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História De 5 em 5 Passos - Capítulo 2


Escrita por: , @3tangfei, Gabinos e 5verse


Notas do Autor


Hoje o capítulo é inteiramente dedicado a minha linda webnamorada BERGAMOTA.
FELIZ ANIVERSÁRIO (um dia atrasado)!
TE AMAMOS, MEU DOCINHO DE VITAMINA C!

Capítulo 2 - 5 passos para fazer um amigo


— Vamos logo com isso que ainda preciso ir pra casa almoçar, tá bom?

Pegou a grade de horários do rapaz cego, que, coincidentemente, era igual à sua. Finalmente o piso tátil, que demorara semanas para ser instalado, tinha algum uso, o que também facilitava seu trabalho, já que não precisava advertir XingChen dos degraus e demais coisas que pudessem estar no meio do caminho.

— Você quer chiclete?

Xue Yang estranhou a mão estendida precisamente em sua direção, mas nada disse. Apanhou a goma de mascar, sem agradecer. Se já estava com fome, sabia que aquilo ia apenas piorar seu estado, mas tampouco podia evitar aceitar algo doce. Compulsivo por: listas, número 5 e doces. Precisava de mais dois itens para completar a lista das compulsões.

Xiao XingChen andava a passos leves, tateando o chão com sua bengala verde. Estava entusiasmado com a nova escola, mas um tanto quanto apreensivo em puxar assunto com seu guia, que parecia explicar tudo por cima, falando rápido demais. Visitaram as salas de aula, os armários e os principais banheiros, conforme o itinerário feito pelo orientador XiChen previamente. Mas Xue Yang ainda por cima precisava levá-lo para casa!

E era óbvio que a casa de Xiao XingChen não seria de tão fácil acesso. Quando chegaram à esquina dela, de acordo com o mapa, também fornecido pela equipe da escola, o queixo de Xue Yang quase caiu. Era uma ladeira tão íngreme, mas tão íngreme, que não sabia se chegaria ao topo com o pouco açúcar que tinha no sangue. Subia por força do ódio; já tinha perdido aquelas horas todas,  não seria uma lomba que o faria voltar para a detenção.

Xiao XingChen ainda fechava a travinha do portão enquanto Xue Yang tocava a campainha, sendo recebido por uma bonita senhora, trajando um longo vestido claro e um grande sorriso no rosto.

— Vocês chegaram rápido! Entre, por favor, você deve ser o Xue ChengMei. Meu nome é BaoShan SanRen, sou a mãe do XingChen.

Ele não havia exatamente planejado entrar e o cheiro de comida recém feita o deixava ainda mais faminto. Também não conseguia falar por conta da língua seca depois de subir aquela lomba maldita num sol de quase meio-dia, mas, por sorte, a querida dona SanRen parecia adivinhar suas necessidades, trazendo um copo de laranjada gelada que, infelizmente, não estava adoçada o suficiente. “Foda-se, pelo menos tá gelado”, Xue Yang pensou enquanto tomava um golão do suco.

— Bom, é isso...eu já vou indo, tia. Minha mãe deve estar esperando e tudo mais…

— Oh, não, conversei com ela por telefone depois de largar o XingChen na escola… Ela disse que você pode voltar à tardinha. Venha almoçar antes que a comida esfrie demais, sim?

Xue Yang tentou negar o pedido, mas o estômago interveio, o fazendo almoçar naquele lugar quase limpo por demais para seu gosto. Era tudo em seu devido lugar, na totalidade do tempo em que futuramente viria a passar ali. “Já que ela não pode fazer o mesmo que minha mãe faz, que é obrigar o filho a limpar a casa, faz mais sentido mesmo que seja bem mais arrumada do que a minha”, pensou enquanto comia o bife de glúten servido. A comida era boa — e essa conclusão não foi feita apenas pelo desespero falando — mesmo que ele não fizesse a menor noção do que fora servido. 

Após uma generosa porção de sobremesa, não precisou nem ao menos se oferecer para lavar os pratos, pois a mágica dona SanRen já havia colocado toda a louça na lavadora, pedindo para que os garotos fossem até a sala.

— O diretor falou que você poderia ajudar a acompanhar as aulas, já que mudamos durante o ano. Só precisamos saber onde vocês estão, pelos livros mesmo, para que o XingChen possa se situar.

Aquela era quase uma saia justa. De fato, Xue Yang era assíduo, preferia estar na escola do que ter que ouvir a dona Xue Yin e suas piadas horríveis pela manhã inteira. Mas isso tampouco queria dizer que ele acompanhava as aulas. Passou quase a tarde inteira ajudando a senhora a marcar os capítulos já lidos, ficando até com alguma pena dela quando percebeu que a mulher iria compará-los com o conteúdo visto na escola anterior.

 

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Acordou na manhã seguinte na base do susto. Dona Xue Yin o chamava no berro mesmo, invadindo seu quarto e acendendo as luzes. Após quase cair da cama, Xue Yang checou seu telefone, precisando esfregar os olhos para enxergar direito.

— Ainda faltam quarenta minutos pra hora de levantar…

A voz melosa, que saía da boca do menino sonolento, contrastava com a risada de Xue Yin, que já tinha em mãos a roupa limpa que Xue Yang deveria vestir.

— Você tem que buscar seu colega, lembra? É bom sair mais cedo ou o diretor grandalhão vai encher meus ouvidos dizendo que você se atrasou. O café está servido, seu pai está esperando.

“Ia ser ótimo se alguém me avisasse dessas coisas todas”, Xue Yang pensava enquanto jogava água na cara, amaldiçoando o destino, que agora o faria precisar compartilhar o café da manhã não somente com as piadas ruins e waffles borrachudos que a mãe fazia, mas também com a conversinha fiada sobre os assuntos chatos do jornal, coisa que o pai gostava de comentar enquanto falava de boca cheia e se entupia de café.

 

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Não somente buscou Xiao XingChen, mas também o levou de volta para casa, ainda obrigado pelo diretor, durante algumas semanas. Inevitavelmente, pois eram colegas em todas as aulas, acabavam por sentar lado a lado. Xue Yang realmente esperava que assim que o Bigodinho e o Pacífico esquecessem de sua existência, pudesse continuar a tramar alguns planos, especialmente contra Su She e Jin ZiXun.

Já os odiava gratuitamente, assim que os conhecera. Desde pequenos, eram garotos nojentos, falsos e estúpidos com as outras crianças. Ao descobrirem que Xue Yang não tinha um dedo, aí sim que a coisa complicou. Mas, ao contrário dos coleguinhas que sofriam o bullying calados, especialmente Mo XuanYu, Xue Yang era raivoso demais para deixar aquilo passar. Tampouco era amigo das outras crianças, inclusive muitas vezes as usava como meio de atingir seus alvos principais. Aprendeu a crescer sem amigos, alimentando-se somente do ódio contra os dois pivetes.

Rabiscava uma — extremamente ofensiva — caricatura de Su She enquanto almoçava ao lado do ceguinho, sem trocar muitas palavras, como de praxe. Ouviu algumas risadinhas, avistando justamente o alvo de seus desenhos bizarros apontando para os dois. Pôde distinguir as palavras “os dois deficientes juntos”, mas ao levantar-se para ir tomar uma satisfação, Nie MingJue adentrou o refeitório, procurando por ele. Fechou rapidamente o caderno que continha alguns desenhos ainda piores — incluindo ensaios sugestivos sobre o diretor — e fingiu tomar o toddynho que acabara há algum tempo.

 

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Chegando na sala de XiChen, cuja decoração parecia ser mais familiar até mesmo do que a de seu próprio quarto, o coordenador pedagógico o aguardava, na companhia de um menino alto de olhos arredondados, nunca antes visto por Xue Yang, fosse na escola ou na cidade.

— Bom dia, Xue ChengMei! Visto o seu bom desempenho na adaptação do aluno novo, viemos pedir que você acompanhe outro coleguinha que foi transferido. O nome dele é Song ZiChen.

E como era bonito o tal do Song alguma coisa! Porém, a língua maldita de Xue Yang estalou antes que o cérebro pudesse processar a coisa toda.

— Agora eu vou ter que pegar esse aí pela mão também? Olha o tamanho desse cara, que coisa ridícula precisar de um acompanhante!

— É só por hoje, A-Yang. — O tom quase paternal de Lan XiChen já soava como se houvesse perdido uma boa parte da costumeira paciência — Você pode mostrar a escola pra ele agora, durante o intervalo e depois ir para a Educação Física. O diretor Nie disse que seria bom para ele começar devagar, quem sabe se enturmar com os outros pelo esporte. Amanhã, caso seja necessário, você o acompanha na primeira aula?

— Eu tenho que pegar a dama pela mão e levar em casa também?

Era um daqueles momentos em que Lan XiChen quase repensava a carreira pedagógica. Respirou fundo, agradecendo pelo fato de que o aluno novo não parecia se importar muito com a malcriação de Xue Yang.

— Até o terminal de ônibus está ótimo, já que ele não conhece muito bem a região. Avisarei seus pais, obviamente, mas geralmente eles são bem solícitos quanto a essas atividades.

E, de fato, os pais de Xue Yang sempre tentavam enfiá-lo em qualquer atividade onde ele pudesse, quem sabe, fazer um amigo. A própria dona Xue Yin dizia que o acidente que lhe levou o dedinho também lhe tirou a habilidade de socializar. Lan XiChen desconfiava que isso não fosse completamente verdade, já que sabia de algumas atrocidades cometidas pelas crianças de sua idade, algumas direcionadas ao pobre menino sem dedo.

— Ei, tio Pacífico… — Xue Yang já havia saído dali, mas lembrou-se de algo importante e enfiou a metade do corpo para dentro da sala — E o...outro aluno? Não tinha que levar ele pra casa também? O terminal é muito fora do nosso caminho e eu já faço uma volta absurda pra deixar ele em casa, sem falar naquela ladeira desgraçada…

— Tudo bem, ele já sabe o caminho, não precisa mais da sua ajuda. Mas obrigado por perguntar. — Lan XiChen respondeu com um sorriso bonito dessa vez, visto que era genuíno. — Obrigado mesmo. 

 

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No caminho para os laboratórios, Song Lan e Xue Yang passaram pelo refeitório. Na mesma mesa onde havia sido deixado, estava Xiao XingChen, lendo o livro de matemática com auxílio de uma lente, arrancando olhadas e até mesmo risadinhas de outros alunos. Literalmente, não podia ver o que acontecia ao seu redor, mas sentia os olhares sobre sua pessoa, o fazendo querer afundar ainda mais o rosto por entre as páginas.

Xue Yang observou a cena um tanto quanto confuso, já que nas suas semanas de cão-guia, nunca notara algo do tipo. Entretanto, já estava livre do fardo que pouco enxergava, tinha apenas aquele dia com o tal de Songo Mongo e estaria livre daquelas palhaçadas.

Antes de cumprir com seu dever de mapa dos arredores; porém, jogou uma partida inteira de futebol incomodado com certa presença solitária na arquibancada.

 

E, assim, durante o mês que se seguiu, Xue Yang dedicou-se à maldade. Não nascera para importar-se com as pessoas, era o que acreditava. Seu propósito na Terra era trazer o caos para a vida de seus dois inimigos, e assim surgira mais uma lista. Os cinco passos para desenhar pirocas em todos os cadernos de Jin ZiXun. Já que a mãe do degenerado marcava todas as folhas para que ele não as arrancasse e jogasse bolinhas de papel nos outros, com toda certeza a velhota ficaria ainda mais puta se na hora da contagem encontrasse vários caralhos, daqueles bem feios.

Xue Yang era estrategista, apesar do temperamento, elaborando bem seus passos para que ZiXun não encontrasse as jebas feitas com marcador antes da mãe. Seria durante outra aula de Educação Física. Já tinha até mesmo enrolado Nie MingJue, que na época ministrava a aula, para conseguir escapulir antes dos outros, quando percebeu novamente o moço sozinho na arquibancada e, ao invés de por seu plano em prática, deu por conta do quão triste era a cena, indo averiguar o que ele fazia.

— Xadrez? Você está jogando xadrez? Isso não é jogo pra duas pessoas?

— Hm… — Xiao XingChen abriu um sorriso tristonho — E você vê duas pessoas aqui? Pois eu não.

Não podia nem rir daquela piada pronta. Não trocaram uma palavra desde que foi chamado para acompanhar o carinha alto por aí, mas sentia a tristeza na voz do ceguinho.

— Não acho que tenhamos tempo pra uma partida, mas posso ficar aqui fingindo que estou mexendo nas peças até a aula acabar. — Não sabia exatamente o porquê, mas teve de perguntar — Quer companhia pra voltar pra casa?

Apesar de tentar não mover o rosto, Xiao XingChen não pôde deixar de escapar o protótipo de um sorriso, evidenciado pelas covinhas da bochecha.

 

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Chegou em casa todo suado e fedido por subir a maldita ladeira no sol do meio-dia, livrou-se do uniforme da educação física e foi direto para o banho, a fim de esfregar todo o suor do corpo. Apanhou seu notebook, trancou a porta e jogou-se na cama. Estava prestes a fazer algo que nunca imaginou fazer. Abriu uma página de pesquisa e procurou “5 passos para fazer uma amizade”, o coração batendo rápido por conta do nervosismo. 

Não admitiria, mas via a si mesmo em Xiao XingChen, apesar de ser o garoto que andava sozinho por escolha.

Pôde concluir que quase tinha um amigo, pois satisfazia os primeiros quatro itens. 

“Dê atenção para as pessoas”, ora bolas. Se dedicar praticamente todo o tempo livre, em que poderia estar tramando algo para colocar Su She ou Jin ZiXun em apuros não era dar atenção para XingChen, o que mais seria?

“Seja simpático”, o passo que trouxe o horror ao seu rosto. Era simpático até por demasia. Embora algumas vezes tenha sorrido forçadamente, logo lembrou-se de que o outro garoto não veria nada além de um borrão em seu rosto. Isso se enxergasse alguma coisa. Chegou à conclusão de que era genuinamente simpático. Não poderia ser de outra maneira com alguém como Xiao XingChen, afinal de contas, pois o moço era quase um ursinho carinhoso, um poço de fofura e gentileza. E se não havia notado isso anteriormente, agora, depois de ver aquela covinha aparente com apenas meio-sorriso, tinha certeza.

“Saiba ouvir”...bom, ele sabia ouvir e ver pelos dois. 

“Saia de sua zona de conforto”, ou seja, exatamente o que ocorria naquele momento.

 

O último passo, todavia, era complicado, mas Xue Yang se esforçaria para cumprí-lo. “Entenda a importância das amizades”, a lista dizia. Não era como se ele alguma vez houvesse tido a oportunidade de ter algum amigo de verdade. Talvez Mo XuanYu fosse um bom amigo, se não agisse tão exageradamente e o colocasse em situações constrangedoras o tempo todo, causando o afastamento dos dois logo que se conheceram.

Não sabia o equivalente em termos de amizade para alguém apaixonado, mas esforçaria-se para ter Xiao XingChen como seu amigo. Jogou o computador para o lado, abraçando um de seus travesseiros, cansado. No próximo dia de aula, tentaria dividir também um pouco do que gostava, já que o outro lado o fez sem problema algum naquela longa caminhadas lomba acima, coisa que Xue Yang sempre tentou ignorar, mas que nesse dia em específico havia pedido para ouvir enquanto "jogavam" xadrez.

“O que eu posso fazer pra puxar conversa com ele? Falar mal do Su She não vale a pena…" pensou por muito tempo até que, quase adormecido, teve uma ótima ideia. “Vou ler algumas fanfics para o ceguinho. Não existe quem não goste de fanfic".


Notas Finais




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