema miséria que assolava a nação.

Vinte anos atrás, quando ainda se acreditava em Alexander III Lantsov como o querido pai de Ravka, esperava-se que a abolição da servidão impulsionasse o país mais arcaico e rural do continente rumo à era industrial, independentemente da Dobra das Sombras. Entretanto, o que se viu acontecer foi o oposto. Os camponeses que haviam migrado para os centros urbanos, procurando melhores condições de vida, acabaram sofrendo com jornadas excessivas de trabalhos, baixos salários e a fome. Quando não possuíam crianças grishas para o Segundo Exército ou filhos otkazat'sya do gênero masculino dispostos a se alistar ao Primeiro Exército, desse modo garantindo pão à mesa, homens e mulheres caíam na mendicância ou na marginalidade.  

Balakirev, outrora afamada por seus esplêndidos bulevares verdejantes e pelas tradicionais festas maslenitsa, havia se tornado o epítome de um país devastado, com seus quarteirões decrépitos, construções abandonadas e o surgimento constante de epidemias, sendo a doença do quebrantamento - ou cólera - a mais recente delas. Annieska pensara duas vezes antes de também  remover os curandeiros do posto avançado daquela cidade. A atuação deles evitava maior disseminação do contágio.

"Entra rei e sai rei, e a Dobra sempre serve como bode expiatório para a incompetência política. Eles governam com poderes absolutos, se dizendo soberanos por vontade dos Santos", Annieska emitiu um riso nasalado de puro desprezo. "Todos os Lantsov que sobem ao trono, no final das contas,  só desejam ter algo para demonizar, contanto que permaneçam confortáveis e seguros do lado de dentro das paredes fortificadas do Palácio de Inverno. Mas os ventos agora sopram a nosso favor, Gen".

A carruagem Etherealki azul tracionada por quatro imponentes garanhões prateados estourou pela avenida de calçamento irregular, enlamaçada, no mesmo instante em que Annieska e Genya foram abordadas por um casal de crianças de rostos cadavéricos, vestidas em trapos imundos. A menina, uma mocinha de cabelos opacos, cacheados, e íris cor de ardósia, carregava um cesto de maçãs verdes; o menino ainda nem tinha saído da puberdade, e sua aparência era idêntica à da companheira. Tratavam de ser irmãos.

"Por favor, senhorita", a menina levou a mão de unhas encardidas na bainha do kefta impecavelmente bordado de Annia.

"Afaste-se de moya komandir, criança", o grisha condutor da carruagem estalou a voz como um chicote.

"Está tudo bem, Andrei", Annieska observou a figura da menina com curiosidade. Seus dedos sujos desprendendo do kefta, o queixo imediatamente apontando para o chão, os olhos baixos, reverentes. "Olhe para mim, menina. Não está cedo demais para a colheita de maçãs?"

"Dah, senhorita", a moça abanou a cabeça obedientemente, olhando nos olhos distintos da comandante. "São frutas temporãs. É tudo o que restou do pequeno pomar do nosso quintal".

Annieska inspecionou as maçãs do cesto; não eram viçosas, estavam mirradas, com cascas ásperas e em pouca quantidade, mas ela duvidava que as crianças tivessem vendido uma unidade que fosse.

"Novas demais para fazer licor… E suponho que muito ácidas para charlotkas".

"O meu irmão, senhorita", a menina se agarrou novamente à barra do kefta de Annia, já que ela havia reprovado as maçãs. A seguir, grunhiu, desalentada: "Leve ele para o Pequeno Palácio. Eu suplico, leve ele, senhorita. Sasha é um bom menino, eu posso garantir".

"Ele não é grisha. Reconheço grishas por instinto", Annieska mudou o olhar da irmã para o irmão, sondando-o como fizera com as maçãs. Havia admiração e espanto no semblante do rapazinho magricela de casaca puída cor de cereja. "A boa notícia é que ele está perto de cumprir idade para servir no Primeiro Exército".

"As tropas do Primeiro Exército estão cada vez mais cansadas e doentes de lutar. Senão desertor, meu irmão acabaria como qualquer cadáver de soldado jogado numa vala… Ele pode servir o Pequeno Palácio, trabalhar na cozinha, pomares ou celeiros", adiantou-se a irmã, com uma nota mais aguda de desespero.

"Lamento muito. A guerra também tem nos custado caro, criança", Annieska suspirou longamente, buscando uma bolsa de moedas que andava com ela por precaução. "Dê-me as maçãs".

"Quantas, senhorita?", a menina resignou-se engolindo um soluço.

"Todas as maçãs, e também o cesto, é claro", disse, pagando nem a mais nem a menos pela mercadoria, mas o valor que julgava correto.

Ao se encaminhar para a carruagem, notou que Genya a examinava de esguelha.

"O que foi agora, Gen?"

"Me pergunto o que faremos com maçãs temporãs", falou, mas pelo sorrisinho atrevido no canto da boca não era aquilo que ela pensava dizer.

"Conservas com folhas de cassis, hortelã, malte e mel. Baghra conhece como ninguém a culinária ravkana", Annia respondeu simplesmente, abrigando-se na carruagem. No seu interior, no assento oposto ao dela, estava a figura ranzinza de Svetlana.

"Impressão minha ou você ficou mexida com aquelas humildes crianças?", especulou Genya, acomodando-se perto da amiga. "Está pretendendo o posto de rainha ou sankta?"

"Deixe de intrigas juvenis, Senhorita Genya Safin", ralhou Svetlana.

"Nossa adorável raposa vermelha é um tanto emocionada, Svet. Apenas isso", Annieska sorriu, ao passo que o condutor da carruagem preparou-se para deslocar, perfeitamente ciente de que o próximo destino deles seria Os Alta. "No entanto, não nego que me comoveram. A realidade daquelas pobres criaturas é dura e serve para nos lembrar que sem o Segundo Exército poderíamos estar em lugar semelhante ou muito pior que elas".

À certa altura do percurso, Annieska entediou-se; o balanço da carruagem era um tanto nauseante e, do lado externo, caía uma chuvinha fina, mortificante. Svetlana dormitava entre um sacolejo e outro do veículo. Annia se aventurou a provar uma das maçãs, depois de asseá-la muitas vezes em seu lenço, e cortar uma lasca com um pequeno punhal. O sabor, de fato, estava como o esperado; muito azedo, altamente adstringente, a textura porosa, mas ainda assim, aproveitável para conserva.

Ao ver Genya se cansar de revisar a lista de pratos exigidos no festim do Grão-Príncipe, ela entabulou uma conversa. A primeira pergunta que passou por sua cabeça estava relacionada à Conjuradora do Sol, com quem viu a Artesã interagir alegremente mais cedo, antes de partirem para Balakirev. Alina Starkov pareceu ter confiado cartas à Genya.

"Vi você e Alina trocando confidências hoje… Acaso já chegou a despachar a correspondência dela?", Annieska questionou sem meio termos.

Genya inspirou e expirou demoradamente.

"Eu odeio o que estou fazendo. Nunca enviarei nada a ninguém, o Darkling pediu para que eu as reunisse e depois entregasse a ele. Deveria interceder ao seu general negro em favor desta minha condição, Annia. Não quero ter que trapacear com a pobre da Alina".

"Ora, ora… Você já tem sentimentos genuínos pela órfã de Keramzin. Não posso julgá-la, também sinto empatia pela menina, sobretudo, porque trabalharemos juntas em um futuro próximo", Annieska colocou um sorriso enviesado nos belos lábios de carmim. "Entregue-me as cartas, Gen. Deixe que com o Darkling eu me resolvo".

"Simples assim?", Genya arqueou as sobrancelhas ruivas bem delineadas.

"Te asseguro que sim", a comandante afirmou. "Pode me dizer quem é a pessoa que nossa Conjuradora do Sol está tentando contatar?"

"Malyen Oretsev. Os dois cresceram juntos no orfanato de Keramzin", Genya informou. "Ele é um rastreador a serviço do Primeiro Exército".

"Rastreador, você disse? Interessante", o rompante tedioso fazia com que Annieska parecesse debochada. "Vou gostar de obter mais informações sobre este Malyen Oretsev. Tente descobrir com fontes seguras a localização do regimento do rapaz. Preciso saber se ele é realmente confiável, você já conhece o protocolo… É para a própria preservação da integridade de Alina. De repente, posso até mesmo extraviar algumas cartas dos olhos do Darkling e fazê-las chegarem até as mãos do rastreador", a comandante dissimulou.

Evidentemente, para ela não importava o grau de proximidade entre Alina Starkov e Malyen Oretsev. Desde que os dois servissem como meios para seus fins, todo o resto era insignificante.

A interceptação das correspondências ampliava a capacidade de Aleksander manipular Alina. Mas se o general já detinha o conhecimento de que Malyen Oretsev possuía habilidades de rastreador, e orquestrava uma nova caçada ao cervo de Morozova, por que não havia comunicado antecipadamente à sua comandante? Pediu para que eu ganhasse tempo, pois assim será, meu bem, refletiu Annia.

Faria o possível para evitar que Aleksander chegasse ao cervo antes dela conseguir dominar o merzost e ascender ao trono como soberana absoluta de Ravka. Somos o equilíbrio um do outro. Ou eles triunfariam em Ravka juntos, de igual para igual, ou se destruiriam.

"Você é a sombra da minha escuridão. Sou eu quem sempre acabo voltando para te pedir abrigo, Annia", dissera Aleksander.

Amá-lo também havia sido inevitável, mas não era o suficiente para servi-lo incondicionalmente. Annieska sabia que jamais existiria uma perspectiva onde ela sacrificaria os poderes herdados de sua mãe para salvar Aleksander de si mesmo.

Chegaram em Os Alta no começo da tarde, a carruagem trafegando pelas alamedas mais ermas e brumosas da capital até uma estalagem que o Segundo Exército tinha costume de frequentar durante as paragens. Annieska permitiu que seu séquito descansasse e se alimentasse com uma saborosa refeição de solyanka, acompanhada de pães pretos, e robustas canecas de kompot. Aproveitou o tempo livre para enviar um garoto de recados ao internato da Ordem das Irmãs de Sankta Elizaveta das Rosas, a fim de anunciar sua visita.

Uma hora mais tarde, foram recebidos com certa solenidade aos portões de grade da instituição.

"É uma honra conhecê-la pessoalmente, cara Comandante Annieska", disse Olga Kruchenko, a diretora do internato, uma simpática senhorinha de pequeno porte e rechonchuda. "A que devo a visita?"

"Caridade, minha boa senhora. Pura e simples caridade", Annieska exibiu seu melhor sorriso altruísta.

As instalações do internato eram simplistas, mas com alojamentos bastante arejados, munidos de lareiras funcionais. As salas de aula, de recreação, biblioteca e refeitório pareciam na mais perfeita ordem. Jardins e hortas se mostravam vistosos, segundo a anfitriã, eram cuidados pelas próprias mãos das alunas internas.

"Viemos de Balakirev completamente estarrecidos com a notícia sobre os avanços do surto de cólera", comentou Annieska propositalmente enquanto caminhavam por um corredor amplo com piso antigo de majólica. Volta e meia, grupos de crianças passavam por elas, os rostos cheios de surpresa, admirando as grishas como se fossem criaturas saídas dos contos de fadas de Ravka. "Mulheres e crianças são os que mais sofrem com os sintomas da doença. Parte de meus curandeiros ficaram na cidade para impedir uma propagação maior".

"Pois fez muito bem, é uma situação imprevisível, sabe… Aqui não se ouve nada sobre a cólera nem mesmo nos jornais. O que não significa que estamos salvos de uma epidemia", a senhora foi muito lúcida.

Alexander Terceiro estabelecera a censura aos jornais liberais e independentes, a população pobre não tinha acesso à educação básica; a alienação e o analfabetismo funcionavam como a melhor arma da campanha de governo do Lantsov.

"Compartilhamos do mesmo pensamento, Senhora Olga. Como sendo a segunda maior autoridade do exército grisha, tomei para mim a responsabilidade de investigar nossas barreiras sanitárias. Enviarei guarnições para explorarem as áreas de maior vulnerabilidade de Os Alta, a fim de coletar informações e fazer um relatório para os olhos do tsar. Caso seja necessário, solicitarei a permissão de Vossa Alteza para colocar um maior número de curandeiros à disposição da população. Imaginei buscar apoio junto à instituições religiosas como esta. Por favor, não se sinta obrigada a atender meu pedido. Não pretendo comprometer seu exímio trabalho frente à Ordem das Irmãs de Sankta Elizaveta".

A idosa risonha desacelerou os passos que já pareciam lentos demais para Annieska.

"Não vejo empecilho para esta nobre causa, minha estimada jovem. Talvez goste de saber que o Grão-Príncipe Vasily é o maior mantenedor deste internato, temos sorte de sermos laureados por sua infinita bondade, então nada melhor do que retribuir a boa ação".

"Sabe que já agradei da senhora?", Annieska deleitou-se pela descoberta de que Vasily empregava algum dinheiro no internato, talvez para garantir que a filha de sua amante se mantivesse longe da corte e, consequentemente, da proteção materna. Um clássico caso de chantagem que os homens da nobreza real usavam para manter suas estúpidas concubinas sob controle.

"Me chame apenas de Olga", entusiasmou-se a anfitriã. "Mas, diga-me, como posso contribuir com você?"

Começaram visitando as crianças na enfermaria, qualquer virose já era motivo para Annieska sugerir que Svetlana se utilizasse de seus talentos para verificar os pequeninos corpos.

Contando com a perspicácia de Genya, a comandante procurava pela filha da Duquesa Ekaterina Petrovna, de aproximadamente sete anos de idade, e que atendia pelo nome Irina. Annia buscou com uma enfermeira a listagem de meninas que deram entrada ao consultório médico nos últimos quinze dias e, por ventura, encontrou o primeiro vestígio da criança.

"Irina Grigorievna Petrovna", falou em alto e bom som. "O dado clínico aponta que a menina sofre de um quadro permanente de fadiga. Onde ela está?"

"A filha da Duquesa", a enfermeira retrucou entredentes, parecendo desconfortável. "Deve estar nos jardins, a coitadinha. O médico não consegue encontrar um diagnóstico para tratá-la. A mãe se recusa a assinar um termo de responsabilidade para que ela seja examinada por outros especialistas".

"Desejo vê-la", Annieska declarou.

Achava-se em meio aos jacintos lilases, lupinos azuis-turquesas e prímulas corais, uma meninota de cabelos lisos, na cor louro-morango.

"Kalinka, kalinka, kalinka moya…", cantava ela com seu adorável e puro timbre infantil. Estava de costas para Annieska e sequer conseguiu perceber sua aproximação silenciosa.

"V sadu yagoda malinka, malinka moya", Annia complementou o refrão da cantiga folclórica.

Irina Petrovna se virou na direção da voz harmoniosa da grisha.

"Você é uma volshebnyy?", a garotinha mediu-a com o olhar abatido, mas que nem por isso apagava o brilho cristalino de suas íris verde-esmeralda.

"Não, querida", a comandante abaixou-se para tentar se ajustar à altura da criança. Irina era uma coisinha miúda, de rosto oval, e possuiria uma beleza ímpar se estivesse melhor cuidada. As pequenas mãos trabalhavam habilmente na confecção de uma coroa de flores frescas. "Não sou fada, apenas grisha. Meu nome é Annieska".

"Oh, uma Conjuradora, não é?", observou, estudando as cores do kefta da comandante. "Sou Irina... Foi a mamãe que te enviou?"

"Não foi ela, mas vim para saber como está se sentindo", Annieska tinha os olhos ametistas analíticos fixados na menina. A aparência enfraquecida, magra, a fala quase pausada, denotando cansaço excessivo, a suposta doença que o médico não sabia diagnosticar... A comandante já sabia que estava lidando com uma criança especial. Havia aprendido os métodos de uma examinadora grisha convivendo com Svetlana.

"A mamãe nunca iria mandar alguém me buscar", Irina deu de ombros, resiliente, porém magoada. "Acho que hoje me sinto melhor".

"Melhor que nos dias anteriores? Poderia me dizer o porquê disso, moya malinka?

A garotinha acenou a cabeça docilmente.

"Bem… não sei explicar direito. Ontem eu briguei de novo com uma colega de quarto. Ela não me quer por perto quando está no refeitório ou brincando com as outras melhores amigas dela. Então eu fiz aquilo outra vez"…

"Continue, seja o que for, não vou julgá-la, encontrarei um meio de ajudá-la", Annieska sorriu confiante.

"Fechei os olhos, desejando que ela se machucasse porque tinha me deixado triste… Eu abri os olhos e aí as minhas mãos estavam fechadas, bem assim", a menininha tinha as mãozinhas cerradas em punho. "Minha amiga ficou vermelha, vermelha. Passou a noite na enfermaria".

"Você disse que isso já tinha acontecido uma vez".

"Dah, mas foi comigo mesma. Não me lembro direito como foi, eu desmaiei", Irina tornou a focar no seu trabalho com a coroa de flores.

Annia entregou na mão frágil da garotinha um ramo de jacinto que estava fora do alcance dela. Como foi com a Conjuradora do Sol, a comandante sentiu uma torrente de energia fluir daquele breve contato físico. Irina sobressaltou-se como que afligida por um forte calafrio.

Annieska então teve certeza. A garotinha era uma grisha. Uma Sangradora.

"Vou deixar minha curandeira te fazer companhia. É uma amiga de confiança, que está comigo desde os tempos em que eu era muito criança, menor que você. Quando se sentir nervosa ou triste, conte à Svetlana. Ela saberá o que fazer", Annieska afagou os cabelos da criança que por carência, ou talvez afinidade grisha, aparentou crer plenamente na palavra dela. "Peço para que não conte sobre essa conversa para ninguém. Será o nosso segredinho", Annieska levou o indicador aos lábios, em irreverente tom de conspiração.

"Como um segredo de melhores amigas", a garotinha imitou o gesto da mais velha. Logo terminou de confeccionar sua coroa de flores. Rapidamente, descruzou as pernas curtas e se pôs de pé. "Posso coroar você?"

Annieska sorriu ainda mais radiante.

"Me sentirei honrada, senhorita Irina", ela fez um gestual solene com a cabeça para receber a coroa de flores.

"Combina com a cor de seus olhos, acho que você ficaria bem melhor de rainha do que fada", Irina abriu um sorriso resplandecente. "Nos veremos de novo"?

"Muito em breve, minha doce menininha".


Notas Finais


✦ Qualquer semelhança entre Alexander III Lantsov com o czar Nicolau II não é mera coincidência.
✦ A critério de curiosidade, a canção da Irina se chama "Kalinka, Malinka", e como toda referência que tenho acrescentado na fic, é de origem Russa, mais especificamente, uma música folclórica.

✦ Pra quem curte Dorian Gray, literatura gótica e dark academia, recomendo meu conto: https://www.spiritfanfiction.com/historia/a-portrait-of-an-unknown-gentleman-22398249

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Até breve.


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