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História Dê-me uma bebida - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Capítulo Único


 

Era apenas domingo à noite quando Josuke levantou da cama, inebriado em uma insônia violenta e que o incapacitava de dormir no clima frio e nublado que montou as horas nos dias passados. Fazia pouco tempo que ele havia saído de seu plantão no Hospital Central de Morioh-Cho, após um longo período cansativo em sua residência entre cirurgias cardíacas e prontuários revisados. Josuke já tinha tomado aproximadamente três comprimidos a essa altura, tentando combater sua dor de cabeça e enjoo que grudavam em seu estômago como uma doença chata e inofensiva. De qualquer forma, não seria hoje que ele estaria se livrando dela.

 

Higashikata vestiu seu sobretudo acinzentado, descendo as escadas e se dirigindo até a garagem para pegar seu carro, partindo em direção a algum bar genérico que ele encontrasse aberto nas ruas da cidade naquela madrugada. Sua cabeça ainda alertava-o sobre a insanidade que ele estava cometendo ao sobrecarregar seu corpo com mais doses de adrenalina e álcool para se manter acordado essa semana, no entanto o médico não estava realmente se importando com isso. Ele precisava beber, usar disso para cobrir todo o estresse diário que ele estava enfrentado. Costurar sobre seu ferido peito sentimentos alegres de uma ressaca ilusória e ouvir histórias de bêbados por algumas horas ao seu redor.

 

Josuke sabia muito bem qual era a razão para todos esses sentimentos terem o atingido tão subitamente o dia todo, e tudo se resumia à chegada do aniversário de doze anos dos acontecimentos caóticos da cidade, onde um assassino responsável pela morte de dezenas de mulheres morreu em Morioh. Honestamente, ele estava tendo muitos pesadelos com Kira Yoshigake nos últimos dias: mesmo agora, onde ele já era um adulto responsável e com um emprego alinhado em sua vida estável, o mesmo não conseguia se esquecer de tudo isso. E como Josuke poderia? Todas as experiências que ele vivenciou nesse período, além das pessoas que ele conheceu nunca saíram de verdade de sua vida. Koichi, Okuyasu, Jotaro, e muitos outros. Eles ainda estavam lá, instalados em seu cotidiano e relembrando-o dos dias que o marcaram definitivamente.

 

E é claro, havia Joseph. Josuke soube do falecimento do homem mais velho há alguns meses atrás. Ele ainda estava se recuperando disso também.

 

Higashikata respirou fundo quando deixou seu veículo, estacionando em algum lugar depois de ter dirigido por um par de minutos na estrada. O mesmo encontrou um bar no interior da cidade, onde ficava seu antigo colégio Budo-ga Oka e a loja de departamentos Kameyu. Foi outra recordação que lhe arrancou um sorriso genuíno quando ele percebeu, adentrando o ambiente depois de soltar mais um longo suspiro e passando as mãos pelos seus cabelos desajeitados. Josuke sentia falta da época em que podia cuidar mais de sua aparência, ou melhor, de quando tinha mais tempo para tal.

 

A decoração era rústica e bem-conceituada, o que provou que o lugar não era tão medíocre quanto o residente pensou inicialmente. A iluminação amarelada deixava o espaço atrativo e aconchegante, de certa forma. Ele nunca tinha entrado lá antes, apesar de morar na cidade desde que saiu de suas fraldas: muito provavelmente porque ele não era muito conhecido por frequentar esse tipo de estabelecimento, e sim por beber sozinho eventualmente em sua própria casa (ou com um de seus melhores amigos do ginásio). No fim de tudo, Josuke não reparou tanto assim: ele apenas se sentou em uma das cadeiras altas e acolchoadas, chamando o garçom que estava no canto do balcão adjacente ao dele.

 

"Eu gostaria de um pouco de vodka com limão, por favor."

 

O funcionário assentiu, virando-se em direção à cozinha para preparar a bebida do mais alto. Ele se debruçou no balcão de madeira, repousando seu rosto na superfície de cheiro terrível e se deixando vagar em suas memórias ali.

 

"Higashikata Josuke..." Uma voz rouca e arrastada bradou pausadamente ao seu lado.

 

O pulso do homem de topete característico quase parou quando ele se manobrou no sentido dela, se deparando com uma figura familiar para ele.

 

Kishibe Rohan.

 

 Quanto tempo fazia desde que Josuke não via o mangaka perambulando pelas ruas de Morioh-Cho, fotografando incorrigivelmente a paisagem para usufruir de referências em seu mangá? Decerto, foi um encontro inesperado, porém nem um pouco desagradável.

 

Ele deixou um sorriso gentil emoldurar seus lábios. "Fazia um tempo, Rohan."

 

Só depois que o médico o disse que pôde prestar verdadeiramente atenção no aspecto físico dele acima de todas as coisas.

 

Para ser sincero, Rohan parecia derrotado. Esses anos não fizeram uma mudança particularmente significativa em sua aparência, tanto que Josuke se perguntou veementemente qual era o truque que o homem mais velho usava para não envelhecer tão facilmente. Quando Higashikata tinha a chance de andar pelo subúrbio, ele podia ver o artista em uma quantia relativa de vezes, fazendo as mesmas coisas que sempre fez nesses concretos doze anos. Sempre focado em seu mangá; sempre impecável irrevogavelmente; e sempre frio com Josuke.

 

Quer dizer, eles tiveram sua evolução nesse tempo. A hostilidade que costumava existir em seu relacionamento foi reduzida através do amadurecimento do mais novo e suas tentativas de se desculpar com Rohan. Todavia, o outro parecia uma bagunça agora. Havia bolsas negras sob seus olhos verdes e agora foscos, cobertos por uma névoa que Josuke supôs que fosse de cansaço. Sua barba também estava por fazer em seu queixo (o que não pareceu especialmente ruim para o maior, embora ele acreditasse que Rohan era vaidoso demais para deixá-la dessa forma por mera escolha).

 

Kishibe zumbiu diante dele, como uma reação desnorteada. Era a primeira vez que Higashikata via Rohan bêbado e, principalmente, em um lugar como aquele. O artista não parecia o tipo de pessoa que estaria se misturando em locais assim.

 

"Você está bem?" Ele questionou, um tanto preocupado.

 

"Eu estou ótimo." O mangaka bateu seu copo com alguma espécie de líquido verde que Josuke não pôde identificar o que era no balcão. Um bico brotou nos lábios vermelhos de Rohan ao olhar para ele, com uma expressão ilegível que o mesmo emoldurava muito bem em seu rosto fino. "Eu não preciso que você se preocupe comigo, Jojo."

 

Jojo? O coração de Josuke palpitou em sua caixa torácica e ele sentiu suas mãos suarem sem sentido. Por que Rohan o chamou dessa forma?

 

O garçom retornou com sua bebida, servindo-o devidamente como ele havia pedido. Josuke tomou um gole do conteúdo alcoólico, sentindo sua garganta queimar na medida em que ele o ingeria e encarava Rohan de relance, que estava com seu corpo esguio encolhido ao seu lado.

 

A verdade é que o médico não queria encarar o fato de que teve uma queda pelo mangaka em sua adolescência e que, mesmo depois de todo esse tempo, onde ele passou pela universidade e teve seus primeiros contatos amorosos, Rohan ainda conseguia mexer com seus sentimentos sem nem realmente se esforçar para isso.

 

“Você não parece muito bem.” O residente comentou, assistindo Kishibe dar de ombros e voltar a olhar para qualquer ponto do ambiente barulhento.

 

“Hoje não foi um bom dia.”

 

Higashikata não conseguiu enxergar muitos motivos que conseguissem montar um cenário desagradável na rotina de Rohan para que ele chegasse a um nível como esse, além de uma óbvia e específica razão. “Algum problema com o seu mangá?”

 

O artista manteve seu olhar distante do mais novo, franzindo suas sobrancelhas minutos depois disso.

 

“Bem, teve aqueles editores presunçosos que achavam que sabiam algo sobre meu trabalho me dando ordens idiotas.” Rohan parecia amargurado ao dizer isso, quase mais consciente também. Ele ainda tinha sua voz meio trêmula, no entanto Josuke pensou que sua forma bêbada não era assim tão descuidada. “Mas não, não foi só isso. De qualquer forma, por que eu estou falando com você?”

 

É claro. As mesmas muralhas enormes que construíam barreiras em torno do coração azedo do mangaka. “Por que você não estaria?”

 

Kishibe esfregou as orelhas, lhe lançando um olhar sério e obscuro. O mais alto se arrependeu amargamente de ter feito a pergunta.

 

“Meu nariz nunca se recuperou completamente por sua causa. Eu ainda tenho dificuldades para respirar e sempre que eu abro a porta de casa, sinto as dobradiças rangerem de um modo irreparável depois que você a queimou.” Rohan cuspiu, deixando a entender que se Josuke quisesse, ele ainda teria uma lista extensa de motivos para não estar ao seu lado agora.

 

Céus, Rohan era assim tão preso ao passado? Josuke não podia falar muito, mas caramba, quando ele teria uma conversa casual com o mangaka sem que ele soltasse suas farpas nele? “... Eu não queimei sua casa.” Higashikata revirou os olhos, levando mais da vodka em sua boca enquanto via o outro suspirar em resposta. Ele ponderou um pouco, ainda refletindo quanto à imagem exausta de Rohan. “Você está aqui por causa de Kira, não é?”

 

O residente chefe presenciou o pomo de Adão do artista balançar como se ele tivesse acabado de ser descoberto. Ele o encarou com uma fisionomia surpresa, tragando um pouco na medida em que parecia pensar no que dizer. Suas mãos ágeis avançaram em direção ao seu próprio copo de repente, e Josuke foi mais rápido ao tirá-lo de seu alcance. “Não me ignore, Kishibe. Você não estará fugindo de mim hoje.”

 

O outro esboçou uma careta irritada. “Não entendo por que está tão interessado nisso. Você não pode apenas me deixar em paz?”

 

“Definitivamente não. Eu não sei se percebeu, mas estou aqui pelo mesmo motivo.”

 

“Quão auto-indulgente, Higashikata. Quer que eu faça trancinhas no seu cabelo enquanto desabafamos um com o outro acerca de nossas memórias terríveis?”

 

Isso quase arrancou uma risada de Josuke, se o mesmo não estivesse tão ocupado em convencer o homem mais velho a falar com ele.

 

“Apenas pare de brincar.” O Jojo relaxou seus ombros, controlando seu tom em um timbre mais elevado na tentativa de repreendê-lo. “Você só não parece nada saudável agora e eu estava preocupado com você.”

 

Houve um silêncio depois disso. Rohan sustentou sua visão vaga, desistindo de tentar pegar seu copo de volta das mãos do médico.

 

“Eu não estou conseguindo dormir. Nem mesmo trabalhar em meu mangá anda me distraindo ultimamente, de algum jeito.”

 

“... Eu também não consigo.” Josuke assumiu, suas pupilas dilatando em uma clara evidência de atração ao passo em que ele fazia movimentos rítmicos com a palma de suas mãos suadas. “Para variar, um paciente que se acidentou na cidade vizinha teve que vir para o nosso hospital porque não havia vagas para ele no lugar onde ele morava. Foi uma coincidência estúpida quando eu li seu prontuário e soube que ele tinha sido atropelado por uma ambulância.”

 

De fato, não foi uma coisa que acontecia todos os dias. Ele não tinha outra opção senão encarar isso como uma grande piada do destino.

 

“Então você se tornou mesmo um médico.” Kishibe comentou, sorrindo entredentes de um modo que hipnotizou o maior e o contagiou a segui-lo.

 

Josuke sentiu seu coração acelerar um pouco em seu peito. Por algum motivo, aquela noite não estava mais assim tão vazia. Se abrir com Rohan dessa forma fez bem a ele, mesmo que ele não pudesse dizer com todas as letras como se sentia ao outro homem.

 

O artista continuou, apoiando a cabeça entre as mãos: “Aconteceu algo estranho comigo também. Eu pude jurar que ouvi a voz de Reimi quando estava absorto em meu mangá mais cedo. Eu consegui escutá-la descrevendo perfeitamente como Kira a matou e ela me salvou dele.” Uma atmosfera soturna se infiltrou por todo o semblante de Rohan após essa pequena descrição. Ele assumiu uma postura cabisbaixa, comprimindo seus lábios em uma expressão de insegurança. “Eu queria ter conseguido salvá-la.”

 

Josuke nunca tinha visto Rohan tão vulnerável diante dele. Vê-lo assim, encolhido na cadeira de um bar e absorvido até o pescoço em sentimentos que ele entendia muito bem fez seu coração doer – se verdadeiramente possível. Aquele mesmo homem egocêntrico, seguro de si e que sempre esteve demonstrando como sua vida soava mais importante do que as demais ao seu redor estava desabafando com ele agora.

 

“Não se culpe por isso. Você fez o seu melhor, e continua fazendo até hoje. Reimi não poderia estar mais orgulhosa de você, e o importante é que nós conseguimos ajudá-la a partir para um lugar melhor.”

 

As íris esmeraldas do artista brilharam de forma abrupta, e a expressão de Rohan se suavizou espontaneamente.

 

“Ei, Josuke.”

 

“Sim?” O mesmo perguntou. Seu timbre ligeiramente inseguro enquanto ele se sentia nervoso em seu peito.

 

Os lábios do mangaka tremeram antes que ele pudesse continuar fitando os olhos azuis do mais novo. Sua face adotou uma expressão branda quando ele respirou fundo, apoiando suas mãos no rosto ao traçar rastros de um monólogo difícil diante do residente. “Eu não quis admitir naquela época por conta do meu orgulho, mas talvez, estando bêbado agora, eu possa dizer a você que te admirei muito por ter enfrentado Kira sozinho lá. Você era apenas um pirralho corajoso, e ainda sim pôde derrotar um assassino em série com uma força incrível.” Assim, ele deu um tapa gentil nos ombros de Josuke, sorrindo minimamente no final. “Apesar de tudo, você tem meu respeito por isso.”

 

A garganta de Higashikata ficou seca ao ouvi-lo, olhando para o mais baixo com uma expressão incrédula esculpida em seu rosto. Ele sentiu borboletas imaginárias brincarem em seu estômago e sua respiração ficar mais rápida como se ele fosse o mesmo adolescente com uma paixão incandescente de anos atrás. “... Obrigado, Rohan.”

 

“Não agradeça, eu ainda te odeio.” Rohan gesticulou, desviando seus olhos dele.

 

Ao que tudo indicava Josuke nunca poderia se livrar verdadeiramente de uma parte do que um dia representou sua vida. E, de alguma forma, o mangaka foi uma das partes que Josuke nunca iria querer esquecer. Ele deixou uma risada abafada escapar com seus próprios pensamentos, chamando a atenção do homem sentado ao seu lado. “Eu realmente não faço ideia do por que me apaixonei por você.”

 

Rohan o encarou, visivelmente inquieto e assustado quando Josuke o puxou para fora do estabelecimento rapidamente. Seu rosto estava tingido em uma coloração inconfundível de vermelho vivo, e Josuke não pôde evitar de sorrir ao notar. “O-O que você-”

 

“Venha, eu vou levá-lo até em casa antes que você desmaie no caminho.”

 

Afinal, você nunca bebe sozinho quando tem fantasmas do seu passado.

 

 

 


Notas Finais


Essa capa não combina realmente com o tema, mas eu não encontrei nada mais semelhante do que isso.

Espero que tenham gostado!


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