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História Days of Our Lives - Capítulo 10


Escrita por:


Notas do Autor


Quanto tempo, não é meuzamigos?

A vida de alguém que agora tá "trabalhando" e em final de semestre fica assim, eu peço desculpas pelo atraso. Mas, aqui está a segunda parte do capítulo 9. E EU ESTOU DANDO TUDO QUE VOCÊS quase QUEREM, HEIN?

Dia 11 DOOL fez UM ANO de existência. Queria agradecer a cada um de vocês pode terem feito esse ano maravilhoso com seus comentários, favoritos e tudo mais. Obrigada de coração a cada um de vocês.

Também chegamos a 223 favoritos!! Muito obrigada mesmo.

POR FAVOR, LEIAM AS NOTAS FINAIS. E esse capítulo tem uma cena um pouco mais... Saliente? Não sei escrever essas coisas, então me desculpem. Boa leitura.

Capítulo 10 - Juventude Transviada (Parte 2)


Seulgi não fazia ideia que aquele fliperama ainda existia. Uma vez, enquanto tinha 13 anos, foi lá uma última vez com Mingyu, no dia seguinte, chorosa, abraçou o amigo e o viu ir embora para San Diego. Desde então, voltar lá seria algo bem sem sentido e solitário. Então, ela nunca mais foi. 

 

O chão de carpete estampado e um barulho eletrônico vindo de diversas máquinas trouxe uma sensação repentina de nostalgia e era como se ela tivesse treze anos novamente. Se ela se esforçasse, até conseguiria voltar ao sotaque carregado da época.  

O Flipper havia se modernizado, claro. Havia muitas máquinas novas e mais tecnológicas, mas o dono ainda havia mantido os arcades antigos. Foi como se uma imagem de Seulgi e Mingyu crianças se fizesse presente em sua frente e ela conseguiu se ver ali, jogando várias partidas de Street Fighter que suas fichas permitiam.  

Era impossível continuar triste estando ali, com uma sensação tão boa quanto aquela. 

O movimento não era grande, principalmente para uma sexta à noite, mas havia um bom número de crianças e adolescentes. Olhando as mudanças, agora haviam máquinas que emitiam tickets que podiam ser trocados por alguns prêmios e havia até uma lanchonete nos fundos. Uma música animada de pop tocava no ambiente. 

— Nossa, fazia tempo que não vinha aqui — Seulgi disse maravilhada. 

— Sério? Você parou de vir? 

— Não tinha mais graça — respondeu. — Quem mais ia perder pra mim no Street Fighter?  

— Aaaah! — O garoto riu com a provocação. — Saiba que eu te deixava ganhar e você vai ver hoje. 

— Uhum! — respondeu com ironia. — Vamos ver, mas não vale chorar, ok? 

— Ei! Eu estava sensível naquele dia, ok? Meu hamster tinha morrido... 

— Aham! Acredito! 

Rindo, eles foram até o balcão, que estava ocupado com um homem com uns fios grisalhos e camisa de algum filme dos anos oitenta. Era o dono do fliperama, eles o reconheceram. Mas agora, já com algumas marcas de idade e mais envelhecido. 

— Ei, Sr. Willians, queremos jogar! Pode nos dar umas fichas? — Mingyu disse exatamente o que sempre falava quando chegavam lá.  

O homem tirou a atenção do monitor e olhou curioso e em seguida arqueou as sobrancelhas ao vê-los.  

— Vocês voltaram... — disse sorridente. — Nossa, quanto tempo! Fiquei preocupado e meio triste que não vieram mais. 

— É, bem... Precisei me mudar repentinamente para San Diego — explicou. — E ela ficou triste demais para voltar...  

— Ai, cala a boca! — Seulgi fingiu incomodo e deu uma cotovelada fraca no rapaz, arrancando riso do trio.  

— É bom ver vocês, de qualquer forma — disse. — Mas, como podem ver, nós modernizamos as máquinas, elas não usam mais fichas, a não ser as antigas. Elas funcionam com esses cartões onde vocês colocam créditos e ele fica com vocês por quanto tempo quiserem. 

— Certo! Vamos querer um desse e umas fichas para jogar nas máquinas antigas. — Mingyu puxou uma nota alta de sua carteira e passou para o homem. Seulgi ficou levemente constrangida e tentou ajudar com o pagamento dos créditos, mas o rapaz recusou, dizendo que aquele seria um presente de despedida. 

— Você é quem está indo embora — argumentou a garota. — Eu que deveria dar o presente. 

— Estar com você já é meu presente. — Ele deu um sorriso torto e Seulgi jurou que sentiu todo o seu rosto arder e teve a certeza de que ele estava completamente vermelho. 

O Sr. Willians entregou o cartão e cinco fichas para os dois e os contemplou com um sorriso dócil. 

— Divirtam-se — disse. — Como nos velhos tempos! 

Após agradecerem, eles seguiram para a área das máquinas antigas. O visual por ali era o mesmo de anos atrás e eles se sentiram com 12 anos novamente. 

— Vamos lá, Seulgi. — Ele passou um braço pelos ombros da menina de maneira divertida e a puxou para a máquina de Street Fighter. — Temos uma revanche! 

A menina o encarou e riu e naturalmente o abraçou novamente, apertando-se contra o seu corpo de forma carinhosa sentindo-se estranhamento confortável com aquilo. 

 

Ela havia se esquecido como era divertido jogar no fliperama. E de como era tão boa naquele jogo. Bom, não dava para saber se Mingyu realmente a deixava ganhar quando mais novos, mas naquele momento, ele estava levando uma surra e não era proposital. Apesar de estar divertido, o desgosto de estar perdendo era visível no rosto do garoto, enquanto Seulgi se divertia com aquilo. 

Eles escolheram as mesmas personagens de sempre. Ela, Chun Li e ele, Ryu. Dois clássicos personagens. Não negava, ouvir o famoso “Haduken” era como uma música aos seus ouvidos e fazia sua espinha arrepiar. Era uma sensação tão boa, que mal se importava de estar ganhando. 

Finalizaram as duas primeiras fichas com cerca de quatro partidas, 3 vitórias de Seulgi e apenas uma do garoto. Estalaram os ossos quando a última terminou.  

— Não lembrava que eu era tão boa — disse provocativa. 

— Fiquei anos sem praticar. 

— É, mas eu também! 

— Tanto faz... — Mingyu fingiu uma irritação e deu uma risada em seguida. — Temos algumas fichas, vamos para outra máquina antes de irmos para as novas? 

— Sim, algo menos competitivo, tô cansada dos seus resmungos. 

Se divertiram novamente com o comentário e Mingyu deve ter feito outra palhaçada. Prosseguiram para as máquinas seguintes, até encontrarem uma familiarizada. Foram na clássica de Pac-Man para gastar as últimas fichas. 

Antes de começarem a jogar, no entanto, a presença do Sr. Willians chamou a atenção quando ele colocou um copo de milk-shake com dois canudos na máquina e os olhou com um sorriso. 

— Sr. Willians, nós não pedimos... — Mingyu disse confuso. 

— Cortesia da casa! — respondeu o homem, surpreendendo os adolescentes. — Eu ouvi sobre despedida, considere isso o meu presente de despedida. 

Ambos não sabiam o que dizer. O homem realmente deveria gostar muito da presença deles no lugar para algo assim ou realmente sentiu muita falta das bagunças que eles faziam. Mas, mesmo assim, surpresos, eles aceitaram de bom grado. 

— Uau, muito obrigado, Sr. Willians! — disse o garoto. 

— Sabem, eu sempre soube que, quando crescessem, vocês formariam um belo casal. 

Seulgi, que já estava sugando um belo gole da bebida, engasgou-se com as palavras proferidas e Mingyu ficou muito constrangido. Só que nada puderam fazer, pois o homem deixou os dois tão repentinamente como chegou. 

Os dois se encararam com um silêncio e meio sorriso sugestivo e deram uma risada nervosa em seguida, para quebrar o clima estranho que surgiu. 

— Talvez se a gente não desmentir, ele continue dando comida de graça. — Seulgi comentou dando ombros e ofereceu o copo ao menino, que o pegou. 

— Vamos ficar em silêncio por precaução... — O garoto concordou. 

Mingyu deu um gole devagar. A ideia de que eles passaram uma imagem de casal os deixava sem graça e pensativos. Logo, um pequeno silêncio se formou, onde nenhum dos dois conseguia se encarar. Foram precisos alguns segundos até que se lembrassem de onde estavam. Ele puxou uma ficha do bolso e jogou na máquina, que emitiu o famoso som do jogo do Pac-Man. 

— Vamos alternar as partidas? — perguntou ele, ainda sem olhá-la, com a intenção se desviar o “assunto” de sua cabeça. 

— Sim, claro! 

E então eles alternaram. Como sobrara três fichas, Mingyu jogou uma e, em seguida, Seulgi jogou outra. Foram partidas não muito longas, mas que deu para se divertir. No final, não sabiam o que fazer com a ficha que sobrou, então decidiram não usar. O garoto ficaria como uma lembrança, enquanto ela ganharia o cartão para poder usar quando quisesse. 

A distração das outras máquinas realmente amenizou o clima e até pareceu que os fez esquecer dos comentários do homem há alguns minutos. Eles estavam realmente se divertindo. 

Exploraram as máquinas novas, tinham jogos de realidade virtual, tiros em dupla, onde Mingyu finalmente teve sua vingança e sobressaiu em relação à garota, as famosas corridas de carro e moto. Depois jogaram um pouco de hóquei de mesa e, após algumas partidas, foram para a “pista de dança”. 

— Uau, você é boa! — disse ele ao ver a facilidade dela em pontuar.  

— Diz isso porque nunca me viu dançando de verdade. 

— E o que eu diria? 

— “Você é muito boa!” 

Mingyu riu e, sem perceber, parou de se mexer para apreciar a garota sorridente continuar se movimentando. 

— Gostaria de ver isso. 

— Um dia... 

Trocaram olharem brilhantes e sorrisos sinceros, enquanto Britney Spears tocava do arcade.  

Não era nada romântico. 

 

Eles passaram os últimos minutos em arcades que davam fichas para serem trocadas. Erma coisas bobas como acertar a bola em alvos e derrubar o máximo possível, acertar um jato de água num alvo vermelho e uma espécie de boliche, mas sem pino, onde você precisava arremessar a bola numa plataforma para que elas caíssem em buracos específicos. Quanto mais alto o buraco, maior a pontuação. 

Mas, claro, o jogo de basquete foi onde mais pontuaram. Mingyu fez grandes cestas, enquanto Seulgi apenas arremessava a bola de qualquer forma. Isso arrancava risadas do amigo, que na verdade achava aquilo muito fofo. Numa tentativa de se exibir, ele se afastou o máximo que pôde, mas errou o arremesso e a bola, que bateu na cesta, voltou em cheio para o rosto da garota. 

— Seulgi! — Mingyu correu para ver a menina com o rosto levemente contorcido e as mãos sob o nariz. — Me desculpa! 

— Isso foi forte... — Ela gemeu em resposta. 

— Deixa eu ver. — Ele retirou as mãos da menina e não era ruim como parecia. O nariz só estava levemente avermelhado e ela lacrimejava um pouco. Talvez pela dor. 

Então, um pouco sem pensar, mas arrastado pelas memórias de infância quando via a garota machucada, Mingyu abaixou-se e estalou um beijo rápido no nariz da garota.  

Percebeu o que fez quando se ergueu e olhou levemente assustado para Seulgi. Ela não parecia incomodada, mas o olhava com uma certa ternura.  

“Ok, isso foi... Fofo” pensou ela. “Muito fofo. Quando ele ficou tão fofo assim?”. 

Houve uma sensação de querer puxar o rosto e beijar o nariz dele também, mas se controlou ao perceber que seria muito estranho, então apenas sorriu para o rapaz. 

— Beijinho pra sarar? — E ela não sabia o motivo de ter dito aquilo. Mas o rapaz riu e ela percebeu que gostava de fazê-lo rir. 

— Os tickets... — Mingyu desviou o olhar. As fichas começaram a sair aos montes da máquina e foi uma boa distração para ambos e da situação ligeiramente estranha no qual estavam inseridos. 

Metros de tickets saíam da máquina, até que finalmente parou e eles puderam juntas todos aos que já tinham, bem a tempo de o Sr. Willians informar que já estavam fechando o fliperama.  

Foi quando perceberam que ficaram um bom tempo ali. Foi realmente divertido e Seulgi até se esqueceu por um instante de Wendy, Joy e a festa e como estava magoada e um pouco raivosa com a amiga. 

Os tickets conquistados não lhe deram muitos créditos. Os brindes variavam entre pelúcias e jogos de tabuleiro, necessitavam de dias ali dentro para conquistarem. Mas foi o suficiente para trocarem por umas coisinhas bobas como dois frascos de bolinha de sabão temáticos do Ben 10. 

E foi aí que realmente voltaram a ser crianças. 

Porque Seulgi abriu o frasco e começou a correr em direção à saída fazendo inúmeras e inúmeras bolhas. Mingyu, claro, foi atrás. Imitando o gesto da garota e deixando rastros de bolhas para trás.  

Do lado de fora, a noite estava fresca e com uma brisa calma, fazia as bolhas flutuarem por todo o espaço. A cena era tão infantil que se misturava com as risadas dos dois adolescentes, que agora deram graças que não era movimentado ali. 

Uma coisa tão boba quanto fazer bolinhas de sabão, naquele momento, se tornou algo a coisa mais divertida para dois amigos de infância que corriam em círculos, esparramando a água no chão e deixando várias bolhas por onde passavam. 

Em um momento, Seulgi tropeçou e contou com a ajuda de Mingyu para não se espatifar no chão. Ela continuou gargalhando em seus braços e deu um impulso para se levantar com força, onde acabou não vendo que o rapaz precisou se abaixar um pouco para ajudá-la e deu-lhe uma cabeçada forte no rosto dele.  

— Aw! — Mingyu resmungou com um rastro de risada, enquanto Seulgi gargalhava com a situação. 

— Desculpa! 

Mingyu usou a mão livre para massagear o canto dos lábios, onde havia mordido com a cabeçada de Seulgi. 

— Acho que agora estamos quites — disse sorrindo, se referindo à bolada que havia acertado o nariz dela. 

Seulgi havia parado de rir, mas mantinha uma face dócil. O garoto percebeu que ele ainda se segurava no corpo dela, assim como ela também se segurava no dele. Houve uma troca de olhares e então, ela fez algo surpreendente. 

O segurou pelo ombro, puxou-o para baixo, ficou na ponta do pé e lascou um beijo nos lábios de Mingyu. Um selinho demorado e compartilhado. 

Quando se separaram, voltaram a se encarar e, embora estivessem levemente corados, suas expressões eram as melhores possíveis. 

— Agora, estamos — disse ela. 

— Sim, estamos — respondeu sorrindo. 

Ela se afastou do corpo do rapaz e fechou o frasco de bolhas, suspirando fundo. 

— Eu realmente não queria que a noite acabasse tão rápido. 

— Mas quem disse que acabou? — Com um sorriso torto, ele repetiu os gestos da garota e a segurou pelas mãos. — Ainda tem mais coisas que podemos fazer? 

— Sério. 

— Não é nem meia noite ainda... Vamos! 

E ele novamente a levou até seu carro. 

 

Quando eram crianças, Mingyu prometeu a Seulgi que assim que aprendesse a dirigir, iria levá-la para ver o pôr-do-sol na região da baía.  

Bom, não era o pôr-do-sol, mas era igualmente bonito ver a noite estrelada naquela área deserta, cercada por pedras, onde tinham uma vista da enorme Golden Gate.  

— Eu te disse que traria aqui — disse Mingyu após desligar o carro. — Desculpe não ser um pôr-do-sol... 

— É lindo! — respondeu a garota maravilhada. 

As estrelas eram abundantes no céu, que estava limpo naquela noite, e seus brilhos eram visíveis, com uma lua crescente imponente.  

Era realmente uma visão muito linda. 

Mingyu aumentou o som do carro, onde tocava numa rádio de pop genérico em geral, o tipo de música que eles costumavam ouvir e ficaram um pouco em silêncio enquanto apreciavam a vista. 

— Sabe, eu realmente estava com saudades — disse Seulgi. — Não havia percebido o quanto. 

— Eu também! — respondeu. — Desculpa, eu devia ter te procurado quando comecei a ficar mais ligado em redes sociais e tudo mais. Mas não pensei que se lembraria de mim. 

— Por que eu não lembraria? — perguntou. — Mingyu, foi o meu primeiro amigo quando cheguei aqui. Me ajudava até quando eu não conseguia falar inglês direito. 

— Sempre achei que sua memória fosse ruim. Quando a gente conversava, você desviada quando o assunto era sua infância e tudo mais. 

— Ah, isso... — Seulgi riu sem graça. — É diferente! Eu realmente não gostava de lembrar sobre minha vida lá na Coreia. Não era tão legal assim. 

— E a sua vida aqui? Como andou esses tempos?  

— Está ótima, não tenho o que reclamar... Temos paz, koreatown, bairro tranquilo... Estamos indo bem. 

— Isso é ótimo. 

— Claro, as vezes acontece umas coisas chatas... Como meu pai aparecendo bêbado no meu trabalho. 

— O quê?! — perguntou surpreso, já sabia como era o pai da garota por algumas histórias. 

— Ele começou a gritar e a me puxar pelo cabelo. Minha mãe chegou no momento, acho que ela já desconfiava que ele pudesse fazer algo. Depois fomos para casa e ele disse coisas horríveis para ela. E sabe, ele a humilhou sabendo que eu poderia ouvir tudo, nem imagino as coisas que ela ouviu dele a vida toda, quando eu não estava por perto. 

— Seul, eu sinto muito... 

— Eu não gostava de me lembrar da Coreia por isso, sabe? O problema é que ao tentar apagar essas coisas, eu apagava as coisas legais também. Eu tenho a lembrança de uma pessoa especial, mas não me vem nada a cabeça, é meio chato isso. 

— Eu... Sinto muito, Seul. 

Mingyu realmente não sabia bem o que poderia falar naquele momento, não era uma pessoa muito sensível com palavras, mas queria demonstrar apoio à amiga em tudo. Mas ela entendia os olhares do amigo, então sorriu. 

— Mas vamos falar de outra coisa, como foi o tempo em San Diego? 

— Foi melhor que eu esperava... 

 

O garoto passou os últimos vinte minutos contando sobre como foi sua vida na cidade. Apesar de ficar no mesmo estado, estavam longes um do outro.  

Mingyu contou sobre a escola, a família e a vizinhança. Sobre o time de basquete amador que jogava, já que a escola dissolveu o time. E sobre mais coisas diversas. Depois, foi a vez de Seulgi dar mais detalhes sobre como ficou sua vida em São Francisco. 

O papo estava bom e divertido, as vezes eles cantavam as músicas juntos e apreciavam a vista. Estavam realmente tendo um bom momento. 

Foi quando o celular de Seulgi começou a vibrar incansavelmente e ela interrompeu o que falava para olhar. 

Era uma chamada de Wendy. 

E então ela se lembrou de tudo daquela noite e de como seu humor foi arruinado em questão de minutos. 

Com uma carranca formada, rejeitou a chamada e viu que havia umas mensagens da garota, preocupada com seu sumiço. 

“Seul? Onde está?” 

“Você foi embora?” 

“Me desculpa” 

“A gente pode conversar?” 

 

O rapaz não deixou passar o suspiro pesado dela e resolveu sanar as dúvidas que tinha desde que saiu da festa. Quem sabe agora ela poderia falar... 

— Vocês brigaram? Você e sua amiga... Wendy, não é? 

— Não exatamente... — respondeu com um amargo na boca. 

— Quer conversar sobre isso? — perguntou cauteloso. 

Seulgi fitou o céu e as estrelas, pensando se queria ou não conversar sobre aquilo. Uma hora ou outra iria precisar confrontar Wendy, então seria bom ter uma opinião de terceiros para ajudar. 

— Eu interpretei errado uma situação — disse — mas ela também agiu de uma forma não muito legal. 

— Que situação foi? 

— Tem essa garota, Joy... — Continuou após suspirar. — É uma amiga nossa e quase uma irmã pra mim. Wendy é apaixonada por ela.  

— E não é recíproco? 

— Não, é sim. Na verdade, é recíproco até demais. Só que Joy vem de uma família conservadora demais para conseguir demonstrar direito. Acho que no fundo ela deve acreditar que é errado. Ela acaba agindo de uma forma um pouco babaca com Wendy. 

— E onde você entra nessa história? 

Seulgi contou sobre o que houve naquela noite. Explicou que Wendy a levou na festa para lidar com um possível desentendimento e como a garota ficou chateada em ver Joy agarrada com um cara. 

Cautelosamente, explicou que após a chateação de Wendy, elas conversam e tiveram um momento um pouco mais íntimo, com uma troca de beijos. Esperou para ver uma reação de Mingyu, como um julgamento ou um olhar mais acusatório, mas se acalmou quando viu que ele permaneceu da mesma forma, atencioso. 

Finalizou contando que elas provavelmente iriam para algo a mais, mas acabou que Wendy trombou com Joy no meio do caminho e parece ter se esquecido de Seulgi. E foi com aquilo que ficou chateada. 

— Ela me descartou num piscar de olhos — disse revoltada. — Se eu... Se eu não tivesse ido atrás, ia ficar que nem idiota procurando por ela.  

— Não foi legal mesmo, você tem razão em ficar chateada. Se fosse comigo eu ia ficar muito puto. Digo, não que ela tivesse a obrigação de ir em frente com você, mas ao menos avisar...  

— É meio minha culpa, também... 

— Seulgi?! Como...? 

— Eu esperei demais de Wendy, mesmo sabendo que ela tem uma certa dependência da Joy — respondeu Seulgi com um suspiro. — Conheço Wendy há tempos, ela não é do tipo hétero ou lésbica, tipo, gostar de meninas ou meninos. Ela gosta da Joy. Só. Ela nunca sentiu o mínimo de atração por outras pessoas, só por Joy. Eu deveria saber que qualquer coisa que ela quisesse comigo, seria em função de algo que envolvesse essa outra pessoa. 

— Isso não tira o peso dela estar errada. Você não pode se sentir culpada por ela não suprir uma expectativa que ela mesma criou em você. Ou melhor, não suprir da forma que fez. 

Seulgi ficou cabisbaixa e pensativa. Sua expressão caiu para a tristeza novamente, mesmo sabendo que Mingyu estava certo. 

— Mas, sabe, talvez tenha sido melhor assim. 

Ela o encarou curiosa. 

— Digo, pensa se no dia seguinte você acordasse e se deparasse com a face arrependida dela? Talvez doesse mais, não? Você ia confiar a ela uma experiência, a certo modo, importante e que marca. Vocês iam dormir juntas porque ela estava chateada e iria descontar a frustração em algo.  

— Sim, você está certo.  

Os dois então se silenciaram e ficaram cada um em seu canto refletindo sobre a conversa. O grave que saía das caixas de som do carro dava uma apaziguada no clima. 

Foi quando Mingyu riu. Seulgi já estava levemente nervosa com o rumo que as coisas tomariam naquele carro, sobretudo após pensar nas palavras e na situação em que se encontrava. 

— Essa conversa estragou nossos planos, não é? — disse descontraído. 

Ela riu também, um pouco nervosa. 

Seulgi não era burra e Mingyu sabia disso. Ela entendeu o motivo exato de ele tê-la levado a um lugar tão deserto no escuro da noite. E, até um momento, ela também queria. 

Por um momento naquela noite, eles se olharam diferente, ela notou. Mingyu agora era um homem, teve mudanças visíveis e tinha traços mais maduros, assim como Seulgi também cresceu. Eram dois adolescentes que envolvidos pelo clima amistoso do fliperama, se sentiram atraídos. Isso estava explícito: nos beijos, nos gestos e nos olhares. 

Mas ainda eram amigos de infância, talvez o tempo separado os fez se verem como pequenos estranhos. Mingyu iria embora no dia seguinte, não haveria nenhuma consequência para lidar.  

“Eu poderia confiar a primeira vez a ele...” pensou Seulgi quando o beijou. E ela poderia... Se ela se sentisse genuinamente pronta e não somente frustrada por Wendy. Ele somente lhe deu atenção. 

— Desculpa — disse ela, baixinho. — Eu estaria fazendo com você o mesmo que Wendy fez comigo.  

— É justo! 

— Desculpa, Gyu! 

O garoto se virou para ela e usando o polegar e o indicador, esticou os lábios dela para forçar um sorriso, uma brincadeira que eles faziam quando criança. 

— Por que está pedindo desculpas? Não fez nada de errado. 

Seulgi riu junto com o garoto e o clima pareceu bem mais leve entre eles. Genuinamente leve. 

— A noite acabou agora? — perguntou cautelosa e até um pouco triste, imaginando que o garoto pudesse não querer mais estender a noite. Até ficou um pouco mal quando o viu colocar o cinto e ligar o motor novamente. 

Mas então ele se virou para ela e esticando os lábios, olhou-a nos olhos. 

— É impressão minha ou você quer se livrar de mim, Seulgi Kang?  

— O quê? Não... — Se defendeu alarmada, até vê-lo gargalhar. 

— Sabe uma coisa que eu gosto aqui em São Francisco e senti muita falta em San Diego? 

— O quê? 

— Drive-Thru do Burger King aberto 24hrs.  

A garota deu uma risadinha, acompanhada do garoto e também prendeu o cinto, desta vez aumentando o volume do rádio. 

— Duvido que não tenha em San Diego... 

— Não achei outra forma para te chamar pra comer. 

— Boboca! — Ela deu um soquinho leve no braço do garoto. — Vamos! 

 

Sentindo-se mais leve, o caminho até o fast food foi bem divertido, repleto de conversas e de música.  

Seulgi podia cuidar de Wendy mais tarde ou até em outro dia. 

 

(...) 

 

Sunny virou um gole amargo e bateu o copo com força no balcão, soltando o mesmo som que sempre emitimos após tomarmos algo delicioso.  

— Mais um! — disse alto. 

O barman a olhava um pouco assustado e, ainda um pouco relutante, virou mais um pouco da garrafa na dose. 

— Moça, acho que você não está lidando muito bem com isso. 

— Besteira! — Gesticulou com um tapa no ar, a voz evidentemente embriagada. — Não vou fazer drama disso, eu aceito de coração o que eu realmente sou... 

Então ela levantou o copo no ar. 

— Uma lésbica! 

E virou novamente a dose, repetindo os mesmos gestos da última vez. 

— Claro, quando a ficha caiu eu fiquei um pouco... — Ela deu um grito agudo, que assustou o barman e voltou a falar como se nada tivesse acontecido. — Mas agora eu estou bem. 

— Você não me parece muito bem não. 

— Confie em mim... — gargalhou. — Eu to bem! 

— Eu não consigo confiar nem na forma em que você fala “Confie em mim”. 

— Mais um! — Estendeu o copo. O barman suspirou e pegou a dose na mão. 

— Quer saber, por que só ficar na vodka? Vou fazer algo aqui que vai gostar. 

— O quê?! 

— Vai ver... 

Sunny estava embriagada e aérea demais para prestar atenção no que o homem colocava em sua coqueteleira. Apoiou os cotovelos no balcão e as mãos pelos cabelos e ficou olhando para o nada, pensativa. 

A verdade era que quanto mais ela pensava em tudo, mais assustada ficava. Ela não achava evidências de que toda aquela situação fosse real, mas também não via nada que provasse o contrário. Sua cabeça era uma extrema bagunça naquele momento. 

E com o canto de seus olhos era possível ver Felícia há metros de distância aos beijos e abraços com aquela mulher e aquilo particularmente a deixava um pouco irritada. Mais alguns goles e podia jurar que iria até elas e roubaria um beijo desmazelado só pra saber como iria se sentir (e também porque queria um pouco da atenção dela, claro). 

— Olha, é normal ficar um pouco assustada — dizia o Barman. Misturava algumas coisas como suco e água, uma receita que ele aprendeu pra ajudar os clientes a ficarem sóbrios mais rápido. — Um surto assim é compreensível. 

— Surto? Que surto? — perguntou a mulher. — Por que diabos eu surtaria? 

A mulher dava pequenas risadas nervosas quando o homem deu o novo drinque que ela não sabia o que era, mas tinha um gosto bom e doce, levemente gasificado. 

— Só porque eu passei os últimos vinte anos desde que me tornei sexualmente ativa achando que sexo era a coisa mais entediante do mundo e não entendia o motivo? Ou porque desperdicei 10 anos num casamento fadado ao fracasso, que me impedia de ver as liberdades que o mundo podia me mostrar? Talvez porque eu passei anos da minha vida me perguntando o que tinha de errado comigo, quando aparentemente o problema era que os homens eram homens e não mulheres?  

— Bom, isso é... — O Barman parecia atordoado, sem saber exatamente o que falar. 

— Ou, ainda mais, porque eu descobri que sou lésbica há 10 minutos e já estou sentada num bar bebendo, enquanto a mulher que eu quero beijar já está beijando outra? 

Ela disse as últimas 10 palavras espalmando a bancada com uma certa força, deixando evidente seu estado embriagado/surtado/eufórico.  

— Você que é barman, me diga — disse —, essa vai ser minha vida a partir de agora? 

— Beber por outra pessoa? Bom, essa é a vida de todo mundo que tem sentimentos. 

Sunny gemeu frustrada e retomou a beber o drinque misterioso.  

— Mas olha só, você não precisa se prender em uma. Aqui tem várias mulheres bonitas e interessantes para você tentar beijar. 

— Eu não quero outras mulheres bonitas e interessantes, eu quero beijar aquela mulher bonita e interessante. — Apontou para Felícia ao longe.  

— Então, você pode ficar aqui bebendo e lamentando — disse. — Preciso atender outros clientes. Você vai ficar bem? 

— É, quem sabe... 

Sem ter nada o que fazer, o Barman simplesmente foi para outros cantos do bar, mas sem dar um olhar preocupante e curioso na mulher. 

Sunny ficou ali, uma mão apoiada na bochecha, enquanto a outra a ajudava a finalizar o drink doce, que por sinal ainda não sabia exatamente o que era. O bar ainda tocava uma música bem calma, enquanto o palco era preparado para mais uma apresentação. 

O bar até que ainda estava cheio para o horário, mas muitas pessoas começavam a subir para a boate. Ela até considerou, vai que lá em cima, no meio da barulheira, pudesse se achar nesse mar de confusões que era sua cabeça no momento. Ou, na pior (ou melhor) das hipóteses, entre bebidas e músicas, tiraria essa dúvida que agora lhe perturbava: 

Ela realmente gostava de mulheres? 

Seus pensamentos se esvaíram ao olhar para o lado e ver que Felícia ainda continuava atracada com a mulher. Ela revirou tanto o olho, que pensou que não poderia mais colocá-lo no lugar novamente. Que diabos elas ainda estavam grudadas? Como tinham tanto fôlego? Havia mesmo a necessidade de trocarem tanta saliva?  

Ok! Ela admitia. Talvez ver Felícia com outra pessoa, daquela forma, a irritasse um pouco.  

E ela achava aquilo uma loucura. 

Então, antes que pudesse ficar mais irritada ainda, largou o copo vazio no balcão e se levantou para sair dali o mais rápido possível.  

Não estava tão tonta quanto imaginava, sua vista estava nítida e até conseguiu caminhar em direção ao banheiro sem cambalear. Provavelmente a embriaguez não estava tão severa ou aquele líquido doce realmente ajudou a amenizar os efeitos das várias doses de vodka que havia tomado. 

Uma vez dentro do banheiro, ela fechou a porta e agradeceu pelo banheiro daquela área ser único. Se apoiou na pia e começou a lavar o rosto, que agora estava levemente avermelhado, talvez pela bebida, e seus olhos brilhavam. 

— Isso é loucura... — disse olhando seu reflexo. — Se recomponha, Lee. Se recomponha.  

Os traços de seu rosto a fazia lembrar de sua irmã, assumida desde a adolescência. E isso a fazia questionar... Tinha Chaerin, depois veio Jessica e Yuri. Por fim, havia Seulgi, que aparentemente tinha sérias tendências a também gostar de meninas. Com tanta gente assim ao redor, como nunca percebeu? Nunca houve uma dica? 

Nunca! 

Nunca? 

Pensou em Seulgi. Ela não era assumida, mas sabia que havia esse lado por encontrar revistas impróprias no quarto da garota, escondidas sob o assoalho. Lembrou-se sutilmente do dia em que achou as revistas e começou a folhear. Prestou atenção nos detalhes das mulheres, os detalhes mais minuciosos, que não costumava se importar quando saia com um homem, por exemplo. 

Quais eram os detalhes? Ela ainda se lembrava perfeitamente das imagens das revistas. As curvas delicadas das mulheres, os formatos dos seios, as partes íntimas perfeitamente desenhadas... Todo aquele traço feminino, que parecia tão sensual.  

Sunny percebeu que as lembranças da revista estavam fortes quando sentiu que a torneira ainda estava aberta, deixando, ironicamente, uma bagunça molhada na pia.  

— Aish! — rosnou jogando um punhado de água gelada no rosto quente para afastas as imagens e fechou a torneira. Quando se secou, se encarou no espelho novamente. 

Os sinais estavam ali. Sempre.  

Ela jamais se interessou nos homens, ou nos corpos masculinos. Admirava quando via um homem musculoso, mas não era uma apreciação.  

Ela jamais apreciou um corpo com o qual saiu com tanta admiração quanto apreciou os daquela revista. 

— Eu sou muito lésbica! — gemeu frustrada para si mesma.  

Pareceu que ela se sentia exausta após finalmente ceder a si mesma. O que restava agora era digerir a ideia, mas isso só viria com o tempo. 

Aquela era uma grande coisa. 

Saiu do banheiro após enxugar o rosto e estremeceu ao ver que Felícia agora estava sentada na mesa, sozinha. Queria tanto ver a mulher sozinha, que agora não sabia exatamente o que fazer, pois de jeito nenhum iria olha-la da mesma forma. 

— Você está bem, Lee? — perguntou a ruiva quando Sunny se aproximou.  

Não era hora para Felícia vir com perguntas difíceis... 

— Sim, eu tô só meio... Tonta. — Sunny deu uma risada. Percebeu que havia uma garrafa de soju na mesa e deu um olhar curioso. 

— Vi no cardápio do bar e achei que você pudesse gostar... Na verdade, eu também sempre tive vontade de experimentar... 

— Sim, eu adoro! 

Sunny nem deixou a mulher terminar. Abriu a garrafa, serviu um copo para Felícia e virou gargalo da garrafa na boca, saciando-se num gole generoso. 

O gole desceu mais doce do que a própria bebida já era e ela percebeu que uma boa parte da garrafa já havia esvaziado. Felícia assistiu assustada. 

— Onde está sua... Amiga? — perguntou. 

— Ela vai ser a próxima a se apresentar, então foi se preparar. 

— Ah, sim! 

Bom, então além de vê-las se beijando, ela seria obrigada a assistir a “lucky bitch” se apresentar? Não havia como a noite ficar confusa ainda. 

— Lee... Escute... — Felícia coçou o cabelo, parecendo meio nervosa.  

— Diga! 

— Você ficaria chateada se... Eu fosse embora com ela? 

“Sim”, pensou. 

— Ah, não... — disse forçando um sorriso. — Não tem problema. 

— Mas eu vou ficar aqui com você até a hora que quiser embora, tudo bem? — disse, visivelmente se sentindo meio mal por aquilo. — Digo, eu te convidei, sei que é chato eu ir embora assim... 

— Não se preocupe comigo, sério — disse. — Você parece ter gostado dela... 

Foi extremamente amargo falar aquilo, mas precisava manter uma certa pose. Estava, sim, chateada e sentia-se jogada de escanteio. Mas não sabia se aquela sensação era pela sua recém descoberta atração pela colega ou por questões morais. — Na verdade, ela sabia, mas queria fingir que não. 

Um silencio se formou na mesa e tanto Sunny quanto Felícia pareciam inquietas e a baixinha realmente estranhou um pouco o nervosismo da colega. Um nervosismo ansioso e aquilo despertou sua curiosidade, mas havia algo que a deixava mais curiosa ainda. 

— Posso te perguntar algo?  

— Claro! — respondeu bebendo o soju. 

— Quando foi que você percebeu que, ahn... — pigarreou — era lésbica? Desculpe se eu estiver sendo muito intrometida,  

— Não, imagina — riu. — Deixe-me pensar... Acho que foi em algum momento da faculdade...? Ou foi entre o final do ensino médio e o começo da faculdade... 

— Por algum motivo imaginava que iria me responder na adolescência.  

— Por incrível que pareça, eu fui uma adolescente bem recatada. — Felícia riu novamente. — Era tímida e bem quieta, não costumava prestar muita atenção nisso. Mas eu também tive uma puberdade tardia, eu já tinha 15 anos quando comecei a sofrer as mudanças hormonais, sabe? Quando fiz 17 me recomendaram a praticar esportes e eu fui fazer natação e, bem... É um ambiente onde você tem a possibilidade de analisar as pessoas de mais de perto. Acho que foi ali que eu percebi que pra mim era mais agradável observar as meninas, ainda que de uma maneira inocente, do que os meninos.  

— E como você lidou? 

— Muito bem, na verdade — disse com o olhar distante, relembrando da época. — Meus pais viveram em Haight Ashbury, você sabe, o bairro hippie, então, eu não tenho nada conservador na tinha família, acho que isso ajudou muito a não me importar com essas questões de forma negativa. 

— Deve ser bom não surtar com essas coisas... — Sunny disse quase num sussurro, sem olhar para a mulher. Era mais como algo dito para ela do que para agregar na conversa. 

— Mas é compreensível com quem demora — respondeu a mulher com um sorriso dócil. — Somos ensinados desde cedo que isso é errado, que isso não é natural, então ninguém chega a considerar isso. É normal enlouquecer ou tentar negar a priori, o que importa é o que será feito após isso. 

Felícia olhava intensamente nos olhos de Sunny. Não sabe se era uma impressão devida a leve embriaguez, mas pareceu como se a mulher falasse diretamente com ela, como um conselho. 

— Quando passa o susto cabe a você decidir se você vai se abraçar ou se reprimir. Honestamente, parece uma escolha fácil. 

— Bom, para algumas pessoas pode não ser tão fácil, depende muito da situação... 

— Talvez eu possa estar com a visão muito limitada, eu entendo que há contextos e contextos, mas, digamos que haja uma situação com uma pessoa que já não precisa mais se preocupar com o pensamento de pessoas ao redor dela. Digamos, uma mulher independente que já saiu da casa dos pais e tem a própria vida... Por que seria difícil para ela se aceitar?  

— Talvez possa ser uma novidade chocante para ela... 

— Talvez! Então ela iria se reprimir, continuar saindo com homens e continuar, de certa forma, sofrendo com coisas que nunca darão certo, porque não é a natureza dela e tudo bem? É como sofrer deliberadamente. É uma forma terrível de violência contra si mesma.  

 E se o soju estava doce, começou a ficar amargo. As palavras da amiga lhe atingiram como um soco na boca de seu estômago. Ela compreendeu e até concordava, mas não deixava de estar nervosa.  

Quando abriu a boca para responder, no entanto, as luzes do bar diminuíram e outras mais fortes se acenderam em direção ao palco, chamando a atenção de geral. 

“Ah, pronto!”, pensou Sunny, bufando. Não estava nem um pouco afim de assistir aquela apresentação, mas não queria fazer desfeita com a amiga. 

Felícia, que estava sentada de frente para o palco, a olhou com um sorriso. 

— Vem pra cá! — disse. 

— Como? 

— Traz sua cadeira. Sente do meu lado. 

Não seria nem louca de recusar e agradeceu por estarem longe do palco. Arrastou sua cadeira o mais próximo possível e assim que se sentou já foi capaz de sentir o calor do corpo de Felícia contra o seu. 

— ... E eu faço covers de cantoras do cenário pop... — disse a mulher no palco, onde o começo de sua fala Sunny não conseguiu ouvir. — A primeira música se chama “Send My Love” da Adele. 

Começou a dedilhar o violão e logo a música foi tornando forma, numa melodia conhecida aos ouvidos de Sunny. Felícia também pareceu se levar pelo ritmo, mas estranhamente também parecia estar colando seu corpo ao dela. 

— This was all you, none of it me. You put your hand all over my body and told me... You told me you were ready... 

Sunny precisou dar um braço a torcer e admitir que a voz da mulher era linda e estável e deixava a música ainda mais audível. Era realmente gostoso de ouvir, então deixou a inveja e a birra de lado e logo começou a apreciar a música com umas goladas no álcool. 

— Send my love to your new lover, treat her better. We’ve gotta let go of all out ghosts. We both know we ain’t kids no more... 

Não demorou muito para que estivesse completamente envolvida e percebeu que seus lábios começaram a se mexer com a música, cantando junto silenciosamente. Na real, aquilo estava animando-a. 

Foi então que sentiu Felícia se mexer, como se fosse se espreguiçar, retirou seu braço direito, que estava até então entre elas e cuidadosamente o colocou nas costas da cadeira.  

Sunny estremeceu quando sentiu a mão quente de Felícia tocar o seu ombro, apertando-o de leve. No entanto, a mulher parecia impassível, como se não tivesse feito nada. E então já não havia nada contra seus corpos, o que deu espaço para que ela se aconchegasse mais — na verdade, parecia que ela estava realmente incentivando isso.  

Deu um sorriso quando se aproximou mais e sua colega não afastou, do contrário, até apertou mais as mãos nos ombros dela. Sentiu um ar quentinho ali e jurou que poderia ficar naquele abraço por muito tempo. Ela se virou só para ter certeza de que a mão de Felícia continuava em seu ombro e, por puro instinto, acabou se virando um pouco mais, a ponto de conseguir ver a ponta do bar... E o Barman que lhe atendera mais cedo as olhando com um sorriso no rosto. 

 

A mulher era um demônio! Mal piscava, a olhava com o canto dos olhos e sorria com a ponta dos lábios. Era como se soubesse que estava surtindo algum efeito em Sunny e aprecia se divertir com aquilo.  

E Sunny não reclamaria nem um pouco daquilo. 

Ok, o tempo passou e ela parecia se aconchegar mais e seu coração parecia bater mais ainda. Mas estranhamento aquilo não a incomodava. Todos os seus pensamentos de anteriormente não a incomodavam. Estava aninhada com uma mulher e não estava nem um pouco incomodada. Isso nunca aconteceu antes, nunca havia se sentido tão a vontade num encontro. 

“Então por que surtar?”, pensou.  

As vezes seus olhos se cruzavam e elas compartilhavam um sorriso enquanto assistiam à apresentação, que ia de música em música, acústico em acústico, balada em balada. A cada vez que se olhavam, ficava mais intenso e Sunny, mais nervosa. 

Até que chegou um momento. A cantora retirou o violão do colo e posicionou um teclado a sua frente. 

— Acredito que muitas pessoas daqui devem odiar essa música, mas foi a primeira que produzi um arranjo novo para meus covers, então eu acabei tendo um carinho enorme por ela.  

Enquanto a mulher tocava as primeiras notas calmas e lentas no teclado, envolvendo toda a plateia, Sunny se esticou um pouco para encher seu copo com a bebida quando começou a voz suave, melódica... Cantando a música mais improvável: 

— This was never the way a planned, not my intention... 

Foi ali que Sunny teve certeza que algo ou alguém estava tirando sarro da cara dela. Porque aquela garota, cantar aquela música era quase um tapa de deboche na sua cara. Só a fez lembrar que ela também queria beijar Felícia, que a propósito, estava com a mão em seu corpo, aconchegada a ela.  

— Só pode estar brincando comigo... — resmungou um pouco alto.  

Quando se inclinou para pegar o copo e seu corpo desgrudou da cadeira, a mão de Felícia caiu do ombro para sua cintura rapidamente. Não sabe se foi proposital ou se foi devido ao seu movimento, mas foi o suficiente para fazê-la enrijecer. 

— Você está bem? — Felícia se inclinou para perguntar, sem perceber que agora estavam próximas demais. 

— S-sim...  

Mas a mulher não pareceu convencida, pois continuou a olhando. Sunny desviou o olhar para engolir a bebida, mas já estava inquieta demais. 

“Faça”, dizia uma voz no seu interior. “Só faça, você está curiosa, com vontade... Faça!” 

Felícia a olhava de uma forma muito estranha, intensa, quase como se estivesse lendo seus pensamentos. E aquilo só a deixou mais nervosa ainda. Aquela troca de olhares... Significava alguma coisa. 

Ela também já estava cansada do estranho formigamento dentro de si. Iria ficar perturbada pelo resto da noite, então somente respirou fundo. 

E a voz da mulher parou por um instante, só as teclas foram ouvidas. 

A mão em sua cintura estava quente, apertando-a, quase como um claro incentivo. Felícia também pareceu ir em sua direção de uma maneira bem sutil. 

Bem, foda-se! 

No instante seguinte, sem pensar, seus lábios já estavam urgentemente presos nos daquela mulher linda e interessante. 

“I kissed a girl and I liked it...” 

Sunny já não sabia se aquela era a música em sua cabeça ou se era sua própria voz entoada em seus pensamentos. 

Não sabia dizer se era diferente — ou o melhor, o que era diferente — do beijo de homem, mas certamente havia algo ali. Talvez fosse Felícia, talvez fosse o ambiente, talvez fosse qualquer coisa, mas o cheiro doce invadiu suas narinas e ela se sentiu em casa, em paz. 

Mas quando a amiga não retribuiu, soltou os lábios. Temendo que tivesse feito algo errado, ou lido a situação de modo equivocado, começou a se afastar, o coração quase escapando pela boca e a respiração falha, batendo nos lábios entreabertos da amiga. 

Ela agora estava assustada, sem saber o que fazer. Como iria se explicar para Felícia? O melhor seria pegar suas coisas e sair correndo, talvez fosse menos constrangedor. 

Foi quando sentiu outra mão lhe segurar pela nuca, de uma maneira firme e lhe puxar novamente em direção à boca da mulher. E aí Sunny fechou os olhos e sentiu que era o certo. 

Não era adolescente e aquele não era seu primeiro beijo. Ela sabia beijar e foi o que fez: beijou a mulher que queria, com toda a experiência que havia adquirido. E foi muito, muito bom.  

Era maravilhoso sentir o deslizar da língua junto um arranho leve em sua nuca e o carinho que a mulher fazia em sua cintura. Era uma situação maravilhosa e ela se sentia nas nuvens e seu corpo completamente em êxtase.  

Quando se separaram, Felícia levou os lábios até os ouvidos de Sunny e sussurrou: 

— Parece que agora você que é a “vaca sortuda”.  

E elas riram e se encararam. Agora seus olhos brilhavam, havia uma satisfação, não mais intensidade ou nervosismo. Mas um clima bom e leve. 

Trocaram mais alguns beijos e então finalmente se aquietaram para continuar vendo a apresentação, que já estava em outra música. Agora, definitivamente aninhadas e Sunny, com o coração mais leve. 

E feliz! 

Olhou para trás por curiosidade e viu o Barman com um sorriso largo e orgulhoso nos lábios. Deu uma piscadela e disse “De nada!”. Sunny balançou a cabeça sorrindo e agradecendo. 

 

Ela beijou uma garota. Ao som da música mais hétero o possível sobre um beijo entre garotas. 

 

E, bem, ela gostou disso! 

 

Quando a apresentação acabou e as luzes se acenderam, ela percebeu o quão surreal era toda a situação e, se antes optou por não agir como uma adolescente, agora sentia que era a hora de ficar nervosa e tensa. 

Inicialmente foi como se um grande peso saísse de si, aquela sensação de alívio que faz seu coração parar de bater rápido aos poucos e a respiração vai normalizando, mas o nervosismo e até uma pintada de constrangimento ainda estavam ali.  

Na luz era possível ver melhor os olhos brilhantes da amiga e o sorriso dócil que ela dava a ela. Era carinhoso e maduro, sem nenhuma intenção. Era lindo. 

— Bom, isso foi... — disse com uma risada nervosa. — Diferente do que imaginei nessa noite. 

Felícia riu com a colocação. Sunny percebeu que a mulher ainda não a havia soltado de seus braços e sentiu confortável com aquilo. 

— Acho que o Jerry não estava tão errado, não é?  

Elas compartilharam um sorriso e um olhar e o silêncio voltou a ficar presente, mas dessa vez era um pouco mais agradável. Os dedos da mulher que ainda estavam presos em seu corpo faziam um carinho lento e gostoso. 

A ruiva quebrou o silêncio para contar, rapidamente, que no momento em que Sunny foi ao banheiro, o Barman acabou deixando escapar um resumo bem resumido da conversa que tiveram. E ela achou aquilo incrivelmente fofo. 

“Mas que Barman fofoqueiro...”, pensou Sunny com um sorriso.  

— Desculpe se eu... Eu queria que você se sentisse confortável — disse a mulher. — E, para ser honesta, eu só me arranjei com ela porque achei que você... Bem... 

— Está tudo bem, de verdade — respondeu. — É tudo meio surreal ainda. Eu realmente não esperava... 

— Antes tarde do que nunca, não?  

— Sim! — respondeu sorrindo. 

Aquele de instante de tensão voltou e era como se elas se comunicassem com o olhar. Novamente Felícia parecia estar puxando-a com a mão e novamente veio aquele pensamento de se jogar no pescoço da mulher. 

Bom, foi o que fizeram. Porque foda-se, ela esperou anos para se sentir confortável num beijo, anos para beijar sem estar com o pensamento de que precisava provar algo a si mesma e lá estava. 

E desta vez se beijaram até perder o fôlego, quando se separaram Sunny precisou puxar uma lufada de ar e viu a mulher estremecer pra se recuperar. E seus olhares diziam algo: aquele beijo acendeu algo a mais. 

— Ouça — disse Felícia se ajeitando, olhando determinada. — Se quiser, eu posso desmarcar com... 

Sunny vibrou de ansiedade e antecipação quando já previu o final da frase e o que veria a seguir, mas sua excitação logo passou quando a fala da mulher foi interrompida pelo som do seu celular. Ela o pegou desesperada, determinada a mandar a ligação para a caixa postal, no entanto, o nome de Seulgi no visor a fez desistir. 

— Desculpe, eu preciso atender — disse pedindo desculpas com o olhar, a outra acenou positivamente. 

— Fala, Seulgi! — disse um pouco impaciente e urgente.  

— Mãe, onde você está? — perguntou cautelosa. 

— Eu estou... — gaguejou um pouco sem saber direito que responder, uma vez que seu cérebro não estava funcionando direito. — Eu saí com uma colega do trabalho, por quê? 

— Você vai demorar? É que eu estou em casa, e... 

— E? 

— E-eu... Bem, eu acho que perdi minha chave. 

Sunny reprimiu um gemido frustrado e seus dedos se apertaram no celular, num lamento silencioso. 

  — Você perdeu a sua chave, Seulgi? — disse num lamurio, sentindo-se completamente decepcionada. — Como você conseguiu? 

— Eu não sei, me desculpa.  

— Você não foi com Wendy? Não tem como ficar na casa dela? — perguntou com esperança, tentando não parecer desesperada. 

Mas se preocupou quando Seulgi ficou em silêncio e ouviu um suspiro do outro lado da tela. 

— Não estou com Wendy. 

Sunny enrijeceu e sua áurea séria foi percebida pela mulher ao seu lado. 

— Seulgi, se você foi a essa festa com Wendy, por que foi embora sem ela? — perguntou séria. 

— Eu queria vir embora, mas ela não quis... — Seulgi mentiu. E Sunny sabia exatamente que a menina estava mentindo. 

— Está sozinha? 

— Um amigo está aqui comigo.  

Soonkyu então suspirou derrotada, amargurada, irritada e quase tudo de ruim. Não tinha o que fazer. Passou o dedo na testa e respirou. 

— Ok, fique aí com ele que chego daqui a pouco — disse sem emoções. — Tome cuidado. 

 Te amo mãe. 

— Te amo também. 

Quando desligou olhou com um pesar para Felícia, que mantinha a mesma face, pois, claro, havia ouvido a conversa. 

— Eu vou precisar ir — disse e seu rosto pareceu quase doloroso, lamentando-se. — Minha filha ficou presa pra fora de casa... 

— Ah, entendo — respondeu a mulher, também parecendo decepcionada. — Eu te levo até o táxi. 

 

A contragosto, Sunny se levantou e arrumou suas coisas. Pagou sua comanda antes de sair e lá fora, sentindo a brisa refrescante batendo em sua pele, foi como se tudo ficasse as claras. E veio uma sensação de tristeza ao saber que aquela noite, tão confusa e tão boa, havia acabado. 

Elas caminhavam lentamente, a mão de Felícia ainda em sua cintura. Iriam prolongar o contato até onde pudessem. 

Havia um ponto de táxi ali perto, com um senhor de boina sentado com um rádio de pilha. Ele pareceu feliz ao vê-la escolhendo o seu táxi para levá-la. 

— Volte em segurança — disse a mulher sorrindo. 

— Obrigada! — respondeu retribuindo o sorriso. — E obrigada pela noite. 

Ficou um pouco acanhada, mas a outra resolveu se despedir com um beijo terno nos lábios, por alguns segundos. 

— A gente vê na segunda? 

— Claro! 

E com um cumprimento final, ela enfim entrou no táxi, onde o senhor já estava a postos. Ela deu o endereço e observou pela janela o carro se afastar pelas ruas coloridas daquele bairro de São Francisco. 

Felícia permaneceu ali até onde ela pôde ver e então o táxi virou a esquina e toda aquela noite se tornou apenas memórias felizes e confusas na mente de Sunny. 

— Vocês me lembram minha filha e a esposa dela — disse o senhor olhando-a pelo retrovisor.  

Ela sorriu com o comentário e recostou no banco, apoiando a testa no vidro da janela. 

 

— Seulgi filha da puta — sussurrou para si mesma. 

 

(...) 

 

 

Sunny sentiu-se levemente tonta. Talvez o álcool finalmente estivesse fazendo efeito ou só agora ela estaria percebendo seus efeitos.  

Estava sonolenta até que viu o táxi virar na esquina da sua casa e ir parando aos poucos. De lá dentro mesmo, conseguiu ver Seulgi sentada na escada junto de um rapaz alto. Havia embalagens de lanches e batatas do Burger King por ali e a garota tinha um copo de plástico na mão. 

Eles estavam conversando animados quando notaram a presença do táxi e se levantaram. Soonkyu pagou o taxista e deu uma gorjeta, agradecendo-o pela viagem. Quando saiu do carro e se aproximou dos dois, achou o garoto familiar demais. 

— Mãe — disse Seulgi a cumprimentando. 

— Boa noite, Srta. Lee! 

— Mãe, lembra do Mingyu? — Seulgi apontou pro garoto que agora tinha um sorriso tímido. 

— Mingyu? 

Aquele nome não era estranho e quando o associou ao rosto, lembrou-se de um garoto que vivia usando camisa de futebol e arrastava Seulgi pelo bairro inteiro, indo no fliperama e no bondinho, estava sempre jantando com elas, pois quase nunca tinha gente em sua casa. Mas da última vez que o vira, tinha uns 13 anos e um metro e meio.  

— Mingyu — repetiu, desta vez surpresa e se aproximou para cumprimentar o garoto — quanto tempo. 

— Bom te ver, Srta. Lee. 

— Bom te ver também — sorriu. — Veio passar o verão em São Francisco? 

— Só vim resolver umas coisas, estou me mudando pra Los Angeles — disse. — Fui ver um amigo na festa e acabei trombando por acaso com essa gomdori aqui. Resolvi dar uma carona.  

Seulgi revirou os olhos e arrancou risos de sua mãe e de Mingyu. Logo iria se formar um silêncio e Sunny estava se sentindo meio estranha, queria entrar logo, então não poderia ficar muito ali e nem conversar com o rapaz, embora quisesse, pois era um bom menino. 

— Eu agradeço por cuidar dessa descuidada — brincou. — Só não perde a cabeça porque tá grudada no pescoço.  

A mulher bagunçou o cabelo da menina de leve, que tentou se afastar dos toques da mãe rindo. Então lhe estendeu um saco fechado do fast-food, que ainda estava com um lanche e batatas. 

— Deixamos um para você. — Seulgi disse e quase que instantaneamente, Sunny se sentiu um pouco mal por ter ficado irritada com a garota interrompendo sua noite. — Eu vou entrar em um minuto. 

— Tudo bem, mas não demora. Já está tarde — avisou. — Boa sorte em Los Angeles, Mingyu! 

— Obrigado, Srta. Lee. Boa noite!  

Sunny se despediu do menino e entrou em casa, fechando a porta, mas obviamente deixando-a destrancada para a garota. 

Seulgi e Mingyu então ficaram em silêncio pela última vez e pareciam um pouco acanhados, mesmo que a última hora tenha sido de risadas, histórias e conversas. Mas agora era a hora da despedida e não sabiam quando iam se ver novamente. 

— Acho que agora a noite acabou — disse ele com um sorriso torto, balançando o pé no chão com a mão no bolso. 

— É — respondeu com um sorriso tímido. — Obrigada por hoje, Mingyu. Foi muito divertido. 

Ele acenou com a cabeça e continuaram com aquele silêncio. Novamente ele esticou os lábios dela usando os dedos e fingiu um olhar sério pra ela. 

— Ei, não pare de ir no fliperama, ouviu? Quando eu voltar, nós vamos ter revanche! 

— Você não cansa de perder?  

— Aish! — resmungou num tom de brincadeira e soltou o rosto dela, rindo juntos. — Mas falo sério. 

— Então, você vai voltar? 

— Eu vou tentar passar aqui, estamos duas horas mais perto agora... De San Diego para cá eram 8 horas, e de Los Angeles são só 6. Se você pagar a gasolina, eu venho sempre que quiser, gatinha.  

— Babaca! — Seulgi bateu no ombro do garoto, que havia achado graça da própria piada. Quando se silenciou, deram um suspiro e agora não havia mais como adiar a despedida. — Boa sorte em Los Angeles, Gyu! 

— Obrigado! — respondeu ele com um sorriso sincero e acenou para que ela se aproximasse dele, dando um abraço terno na garota. — Vem cá! Foi bom te rever.  

— Vê se não some. 

— Estou com seu número agora. 

Eles se soltaram do abraço, mas não se afastaram totalmente, se encarando um pouco de perto e os rostos leves. Mingyu hesitou um pouco, mas tentou se abaixar em direção à ela e Seulgi entendeu, mas não recuou.  

Então, por uma última vez naquela noite e talvez na vida, eles se beijaram. E agora não foi só um selinho, foi um beijo um pouco mais profundo. 

 

E o que Sunny menos esperava quando abriu a porta para perguntar se eles trouxeram refrigerante pra ela tomar com o lanche que trouxeram, já que ela tava morrendo de fome e queria tomar algo que não fosse álcool, pois já estava estranha demais pra isso, foi ver sua filha beijando um rapaz bem na sua frente. 

O barulho da porta abrindo assustou os dois, que se afastaram rapidamente e Sunny ficou levemente constrangida em ter interrompido aquele momento — mas interiormente se sentia um pouco vingada, claro —, então tentou fingir que não viu. Achou o copo na mureta da escada. 

— Então, é melhor eu ir... — Mingyu disse após pigarrear nervoso. — Tchau, Seulgi. Tchau Srta. Lee.  

— Tchau, Gyu! 

— Tchau! 

Elas ficaram lá fora até o rapaz voltar para o carro e o acompanharam em vista até vê-lo sumir da rua. Então o silêncio da noite, típico numa rua tão calma como a de Koreatown, se fez presente. 

— Então, Mingyu, hein? — Sunny tentou quebrar o clima constrangido, mas recebeu um gemido frustrado da filha. 

— Pode fingir que não viu? — Seulgi disse.  

Elas entraram para dentro e Sunny fechou a porta, tirando os sapatos na soleira do corredor, assim como a menina fez. 

— Com prazer! Não é como se eu quisesse ter visto, sabe? 

Foram juntas até a cozinha, onde Sunny se sentou para voltar a comer o lanche e Seulgi fuçava algo na geladeira. 

— Ao invés disso, eu quero saber o que houve entre você e Wendy. 

— Eu já disse, mãe — respondeu, o rosto parecendo como se tivesse sentindo alguma dor. — Eu queria vir, mas ela não. 

— E você acha que consegue mentir para mim? — Sunny beliscou uma das batatas. — Posso ver na sua cara. O que houve? 

Seulgi pegou uma garrafa de água e deu uns goles, suspirando. Sua mãe não a pressionava com palavras, continuava comendo o lanche normalmente, mas esperava por uma resposta. 

Uma resposta que ela não queria dar agora. 

Falar sobre o que houve com Wendy iria implicar em ter que explicar algumas coisas que ela não sabia se estava pronta para explicar. Isto é, coisas que nem ela mesmo entendia. Como ela ia contar para a mãe que gostava de meninas, mas naquela noite começou a se questionar se gostava de meninos também, uma vez que Mingyu certamente a atraía?  

Claro, sua tia era gay, então provavelmente sua mãe não iria se importar muito, mas uma coisa é pessoas ao seu redor serem, outra coisa é a sua filha ser. Ela queria ter a conversa, mas estava exausta demais. Queria entender os próprios sentimentos primeiro. 

— Podemos falar disso amanhã, mãe? Eu estou um pouco cansada.  

Talvez amanhã ela já tenha esquecido, já que era perceptível que ela estava um pouco bêbada devido ao cheiro de álcool e aos seus olhos brilhantes. Também notou que o batom dela estava levemente borrado, o que a fez pensar que talvez não tivesse ligado em boa hora.  

— Claro! Quando quiser. Deveria ir se deitar se está tão cansada. 

— Sim, irei. — Fechou a geladeira e caminhou até a mulher, se abaixando para dar um beijo em sua bochecha. — Boa noite, mãe. 

— Boa noite, querida. 

 

Quando ficou sozinha na cozinha, Sunny suspirou. Ainda estava se sentindo um pouco estranha. Não sabia dizer exatamente o que era, mas como um nó no estômago e uma certa tensão nas coxas, que a fazia apertar levemente enquanto comia. 

A surreal noite ainda passava em sua memória de forma lenta e ela apreciava aquilo. Não queria afastar aquelas memórias, pois pela primeira vez, um “encontro” gerava memórias boas. E como ela se lamentava não poder ficar mais lá, se descobrindo e explorando mais a natureza. 

 

Sunny suspirou quando terminou de comer. Juntou as embalagens, jogou no saco maior e o saco foi jogado no lixo. Ajeitou o que tinha pra ajeitar na cozinha e subiu para seu quarto, passando pelo de Seulgi para conferir a garota, que já estava dormindo. 

Por algum motivo, ao entrar no seu quarto, sentiu-se um pouco ansiosa. Ligou a televisão e foi no banheiro limpar a maquiagem e escovar os dentes. Sua cabeça ainda tocava a música ambiente do bar e por um momento sentiu-se como se não estivesse em seu quarto, mas lá, com todas aquelas pessoas. 

Sentou-se na cama com os olhos fixados na televisão numa programação noturna qualquer. Ela ainda estava com as roupas de trabalho. Começou a desabotoar a camiseta branca e quando terminou a retirou, jogando na cama. 

Seu pescoço doía, assim como os ombros, de tanto cansaço. Ela se espreguiçou, estalou os ossos e levou as mãos até a junção do ombro com o pescoço para massagear.  

Mas o contato de seus dedos com a pele foi tão leve, que lembrou dos dedos de Felícia em sua nuca, quando se beijaram. 

E sem pensar muito, começou a imitar os arranhões leve que a mulher deu, fechando os olhos e imaginando que não eram suas mãos, mas sim as da mulher. O arrepio foi real e ela jurou que sentiu o quente dos lábios da amiga nos seus. Abriu os olhos quando percebeu que aquela foi uma sensação muito gostosa. 

— Jesus! — sussurrou para si mesma, um pouco assustada e então olhou para as suas mãos. 

Será que era isso? Essa sensação estranha era mais uma tensão de imaginar o que poderia ter acontecido se não tivesse ido embora tão cedo, se sua colega realmente tivesse desmarcado para ficar com ela? E, o mais importante: o que exatamente teria acontecido? 

Sunny bufou tentando tirar as memórias de sua mente. Se não se cuidasse, poderiam evoluir para algo a mais. Caminhou no quarto para pegar uma camisa surrada que usava como pijama, mas não chegou a colocar, porque assim que se sentou, percebeu que não conseguia tirar as imagens da cabeça.  

Quando retirou o sutiã, uma brisa gélida bateu em seu tronco branco e magro. Foi quando percebeu que estava sensível demais. Sentiu-se derrotada e se sentou novamente na beirada cama, deitando o seu tronco logo em seguida. Decidiu deixar a imaginação tomar conta mesmo, o que adiantaria ignorar? 

Mas agora estava curiosa: será que realmente aconteceria algo naquela noite? Se sim, como seria? Ela já tinha beijado uma mulher, aconteceu naquela noite, mas qual seria o próximo passo? Como seria dormir com uma?  

Algo lhe dizia que não seria tão sexualmente frustrante como foi até agora, com homens. 

Sunny fechou os olhos novamente e voltou a tocar o próprio pescoço, lembrando-se dos movimentos suaves. Sua mente reviveu o beijo e agora ele estava mais vívido do que antes. Podia até sentir o gosto de álcool que estava presente na língua da mulher.  

Como seria? 

Não precisava ser Felícia, podia ser qualquer uma. Um rosto desconhecido, mas imaginou um corpo de traços tão delicados e suaves.  

Antes que percebesse, sua mão começou a descer lentamente do pescoço, deslizando a ponta dos dedos pela pele sensível, sentindo um arrepio em sua espinha. Soltou um suspiro trêmulo quando tocou seu próprio seio, que estava tão mais sensível quanto qualquer outra parte do corpo. E continuou descendo, sua mente trabalhando em imagens confusas, mas nítidas. 

Como seria? 

Imaginou beijos delicados em seus lábios, que percorriam sua mandíbula e paravam em seu pescoço. Depois desciam para a clavícula e seus seios. A língua quente circulava lentamente aquela parte, tal como seus dedos faziam. Sua mão continuou o trajeto, agora se lembrando dos carinhos que recebeu na cintura e tentou reproduzi-los em seu abdômen, sentindo suas pernas estremecerem.  

Aquele quarto nunca foi tão quente. Nem mesmo quando estivera ali com Julien. Nem mesmo quando esteve sozinha tantas outras vezes, mas sempre se limitava a imagens padronizadas de homens quaisquer.  

Sunny engoliu quando sentiu sua mão barrar no cós de sua calça. Mas naquele ponto, já não conseguia mais se sentir envergonhada. E, pra falar a verdade, já estava começando a sentir uma dor entre as pernas e ela só sabia que seria aliviada com algum estímulo. 

Tacou o foda-se novamente naquela noite e se abriu os botões, dando espaço para que pudesse abrir mais um pouco a perna. E agora, sua mão poderia transitar por ali e entrar em sua parte mais íntima. 

Em sua mente, não era sua mão, mas talvez a mão mais delicada que já a tocou, tão macia quanto as de hoje. Sua respiração falhou conforme sentia, imaginava ou desejava beijos e chupões salpicados por sua pele e se remexeu contra seu toque carente. 

Mas foi quando ela tocou a própria intimidade, que sentiu a primeira onda prazerosa — talvez a maior em toda a sua vida — que fez seus músculos torcerem levemente e um gemido mais alto sair. E ela nunca se viu, se sentiu, tão excitada em sua vida. 

Uma gota de suor escorreu de sua testa. Seus próprios toques eram suaves e precisos. Ora acariciavam seu ponto mais sensível, ora exploravam mais por ali. E sua mente trabalhava sem muito esforço, sempre bombardeando imagens e pensamentos de outra pessoa ali, beijando seu ventre, virilha, seu ponto mais fraco... Também imaginava as mãos suaves lhe preenchendo e aí, quando aconteceu, foi impossível não gemer novamente. 

A televisão estava ligada, podia ouvir. Seulgi estava dormindo no outro quarto. Mas nada importava pra ela. Simplesmente não conseguia se conter, era muita estimulação — embora fosse somente seus dedos e sua imaginação —, estava muito sensível. Não ligou em ser um pouco vocal.  

Ela nunca havia se sentido tão bem em sua vida, fosse sob seus cuidados, ou de outras pessoas. Se sentiu tão quente e tão inquieta, sua outra mão inevitavelmente precisou suprir a carência em outras partes, voltando a se acariciar nos seios. Até aquele momento já estava suando, a respiração pesada, descompassada e os olhos apertados. O conjunto da obra: suas mãos, seus pensamentos, suas memórias, tudo, tudo era muito gostoso. 

E Sunny percebeu que, independentemente de como fosse transar com uma mulher, aquilo seria fodidamente bom. 

Então, quando sentiu um formigamento na espinha que foi percorrido pelo seu corpo, sem que pudesse processar exatamente o que estava acontecendo, puxou uma lufada de ar e soltou um ruído alto de imenso prazer. Suas costas arquearam, sua outra mão desesperadamente caiu sobre a cama e perdeu o lençol com força nos dedos. E ela perdeu os sentidos. 

Não sabia dizer quanto tempo ficou apagada, mas abriu os olhos e sentiu a vista turva ficar nítida aos poucos. Aquela sensação estranha havia passado e o quarto agora estava silencioso, somente os sons emitidos da televisão, enquanto ela tentava processar o que aconteceu. Notou que sua direita ainda estava dentro de sua calça e a puxou, encarando suas mãos com curiosidade. Seus dedos agora estavam trêmulos e brilhantes da própria lubrificação. 

Então ela sorriu, porque nunca havia se sentindo tão satisfeita na sua vida. 

E agora seu corpo estava quente demais, então ela realmente precisava de um banho frio.  

(...) 

 

Na manhã seguinte, seu corpo resolveu cobrar de todo o álcool ingerido na noite anterior e ela acordou com uma forte ressaca. A cabeça latejando de dor e o estômago levemente revirado. Mas ainda assim, acordou bem, sentindo-se levemente, como se há muito não se sentisse assim. E embora as memórias da noite passada ainda lhe fossem estranhas e tudo muito novo para digerir, estava se sentindo bem demais para ficar amargurada. 

Enfiou um comprimido de aspirina na boca, tomou uma garrafa de água e resolveu juntar a Seulgi numa sessão matinal de filmes num canal fechado da televisão. A garota também parecia distante, mas Sunny não iria mexer com ela. 

— Pensei que soubesse beber — provocou a garota quando viu a mulher gemer um pouco com a dor. 

— Todo mundo tem seus dias... — respondeu dando um pequeno sorriso, se lembrando de tudo que aconteceu naquela noite. 

Seulgi riu e elas ficaram assistindo à televisão. O próximo filme iria ser “Imagine Eu e Você”, que ambas já haviam assistido. Ao mesmo tempo se ajeitaram no sofá, um pouco tensas. Elas queriam ver o filme, mas, acima de tudo, queriam que a outra visse o filme. 

Seulgi queria ver a reação da sua mãe vendo um casal homoafetivo — ok, ela agia normal perto da irmã, mas queria ver de todos os lados o possível. 

Sunny queria mostrar que não via problema nessas coisas, quem sabe assim faria ela se sentir confortável para se abrir. Queria que Seulgi só falasse quando estivesse pronta, por isso não iria forçá-la a nada. 

 

Mal sabia elas que eram mais parecidas do que pensavam. 

 

Enquanto o filme seguia, Seulgi começou uma conversa paralela: 

— O Sr. Bak tá fazendo ajustes finais na casa — disse. — A nova família vai chegar em três semanas. 

— Você já sabe como são? 

— É um casal, duas mulheres e três filhas — disse a garota olhando cautelosa para ver a reação da mãe, que nada mais fez que continuar vendo o filme. — Legal, não é? Não tem tanta diversidade nessa rua. 

— O que é surpreendente julgando que estamos em São Francisco... — respondeu e elas riram. 

— Quando fui pegar a correspondência, a Sra. Oh estava passeando e começou a comentar que era uma afronta, que nossa vizinhança já foi melhor. Ficou um bom tempo resmungando...  

— Essa mulher não mora na rua de trás? Por que está reclamando de algo que tá acontecendo nessa rua? 

— Sim! É uma fofoqueira. Espero que essa família não venha com nenhuma crise, porque vai ter que aguentar a Sra. Oh fazendo o inferno. 

— E alguém tem paz, seja hétero ou não, com essa velha viva? 

Seulgi riu da frase da mãe, e o assunto morreu. Mas internamente, Sunny estava um pouco incomodada. Já sabia que a Sra. Oh era uma velha sem noção, mas ouvir aquilo a deixava um pouco mais irritava. 

 

Talvez porque a irritasse internamente, já que agora era uma ofensa pessoal. 

 

Até porque, seguindo o pensamento de Felícia: “Quando passa o susto cabe a você decidir se você vai se abraçar ou se reprimir.” 

 

Ela decidiu se abraçar! 


Notas Finais


Hehehe!!! Gostaram???

Gente, por favor, leiam meu jornal para saberem um pouco mais sobre o futuro de Dool (https://www.spiritfanfiction.com/jornais/carta-aos-leitores-de-days-of-our-lives-19775615)

Espero ver vocês em breve!!

https://twitter.com/seulginismo
https://curiouscat.me/mamavellvet


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