História Days of Our Lives - Capítulo 5


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Categorias Girls' Generation
Personagens Hyoyeon, Jessica, Seohyun, Sooyoung, Sunny, Taeyeon, Tiffany, Yoona, Yuri
Tags Família, Lgbt, Mamamoo, Moonsun, Red Velvet, Seulrene, Snsd, Soosun, Soshi, Soshi Família, Taeny, Wenjoy, Wheebyul, Wheesa, Yoonhyun, Yulsic, Yuri
Visualizações 134
Palavras 9.665
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, FemmeSlash, LGBT, Literatura Feminina, Romance e Novela, Shoujo-Ai, Universo Alternativo, Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


AYO!!!

Quanto tempo, não??? O motivo da demora foi que eu passei num vestibular (irra!) e eu tive problemas em conciliar minha rotina de estudos com academia e tudo mais. E também tive um pequeno problema com bloqueio, mas agora tá tudo certo e nada errado. Portanto, estou de volta com esse capítulo bem energético.

Antes de prosseguir, só quero dizer uma coisinha: algumas pessoas perguntaram de Taeny no último capítulo. Bem, Taeny ainda vai demorar um pouco para aparecer... Isso porque, a linha de história delas começa um pouco mais pra frente na história em geral, que vai ser feita sobre ciclos. Esse primeiro ciclo tem como foco Yulsic/Família Jung, e é um núcleo o qual Taeny não está inserido. Então, peço um pouco de paciência, elas vão aparecer mais pra frente, ok?

Segundo: MIL PERDÕES POR NÃO TER RESPONDIDO OS COMENTÁRIOS. Gente, minha cabeça nos últimos dias tá um horror. Prometo que não irá se repetir e eu irei responder todos assim que possível.

Uma boa leitura a todos!!!

Capítulo 5 - Consequences - Part 1


O barulho dos sapatos batendo no chão liso era a única coisa que Wheein conseguia ouvir no enorme corredor do colégio.  

Sua vista era contemplada com o vazio, uma vez que todos os alunos já estavam dentro de suas respectivas salas de aula. Claro, somente ela estava ali fora, uma vez que não era costume de ninguém se atrasar mais de meia hora, como havia se atrasado. 

Fazia duas semanas desde a última vez que andou por aqueles corredores e, se dependesse dela, não pisaria mais ali por um bom tempo.  

Muita coisa havia acontecido, queria poupar a si mesma do constrangimento de encarar as pessoas comentando baixo com outras sobre tudo ou de ouvir os sussurros quando ela passava pelo corredor. A notícia de sua lesão havia se espalhado, mas antes fosse o único motivo para ela ser a sensação do colégio; o escândalo da Blanc & Eclare também se espalhou pela cidade, e a potencial herdeira não seria poupada.  

Tudo que suas mães faziam refletia em si. Não seria a primeira vez que teria seu nome ventilando pelos alunos, seja para o bem ou para o mal. Basicamente, seria mais um período comum em sua vida e tudo que lhe restava era, como sempre, ignorar os burburinhos. 

Foram esses pensamentos que levaram suas pernas a finalmente tomar um impulso, meia hora depois de chegar no colégio e perambular pelo corredor até a porta da primeira aula do dia. 

Do lado de fora, conseguia ouvir a voz grossa do professor de História, ministrando a aula para uma turma completamente silenciosa. Ela não conseguiria passar despercebida. 

 

— No fim, a guerra de independência do México levou uma década e a perda da colônia, como vimos, foi um golpe duro para a Espanha... — dizia o professor, alternando entre os olhares, alguns interessados e outros não tão interessados assim, dos alunos. — No entanto, quem assumiu o poder nos anos decorrentes, tanto no período imperial mexicano, quanto na república, foram as elites, que governavam por seus próprios interesses. Isso levou à uma nova revolta, em 1910, conhecida como “Revolução Mexicana”. Um dos principais nomes foi o Pancho Villa, personagem que já conversamos sobre no início do ano... 

Sua fala foi interrompida por algumas batidas leve na porta, que atraiu não só a sua, mas a atenção dos alunos também. Deu autorização para a entrada e a garota da cabelos pretos e franjas apareceu no batente. As mãos apertando a barra da saia e os olhos pesados e cansados. 

— Com licença, Sr. Santiago. Posso entrar?  — perguntou com a voz baixinha. 

O professor sabia por tudo que a garota estava passando e se compadeceu com sua situação. Em geral, era um cara tranquilo e Wheein, uma aluna exemplar. Acenou positivamente com a cabeça e deu um sorriso fraco. 

— Claro, Sra. Jung — disse. — Sente-se. 

Wheein entrou na sala cabisbaixa, sem coragem alguma de encarar qualquer olhar que fosse.  

Um pequeno burburinho se fez presente e preencheu a sala com eco, enquanto a garota se direcionava até sua carteira, ao lado da janela. Sentiu o seu coração apertar ao perceber que o barulho aumentava gradativamente e podia sentir o peso dos olhares sobre si. 

— Ok! Ok! Silêncio! — O professor elevou o tom de voz. — Foco aqui. Muito bem, continuando... 

Thomas retornou a ministrar a aula, mas era o último lugar em que a cabeça de Wheein estava naquele momento.  

Olhava através da janela por uma parte do imenso campus. O céu azul, nuvens esfumaçadas e uma enorme bandeira ondulando. Sua visão se dava para os campos imensos e ela se distraiu vendo o time de atletismo dar uma volta e os jogadores de futebol americano se aquecerem. 

No entanto, seus ouvidos conseguiam captar os sussurros que eram feitos na sala, uma vez que ela estava quieta e qualquer ruído aumentava completamente de tamanho. 

O professor rabiscava algumas palavras na lousa, enquanto alguns alunos tomavam nota, outros apenas olharam e um grupinho no fundo, composto algumas garotas esbeltas e uns rapazes mal-encarados, sussurrando e rindo. 

— Viu, é isso que acontece quando deixam qualquer um entrar no país e ter liberdade... Por isso apoio políticas rígidas para estrangeiros. 

Wheein continuou olhando pela janela, fingindo não se abalar com o comentário feito por Ashley Turner, uma integrante do time das líderes de torcida e bem conhecida no colégio.  

 As declarações da garota, no entanto, não geraram surpresa alguma, já que ela era bem conhecida por seus extremos, sendo uma pessoa que não tinha muito a simpatia de todos. Muitos reviraram os olhos, enquanto os outros apenas balançaram a cabeça incrédulos. 

— É, mas a mãe dela nasceu aqui. — Um dos rapazes rebateu. — E ela também... 

— Foda-se! Elas são asiáticas, alguém teve que vir de fora... E para quê? Para anos depois deixarem abusar e prostituir a gente? 

— Qual é, Ashley! Dá um tempo... — Um outro amigo do grupo comentou rindo. — O nome da mãe dela nem foi mencionado. Provavelmente não sabia. 

— Aconteceu na empresa dela, ela é responsável de qualquer forma. — A garota deu ombros. — Se ela não sabe cuidar de algo, não deveria se meter em algo como ser CEO. Não entendo como pôde ser tão burra, não dizem que asiáticos são gênios? 

Wheein ainda tentava fingir, mas seus dedos começaram a doer de tanto apertar o lápis em sua mão. Os comentários já estavam se tornando constrangedores para todos, e ela sentia muita raiva. Ashley não sabia nem um terço do que estava falando e aquilo irritava-a completamente. 

— Além do mais, o chefe do esquema também era, adivinhem só, coreano... Esse mal tem que ser cortado pela raiz. Prende todos os envolvidos e deporta o resto dos funcionários e suas famílias. 

— Você poderia calar a sua boca, racista de merda?  

A classe em peso, incluindo Wheein, olhou assustada para Byul, que praguejou completamente raivosa. 

— Sra. Turner! — Thomas chamou a atenção da garota, ignorando o grito de Byul. — Tem algo que gostaria de compartilhar com a classe? Parece importante a ponto de ficar cochichando na minha aula. 

— Professor, você não ouviu ela me xingando? — Ashley perguntou incrédula, apontando o dedo para Byul, que já estava completamente vermelha de raiva. 

— Sinceramente, eu não ouvi nada... — Ele respondeu cínico. — Mas tive o desprazer de ouvir o seu discurso, Sra. Turner. Por isso repito, gostaria de compartilhar com a turma? Estava bem convicta de tudo que conversou com seus amigos. 

A garota apertou os lábios, visivelmente furiosa ao não ter sido defendida pelo professor, mas sim questionada quanto às suas palavras. Tentou contornar o visível constrangimento ao ver todos os olhares para si e deu uma risada nervosa. 

— Eu só estava comentando que, em função ao que aconteceu com a empresa da mãe de Wheein... 

— É problema dela e dos envolvidos... — Sr. Santiago a cortou duramente. — E não cabe a você fazer julgamentos e tirar conclusões de algo que ainda não se sabe por completo. 

— Algo que veio a público e eu tenho direito de opinar quanto qualquer outro... — Ashley exasperou-se, elevando o seu tom de voz. 

— Devo lembrar aos senhores que nesta classe eu não permitirei, em hipótese alguma, discriminações contra qualquer tipo de cor, raça, etnia, gênero, sexualidade, nacionalidade, religião ou qualquer outro grupo. Sua “opinião”, Srta. Turner, é de extrema violência e inaceitável. Portanto, eu sugiro que guarde-a somente para você ou então saía da minha sala. 

Ashley apertou os punhos e fechou a cara, sentindo o peso da raiva em seus ombros. A sala toda estava silenciosa. Wheein mantinha seu olhar para a janela, evitando se envolver emocionalmente naquilo — já estava se sentindo mal e abalada pelas palavras da garota —, enquanto Byul fuzilava a outra com o olhar. 

Sentindo-se derrotada, a garota não falou mais nada e ajeitou-se na carteira, suspirando pesadamente. 

— No entanto, foi pertinente esta pauta ter surgido enquanto encerramos os estudos sobre os movimentos de independência pela América. — O professor se pôs em frente a sala, apoiando na sua mesa. — E graças ao comportamento curioso da Srta. Turner, eu vou querer uma redação de três páginas, frente e verso, manuscrita, sobre a importância da imigração e como o fluxo de estrangeiros ajudaram a moldar a cultura americana ao longo do século. Vocês terão uma semana... 

Um burburinho de desaprovação aos termos do trabalho repentino do professor inundou a sala. Os alunos protestaram arduamente, visivelmente descontentes. 

— Frente e verso? 

— Manuscrito? Qual é? 

— A gente não fez nada... 

Eram tantas frases soltas, que a sala virou um pequeno caos de vozes agitadas se misturando. O professou deu leves batidas na mesa, elevando ainda mais o tom de voz. 

— Três páginas é pouco? Querem cinco? — Ameaçou. A sala se calou quase de imediato. Um resmungo aqui e ali ainda era ouvido, mas a sala se silenciou. 

A raiva coletiva para cima de Ashley só aumentou e Byul sentiu um prazer interno ao ver os olhares raivosos para a garota, que agora estava com uma veia saltando na testa, completamente furiosa. 

Nervos acalmados, o restante da aula decorreu de forma silenciosa, onde somente era ouvida a voz do homem e o giz batendo contra a lousa, rabiscando suas palavras. 

Perto do final, o Sr. Santiago explicou sobre o projeto final da matéria, que seria realizado em duplas. 

— Ao longo do ano, estudamos sobre os mais diversos movimentos de independência. Em duplas, de dois, por favor, irão fazer uma apresentação sobre um país específico. O projeto será livre, podem fazer o que quiser: uma mini-monografia, um vídeo, uma música... Qualquer coisa, só precisam falar sobre o processo de independência. Este será o projeto final e será apresentado no último dia de aula. Escolham suas duplas, eu irei chamar um membro pela chamada e sortear o país. 

Wheein estava imersa em seus próprios pensamentos, presa em seu próprio mundo. Nem se deu ao trabalho de ir atrás de uma dupla. Até porque, geralmente, todos pediam para fazer dupla com ela e na maioria das vezes nem era por interesse em amizade, mas por interesses próprios. Muita gente achava que ao fazer um trabalho com ela, seria fácil ter acesso a sua casa, que todos sabiam ser uma enorme mansão, um pouco afastada da baía de São Francisco e teriam contato próximo com suas mães. 

Iludidos, ela pensava. Nem mesmo eu vejo minhas mães com frequência. 

Wheein quase nunca levava ninguém à sua casa, principalmente quando sabia dos interesses das pessoas. Inventava mil desculpas para que a execução do trabalho fosse realizada em outro lugar. Era gentil demais para recusar parceria em trabalhos. 

Porém, naquele dia, as coisas foram diferentes. Ninguém pediu para fazer dupla com ela.  

Ninguém. 

Claro, quem iria querer conhecer a casa de Jessica Jung no meio de um escândalo? Ninguém mais queria estar associado àquilo e nem ao menos correr “riscos”. 

 

Wheein rabiscava um desenho qualquer na última folha do seu caderno. O professor pigarreou e atraiu a atenção dos alunos, pronto para começar a fazer a chamada e anotar as duplas e passar os temas dos trabalhos. Em ordem alfabética, os alunos começaram a ser chamados e ela continuava imersa em seus rabiscos. Até que... 

— Byulyi Moon! — O professor chamou. — Sua dupla? 

— Wheein, professor.  

A garota sentiu seu coração saltar e suas mãos tremerem no exato momento. Houve um pequeno burburinho e Wheein virou-se para trás discretamente, encarando o sorriso calmo de Byul, que exalava confiança e conforto. 

Rapidamente voltou-se para sua carteira, engolindo seco e sentindo o coração disparado. Não protestou contra, nem falou nada. Apenas prestou atenção no professor que abria um pequeno papelzinho. 

— Vocês irão ficar com Brasil! — Ele deu um sorriso e virou-se para a lousa, marcando o nome delas ao lado do país. 

Wheein não se atreveu a olhar para trás. Aliás, ela passou o restante da aula com a cara enfiada na carteira, só com os seus pensamentos.  

Por que Byul estava agindo com tanta compaixão para si? E por que justamente ela tinha que ser tão legal? Isso só dificultava ainda mais para Wheein entender aquele estranho calor que pendia sobre ela sempre que a capitã se aproximava. 

E ela realmente não queria mais lidar com isso. Já tinha que lidar com muita coisa. Por um momento, esperou que sua lesão e o escândalo a afastasse. Isso seria triste, claro, mas de certa forma, seria mais fácil para si.  

Definitivamente não queria encarar, seja lá o que fosse, sua questão com Byul. Mas agora seria mais difícil ainda. Ela não podia simplesmente ignorar e pedir para o professor desfazer a dupla, seria um “mau caratismo” sem tamanho. 

 

Foi uma questão de minutos para que o sinal tocasse e Wheein pudesse ouvir as carteiras arrastando e o falatório desapontado das pessoas. O burburinho foi cessando aos poucos e, no completo silencio, ela finalmente levantou a cabeça. 

Encontrava-se somente ela e o professor, que arrumava as coisas em sua mesa. Ficou aliviada em saber que Byul a conhecia o suficiente para não ir até ela no momento, então se levantou, arrumou suas coisas e seguiu seu caminho para fora da sala. 

— Srta. Jung? — O professor a chamou no meio do caminho. — Posso dar uma palavrinha? 

Wheein suspirou e acenou positivamente, aproximando-se da mesa do professor. O homem ajeitou os óculos e a deu um olhar penoso. 

— Entendo que esteja passando por uma situação delicada, Srta Jung — disse —, mas não posso ignorar o seu atraso. Chegou muito tempo depois da tolerância... Mas eu vi quando chegou hoje de manhã...  

— Desculpe, Sr. Santiago! — Wheein pediu sincera, sem energia alguma para contornar uma história e inventar uma desculpa por ter matado metade da aula. — Sendo sincera, eu realmente não queria entrar. 

— Eu entendo! Sei que é uma boa aluna e esta foi a primeira vez... Vou deixar passar só com uma advertência verbal, tudo bem?  

— Obrigada, Sr. Santiago! — A garota fez uma referência simples, por pura educação e já ia se virar para sair, quando o professor novamente a chamou. 

— Sei que provavelmente os comentários da Srta. Turner não são isolados — disse sério. — Quero te dizer que, caso fique incomodada, que fale, tudo bem? 

A inesperada declaração fez Wheein morder os lábios e abaixar a cabeça. De fato, aqueles não foram os primeiros comentários ruins, mas nunca havia demonstrado incomodo. 

Ela definitivamente não queria falar. Ignorar era a melhor coisa, ao seu ver. Fingir que um problema não tá lá, automaticamente te permite não confrontá-lo.  

Mas parece que seus pensamentos foram lidos, pois logo em seguida, o professor começou um pequeno discurso, após ela forçar um sorriso e responder: 

— Não incomoda, está tudo bem. 

— Não está bem, Srta. Jung — disse. — Eu sou estrangeiro também, e sei como essas coisas machucam. Talvez ter traços europeus e olho azul ajude, mas é só eu usar um espanhol, que já começam a gritar para construírem um muro... E eu ao menos sou mexicano. Não está bem sofrer xenofobia, Srta. Jung. 

Constrangida, a garota ruborizou e suspirou. Não estava bem. Ela sabia. Mas ela não queria enfrentar aquilo, já havia se acostumado. 

— Ficamos calado por algum tempo... As vezes até explodimos, como a Srta. Moon. Mas eu te conheço, Srta. Jung. — Wheein levantou os olhos e viu a sinceridade no olhar azul e penetrante. — Você é mais quieta, mais tímida... Como eu. Expressar o descontentamento é como chamar a atenção e isso é a última coisa que queremos. Então, a gente arruma formas do impacto ser menos doloroso. Seja se escondendo no banheiro para evitar encará-los... Seja usando roupas esquisitas, porque você acha que talvez doa menos ver alguém fazendo piada com suas roupas do que com o que você realmente é. Mas sabe... Não é menos doloroso. Só dói de uma forma diferente. 

Sem saber muito bem como reagir ou o que falar, Wheein apenas concordou e abaixou a cabeça, optando por não fazer nenhum contato visual com o homem, que também parecia tímido e um pouco constrangido demais. 

— Er... Bem... — O professor pigarreou. — Pode ir agora, Srta. Jung. Tenha um bom dia. 

— Obrigada, Sr. Santiago! — Wheein o cumprimentou rapidamente antes de, enfim, sair da sala, sabendo que ainda teria que lidar com o resto do dia e que provavelmente as emoções seriam iguais as da primeira aula. 

 

(...) 

 

Mas para a surpresa de Wheein, o resto da manhã passou de uma forma mais calma do que ela imaginaria. Claro, ainda houve os comentários baixinhos, burburinhos e olhares nada discretos para cima de si, mas, pelo menos, Ashley Turner ficou de bico fechado em todas as aulas, tornando as coisas mais tranquilas. 

Fora da sala a situação não era muito diferente, porém, Wheein conseguia desviar dos olhares e passar rapidamente pelos burburinhos, não permitindo levantar o rosto para ninguém. Já sabia que estava tendo atenção, fazia o possível para não ficar no centro, não que aquilo fosse muito eficaz, porém, era uma tentativa. 

Foi por andar rápido e cabisbaixa, que Wheein sentiu-se colidindo com algo e um pequeno som de algo batendo no chão. Tratava-se de um aparelho celular e ela apressou-se para pegar e devolver ao dono. 

— Desculpe! — murmurou esticando-o.  

A garota arqueou as sobrancelhas ao se deparar com uma leve carranca de um garoto médio e de cabelos ruivos. O rosto dele relaxou por alguns segundos e ele pegou o objeto, desviando o olhar. 

— Obrigado! — murmurou de volta. 

Antes que cada um pudesse retomar seus caminhos, um grupo de alguns adolescentes altos e de uniformes abarrotados apareceram, falando alto e gargalhando. 

— Olha só, parece que o Ferrugem arrumou uma amiga! — Um loiro de cabelos espetados agarrou o ruivo, que revirou os olhos e contorceu o rosto em desgosto e repulsa. 

— Hein, “Uein”, você poderia dar uma ajuda para nosso amigo aqui... — Outro garoto disse risonho. — Talvez possa conseguir uma daquelas garotas da sua mãe para tirar o cabaço do Ferrugem. 

O grupo de adolescentes gargalharam com a nojeira expelida como se tivesse sido o monólogo mais engraçado do universo. O garoto ruivo debateu-se e afastou-se completamente raivoso. Sem muitas reações, Wheein apenas abaixou a cabeça e seguiu o seu caminho rumo ao refeitório do colégio. 

Ainda havia vestígios das risadas quando ela se afastou, apertando os dedos em sua palma, afincando as unhas em sua carne. A frustração, a vergonha e a humilhação eram presentes, bem como os olhares em cima de si. Era possível ver algumas pessoas envergonhadas com as brincadeiras, mas sem culhões para intervirem. 

 

Quando pisou no refeitório, Wheein odiou-se por estar se sentindo faminta e mais ainda por não ter trazido lanche de casa. As mesas cheias de alunos deram-lhe uma pequena sensação de pânico, sabendo que teria que se sentar com alguém, já que estavam no pico do horário de almoço. 

Sem ter muito o que fazer, ela pagou por seu almoço e encheu sua bandeja com poucas das opções disponíveis, querendo acabar com tudo rapidamente. Mas encarar o refeitório lotado a fez considerar jogar tudo no lixo e passar o resto do dia de estômago vazio. 

Byul percebeu a garota e a chamou com um aceno. Estava numa mesa com outras integrantes do time. Wheein não estava preparada para encontrar as colegas de quadra — ainda não havia falado com nenhuma desde sua lesão —, então virou-se rapidamente, deixando uma capitã completamente desnorteada com a atitude. 

— Wheein! — Uma voz calma a chamou numa mesa por perto. Sentiu-se um pouco aliviada em ver uma mesa cheia de amigas, as quais a deixavam confortável o suficiente para almoçar. 

Seulgi, Wendy e Joy, capitã das líderes de torcida, sentavam em uma mesa redonda e cederam o último lugar para a garota. Apesar de não conversarem sempre, as ascendências em comum as aproximaram. As três já eram amigas, moravam num bairro tradicional coreano de São Francisco, e incluíram Wheein em seus grupos de amizade, o que ela apreciava caridosamente. 

Ao sentar-se, foi recebida com sorrisos e cumprimentos das outras. Claro que, naquela altura, o boato do pequeno show de Ashley na aula de história já havia se espalhado. 

— Você está bem? — Wendy perguntou cautelosa. Wheein apenas pode dar um sorriso fraco e acenar positivamente, dando atenção à comida em sua bandeja. 

— Não ligue para o que ela diz... Ela também tá pegando no meu pé... — Seulgi disse. — Muita gente, aliás. Claro que, o que eu e Jihoon estamos ouvindo não é nem perto do que você está passando, mas... Não fique pensando que é marcação. 

— Eu entendo... — Wheein suspirou. Foi quando se ligou que Seulgi também poderia estar passando pelas mesmas coisas que ela, já que sua mãe também trabalhava na Blanc e ela se sentiu mais confortável de ter um ombro amigo ali. 

— Ouça, nós iremos tirar Ashley das líderes de torcida, ok? — Joy foi a próxima que falou, de forma compadecida. — Nenhuma de nós concorda com o que ela falou e, honestamente, ninguém lá gosta muito dela. Só as amigas... 

— Obrigada! — Wheein respondeu sincera, olhando no fundo dos olhos da garota alta, sorrindo. — Obrigada, de verdade. 

Talvez ela jamais falasse, mas apreciava o pequeno gesto. Não seria hipócrita de dizer que não queria ver a penalização pra cima de Ashley, o que a garota havia lhe dito magoou e muito. E não havia muitas coisas satisfatórias na vida do que vê-la punida. 

No entanto, aquele era um assunto que ela não queria se estender e o silêncio incômodo formado na mesa indicava que não iria morrer tão cedo. Estava óbvio que sentiam pena — ou algo muito parecido — de Wheein e queriam fazê-la se sentir confortável. A própria de dispôs, então, a quebrar o gelo. 

— E como tá indo o restaurante da sua mãe, Wendy? — perguntou casualmente, ganhando a compreensão das três quase que de imediato. 

— Está indo bem... — Wendy respondeu sorridente e começou a falar sobre os primeiros dias de movimento do restaurante. Rapidamente elas emergiram no assunto e ficaram completamente entretidas. 

Wheein continuava com seu almoço, completamente alheia e em silêncio, mas aliviada se poder se afastar do assunto Blanc-Bullying-Ashley por alguns instantes. 

 

(...) 

 

O resto do dia prosseguiu da mesma maneira, até que chegou a última aula no final da tarde: Educação Física. 

Wheein ainda não estava liberada para exercer atividades físicas daquele porte, tinha um atestado que a dispensava daquela aula. A Srta. Kim, no entanto, por ter uma formação e conhecimento em fisioterapia, passou alguns exercícios que ajudariam na reabilitação da garota, de modo que ela não ficasse sem fazer nada durante a aula. 

Após passar uma atividade recreativa simples, seguida de algumas partidas de um esporte que a turma escolhesse, Hyoyeon foi até Wheein para observá-la em seus exercícios. 

Como imaginava, a garota parecia tensa e um pouco envergonhada. Era a primeira vez que se viam cara a cara e a sós após o jogo e, por consequência, a primeira vez após a lesão que a tiraria do time pelo resto do ano. 

Deitada no colchonete, Wheein não conseguia disfarçar seu incomodo. Tentava focar no seu exercício, com Hyoyeon auxiliando sua perna a se movimentar. Não tinha coragem alguma de encará-la nos olhos ou de dizer alguma coisa. Havia mentido para a professora/treinadora e se colocou numa situação delicada. Pensava se ela estaria brava ou magoada, mas não tinha coragem alguma para confrontar. 

A primeira palavra veio da mulher mais velha. 

— Dói quando mexe assim? — perguntou. Wheein balançou a cabeça negativamente. — Certeza? 

— Sim! — A garota respondeu um pouco envergonhada, não sabendo bem se a necessidade de confirmação era por falta de confiança. 

— E de modo geral? Sente algum incomodo?  

— Agora, não. 

Vários minutos se prosseguiram num silêncio ensurdecedor, apenas com os barulhos da quadra sendo audíveis. 

Wheein precisava ser honesta, já que não havia sido e acabou deixando o time numa situação delicada. Ela devia aquilo à Srta. Kim, que tanto lhe ajudava e instruía. Ela mentiu... A professora sabia, mas isso não pagava o fato de que havia mentido. E mesmo depois daquilo, a mulher se ofereceu a ajudar na recuperação, ao invés de um longo discurso ou de broncas. Aquilo a deixou pensativa. 

Foram momentos conturbados em sua própria mente, evitando quaisquer resquícios da professora, que pacientemente coordenava os exercícios. Só que sabia que estava devendo e muito à Hyoyeon. 

Suspirou fundo e finalmente criou coragem para falar o que tanto deveria falar: 

— Me desculpa por ter mentido, Srta. Kim! 

A mulher arqueou as sobrancelhas, surpresa com a fala repentina da garota, que ainda não lhe olhava nos olhos. 

— Não é como se eu já não soubesse, Srta. Jung! — respondeu. — Mas suas desculpas são por mentir, ou por insistir? 

Wheein engoliu seco. Sua treinadora a conhecia bem e as vezes ela odiava aquilo. Ela sabia pegá-la no ponto mais vulnerável de sua mente. Respirou fundo e ficou um pouco pensativa. 

— Pelos dois, acho... 

A professora acenou com a cabeça e finalizou o exercício, sentando-se ao lado do colchonete da garota. Deu-lhe um olhar curioso, repleto de dúvidas. 

— Por que insistiu, Jung? 

A garota fitou o teto por uns instantes, respirando pausadamente. Ela já deu uma versão bem curta de sua justificativa para Yuri, porque era mais que o suficiente para sua mãe. No entanto, as coisas eram diferentes para com sua treinadora.  

Hyoyeon era mais que uma figura autoritária, sendo uma amiga para todas ali. Wheein tinha uma confiança absurda em sua professora, mesmo que não dissesse, era a sua favorita.  

— Você pode conversar comigo, sabe disso. — A professora a olhou nos olhos. — Estou vendo nos seus olhos que é isso que precisa. 

E era. Realmente era. Wheein queria falar, desabafar. Mas precisava fazê-lo com alguém que não daria tapinha nas costas por ser um amigo, mas que pudesse ver a situação de forma imparcial. 

Ela se erguei do tapete e se sentou ao lado da mais velha, fitando o nada e respirando para tomar coragem, quando enfim começou a falar: 

— Se cair uma gota de molho de tomate num corredor da Blanc, durante a noite, Jessica larga tudo em casa para ir lá limpar... — Começou a dizer. — Mas ela não pode sair mais cedo para jantar comigo no meu aniversário, ou assistir um jogo meu. Seulgi já deve ter visto os corredores de lá muito mais vezes que eu... Ela não me deixa trabalhar lá nem em trabalhos temporários de verão, onde ela recebe alunos para treinamento. Quando meu avô pergunta se ela pretende me nomear a próxima, ela sempre se esquiva... 

Hyoyeon notou que respiração da garota ficava mais pesada com o passar das palavras e um tom de insatisfação tomava forma. Era interessante observá-la daquela maneira. 

— Jessica vive em função daquela empresa, ela mal lembra que tem uma casa e uma família... Ela nunca me colocou lá dentro, ela abomina a ideia de eu estar ligada, porque para ela, só ela consegue manter as coisas em ordem. Ainda assim, rolou um esquema de corrupção e prostituição debaixo no nariz dela. E todo mundo dessa escola fica agindo como se eu tivesse participação nisso. Como se eu soubesse de tudo que estava acontecendo... Eles acham que eu sou parte da Blanc, só porque minha mãe é.  

— Sinto muito por isso... 

— Eu realmente odeio viver nas sombras dela. — Wheein respirou pesado. — Eu não sou a droga da herdeira da Blanc, isso é função da primogênita...  

Hyoyeon arqueou as sobrancelhas com a declaração da garota, assustando-se com as palavras ditas e a intensidade delas. Wheein não era filha única? 

— Espere, o quê? — questionou perplexa.  

Wheein, no entanto, percebeu que falou mais do que deveria, e ignorou por completo a professora. 

— Por outro lado, Yuri está realmente disposta a fazer de mim uma versão dela, mas com ressalvas... — disse contrariada. — Ela sempre quis que eu fosse atleta, mas não de vôlei. Sabe por que ela se sente frustrada mesmo conquistando tudo que uma atleta poderia conquistar antes dos 33? Porque, na concepção dela, a maior conquista, é a influência... Ela não quer que eu seja ela... 

— Mas que pareça influenciada por ela. — A professora concluiu e Wheein acenou positivamente. — Temo que isso funcione, não? 

— Até demais! 

Um silencio de alguns segundos se formou, até que Hyoyeon tornou a falar. 

— Mas eu ainda não entendi, o que isso tem a ver com sua insistência... 

— Nunca joguei tão bem quanto nessa temporada. Eu estava sendo reconhecida pelo meu nome, não mais como a filha da Yuri e da Jessica, o casal mais poderoso da atualidade. Eu estaria construindo a minha história, Srta. Kim. A história que elas se negaram a me dar. 

— É assim que você se sente? — perguntou.  

— Eu me sinto cada vez mais uma sombra — respondeu. — Me sinto perdida. Talvez, se eu carregasse esse time na final, seria menos incomodo... Eu realmente teria feito algo digno de se lembrarem de mim. 

— Certo! E você acha que iria se sentir melhor? — perguntou novamente. — Digo... Wheein, ser atleta... É algo que você realmente quer? 

— É o que eu sei fazer, faço desde pequena... — comentou. 

— Não foi essa minha pergunta. 

Wheein engoliu seco. Aquela definitivamente a pergunta que ela não queria responder, porque significava confrontar-se com a realidade. E aquilo era algo que ela não queria. E escondia de Yuri. Mas aquela era Hyoyeon, não sua mãe. E aquele era o momento exato para vomitar tudo que estava sufocado. 

— Não! — disse. — Não é o que eu quero. 

— Por que insiste, então? 

— Porque eu já não tenho a Jessica... — respondeu com a voz embargada. — Eu não quero que Yuri se afaste de mim também.  

Hyoyeon sentiu seu coração quebrar-se em milhões de pedaços ao ver as lágrimas de Wheein escorrerem por seu rosto e engolir um soluço doloroso.  

Era interessante de se observar: uma garota rica, herdeira de uma empresa bilionária, estudava sem bolsas num colégio particular de elite e teve acesso a tudo de bom e do melhor. Wheein teve tudo que podia, mas sentia não ter o essencial... O calor materno. 

— Wheein, elas não se afastariam de você por isso. Elas são suas mães, tenho certeza que amam você... 

— Eu não nasci por planejamento delas... — respondeu. — Digo, eu nasci, mas... Alguém me queria, mas não era elas. Então, esse alguém foi embora, mas eu fiquei. É normal que, para precisar esquecer dela, elas precisam se esquecer de mim. 

A professora se viu apertando a garota contra seu peito, deixando-a soluçar o quanto precisasse. Aparentemente ela havia guardado aquilo por anos e precisava por para fora toda a mágoa que sentia. 

Ao mesmo tempo, Hyoyeon tentava absorver o mais íntimo da história da família Jung, provavelmente nunca revelado por ninguém. Wheein já era uma criança um pouco crescida quando as Jung começaram a ter a atenção da mídia, ninguém jamais poderia imaginar que haveria alguém antes dela. 

Era uma parte trágica de uma família aparentemente feliz e um fardo que Wheein carregava, mesmo sem querer, mesmo sem perceber.  

— Minha avó costumava dizer: quando a vida parece não estar certa, é hora de trocar o LP! — Hyoyeon disse assim que a garota começou a se acalmar. — Nunca entediamos, até que um dia ela explicou... Houve uma festa de casamento há muito tempo e meu avô queria impressionar ela. Ela gostava de homens que dançavam, então, ele deliberadamente foi para o meio da pista e começou a dançar. Todos começaram a rir, porque a música que tocava não era dançante. Era calma, suave... Foi feita para que apreciassem o jantar. Quando meu avô dançou uma música que não era para dançar, ficou tudo confuso. E assim foi nos ensinado a lidar com a vida... 

Wheein se afastou curiosa. Os olhos inchados e o rosto avermelhado, sem entender corretamente o que a professora queria, mas prestando atenção no que era dito. 

— Vou dizer de uma forma mais simples e atual: a vida é como uma enorme playlist com músicas de todos os gêneros, tocadas no aleatório... Você precisa dançar conforme a música. — Deu uma pausa para suspirar. — Em outras palavras, é necessário se adaptar às situações. Mas nem todas as músicas foram feitas para dançar, não tem problema apenas sentar e descansar. 

A garota tentava absorver a analogia, que inicialmente parecia ser um pouco ridícula, mas até que fazia sentido, após pensar um pouco. No fundo, Wheein entendeu o que a professora dizia: não adiantava insistir no que estava errado, ou no que ela sentia que não dava mais.  

— Pergunte a si mesma se valeu a pena se machucar por algo que você sabe que não quer... A troco de quê? — perguntou. — Use esse tempo para pensar em si mesma, no que você quer... É a sua vida, Wheein. Talvez seja hora de trocar essa música, não acha? 

Hyoyeon ouviu um suspiro frustrado da garota, junto de um aceno positivo. O rosto baixo indicava pouca disposição. Foi uma conversa curta, porém exaustiva para o emocional, já abalado, da mais nova. 

Para a sorte, o sinal tocou no exato momento e elas puderam respirar aliviadas. A professora ajudou a garota a se levantar e guardou os colchonetes, vendo os alunos deixarem a quadra rumo aos vestiários pouco a pouco. 

— Fale comigo caso precise de algo — disse, vendo-a parar em seu caminho e se virar. — Ou quando tomar uma decisão... Sempre que sentir que precisa de um apoio, Wheein, saiba que eu estou aqui. 

— Obrigada, Srta. Kim! — Wheein abaixou a cabeça após agradecer, fazendo seu caminho conhecido ao vestiário. 

 

Rastros do choro ainda se faziam presentes em sua respiração e seus olhos pesavam com as lágrimas secas. Mas, no fundo, sentia-se um pouco mais leve de ter desabafado a ponta de suas chateações e mágoas.  

Havia muito a se pensar no que foi dito. Ela estaria pronta para encarar Yuri e contar-lhe que não queria mais jogar? Estaria disposta a enfrentar a reação, mesmo que isso significasse se distanciar mais ainda de suas mães? 

Wheein sentia-se confusa, mesmo que a conversa tivesse esclarecido um pouco as coisas. Era demais para a sua cabeça e certamente aquele não era o momento ideal para se pensar em algo. Jessica e Yuri certamente tinham problemas muito maiores que a decisão sobre seu futuro. 

No final das contas, teria que esperar a poeira abaixar, se é que iria abaixar, antes de conversar sobre isso, então, o melhor a se fazer era esquecer momentaneamente. As férias viriam em poucas semanas e ela teria um tempo para descansar longe de todos. 

 

Seus pensamentos foram interrompidos quando ela adentrou no vestiário e percebeu um silêncio incomum para um final de aula. Erguei a cabeça e sentiu o coração dar um salto no peito ao se deparar com a figura de Ashley Turner e outras três garotas que ela mal saberia dizer o nome. 

Seu algoz não estava muito contente. Era possível ver a fúria no brilho de seus olhos claros e toda a repulsa presente em seu rosto. Engoliu seco, sentindo o corpo estremecer, já começando a imaginar o que poderia vir dali pra frente. 

— Deve estar satisfeita com a humilhação que me fez passar, não é? — Ashley perguntou num tom mesquinho. 

— Eu não fiz nada... — Wheein respondeu baixinho. — Sequer abri a minha boca... 

— Não importa! Você sabe que não teria acontecido se não fosse você e sua família tosca. Sabe de uma coisa, eu não me arrependo nem um pouco de nenhuma palavra dita, não importa quantas lições de moral aquele mexicano possa dar... 

— Ok! — A garota já estava trêmula. Só queria acabar com aquele papo e ir para casa. — Honestamente, eu não me importo, você pode pensar o que quiser. 

Ela tentou se esquivar das garotas, mas Ashley a segurou com força e a puxou para perto de outras duas, que era mais altas e levemente mais corpulentas do que Wheein, que a este ponto já se tremia mais ainda. 

— Ah! Não! — Ashley sorriu sádica. — Não tão fácil! Todo mundo nesse colégio te protege, mas agora que todo mundo viu o caráter de sua família nojenta, não vai ter ninguém para te socorrer... 

As garotas gargalharam maldosas, se entreolhando. Observavam Wheein como um predador observava uma presa e ela nunca se sentiu tão pequena. 

— Pobre menina rica... Wheein, você merece passar pela mesma humilhação que sua família faz os outros passarem, para aprender a lidar de forma decente... 

— Eu não fiz nada... — suplicou desesperada num choro quase silencioso. — Por favor, me deixe ir. 

— Sabe o que uma das modelos que sua mãe prostituiu falou? Sobre o que ela passou? Ela foi filmada... Essas foram as palavras dela... — O tom sádico ficava mais forte e mais assustador. 

— “Voltei para casa. Naquele momento, pensei que só um banho de água fervendo seria capaz de me fazer sentir limpa...” — Uma das garotas ao lado de Ashley leu em sua tela de celular, antes de olhar novamente para Wheein. 

— Que tal você se sentir como ela se sentiu, Wheein? — propôs com um sorriso assustador estampado. — A mesma dor, a mesma humilhação... Para vocês aprenderem o lugar de vocês. 

 

E antes que Wheein pudesse pensar, mãos pesadas a seguraram forte em seus membros. Ela não conseguia se mexer. Estava sufocava numa rodinha de pessoas e não importava o quanto se contorcia ou gritava, não conseguia fugir. 

 

No meio da confusão, tudo o que podia ver, era uma lente de câmera apontada para si e um sorriso fantasmagórico atrás, divertindo-se com toda a sua humilhação. 

 

Os gritos de entonação conhecida alertaram Byul, Seulgi e Wendy, que conversavam na saída do ginásio. A capitã queria saber sobre Wheein, pois estava preocupada e a mesma se esquivava de suas investidas. 

— Ouviram isso? — Wendy perguntou. 

“Pare, por favor!” 

— É Wheein? — Seulgi questionou. 

Byul correu rapidamente em direção aos vestiários, sem esperar mais nada, completamente atordoada pelo barulho. 

Quando entrou no vestiário, deparou-se com uma cortina de fumaça fina e quente, proveniente de muitas duchas da área coletiva aberta. Havia um grupinho de quatro ou cinco amontadas na entrada da área, enquanto o resto do espaço estava preenchidos por outras que apenas observavam. 

Ashley Turner estava no centro do grupinho amontoado. 

— Wheein? — Byul gritou, chamando a atenção de todas. — O que você está fazendo, sua louca? 

Ela correu novamente, desesperada para salvar a amiga do que quer que fosse, mas abruptamente foi lançada para o chão e só se deu conta ao sentir as costas bater duramente contra o assoalho úmido. 

— Você fica na sua, sua namoradinha está aprendendo uma lição. — Uma das amigas de Ashley rosnava para Byul, que estava atordoada. 

Um olhar significativo da capitã para Seulgi e Wendy e foi o suficiente para que elas saíssem despercebidas do vestiário, indo atrás da sala dos professores procurar por ajuda, já que era meio estranho o fato da Srta. Kim não estar por perto. 

 

Isso porque, na sala dos professores, Hyoyeon tinha seus lábios quentes pressionados contra os macios de seu colega de trabalho. As mãos do rapaz ligeiramente apertavam sua cintura, enquanto ela pousou as suas sobre os ombros dele. 

— Não acho que a gente deveria estar fazendo isso aqui — disse ela sorrindo, após se separarem. 

— Não se preocupe, Victoria já sabe sobre nós há muito tempo... — Ele respondeu com uma risada, seguida do mesmo barulho da terceira pessoa presente no ambiente. 

Victoria Song, professora Matemática da Academia, era uma amiga próxima dos dois, corrigia uma atividade, aproveitando o vazio da sala após o fim do período. 

— Não se preocupe, Hyo — disse com um sorriso. — Eu e Thomas chegamos num acordo e aceitamos dividir você. 

Os três deram uma gargalhada com a piada e Hyoyeon se ajustou nos braços do professor, que estava pronto para retomar os beijos, quando foram surpreendidos com um baque da porta, que o fez empurrar a mulher levemente para trás. 

— Srta. Kim! — Seulgi e Wendy entraram na sala, desesperadas, vermelhas e ofegantes. 

— Hey! O que está havendo? — A treinadora perguntou assustada. 

— É Wheein... — Seulgi disse ofegante. 

— O que aconteceu? 

— Ela... Vestiário... Ashley... — Era tudo que ela conseguia dizer, deixando os três confusos e desesperados. 

— Ashley está fazendo algo com Wheein, lá no vestiário... — Wendy sobrepôs assim que se recuperou. 

— Essa garota de novo? — Thomas suspirou. 

Sem dar tempo para mais explicações, Hyoyeon e Victoria correram para fora da sala, sendo acompanhadas pelas duas garotas e o professor que vinha logo atrás. 

 

A fumaça estava um pouco mais densa e o vestiário parece um caos. Havia burburinhos, algumas batidas nos armários, conversas sobrepostas e um grito agudo, quando Hyoyeon adentrou furiosamente o ambiente, seguida por Victoria. 

O grupo ainda estava amontoado na entrada das duchas coletivas, Byul se debatia no chão contra o aperto de uma garota forte. Nenhuma delas percebeu a presença das duas mulheres, até que Hyoyeon gritou. 

— Que porra está acontecendo aqui?  

O silêncio se fez quase que imediatamente. O grupo se dispersou um pouco, todas encarando a loira, que pedia abertura entre as garotas. 

O vapor pesado proveniente das duchas impedia de ver o que estava acontecendo. Todos chuveiros estavam simultaneamente ligados e despejando a água na temperatura mais quente que suas potências permitiam. 

Hyo correu até o registro geral das duchas, visto que elas foram abertas por lá e não uma por uma, e fechou-o rapidamente. 

Demorou alguns segundos para o vapor começar a cessar e ela pôde ver com mais clareza. Wheein estava encolhida contra a parede, completamente despida, tremendo — provavelmente de medo — e com os olhos marejados. 

— Wheein! — Correu até a garota, que se encolheu mais ainda com a aproximação.  Era possível ver a pele completamente avermelhada da garota. — Olhe pra mim, olhe pra mim... 

No entanto, a garota se recusava a olhar, choramingando baixinho, gemendo com a dor do toque da professora em si. 

Hyoyeon estava estupefata e assustada. Em todos os seus anos como docente, jamais havia visto tamanha violência, de forma tão mesquinha e covarde... Ainda mais contra uma aluna como Wheein. 

— Me deem uma toalha! — Ordenou furiosa, olhando para trás e encarando os mais diversos olhares. Uma das alunas apareceu com uma toalha branca e a estendeu para a professora, que passou-a em volta da garota.  

— Tá tudo bem, querida! — disse calma para a garota.  

A mente de Wheein estava a turbilhões, sem saber o que pensar ou o que absorver. A humilhação, o nervosismo, a dor, tudo se fazia presente e seu corpo estava prestes a entrar em um colapso. Sentiu um ligeiro enjoo enquanto era amparada pela professora, que a ajudava a se levantar e num reflexo acabou por colocar para fora tudo o que tinha no estômago. 

— Tudo bem, tudo bem... — Hyoyeon dava pequenos tapinhas nas costas da garota, afagando-a, sem se importar em molhar ou sujar sua roupa. 

— Vocês deveriam ter vergonha! — Victoria gritou para as garotas, que apenas observavam a cena. — Quem vocês pensam que são para tratar as pessoas dessa forma? Onde estavam com a cabeça? 

Silêncio! 

Enquanto Victoria bronqueava, Hyoyeon virou-se, encarando os olhos frios de Ashley, que já sabia que não havia como escapar de tamanha confusão que havia se metido. Com o canto dos olhos, pôde observar uma das garotas esconder um aparelho celular. 

 

Aquilo era pior do que imaginava. 

 

 

Wheein nunca foi uma pessoa de dar problemas na escola. Sempre foi uma boa aluna, uma garota exemplar, de boas notas e um bom comportamento.  

Dito isso, Yuri ficou surpresa ao receber uma ligação da direção do colégio, pedindo encarecidamente para que ela comparecesse, junto de sua esposa, se possível, devido a um pequeno problema com a garota. 

Atravessou os corredores completamente assustada e em passos ligeiros, dando graças que estavam vazios. Estava curiosa para saber o que havia acontecido, mas devido ao tom de voz, sabia que não era nada bom. Os acontecimentos dos últimos dias martelavam em sua cabeça e havia uma preocupação ligeira de que um colapso acerca disso pudesse ter ocorrido. 

Seu coração se partiu em dois ao adentrar na secretaria e ver a figura de Wheein sentava no sofá da sala de espera, usando um moletom folgado, com os cabelos molhados e caídos.  

A garota estava visivelmente abalada, com os olhos marejados e a pele avermelhada, alarmando Yuri, que correu até a garota, completamente preocupada. 

— Wheein! — chamou-a, ajoelhando-se na frente da garota, que lhe lançou um olhar penoso e assustado. — Querida, o que houve? 

O rosto da garota se contorceu e ela desabou em um choro forte e agoniante, tombando a cabeça para o pescoço de Yuri, que a abraçou de imediato.  

— Shhh, calma... — sussurrou. — Eu estou aqui, querida. Mamãe está aqui!  

Wheein se agarrou no tecido de algodão da camiseta preta de Yuri como se a sua vida dependesse daquilo. A atitude assustou completamente a mais velha, que já estava inquieta diante de tudo. 

A porta da sala da direção se abriu e um senhor de meia idade com cabelos grisalhos saiu. Bem vestido e alto, o diretor lançou um olhar inseguro para a mulher. 

— Obrigado por vir, Srta. Kwon — disse. — Devo presumir que a sua... Ahn... Companheira... A mãe de Wheein, não irá comparecer? 

— Minha esposa não poderá vir por conta de algumas pendências, Diretor. — Yuri se ergueu, olhando o rapaz nos olhos.  

— Bem, então... Devo convidá-las para entrar. Será uma conversa delicada. 

Um pouco enraivada, Yuri segurou Wheein em seus braços e entrou na sala do diretor. Surpreendeu-se a ver um senhor gorducho e grisalho com uma garota alta e loira, juntamente com um corpo de três docentes. 

 

Ela nem imaginava o que estava por vir. 

 

(...) 

 

 

As horas pareciam passar lentamente durante a noite, principalmente naquela em especial. Yuri estava em sua sala “particular”, desfrutando de alguns goles de uma garrafa de whisky, enquanto ouvia o tic-tac do relógio bater incansavelmente.  

Poucas vezes em sua vida havia se sentido tão aérea e enjoada como naquele dia. Desde que chegou em casa, estava enfiada naquele escritório, assistindo repetidamente um vídeo que lhe foi mostrado... Sua própria filha sendo humilhada, gritando e implorando por ajuda.  

Yuri nunca se sentiu tão vulnerável. 

Como mãe, ela só sentia vontade de chorar. Chorar por não ser capaz de proteger sua filha como deveria, por não conseguir tomar as cores e livra-la de toda a humilhação que ela foi submetida. 

Ficar naquela sala, assistir ao vídeo e em seguida ter que encarar, olho a olho, a garota que tanto fez mal à Wheein, desencadeou um lado violento, que nem Yuri sabia que tinha. Ela quase precisou ser amparada pelos professores para não ter que agredir a garota.  

Como ela queria... 

Foram longas horas de conversas e broncas. Wheein estava tão abalada que mal falava. Respondia coisas simples e choramingava quando precisava expor mais detalhes. Estava sendo uma sessão de tortura para ela ali.  

No final, as garotas foram convidadas a procurar outras escolas para estudar, com a alegação de que suas condutas não eram compatíveis com as leis éticas e morais da Academia. Yuri exigiu uma cópia do vídeo e que ele fosse deletado de todos os dispositivos. Iria conversar com Jessica sobre como procederiam, mas salientou que se fosse exposto, as consequências seriam brandas. 

Agora, tudo que ela sentia era tristeza, tristeza profunda e raiva. Não somente raiva das agressoras de sua filha, como também raiva de alguém que deveria estar lá, mas não estava. Jessica.  

Sim, ela sabia que Jessica provavelmente estaria muito ocupada, as últimas semanas foram difíceis para a mulher, mas Wheein precisava de todo o apoio e amor naquele momento, um momento o qual Jessica não foi. Nem ao menos ligou para saber do que se tratava e se Yuri iria até o colégio resolver. Pequenas negligências que acabavam por irritá-la. 

 

Já era quase início de madrugada quando Yuri ouviu os baques das portas e os passos, agora arrastados, de Jessica, que entrou no cômodo onde ela estava. 

 

Jessica estava irreconhecível! 

 

Estava acabada, por assim dizer. Os cabelos estavam presos em um coque frouxo, completamente oleosos. Seus olhos estavam inchados com olheiras grossas e visíveis em seu rosto magro, pálido e abatido. Até mesmo sua postura estava relaxada. Usava a mesma roupa por dias, sem se importar de estar abarrotada, definhada ou até mesmo suja. 

Já se faziam duas semanas que o escândalo veio a tona. Aquilo sugou toda energia e beleza da CEO e partia o coração de Yuri ver sua bela esposa, sempre tão cheia de vida, domada pela vergonha e pelo cansaço. 

— Chegou tarde... — disse Yuri, fracamente.  

— Eu sei. — Jessica respondeu sem emoções, caminhando até a mesa de centro e se servindo de um copo do mesmo whisky que Yuri bebia. 

 

Jessica não era de beber após o trabalho. 

 

Durante essas semanas, Jessica vem fazendo um árduo trabalho para desvincular a imagem da Blanc com os escândalos, uma vez que ela de fato não tinha nada a ver com aquilo. Mas era difícil convencer uma mídia atrás de buzz e mais ainda convencer parceiros e patrocinadores, que prestavam justamente pela imagem exposta. 

Duas semanas atrás, uma das modelos recorreu até um jornalista, conhecido pelo seu exagerado sensacionalismo, para expor tudo que os diretores faziam, liderados por Tyler Kwon. A garota jurou de pés juntos, perante toda imprensa, que só recorreu daquela maneira, pois a CEO se recusou a ouvi-la quando quis denunciar tudo aquilo. Tal declaração só foi mais prejudicial ainda para a imagem de Jessica. 

A CEO ficou extremamente abalada e por quatorze dias consecutivos, sem folga, tenta reparar os danos causados. Já não confiando mais em seus funcionários, Jessica deu um recesso para a maioria, sem previsão de retorno, e com os poucos que lhe restavam, trabalhavam numa estratégia para desvincular a marca e limpar a imagem, tanto dela quanto da empresa. Aquele esforço gerava um certo desgaste. Jessica saia na primeira hora do dia e só voltava no mais tardar. Ainda não havia aparecido a público e nem deu nenhuma declaração, ainda que isso não fosse aconselhado. Achava melhor se blindar e evitar aparições que poderiam danificar ainda mais a sua imagem. 

 

Jessica se jogou no estofado preto de couro, bebericando o copo de whisky, enquanto Yuri a observava seriamente. 

— Fui ao colégio de Wheein... Resolver o problema pelo qual nos chamaram — disse firma. 

— Ah, sim! — Jessica suspirou. — Teve isso... Soojung disse que ligaram, eu só... — suspirou massageando as têmporas. — No que deu? 

 — Bullying! — Yuri mandou na lata, pensando se assim teria alguma reação que não fosse indiferença. — Wheein está sofrendo com bullying... 

Jessica bateu o pequeno copo na mesinha, engolindo o amargo da bebida com uma careta. Ela bufou e balançou a cabeça negativamente, passando a mão pelos cabelos e apertando alguns fios entre os dedos. 

— Eu temia que isso acontecesse... — disse desanimada. — Estava preocupada que descontassem nela todas essas coisas. 

Yuri observava curiosa Jessica encher mais um copo com whisky e se levantar, andando em pequenos círculos. 

— Não devíamos tê-la mandado pra escola...  

— E mantê-la enfiada dentro de casa? — Yuri questionou incrédula. — Quando ela já vai ter que ficar de molho? Jessica, esconder nem sempre é a solução. 

— Nesse caso, seria a melhor... — Jessica rebateu, levemente alterada. 

— Ela não sofreu bullying por ir à escola, ok? Ela sofreu... 

— Eu sei muito bem o motivo... — A mais velha a cortou, exasperada. — E acredite, parte o meu coração saber disso Nenhuma mãe gosta de saber que a filha está passa do por isso. 

— Que ótimo que sabe, então...  

— Está tentando começar uma briga, Yuri... — disse, os dedos massageando o sulco formado entre as sobrancelhas por conta da contorção do rosto. Terminou o copo de whisky de o deixou em qualquer canto. — Meu dia foi cheio, eu vou tomar um banho... 

Yuri arqueou as sobrancelhas, surpresa com o que ouvira. Seu rosto esquentou e ela sentiu a adrenalina percorrer. Jessica estava mesmo fazendo pouco caso de algo tão grande como aquilo? 

— Como é? 

— O quê?! — perguntou confusa. 

— Eu conto que a tua filha tá sofrendo bullying, um bullying pesado, e sua reação é “que pena, vou tomar banho”? — Yuri se levantou encarando Jessica. 

— O que você quer que eu faça, Yuri? — Elevou o tom de voz, sentindo o álcool do whisky ferver em suas veias. — Vá na escola e bata em todo mundo que maltratou ela? 

— Eu quero que ao menos demonstre se importar com as coisas que sua filha está passando! 

— Eu me importo! — gritou. — Mas ela está sofrendo por toda essa merda, a única coisa ao meu alcance é trabalhar pra resolver isso. 

— Você nem ao menos perguntou como ela estava... — Yuri gritou de volta. — Acha que ela levou um xingo ali e aqui? Você não tem noção do que fizeram com ela. 

Yuri então atirou o celular para Jessica, com o vídeo que gravaram de Wheein. A mais velha pegou o aparelho em suas mãos e assistiu, contorcendo o rosto em emoções divergentes. 

Jessica sentiu um gancho no estômago e um peso no peito, e as lágrimas começaram a cair de seu rosto sem que percebesse. Era a maior dor do mundo... Ver a filha sofrer e não poder fazer nada. 

Quase um deja-vú! 

— Você não faz ideia do estado dela quando eu cheguei lá — disse a mais nova, com a voz mais calma, mas ainda raivosa. — Mas você nem ao menos considerou ir lá ver o que estava acontecendo.  

— Eu estava fazendo coisas importantes, Yuri! — Jessica rosnou limpando as lágrimas. 

— É a porra da sua filha! — Yuri gritou. — Ela é importante também. 

— Eu não fazia ideia! — gritou de volta. — Como eu iria imaginar... Tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo... 

— Porque só pensa em você mesma. E nessa porcaria de empresa. Se esquece que tem família, se esquece que tem uma casa... Acha que só sua companhia tem problemas e negligencia todo o resto. 

— Porcaria de empresa? — Jessica grunhiu. — Essa “porcaria” de empresa... 

— É a responsável por tudo isso. 

Jessica sentiu como se um soco tivesse lhe acertado no estômago. Não sentia justo. Claro, ela sabia que se dedicava completamente à Blanc. Mas tinha um motivo. Era algo dela, algo que sempre duvidavam que ela conseguiria. Era tão errado assim querer manter sua criação em ordem? 

— Está na hora de você entender de uma vez por todas, Jessica, que a Blanc não é só sua. — Yuri falava entre dentes, completamente alterada. — É da sua família. E nós somos sua família. Tudo o que você faz reflete na gente. Quando você falta a jantares em casa para cuidar de papelada que nem é sua, isso reflete; quando você decide estar presente numa reunião que você nem precisa, no dia do jogo da sua filha, isso reflete; quando acontece um escândalo e você prefere tirar o seu da reta.... Adivinha? Isso reflete! 

— Você fala como se eu desprezasse tudo à minha volta em nome da minha empresa — disse baixinho. — O que eu faço é cuidar do que é meu... Vou adiante no que eu quero, não fico o dia todo trancada num escritório, bebendo e chorando mágoas por lembranças de um sonho que já não existem mais. — Jessica berrou, apontando para os quadros de medalhas e prêmios de Yuri, espalhados pela sala. 

A mais nova sentiu-se ofendida com as acusações. Jessica havia tocado em sua ferida mais aberta e mais dolorosa e aquilo a magoada profundamente.  

— Essa conversa não é sobre isso — rosnou. — E você sabe muito bem disso. É sobre o seu papel enquanto esposa, enquanto mãe, enquanto... 

— Então o que? — gritou novamente. — Está tentando me dizer o quanto eu sou um lixo como mãe? Yuri, eu não preciso que me diga algo que eu já sei há vinte anos.  

— O quê... — Yuri contorceu o rosto em dúvida e confusão. 

— Quer saber porque fico tanto lá dentro? Quer saber porque eu frequento reuniões em que não preciso estar? Porque eu quero garantir o bom funcionamento... Porque eu não posso deixar outra coisa minha morrer por minha negligência novamente. 

A voz da mulher vacilou nas últimas frases e ela desabou num choro. Enquanto isso, o coração de Yuri disparava e ela estava estupefata com o rumo tomado, sentindo-se tensa em relação a tudo.  

Ela sabia muito bem ao que Jessica havia se referido. Um assunto doloroso, uma memória distante, que elas não ousavam tocar. 

— Negligência? Novamente...? — Yuri repetiu. — Jessica... Você... Se culpa? 

Claro! Por que ela nunca pensou antes? Jessica sempre foi mais empenhada após aquele fatídico desastre. Era quase como se ela usasse a Blanc e seu esforço como um escudo, uma distração para evitar pensar em tudo. 

Sentindo-se quebrada por dentro, Yuri caminhou até a mulher, que já havia cedido ao cansaço e caído sentada no chão, chorando rios de lágrimas e tristeza. Toda a raiva havia se dissipado e deu espaço à melancolia. 

— Já faz vinte anos, Jessica. — A mais nova a abraçou, confortando-a num abraço e começando a chorar junto. — Você não pode se culpar por um erro médico. 

— Eu negligenciei ela... — disse entre soluços. — Como eu fiz com Wheein... Eu sou uma pessoa terrível. 

— Você não é, querida! — Yuri sussurrou afagando os braços da mulher. — Vai ficar tudo bem... 

 

Ninguém sabia se ficaria realmente tudo bem. Era muita confusão para pouco espaço de tempo. A cabeça de todas ali estava a turbilhões. Jessica devastada e exausta, chorando por seus erros: do passado e do presente.  

Yuri mantinha-se melancólica, tentando aparar a esposa. Teria que ser forte e ajudar Jessica, assim como ela havia lhe ajudado em seu pior momento. 

E havia Wheein! Sentada do lado de fora do escritório, com a cabeça enterrada entre os joelhos. Num choro silencioso, queria ser confortada também. Ao mesmo tempo, queria confortar suas mães e dizer que estava tudo bem, que ela as perdoava, que tudo daria certo. Só que havia um certo conflito em seu coração: 

No final, percebeu que ainda vivia nas sombras de Jessica, Yuri e... Eunbi! 

 

Era hora de trocar a música! 

 

A família Jung não era a única em crise naquela noite, no entanto. Há alguns quilômetros dali, numa casa em uma das ladeiras afastadas da baía de São Francisco, uma casa com três moradores vivia um conflito interno. 

Soonkyu não iria mais dormir naquela noite. Já havia verificado várias vezes se as portas, tanto da frente quanto dos fundos, estavam bem trancadas. Espiava pela brecha da cortina a rua vazia e sem nenhum movimento.  

Sabia que nada iria acontecer, mas era impossível não se preocupar. Seu instinto materno de proteção falava mais alto. 

Ela sentou-se na sala e ficou vendo televisão a noite inteira, os pés balançando e as unhas sendo roídas. No celular, a mesma tela aberta, com uma mensagem curta e grossa de seu ex-cunhado, Julien: 

 

“JaeWon está na cidade!” 


Notas Finais


Yo!!! Sei que talvez não foi o foco que vocês esperavam, mas eu queria fazer uma abordagem diferente. Mostrar diversas formas de como o escândalo da Blanc afeta todos e não somente uma pessoa. Fica aí uma reflexão para a vida, ok? Eu vou tentar deixar alguns capítulos se acumularem antes de voltar a postar, então, não sei quando retorno, mas espero que seja breve. Dúvidas, críticas e sugestões serão sempre bem vindas.

Até o próximo!!!! (e perdoem os erros)


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