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História Das 4 às 7 - Capítulo 1


Escrita por: e saavik


Notas do Autor


Espero que gostem <3

Capítulo 1 - Isso é ruim também!


Estava cansado, embora o termo correto fosse exausto, ou fatigado, ou qualquer coisa que passasse adiante de muito mais do que cansado. O humor se encaixava perfeitamente em completamente irritado. Poderia culpar o excesso de trabalho para conseguir pagar as contas e terminar os dias letivos sem pendências, mas no fundo sabia perfeitamente que a pressão que colocava em si mesmo para respirar fundo e se manter calmo, ou apenas não furioso, era definitivamente o estopim causador de sua situação. Havia tido um dia péssimo, em uma sucessão de dias ruins num ano pior ainda. Uma progressão de eventos catastróficos que deixavam evidente o quanto era um terrível e inegável azarado. 

Alguns suspiros cansados escapavam por seus lábios enquanto se ocupava em organizar relatórios, pontuar provas e pastas de trabalho. Inevitavelmente, uma catarse de reafirmação o atingia, algo que se tornara constante em seus pensamentos. Imerso em trabalho, a vida era massacrada pouco a pouco. Nunca imaginou que a vida adulta fosse daquela maneira, deveria ter aproveitado um pouco mais a infancia e adolescencia. 

Suspirou cansado enquanto organizava seu trabalho e refletia sobre seu cotidiano, sobre sua vida chata e opaca. Passara grande parte dela perguntando a si mesmo qual seria o cúmulo de suas ações, se perguntando o quanto teria de estar triste para finalmente se sentir feliz, ou o quanto seu copo teria de se encher até transbordar e quebrar, se espatifar por completo de modo irreversível. 

Era um ciclo vicioso. Não havia motivos aparentemente claros e palpáveis para se tornar uma pessoa tão reclusa e tristemente independente. De modo clichê e mesquinho, se enxergava como uma vítima das circunstâncias da vida, mas, se pensasse sobre isso com cautela, poderia ter certeza de que enganava a si mesmo em ter toda uma segurança tranquila em sua tristeza, como um abraço gelado e confortável ao amanhecer azul e cheio de neblina. 

Certamente a separação de seus pais aos doze anos e o total descontrole emocional de sua mãe aos quatorze não poderiam, e nem pareciam, um abismo assim tão grande. Ao menos eram duas gotinhas em um copo quase vazio. A doença de seu irmão também não deveria lhe afetar tanto; deveria ser ao máximo dez gotas em um copo pela metade, mas, a esta altura, tudo estava perdido e sem concerto, o copo estava tremendo à espera da liberdade, querendo arremessar seus cacos para longe. Gritava: liberdade! Liberdade!

As garrafas de álcool barato se aglomeravam junto aos maços de cigarro e, deus! Como lhe ajudavam esses seus momentos de embriaguez. Embora sempre, sempre, se arrependa por passar mal para cacete e quase colocar seus órgãos para fora enquanto geme de dor e medo por sua pressão arterial, que já é bem alta devido ao seu vício por nicotina e sua má alimentação, mas a questão não era essa, era como deveria se sentir bem, mas que, por algum motivo, não o faz e as pessoas mal percebiam, mesmo que realmente não devessem. A questão era como tudo se tornava uma tempestade num copo d’água e as gotas continuavam a cair e cair. A questão, talvez a grande questão em torno de todas as outras, era como sua rotina era uma completa merda, que se resumia em tomar cafés frios de manhã, se sentir cansado e ir trabalhar, tomar pílulas de café para se manter acordado e passar noites em claro, sentir uma imensidão gritante dentro de si mesmo e mal saber como colocar isso para fora. 

Sua rotina era ir e vir e ir e vir, mas nunca ir realmente. Desgastante, frustrada e impaciente. Seu vizinho adolescente contribuiu em grande escala para sua falta de sono, tocando persistentemente seu piano tarde da noite, às vezes até às quatro da manhã, o que o fazia se irritar, bater à porta da casa ao lado e, muitas das vezes, já furioso, soltar algumas palavras nada gentis que sequer tinham a oportunidade de chegar ao seu destino. Ele sequer abria a porta e recebia as grosserias.  

Sentou-se à pequena mesa da cozinha, ansioso pela cafeína. O escasso barulho do café sendo moído na cafeteira e da água sendo fervida, eram um alívio para seu cansaço. Um dos singelos prazeres da vida de um trabalhador cansado, depois de alcançar algumas torradas observou os pingos negros descerem até a jarra de vidro, e todo o seu alívio se esvaiu no instante em que observou toda a porção de cafeína balançar, de um lado para o outro como ondas do mar em cor de ébano, faltava um barco à vela naquelas águas turbulentas.

Seus pés fizeram o caminho por conta própria, enquanto seu cérebro travava uma batalha para não colapsar. Embora nunca tenha sido fartamente calmo, ou tranquilo, seus limites foram testados e ultrapassados com cada canção tocada de modo tão fervoroso. 

Uma sequência de portas e portões abertos fora deixada pelo caminho. Menos de sete passos foram dados até a porta de seu vizinho, onde deixou algumas batidas fortes e insistentes antes do som do piano ser cessado. Enfiando as mãos nos bolsos, o viu com clareza quando a porta fora aberta. Era claramente alguns anos mais jovem que sí, um óculos escuro emoldurava um rosto de pele limpa e formato oval, embora já tivesse anoitecido há algumas horas. Seus lábios róseos e finos apresentavam um semblante curioso, e abaixo de seu tronco um longo par de pernas finas o sustentavam. 

— Olha aqui. Você não 

— Já voltou?

Pouco entendeu, e ficara ainda mais confuso quando aproximou sua palma aberta ao rosto alheio, com gestos curtos em movimento. Um pigarro se desprendeu de sua garganta quando notou o cenho franzido junto às sobrancelhas grossas. 

— Meu nomes é Yifan, sou seu vizinho.

— Olá Yifan. 

— Poderia abaixar o volume?

— É claro.

— Obrigado.

Chanyeol só pôde ter certeza de que o outro fora embora quando o barulho dos passos firmes dele se tornaram constantes, diminuindo conforme se afastava. Enquanto voltava para dentro, questionava o quão alto estava o volume, embora não tenha usado amplificadores, destinando-os somente as suas guitarras e violões. De fato pouco havia se certificado quanto ao horário, embora tivesse certeza de que não se passava das seis horas da noite, algumas horas antes da lei do silêncio.

Apressado, a vergonha queimava as bochechas de Yifan, deixando também um gosto amargo de arrependimento em sua boca. Quando a porta de sua casa fora fechada, seus passos até o quarto foram ditados por cada janela que fechava e cada luz que apagava pelos cômodos, nem mesmo o café pronto fora degustado. O arrependimento o levou para o baheiro, lhe escovou os dentes e o colocou na cama, mas custou a deixá-lo dormir. 

Embora houvesse tido uma péssima noite de sono, levantou ao som do primeiro despertador, e como um detento ansioso por sua soltura, saiu de casa para o trabalho sem ao menos tomar café da manhã, planejando saborear um pão quente e um capuccino na padaria ao lado da escola. Isso fora o que o manteve funcionando durante as aulas e até o horário do almoço, onde, para sua penitência pela grosseria na noite passada, foi servido um prato com pelo menos quatro ingredientes que poderiam matá-lo facilmente, restando assim somente a salada, duas opções de frutas e uma sobremesa insossa.

Levou sua bandeja até a sala dos professores, onde se dividiu em terminar de corrigir as últimas provas do ano e encher seu estômago para ter energia o suficiente durante as últimas aulas do dia, em uma universidade há trinta minutos daquele bairro. A recepção nas aulas não era tão diferente, conversas paralelas nunca se tinham fim e exigiam mais esforço do que o habitual. Naquele dia, não fora diferente. Em menos tempo do que imaginou estava desligando o interruptor e seguindo até os elevadores. 

Todo o percurso até a estação Santana durou menos do que o habitual, embora o metrô estivesse mais lotado do que costumeiramente ficava naquele horário. Seu estômago havia passado a roncar em algum momento depois da penúltima aula do dia, e depois do último ronco na terceira das sete estações de volta para casa, ele parecia ter entendido que perdera a batalha contra a fome. 

Enquanto caminhava pelo quarteirão, seus passos eram vagarosos. Os restaurantes e bares pelo caminho emanavam fragrâncias deliciosas de comida caseira e fast-food, e embora seu corpo pedisse por uma revanche, sua mente tranquila repassava as tarefas para o resto da última semana de dias letivos. Uma vez que todo o trabalho acumulado estivesse quase no fim graças a três dias de sono mal aproveitado. 

— Que miserável. — levou seus pensamentos ao vento em voz alta, rindo sem som pela constatação óbvia.

O condomínio de casas jardim das flores ficava há três quarteirões da estação de metrô, dando-lhe sorte o bastante para chegar em casa em cinco ou sete minutos em dias calmos. Portões negros e vitorianos abriam passagem para uma imensidão de sobrados amarelos e pequenas casas laranjas e azuis que pareciam ter parado no tempo desde 1980. 

Árvores por toda a parte ofereciam sombra e baixa temperatura, e de época em época se podia colher amoras e pitangas dos pés sem donos que reivindicassem seus frutos. 

Quando o portão rangeu ao ser aberto, as luzes das ruas se acenderam e captaram seus olhos se apertando pela luminosidade na imensidão noturna. Dez passos e estava em frente aos seus portões cinzas, e embora estivesse ansioso para entrar, tomar um banho, comer e voltar a trabalhar, seu vizinho lhe tomou a atenção mais uma vez. Parado diante do fim da extensão de seu portão, e o começo do dele, o observou sem seus óculos escuros, agachado em seu canteiro, tateando suas flores e plantas com a mão esquerda e regando com a direita. Enfiou as mãos nos bolsos e o observou por alguns instantes. Iluminado pelas luzes de sua casa através da janela, e as luzes brancas das luminárias de seu pequeno jardim, ele parecia doce e despreocupado. 

— Boa noite, vizinho. Que grande surpresa o encontrar no silêncio. 

— Desculpe pelo barulho no outro dia. 

— Não esquenta, é bom para variar e é muito legal ter um artista competente na vizinhança.

O sorriso sem jeito e constrangido foi notado, quebrando as piadas ácidas que ousavam invadir a mente de Yifan. Reprimindo um suspiro arrependido ajeitou sua postura e coçou a nuca. 

A imensidão cinza e fosca o impressionaram quando Chanyeol virou seu rosto, procurando sua direção na imensidão negra. Ainda que não pudesse mais enxergar, virar o rosto na direção do som já havia se tornado um hábito e um costume de quase quinze anos. Suas orbes foscas chamavam muito a atenção de Yifan, a profundeza de sua cor que dizia tudo e nada ao mesmo tempo era docemente vislumbrante. 

Chanyeol retirou suas luvas de jardinagem e se levantou, sua destra segurou o bastão antes dobrado em seu bolso traseiro, e enquanto o estendia, seu cenho se franziu. O silêncio havia invadido sorrateiramente o espaço entre ambos, e ainda que nenhum dos dois tenha se despedido, não fazia ideia de que o outro ainda estava ali.

— Ainda está aí? — sorriu, e talvez tenha sido a imagem mais bonita que Yifan já tenha visto. Lábios finos, almofadados e róseos em contraste com pupilas e íris cinzas. 

— Sim… Estou.

— Quer um café?

— Não, eu preciso mesmo é do resto do jantar de ontem — riu baixo, levando o outro a um riso gostoso e contagiante. — Na verdade, desde que chegou não consegui o cumprimentar do jeito certo, ou me prestar a gentileza da boa vizinhança. 

— Isso ainda existe? — o interrompeu deixando um riso mais alto escapar por seus lábios. 

— Precisa de ajuda em algo?

A bondade genuína e despretensiosa era um dos atributos mais singelos de possuia, ainda que não tivesse total certeza de que estava sendo gentil e prestativo por se tratar de um deficiente ou alguém que julgou ser adorável com suas peculiaridades atraentes.’ 

— Na verdade sim, você sabe como faço para chegar em santana daqui? Eu costumava saber como ir a clínica da praça das nações no meu endereço antigo, mas ainda estou um pouco perdido aqui.

— Sei sim, a clínica fica depois da estação carandiru, só algumas ruas adiante. Posso te levar se quiser. Se for na semana que vem estarei de férias. 

— Segunda, às 16 horas. 

— Combinado. 

— Obrigado, Yifan.

— É… — por algum tempo não soube o que dizer, limitando-se a sorrir minimamente e recuar alguns passos. — Como é mesmo o seu nome?

— Chanyeol.

— Boa noite vizinho.

Virando as costas, pode ouvi-lo lhe desejar uma boa noite. Chanyeol sentiu-se ligeiramente estranho e surpreso, uma gentileza após um atrito sempre lhe deixava um gosto estranho de desconcerto. Voltando ao interior de sua casa, se serviu de uma xícara de café. Não era um bom horário para ingerir cafeína, mas precisava de algo que o livrasse do cansaço e a vontade de tirar um cochilo. Havia dormido muito pouco, cheio de pensamentos sobre o retorno de suas atividades no bar e lanchonete. Um grande estabelecimento no centro da cidade chamado toca tudo, de onde se ausentou por cinco meses enquanto planejava sua mudança e uma pilha de outras questões.

O líquido quente agraciou seu paladar e expulsou algumas de suas parcelas de cansaço e ansiedade. O botão do pequeno relógio em seu pulso foi acionado, lhe dizendo as horas e o fazendo se apressar. Aguardava a visita de antigos colegas que conhecera no  estabelecimento e costumeiramente dividiu o palco. Com alguns biscoitos no forno e três dedos queimados, rumou até o banheiro. 

O cheiro dos biscoitos assados ultrapassavam as cortinas de Yifan, fazendo seu estômago dançar em protesto por algum, ainda que seu jantar estivesse quase quentes graças à rapidez dos eletrônicos. 

Sentou-se à mesa beliscando alguns pedaços de pimentão e amendoim. Quando o breve estalo da panela foi ouvido, respirou fundo e tomou um banho quente e relaxante. Só percebera o quanto estava cansado quando saiu da cortina de vapor com os ombros doendo mais do que de costume. Depois do jantar, tivera algumas horas para trabalhar antes de cair no sono, no conforto de sua poltrona e no completo silêncio. Não havia barulho quando acordou no dia seguinte, e quando trancou os portões antes de ir para o trabalho, nem mesmo se ouviam os pássaros recém despertados. 

Depois de um dia sem qualquer novidade, mudanças ou expectativas, as seis horas da noite voltava ao mesmo trajeto pelo bairro, e por algum motivo, se alegrou ao chegar em seu bairro e ouvir os instrumentos de Chanyeol, o escolhido da vez fora um violão bem afinado. Embora não houvessem trocado tantas palavras ou frases significativas, e sim ligeiras alfinetadas no decorrer semana, ainda mantinham certa cordialidade, cumprimentando-se sempre que se encontravam, enquanto Yifan saia para trabalhar e Chanyeol estava regando suas plantas, ou na volta para casa quando deliberadamente, lhe ajudou a levar algumas sacolas de supermercado. O tempo em que estivera sozinho afogado em trabalho e afazeres passava a confundir sua mente, o deixando amolecido e facilmente impressionado por seu vizinho barulhento. 

Entre noites mal dormidas e refeições preguiçosas, o fim de semana chegou, lhe derrubando da cama às onze horas de um domingo ensolarado. Ao som da campainha insistente, se levantou apressado. 

Sem camisa e com cabelos espetados, abriu a porta sem ao menos usar o lavabo antes. Surpreso e levemente desequilibrado pela súbita agitação de seu corpo ao levantar tão rápido. Ao abrir a porta, apertou os olhos devido a claridade e apoiou a testa no batente da porta. Normalizando visão e equilíbrio, um gemido dolorido e descontente deixou seus lábios de forma desgostosa. 

— Vizinho?

A claridade o levou a piscar algumas vezes antes de enxergar Chanyeol a sua frente, com uma fornada de biscoitos cheirosos, exalando creme de manteiga por todos os lados. Por algum tempo felicitou a falta de visão alheia, ou então teria seu abdômen descuidado e algumas porções de pêlos numa vitrine branca e cansada, totalmente a mercê de zombamentos.   

— Sim?

— Quer mantecal? 

— Foi você quem fez?

— Sim.

— Então eu aceito.

Quando o pote foi pego, um riso descrente se desprendeu dos lábios de Chanyeol. Pouco acreditava ter feito uma gentileza para a pouca paciência de seu vizinho estressado, no entanto, torcia pela compreensão dele naquela trégua, embora tudo o que Yifan conseguisse pensar era na sorte que tivera ao ter recebido um, aparentemente gostoso, café da manhã em sua porta, lhe poupando de cozinhar ou sair para  comprar algo. 

— Obrigado. — agradeceu simplista.

— Não por isso.

Enquanto o via indo embora com seu bastão, sorriu observando suas pernas magras vacilarem o caminho seguido, era ligeiramente fofo com sua altura avantajada. Fechando a porta, se dedicou a passar café e saborear os biscoitos; estavam melhores do que imaginou. 

x

Dias tranquilos se sucederam, com melodias rápidas à noite, algumas mais altas e outras nem tanto. Yifan pôde afirmar, com toda a certeza, que uma mudança havia sido feita, ainda que o volume continuasse audível com guitarras e uma terrível bateria, as assombrosas notas de piano não o importunavam como antes, e Chanyeol sequer lhe parecia tão irritante quanto antes. Os dias se passaram sem qualquer novidade ou caos que não seja puramente interno. 

Quando os últimos raios de sol da manhã o acordaram na segunda-feira, verificou o horário em seu celular, já martirizando-se pela ineficácia de seu despertador e a falta de responsabilidade ao compromisso com seu vizinho. Um suspiro aliviado ecoou pelo corredor quando verificou as horas a caminho do banheiro. Depois de um banho que lhe afastou a preguiça, e um café da manhã forte e gostoso, vestiu algumas das únicas peças de roupas comuns que possuía. Uma calça jeans e uma camisa lisa e sem estampa compunham seu estilo desinteressado naquele dia, mas ainda era melhor do que a roupa social que usava para trabalhar. 

Motivado pelo constante azar que o perseguia, esvaziou sua pequena bolsa carteiro e a recheou com seus documentos, carteira, seu carregador portátil e um agasalho. Por todo o caminho até a porta e depois de trancá-la, pensou se havia pegado todo o necessário, mas quando chegou ao portão de Chanyeol, deixou de se importar ou  verificar. Depois de tocar a campainha, a porta fora aberta o revelando com cabelos molhados e espetados, um óculos escuros, uma samba canção e uma toalha sobre os ombros. 

— Yifan?

— Sim?

Sorrindo, lhe deu passagem e voltou em passos lentos até o sofá, onde agarrou uma escova de cabelo e passou a pentear suas mechas escuras. Entrou sem muitas cerimônias e se sentou sobre o sofá, se limitando a lhe dar o tempo necessário para acabar de se vestir.     

— Eu já volto, preciso terminar de me arrumar. Fique a vontade.

Embora houvesse tentado evitar, varreu seu olhar por toda a extensão das paredes, assim como do corpo alheio. A falta de timidez o impressionou, apesar de ser algo comum entre colegas que se interessam pelo sexo oposto, o que certamente não era o caso de Yifan. 

Reprimindo o riso, o aguardou. Notou alguns livros emoldurando a parede, numa estante ao redor de pequenos vasos de suculentas. Era um ambiente limpo, paredes claras e alguns efeitos rústicos, além de poucos móveis e quase todos almofadados, algo completamente explicável. 

Poucos minutos se passaram até vê-lo surgir com cabelos ainda úmidos, mas alinhados. Uma camisa cinza estampada pelo The Police e calças jeans escuras. Estava perfumado, e todo o caminho passava a exalar o odor masculino e amadeirado de seu desodorante, embora não fosse ruim.   

— Vamos?

— Pegou tudo? Documentos e todo o resto, sei lá.

Depois de verificar seu bolso, lhe acenou positivamente. Durante quase todo o caminho até a estação, como também depois dela, ficaram em silêncio. Os primeiros momentos de uma amizade, ou quase isso, sempre foram difíceis para Chanyeol, e piores ainda para Yifan. Fora dizendo onde estavam, lhe dando coordenadas que fáceis de memorizar, para que pudesse fazer o caminho sozinho em alguma outra oportunidade.   

— Com o que você trabalha? Disse que entraria de férias essa semana. — Chanyeol quebrou o silêncio. 

— Sou professor. 

— Muito honrado.

— Obrigado. — agradeceu, embora soubesse que, ainda que no início o motivo tenha sido nobre, a profissão se tornara difícil, estressante e parcamente remunerada, além de problemática pela crescente violência e repressão à profissão no país.

Após longos alguns minutos, a grande placa no portão sinalizou que haviam chegado ao lugar certo, o que trouxe alívio a Yifan e sua falta de tato para conversar aleatórias. 

— Chegamos. 

— Obrigado, Yifan. Vou me lembrar do caminho quando voltar, e quando vier novamente. 

— Te’ ajudo a memorizar melhor quando voltarmos.

Sorriu, não esperava que ele continuasse a lhe ajudar ou ser gentil consigo, mas estava satisfeito pela companhia. Ao menos os biscoitos pareciam terem surtido efeito. Circulou seu braço esquerdo ao redor do semelhante e passou a conduzi-lo. Depois dos portões de entrada, todo aquele território era familiar para si. O conhecia muito melhor do que a casa em que estava por três meses e contando. 

Yifan ficou em silêncio, e se deixou ser conduzido por portas automáticas, paredes claras e ambientadores cheirosos. O cheiro de álcool e objetos esterilizados era forte. Embora já estivesse habituado a hospitais e seu odor marcante, aquela sala possuía um toque mais forte. 

Chegando a sala de espera, acomodou Chanyeol sobre as cadeiras disponíveis e verificou o horário no grande relógio digital preso a parede no canto esquerdo. 

A televisão quase muda repassava um dos filmes de maior sucesso de bilheteria na categoria comédia romantica, e por algum motivo Chanyeol passou a se demonstrar muito interessado, perguntando por vezes o que os personagens haviam falado. Nunca havia compreendido o motivo do volume tão baixo nas clínicas e postos de saúde, já que os televisores eram ligados para distrair os pacientes, o objetivo nunca era atendido pois nunca era devidamente servido.

— Não precisa fazer isso por mim — garantiu sorrindo, enquanto tateava os dedos dentro de seus bolsos e fazia menção de se levantar.

Yifan pensou em o ignorar, mas a miséria parte doce em si o obrigava a ser gentil. Ainda que seu humor não andasse bom, ou apropriado para se viver em uma sociedade, Chanyeol sequer possuía culpa e em nenhum momento deixara de sorrir. Pousou então sua mão sobre o ombro alheio e respirou fundo.   

— Não se preocupe, eu faço isso rapidinho. — segurou o documento de identidade que resgatou dos bolsos dele e se dirigiu até uma das atendentes do guichê.

O ambiente era bem iluminado, com paredes marfim e móveis marrons. Uma grande televisão presa a um suporte no teto, bem a frente das cadeiras dispostas no salão de espera, entretinha meia dúzia de entediados. Ao lado da fileira de atendentes havia um pequeno portão com um acessorista, controlando a entrada e saída e quatro elevadores, o local parecia ser bem reservado.  

— Boa tarde. — tentou esboçar um sorriso gentil e simpático à recepcionista, mas o resultado fora um desastroso sorriso vacilante que mal lhe exibia os dentes recém branqueados com carvão ativado. — Park Chanyeol tem uma consulta marcada. 

— Documento, por favor. — surpreendentemente, ela sorriu de modo encantador. Desconcertado, colocou o documento sobre a bancada. 

Após ela os olhar e escrever algumas frases em seu sistema, lhe entregou dois adesivos, um para o acompanhante, a qual colocou em sua camisa, e o outro segurou em seu indicador. 

— Segundo andar, é só aguardar o horário da consulta para subir.

— Obrigado.

Ao girar os calcanhares com o documento alheio em sua mão esquerda, notou ao menos cinco rostos recém chegados, metade das cadeiras estavam ocupadas, voltou a se sentar ao lado de Chanyeol e bocejou antes de fixar o adesivo restante na camisa dele. Desejava ter dormido um pouco mais, noites mal dormidas eram desastrosas para si. 

Faltavam alguns minutos até a consulta, e ele parecia tranquilo e atento ao filme.  

— É uma consulta de rotina?

— Sim.

— Pensei que cegos não precisassem disso. O pior já aconteceu mesmo.

Um riso rouco e gostoso se desprendeu dos lábios de Chanyeol enquanto acenava afirmativamente. O som de sua risada ecoou pelo salão, fazendo o outro formar uma leve careta de arrependimento. 

— Há coisas piores. Cegos ainda podem perder os olhos, e olhos de vidro são bem feios, acredite — afirmou sereno. — Dois buracos no rosto e pálpebras costuradas também não devem ser legais.

 


Notas Finais


Espero que tenham gostado ♥ Por enquanto é o que tenho a oferecer sem meter os pés pelas mãos, espero que tempos melhores e com mais criatividade logo venham.


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